Hurricane
2 "Batman"
Notas iniciais
Capítulo 02
Naquele dia, quando chegamos ao nosso banco, ele não tardou a voltar à história.
— Deixa eu ver se entendi. Você estava bêbada quando conheceu um cara conhecido por talvez ser um traficante e foi pra cama com ele? Do nada? – perguntou. Eu assenti, voltando a me distrair com as memórias.
— Até hoje não sei o que deu em mim naquela hora. Toda aquela noite foi contrária a toda a minha personalidade. Mas aconteceu, e não posso fazer mais nada agora. Ou na época. Pra falar a verdade, até hoje aquela continua sendo uma das melhores noites da minha vida. – fitei-o, mas a sua expressão era indecifrável. Observei o céu azul por algum tempo.
— Você vai continuar contando? – questionou depois de algum tempo. Ele sabia que se me apressasse, nunca saberia do resto. Assenti levemente e comecei a falar. Havia passado a noite anterior relembrando daquela época. Já sabia por onde começaria.
=+=
Na manhã seguinte, acordei com cheiro de bacon e ovos fritando. Minha cabeça doía como se tivesse sido atingida por um ônibus e meu o resto do meu corpo estava em frangalhos também.
Memórias da noite anterior voltaram à minha mente e pude sentir minhas bochechas corando.
Os cobertores do outro lado da cama estavam perfeitamente arrumados. Nenhum amassado. Nenhum defeito. Nunca tinha parado para pensar no assunto, mas meu subconsciente sempre assimilou Hayden Hawkings com o tipo de cara que tem tudo fora do lugar e realmente não se importa com organização.
Não podia estar mais errada.
O quarto tinha um design moderno e simples, uma harmonia simples de preto e branco. As únicas coisas que destonavam eram as minhas roupas, perfeitamente dobradas sobre o criado mudo.
Peguei a camisa e comecei a vesti-la, porém, quando procurei os botões para fechá-la, percebi que não havia nenhum. O tecido vermelho também havia sido rasgado. Pelas marcas e os fios soltos, haviam sido todos arrancados.
Memórias da noite anterior.
Ah, claro.
Vesti o resto do que tinha e abri uma das enormes portas espelhadas do guarda-roupas que ocupava inteiramente umas das paredes e peguei a camisa que estava no topo da pilha mais próxima. Era azul escura, lisa e com gola polo.
Saí pela porta branca e desci os degraus de madeira escura até a cozinha. Hayden estava de costas para mim, concentrado na frigideira à sua frente. Ele não vestia nada além de calças de moletom negras e os cabelos estavam completamente desalinhados.
Em outras palavras, lindo.
Sentei numa das cadeiras altas do outro lado da bancada de mármore e observei-o cozinhar. Logo, ele virou-se e fitou-me de cima a baixo novamente, o olhar preso por algum tempo na sua camisa.
— Sabe, se você não gosta de uma camiseta, pode tirá-la educadamente, não rasgá-la. Eu gostava dela, sabe? – ele deu um sorrisinho malicioso.
— Você pareceu gostar da ideia ontem à noite. – pude sentir as minhas bochechas corando. Abaixei a cabeça e ele colocou algumas tiras de bacon e um ovo prato que estava na minha frente. Ao lado daquilo, havia uma aspirina e um copo d’água. Peguei o remédio e bebi um gole do líquido. – Espero que goste de bacon com ovos. Era tudo que tinha na geladeira. – e sentou-se de frente para mim, fitando-me com curiosidade. Peguei os talheres e cortei uma lasquinha do bacon, colocando na boca logo depois.
Estava magnífico.
Dei mais umas garfadas, e então percebi que o loiro a minha frente não estava comendo nada. Minha expressão deve ter entregado os meus pensamentos, pois ele logo respondeu minha pergunta não formulada.
— Não tomo café da manhã.
— É a refeição mais importante do dia, sabe? Deveria começar a comer. – ele me olhou como se estivesse louca, o divertimento palpável.
— Certo, mãe. Pode esquecer. – engoli mais um pouco de bacon e passei a observar o resto da casa. Não era muito larga, mas comprida. Os móveis, em sua maioria, eram negros ou de um cinza escuro. Vários quadros abstratos e expressionistas preenchiam as paredes. O decorador tinha muito bom gosto.
Havia um relógio pendurado na parede da cozinha.
Eram duas e meia da tarde.
Engasguei com o que tinha na boca e levantei de súbito, ajuntando a minha bolsa do chão, onde devo tê-la atirado na noite anterior.
— Estou atrasada. Muito atrasada. Henry vai me matar. Tchau. – estava prestes a sair pela porta da frente quando ouvi a voz do Hawkings atrás de mim.
— Eu vou querer a minha camisa de volta. – virei para ele, em pé e apoiado na bancada da cozinha, os braços cruzados e um meio sorriso no rosto.
— Isso implica que nos veremos de novo. Pensei que você fosse um cara de uma noite. – impliquei. Seu sorriso aumentou ainda mais.
— Posso abrir exceções. – e acenou com a mão. Fechei a porta de entrada atrás de mim e basicamente voei para o Cherry Blossom. Entrei pela porta dos fundos, fiz um coque no cabelo, pus o avental e um tênis reserva dois números menor que o meu que Henry deixava lá por precaução. Quando entrei no ambiente principal, a primeira coisa que recebi foi um olhar carrancudo do ruivo.
— Onde diabos você esteve? Nunca vi tanto movimento nesse lugar, e a Katy não dá conta da clientela nem quando só tem uma pessoa no café! – eu estava abrindo a boca para responder, quando ele me cortou. – Depois você explica, agora vá atender os clientes. Anda, anda!
Peguei meu bloquinho e minha caneta e fui para o salão. Todas as mesas estavam cheias. Botei um sorriso no rosto e atendi a primeira mesa. O casal pediu um milk shake de morango e um de chocolate. Para comer? Dois sanduíches naturais. Nomes? Cristina e Rick. Trago num instante. Segunda mesa, um velhinho amargo chamado Larry que aparecia todos os dias e sempre pedia café puro. Um copo de 500ml, e rápido. É pra já.
Terceira mesa. Outro cliente costumeiro. Quando me aproximei, abriu um sorriso contido que mostrava só um pouco dos dentes brancos demais. Os olhos verdes como peras fitavam-me atentamente. Os cabelos de um loiro escuro, basicamente castanho, como sempre, estavam postos para trás com muito gel. O terno negro sobre a camisa social branca davam-lhe uma aparência profissional.
— O que vai querer hoje? – questionei.
— Cappuccino. – pausa. – E um croissant de chocolate.
— O croissant daqui é a melhor comida que existe. Sério. Ótima escolha. – eu disse enquanto anotava o pedido. Abri um sorriso de lado e fitei-o. – Nome?
— Batman. – disse com seriedade. Dei uma risadinha e rabisquei no bloquinho.
— Você se superou hoje. Ele é o meu super herói favorito. Entrego em um minuto. – disse e fui para trás do balcão.
Estava preparando um milk shake quando ouvi uma voz extremamente familiar chamando o meu nome.
Brian tinha olheiras horríveis e parecia ainda mais deplorável que na noite anterior.
Tive uma reação diferente do esperado. Quer dizer, estivemos juntos desde o ensino médio e eu realmente havia sentido algo por ele, mas, na noite anterior, quando estive com Hayden, seu nome ou sua existência sequer passou pela minha cabeça. Não me sentia terrível por ter dormido com outro cara na noite em que Brian me chutou. Ou mesmo por ter terminado. Estava machucada por tudo o que ele havia dito, e era só.
A única coisa que destruía o meu coração era a expressão do homem que me fitava do outro lado do balcão.
— Eve... Olha, eu sei que falei besteira ontem, mas... – ele baixou os olhos para a camisa que eu usava. Ah, claro. – Espera, o que é isso? Evelyn, você dormiu com um cara na noite passada, foi isso? – ele começou a ficar vermelho. Muito vermelho. – Você... Você me traiu! Como pôde?! – seu tom aumentou um pouco na última palavra e raiva começou a preencher o meu peito.
— Trair? Eu não traí ninguém, sei grande babaca. Se não se lembra, você apareceu na minha casa no meio da noite. Bêbado. E terminou tudo o que tínhamos. O que faço ou deixo de fazer não é mais da sua conta, Brian.
— Adrien disse que viu uma garota parecida com você sair cambaleando de um bar com um loiro na noite passada, mas não quis acreditar... – sussurrou, depois elevou novamente o tom, raiva infiltrando-se em cada palavra. – Um simples briguinha e você se torna uma boêmia devassa? Não podemos ficar juntos. Você... Você me repudia, Evelyn Lichter. – essa teria sido a deixa perfeita para a sua saída, mas Brian permaneceu onde estava. Fitei-o diretamente nos olhos.
— Nessa eu tenho de concordar. Não podemos ficar juntos. Adeus, Brian. – ele arregalou os olhos, chocado, e deu um passo a frente. Não me movi.
— Ora, sua... Sua... – ele cerrou os punhos ao lado do corpo. Algo ruim estava prestes a acontecer.
Algo ruim que foi impedido pelo meu super herói favorito.
O moreno segurou um dos braços de Brian e fitou-o ameaçadoramente, – abaixando a cabeça consideravelmente para isso – de um jeito que chegou a lançar calafrios na minha própria pele.
— Deixe-a em paz. Ela não te quer mais, otário. – Brian chacoalhou o braço, tentando soltá-lo sem êxito.
— Então é com esse cara que você anda dormindo? – disse olhando para mim.
— Você acha mesmo que essa camisa caberia no gigante aí? – questionei ironicamente. – Tchau, Brian. – “Batman” soltou o braço do outro, que saiu pisando duro.
— “Boêmia devassa”? Sério? De onde você arranjou esse cara? – perguntou o loiro sentando-se num dos bancos.
— Namorado de colégio. Longa história. – entreguei-lhe o croissant e o cappuccino. — Esses vão por conta da casa. Obrigada por aquilo. – entreguei os outros pedidos e voltei ao balcão, já que o movimento tinha acalmado, mas ele não estava mais lá.
Em seu lugar, havia um guardanapo rabiscado numa caligrafia negra e afiada:
“Acho que você me deve uma.”
E uma simples carinha feliz piscando ao lado. Sorri e guardei o papelzinho no bolso do avental.
~*~
Tranquei a porta de casa e larguei a bolsa no aparador, morta de cansaço. Abaixei para tirar os sapatos e coloquei-os ao lado da porta. Tirei alguns fios teimosos do rosto e entrei na sala. Papai levantou-se assim que me ouviu.
— Finalmente! Por que demorou tanto? – ele disse, cambaleando um pouco ao levantar. – Fui até o seu quarto pegar dinheiro, mas não encontrei. Preciso de cinquenta reais. Meu pagamento vai atrasar esse mês. – ele resmungou enquanto punha a sandália desgastada. Os cabelos, de um castanho opaco e já com alguns tufos grisalhos, apontava para todos os lados possíveis.
Ele tinha uma aparência terrível.
— Por que está me encarando com essa cara? Hein? Anda logo, me dá a porra do dinheiro! – aumentou o tom. Abaixei a cabeça e fui até o meu quarto, onde peguei uma nota de cinquenta reais de um dos esconderijos, o homem no meu encalço. Coloquei-a em sua mão estendida e fechei a porta quando ele saiu.
Apoiei a testa na madeira clara e fechei os olhos, sentindo-me dez anos mais velha.
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