Hurricane

1 Hayden Hawkings


Notas iniciais
Essa é a primeira fic nesse estilo que tento escrever, então TODA ajuda é bem vinda. Aceito críticas. Espero que gostem. Kisses, W.S.

Capítulo 01

— Eu já disse que não quero falar sobre isso. – resmunguei novamente encarando os meus sapatos. O homem sentado em posição relaxada ao meu lado apenas riu.

— Ora, vamos, Eve. Quero saber o eu demônios te transformou na mulher arisca e desconfiada que você é hoje.

Eu sentia como se estivéssemos repetindo aquele diálogo pela milésima vez. E talvez até fosse, visto que ele me perguntava aquilo já faziam três anos. Bufei e olhei para o céu nublado, pensando nas opções. Não queria reviver aquela história, mas talvez contá-la a alguém pudesse me ajudar. Com um suspiro, assenti. Ele demorou algum tempo para assimilar, o que me fez perceber que devo ter passado vários minutos em silêncio, refletindo.

— Certo. Eu conto. Mas não quero nenhuma interrupção, ou eu juro que nunca mais falo uma palavra sobre o assunto. – assentiu, sério e animado ao mesmo tempo. Parecia uma criança inocente e fofa. Organizei os pensamentos, tentando ajeitar as memórias numa sequência cronológica e pensando em onde começar. Era difícil, mas, depois de alguns minutos, comecei a história que mudou totalmente a minha vida.

— Nunca confie nas aparências. Elas fodem com a sua vida. Literalmente. – dei uma pausa, organizando os pensamentos na cabeça e decidindo por onde começar. Aquilo era mais complicado do que parecia. – Certo. A decadência da minha vida começou quando dormi com Hayden Hawkings.

=+=

Guardei o paninho que havia utilizado para limpar o balcão pela última vez no dia e fui para os fundos do Ginger Blossom Café para pegar as minhas coisas e sair. Aquele era o meu segundo turno do dia, e eu estava destruída.

— Aqui está o pagamento, Evelyn. – Henry, um homem de meia idade com cabelos ruivos e jeito falante, entrou na salinha onde os funcionários deixavam suas coisas e me entregou o cheque do mês.

— Obrigada, chefe. Até amanhã. – coloquei o papelzinho milagroso na bolsa, saí pela porta dos fundos e comecei a caminhar na direção de casa. Chequei o celular enquanto esperava o sinal abrir. Como sempre, Brian havia me mandado exatas quinze mensagens durante o turno, perguntando se eu estava bem e dizendo coisas fofas.

Ele era um namorado de ouro, mesmo. Sempre educado, carinhoso, amável, inteligente e respeitável. Lindo com os cabelos loiros, lisos e sedosos, olhos verdes como a grama de verão, a pele imaculada, como que esculpida em mármore branco. Eu poderia passar o dia inteiro citando as qualidades dele.

Mas, como era a minha vida, nosso relacionamento não era perfeito. Eu passava a maior parte do dia trabalhando e minhas folgas eram poucas, então não nos víamos muito. Ele cursava odontologia na faculdade local e eu servia cafés o dia todo para guardar dinheiro e, algum dia, quem sabe, voltar a estudar. Sabia que Brian odiava o fato de nunca nos vermos. Sabia que estávamos nos afastando e sabia que aquele relacionamento que começou na segunda série não duraria muito, mas eu gostava de fingir e negar naquela época. Era basicamente tudo o que eu fazia.

Tranquei a porta de casa e encarei a sala de estar cheia de garrafas pelo chão. No sofá, meu pai dormia um sono pesado, uma latinha de cerveja ainda entre os dedos. Tirei-a de sua mão e ajoelhei ao seu lado, passando a mão no seu cabelo e sentindo o hálito fétido que vinha dos lábios entreabertos.

— O que você está fazendo com a própria vida? – sussurrei mais para mim mesma do que para ele. Era triste vê-lo assim. Papai se manteve firme quando eu era pequena, criou-me bem até os quatorze anos, e então começou a beber. Ele trabalhava, mas todo o salário era investido em álcool e cigarros. Não sabia como ele ainda não havia sido demitido.

Joguei toda aquela sujeira no lixo da cozinha e fui tomar um banho e preparar-me para dormir. Coloquei um pijama qualquer e me joguei na cama, pronta para desmaiar até as seis da manhã do dia seguinte, quando começaria meu próximo turno.

Já estava sonhando quando a campainha começou a tocar insistentemente. Eu nem sabia que aquele aparelho ainda funcionava. Levantei e calcei as pantufas, ainda meio grogue. Destranquei a porta e abri-a, deparando-me com um Brian completamente fora de si. Ele tinha os cabelos desalinhados como se tivesse passado repetidamente as mãos sobre os fios e os olhos, desvairados. Uma garrafa quase vazia pendia em sua mão. Ele cambaleava, mesmo estando parado.

— Eu acho que é a primeira vez que eu te vejo esse mês, Eve. E você está linda. – fitei a mim mesma, com o pijama surrado e antigo e só pude imaginar o estado catastrófico dos meus cabelos, além das olheiras gigantescas pela falta de sono. Eu era tudo, menos linda naquele momento.

Quase sorri com o seu comentário, mas segurei-me. Não era hora de flertes bobos.

— Brian, o que você está fazendo na minha casa, bêbado, às – dei uma pausa para checar meu relógio de pulso. – três e quarenta da madrugada? – ele deu um risinho típico de pessoas bêbadas.

— Eu vim te ver, oras. Estou com saudades, Eve. – falou e tentou se aproximar de mim.

Eu não tenho nenhum problema com bebidas ou pessoas que bebem. Meu pai o faz em excesso, mas, se consumida com inteligência, você apenas fica alto e feliz. A única coisa que me tira do sério com o álcool é o cheiro. Odeio o odor que pessoas alcoolizadas têm. Provavelmente o único vestígio que meu pai bêbado deixou em mim.

E naquele momento, Brian fedia a álcool. Muito.

Dei um passo para trás, e ele acabou cambaleando mais um pouco.

— Eu estou cansada, Brian. Sério, tenho que levantar daqui a uma hora pra ir trabalhar e fico de pé até as seis da manhã amanhã. Não tenho tempo pra ficar me agarrando com você hoje. E, sério, esse cheiro... – ele me cortou antes que eu pudesse continuar.

— É SEMPRE A MESMA MERDA! EU FICO COMO UM IDIOTA TE MANDANDO MENSAGENS A PORRA DO MÊS INTEIRO, TE ESPERO, FAÇO TUDO O QUE VOCÊ PEDE, SOU FIEL, COMPANHEIRO, VENHO CORRENDO TODA VEZ QUE VOCÊ CHAMA. CARALHO, EVELYN! FAZ UM FUCKING MÊS DESDE A ÚLTIMA VEZ QUE FICAMOS JUNTOS POR MAIS DE CINCO MINUTOS!

— Brian...

— BRIAN MEU RABO! AGORA VOCÊ VAI ME OUVIR! EU PODERIA TER QUALQUER GAROTA DESSA MERDA DE CIDADE, MAS ESCOLHI VOCÊ. O PROBLEMA É QUE NÃO LEMBRO MAIS O MOTIVO DESSA ESCOLHA IDIOTA. – e ele começou a chorar. Desesperada, o coração apertado, tentei tocá-lo, abraça-lo, confortá-lo, mas tudo o que consegui foi um empurrão que quase me derrubou.

—Pra mim chega. – ele sussurrou. – Quer saber, esquece. Nós terminamos, Evelyn.

E ele virou para ir embora. Antes de atravessar o portão, jogou a garrafa que segurava no chão de pedra, estilhaçando-a. Eu teria de limpar aquilo depois, mas naquele momento apenas fechei a porta e sentei atrás da mesma.

Brian finalmente desistiu de mim. Acho que a única coisa que me impediu de desabar totalmente naquele momento foi o fato de eu já saber a muito tempo que o que tínhamos ainda não duraria muito.

Mesmo assim, doeu.

Fitei a parede do outro lado da sala, os pensamentos a mil. Eu estava farta de tudo aquilo.

Farta de trabalhar como uma escrava para sustentar alguém que só me dava despesas.

Farta de dividir a casa com aquele brutamontes que chamava de pai.

Farta de não ter dinheiro para uma vida melhor.

Farta de conviver com todos os meus problemas.

Precisava de uma pausa.

Levantei e fui até o meu pequeno guarda-roupas, onde cacei algumas roupas mais decentes. Troquei-me, ajeitei o cabelo e passei uma maquiagem mais pesada que o normal. Cacei os saltos que ganhei da minha prima havia dois anos e uma bolsa pequena. Peguei a reserva de dinheiro que mantinha embaixo do colchão e uma das garrafas meio vazias do meu pai e saí de casa.

=+=

No banquinho desconfortável do bar, pedi mais um shot de tequila. A bar tender, uma garota com cabelos coloridos e tatuagens lindas, pegou o copinho e encheu-o.

Era o meu quarto.

Ou quinto.

A garota Olhava a cada cinco segundos para um loiro do outro lado do lugar. Ele tinha cabelos dourados e compridos, os cachinhos das pontas batendo no maxilar e quase escondendo os olhos que, de longe, pareciam negros. Tinha a pele do mesmo tom da minha, o que significa que era extremamente clara, e usava um sobretudo negro, o que o deixava ainda mais pálido.

E lindo.

— Quem é o loiro? – questionei subitamente. A funcionária fitou-me com descrença.

— Você não é daqui, certo? – perguntou. Franzi o cenho.

— Na verdade, moro nessa cidade desde que nasci. – ela pareceu ainda mais contrariada.

— Já ouviu falar de Hayden Hawkings? – dele eu tinha ouvido. Lindo de morrer e o mulherengo mais famoso de Craig Hills e supostamente o melhor traficante de drogas da região. Os boatos eram que, quando se estava com ele, a sua mente vagava para apenas uma coisa: Hayden Hawkings.

Era daquilo que eu precisava no momento. Ao menos, era daquilo que a minha cabeça embriagada e triste pensava que eu precisava naquele momento, por isso me levantei do banquinho e ajeitei o cabelo, endireitei a postura e minhas roupas e caminhei até o assento ao seu lado.

Ele fitou-me da cabeça aos pés por alguns segundos, a sobrancelha esquerda levantada. Pareceu gostar do que viu, pois abriu um sorriso de lado. O que apareceu com isso? Isso mesmo, uma maldita covinha.

Em troca, também examinei-o. Calças e sapatos negros, combinando com o resto da roupa. Pelo sobretudo aberto, pude observar uma camisa de banda que eu não conhecia. Era possível notar os músculos esguios que se escondiam por baixo do tecido.

“Até aqui, os boatos são verdadeiros. Ele é realmente lindo.”

— Bette, querida, pode trazer mais duas doses? – perguntou com uma voz indescritível. Os lábios eram realmente uma tentação e os olhos, de perto, pareciam ainda mais negros. A bar tender encheu duas doses, nos entregou e saiu com uma piscadela para mim, como se dissesse “Deu sorte”. – Tenho a chance de descobrir o seu nome? – perguntou ele com a voz consideravelmente mais baixa e rouca. Arrepios desceram pela minha espinha, mas tendei disfarçar.

— Evelyn. – respondi tentando imitar o seu tom, mas provavelmente falhando. Eu mantive o mesmo namorado desde a segunda série, não é como se precisasse de prática nos flertes quando já tinha conquistado alguém.

Com esse pensamento, a imagem de Brian apareceu na minha cabeça. A última coisa que eu precisava.

— Nem o sobrenome? Ai. – ele fingiu tristeza, mas o sorrisinho continuava lá. Terminei a bebida em um gole só. Nada de Brian naquela noite. Chamei a garota, Bette, e pedi mais. Novamente, Hayden arqueou a sobrancelha dourada. – O que você está tentando afogar?

— Brian. – respondi apenas. Ele pareceu entender, pois assentiu. Bebi o que havia acabado de chegar e, durante o movimento da cabeça, acabei ficando tonta. Só não caí do banco porque ambas as mãos do loiro foram para a minha cintura. – Eu estou bêbada feito um gambá. – comentei com um sorrisinho. Conseguia sentir o cheiro do meu próprio hálito, o que me deixava um pouco irritada.

Qual o sentido de uma pessoa que odeia o cheiro do álcool ir para um bar?

— Acho que é melhor te levar pra casa, então. – comentou e levantou-se. Ainda com uma mão na minha cintura, chamou Bette e pagou. Eu estava alcançando o meu próprio dinheiro na bolsa quando ele captou o movimento e segurou a minha mão. – Por minha conta hoje, Evelyn. – balancei a cabeça para negar, mas apenas fiquei ainda mais tonta e tive de me apoiar em Hayden para não cair. Ele passou um braço pela minha cintura e me guiou até a porta do bar. – Para que lado é a sua casa? Isso, é claro, se quiser ir pra lá. – a malícia transbordava da sua voz na última frase.

Não precisei ponderar muito para responder.

Logo, estávamos entrando numa casa do subúrbio. Hayden trancou a porta e virou-se e pôs os braços ao meu redor. Narizes se chocando. Mãos sobre a minha camisa. Sua pele fria contra a minha, fervente. Lábios macios contra os meus. Gosto de menta na boca. Minhas pernas em sua cintura. Escadas. Uma cama sob mim e um corpo sobre. Toques, sons, palavras.

E foi aí que a decadência da minha vida começou.

Notas finais
Mereço reviews? Kisses, W.S.