–- Não podemos ficar aqui paradas, Quirina.

Mas Quirina não conseguia se mover. Apenas soluçava enquanto encarava o zumbi que ainda estava vindo em nossa direção. Se continuássemos paradas ali, seríamos devoradas, mas diante do pedido dela de que eu não o matasse, eu não sabia o que fazer, se agiria da forma sensata ou atenderia seu pedido. Resolvi tentar convencê-la a deixar que eu o matasse, mas Quirina estava irredutível em sua decisão.

–- Não pode, Luna! Ele é o meu pai, ainda que esteja... que esteja...

–- Mas se não o matarmos, ele matará a nós ou outras pessoas! – respirei fundo e me abaixei até ficar na altura dos olhos cinzentos dela. – Escute, Quirina: acha que seu pai gostaria de ser uma ameaça para você? Eu sei que você o ama muito, mas agora não há mais nada a se fazer por ele ou por sua mãe, caso ela esteja aqui ainda. Eles não voltarão ao normal. Não tem como.

Ela assentiu, fechando os olhos quando as lágrimas escorreram para as bochechas manchadas de maquiagem. Imaginava que não era fácil ver quem você amava naquele estado, ansiando por te matar. Havia passado por isso quando todo o meu pesadelo começara, quando eu e Mark tivemos que fugir de meus próprios pais que haviam sido mordidos e transformados.

O zumbi tropeçou por cima da cerca e caiu no chão, ficando imóvel. Prendi a respiração enquanto ele permanecia estático. Por mais frágil que parecesse, não achava que um zumbi pudesse morrer com um simples tropeço. E estava certa. Alguns segundos depois, o zumbi começou a se arrastar e nossa direção, com esforço e emitindo grunhidos secos. Apenas olhei para Quirina e, relutante, ela disse:

–- Faça.

Aproximei-me do zumbi com cuidado e ergui o machado acima de minha cabeça. Olhei de esguelha para Quirina e vi que ela virara de costas para onde eu estava. Obviamente que ela não queria ver o pai-zumbi sendo decepado. O machado desceu e a lâmina afiada cortou o tecido e a carne quando tocou o asfalto. O zumbi ficou imóvel, dessa vez, para sempre.

Quirina virou lentamente o corpo em minha direção e olhou o corpo do pai desfigurado e sem cabeça no chão. Depois olhou para mim fixamente como se estivesse com raiva.

–- O-obrigada. – agradeceu com a voz trêmula.

Caminhei até ela e a abracei fortemente. Ela não retesou e me abraçou com a mesma intensidade, me apertando mais do que eu suportava. Quirina precisaria de alguém para cuidar dela agora, e eu iria fazer isso. Ajudaria aquela menina custe o que custar. Depois ela se separou e começou a caminhar em direção a casa. Andei atrás dela, dando uma última olhada no cadáver no chão. Eu teria que fazer alguma coisa para tirá-lo dali depois.

Senti uma fisgada forte na perna direita e quase larguei o machado no chão. Eu estava além do meu limite e Quirina percebeu isso quando se virou para me encarar. A dor começou a ficar mais forte e logo eu estava agachada, com as mãos nos joelhos. Quirina veio até mim e me ajudou a levantar. Pegou meu machado e me carregou com o outro braço livre. Cada passo que eu dava era como se tentasse andar com chumbo preso em cada uma das pernas. Minha garganta estava extremamente seca e o som de fome que meu estômago produzia era muito audível.

Quirina afastou acerca e eu a ajudei. Juntas, subimos lentamente os degraus da varanda e entramos na casa que estava às escuras. Móveis e objetos estavam espalhados pela sala. Pisei em uma poça de um líquido escuro e supus que deveria ser sangue. Senti um forte cheiro de algo se decompondo ali próximo. Meu olfato já estava mais do que acostumado com aquele cheiro, que significava que havia outro zumbi na casa. Quirina também pareceu perceber.

–- Ei, não, -- repreendi-a segurando pelo braço quando se encaminhava para uma porta estava aberta. – você vai ficar aqui.

–- Essa casa é minha! – ela respondeu tentando se livrar de meu aperto.

–- Pode até ser sua, mas você não sabe o que tem ali dentro passando daquela porta.

–- E daí? Se for minha mãe, eu... eu...

–- Você vai deixar ser morta por ela. – completei a frase friamente. – É o que você quer? Se quiser a morte, posso fazer isso por você!

Seus olhos se arregalaram.

–- Você n-não m-me mataria.

Tentei manter o olhar firme enquanto a encarava. Puxei o machado da mão trêmula dela e caminhei até a porta. Ela não me seguiu desta vez. Quirina tinha razão, eu não a mataria, mas eu tinha que deixar que ela acreditasse naquilo caso quisesse ganhar na discussão.

Desejei ter uma lanterna para poder iluminar aquele cômodo. Tateei pelas paredes mas não encontrei o interruptor. Acendi um abajur que estava sobre um raque na sala e iluminei o lugar. Era uma cozinha ampla, com quatro armários no alto da parede, uma geladeira e um freezer. O piso era de azulejos azuis. Na parede, um relógio de ponteiros que marcava 19:45hrs. Então eu ouvi pingos vindos de algum lugar da cozinha. Iluminando o chão, encontrei sangue próximo a pia. Direcionei a luz para lá e lutei muito para não gritar e chamar a atenção de Quirina lá na sala.

Era uma mulher agachada e com a cabeça recostada na pia. Tinha um corte profundo no pescoço e sangue pingava da ferida aberta. Era possível ver os tendões e os músculos. Em sua mão direita havia uma peixeira cuja lâmina estava ensanguentada. Suas vestes estavam empapadas pelo sangue que deveria ter jorrado da ferida. O que mais me surpreendeu foi o fato de que ela não era um zumbi, não tinha nenhum sinal disso em seu corpo. Ela morrera ainda sendo humana. E, a julgar a peixeira em sua mão e o corte em seu pescoço, tudo indicava suicídio.

Analisando-a, notei que os cabelos louros dela eram semelhantes aos de Quirina, assim como seus olhos cinzentos abertos e voltados para o teto. Eu fizera muito bem em ter entrado ali em vez de Quirina. Ela não suportaria ver a mãe daquele jeito, principalmente depois de ter visto o pai daquela forma.

Afastei-me lentamente do cadáver e voltei para a sala, ainda com a luz do abajur ligada. Não encontrei Quirina em nenhum lugar do cômodo e direcionei meus olhos para a escada de madeira que dava acesso ao segundo andar. Deixei o abajur sobre o raque e subi as escadas. Cada passo que eu dava, os degraus rangiam cada vez mais alto, como se estrutura da escada estivesse bem comprometida, como se desabasse a qualquer momento.

Cheguei a um corredor estreito, iluminado por algumas lâmpadas fluorescentes no teto. Havia alguns aparadores de estilo renascentista, o que tornava ainda mais estreito trânsito ali. Em cada lado do corredor, havia duas portas. Abri a primeira à esquerda lentamente, provocando um rangido na madeira. A única luz do local era a que vinha do poste de luz a frente da casa, o que me possibilitou visualizar os objetos do cômodo.

Uma cama de casal ficava no centro do quarto, situada entre dois criados mudos, cada um com um pequeno abajur. O cobertor da cama estava com vários papeis e gavetas sobre ele. Havia um enorme armário de mogno escuro e uma penteadeira ao fundo. A janela sobre a cama estava com os vidros quebrados e a estrutura de madeira pendia debilmente. O chão tinha cacos de vidro e outros objetos quebrados. Nas paredes azuis e brancas, quadros de flores e um grande retrato de família em uma moldura folheada a ouro. Na fotografia, reconheci Quirina, uns cinco anos mais nova, com os cabelos curtos e um sorriso radiante no rosto. Ao seu lado direito, uma linda mulher loura a segurava no colo. Percebi a semelhança entre o cadáver da cozinha e a mulher da foto e, infelizmente, eu estava certa quanto a ser a mãe de Quirina. Ao lado das duas estava um homem de cabelos castanhos e óculos que bagunçava carinhosamente os cabelos da filha. Embaixo da foto, lia-se: Eduardo, Quirina e Elizabeth Ávila. Ficar observando aquela fotografia me fez lembrar minha família, antes de todo esse pesadelo ter acontecido. Imaginei meus pais e Mark e eu, nos abraçando e rindo de algo engraçado ou sorrindo por algo que realmente valia a pena ser feliz: ter uma família. Porque quando se tem uma família, todos os problemas são resolvidos facilmente, toda a felicidade é boa de ser compartilhada, e todo o mal existente parece não penetrar nas muralhas firmes que a família constrói. Eu não tinha percebido, mas estava chorando ao pensar nisso. Fechei os olhos e deixei as lágrimas rolarem por meu rosto. Esse seria um fato – um triste fato – que eu teria de levar para minha vida. Essa era uma dor que jamais extinguiria do meu coração.

Fechei a porta do quarto e voltei minhas atenções para as outras portas do corredor. Encaminhei-me para a porta oposta a do quarto dos pais de Quirina. Estava aberta, apenas encostada rente ao batente da porta. Empurrei a porta e adentrei no cômodo escuro. Era um quartinho pequeno e aconchegante. Senti uma leve brisa tocar meu rosto quando entrei e ouvi um barulho. Ouvi soluços e um suspiro de surpresa.

–- Luna? – perguntou uma voz embargada.

–- Quirina?

–- Sim, estou aqui. A lâmpada do teto está quebrada, mas... Espere, acho que tenho uma lanterna aqui.

Um feixe de luz invadiu meus olhos, cegando-me momentaneamente. A luz foi desviada de meu rosto e iluminou Quirina, que estava sentada no chão, com as costas apoiada na cama e as pernas dobradas junto ao seu corpo. Aproximei dela e sentei-me ao seu lado. Quando iluminou sua própria face, vi que seus olhos estavam extremamente vermelhos e ela ainda soluçava um pouco. As bochechas estavam molhadas pelas lágrimas.

Ela me abraçou fortemente de novo. Começou a chorar novamente, o rosto enterrado em meus ombros. Parecia que a garotinha da foto e a que eu abraçava agora não eram a mesma pessoa. As pessoas podem mudar radicalmente diante de situações como esta que nós duas passávamos. Comecei a pensar se eu também havia mudado desde que tudo acontecera. Sim, eu havia mudado. Antes, eu era uma garota de 16 anos que só arranjava encrenca e que era um pouco mimada pelos pais. Agora eu me tornara uma garota vingativa e que procurava guardar meus sentimentos para mim.

–- C-como v-você consegue? – perguntou Quirina, ainda abraçada a mim.

–- Consigo o quê? – perguntei gentilmente.

–- M-matá-los. Os z-zumbis. V-você faz de f-forma t-tão rápida e n-nem hesita às vezes.

–- Acredite, se me visse há quatro semanas, acharia que sou outra pessoa.

Quirina se desprendeu do abraço e ficou me encarando.

–- Por quê?

–- Quando eu e minha família tentamos fugir, eu ainda estava muito amedrontada com tudo que estava acontecendo. Ainda não tinha “caído a ficha” pra mim que os zumbis estavam andando pelas ruas. Até que meus pais foram atacados protegendo a mim e o meu irmão.

Quirina baixou o rosto.

–- Sinto muito.

–- Na hora, eu não sabia o que fazer – continuei. – Mas não queria que meus pais morressem daquela forma tão dolorosa. Então, eu encontrei uma barra de ferro e...

Uma dor aguda latejou em meu peito. O que eu mais queria fazer era me desconectar daquelas lembranças horríveis, mas de certo modo, contá-las para alguém era uma forma de aliviar um pouco do peso dos acontecimentos que eu carregava.

–- Você teve muita coragem – comentou Quirina.

Neguei com a cabeça.

–- Não queria ter feito aquilo. Não fiz por coragem, e sim por desespero. Se eu tivesse sido mesmo corajosa, eu... eu poderia...

Minha voz foi sumindo à medida que as lágrimas tomavam conta de meus olhos. Dessa vez, foi Quirina quem me consolou. Como eu tinha feito com ela, afagou meus cabelos carinhosamente e me abraçou bem forte, como se com o seu abraço, toda a minha dor pudesse ser retirada de meu peito. De certo modo, isso acontecia.

–- Sinto muito, Luna. -- ela perguntou delicadamente. -- Posso te fazer outra pergunta?

Nos separamos do abraço e ela perguntou:

–- Você tem algum motivo para continuar a viver?

–- Sim. Dois.

–- Quais são eles?

Ergui os olhos para a janela, cujas cortinas tremulavam com a brisa cálida.

–- Encontrar meu irmão e fazer com que quem provocou toda essa dor que eu, você e muitos outros sentem, sinta a mesma dor.

–- Você está em busca de vingança contra o Doutor Bóris? Sabe que é loucura.

–- Por quê?

Ela baixou a voz.

–- Dizem que ele desapareceu, se enfiou em algum laboratório dele no Alasca e nunca mais foi visto depois do que fez.

–- Não importa – falei com a voz firme. – Vou até onde puder para fazê-lo pagar por tudo o que fez. Mas só depois de encontrar Mark.

Quirina ficou em silêncio e disse apenas por final:

–- Que você consiga a sua vingança, porque irei ajudá-la.

Encarei-a, surpresa.

–- Está falando sério?

–- Sim. Eu, irei te ajudar no que precisar. Não tenho mais ninguém além de você e não quero perdê-la, Luna.

Pela primeira vez, senti novamente a boa onda de esperança percorrer meu corpo e preencher meu coração. Sorrimos uma para a outra. Agora eu tinha uma aliada em minhas buscas e, seja lá aonde fôssemos, nós iríamos conseguir.

Abri minha mochila e tirei um pacote de biscoito salgado e uma garrafa de água. Dividi os dois com Quirina e conversamos por um longo tempo, e ela me pediu desculpas por ter parecido uma criança birrenta antes quando encontramos o zumbi em frente de sua casa.

–- Você é uma criança, não precisa se desculpar daquilo. -- falei em tom de brincadeira.

Ela sorriu, meio triste.

–- Acho que ainda não aprendi a lidar com a morte.

–- Não é algo que se aprende de uma hora para outra.

–- Mas você aprendeu?

Pensei um pouco antes de responder.

–- Tive que aprender.

Ela sentiu-se sonolenta e deitou no chão com a cabeça apoiada em meu colo, adormecendo instantaneamente. Afaguei sua cabeça enquanto esperava pelo sono. Fiquei acordada por mais algum tempo, até que senti as pálpebras pesarem sobre meus olhos, e me vi caindo na escuridão.

*******************************************************************************

–- Luna? – uma voz ecoava na escuridão. – Luna, você precisa me ajudar!

A voz estava assustada e suplicava como se estivesse esgotando suas forças. Uma voz masculina. Eu não conseguia enxergar nada naquele breu imenso, muito menos saber onde estava. Comecei a caminhar às cegas, e gritei de volta para a voz:

–- Quem é? Quem está aí?

–- Luna, preste atenção. Você precisa me ajudar, mas tem que tomar cuidado com...

A voz sumiu de repente, me assustando ainda mais. Olhei para todos os lados, mas não vi ninguém. Não tinha como enxergar alguém ali. A voz voltou, porém, como se não tivesse percebido que sua voz havia sumido há poucos segundos.

–-... são poderosos, e muito perigosos. Eles estão te observando. Tome muito, muito cuidado. Vá até onde todo o nosso pesadelo começou, você tem que ir! O prazo está...

Depois de muito tempo, pude reconhecer a voz embora estivesse bem diferente, e ela não poderia ter mudado tanto em tão pouco tempo. Mas sem dúvidas, só poderia ser ele.

Mark.