Hunters Of The Death

7 Em busca da liberdade


Notas iniciais
Novamente, desculpem pelo atraso. O motivo é o mesmo que o do capítulo anterior, mas aqui está, mais um capítulo da história de nossa heroina, Luna. Espero que gostem e comentem ^^ Boa leitura!

O plano de Hans era o seguinte: ele, Quirina e eu iríamos ter que sair pela porta dos fundos da casa e correríamos por nove metros até o final da rua, onde havia um grande muro de uma casa abandonada na qual onde estava o carro que garantiria nossa fuga. Quais eram as chances daquele plano dar certo?

–- Uma em mil – admitiu Hans enquanto escutávamos o seu plano. – Mas tudo pode dar certo se fizermos de acordo com o planejado.

–- Quirina não está em condições de correr metros, Hans – lembrei. – Ela mal consegue ficar de pé.

–- Não, Luna, eu... eu consigo – Quirina se desprendeu de meu braço e tentou andar sozinha, mas quase teria caído no chão se não fosse Hans segurando-a.

–- Não quero ser um fardo para você, Luna – ela disse com a voz chorosa. – Me deixe e vá logo antes que eles cheguem.

–- Nunca faria isso, Quirina. – respondi ofendida. – Ou vamos juntas ou não irá ninguém.

Quirina assentiu e estremeceu quando escutamos mais um disparo de arma de fogo ecoando lá fora. Só temos alguns segundos, pensei. Eu não conseguira pensar em nenhum plano, então teríamos que por em prática aquele que Hans nos propôs.

–- Eu posso carregar Quirina até o carro – sugeriu Hans.

Olhei para ele surpresa.

–- Faria isso por ela? – perguntei.

–- Farei isso por vocês duas.

O silêncio tomou conta do ambiente. O único som que podia escutar eram o de nossas respirações. Hans estava se mostrando muito prestativo. Prestativo demais. Por um momento, voltei a pensar se ele não estava planejando algo contra nós com aquela história de fugir no carro, mas aquele silêncio era tão perturbador que só consegui dizer:

–- Hans, estou de acordo com seu plano. Se for algo que vai nos ajudar a fugir daqui, ótimo, porém – ergui o machado na direção dele. – se for um plano seu junto com aqueles caras, não hesitarei em matá-lo.

Hans deu um sorriso e assentiu.

–- Vamos então.

Hans se agachou e ajudei Quirina a subir nas costas dele. Ajudei-a a passar o braço pelo pescoço dele e Hans se ergueu nervosamente. Começou a subir os degraus lentamente enquanto Quirina se segurava para não cair. Quando eles emergiram pela abertura, subi as escadas agilmente e fechei o alçapão assim que passei por ele. Senti um alívio em sair daquele porão claustrofóbico. Antes de sair da sala, coloquei o cadeado no fecho sobre o alçapão. Seria uma forma de despistar por minutos os bandidos.

Hans me esperava, com Quirina em suas costas. Ele caminhou para um corredor escuro cujas tábuas de madeira do chão pareciam incrivelmente frágeis aos nossos pés. Os retratos nas paredes pareciam acompanhar nossos passos.

Chegamos a uma porta escura e Hans a indicou para mim. Girei a maçaneta e senti uma corrente de ar quente contra meu rosto ao abrir a porta. A porta dava para uma viela de paralelepípedos e ladeada por casas e grandes árvores frutíferas. Não havia som algum naquela rua-fantasma.

–- Vai à frente – disse para Hans. Ele passou por mim com passos apressados e fechei a porta atrás de nós.

Corremos o mais rápido que podíamos. Deixei Hans ir à frente para que pudesse indicar o caminho para que eu o seguisse. Até aquele momento, não escutei nenhum som de tiro, o que era bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque poderia significar que eles já deveriam ter chegado a casa; ruim porque eles perceberiam logo a nossa fuga.

–- Estamos chegando – anunciou Hans, quando fazíamos a curva pela esquerda. – Logo depois daquela casa...

Ele se calou e parou subitamente de correr e percebi o porquê. A nossa frente, mais de trinta zumbis cambaleavam em nossa direção, vorazes. Mais alguns surgiam vindos das outras casas. Apenas dois metros nos separavam deles.

–- Devem ter sido atraídos pelo barulho dos tiros que aqueles idiotas fizeram – comentei.

–- Como passaremos por eles? – perguntou Quirina.

–- Eu irei à frente e matarei quantos forem necessários para abrir espaço para nós. – falei.

–- Mas são muitos para você, Luna. – Hans se preocupou.

Segurei o machado com mais força.

–- Eu sei, e por isso que vou exterminá-los o mais rápido que puder. – dei um sorriso confiante para eles. – Prestem atenção e me sigam quando for possível.

Dei um passo em direção aos zumbis. Eu tinha que conseguir enfrentá-los e sair viva, afinal, não era a primeira vez que eu me via defronte a um mar de mortos-vivos. Agora, Quirina e Hans dependiam de meu bom desempenho e eu não podia esperar mais.

Ergui o machado comecei a correr na direção dos mortos. Desferia golpes certeiros em seus pescoços e jorros de sangue cobriam meu rosto e meus cabelos. Não esperava eles sentirem minha presença para atacá-los: eu ia em direção ao perigo. Mas era um perigo que eu poderia exterminar, só dependia da minha vontade.

Quando eu exterminara mais da metade dos zumbis, já estava cansada e coberta de sangue misturado ao meu suor. Olhei para trás e vi Hans de olhos arregalados e Quirina com o rosto apoiado em seu ombro direito, sorrindo para mim.

Fiz sinal para Hans se aproximar com Quirina e ele obedeceu de imediato. Um ou outro zumbi, quando se viravam na direção deles, Hans retesava e eu decapitava os mortos, permitindo que ele e Quirina passassem. Hans contornou o muro de tijolos vermelhos e eu o segui, encontrando, oculta por alguns caixotes e papelões, uma Toyota Bandeirante verde-escura e antiga.

–- Esse era o carro que usavam antes? – perguntei. – Um Hummer parece ser mais resistente.

Hans colocou Quirina no chão e começou a tirar os caixotes e papelões de cima do carro.

–- Bem, -- disse. – olhando assim, não parece grande coisa, mas há muito que venho trabalhando em algumas coisas nela para se tornar um carro útil para o apocalipse. Ajude-me com esses papelões.

Retiramos toda a camuflagem de cima do carro e a largamos de qualquer jeito. Abri a porta de trás do carro e ajudei Quirina a entrar nele. Hans foi para o outro lado, abrindo a porta do motorista. Quirina deitou-se no banco traseiro do carro enquanto eu me acomodava no banco do carona. Hans colocou a chave na ignição e fechou a porta. O ronco do motor ao ser ligado parecia muito mais alto do que o normal, mas isso deveria ser fruto de meu temor em que Redlin ou Marcos pudessem aparecer a qualquer momento. Hans manobrou o caro para a direita e foi desviando dos corpos e de partes deles espalhados pelo chão. Lentamente, conseguimos sair da rua e retornamos pelo caminho de onde viemos.

Enquanto fazíamos a curva no final da rua – o que parecia um trajeto interminável quando se está apreensiva – não conseguia evitar olhar a cada segundo para o espelho retrovisor a procura do menor sinal do Hummer preto. Quirina permanecia imóvel no banco, a cabeça apoiada sobre os braços cruzados. Ela deveria ter praticamente desmaiado de cansaço. Hans seguiu meu olhar até ela e disse:

–- Deixe-a descansar um pouco. Você poderia fazer o mesmo.

Balancei a cabeça de forma negativa enquanto fitava a paisagem pelo para-brisa.

–- Só descansarei quando estivermos bem longe daqui.

Hans assentiu, distraído.

–- Boa ideia.

O silêncio predominou na atmosfera do carro, aliado a tensão que parecia emanar de mim. Observei Hans de esguelha. Ele dirigia com atenção, mas ao mesmo tempo estava tão calmo que cheguei a invejá-lo. Desviei meu olhar para onde estávamos dirigindo. O trecho estava ficando cada vez mais sombrio. Estávamos em uma estrada ladeada por árvores cujos galhos superiores eram entrelaçados uns com os outros.

É um bom lugar para uma emboscada, pensei, olhando para o espelho retrovisor pela enésima vez.

–- Está me deixando nervoso. – informou Hans.

Olhei pra ele.

–- O quê?

–- Ficar olhando todo segundo para a janela, está me deixando nervoso. – explicou me encarando.

–- É inevitável. Essa estrada é tão... perturbadora. Tem certeza de que temos que passar por aqui?

–- Esse é o caminho mais rápido até a Barra. Quanto mais cedo chegarmos lá, melhor seria, não?

Assenti e virei meu rosto para a direção oposta, recostando minha cabeça na janela. O vento estava morno e o céu estava bastante nublado, embora ainda não houvesse sinais de uma chuva imediata. Suspirei pesadamente e senti a pálpebras pesando sobre meus olhos, e fui completamente tomada pelo cansaço.

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No sonho, eu estava em um lugar totalmente oposto ao último sonho que tivera. Era tudo tão claro que, ao mesmo tempo, tornava tudo quase impossível de se enxergar. Coloquei a mão direita sobre os olhos numa tentativa de bloquear um pouco a luz e senti uma fina corrente escorregar pelo meu pulso. Aproximei minha mão na altura dos olhos e, quase semicerrando as pálpebras, consegui enxergar três números gravados em uma pequena chapa de metal da pulseira: 783. O que aquilo significava?

Uma figura surgida de repente prostrou-se diante de mim e gritei de pavor ao vê-la. Usava uma capa preta e a única coisa possível de se visualizar em seu rosto eram dois pontos vermelhos flamejantes na altura dos olhos. Na mão direita pálida e de dedos finos, o vulto segurava um corpo pequeno e pálido de uma criança, retorcido como um boneco de pano. Sua roupa branca possuía uma enorme mancha de sangue e quando a mão movimentou-se e mexeu o corpo que segurava, vi um grande buraco onde estaria o coração daquela criança. Na outra mão o vulto segurava o coração da criança, que ainda gotejava sangue no chão.

Quando observei atentamente o corpo e o rosto da criança, o reconhecimento foi como uma faca cravada em meu peito. Gritei em negação; aquilo não podia ser verdade. Ele ainda estava vivo! Aquilo tudo era mentira, só poderia ser.

A criança nas mãos do vulto, era Mark.

A voz do vulto era aguda como uma faca cuja lâmina era raspada contra o asfalto:

–- Você é a próxima!

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Abri os olhos num rompante. Senti minha respiração acelerada, assim como meus batimentos cardíacos. Aquilo tudo tinha sido apenas mais um pesadelo. Mas havia sido tão vívido que ainda parecia que vestígios daquela voz ecoavam em minha mente, assim como a imagem de Mark...

Não, ele ainda está vivo, disse a mim mesma. Por mais real que parecesse o sonho, eu sabia que Mark ainda estava vivo. Não sabia o que exatamente me fazia ter certeza disso. Talvez fosse o amor que nos unia, e a esperança que ainda me mantinha viva e persistente em minha busca por ele.

Quirina estava acordada e conversava com Hans do banco de trás do carro. Quando ambos viram que eu despertara repentinamente, calaram-se de imediato. Ela olhou para mim e perguntou cautelosamente:

–- Está tudo bem, Luna? Teve um pesadelo?

Assenti.

–- E esse foi um dos piores. – falei.

–- Com o quê sonhou? – quis saber Hans.

Hesitei em respondê-lo. Não me sentia confortável em dividir aquele pesadelo com ninguém. Pelo contrário, eu queria de alguma forma apagá-lo para sempre de minha mente, mas parecia impossível. Seria aquele outro aviso?

O carro deu uma freada tão brusca que eu quase teria atravessado o para-brisa se não tivesse colocado as mãos no painel para me apoiar.

–- Ficou maluco? – perguntei, irritada, a Hans.

–- Você sabe que deveria estar usando o cinto de segurança quando está em um carro em movimento. – respondeu ele.

–- Obrigada pela recomendação, senhor. – ironizei.

Hans tossiu, o que me pareceu que estava escondendo uma risada.

–- Mas é sério, você deveria ver que passavam nos comerciais que...

–- Não quero saber disso, Hans! Quero saber por que parou repentinamente.

Ele indicou o para-brisa. Havíamos parado em uma ponte larga o suficiente para três carros passarem ladeados, e em cada lado havia barras de proteção, em algumas partes, retorcidas. Nenhum zumbi estava por ali, mas a paisagem era, de algum modo, perturbadora.

–- Não gosto desse lugar – comentou Quirina, apoiando os cotovelos em cada banco da frente.

–- Vamos atravessar a ponte, Hans. Hans?

Ele abrira a porta do carro e saíra em silêncio. Quirina e eu nos entreolhamos e tomamos a mesma decisão: segui-lo.

Assim que fechei a porta do passageiro, desejei ter ficado dentro do carro. Quirina arfou ao meu lado. Uma extensa mancha de sangue estava espalhada em vários sentidos no centro da ponte. Hans estava mais próximo do centro e Quirina e eu fomos até onde ele estava parado. Imediatamente, entendi a expressão assustada de Hans.

Não era apenas uma mancha de sangue no chão. Era uma mensagem. E ela estava direcionada a mim:

Lua que ilumina as terras do vale latino,

sua luz deve traçar seus caminhos novamente.

Aquilo que procura não é como um farol,

Que poderá ser encontrado de repente.

O céu começou a escurecer e a luz do sol poente irradiou sobre as palavras escritas na ponte. O sangue brilhou intensamente, um brilho que parecia significar perigo. Não conseguia imaginar quem poderia ter escrito aquilo. Talvez pudesse ter sido a mesma pessoa que havia escrito o bilhete, talvez fosse a mesma pessoa que sequestrara meu irmão...

Hans foi o primeiro a dizer algo:

–- Você sabe quem escreveu isso – não era uma pergunta.

–- Tenho uma suposição. – admiti.

–- “Lua que ilumina as terras do vale latino”. A quem se refere? – perguntou Quirina.

–- É o meu nome. “Luna” é um nome de origem latina, embora seja muito usado na Espanha também.

–- Então esse recado...

–-... é para mim, sim. – completei a frase, sem emoção.

–- Quem escreveu este recado, então, provavelmente, é a pessoa que sequestrou Mark, não é?

–- Suspeito que seja a mesma pessoa.

–- Bem, não podemos tirar conclusões assim, do nada. – disse Hans. – O que lhe faz acreditar que esse recado é, de fato, pra você, Luna?

Coloquei a mão no bolso da minha jaqueta e tirei dele um papel dobrado e com respingos de sangue. Desdobrei-o e entreguei o bilhete que eu encontrara no refúgio no dia que Mark desapareceu. Hans leu-o em silêncio, os olhos percorrendo uma, duas, várias vezes pelas duas frases escritas no papel.

–- É, -- Hans ergueu o rosto para mim. – muito esquisito isso. Não é um bilhete que diz muita coisa.

–- Eu quem o diga. – falei.

–- Mas por que sequestraram seu irmão? Vocês tinham algum inimigo, dívida com alguém...

–- Não, não tínhamos nada disso. Eu apenas fui pegar alguns mantimentos para nós dois, como sempre fazia quando estava em falta. Quem sempre saía nessas buscas era eu, pois não queria arriscar a segurança de meu irmão. Ele só tem seis anos, não conseguiria escapar de uma legião de zumbis com vida.

–- É estranho, muito estranho isso. E ele sumiu assim, do nada?

–- Quando cheguei ao nosso refúgio, ele não estava lá e só havia esse bilhete em cima de um caixote.

Hans ficou em silêncio por algum tempo. Seus olhos me analisaram e voltaram a olhar para o bilhete em suas mãos.

–- O sonho que você teve ainda há pouco, era algo relacionado a ele, seu irmão? – perguntou.

Senti meu estômago despencar. Como ele conseguira adivinhar aquilo? Talvez fosse muito óbvia a expressão de preocupação e apreensão em meu rosto depois do pesadelo, ou talvez fosse apenas o fato de Hans ser um bom observador.

–- Pode ser. – respondi, resolvendo não revelar a verdade por completa.

Um som agudo e ensurdecedor soou vindo do Toyota fez meu coração quase sair pela boca pelo susto que levei. Hans voltou correndo para o carro e abriu violentamente a porta do motorista. Seus olhos percorriam rapidamente pelo painel. Corri até o carro e vi seus dedos deslizarem velozmente pelos botões do painel enquanto seus olhos estavam fixos na tela do radar. A sirene parara de emitir o som.

–- O que houve, Hans? – perguntei assustada.

–- Eles estão próximos, seguiram nosso caminho. Como conseguiram, eu não sei dizer.

Hans não mencionara quem estava se aproximando, mas de alguma forma eu sabia de quem ele se referia. Um bolo se formou em minha garganta e tive muita dificuldade de pronunciar as três palavras seguintes:

–- Redlin e Marcos.