Hunters Of The Death
5 O sequestro
Notas iniciais
Quirina e eu caminhamos pelo condomínio, guiadas pelo mapa que ela carregava nas mãos.
As ruas eram todas de paralelepípedos. Havia uma pracinha perto da entrada do condomínio. Os balanços estavam arrancados e tinha muito sangue misturado à areia. Crianças zumbis vagavam por ali, cercadas pelo arame que circundava a praça. Achei melhor deixá-las ali e não fazer nada. Observá-las me fez lembrar Mark, e eu esperava que ele ainda não tivesse se tornado um – e nem esperava que ele se tornasse um.
As casas do condomínio eram grandes e a maioria tinha dois andares ou mais. Em cada quintal havia plantas e árvores excepcionalmente altas, algumas frutíferas, que deveriam fazer boas sombras em dias de sol intenso. Agora, como havia algumas nuvens tempestuosas no céu, as sombras das árvores tornavam aquele trajeto cada vez mais sombrio.
–- Achei que não conseguiríamos escapar daquele matagal – comentou Quirina quebrando o silêncio.
–- Também achei que não. Principalmente por causa daquelas criaturas.
–- Retalhadores... Não achei que pudessem existir evoluções de zumbis.
–- Nem eu. Mas uma coisa eles nos foram muito úteis.
–- No quê?
–- Eles facilitaram minha busca pelo doutor. – falei. – Creio que não precisaremos ir até o Alasca, como você havia dito. Aquela pode ter sido uma informação falsa que ele ou alguém deu à imprensa assim que os resultados da pesquisa foram questionadas ao doutor.
Quirina ficou em silêncio por um momento, processando a informação. Quando atravessávamos a rua, ela disse:
–- Então você acha que ele está ainda aqui, no Rio?
Assenti.
–- Os Retalhadores foram feitos no laboratório dele. Por mais que sejam criaturas evoluídas de zumbis normais, eles ainda possuem limitações, o que significaria que não poderia ter caminhado em semanas uma distância tão grande como a do Alasca até o Brasil.
–- Isso faz sentido – concordou ela. – É, de certa forma, foi bom eles terem aparecido no matagal.
Concordei com um aceno de cabeça. Algumas coisas, agora, faziam sentido. Perguntei-me se as criaturas que Mark mencionara no meu sonho poderiam ser eles, os Retalhadores. Ele dissera que eram poderosos e perigosos, e que me observavam durante a minha busca. por ele Os Retalhadores que eu havia enfrentado não pareciam ser tão poderosos, apesar dos músculos que tinham e da força que aparentavam ter. Perigosos, sim, eles eram, ainda que fossem evoluções de cadáveres. Mas algo me dizia que eles foram apenas o primeiro grande desafio que eu encontraria a partir dali.
E eu estava certa.
O céu já estava bem escuro quando chegamos a uma rua que era uma ladeira quase íngreme. Tirei duas garrafas de água de minha mochila e entreguei uma para Quirina. Quando a água tocou em minha garganta foi quando percebi o quanto precisava bebê-la. Senti como se minha garganta arranhasse enquanto ingeria o líquido, mas depois não senti mais nada. Quirina me entregou a sua garrafa e guardei as duas de volta na mochila. Peguei a lanterna e nós começamos a subir a ladeira, Quirina se apoiando em minha mochila e eu na frente, empunhando o machado em uma mão e a lanterna na outra. Até agora, não havíamos encontrado nenhum zumbi ou qualquer outra movimentação naquele lugar e aquilo me perturbava. Fiquei observando as casas e a forma como ficavam sombrias naquela escuridão. Passando a lanterna rapidamente por elas, percebi que a maioria era bem antiga, como casas coloniais. Uma brisa gélida soprou contra nós e movimentou as folhas caídas nas calçadas e nas copas das árvores.
Estávamos quase no topo da ladeira e pela luz da lanterna vi vários corpos de zumbis estirados em poças de sangue nas calçadas e em meio à rua também. Iluminei os rostos deles e percebi que em todos havia perfurações na testa provocadas por balas. Algumas cápsulas estavam ao lado de seus corpos ou espalhadas por entre os paralelepípedos da rua. Lembrei-me dos zumbis da loja de conveniência. Talvez a mesma pessoa que havia feito o serviço na loja poderia ter passado por aqui e feito isso também, o que significava uma coisa: ainda existiam humanos, assim como eu e Quirina, que lutavam para sobreviver. Precisava encontrá-los e esperava que estivessem ainda no condomínio.
–- Luna, -- a voz de Quirina me tirou de meus pensamentos. – Acho melhor pararmos em algum lugar para descansarmos. Está muito tarde e nós ainda temos muito que caminhar amanhã.
Eu queria protestar, mas sabia que Quirina estava certa. Pela minha busca incessante por Mark e por vingança, eu tentava superar minhas limitações, mas Quirina não conseguia fazer a mesma coisa que eu.
–- Tudo bem. – concordei. – Mas antes, vamos sair desta ladeira? Só precisaremos descê-la e então procuraremos algum lugar.
Quirina assentiu. Assim que chegamos ao topo da ladeira, percebi que a descida poderia ser bem mais rápida do que a subida. A ladeira se estendia de forma menos inclinada, quase plana, e se separava em duas outras ruas pequenas. Naquela parte, havia alguns zumbis que saíam de uma daquelas ruas, a mais fechada por árvores. Começamos a descer a ladeira, meu machado empunhado, pronto para decepar os zumbis, mas retesei no momento em que ouvi um disparo de arma de fogo e o zumbi a minha frente foi atingido por uma bala, caindo instantaneamente no chão.
–- O que foi isso? – perguntou Quirina assustada.
Antes que eu pudesse responder, um som de motor que roncava ferozmente surgiu no final da rua, há quilômetros de onde eu e Quirina estávamos. Direcionei a luz da lanterna para o local de onde o som vinha e vi um enorme Hummer dirigindo em nossa direção rapidamente. Um vulto estava sobre o carro e empunhava uma arma, atirando em todos os zumbis que via. Os mortos-vivos caíam conforme atingidos, logo não restando mais nenhum ali. Aqueles só poderiam ser os humanos que haviam matado os outros zumbis. Meu coração, por um momento, se encheu de esperança, até o momento em que vi que eles estavam vindo mesmo bem na nossa direção. A arma do homem sobre o carro estava direcionada para mim e Quirina.
–- Se abaixa! – empurrei Quirina contra a calçada, de forma que caí sobre ela quando o homem disparou no local onde há poucos segundo nós estávamos.
–- Vamos nos esconder, Luna! – pediu Quirina enquanto eu me levantava. – Não estou gostando nada disso.
–- Mas eles podem nos aju... SE ABAIXA!
Uma bala passou a centímetros de meu rosto quando rolei para o lado. Quirina me obedeceu bem a tempo e rolou para o lado da calçada.
–- Ei, nós não somos zumbis! – gritei para eles.
Ouvi um dos homens resmungar:
–- Devem ser mais daqueles monstros Retalhadores. Vocês não nos enganam! Isso merece tratamento especial.
Ele largou a arma e pegou um fuzil metralhadora. O carro passaria por nós e os tiros nos matariam assim que ele passasse, pensei. O carro parou a metros de nós, deu ré e começou a acelerar.
Puxei Quirina pela mão e entramos em um lugar frio e pouco iluminado. Quando direcionei a luz da lanterna para ele, percebi que deveria ser um depósito. Mas aquilo não importava. Ele era a nossa única chance de sobreviver. Ouvi o carro derrapar lá fora enquanto eu tentava fechar as portas do galpão. Quirina me ajudou a empurrar as grosas portas de metal. Conseguimos fechá-las e nenhum som mais foi escutado de lá fora.
Comecei a pegar algumas caixas que haviam naquele depósito. Abri algumas delas para ver seu conteúdo. Estavam abarrotadas de comida, porém, estavam em más condições para alimento. Condimentos, enlatados, e algumas garrafas de água, todos guardados naquelas caixas de papelão e que já haviam passado do prazo de validade.
–- Me ajude com essas caixas, Quirina – pedi.
Nós duas amontoamos o máximo de caixas que podíamos. Não sabíamos se poderiam impedir a entrada deles com meras caixas de papelão prensadas contra as portas de metal, mas eu esperava que funcionasse.
Quirina iluminou o interior do depósito com a lanterna. Era bem alto, com paredes de metal que refletiam amplamente a luz da lanterna, tornando o lugar mais iluminado. Tinham montanhas de mais e mais caixas de papelão como as que estavam apoiadas na porta encostadas nas paredes. Uma janela mínima estava localizada perto do teto, perto de um exaustor. O chão era de cerâmica clara, e havia pingos de sangue em algumas partes, mas não havia zumbis ali.
–- Será que eles foram embora? – perguntou Quirina.
Fui até a porta e encostei a orelha para tentar escutar algo do outro lado. Não consegui escutar nada. Fiquei tentada a abri-la, mas eles poderiam estar esperando que fizéssemos isso. Estávamos completamente acuadas naquele depósito. Não havia saída.
–- Acho que eles ainda podem estar aqui, embora eu não ouça nada. – falei.
–- O que vamos fazer, Luna?
–- Sinceramente? Eu não sei.
Encostei-me a parede e me sentei no chão gelado. Eu, de fato, não tinha ideia alguma de como sairíamos dali, mas esperava que alguma surgisse urgentemente. Mas parecia que, quanto mais queremos que algo aconteça naquele momento, ela nunca acontece no momento em que queremos.
Quirina sentou-se a minha frente. Ela mantinha a cabeça baixa, e desenhava coisas invisíveis no chão, como uma forma de se distrair. Coloquei a mão no bolso de minha jaqueta e senti o papel e o broche que eu encontrara próximo ao corpo da mãe de Quirina. Não sabia se sobreviveríamos por mais alguns dias, então resolvi entregar-lhe logo o bilhete.
–- Quirina? – chamei e ela ergueu a cabeça para me encarar. – Encontrei isso próximo ao cadáver de sua mãe, na cozinha de sua casa.
Entreguei-lhe o papel e o broche em suas mãos trêmulas. Os olhos cinzentos dela estavam um pouco lacrimosos. Quirina encarou o bilhete por um tempo, e depois desdobrou o papel. Ainda mantinha o broche de rosa vermelha em uma das mãos. Seus olhos tentavam percorrer as linhas e palavras, mas ela não conseguia. As mãos tremiam muito e logo seus olhos foram tomados pelas lágrimas.
–- Quer que eu leia para você? – perguntei gentilmente. Ela assentiu e me entregou o bilhete.
Comecei a lê-lo:
–- “Minha filha, sei que caso encontre esta carta, você ainda estará viva e isso me conforta, mesmo não estando mais neste mundo. Seu pai teve o pior destino que um humano poderia ter, e eu não gostaria que me encontrasse da mesma forma que ele está. Acredite, não foi por querer; não tivemos escolha, e espero que você entenda. Que você possa se aliar a alguém que possa lhe ajudar a transformar esse mundo em algo melhor. Nós te amamos muito, Quirina. Queríamos ter evitado isso de todas as formas, para que você pudesse viver em um mundo diferente do caos que vive agora. Desculpe por isso, mas tudo o que fizemos ao longo de nossa vida por você, foi sempre, sempre por amor. Esse broche de rosa vermelha que você e seu pai me deram de dia das mães do ano passado, que ele seja um amuleto meu passado para você. Estaremos sempre unidas por ele. Nós te amamos, Quirina.”
Quirina desabou em lágrimas e se apoiou em mim em um abraço desajeitado. Afaguei sua cabeça enquanto ela enterrava seu rosto em meus ombros. Aquele bilhete, sem dúvidas, era uma terrível forma de dizer adeus a alguém, ainda mais quando esse alguém sobrevivera.
Quirina não chorara tanto desde quando vira seu pai como um zumbi. O que acontecera eu já havia previsto, e não a condenara. Ela tinha apenas 12 anos, não tinha que estar pronta para tudo, ainda mais com um bilhete de sua falecida mãe. Antes, eu tinha dúvidas se havia sido muito rígida com Quirina por não tê-la deixado ver o corpo de Elizabeth na cozinha de sua casa, mas agora, vendo-a chorar silenciosamente em meu ombro, percebi que havia feito a decisão certa.
Passamos muito tempo abraçadas, até que Quirina ficou em silêncio. Senti seu corpo amolecer e pesar sobre meu ombro. Ela dormira. Arrumei seu corpo e apoiei a cabeça dela sobre a mochila que eu carregara, como se fosse um travesseiro. A forma da qual ela adormecera inesperadamente me surpreendeu. Mas quando ouvi a sua respiração suave e o movimento que seu diafragma fazia enquanto dormia, percebi que não deveria ser nada demais. Ela apenas adormecera em meio a tristeza.
Voltei meus olhos para o teto escuro e para as paredes de metal. De certa forma, aquele depósito causava calafrios, e um desconforto por ser tão fechado. Não poderíamos passar mais que um dia ali.
–- Nós vamos sair daqui. – sussurrei para mim mesma.
Assim que se fala, garota, respondeu uma voz em minha mente.
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Não sabia que horas eram quando despertei com um som de tiro vindo do lado de fora do depósito. Quirina abriu os olhos também de sobressalto, mas permaneceu deitada. Fora um barulho muito alto e ele só poderia significar uma coisa.
–- Eles voltaram. – Quirina me encarou. Não era uma pergunta.
Ouvi alguns barulhos vindos lá de fora. Ouvi outro disparo e a porta do depósito foi perfurada por uma das balas. Não pensei duas vezes. Quirina ergueu-se e nós duas corremos para os fundos do depósito, onde haviam mais caixas empilhadas umas sobre as outras. Não poderíamos fazer nada naquele momento senão tentar nos esconder. Caso a sorte estivesse ao nosso favor, eles iriam embora sem nos encontrar ali.
Ouvimos mais disparos contra as portas do depósito e depois um estrondo. Quirina tampou os ouvidos e se encolheu contra as caixas. Mantive o machado firme em minha mão, pronto para qualquer coisa que tivesse que fazer. Espiando por cima de uma das caixas, vi a porta ser arrombada violentamente e as caixas serem arremessadas para longe. Agachei-me e prendi a respiração. Por favor, por favor, que eles não nos encontrem aqui, pedi, embora não soubesse a quem poderia pedir esta ajuda.
Infelizmente, minhas preces não foram atendidas.
–- Saiam daí ou mataremos sem dó e nem piedade! – ordenou uma voz masculina. – Sabemos que há dois de vocês aqui neste depósito!
Quirina olhou para mim, assustada. Em meio ao desespero, ela buscava em mim alguma forma de sairmos daquela situação. Mas dessa vez, eu não tinha nenhum plano em mente.
Ouvi um som de arma sendo carregada e a voz ralhou novamente:
–- Nós não temos o dia todo, então, acho melhor eu ir pessoalmente aí tirar quem quer que seja detrás desses entulhos.
Dei um passo para fora de meu esconderijo improvisado. Permaneci com o machado em mãos enquanto encarava os homens.
Um deles era grande e calvo, que usava uma camiseta cinzenta que ressaltava seus músculos enormes dos braços. Presas na calça camuflada estavam duas pistolas e ele usava um cinto com balas. Tinha os olhos selvagens e a expressão tensionada, como se quisesse parecer mal o tempo todo.
O outro homem era mais baixo e esguio, de cabelos terrosos e expressão desdenhosa. Usava camiseta preta por debaixo da jaqueta jeans e calça camuflada também. Tinha uma arma de grande porte presa nas costas e mantinha uma pistola apontada para mim. Sua boca formou um sorriso de aprovação ao me ver.
–- Ora, -- ele disse e percebi que ele era o homem que gritara ao chegar. – eu esperava outra coisa, mas é bem melhor do que eu esperava.
Seu companheiro riu e o som foi como um rosnado de animal de grande porte. O cara com a arma apontada para mim começou a avançar. Preparei o machado em sinal de ameaça e ele retesou.
–- Vejo que você não parece ser tão covarde como os outros. Mas terá de mostrar mais do que coragem.
–- Então seja homem o bastante e lute dignamente. – falei de forma mais calma que pude. Senti Quirina se mover atrás de mim, buscando proteção. Não deixaria que nenhum deles tocasse nela.
–- Afinal de contas, uma arma de fogo é bem útil, quando usada para combates a distância. – continuei. -- Mostra o quanto você é covarde.
O homem trincou os dentes com raiva. O outro grandão começou a avançar para mim, sacando as duas pistolas do cinto e apontando para mim. Ergui o machado e ele não parou de avançar. Parti pra cima dele e ele disparou contra mim. Agachei bem a tempo de sentir a bala passar pouco acima de minha cabeça. Torcia para que Quirina tivesse se escondido ou conseguido escapar. Com a lâmina do machado, golpeei o braço dele, provocando um corte profundo, mas não chegando a desmembrar sua mão. Ele urrou, e jogou a arma no chão. Mesmo não fazendo ideia de como usá-la, recolhi a arma. Enquanto ele olhava assustado e frustrado para o ferimento que saía muito sangue, dei um chute forte o bastante em seu diafragma, fazendo-o cambalear e cair. Não vi o seu companheiro em lugar nenhum. Talvez tivesse fugido.
Ouvi um grito e a voz de Quirina:
–- Luna! Socorro!
O outro capanga estava com um dos braços em torno dos ombros dela, segurando-a bem forte e de forma bruta, enquanto Quirina esperneava e gritava. Ele tirou um lenço do bolso e o pressionou conta o nariz dela. Aos poucos, ela parou de se mexer, desmaiando nos braços do homem.
–- Solte-a agora! – gritei, pouco me importando com os zumbis que seriam certamente atraídos pelo meu grito. Eles já viriam pra cá apenas pelos sons dos disparos que o homem havia feito com a arma.
Senti um golpe muito forte na cabeça que me fez largar a arma e cair no chão. Minha visão ficou turva até que caí novamente na escuridão.
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–- Onde as encontraram?
–- Naquele enorme depósito de alimentos daquele condomínio.
–- Deram uma pancada muito forte na cabeça dessa, hein? Se ela não acordar, terão de se explicar ao chefe.
–- Que ele se dane! Só espero ter tempo de me divertir com ela um pouquinho antes de entregá-la a eles...
As vozes ecoavam em minha cabeça. Abri os olhos lentamente, e o ambiente onde eu estava começou a entrar em foco. Era um quarto velho e que cheirava a mofo. Havia pouca luminosidade solar no local, mas ainda assim consegui distinguir o que tinha nele. O chão era de tábuas que continham uma grande camada de poeira sobre ele, assim como em cima da mesa de madeira antiga no canto leste. Montes de engradados de cerveja, alimentos e armas estava empilhado perto de um armário que tivera as portas arrancadas. As janelas haviam sido vedadas por tábuas grossas de madeira.
Senti uma dor horrível atrás da cabeça, onde havia recebido o golpe. Tentei me mover. Não conseguia. Senti uma fisgada no braço direito quando tentara erguer a mão e percebi que eu fora amarrada com os braços para trás da pilastra. Minhas pernas também não se moviam. Eu estava firmemente presa a uma pilastra de madeira.
–- Olha só, -- disse um dos homens, o que atacara Quirina, a me ver tentar me mexer. – a Bela Adormecida finalmente acordou.
Ele caminhou até minha direção e se prostrou diante de mim, como se me avaliasse. Acariciou minhas bochechas e virei o rosto bruscamente para evitar que ele me tocasse novamente.
O homem sorriu e pude ver seus dentes amarelos e um corte no lábio inferior.
–- Ainda é guerreira mesmo amarrada, minha jovem? Vamos ver se você continuará assim.
O outro homem apenas olhava. Percebi que ele não estava no ataque ao depósito junto com os outros dois. Era um rapaz de cabelos pretos e lisos, moreno e seus olhos azuis eram tristes por trás dos óculos com lentes quadradas. Estava recostado à porta, como alguém aleatório ao que acontecia na sala.
–- Onde está Quirina? – perguntei com raiva.
–- A sua amiguinha loira? Bom, digamos que se você não colaborar com o interrogatório, ela sofrerá bastante.
Ele deu uma risada e cuspi em seu rosto. Sentia cada vez mais repulsa por aquele homem.
Limpando a minha saliva de seu rosto, ele fixou seus olhos em mim.
–- Onde estão os outros? – perguntou em tom de voz firme e autoritário.
–- Não sei do que está falando.
Inesperadamente, senti sua mão grande e pesada em meu pescoço, apertando minhas vias respiratórias. Minha visão estava ficando enevoada a cada segundo que ele mantinha o forte aperto em torno de meu pescoço.
–- Querida, todos os que disseram isto para nós acabaram em um destino bem pior do que aqueles cadáveres podres que andam pelas ruas.
–- Mas... eu... realmente... não sei... do que está... falando -- respondi. Cada palavra era dificilmente pronunciada por mim.
–- Marcos! – advertiu o rapaz na porta.
O homem, Marcos, afrouxou um pouco o aperto em minha garganta contra a vontade e esperou.
–- Eu não sei quais são os outros de que está falando. – falei com dificuldade.
Marcos ergueu uma sobrancelha, inquisidor. Pegou um pequeno canivete do bolso da calça e acionou a lâmina que brilhava intensamente.
–- Será que algumas gotas de sangue revivem sua memória? – enquanto ele falava, encostava a lâmina do canivete em meu rosto.
–- Marcos, pare. Lembre-se do que o chefe poderia...
–- Já falei que quero que o chefe se dane, Hans! – gritou o homem, virando-se para o cara. – Saia daqui, eu vou continuar a interrogá-la, anda, sai!
Hans deu uma última olhada para mim e deu as costas para o quarto, sumindo de vista pelo corredor. Agora eu estava com medo. De alguma forma, Hans refreava um pouco o impulso louco de Marcos em fazer algo contra mim.
Marcos voltou seu olhar para mim e começou a andar lentamente ao meu redor.
–- Vou refrescar sua memória, bonitinha. – falou. -- Esses outros que estou perguntando são os seus amiguinhos refugiados, sobreviventes ainda desse apocalipse. Então, refrescou sua memória?
Não respondi, apenas absorvi-a tudo o que tinha escutado. Existiam ainda sobreviventes em meio a esse caos, além desses caras? Eu tinha que encontrá-los onde pudesse. Mas isso dependeria se eu sobrevivesse e fugisse daqui com Quirina. Por isso, tentei criar algum plano, embora fosse difícil com aqueles olhos castanhos psicóticos me encarando.
–- Tá vendo toda aquela comida e as armas? – ele pegou meu queixo e me forçou a olhar em direção ao monde perto do armário. -- Nós tiramos de três grupos de refugiados que assaltamos. Eles acharam que poderiam simplesmente negar para nós, tsc, tsc. Nós matamos todos – ele riu com gosto. – Foi muito divertido ver os rostos assustados deles gritando enquanto corriam.
Eu fiquei assustada com a forma que ele dizia aquilo tudo de forma tão calma e até achando graça. Humanos poderiam ser bem piores que uma legião de zumbis, uma vez que estes só matavam para se alimentarem. Não eram todos os humanos ruins, mas a sua grande maioria era assustadoramente cruel.
–- O nosso chefe não quis que matássemos você e sua amiguinha quando soube que as capturamos. Ele disse para mantermos vocês duas vivas até que ele chegasse. De alguma forma, ele teve interesses em vocês duas. Mas acho que ele não vai se importar se eu tirar uma casquinha de você enquanto ele não chega...
Marcos tocou meu pescoço e seu toque foi até minha clavícula.
–- Tire suas mãos de mim! – vociferei.
–- E o que você poderá fazer, quando está amarrada? – perguntou desdenhosamente. – Sabe, apesar de ser bravinha demais, você é muito bonita. Uma beleza oriental e diferente. Não tenho contato com mulheres assim há muito tempo.
–- Você é nojento! – falei. -- Eu te odeio mais que tudo nesse mundo! Você e seus capangas idiotas e covardes!
Marcos parou de andar e me encarou por um momento. Fuzilei-o com o olhar, tentando com todas as forças que meu ódio fosse bem perceptível além das palavras. Ele guardou o canivete novamente no bolso da calça e começou a se aproximar de mim. Suas mãos afagaram meu rosto e tentei me desvencilhar de seu toque, mas era difícil. O rosto de Marcos estava bem próximo do meu quando Hans apareceu novamente na porta do quarto.
–- Marcos! – chamou ele. Nunca fiquei tão feliz em vê-lo aparecer novamente ali.
–- Não vê que estou ocupado, Hans? – Marcos pronunciou cada palavra lentamente, reprimindo sua raiva numa tentativa de controle na voz. Ele não encarou Hans, ainda mantinha-se virado para mim.
–- Redlin quem me mandou aqui. – ele explicou. – Ele disse que encontrou outro grupo de refugiados na altura da Praça Seca. Disse também que estão bem abastecidos de tudo que precisamos e mais alguns outros mantimentos.
Marcos virou-se para Hans e deu murmurou algo consigo mesmo. Ele voltou-se para mim e passou o dedo pelos meus lábios e eu o mordi. Ele deu uma risada nervosa enquanto puxava a mão para si e a sacudia.
–- Mais tarde eu volto para te pegar, tigresa. – ele disse em tom desdenhoso. – Nem pense em fugir.
Com passos largos e pesados, ele deixou o quarto, com Hans em seu encalço enquanto este fechava a porta.
Preciso sair daqui, pensei comigo mesma. De qualquer jeito.
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