Hybrids

27 Espião?



— Um espião? — Taehyung perguntou, chocado. — Você realmente acha isso, Mingi?

— Tae, eu não tenho certeza… mas para pra pensar. Toda vez que chegamos perto de alguma pista importante, ela escapa das nossas mãos. Sempre acontece alguma coisa.

Taehyung cruzou os braços, absorvendo aquelas palavras em silêncio.

Mingi e Hoseok tinham acabado de voltar da viagem. Assim que chegaram, Mingi praticamente deixou Hoseok no banho e veio procurar Taehyung imediatamente. Nem queria entrar em detalhes sobre o braço enfaixado naquele momento. Precisava organizar as ideias antes que aquela sensação piorasse.

— Agora que você falou… realmente é estranho — Taehyung admitiu, pensativo. — Mas quem você acha que pode ser?

— Esse é justamente o problema. Tem gente demais envolvida nisso agora. E, sinceramente? As coisas começaram a desandar depois que trouxemos a polícia pro caso.

Taehyung franziu o cenho.

— Você acha que o delegado pode ser o espião? Não faz sentido. Eu conheço ele há anos. É um homem íntegro, tem família…

Mingi soltou um suspiro cansado.

— Tae, eu já investiguei e prendi um padre que todo mundo dizia ser santo. O cara abusava de adolescentes e crianças. Então não existe isso de “bonzinho” pra mim. Você sabe melhor do que ninguém que aparência não prova caráter.

Taehyung abaixou o olhar por um instante antes de assentir devagar.

— É… você tem razão. — Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Mas, sendo sincero, eu desconfio muito do Dak.

— Dak-ho? — Mingi arqueou a sobrancelha.

— Você viu como ele age nas reuniões? Ele discorda de tudo, questiona tudo, sempre parece contra qualquer plano que fazemos. Às vezes dá a impressão de que ele quer sabotar tudo de propósito.

Mingi ficou pensativo por um momento antes de responder.

— Então vamos colocá-lo na lista de suspeitos. E os outros dois policiais também. A gente não conhece nenhum deles direito. Mesmo sendo homens de confiança do delegado, ainda assim precisamos desconfiar.

— Exato. E tem mais uma pessoa de quem eu odeio suspeitar, mas…

— Quem? — Mingi estreitou os olhos. — Você tá pensando no mesmo que eu?

Os dois falaram ao mesmo tempo:

Jungkook?

Eles se encararam, surpresos por terem chegado à mesma conclusão.

— Sendo sincero, ele tem tudo pra ser o espião — Mingi disse, apoiando os braços na mesa. — Pensa comigo: Jungkook apareceu do nada. Ninguém sabe como ele foi parar naquele lugar. E, geograficamente falando, o local onde ele estava preso fica muito longe da clínica onde trabalhava. Isso nunca fez sentido. Ele perdeu a consciência depois de entrar em um corredor restrito e simplesmente acordou perto dos híbridos? É estranho demais.

Taehyung ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.

— Talvez exista uma sede subterrânea em Seul, embaixo da clínica. Imagino que tenham levado ele dali até o local onde os híbridos estavam escondidos.

— Mas esse é justamente o ponto — Mingi interrompeu. — Por quê? Por que se dariam a esse trabalho? Se Jungkook descobriu alguma coisa, por que não apagaram ele ali mesmo? Por que não prenderam ele em qualquer outro lugar? E principalmente… por que deixá-lo tão perto do esconderijo dos meninos?

O olhar de Mingi ficou mais sério.

— Parece quase proposital. Como se quisessem que eles encontrassem o Jungkook.

Taehyung lentamente começou a ligar as peças, e aquilo o incomodou.

— Agora que você falou, realmente faz sentido. Jungkook disse que não chegou a descobrir nada. Só entrou no corredor errado, em uma área restrita. Quando tentou sair, alguém o acertou e ele apagou. Depois acordou nos esgotos, com o Jimin.

O silêncio caiu pesado entre os dois, cada vez mais aquela história parecia menos um acidente e mais uma armadilha cuidadosamente planejada.

Mingi foi até a gaveta da mesa e puxou um mapa dobrado. O abriu sobre a superfície com cuidado e passou a mão sobre ele até encontrar os pontos que queria mostrar.

— Olha isso aqui.

Com o dedo, traçou uma linha desde a clínica onde Jungkook trabalhava até a localização dos laboratórios dos híbridos, próximos à divisa entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte.

— É isso que não sai da minha cabeça — disse, sério. — Jungkook foi levado por todo esse caminho… mas pra quê? Se quisessem apenas mantê-lo preso, poderiam ter feito isso em qualquer lugar de Seul.

Taehyung observava o mapa em silêncio, claramente perturbado com aquela possibilidade.

— Isso não pode ser verdade… — murmurou, passando a mão pelo rosto. — Mingi, eu vejo o jeito que ele olha pro Jimin. Eles vão ter um bebê, ele vai ser pai. Não parece possível fingir um amor daquele jeito.

Mingi suspirou pesadamente antes de responder.

— Tae, as pessoas conseguem fingir qualquer sentimento quando querem alguma coisa. Elas mentem tão bem que você acredita sem perceber. E o pior é que algumas nem sentem culpa. Certo e errado simplesmente não importam pra elas.

Ele desviou o olhar por um instante.

— Eu sei que isso assusta. Porque, se for verdade, vai destruir o Jimin. Mas a gente não pode ignorar essa possibilidade só porque dói.

Taehyung fechou os olhos por alguns segundos, absorvendo tudo aquilo.

— Então o que fazemos?

— Por enquanto, nada muda — respondeu Mingi. — Isso fica entre nós. Não conta pros meninos, principalmente pro Jimin. Não queremos criar pânico dentro de casa. Vamos agir normalmente e observar.

Ele apoiou as mãos na mesa.

— Principalmente Jungkook e Dak. Pra mim, os dois são os suspeitos mais fortes agora.

Taehyung soltou um suspiro cansado.

— Eu espero muito que estejamos errados sobre o Jungkook.

Mingi assentiu lentamente.

— Eu também espero, meu amigo.

— Eu queria tanto sair pra comprar as coisas do nosso bebê… — Jimin murmurou, olhando pela janela enquanto acariciava a barriga já bem redondinha.

Ele estava no quinto mês de gestação e, segundo os cálculos de Hoseok, o bebê nasceria com cerca de seis meses. O pequeno híbrido já estava completamente formado dentro dele.

— Amor… — Jungkook se aproximou e o abraçou por trás, deslizando as mãos com carinho sobre sua barriga. — Você sabe que a gente não pode sair agora. Nem você, nem eu.

— Eu sei, Kookie — Jimin suspirou, entristecido. — Mas eu vejo nos doramas os casais passeando juntos, indo ao shopping, no cinema, jantando fora, andando em parques… eu queria fazer tudo isso com você. E queria que, quando nosso bebê nascesse, nós pudéssemos viver essas coisas como uma família normal.

A voz dele falhou levemente no final.

Mesmo depois de escapar dos laboratórios, Jimin ainda se sentia preso. A diferença era que agora as grades eram invisíveis, feitas de medo. O medo dos humanos. O medo de nunca poder existir livremente.

— Nós vamos fazer tudo isso, eu prometo — Jungkook respondeu baixinho, apertando-o contra o peito. — O Hobi conseguiu viajar e voltou bem. Talvez a gente também consiga. Eu posso usar máscara e óculos escuros pra ninguém me reconhecer, e você usa uma boina pra esconder as orelhinhas.

Jimin abaixou o olhar para a mão de Jungkook sobre sua barriga e a acariciou devagar.

— Eu não quero mais me esconder, Kookie. — Sua voz saiu baixa, mas firme. — Quero que nosso filho nasça em um mundo onde ele possa ser ele mesmo, sem precisar viver escondido.

Jungkook fechou os olhos por um instante, sentindo o peso daquelas palavras.

— Então nós vamos construir esse mundo juntos.

Jimin se virou para ele e o abraçou forte.

— Eu espero que sim, Kookie…

Jungkook o envolveu nos braços, acariciando suas costas lentamente antes de levar a mão até seus cabelos macios.

— Nós somos uma família agora, Jimin. E eu nunca vou abandonar vocês. Vou estar sempre do seu lado e do lado do nosso filho. Eu amo você mais do que tudo. Enquanto tivermos um ao outro, vamos ficar bem.

— Eu também te amo — Jimin respondeu com os olhos marejados. — Malditos hormônios.

Jungkook riu baixinho e enxugou a lágrima que escorria pela bochecha gordinha dele.

Taehyung virava de um lado para o outro na cama, incapaz de dormir. Sua mente estava pesada demais para descansar. Estava preocupado com Jimin. Muito preocupado.

Se Jungkook realmente fosse o espião, aquilo destruiria Jimin por completo. Ele estava grávido, apaixonado, construindo sonhos ao lado dele. Taehyung já conhecia o jeito intenso com que Jimin amava. Sabia que, para ele, Jungkook já era lar, família e futuro. Uma traição daquelas não quebraria apenas seu coração, quebraria tudo.

Mas também havia Suk. Taehyung suspirou, passando a mão pelo rosto cansado. Suk sofreria da mesma forma se Dak fosse o espião. Mesmo sendo grosseiro, frio e um verdadeiro filho da puta às vezes, Suk o amava profundamente. Já tinha ficado destruído apenas com aquelas palavras cruéis que Dak lhe disse no passado. Se descobrisse que, além de tudo, ele estava envolvido naquela organização… Taehyung nem queria imaginar.

O que mais o afligia era justamente isso, Jimin e Suk eram pessoas boas demais. Dóceis demais. E, muitas vezes, pessoas assim eram as que mais sofriam.

Hoseok e Yoongi eram diferentes.

Hoseok, mesmo amando Mingi, provavelmente conseguiria se afastar caso fosse traído daquele jeito. Iria sofrer, claro, mas deixaria que as autoridades resolvessem o problema.

Já Yoongi…

Taehyung fez uma careta ao imaginar.

Yoongi não entregaria ninguém para a polícia. Ele mesmo resolveria o problema, provavelmente esquartejando o infeliz em mil pedaços enquanto mantinha aquela expressão emburrada de sempre. Apesar do pensamento absurdo, Taehyung quase riu pelo nariz.

Yoongi e Hoseok pareciam ser mais fortes, mas talvez Jimin e Suk não. Eles amavam de forma gentil, inteira e vulnerável. Talvez fossem mais fortes do que aparentavam ou talvez não. De qualquer forma, Taehyung já havia tomado sua decisão. Ele observaria Jungkook e Dak-ho de perto.

Notas finais
Ah não, JK! Eu vou ai te bater se for vc! (╯°□°)╯︵ ┻━┻