Hunters Of The Death
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Acordei com um barulho estranho vindo do lado de fora da garagem. Era um som alto e esquisito, algo como vários animais grunhindo ao mesmo tempo. Quando abri os olhos, vi que dormira sentada, com os braços sobre um pequeno caixote de madeira. Tirei os braços doloridos de cima do caixote e vi que a carta ainda estava lá. Olhei para o cômodo por um todo, procurando por algum sinal de Mark, algo que significasse que aquela carta era apenas um sonho e que ele estava aqui, comigo.
A garagem estava vazia a não ser por mim.
Outro estrondo no lado de fora. Este fora mais alto e mais próximo da garagem. Levantei-me num ímpeto e procurei por meu machado. Estava encostado na porta. Os poucos raios de sol se infiltravam pelas frestas das tábuas, o que facilitou a visualização. Peguei a carta, dobrei-a e enfiei no bolso da jaqueta de couro que usava. Fui rapidamente ao recipiente que tinha um pouco de água e lavei meu rosto. Ouvi meu estômago protestar de fome, mas ignorei. Prendi meu cabelo em um rabo-de-cavalo e fui até a poltrona de estofado gasto, onde ainda estava lá a sacola que eu trouxera do armazém. Vasculhei nela a procura de comida, mas só havia suprimentos médicos. Droga!
Joguei a sacola plástica para um lado, peguei a mochila e o machado. Apaguei o restante da vela que permanecia acesa sobre o caixote. Prendi-o fortemente no meu cinto e comecei a subir os degraus de volta para o alçapão. Empurrei uma, duas vezes a pequena porta e finalmente consegui sair. Então, um grito de horror ficou reprimido em minha garganta.
A vila fora completamente tomada por zumbis. Olhei para frente e vi que os portões de ferro estavam completamente tortos, abertos a força. Eles deveriam ter entrado durante a noite e, a julgar por sua velocidade ao andar, realmente demorara esse tempo todo para que pudessem tomar cada cantinho do lugar.
O desespero tomou conta de mim. Era a segunda vez que eu passava por aquilo em menos de vinte e quatro horas! Mas dessa vez, eu não sabia se conseguiria escapar. Havia o triplo da quantidade que eu enfrentara antes, como se a maior parte da cidade resolvesse se concentrar aqui por pura coincidência, onde eu estava. As pequenas casas abandonadas estavam completamente tomadas por zumbis que vagueavam cambaleantes, a procura de vítimas.
Rodeando a garagem, eles erguiam suas mãos mutiladas em direção a mim. Eu sabia que zumbis não enxergavam muito bem, mas tinham audições apuradas. Qualquer som agora que eu fizesse e daria adeus para minha vida e pela oportunidade de encontrar meu irmão.
Eu não poderia saltar. Não tinha chance alguma contra todos aqueles mortos-vivos. Mas não poderia continuar ali em cima, parada. O bilhete em meu bolso pareceu pesar, como um lembrete. Não, eu teria que fugir dali. Mark ainda estava em perigo... onde quer que estivesse, podia sentir.
E por Mark, eu iria sobreviver.
A estrutura sob meus pés oscilou. A garagem já estava com a estrutura comprometida há algum tempo, não iria aguentar mais algumas horas. Por isso, eu precisava de um plano, urgente.
Comecei a obervar melhor cada canto da vila. Não muito distante de onde eu estava, percebi que os portões de ferro não só protegiam a parte frontal da vila como também fazia parte de uma cerca de barras de ferro altas e grossas. As pontas das barras eram como lanças; bem afiadas e perigosas. Um pouco além delas, havia um bosque escuro, com árvores de copas altas e frondosas, que impediam a luz do sol penetrar por entre os galhos.
Senti um puxão em meu pé direito que me fez cair. Um dos zumbis me pegara. Estava tão distraída em um plano de fuga que não lembrara na situação ruim que ainda me cercava. Puxei o pé com força, mas o zumbi apertou mais ainda os dedos ao redor do coturno. Comecei a ser arrastada para a beira do telhado. Não pensei duas vezes. Saquei o machado e golpeei violentamente o braço dele. Sangue espirrou para todos os lados, incluindo em mim, e o braço dele voou, caindo em meio ao mar de monstros. Levantei-me rapidamente e caminhei para trás, para mais longe possível da beirada. Essa tinha sido por muito pouco.
Eu já tinha um plano em mente. O que eu faria era o seguinte: pularia do teto da garagem em direção à cerca e, então, pularia para o outro lado dela, e tentaria contornar a vila pelo bosque. O plano era bom, mas só havia um jeito de saber se ele realmente daria certo.
Caminhei com cuidado pelo teto, indo em direção oposta à cerca. Certifiquei-me que o machado estava bem preso em minha cintura. Olhei para frente e respirei fundo, reunindo a coragem que eu precisava. Aquele plano tinha que dar certo. Por mim, por Mark, por meus pais...
Corri até a extremidade do telhado e saltei.
O machado permaneceu fixo em minha cintura enquanto eu “voava”. Conseguira tomar um bom impulso durante a corrida, pois meu salto foi razoavelmente melhor. Estava me aproximando das barras de ferro, mais, e mais.
Segurei firmemente nas barras quando aterrissei nelas. Felizmente, não consegui fazer barulho algum quando cheguei nela, e percebi que os zumbis não me notavam. Comecei a escalar as barras, até chegar às pontas. Eram de fato bem afiadas, e pude perceber isso quando, sem querer, havia tocado em uma das pontas, espetando minha mão. Apoiei o pé direito em uma barra que estava na horizontal e icei metade de meu corpo para o outro lado, como se montasse em um cavalo. Ouvi um som de tecido rasgando, e vi que a ponta da barra havia feito um rasgo no joelho. Como eu estava de calça jeans, apenas o tecido foi rompido, não me ferindo. Passei a outra perna por cima e me segurei novamente com as duas mãos na grade. Flexionei os joelhos e saltei, esperando aterrissar em uma superfície macia o bastante para amortecer a queda.
Meus joelhos não aguentaram ao tocar no solo e cederam, fazendo com que eu caísse de cara no chão. Por sorte, eu caíra em um chão coberto pela grama, áspera e seca, mas ainda sim foi melhor do que concreto. Sentei-me sobre minhas pernas e observei o outro lado da cerca, onde eu estivera há poucos minutos. As paredes da velha garagem cederam com a pressão que os zumbis exerciam sobre elas. Muitos foram soterrados pelos escombros, mas muitos deles ainda haviam conseguido sair ilesos.
Abaixei a cabeça, exausta. Ainda tinha um longo caminho pela frente, pelo bosque. Levantei-me com esforço e comecei a caminhar para longe daquele lugar.
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Depois de muito caminhar pelo bosque às escuras, consegui chegar perto da entrada da propriedade. Os zumbis permaneciam ali dentro e havia uma quantidade pequena deles ali fora. Nem tentei matá-los. Sentia-me fraca demais e excessivamente cansada. Tinha pouca água dentro da minha mochila – metade de uma garrafa de um litro – e resolvi guardá-la para mais tarde.
O céu ficou nublado de repente, com uma leve coloração terrosa nele, como se fosse uma nuvem de poeira. Era perturbador. Quanto mais eu caminhava sozinha, mais tinha impressão de estar sendo observada de algum lugar. Elevei meus olhares para as janelas das casas e dos comércios. Nada havia. Talvez eu tivesse finalmente enlouquecido, mas não podia me submeter à loucura. Sobreviver com a mente em estado normal já era perigosamente ruim, com uma mente perturbada então, era pior.
Então ouvi passos atrás de mim. Passos rápidos. Não podia ser um deles; eles não corriam. Virei meu corpo lentamente para trás e arregalei os olhos. Não era possível! Mas com certeza era um. Uma.
Tinha sido uma garotinha de uns doze anos no máximo quando fora viva. A pele estava como a dos outros: cinzenta e coberta de sangue, poeira e uma gosma verde no pescoço que não consegui identificar. Seu vestido azul de babados estava chamuscado na barra que ia até os joelhos e empapado de sangue. Tinha cortes profundos nos braços magros e nas pernas, mas ainda assim conseguia se mover como uma humana normal. Será que alguns deles evoluíram no processo de mutação?
Mas ainda assim, era um zumbi. E eu ia decepá-la.
Ergui o machado e corri até ela, que teve uma ação inesperada. Ergueu os braços em sinal de rendição e suplicou:
–- Não! Por favor, por favor, não me mate!
Franzi o cenho. Zumbis não falavam nada, apenas grunhiam. Mesmo estranhando, continuei com o machado erguido.
–- Não sou um zumbi! – explicou ela interpretando minha expressão de dúvida. – Sou humana ainda.
–- Não acredito em você – repliquei.
–- Mas, por favor, acredite! Olhe isso aqui – ela apontou para as feridas nas pernas e as esfregou com a mão, manchando a ele com algo que não parecia realmente sangue. – Esses ferimentos não são de verdade. Foi uma maquiagem que fiz para poder me manter viva nos últimos cinco dias. Era uma forma de... sobrevivência.
–- Esse sangue me pareceu muito real... – comentei com desconfiança.
–- Tudo bem, é sangue de verdade, mas misturado com tinta. Fazia parte do disfarce. – os olhos dela estavam cheios de lágrimas e vagavam de meu rosto para o machado.
Hesitei por um momento. Ela realmente parecia estar falando a verdade, embora sua aparência me fizesse pensar muito no contrário. Se fosse mesmo uma maquiagem, estava muito bem feita.
Ela ainda esperava por minha resposta. Abaixei o machado e perguntei:
–- Qual é o seu nome?
–- Quirina.
–- Prazer em conhecê-la. Meu nome é Luna. Desculpe ter sido rude com você, mas...
–- Tudo bem, eu entendo. – ela sorriu mais tranquila. – Acho que eu estava camuflada demais.
Assenti. Guardei o machado na cintura novamente e a chamei. Quirina correu até mim e caminhamos pela estrada. Ela apressava o passo para me acompanhar. Era estranho ter alguém “fantasiado” de zumbi caminhando ao meu lado. Meio desconfortante.
Passamos na frente de um posto de gasolina e meus olhos se voltaram para a loja de conveniência. Estava às escuras, mas ainda assim resolvi ir lá. Quirina me seguiu. Quando chegamos perto da porta, notei que havia muito sangue nos vidros e no chão próximo a entrada. Vi cartuchos de bala vazios no chão e um buraco de bala no vidro. Tentei abrir a porta da loja, mas ela estava emperrada por alguma coisa. Quando olhei para baixo, tomei um susto. Um cadáver estava recostado na porta, caído. Aproximei meu rosto do vidro e estreitei os olhos para ver se encontrava mais algum zumbi ali dentro. Não havia nenhum se movendo, porém, haviam alguns estirados no chão com perfurações nas testas. Alguém deveria ter vindo e feito o serviço. Ótimo.
Mesmo assim, não havia como entrar na loja com o zumbi encostado na porta. Virei o rosto para Quirina e apenas falei:
–- Se afaste.
Ela obedeceu imediatamente. Ergui o machado e o golpeei com força contra a porta. O vidro estilhaçou-se e provocou um barulho estrondoso ao cair. Os zumbis chegariam logo.
–- Me espere um instante aqui enquanto dou uma olhada lá dentro, ok? – falei para Quirina e ela assentiu.
Adentrei no estabelecimento com passos hesitantes, mantendo o machado pronto para qualquer golpe caso precisasse. O cenário dentro da loja era de destruição, como se um furacão tivesse passado por aqui e revirado tudo. As prateleiras foram, em sua maioria, esvaziadas e retorcidas, tendo poucos produtos intactos e utilizáveis em algumas outras. Em cada canto, corpos de mulheres, homens e crianças estavam espalhados, todos com o mesmo ferimento que o zumbi na porta tinha na testa. Tomei cuidado para não pisar em nenhum deles e nos produtos do chão.
Voltei-me para a porta da loja e chamei Quirina para que entrasse. Ela veio, pisando com cuidado sobre os zumbis que estavam em posições retorcidas e macabras.
–- O que viemos fazer aqui? – perguntou enojada.
–- Vou ver se consigo alguns mantimentos para nós. Você pode ir ao banheiro tirar essa sua maquiagem. Mas não demore, ok? Teremos de sair daqui a qualquer instante.
Quirina caminhou até uma portinha nos fundos que estava entreaberta e sumiu na escuridão do cômodo. Voltei minha atenção para a loja e vi que a geladeira de bebidas estava intacta. Havia alguns refrigerantes e garrafas de um litro e meio de água. Resolvi pegar apenas a água, que nos seria muito mais útil. Não sabia quanto ainda tínhamos que caminhar até que encontrasse outra pista sobre o paradeiro de Mark. Peguei quatro garrafas e as guardei na mochila. Caminhei por entre as prateleiras novamente e cheguei a uma seção de que deveria ser a de petiscos. Peguei algumas embalagens de barras de cereal e biscoitos salgados e enfiei tudo na mochila. Não queria lotar tanto esta de alimento, mas aquela deveria ser uma quantidade necessária para aguentar por uns cinco dias a uma semana.
Olhei para a entrada da loja e então os vi novamente, vindos de uma rua em frente ao posto e a uma lateral. Não tínhamos mais tempo. Corri até o banheiro e bati na porta dele insistentemente. Quirina abriu de imediato. Estava completamente molhada, dos ombros até os pés.
–- O que foi, Luna? – perguntou assustada.
–- Eles estão vindo. Temos que sair daqui agora.
Peguei uma toalha que estava pendurada ao lado do armário sob a pia e joguei para Quirina. Ela enxugou rapidamente os braços e as pernas, limpando boa parte do sangue e da tinta. Jogou a toalha em um canto e peguei sua mão, correndo para fora da loja. Ela retesou por um momento, indo até o balcão e pegando um papel dobrado que estava dentro de uma gaveta.
–- Ande logo! – sibilei.
Quando chegamos ao lado de fora da loja, vi que mais zumbis surgiram vindos não sei de onde. Pegamos uma pequena rua e andamos entre os mortos-vivos que ainda se encaminhavam para a loja de conveniência. Entramos na rua comercial e viramos em um beco entre um cabeleireiro e um bar. Dois zumbis policiais andavam em nossa direção. Desferi um golpe no pescoço de cada um, espalhando sangue nas paredes de tijolos aparentes. Senti o olhar assustado de Quirina em mim, mas ela nada disse. Sabia que ela ainda sentia medo de mim.
Conforme andávamos, eu passava a sentir as limitações que meus músculos das pernas faziam. Cheguei a tropeçar duas vezes enquanto subia uma ladeira meio íngreme e fui amparada por Quirina.
–- É melhor descansarmos, não acha? – ela perguntou quando eu tropeçava pela terceira vez e ela me segurou pelo braço.
Fiz um gesto de negação.
–- Eu não posso parar. Tenho... que encontrar alguém e...
–- Mas podemos continuar depois de termos descansado um pouco. – ela insistiu. – Pare um pouco.
Ela soltou meu braço e pegou o papel que estava em sua mão. Desdobrou e começou a analisá-lo atentamente. Olhei para o papel por sobre o ombro dela e vi que era um mapa da cidade do Rio.
–- Como sabia onde encontrar este mapa na loja? – perguntei.
Quirina deu de ombros.
–- Eu e meus pais já havíamos passado umas mil vezes por aquele posto e, na primeira vez que viemos para o Rio, o balconista havia tirado um desses mapas de uma gaveta atrás do balcão.
Ela voltou seus olhos para o papel. Surpreendi-me com a inteligência daquela pequena garota e deixei aquilo por conta dela. Depois de muito tempo analisando o mapa, ela deu um sorriso e disse:
–- Vamos, me siga.
Caminhou na frente, me puxando pela mão. Inverteram-se os papeis, pensei e sorri. Deixei ser levada por ela ladeira abaixo. Nossos passos não eram audíveis no concreto e não havia nenhum zumbi ali por perto. Ainda bem, pensei. Não sabia se conseguiria decepar mais nenhum. Estava cansada demais, exausta demais. Completamente esgotada. Meus músculos protestavam pelo esforço que eu ainda fazia em caminhar, e minha respiração estava um pouco lenta. Ainda assim, continuei.
Chegamos a uma parte na qual as casas eram quase escassas, tendo uma aqui e outra ali, todas em estilo colonial. Quirina parou diante de uma casa de dois andares, azul-clara e com duas colunas gregas que sustentavam a estrutura da varanda. Um jardim pequeno contendo algumas flores como madressilvas, azaleias e margaridas ficava na frente da casa. A cerca de ferro baixa estava totalmente retorcida e as janelas do segundo andar estavam quebradas.
–- Por que paramos em frente a essa casa? – perguntei.
–- Essa era a minha casa, Luna. Onde eu e meus pais morávamos. – respondeu Quirina, os olhos enchendo-se de lágrimas de novo. Mas dessa vez, não eram lágrimas de medo; eram de tristeza profunda.
Acariciei os cabelos louros escuros dela, amigavelmente. Ela deu um sorriso fraco e me abraçou. Aquela atitude dela fora totalmente inesperada para mim. Seus cabelos louros ficavam na altura de meu pescoço e beijei sua cabeça.
–- Desculpe por termos que ter voltado aqui. – falei baixinho para ela. – Imagino como deve ser difícil para você...
Antes que eu pudesse concluir a frase, a porta da frente fora arremessada violentamente para o jardim, chocando-se contra a cerca já retorcida. Quirina se separou de mim e encarou a porta. De dentro da casa, um zumbi alto e completamente mutilado saía com os típicos passos cambaleantes. Ele estava atravessando o jardim, vindo até nós.
Preparei o machado, mas Quirina me impediu.
–- Não faça isso, por favor! – pediu.
–- Por quê? Ele é um zumbi, vai nos matar se não fizermos algo, Quirina! – expliquei exasperada.
–- Mas você não pode fazer isso com ele, não pode!
–- Você o conheceu quando era humano?
Ela parou e enterrou o rosto nas mãos. Com a voz abafada, ela disse:
–- Claro que o conheci. – respondeu entre soluços. Virou o rosto vermelho e lacrimoso para mim e disse: -- Aquele é o meu pai.
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