Hunters Of The Death
4 Perseguição
Notas iniciais
Não consegui pegar no sono novamente depois do sonho que tivera. O desespero na voz de meu irmão, a escuridão imensa que eu me encontrava e o recado que ele me havia dito, foram essenciais para me manter desperta e muito pensativa. Quem seriam eles que Mark mencionou? Por que ele não havia me dito claramente onde estava? E o que queria dizer com Vá até onde nosso pesadelo começou? Eu deveria retornar para minha casa, era isso que significava? Porque, a meu ver, fora lá onde tínhamos recebido a terrível notícia, pela televisão, sobre a epidemia que se propagaria a partir daquele momento em que os mortos saíam do hospital. Sim, talvez Mark estivesse lá. Pelo menos, eu torcia para que estivesse. Mas retornar ao nosso antigo lar faria com que eu revivesse as lembranças daquele terrível dia. Não sabia se estava preparada para passar por aquilo novamente.
Você precisa me ajudar! A voz de Mark ecoou em minha cabeça. Passei a mão na testa, pensativa. Quirina ainda dormia em meu colo, um sono profundo e aparentemente tranquilo. Esperava que ela tivesse sonhos bons, porque, quando acordasse, a realidade tomaria conta de sua volta, e ela sempre foi mais difícil de lidar do que com os sonhos.
Lentamente, segurei-a com cuidado enquanto erguia meu corpo e ficava de joelhos no chão. Coloquei-a na cama delicadamente. Felizmente, ela não demonstrara nenhuma reação de que pudesse ter acordado. Dei um beijo em sua testa e saí com passos hesitantes e cautelosos de seu quarto.
Desci as escadas e parei perto da porta da sala. O céu lá fora estava escuro e sem nuvens e um vento quente soprou através da porta. Olhei através do portal para as ruas ao redor da casa. Não havia nenhum vulto ou cadáver se movendo. Perturbador e estranhamente tranquilizador. Pelo menos, eu poderia fazer o que planejara sem ter que me preocupar com eles por enquanto. Rumei para a cozinha, pegando a lanterna que Quirina tinha no quarto e direcionei a luz para o cadáver que havia ali. Ainda causava arrepios olhar para a mulher, mas ao mesmo tempo era triste. Cheguei perto dela e fechei seus olhos de forma delicada. Puxei a faca de sua mão e a coloquei em cima da pia. Coloquei seu corpo deitado no chão e o cobri com uma toalha de mesa que encontrara. Eu sabia que uma hora ou outra, Quirina viria para a cozinha ver o corpo da mãe, por isso que o envolvera com a toalha. Não queria vê-la sofrer ainda mais.
Eu já estava indo embora quando vi um papel manchado com algumas gotas de sangue sobre a pia. Estava dobrado e com um broche de rosa vermelha sobre ele. Peguei o papel e o desdobrei. Era uma carta de Elizabeth Ávila. Resolvi não lê-la, preferindo entregá-la para Quirina. Guardei a carta e o broche no bolso da jaqueta e caminhei para fora do cômodo. Antes de sair, virei para o corpo no chão e murmurei:
–- Descanse em paz, sra. Ávila. Cuidarei de Quirina, e prometo que a protegerei de todo mal.
Dei as costas para o cômodo e voltei para o segundo andar.
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–- Conseguiu descansar? – perguntou Quirina quando fazíamos a curva pelo quarteirão, dando as costas para sua casa.
Nós havíamos resolvido continuar a procura por Mark quando o dia clareasse. Por isso, arrumamos nossas mochilas. Quirina havia tirado por completamente a tinta do corpo e vestira camiseta, jeans e tênis. Eu ainda não havia lhe contado sobre o sonho, resolvi não envolvê-la tanto com a busca por ele. Mas, em todo caso, eu fizera a promessa de cuidá-la e protegê-la, e era aquilo mesmo que eu faria.
–- Sim, o suficiente para matar mais alguns mortos-vivos – dei uma piscadela para ela, fazendo-a rir.
Eu ainda mantinha a carta da mãe dela guardada no bolso da jaqueta. De alguma forma, eu não queria vê-la triste de novo. Mesmo não sabendo o conteúdo da carta, eu sabia que ela iria chorar.
–- E você? – perguntei. – Dormiu bem?
–- Acho que sim. Mas não me lembro de meus sonhos. Nunca consigo me lembrar deles.
Sorte a sua, pensei, lembrando-me do aviso de Mark.
Quirina caminhava mantendo os olhos fixos no mapa, traçando linhas invisíveis nele com os dedos. Ela gostava de localizar as ruas e os caminhos para onde tínhamos que passar.
Enquanto caminhávamos, Quirina me falava mais sobre sua antiga vida. Ela e os pais moravam em Osasco, e sempre passavam o final de ano aqui no Rio, em uma casa que o pai dela tinha herdado dos pais. Ela tinha também uma tia que morava na cidade, e sempre gostava de visitá-la quando podia. Eduardo era advogado e Elizabeth era artista plástica, profissão que a filha queria ter no futuro. A tia dela, irmã de sua mãe, era artista plástica também, e Quirina amava ficar horas em seu apartamento, no ateliê, em meio às obras, tintas e cavaletes. No dia 21 de dezembro, dia em que o apocalipse começara, ela estava no ateliê quando a tia entrou correndo e lhe dizendo, entre lágrimas e desespero, que Quirina tinha que permanecer ali. Depois de tentar convencer a sobrinha do que ocorria, a tia lhe trancou no ateliê, uma forma de impedir que os zumbis, caso entrassem, pudessem pegá-la.
–- Mesmo ela pedindo para que eu ficasse – Quirina continuou a dizer – eu não queria que ela morresse e eu não fizesse nada. Então, tive a ideia de me maquiar como um zumbi. Eu já tinha lido alguns livros e assistido alguns filmes e séries sobre eles, então, consegui fazer uma maquiagem com as tintas do ateliê. Ouvi um estrondo que sacudiu o apartamento e me apressei em me caracterizar, mas quando cheguei à sala de estar, já era tarde demais.
Quirina baixou o rosto e imaginei que ela estivesse tentando reprimir as lágrimas. Mesmo assim, ela continuou a dizer:
–- Foi horrível vê-la daquele jeito, e eles me viram antes que eu pudesse me esconder, mas não fizeram nada. Acho que de alguma forma, zumbis parecem reconhecer uns aos outros. Não sei como, mas ao que parece é isso. E eles foram embora.
–- E como você saiu de lá, do apartamento? – perguntei enquanto caminhávamos por uma estrada terrosa.
–- Eu peguei o sangue que tinha no chão e manchei meus braços e meu vestido com ele. Consegui sair do apartamento cambaleando, como eles se locomovem. Eu estava tentando ir pra casa, mas o caminho até lá era longo. Tive que andar por meio dos zumbis para sobreviver, embora eu ainda tivesse medo de que, caso alguém aparecesse, pudesse matar a todos, inclusive a mim. Eu tinha esperança de encontrar meus pais... vivos.
Ela esfregou os olhos e respirou fundo. Dei tapinhas carinhosos em seu ombro e ela deu um fraco sorriso e continuamos a caminhar em silêncio.
O sol estava a pino quando paramos de repente à frente de um matagal alto e vasto. Quirina murmurou alguma coisa e tinha a expressão confusa enquanto observava o mapa minuciosamente.
–- O que houve? – perguntei.
–- Isso não está certo.
–- O quê que não está certo?
Ela ergueu o mapa na altura dos meus olhos e apontou para uma região com seu dedo fino.
–- Está vendo isso aqui? Era o caminho mais curto que dava acesso ao condomínio que teremos de atravessar para chegarmos ao nosso próximo destino.
Peguei o mapa e o analisei. De fato, estávamos naquele mesmo local desenhando no mapa, porém...
–- Esse matagal todo não tinha que estar aqui. – disse Quirina preocupada, como se lesse meus pensamentos.
–- Está supondo que esse mato cresceu aqui, do nada? – indaguei.
Ela deu de ombros.
–- Eu não sei o que isso quer dizer, mas não gosto disso. Foi como se... ele tivesse crescido de um dia para o outro.
–- Você veio aqui recentemente?
–- Há dois meses – ela admitiu. – E aqui – ela apontou para além do capim vasto a nossa frente – deveria ser o portão do condomínio.
Fiquei encarando o mato a minha frente. A extensão dele ia além da onde minha vista permitia enxergar. Não sabia se havia alguma forma de contorná-lo. Porém, se a única solução para conseguirmos entrar no condomínio fosse atravessá-lo, tínhamos que fazer isso. Eu não gostava da ideia, tampouco Quirina. Ela esfregou o braço direito, como se tivesse sentido um arrepio.
–- Não gosto disso.
–- Eu também não. – falei. – Mas se eu demorar muito, talvez eu não encontre meu irmão ainda com vida.
Dei um passo em direção ao capim.
–- Você vem? – perguntei.
–- Estou bem do seu lado. – ela respondeu com a voz trêmula.
Comecei a andar em direção ao matagal e Quirina caminhou junto comigo. Logo depois, fomos engolidas pela imensidão das folhas.
Nossos passos estalavam na folhagem do chão. Eu tentava abrir caminho com o machado pelo mato enquanto prosseguíamos. Senti a mão de Quirina se apoiando em minha mochila. De alguma forma, a altura assustadora daquele capim todo era capaz de ofuscar a luz do sol completamente, como se estivéssemos em outro mundo. Eram por volta de meio-dia, mas, dentro daquele lugar, era como se estivesse no final de tarde. Não havia vento nenhum ali, nenhuma corrente de ar, e eu torcia para que Quirina não tivesse claustrofobia ou algo do tipo.
Eles estão te observando.
A voz de Mark sussurrou em minha mente e, involuntária e automaticamente, parei de caminhar e olhei para todos os lados. Não conseguia ouvir nada, muito menos ver alguma coisa naquela imensidão de plantas. Uma luz inesperada iluminou o chão a minha frente, assustando-me.
–- Desculpe – disse Quirina empunhando a lanterna. – Achei que ela pudesse nos ajudar a tentar encontrar algum caminho aqui.
Ela me entregou a lanterna e voltamos a caminhar. De certa forma, era bom ter uma luz naquela escuridão toda, mas ao mesmo tempo, me perturbava o fato daquele matagal ter surgido ali. Será que ele fora plantado propositalmente por alguém, há dois meses? Mesmo assim, embora eu não soubesse nada de plantas ou botânica, não achava que fosse possível que tanto mato tivesse crescido em tão pouco tempo.
Ouvi um estalo um pouco adiante de nós.
Parei de caminhar e Quirina chocou-se contra mim. Gostas de suor frio escorriam pelo meu rosto. Meu coração batia de forma muito rápida. Ouvi também a respiração assustada de Quirina antes dela me perguntar:
–- Por que paramos?
–- Quero ouvir uma coisa. Fique em silêncio.
Fixei meu olhar para algum ponto além de nós e tentei apurar minha audição o máximo que pude. Conseguia escutar o sangue pulsando fortemente em meus ouvidos, as marteladas rápidas de meu coração. Olhei em todas as direções possíveis, tentando captar algum som, alguma coisa estranha naquele lugar.
Então ouvi um estalo um pouco mais próximo de nós. Quirina também pareceu ouvir e sua respiração se interrompeu. Voltei a lanterna em direção ao seu rosto por um momento e vi que ela me encarava assustada. Sua boca estava entreaberta, como se ela tentasse dizer algo, mas não conseguia emitir som algum. Parecia uma estátua de puro terror.
Ouvi outro estalo, e outro, outro...
A sucessão de barulhos se tornou passadas pesadas e ruidosas, vindas de dois lados. O pânico tomou conta de mim e não consegui pensar em mais nada. Tomei a decisão que mais fazia sentido naquele momento. Peguei a mão de Quirina e corri em direção oposta aos ruídos.
Felizmente, ela não fez nenhuma pergunta; apenas segurou mais forte minha mão e continuou correndo atrás de mim. Eu podia escutar nossos passos no chão pedregoso e com capim seco, e também passos a poucos metros atrás de nós. Ouvia o som da vegetação sendo arrancada brutalmente. Não queria olhar para trás, pois sabia que, se olhasse, veria o que não queria ter visto. Seja lá o que fosse que nos perseguia, eu podia pressentir uma coisa: iria nos matar.
Chegamos a uma área ampla e descampada daquele labirinto de plantas. Quirina soltou sua mão da minha e se apoiou em seus joelhos, respirando com dificuldade. Meus cabelos estavam grudados no meu pescoço molhado de suor. Meu rosto pinicava um pouco devido ao contado do capim enquanto corríamos. Adrenalina percorria cada célula de meu corpo.
–- Será... que... foi... embora? – perguntou Quirina, ofegante.
–- Não sei. – respondi olhando ao nosso redor.
–- Não ouço nada agora.
Era verdade. Não havia som algum vindo do mato atrás de nós. Mas ainda não me tranquilizava. Desliguei a lanterna. Naquela parte que eu e Quirina estávamos, era possível ver o céu que estava tingido pelas cores crepusculares. Não era possível que tivéssemos passado tanto tempo ali.
Um vulto passou a minha direita. Quando olhei naquela direção, vi uma enorme sombra humanoide que parecia estar me encarando. O que devia nos separar deveriam ser poucos metros. Era estranho que naquela parte o capim fosse um pouco mais baixo, como se fosse de propósito.
–- O-o que é aquilo ali? – Quirina apontou para a sombra.
Antes que eu pudesse dizer algo, mais sombras igualmente enormes e musculosas surgiram de todos os lados.
Estávamos completamente cercadas naquela escuridão.
Liguei a lanterna e direcionei para o rosto de um deles e quase a larguei no chão. Inicialmente, pensei que fossem zumbis. A criatura tinha a pele acinzentada e várias cicatrizes que gotejavam algo verde delas. Os olhos eram a pior coisa do rosto: os globos oculares eram completamente saltados das órbitas, e o que apenas os mantinha ainda no rosto eram os nervos que os seguravam. Pareciam que despencariam a qualquer instante.
Mas outra coisa que percebi era que ele não conseguia encarar a luz da lanterna por tanto tempo. A mão grossa e enfaixada cobriu o rosto quando a luz da lanterna permanecia focada tempo demais nele. Fiz a mesma coisa em cada um deles e eles repetiram o gesto do primeiro.
–- Apague essa luz, ser desprezível! – grunhiu um deles.
Ele pronunciou aquelas palavras claramente, embora que fosse um rosnado, dava para compreender o que dizia. Minhas suposições de que eles poderiam ser zumbis se esgotaram imediatamente, principalmente quando vi que eles possuíam apenas cicatrizes nos corpos e todos os seus membros estavam ali, em seus corpos.
–- Como passaremos por eles? – perguntou Quirina sussurrando.
–- Não faço ideia. – respondi no mesmo tom baixo. – Estamos cercadas por quatro deles, ao que parece.
Quirina olhou para cada direção por um instante. Pegou a lanterna de minhas mãos e direcionou a luz para o que estava a nossa direita. Ele cobriu imediatamente o rosto e rosnou:
–- Desligue esse troço, mundana imbecil!
Ela permaneceu com a luz da lanterna voltada para ele e um sorriso brotou em seu rosto.
–- Sei como poderemos escapar.
Olhei para ela, surpresa.
–- Como?
–- Eles têm aversão à luz, percebeu? Todas as vezes que direcionamos a lanterna, eles sentem repulsa por ela e cobrem o rosto.
–- Percebi isso, mas como vai nos ajudar? Está escurecendo mais e mais aqui, não tem como termos alguma luz além da lanterna.
Quirina colocou a mão no bolso e tirou de lá um objeto pequeno menor que sua mão. Ela o ergueu para que eu visse e percebi que era um isqueiro.
–- Desde quando carrega um isqueiro no bolso? – perguntei.
–- Nunca é demais carregar um. Em todo caso, acho que só temos uma solução para fugir daqui.
Imediatamente, uma ideia surgiu em minha mente. Seria bem perigoso, mas seria talvez mais fácil do que enfrentar aqueles humanoides musculosos. Agora eles arreganhavam a boca para nós, produzindo um som alto e gutural. Seus dentes eram aparentemente muito afiados, como os de um tubarão.
–- Não podem ficar aí o tempo todo – um deles disse. – Vocês não tem escolha. Serão devoradas por nós.
Eles riram em uníssono. Um frio percorreu minha espinha. Não sabia se de fato o meu plano poderia funcionar. A criatura que estava a minha frente continuou a falar.
–- Ninguém escapa dos Retalhadores com vida.
–- Retalhadores? – perguntei. – É o que vocês são?
–- É óbvio, mundana. Somos considerados um nível superior dos zumbis normais. Podemos não só matar, mas como correr e estraçalhar as vítimas com – ele ergueu uma foice cuja lâmina era do tamanho de um de seus braços. – isso.
Cada um ergueu também a foice que carregava em suas costas, ameaçadoramente. Quirina arfou.
–- Você tem um plano, não tem? – ela perguntou, recuando.
–- Sim, mas não sei se dará certo. – admiti.
–- Tem chances de salvar nossas vidas?
–- Sim.
–- Então vamos tentar.
Com a voz mais baixa que pude, contei para ela o meu plano. Quirina não demonstrou qualquer rejeição em fazer o que tinha que fazer. Ao meu sinal, ela concordou que faria o que planejamos.
Era a minha vez de entreter os Retalhadores.
–- E como vocês sofreram essa mutação?
–- Acho que não tem problema contar a você, afinal, estará morta daqui a pouco. Nós tivemos alterações no laboratório do doutor Bóris, é claro! Ele alterou nosso DNA em uma de suas experiências mais avançadas, o que nos fez zumbis, porém, mais fortes.
Arregalei os olhos. Se aquelas criaturas estavam aqui, no Rio de Janeiro, era provável que o laboratório no qual o doutor Bóris estava fosse aqui também. Se isso fosse verdade, eu não precisara ir até o Alasca atrás dele.
–- Agora chega de papo! – a voz rude do Retalhador da direita me fez voltar à realidade. – Estamos sem comer há dias e, vocês duas parecem ser bem apetitosas...
–- Não deixarei que isso seja fácil para vocês. – falei calmamente erguendo meu machado.
–- Ah, você é do tipo que luta antes de morrer? – um deles perguntou sarcasticamente.
–- Não. Eu sou do tipo que luta para matar. Já lutei com vários zumbis durante esse meio tempo. Não acho que terei dificuldade com alguns como vocês. Não há diferença. São todos fracotes.
Um deles que estava a minha direita veio correndo em minha direção e ergui a lanterna na direção de seu rosto, cegando-o imediatamente. Enquanto ele permanecia com uma das mãos protegendo os olhos saltados, a outra segurava debilmente a foice que carregava. Com um movimento do machado, cortei sua mão e a foice caiu num baque surdo no chão. O Retalhador emitiu um grito agudo e quase ensurdecedor e, enquanto ele permanecia com a mão no rosto por causa da luz, caminhei por trás dele e o golpeei no pescoço com o machado. A cabeça dele rolou no chão enquanto jatos de sangue esguichavam quando ele caía de joelhos no chão, até ficar imóvel.
Olhei para os outros Retalhadores que me observavam fixamente com seus globos oculares prestes a saltar de seu rosto.
–- Você pode até ter conseguido matar Vector, mas saiba que ele era o mais inexperiente de nós quatro. – informou o Retalhador à minha esquerda. – Mas você não conseguirá escapar de nós.
Olhei para Quirina e ela entendeu o meu aviso no olhar. Ela se agachou e começou a andar até o local onde antes havia o quarto Retalhador até que sumiu por entre o capim. Olhei para frente e vi que os três avançavam com as três foices prontas para o ataque. Seria difícil lutar com uma das mãos apenas, mas eu estava acostumada ao peso do machado e a manobrá-lo corretamente. Tentei não olhar para a direção onde Quirina tinha ido para que não despertasse curiosidade neles.
Então, eles atacaram.
O Retalhador chefe ignorou a luz da lanterna e tentou me golpear nos braços, mas consegui me desviar a tempo. O segundo tentou me atacar por trás, mas desferi um golpe com o machado contra seu braço enquanto ele estava momentaneamente cego pela luz. Consegui decepar um dos braços dele, mas infelizmente não foi o qual ele utilizava para manobrar a foice. Um terceiro tentou decepar minhas pernas, e me desviei, mas não rápida o bastante para deixar de levar um corte.
–- Desista, mundana – disse o chefe deles. – Você nunca nos vencerá.
Vamos, Quirina, pensei mentalmente. Não aguentaria lutar contra aquelas criaturas por mais tempo.
Direcionei a luz no rosto de um que ia me atacar pela esquerda e me agachei. Decepei suas pernas e sangue espirrou em meu rosto. Ele emitiu o mesmo som agudo que o outro fizera e me desviei para que ele não me acertasse com a foice em meu pescoço. Deixei-o de lado, já que não poderia andar e voltei minha atenção para os outros dois.
Então vi uma luminosidade flamejante no meio do matagal. Até os Retalhadores pararam de lutar. Labaredas consumiam parte do matagal rapidamente e pude sentir o calor delas há poucos metros de onde estavam.
–- Temos de sair daqui, chefe – disse um deles, virando o rosto para a parte luminosa.
–- É culpa sua! – disse o chefe apontando para mim. – Você quem provocou esse incêndio!
–- Como poderia? – perguntei. – Estava aqui o tempo inteiro. – joguei a lanterna no chão. – Agora, vão fugir mesmo, zumbis?
Eles olharam para mim com o mais profundo ódio. Ergueram as foices e desferiram um golpe certeiro contra meu tórax, mas consegui recuar com um salto. Retalhadores poderiam ser fortes, mas não eram rápidos.
Com as duas mãos segurando o machado, joguei toda a força que pude no golpe contra as pernas deles. Os dois desabaram no chão, urrando de dor. As chamas estavam chegando mais perto de onde estava. Os quatro Retalhadores agonizavam de dor enquanto eu pegava a lanterna do chão. Corri mancando por causa no ferimento na perna para o lado oposto às chamas, gritando:
–- Quirina! Quirina, onde você está?
Senti uma movimentação por entre as plantas ao meu lado e Quirina surgiu completamente suada e com cinzas no rosto e nos cabelos. Corremos a toda velocidade que podíamos. As chamas deveriam ter atingido, a esta altura, o centro do matagal. Não olhamos para trás enquanto corríamos até que, finalmente, chegamos a uma rua de paralelepípedos ladeada por casas.
–- Conseguimos – disse Quirina, ofegante quando paramos de correr.
–- Conseguimos – assenti. Ela me deu um abraço forte enquanto nos virávamos e encarávamos o fogo consumir já a metade do matagal e, provavelmente, os corpos dos Retalhadores.
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