Hybrids

26 O cliente



Mingi dirigia com tranquilidade em direção ao endereço do cliente, como se aquilo fosse apenas mais um percurso comum. No rádio, suas músicas country norte-americanas tocavam baixinho, preenchendo o silêncio entre eles. Hoseok já não reclamava mais. Na verdade, tinha começado a se acostumar, e até a gostar. No fim das contas, tudo que envolvia Mingi acabava, de alguma forma, se tornando interessante para ele também.

— Com sorte, a gente resolve isso rápido — disse Mingi, mantendo os olhos na estrada — e depois podemos aproveitar a viagem… só nós dois.

Ele lançou um sorriso de canto, daqueles cheios de segundas intenções.

— Você é um safado, Senhor Mingi.

— E você gosta. Eu sei que gosta.

Hoseok riu, balançando a cabeça.

— Odeio como você me conhece tão bem. — Ele cruzou os braços, mas o sorriso não escondia a animação. — Eu tô ansioso pra ir naquela roda gigante famosa. Li sobre ela, mas ver de perto, com você, vai ser ainda melhor.

Mingi fingiu se abanar, dramático.

— Assim você me deixa sem graça. Você sabia que me deixa todo bobo? Já tô até imaginando… quero te beijar lá no alto. Meu deus, eu tô muito apaixonado.

— Meus pêsames! — Hoseok respondeu, rindo.

— Ah, é assim? — Mingi arqueou uma sobrancelha. — Faz eu me apaixonar e agora quer fugir?

— O golpe tá aí, caiu porque quis — Hoseok deu de ombros, segurando a risada.

Mingi o olhou de lado, estreitando os olhos por um instante antes de sorrir.

— Caí mesmo… mas caí feliz.

Continuaram dirigindo por mais alguns quilômetros até que a paisagem começou a mudar. Aos poucos, a agitação de Londres ficou para trás, dando lugar a uma pequena cidade, silenciosa e afastada, quase escondida do mundo.

— É aqui — disse Mingi, reduzindo a velocidade enquanto observava as casinhas ao redor.

Hoseok conferiu o endereço no GPS mais uma vez, atento.

— Sim… é isso mesmo. A casa fica no final da rua.

Mingi estacionou o carro com cuidado e, em seguida, pegou a arma no porta-luvas. O movimento fez Hoseok arregalar levemente os olhos.

— Calma, amor — Mingi disse de imediato, percebendo a reação. — É só por segurança. Nunca se sabe.

— Mas não vai ter tiro, né? — Hoseok perguntou, ainda apreensivo. — Ele nem sabe que a gente tá aqui…

— Não vai — garantiu Mingi, com um sorriso tranquilo. — É só precaução… coisa de agente da CIA.

— Exibido — Hoseok murmurou, dando um soquinho leve no braço dele. — Eu só não quero que você se machuque.

— Eu não vou. Fica tranquilo. Isso vai ser rápido.

Mingi se inclinou na direção dele e capturou seus lábios em um beijo calmo. Hoseok envolveu seu pescoço com um braço, enquanto a outra mão repousava na coxa dele, buscando proximidade. Aqueles beijos sempre tinham o mesmo efeito: acalmavam seu coração, como se tudo ao redor pudesse esperar mais um instante.

Mingi deu partida no carro novamente e, mantendo a velocidade baixa, seguiu pela rua até se aproximar da casa do suposto cliente. Parou a uma distância estratégica, suficiente para observar o local sem chamar atenção. Pegou os binóculos e começou a analisar cada detalhe. Havia algo errado. A movimentação era estranha, tensa demais para um lugar que deveria estar tranquilo. Seu cenho se franziu em alerta.

— Hobi, se abaixa — disse, com a voz calma, mas firme.

No instante seguinte, a porta da casa se abriu com violência. Um homem saiu já com a arma em mãos e, sem hesitar, começou a atirar na direção deles.

Mingi não pensou duas vezes. Empurrou Hoseok para baixo, protegendo-o, enquanto sacava a própria arma e revidava os disparos. O homem, ágil, conseguiu entrar no carro antes de ser atingido.

Antecipando o que viria, Mingi ligou o carro imediatamente.

Hoseok permanecia encolhido no chão, completamente assustado e desorientado com o som dos tiros. Seus ouvidos sensíveis amplificavam cada disparo, tornando tudo ainda mais caótico. Ele pressionou as mãos contra as orelhas e fechou os olhos com força, tentando bloquear o barulho. O medo o dominava, não só pelos tiros, mas pelo pavor de que Mingi pudesse se machucar.

A perseguição começou no instante em que o homem arrancou com o carro, cantando pneu pela rua estreita na tentativa desesperada de fugir. Mingi reagiu no mesmo segundo, acelerando atrás dele, mantendo uma distância curta, quase colado, sem permitir que o alvo escapasse.

Mas aquilo precisava acabar rápido.

Atirar e dirigir ao mesmo tempo não era tarefa simples, mas ele não tinha escolha. Com uma das mãos no volante, se inclinou levemente para fora e tentou mirar no pneu do carro à frente. Disparou… mas errou. A velocidade era alta demais.

Dentro do carro, Hoseok sentia como se estivessem voando. O coração batia descompassado no peito, o suor frio escorria pela pele e o som dos tiros ecoava como uma tortura em seus ouvidos sensíveis. Cada disparo parecia atravessá-lo por dentro.

Então veio o pior. Mingi percebeu tarde demais que o homem não estava sozinho.

Do banco de trás do carro à frente, uma segunda figura surgiu. Os vidros escuros tinham escondido sua presença até aquele momento. O homem ergueu a arma e, com um único disparo preciso, acertou o braço de Mingi.

— AH! — Mingi gritou, o corpo reagindo à dor, mas sua mão não soltou o volante.

Hoseok entrou em choque ao ver o sangue escorrer.

Mingi respirou fundo, tentando manter o controle. Não era a primeira vez que era atingido, mas a dor ainda queimava intensa, pulsando pelo braço. Mesmo assim, o que mais o preocupava era Hoseok.

— Hobi… — chamou com dificuldade, a voz tensa enquanto mantinha o carro em movimento com apenas um braço. — Preciso de você… fica comigo, amor… por favor…

Hoseok tremia, os olhos marejados, o mundo girando ao seu redor. Mas ele sabia que não podia travar ali. Se perdesse o controle, os dois estariam acabados.

— M-Min… — sua voz saiu quebrada — Seu braço…

— Eu tô bem… — Mingi respondeu rápido, mesmo que a dor dissesse o contrário. — Não foi grave… mas eu preciso de você agora.

Ele apertou o volante com mais força.

— Eu não consigo dirigir e atirar. Preciso que você assuma o volante.

— Mingi… eu não sei dirigir! — Hoseok respondeu, o desespero crescendo ainda mais.

— Você sabe, sim — Mingi insistiu, olhando rapidamente para ele. — Lembra do que eu te ensinei?

Hoseok engoliu em seco, completamente perdido.

— Mingi… a gente mais… transou no carro do que dirigiu quando você tava me ensinando.

Mesmo naquela situação caótica, Mingi soltou uma pequena risada, quase sem acreditar.

— Amor… você consegue. Confia em mim. A gente precisa parar esse cara.

Hoseok respirou fundo. Precisava fazer aquilo. Sabia dirigir um pouco, mas o nervosismo tinha apagado tudo da sua mente.

— Você consegue, minha raposinha. Eu acredito em você.

Aquelas palavras simples acenderam algo dentro dele.

— Eu sou Jung Hoseok… a raposa de nove caudas. Não tem nada que eu não consiga — murmurou para si mesmo, reunindo coragem.

— Isso aí! Minha Kyuubi fofinha!

Eles trocaram de lugar rapidamente. O carro derrapou por um instante, os pneus cantando no asfalto, mas Hoseok conseguiu manter o controle e seguir na pista. O outro veículo continuava em alta velocidade, tentando fugir a qualquer custo.

As mãos de Hoseok tremiam no volante. Mesmo assim, ele se esforçava para não perder o ritmo, mantendo o carro próximo o suficiente. Precisavam daquele homem vivo para obter respostas.

Mingi, apesar da dor pulsando no braço, focou no alvo. Bastava um tiro bem dado para encerrar aquilo. A direção instável de Hoseok dificultava, mas ainda assim era o suficiente para manter a perseguição.

Ele respirou fundo, mirou e disparou.

Se foi sorte ou habilidade, ele não saberia dizer. O tiro atravessou a janela traseira do carro à frente, estilhaçando o vidro e atingindo em cheio a cabeça do homem no banco de trás, o mesmo que o havia ferido momentos antes.

O motorista, suposto cliente, percebeu tarde demais. Olhou pelo retrovisor, viu o corpo caído e o desespero tomou conta. Quando voltou a atenção para a estrada, já era tarde. O carro invadiu a pista contrária. O impacto veio forte. Um caminhão atingiu o veículo em cheio, o som da colisão ecoou alto pela estrada.

Hoseok reagiu no instinto. Pisou na embreagem e no freio ao mesmo tempo, puxou o freio de mão e girou o volante com tudo. O carro deslizou em um giro preciso, os pneus riscando o asfalto, até parar completamente.

Mingi o encarava, impressionado. Nem ele teria feito aquilo melhor.

Hoseok ainda estava com as mãos grudadas no volante, o corpo rígido, pálido como um fantasma. A respiração vinha pesada e descompassada. Ele e Mingi se encararam por alguns segundos, tentando processar o que havia acabado de acontecer, e então olharam para trás. A alguns metros, o caminhão permanecia parado após o impacto.

— Você tá bem? — Mingi perguntou, voltando a atenção para ele.

— Eu é que devia te perguntar isso — Hoseok respondeu rapidamente, já saindo do choque. — A gente precisa ir pro hospital.

— Eu preciso ver se aquele homem sobreviveu — Mingi disse, fazendo uma careta de dor enquanto pressionava o ferimento para conter o sangue.

— Mingi, esquece isso… ele deve estar morto. A gente precisa sair daqui.

Mingi ignorou e abriu a porta do carro. Hoseok foi logo atrás, resmungando baixo, claramente preocupado com o estado dele.

O motorista do caminhão estava em pânico. Não parecia ferido, mas andava de um lado para o outro, tentando ligar para uma ambulância, sem saber exatamente o que fazer.

Enquanto Hoseok tentava acalmá-lo, Mingi se aproximou do carro destruído. O corpo do homem estava preso entre as ferragens, completamente destroçado. Ele suspirou, irritado. Precisava daquele homem vivo.

— Ele… morreu? — Hoseok perguntou ao se aproximar, encarando a cena com dificuldade.

— Sim — respondeu Mingi, sério. — Mas, Hobi… tem algo errado.

— O que?

Mingi voltou o olhar para ele com a expressão soturna.

— Esse cara sabia que a gente vinha. Alguém avisou. — Ele respirou fundo. — Parece que temos um espião entre nós.