Notas iniciais
Quero começar a agradecer pelo carinho de todos os leitores que comentaram no capítulo passado, mas, dedicar de coração esse capítulo para a Pendragon que fez uma capa lindona para a fic, sério gente, deem uma olhada, e mandem seus elogios para essa Diva. Também quero agradecer a Aaliyah pela linda recomendação á fic, que foi a primeira recomendação que a fic recebeu, valeu meu bem XD Recebi um comentário muito lindo, e muito construtivo da SweetBee que me fez ver como a fic estava muito rápida, e sem muitos "sentimentos". Obrigada também darling! Eu me esforcei nesse capítulo, e espero que vocês gostem ♥

A sala era ampla, com tetos altos, e piso de madeira com grandes tapetes antigos espalhados pelo chão em versões clássicas, poucas estantes de livros espalhavam pelas paredes, dentro livros grandes de capa duras como decoração, dentro das prateleiras com portas de vidros vintage.

Parei no meio da sala, seus móveis eram antigos, e sentir meu nariz pinicar pelo cheiro agridoce de tinta e carvão. Apertei minhas mãos em cima da barriga, feliz por usar aquelas luvas, assim eu não as sentia suada.

Porque estava tão nervosa? Era como eletricidade pipocando abaixo da minha pele. Pensei olhando ao redor, o vendo se aproximar com uma bebida marrom que cintilava nos copos de cristal, uma para ele, e outra para mim. Apertei os lábios com força antes de dizer.

— Eu não bebo nada mais que uma taça de champanhe. — Avisei não encarando seus olhos, mas a brancura de seu colete que possuía botões dourados.

Ele estava bem polido.Como uma fotografia antiga. Era a primeira vez que realmente o via. Como se estivesse me esquecido como ele era. Partes do seu rosto lisas e angulosos trabalhavam em conjunto, fazendo com que ele não fosse normal... Apenas bonito de se olhar.

— Oh, desculpe-me. — Ele fez um aceno com a bebida, tomando um gole, e deixando a que seria minha em cima da mesa. Suas sobrancelhas inclinadas um tantinho para cima dava a impressão de diversão, e casualidade. — Gosta de arte?

Fiz um aceno positivo, e ele se virou, abrindo os braços, e se aproximando de um quadro bem colocado no meio do atelier, notei tardiamente.

Era um quadro enorme de uma paisagem com cores suaves, as auras das mini pessoas ao longe sombreada amorosamente em cores apagadas como uma verdadeira fotografia antiga.

— Alpes suíços? — Perguntei vendo as minúcias dos montes.

— Sim... — Disse com um sorriso aprovando meu entendimento, seu rosto poderia estar em uma moeda da Roma Antiga pelos detalhes imortalizados na pele perfeita. — É uma das minhas paixões.

Olhei ao redor, deixando meus pensamentos para trás, me aproximando de uma das mesas, tocando com os dedos os papeis vegetais, vendo esboços de desenhos feitos a lápis, paisagens de lugares longínquos, mulheres um pouco pomposas mas com uma arte que as valorizava, já que elas eram claramente de outra época.

Havia um toque em cada desenho de pura graça e sutileza de um visionário.

— Espere... Você fez tudo isso? — Perguntei surpresa franzindo meu cenho levemente quando me voltei para encará-lo.

— Sim... — Klaus confirmou encarando a tela a frente, como se não quisesse se gabar, mas claramente sua voz altiva o fazia por si só. — Uma das minhas paisagens, está exposta no museu Hermitage.

Me balancei no lugar, virando apenas meu rosto para o ver melhor. Seu sorriso era um V enorme e canino, por causa de seus dentes que apareciam, mas de um jeito quase adorável por causa de uma covinha que surgia na bochecha esquerda.

— Uau... — Assentir algumas vezes olhando mais um pouco aqueles desenhos, os papeis possuíam um frio característico de lugar pouco habitado, sentia que eu estava vendo o que poucos poderiam ver, ou mesmo ninguém. Aquilo era muita intimidade, mesmo querendo impressionar uma garota, aquilo era pessoal. — Estou impressionada.

Claramente falava sobre os desenhos. Mas, ele sorriu orgulhoso, e nos viramos minimamente para nos encaramos, ele sempre me dava um espaço pessoal, o que eu muito agradecia internamente. Sustentei seu olhar por um tempo que pareceu bem demorado, com um sorriso singelo nos lábios, que parecia refletir como um espelho o próprio sorriso dele.

— Você reconheceu os Alpes, já esteve lá? — Perguntou genuinamente curioso, suas mãos voltaram a ficar atrás de suas costas, e sua postura sempre era ereta e sofisticada.

Balancei negativamente a cabeça.

— Tenho uma boa memória... — Olhei para o chão, e dei de ombros para aquele fato, como se não fosse nada demais. — Nunca sair do país. — Dei um risinho sem graça, me sentindo meio inadequada.

Ele deveria ter visto o mundo todo, e eu mal New Hampshire. Enquanto ele tinha classe, poder e dinheiro claramente, eu era uma humana que no máximo tinha avós ricos. Aquele pensamento ridículo me feriu um pouquinho, mesmo que eu não o entendesse muito que sentimento ele transmitia. Me sentir um pouco melancólica.

— Eu a levo. — Prometeu me surpreendendo, me fazendo levantar os olhos para ver sua seriedade na proposta, levantei as sobrancelhas sem sorrir, porque achei realmente aquela ideia surreal. — Aonde quiser! — Exclamou como um aventureiro, prestes a sair pela porta e nunca mais voltar, dando a volta ao mundo talvez, achei engraçado e acabei sorrindo sem mostrar os dentes, ele não acreditando que eu não acreditava nele, continuou com sua proposta. — Roma, Paris, Tóquio?

Deus! Eu esqueci por cinco segundos como voltar a respirar.

Acabamos rindo juntos, o que aliviou minha tensão.

— Que audacioso você é senhor Mikaelson. — O acusei fingindo seriedade, mesmo que não sentisse. Ou seria pretensioso?!

Ele assentiu com a cabeça sorrindo, seus dentes brilhando não mostrando o quanto poderoso ele era naquele momento de suavidade em sua postura. Mas talvez, generoso, o que era estranho segundo o que todos me contavam dele.

Ficamos ali nos encarando, saboreando o silêncio, saboreando aquela estranha afinidade que tínhamos, ou eu sentia que tínhamos. Ouvimos então palmas, e eu olhei por sobre o ombro para a porta entreaberta do atelier.

— Acho que a festa vai começar, minha mãe sempre se atrasando. — Klaus disse bufando, perdendo um pouco sua mansidão, infelizmente, ele não perdia o charme quando ofereceu-me novamente seu braço.

O aceitei, enrolando meu braço no seu, para me deixar ser guiada até novamente o corredor.

Ao chegamos na entrada abaixo da escada, Klaus me pediu licença e subiu os degraus, se juntando a sua família. Dois irmãos que eu nunca tinha visto, e a mãe Original. Elijah começou um discurso, e sentir Damon ao meu lado antes mesmo de vê-lo.

— Sério? Klaus?

O encarei seriamente não entendendo suas palavras.

— Elena está sozinha, deveria a perseguir mais um pouco. — Disse como um escudo.

Damon estava tão perto de mim, bem ao meu ombro que tive que me esforçar para ouvi-lo. Eu sei que todos os meus amigos achavam de Klaus era digno de filmes de terror da HBO, mas sério, o que eu deveria fazer quando recebi aquele convite? Aquele vestido vermelho e preto?

Ao fundo eu ouvia a mãe Original falando alguma coisa, mas não pude captar.

— Se pelo menos vai fazer isso, que seja para o nosso benefício, lembre-se disso ruiva.

— Hun? — Me virei o encarando não entendendo, Damon tocou em sua testa, como se tivesse fazendo continência, e depois se foi, deixando seu perfume caro e característico para trás.

Nosso beneficio? Levantei a barra do meu vestido, e respirei fundo me preparando para o seguir e perguntar o que ele queria. Infelizmente, não deu tempo, porque eu sentir Klaus do meu lado, com uma velocidade impressionante. Girei meu pescoço, deixando o queixo encostar no meu ombro, sentindo o cheiro de floresta de Klaus, e depois levantei lentamente meu pescoço deixando o ar em meus pulmões saírem.

— Vamos para o salão? — O híbrido se afastou um pouquinho, me oferecendo agora sua mão.

— Não sou boa em danças lentas. — Avisei sentindo um arrepio de medo tocar meus joelhos.

— Que bom que eu sou. — Rebateu meio prepotente, mas muito confiante.

Levantei a sobrancelha deixando minha mão em cima da sua, me sentindo uma garota americana sendo levada para um baile, claro que eu estava sendo, bem, o problema é que a veracidade da situação era escandalosamente verdadeira.

O teto do salão era coberto de lustres de cristais enormes, com peças caindo em cascatas de luzes. O chão era branco com detalhes dourados, e a banda com um violino, jazz, e um pianista que dedilhava com elegância.

Eu vir Damon e Elena, Matt e Rebekah, Stefan e a prefeita Lockwood que deveria o ter levado para aquilo. Elijah e uma jovem mulher que eu sabia ser da cidade, os outros irmãos Originais também estavam com garotas da cidade, bem vestidas, e bem entediados. Apenas Klaus e Rebekah parecia minimamente entretidos, bem, eu não queria ter pensamentos que faria nenhum sentimento criar raízes, por isso quando meu par me virou para o lado, e deixou nossos braços entrelaçados eu tive que fazer um esforço enorme para me lembrar dos passos de dança, deixando felizmente qualquer pensamento futuramente problemático se esvair.

Um acorde de violino, outro de piano, e uma voz começou a cantar. Um... dois... três... Um... dois... três....

Klaus era bom em guiar, quando nos juntamos no meio do salão com todos os casais que dançavam, sua mão deslizou até as minhas costas. Tão confiante como todo o ele.

Nos rodamos, e rodamos, e uma hora da música, eu voltei-me para seus braços, e ele me ergueu no alto pelo cintura, como todos as outras mulheres eram levantadas. Sentir uma vontade estranha de rir.

Quando desci novamente para o chão, ele me olhou maneando a cabeça para o lado, com um ar felino nos lábios repuxados. Me rodando de novo, eu troquei de parceiro, e novamente, e novamente, até que um rosto conhecido me fez suspirar de alívio.

— O que está fazendo aqui com Klaus?

— Ele me convidou. — Garantir dando um passo para trás, feliz de ter usado saltos confortáveis aquela noite. — E porque você está aqui com Rebekah? — Me esforcei muito pra soar neutra, encarando os rosto de bebê de Matt que sempre me deixava calma.

— Ela me convidou, então, eu não pude dizer não. — Garantiu ele com um sorriso sem jeito. — Acho que estamos no mesmo barco.

Não quis dizer que sim, então mudei de assunto.

— Você está bem bonito com esse smoking. Nunca achei que o veria com uma roupa tão tradicional. — Acabei dizendo fingindo levemente surpresa.

Matt riu como um garoto em plena boa saúde.

— Falou a garota do vestido vermelho... — Matt me afastou, e depois me rodou para longe, quando eu voltei era a hora novamente daquele giro de levantar que fazia coisas engraçadas no meu estômago. — Sabe quantas cabeças se viraram quando a viram chegar? — Balancei a cabeça negativamente rindo da forma como ele meio me elogiava. — Rebekah está furiosa por você... — Ele sussurrou no meu ouvido, como um segredo. — Por ter afastado o holofote dela.

— Aí Deus! — Rir um pouquinho alto, achando muito engraçado a piada, porque claramente tinha que ser uma. — Para de ser bobo.

Bati levemente no ombro do garoto, e depois nos afastamos, quanto tempo será que demorava aquela dança? Pensei quando estava nos braços de outro par. Esse também é família.

— Olá Anastácia.

Sorrir sem mostrar os dentes para Elijah, que me cumprimentou educadamente, mas de maneira fixa como se quisesse que eu não deixasse aquela simples saudação se esvair.

— Você é uma das poucas pessoas que me chamam pelo nome de batismo... — Mordi os lábios antes de continuar. — Parece até que vai me dar bronca, como um diretor.

Elijah acabou rindo, um riso suave que o fazia ficar mais sem aquela expressão blasé. Depois ele segurou em meus dedos, me afastando para me rodar. Acabei voltando um pouquinho mais forte, e sentir seu peito se moldar no meu corpo de uma forma firme que me deixou desconcertada, como se dividíssemos o mesmo espaço.

— Você não parece ser do tipo que vai a sala do diretor, principalmente para levar bronca. — Disse sutilmente, pendendo a cabeça para a lateral, como se me analisasse.

— Não apostaria seu dinheiro nisso... — Subir um pouco minha mão no seu ombro, esperando que a música terminasse logo, parecia os últimos acordes. — Uma vez libertei todos os sapos da sala de biologia, a escola ficou interditada por dias, meu diretor teve uma síncope. — Contei seriamente, mas de uma forma um pouco fofa por ser verdade, Elijah engasgou uma gargalhada, aquela risada, tipo que damos sem barulho, apenas fazendo nosso peito tremer.

Um último solo, uma última rodada, e a música acabou, me afastei de Elijah, e ele de mim, não sabendo a lógica para começar a dançar com Klaus, e terminar com ele, mas parecia que todos os pares acabavam daquele jeito. Batemos palmas, e eu fiz tardiamente uma reverência, daquelas de colocar um joelho atrás do outro, e se inclinar de cabeça baixa, Elijah por outro ângulo, apenas colocou uma mão nas costas, e também fez uma reverência.

Mais palmas, e me aproximei dele institivamente, procurando Klaus por todo o lado.

— Posso lhe oferecer uma bebida? — Perguntou Elijah, me fazendo virar em sua direção, para ter certeza que ele me perguntava algo, geralmente não nos falávamos quando ele aparecia, no máximo só havíamos ficado um vez sozinhos, quando lhe mostrei a fazenda Fell com autorização da senhora Fell que tinha me empregado aquele ano como ajudante para sua mudança. Elijah era intelectual, e por isso sempre tivemos assunto, mesmo que em poucos minutos. — Sem álcool é claro, seu tio não aprovaria. — Ele emendou quando eu não respondi.

— Ah, claro, porque não?! — Rebati, levantando novamente aquele vestido pesado para o seguir lado a lado, diferente de Klaus ele não me ofereceu cavalheirescamente seu braço, o que agradeci, porque eu não queria passar a mensagem errada. Mas, com Klaus você quer? Deus que pensamento bruto são esses? — Sua casa é realmente muito bonito. — Comentei balançando um pouquinho minha cabeça para parar de pensar.

— Sim, Niklaus se orgulhou desse fato. — Elijah falou tediosamente, como se fosse um fato que ele não se importava de dividir. Paramos em uma mesa alta, e ele fez um sinal para um garçom se aproximar com uma bandeja com bebidas, felizmente ali tinha um suco de maracujá com licor, como se fosse uma bebida misteriosa sem álcool. Elijah deslizou a bebida colorida pra mim, ficando com uma taça de vinho pra sir, vir o gelo crepitar na minha como se fosse um experimento cientifico. — Ele te mostrou o segundo andar?

— Não, porque deveria?! — Rebati sem pensar, tomando um golinho do meu coquetel de frutas, era doce como se tivesse creme de leite também, gostei. Estalei meus lábios saboreando o gosto, e depois levantei a cabeça captando o olhar analítico de Elijah. — Oh... — Abrir minha boca em um “OH” perfeito. — Porque eu acho que você não fez uma pergunta só por fazer?

Sentir minhas bochechas corarem, entendendo o duplo sentindo na pergunta do vampiro. Aquilo era malicioso, e definitivamente errado.

— Deveria tomar cuidado... — Seu corpo elegante se encurvou mais para frente, sua perna tocando na barra do meu vestido, e seus olhos fazendo a paisagem sumir, porque só havia eles flamejando um aviso, e depois uma pergunta muda. — Ou é muito inocente, senhorita Saltzman, ou muito astuta para não entender o que meu irmão viu em você, ou quer.

Minha mão em cima do vidro da mesa alta se fecharam lentamente, como se meu cérebro ordenasse o movimento, e não eu mesma. Elijah não perdeu o movimento com o canto dos olhos.

— Acha que eu estou fazendo algo errado? Sim, é o que acha. — Eu mal reconhecia minha voz, porque era férrea e distante, como se eu me visse pelo lado de fora. — Como meu diretor do colégio, que não entendeu que eu apenas queria que os sapos não acabassem abertos só por causa do nosso maldito aprendizado sobre anatomia. As vezes as pessoas só veem sombras assassinas na vida, para desvendar algo inocente. Então, acho que acertou um pouco sobre mim.

Elijah ficou mais ereto, como se fosse minha vez de lhe dar uma palmada na face. Ele abriu a boca, mas eu já estava me afastando da sua mesa, lhe dando um aceno sútil de adeus, não pude esconder a mágoa de suas palavras, nos meus olhos que insistiam em arder em lágrimas pela raiva contida.

Inocente? Esperta? Sério que ele me via daquele jeito. Ou eu os via também diferente.

Serpentei pelas pessoas em suas roupas elegantes, achando uma saída para o lado de fora, achei uma varanda de portas duplas, e felizmente além dela, o jardim. Meus ombros nus naquele corpete tomara que caia, fez minha pele se arrepiar. Algo no gemido baixo do vento do anoitecer tinha um quê de faminto e estranho.

Me abracei me aproximando de uma carruagem com um cavalo branco de aspecto saudável, com uma crina loira que fez meus dedos coçarem para tranca-los.

Levantei lentamente uma mão, tocando seus cabelos puros, e comecei a acariciar o animal.

Todos ali eram tão maliciosos, tão propensos ao mal, as sombras de humor, ou mesmo a extintos assassinos que eu achava que não me encaixava em suas falas de duplo sentidos.

Não mesmo? Aquela vozinha no meu cérebro quebrou um pouco a névoa do meu baú vermelho. Era como os poetas diziam, as vezes, a gente tem que esconder de nós mesmos, nossos segredos sujos.

Me aproximei mais um pouquinho do cavalo, ao ponto de colocar meu nariz perto de seu pescoço, enquanto minha mão subia e descia fazendo cafuné no cavalo que relinchava feliz.

Pare Anya! Você vai mata-lo!

A voz da minha amiga de outra época, de outra vida soou nas minhas memórias como pregos enferrujados machucando as bordas do meu espirito, como pequenos beliscões.

Abra a porta Anya, por favor meu bem, abra a porta.

Tio Rick uma vez havia pedido, com a voz sufocada de preocupação enquanto eu caia na inconsciência dos analgésicos.

— Gosta de cavalos?

Me afastei lentamente do cavalo, tomando um susto pela voz dele bem atrás de mim, como se eu tivesse sonhado por um tempo, e de repente uma bomba foi explodida. Minha garganta estava terrivelmente dolorida, como se estivesse tampada, engoli em seco, e dei um sorriso sufocado por um segundo, então, não conseguir mais, me afastei do animal acoplado a carruagem, balancei a cabeça negativamente, e o encarei seriamente.

— Porque me convidou para esse baile? Porque me quis aqui? — Afastei um braço do corpo, e fiz um gesto abrangente para o local.

Klaus sorriu minimamente, e ali sim captei um pouco de malicia. E, uma pontada de incredulidade como se eu fosse estúpida. Uma fagulha dentro de mim fez meu corpo se aquecer.

— Porque eu gosto de você. — Ele disse confiante, e sincero, como se falasse com uma criança que não sabia o que estava acontecendo. Mas eu entendia, olhei para o cavalo a nossa frente, e depois me voltei para ele confusa.

— Porque? — Sussurrei lentamente. Ótimo, eu soava como uma criança, mas eu precisava saber, porque era como olhar por trás de uma porta no escuro, tentando se localizar, só para saber aonde está.

— É tão difícil de acreditar? — Ele rebateu achando graça, se aproximando lentamente como um sopro no ar.

Cruzei os braços, ficando minimamente irritada. Porque a voz dele tinha que soar tão condescendente?

— Bem, eu sou apenas uma humana, sou...

— Você é linda, forte, inteligente, iluminada como uma vaga-lume... — Klaus se aproximou mais, até ficar a meio passo de mim, seu charme era uma bolha de gelatina que tentava me envolver. — Inocente.

Dei um passo para trás, e respirei fundo, meus dentes travaram com tanta força que minha mandíbula doeu. Não, não, não pense nisso, agora não! Me ordenei forçando a minha garganta, soltando um pigarro constrangedor.

— Eu gosto de cavalos. — Contei mudando de assunto.— Minha mãe era uma amazona quando tinha a minha idade, meus avós maternos, pais de Rick, achavam que eu tinha que participar daqueles concursos de equitação como ela... — Balancei a cabeça em um não claro. — Viver em escolas particulares como ela, ser como ela. — Dei um sorriso sem animo para ele, seus olhos estavam mais escuros. — E você?

Klaus mordeu sua bochecha internamente, e se aproximou um pouco do animal, como se temesse o tocar, o bicho ficou tenso, e ele desistiu de tocá-lo.

— Cavalos são o oposto de pessoas. — Contou como um sábio outrora. — São leais. — Ele deu um sorriso angustiado e sombrio que me fez notar mais as minúcias de seu rosto, ele não olhava enquanto me explicava. — Meu pai me caçou por mil anos, e o mais próximo que chegou, depois desse tempo, foi quando matou meu cavalo preferido. — Sua voz era um suspiro antigo de uma dor aprofundada em raízes. — Ele cortou a cabeça do animal com uma espada.... — Ele fez um gesto com a mão, como se estivesse abaixando uma espada imaginaria, um arrepio me tocou me fazendo ficar gelada. — Como um aviso.

Ele o machucou. Eu quase podia sentir gosto de sangue na minha saliva pela lembrança, arrebatada por aquela informação entrelinhas que o híbrido passará. Ele a machucou.

— Acho melhor eu ir embora... — Levantei a saia do vestido, e dei dois longos passos para trás, ainda o encarando, o deixando confuso. — Não deveria gostar de mim Klaus. — Avisei tão séria quanto Elijah havia me avisado. — Ambos sabemos que isso não vai acabar bem.

Ele franziu as sobrancelhas, e antes que pudesse dizer, ou mesmo levantar uma mão para me parar, eu me virei e comecei a correr pelo jardim, como uma Cinderela dos tempos modernos.

XxxX

A água quente machucava minha pele, e a porcelana do chão, junto com o box fechado de vidro, me deixava segura de um jeito bizarro. No meio da água pura e suave, as lágrimas eram quentes e oleosas. Elas limpava meu rosto, e um tantinho de um remorso que me alfinetava como veneno direto nas veias. Sentada ali, juntei meus braços para poder abraça-los, e chorei de soluçar. Meu corpo tremido naquela nudez raivosa que borbulhava lá no fundo da minha alma me fez dar um soco na parede, e aproveitar a dor física melhor do que a das lembranças que pulavam para fora da minha memória, para fora do meu baú vermelho.

— Anya pare, ele apenas está bêbado!

Rue gritava apavorada enquanto eu socava, e socava o sujeito que passou a mão nela enquanto tentávamos pegar o metro na estação vazia. O sangue do sujeito se esparramava por seu septo nasal quebrado, e ele gemia de dor, sufocado em seu próprio pânico. Aminha raiva me fazia ver faíscas vermelhas ao redor dos cantos do meu campo de visão, meu corpo vibrava em uma sintonia aguda de adrenalina.

Descobrir depois que o sujeito, Lucas alguma coisa, havia ficado em coma por seis meses, eu bati sua cabeça no chão até lhe furar o crânio, e uma hemorragia acontecer. Aquilo era só a metade de mim mesma, porque eu não ousava me lembrar da época em que morava com meus pais.

Não até Klaus comentar sobre seu próprio pai.

Por isso tínhamos uma estranha afinidade? Porque havíamos visto certo terror quando crianças?

Esfreguei meu rosto com sabonete, e meus olhos arderam de maneira crítica. Foi o suficiente para eu empurrar com forças minhas lembras.

Sair do banheiro depois feliz de Alaric não está ali, me vendo com o rosto vermelho e inchado, enrolada em um roupão, com os cabelos enrolados em uma toalha parecendo uma pessoa doente. Infelizmente eu me sentia. Já estava mais de três horas no banheiro, me banhando até me sentir novamente no meu corpo. Limpa. Notei que já passava da meia noite quando olhei para o relógio de parede. Alaric só chegaria pela manhã.

Estava prestes a deitar na cama, e deixar que a inconsciência me fizesse voltar ao normal, ou apenas o normal que eu havia lutado para passar. Todavia alguém bateu na porta, e eu de modo lento fui ver pelo olho mágico quem era, não vir ninguém. Quando abrir a porta, também não vir ninguém, mas ao pé do carpete de boas vindas, uma caixa de camurça preta, com um laço branco ao redor me fez franzir a sobrancelha confusa.

Peguei a caixa, não era muito grande, mas longa, e fechei a porta novamente , indo para o quarto como era o plano.

Puxei o laço, e abrir a caixa me sentando na cama, lá dentro havia um papiro enrolado.

Prendi a respiração quando me vir. Meu rosto eternizado em um desenho de lápis. As sombras tocando levemente o pálido de cada detalhe. Meus cabelos estavam soltos, diferente daquela noite no baile, caindo em cachos suaves ao natural. Parecia uma foto tirada a dias atrás, mas eu não me lembrava exatamente. Ao lado da foto havia um tipo de tatuagem tribal, com flores dentro de flores. Olhei novamente para a caixinha, e captei um brilho lá dentro no meio da negritude do veludo.

Era um colar de prata, com um girassol como pingente, com uma pedra precioso, um diamante no meio, eu sabia que era de verdade pela forma que ele brilhava na pouca luz do abajur.

Voltei-me para o desenho vendo um P.S. nas letras do híbrido.

“Não se pode impedir alguém de desgostar de você. Obrigado pela noite, você estava esplendida. Klaus.”

Deitei na cama sentindo que do nada aquele sentimento podre dentro de mim, como uma ferida que as vezes se abria novamente, mostrando que não tinha nunca cicatrizado, havia evaporado, deixando apenas uma bolha dolorida, vermelha, e morna dentro do meu peito.

Notas finais
Comentem, favoritem, e logo, logo tem mais! Beijnhos ♥