Hunters Of The Death
8 O acerto de contas
Notas iniciais
No minuto seguinte, Quirina, Hans e eu já estávamos novamente dentro do carro, dirigindo o mais rápido que o carro poderia aguentar, supus. Atravessamos a ponte e a mensagem que nela estava escrita e seguimos adiante, em direção a Barra.
–- Deixe-me adivinhar – falei. – foi sua a ideia daquele alarme?
Hans confirmou.
–- É um radar que permite que possamos visualizar qualquer corpo em movimento próximo a 2 km de onde estamos. Foi uma das ferramentas que instalei no carro sem o conhecimento de Redlin ou Marcos.
–- Com certeza eles o usariam para fins lucrativos. – disse Quirina e Hans concordou.
A ideia de que Marcos estivesse tão perto de nós por um momento era tão repulsiva que cheguei a ter ânsia. Esperava não ter que ver o dono daqueles olhos psicóticos e personalidade cruel tão cedo, ou nunca mais, se fosse possível. Hans salvara a minha vida e a de Quirina duas vezes.
Estávamos em uma avenida difícil de nos locomover. Vários carros estavam espalhados das mais diversas formas – alguns até capotados – pelo asfalto. Gasolina e sangue se misturavam no chão, e temi que não conseguíssemos passar por ali, mas Hans conseguiu costurar por entre os carros de forma ágil e inteligente, e o carro deslizou algumas vezes pelas poças, mas nada que pudesse causar um acidente.
Não sei por quanto tempo estávamos dirigindo pela Avenida das Américas, mas até aquele momento, a sirene não disparara nenhuma vez mais e aquilo me deixava cada vez mais apreensiva. Sabia que eles não iriam nos deixar em paz enquanto não nos capturassem.
Ou enquanto não nos matassem.
Subimos uma passarela e enquanto a percorríamos, escutei um som de tiro e um estrondo há poucos quilômetros atrás de nós. No mesmo tempo, Hans e eu encaramos o radar. Um pequeno ponto verde parecia estar nos seguindo na mesma velocidade que percorríamos.
–- Estão se aproximando. – falou Quirina, com medo na voz.
–- Sim, mas como estão distantes de nós por aproximadamente 7 km, -- informou Hans. – o radar não chega anos alertar sonoramente.
–- Temos que sair dessa rota e despistá-los. – falei. – Eles devem estar nos seguindo de algum jeito...
Antes que eu pudesse terminar a frase, o espelho retrovisor do meu lado estilhaçou e alguns cacos caíram dentro do carro, sobre minhas pernas e senti um atravessar minhas bochechas. Por sorte, eu havia colocado as mãos sobre meus olhos para tentar ser atingida por algum neles. Observei o que restara do espelho e vi um buraco formado por uma bala.
–- O que foi isso? – Quirina se assustou. – Luna, você está bem?
Toquei minha bochecha e senti meu sangue na ponta dos dedos.
–- Sim, estou bem. – respondi. – Mas acho que sei o que foi isso. Quem fez isso.
Não foi necessário dizer nada. O alarme do radar começou a soar de forma estridente de novo, e ouvimos um grito que confirmava as nossas suposições:
–- NÃO VAI ADIANTAR TENTAR ESCAPAR DA GENTE, SEUS IDIOTAS! – gritou Marcos. – VOCÊS ESTÃO CERCADOS!
Hans dirigiu com mais velocidade e enquanto descíamos a ponte, escutamos mais sons de disparos que erravam nosso carro por pouco. Talvez Marcos estivesse tão furioso que não tinha noção do seu alvo de forma precisa.
–- O que faremos? – Hans perguntou.
–- Por enquanto, só dirija o mais rápido que puder, Hans. – falei para ele.
–- Mas temos que fazer algo, ou eles vão conseguir nos pegar ou matar. Tem algum plano?
–- Estou pensando em um.
Enquanto percorríamos a avenida, tive uma ideia súbita e que pudesse, dessa vez, arriscar e muito as nossas vidas. Mas ou era isso ou ser capturada de novo.
–- Hans, vá em direção ao Barrashopping, pelo viaduto.
–- Isso faz parte de algum plano?
Assenti.
–- Mas ele poderá dar errado.
–- Vamos nessa. – disse Quirina.
Hans fez uma curva e seguiu em direção ao viaduto que eu lhe dissera. Tinha certeza de que Redlin e Marcos nos seguiriam, não importasse se estivéssemos indo para o céu ou para o inferno; eles não hesitariam em nos seguir.
–- Hans, tem alguma arma aqui no carro? – perguntei e ele não se surpreendeu com minha pergunta.
–- Tem mais no porta-malas, mas sempre guardo uma comigo aqui. – ele tirou de debaixo do banco uma pequena pistola. – Essa é uma Smith & Wesson M37, cuidado ao manuseá-la. Aliás, para quê vai usá-la?
–- Antes, só me responda uma coisa: é impressão minha ou aquele carro deles é blindado?
Hans suspirou.
–- Infelizmente, sim, o que não tornaria fácil para nós.
–- Mas ele é totalmente blindado?
–- Não mais – Hans sorriu de forma sarcástica. – Há alguns dias, quando Redlin e Marcos estavam em algum trabalho para o chefe, eu havia colocado em prática o meu plano de fuga que eu não sabia quando iria dar certo.
–- Continue – incentivei-o a dizer logo o que me interessava.
–- Eu troquei os pneus do Hummer, que eram todos blindados, por pneus comuns. Eles são o único ponto fraco daquele carro agora.
Era tudo o que eu precisava ouvir. Hans começou a subir o viaduto e mais sons de disparos vieram atrás de nós. Parecia que eles se aproximavam ainda mais. Hans desligou o alarme, uma vez que não era necessário o alerta dele para que percebêssemos que havia uma movimentação muito próxima de nós. Não me atrevi a direcionar meu corpo para fora da janela enquanto eles continuassem a disparar contra nosso carro. A munição acabaria uma hora ou outra, e eu aproveitaria esse momento para colocar meu plano em ação.
Esperar parecia ser uma eternidade. Enquanto percorríamos o viaduto, eu pensava se conseguiríamos escapar dessa vez. Eu preciso tentar, pensei. Pelo menos não terá sido tudo em vão caso não dê certo.
Os sons de tiros cessaram por um breve momento, e aproveitei a minha deixa. Coloquei parte de meu corpo para fora da janela e vi o carro a pouquíssimos metros de onde estávamos. Quando me viu, Marcos deu um sorriso satisfeito e gritou:
–- Estou indo aí te pegar, minha tigresa! Não deixarei que escape de mim assim tão facilmente!
–- Lamento, mas terei de acabar com seus planos – sussurrei com satisfação na voz.
Tentei mirar a arma nos pneus dianteiros do Hummer, de forma que a arma quase não fosse perceptível a Marcos. Coloquei o braço por cima e no espaço entre o cotovelo e a janela, posicionei a pistola. Marcos atirava na direção dos pneus do Toyota, mas era em vão; as balas não os atravessavam de forma alguma. Agradeci mentalmente a Hans, que tomava o cuidado ao dirigir para que eu conseguisse atirar.
Apontei a arma na direção do pneu esquerdo e puxei o gatilho.
Não percebi mudança alguma no pneu, ele permaneceu intacto. A distância entre nós estava oscilando muito e não conseguia ter uma noção de distância. Recuei para o interior do carro e pedi a Hans:
–- Diminua a velocidade.
Ele me olhou incrédulo.
–- Você é louca? Vão nos pegar se fizermos isso.
–- É a única forma de conseguir atingir o alvo, Hans. Por favor, faça isso.
–- Espero que saiba o que está pedindo – resmungou, mas percebi que no velocímetro estávamos reduzindo a velocidade.
Voltei para a janela e me virei para vê-los. O Hummer se aproximou rapidamente de nós, e a distância entre Marcos e Redlin de nós era de poucos metros. Era novamente repulsivo conseguir visualizá-lo tão próximo de nós, mas fiz um esforço para me focar apenas nos pneus do carro e nada além deles. Mas Marcos não estava tornando isso tão fácil.
–- Traidor, é isso que você é, Hans, um traidor! Depois de tudo o que fizemos por você, é assim que você nos paga, não é? Ainda por cima rouba as iscas do chefe! – ele gritava sacudindo a arma de forma ameaçadora para nós.
Tentei ignorar os gritos de Marcos e voltei minha atenção aos pneus. Estávamos em uma parte que a ponte fazia uma curva. Esse era o momento perfeito. Mirei novamente e atirei uma, duas, três vezes no pneu direito. Atirei mais uma vez para garantir que o meu plano se executasse como era previsto. E aconteceu.
Redlin tentou desesperadamente fazer algo, mas, ao desviar para a esquerda de um cadáver no chão, os pneus entraram em contato com sangue e gordura, o que fez com que o carro derrapasse e colidisse, o seu peso fosse para o lado esquerdo. Parecia uma cena em câmera lenta: vi Redlin tentando manobrar o carro para o lado oposto, em uma tentativa de conseguir escapar do incidente que viria ocorrer a seguir.
O carro capotou na beira da ponte e ultrapassou o muro de contenção, caindo lentamente na direção das águas poluídas do rio. Ouvimos um forte estrondo do Hummer em contato com a água e depois o silêncio predominou.
Voltei para dentro do carro ainda em movimento e suspirei.
–- Conseguimos.
Quirina não se continha de felicidade. Abraçou-me por trás do banco do carona e me deu muitos beijos nas bochechas, eufórica.
–- Você conseguiu, Luna! Sabia que conseguiria! – falou.
–- Não teria conseguido sem o nosso motorista precavido aqui – dei uma piscadela para Hans, que, por um momento, ficou sem jeito diante de meu elogio.
–- Os créditos são seus, Luna. Você quem teve esse plano que, cá entre nós, tinha poucas chances de dá certo dependendo de quem o executa. – ele disse, me encarando por um tempo com um sorriso nos lábios.
Foi a minha vez de ficar sem reação diante do elogio. Torci para que Hans não percebesse isso, por isso, resolvi mudar de assunto.
–- Acham que eles ainda estão vivos? – perguntei.
–- A queda foi alta, e o impacto na água deve ter sido bem forte, principalmente com um carro pesado daqueles. – respondeu Quirina. – Sinceramente, acho que não sobreviveriam.
Hans não me respondeu. Permaneceu com o rosto para frente enquanto o carro descia a ponte e fazia o retorno em direção a nossa rota principal que levaria a minha casa. Mesmo com o que tínhamos feito, ele não parecia satisfeito com algo.
– O que acha, Hans? Você tem uma resposta para isso, eu sei que tem. – falei.
–- Sendo sincero, -- ele disse – sinto que eles não morreram. Mesmo com essa queda, ainda sei que eles podem estar vivos.
–- Parece que você quer que eles estejam...
–- Não é uma questão de querer! – gritou batendo com a mão no volante. Olhei para ele, surpresa com sua reação. – Me desculpe, -- suspirou -- eu não queria gritar com você.
Ficamos em silêncio enquanto percorríamos a avenida. O céu estava escurecendo cada vez mais. Quando passávamos em frente ao Barrashopping, percebi uma movimentação diferente no estacionamento. Dois vultos caminhavam no estacionamento em direção ao prédio, os três correndo e se escondendo de vez em quando atrás de alguns carros. Não deveriam ser zumbis, mas poderiam ser Retalhadores. Tive vontade de pedir a Hans que estacionasse, mas achei que não seria o melhor a pedir depois da reação que ele tivera.
Nem foi necessário pedir que Hans parasse o carro. Ouvimos roncos estrondosos do motor do carro e este parecia reduzir drasticamente a velocidade, até que paramos a poucos metros do shopping.
–- O motor morreu – anunciou Hans.
–- Deu pra notar – comentou Quirina.
–- Estamos a poucos metros do shopping. Podemos dar uma passada lá. – sugeri.
–- O que faremos lá? – perguntou Hans, desconfiado.
–- Vamos dar uma olhada, e podemos também pegar algum carro do estacionamento. Creio que alguns lá devem estar em bom estado.
Quirina concordou, mas Hans ficou me olhando desconfiado por alguns instantes. Por fim assentiu e respirei aliviada. Será que ele desconfiava do que eu pretendia fazer no estabelecimento?
Saímos do carro e fomos até o porta-malas. Quando Hans o abriu, fiquei completamente surpresa com tudo o que havia nele. Armas, alimentos e bebidas e três mochilas de lona com alguns objetos de primeiros socorros. Ele entregou uma mochila para mim e uma para Quirina. Colocou a última sobre seus ombros e pegou um fuzil e o recarregou.
–- Você havia planejado tudo mesmo antes de fugir. – disse Quirina olhando o conteúdo do porta-malas.
–- Como eu havia dito, estava planejando isso há muito tempo. – Hans respondeu.
Pegamos alguns alimentos e garrafas de água e colocamos em nossas mochilas, o suficiente para que o peso não nos atrapalhasse caso precisássemos correr. Ele se virou para mim antes de fechar o porta-malas e perguntou:
–- Não vai pegar nenhuma arma?
Tirei o machado que estava preso a minha perna e o mantive firme em minhas mãos.
–- Ele é suficiente para mim.
Hans deu de ombros e fechou o porta-malas. Demos as costas para o carro e caminhamos em direção ao shopping, mal sabendo as surpresas que encontraríamos naquele lugar.
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