Hunter's Instinct
92 Episódio 92 - Lebensmüde
Notas iniciais
“It is difficult to find happiness within oneself, but it is impossible to find it anywhere else.”
~ Arthur Schopenhauer
Setenta e duas horas.
Três dias despendidos naquela busca quase incessante. Paravam apenas para se alimentar duas vezes ao dia com as escassas provisões que acumularam. Frutas, enlatados, carnes de animais conservadas no sal e muita água fresca em cantis, limpa com o excelente filtro de acampamento que dispunha, por seu cargo de alta hierarquia.
Algumas das vantagens de ser um puxa-saco de Negan.
A temperatura da primavera estava branda, um vento suave soprava ao redor do matagal que atravessavam, alguns mosquitos importunando seus ouvidos de quando em quando. Ele conhecia aquela área. Era um local pantanoso. Se seguissem adiante, poderiam encontrar o litoral. Tentando manter a atenção, dividia seus esforços entre cortar a trilha adiante com um facão afiado, e ter certeza de que Delilah, atrás de si, seguia dando-lhe cobertura.
Dwight tinha certeza de que a pessoa que procuravam tentaria fugir para a praia. Ele a conhecia tão bem.
Sherry amava o mar. Tinham passado sua lua de mel no Havaí, gastando metade do dinheiro que ele acumulara em sua poupança desde que abrira sua conta no banco. Seus pais supunham que Dwight um dia usaria aquele montante para investir em seus estudos, em uma carreira sólida, mas aquele jamais fora seu foco.
Desde que conhecera Sherry, era como se todos os seus sonhos girassem em volta dela. Seus amigos não compreendiam muito aquela resolução. Afinal, Dwight sempre fora do tipo desapegado. Gostava de viajar, não tivera grandes relacionamentos com mulheres. Mas com Sherry fora diferente. Com ela, ele vira um futuro.
E fora recíproco.
Por todo o tempo que durou.
— Acho que vi algo ali.
Escutou a voz de timbre feminino grave falar alguns metros atrás de si. Dwight moveu o rosto para trás, em anuência.
Com a balestra em punhos, o homem loiro e a garota morena seguiram a passos lépidos na direção nordeste da bússola que Lilah tinha em mãos. Tentaram mapear as possíveis rotas de Sherry, desde que decidiram que a encontrariam e, depois, iriam ao Santuário salvar Redmond e se livrar de Negan.
O som farfalhante do mato empurrado e cortado era o único ruído trazido pela movimentação da dupla. Ambos atravessaram a última camada de árvores e, defronte a uma estrada de duas vias, uma placa de madeira, velha e gasta, dizia:
“Bem-vindo a Beltsville”
— Isso são tipo uns vinte e cinco quilômetros a contar de Washington D.C. — articulou Delilah, apontando com o revólver ASG Dan Wesson na direção da pequena cidade em seu mapa.
Dwight deu um curto olhar na direção do papel aberto nas mãos da jovem.
— Andamos pouco — reclamou, acelerando o passo. A garota aumentou suas passadas ao lado dele.
— Não dá pra fazer milagre sem carro — disse ela, no mesmo tom ríspido do homem. Dwight a fitou, vendo a brisa fresca mover alguns fios revoltos de seu cabelo ondulado moreno, presos em um rabo de cavalo alto.
— Deve chover à noite. Podemos vasculhar a cidade atrás de pistas dela, já que a última que achamos foi essa — Mostrou para a garota o colar de contas arrebentado que um dia pertencera a sua esposa. Acharam-no perto de um posto de gasolina com alguns cadáveres ambulantes mortos com marcas de lâminas em suas cabeças.
Era o colar que Sherry costumava usar no Santuário, após Negan roubá-la como esposa.
Flashes angustiantes de memórias surgiram na mente do homem de rosto deformado, incapaz de fugir daquela tortura de si próprio. Os beijos humilhantes que fora forçado a assistir. A lascividade no tratamento com sua mulher. A cobiça, a luxúria em cada ato minimamente calculado para atingi-los e separá-los enquanto casal. A degradação dele, como homem, e de Sherry, como mulher.
E Dwight, como um completo inútil, menos do que um cachorro que apanha e obedece de olhos lacrimosos ao dono abusador, menos do que um verme que se alimenta de restos podres... Caiu em todas as iscas de Negan. Tentou, por tanto tempo, se convencer de que era para o melhor. Mas como poderia haver “melhor” naquele cotidiano? Ele sofria, trabalhava para fazer outros sofrerem... E Sherry sofria.
Ele não fora forte o suficiente para protege-la. Do jeito que ela precisava.
Não como uma mulher desamparada precisaria. Não como uma mulher fraca precisaria. Sherry era mais forte do que ele, e seu esposo sempre soube disso. Mas falhou em proteger sua dignidade enquanto mulher. Era seu marido, e, quase que de bom grado, permitiu que ela se autodestruísse. Para protege-lo.
Ele, uma mera casca de homem, mais passivo do que os mortos-vivos que se arrastavam por aquelas terras tão perdidas como todos os homens e mulheres que ainda sobreviviam.
E, por isso, nunca iria se perdoar.
— Ok... — A voz suave de Delilah o despertou de seus pensamentos aflitivos de novo. Dwight soltou um “tsc” e decidiu seguir por uma rua qualquer.
Passaram algumas horas revirando a cidade. Entraram em museus, bibliotecas, passaram em frente a uma taverna antiga chamada “Van Horn’s”, que deveria ser algum tipo de ponto turístico qualquer.
Quando chegaram perto de um prédio de tijolos amarelados, Dwight notou um carro de porta aberta. Ao lado do motorista.
Caminhou ligeiro até o veículo, e sentiu um espasmo em seu coração. Como se tivesse pulado dentro de seu peito.
Um pedaço rasgado de vestido preto. Um tecido que ele conhecia. O mesmo tecido que vestia as esposas de Negan em dias festivos. O vestido que Sherry usara quando fugira do Santuário.
Dwight fitou Delilah, poucos centímetros atrás dele, com um olhar de felicidade alucinada. Ela ergueu o cenho, sem compreender, e ele correu na direção das pegadas que vira. Estavam sobre a grama, perto do local onde o carro fora estacionado.
— Calma! — a garota que o seguia pediu, mas ele mal estava escutando.
Por sua empolgação, um morto-vivo quase o pegou de surpresa. Saiu pela porta de empurrar de uma lojinha comercial, poucos dentes putrefatos mordendo sem parar. Suas unhas puxaram o ombro direito de Dwight, e ele arrancou uma flecha de sua balestra e a atravessou pelo crânio daquele ser deplorável. Guardou-a consigo de novo, mal a limpando em suas calças jeans surradas.
Outro pedaço rasgado do vestido de Sherry estava ali, centímetros a sua frente. Na entrada de uma locadora, cujo letreiro simplório acima da marquise dizia “Moviemaniac”.
Dwight abriu a porta e entrou de rompante, sem nem pensar em sua própria segurança. Delilah pedia que tivesse bom senso, atrás dele, mas o homem mal a ouvia.
Viu que era uma loja comprida e estreita. Estantes de madeira permeavam o ambiente, algumas tortas, outras caídas, mas a maioria de pé, colocadas contra a parede. Subiam até o teto. As paredes tinham um pé direito alto.
Caminhou afoito pelo lugar, esquadrinhando cada milímetro. Via os títulos dos filmes passando ao lado de seus olhos. “Cidade dos Anjos, A Vida é Bela, Conta Comigo, Casablanca”. Clássicos e filmes diversos dispostos pelas prateleiras, organizados em suas seções respectivas. Dwight não os enxergava direito, em sua demanda determinada.
Delilah pareceu parar de caminhar, mas ele mal notou aquilo. O cheiro de carne putrefata havia se tornado um pouco mais fortalecido. Não era necessariamente um mau sinal, afinal, os dois tinham visto alguns mortos-vivos pela cidade de Beltsville. A maioria em um estado de decomposição avançado, o que piorava o fedor.
Porém, ao cruzar a esquerda, depois de duas prateleiras de filmes, ele notou que a janela estava aberta. O odor estava impregnado demais, tendo em vista que o vento entrava dentro da locadora e circulava por todo o lugar.
Instintivamente, diminuiu a velocidade de seus passos.
Era como se ele já tivesse entendido dentro dele. Uma intuição que não se explica, somado a um arrepio de dor incontrolável.
— Não... Não, não, não, por favor, não...
Dwight deu três passos para a esquerda.
Ali, encostada no balcão da caixa registradora, estava Sherry. O vestido rasgado na altura de uma alça, um arranhão profundo deixando uma ferida exposta em seu ombro. Outro rasgo perto da coxa direita.
Sua linda pele bronzeada começava a denotar um tom amarelado. Seus pés estavam envoltos por uma maçuda crosta de sujeira. Sua perna esquerda estava quase totalmente destroçada. Mordidas devoraram a coxa até a altura de seu joelho. A perna direita estava parcialmente devorada. Ao lado dela, dois apodrecidos estavam caídos, sem vida. Alguns filmes tinham sido derrubados enquanto ela deve ter lutado por sua vida: “P.S. Eu te Amo, Sempre ao Seu Lado, E O Vento Levou...”
E, assim, os olhos cor de mel da mulher que amava foram tomados pela cor injetada dos mortos-vivos. Estavam fixos em Dwight, agora, como se tivesse acordado de um torpor.
Por uma fração de segundo, como se tivesse um lapso de loucura, ele teve a impressão de que ela o reconheceu. No momento seguinte, porém, sua expressão se tornou idêntica a de todos os apodrecidos. Estúpida, brutal, faminta. Seus braços, incólumes de mordidas, se moviam para a frente, tentando arrastar o corpo destruído para se alimentar da carne de quem um dia a amara com todas as forças de seu ser.
Dwight não percebeu, mas caiu de joelhos. A balestra escorregou de seus ombros, tombando contra o piso de madeira daquela locadora antiga. Seus olhos estavam lavados de lágrimas, e o pesar dentro dele era tamanho que não conseguia emitir um som. Era como se suas cordas vocais tivessem sido arrancadas. Apenas podia deixar as lágrimas caírem. Como se estivesse preso, para sempre, naquele rompante de padecimento.
Sherry se fora. Morta por aqueles restos de gente. Tornada, ela mesma, um resto como eles.
E fora tudo sua culpa. Tudo. Tudo culpa sua...
Os passos de Delilah ecoaram apressados enquanto ela perguntava por seu nome. Ele quase não tinha consciência daquilo. Não conseguia piscar, a não ser para deixar mais lágrimas caírem. Sherry continuava ali, tentando se lançar para ataca-lo, seu corpo em destroços, feito em sangue e pedaços sem poder obedecê-la. Se ela o alcançasse, ele aceitaria, sem tentar lutar. Não merecia menos. Aquele castigo era pouco para si.
— Ah meu Deus... — Pela primeira vez em muito tempo, Dwight ouviu a voz de Delilah soar chorosa.
Ela pareceu correr na direção contrária. Ele não se movia. Não tinha forças para tanto. Seus olhos fixos na versão apodrecida de sua mulher recordavam o passado ao mesmo tempo que sofriam o presente. Lembrou-se do dia de seu casamento. Como ela estava linda em um vestido tomara que caia. Quando retirou o véu de seu rosto e a beijou.
A lua de mel no Havaí. Quando mergulharam com os tubarões. Os inúmeros planos. Os nomes para filhos. Sara, Andrea, ou Laura, se tivessem uma menina. Andrew, Mark ou Nathaniel, se fossem meninos. O bangalô que compraram juntos. Quando tinham terminado de dar entrada na casa, foi que o horror havia começado.
Mas ainda estavam juntos. Tinha certeza de que ficariam assim, para sempre.
E a verdade era outra, muito diferente. Jogada ali, defronte a si, sem nenhum floreio ou devaneio romântico.
Antes que pudesse reagir, ele viu a foice de Delilah cortar por entre os cabelos castanhos de sua mulher. Tentou gritar, mas não conseguiu.
Sangue pútrido escorreu pelo lindo rosto de Sherry, e ela piscou uma última vez. Suspirou rascante, fechando os olhos para sempre. Suas costas tombaram para trás, como se ela se recostasse tranquila, finalmente em paz, contra o balcão.
Dwight, entre o ódio e o desespero, levantou os olhos para fitar Delilah. A garota morena tinha seus olhos também repletos de lágrimas. Seu rosto branco estava marcado pela umidade, enquanto ela o secava com as costas das mãos.
Ele queria protestar, mas não conseguia dizer nada. Estava afônico. Não sabia sequer como se sustentava em seus joelhos, como ainda respirava.
A jovem andou até ele, devagar, e tentou segurá-lo pelo braço. Como se reunisse forças do nada, ele empurrou o ombro para longe dela. Moveu uma mão trêmula para uma prateleira presa na parede e se levantou com a dificuldade de um deficiente físico.
— Preciso... Preciso enterrá-la.
Delilah o fitou com cuidado. Parecia realmente condoída com a sua dor, o pesar de um estranho, de um homem que conspirara para fazê-la sofrer e para atormentar todos a quem amava.
O mundo não fazia sentido... Há muito, muito tempo.
░░░░
Passaram o restante da tarde nos preparativos para o funeral de Sherry. Enterraram-na em um local perto da locadora, um jardim de uma casa bonita. Rosas e árvores floridas cresciam perto da terra. Ele imaginou que ela fosse gostar do lugar.
Dwight queria ter dito algo bonito. Não soube o quê. Queria ter deixado algo para ela, além de pretzels e cerveja. Não havia o quê.
Apenas pôde se despedir:
— Eu te amo. Eu sinto muito por tudo — murmurou, apoiado na pá que usara para cavar sua cova. Delilah tentou tocar seu ombro esquerdo, mas ele refutou o toque outra vez.
Horas se passaram. Era quase madrugada, e gastaram o restante do tempo caminhando até sair da cidade. Era como se fosse assombrada, para ele. E assim sempre seria.
Acabaram por encontrar um motel de estrada com um carro estilo picape antiga. Acharam as chaves perto do balcão da recepção. Testaram, e viram que o motor ainda funcionava. Tinha meio tanque de gasolina.
— Podemos ir embora, se quiser — sugeriu Delilah. Dwight mal conseguia olhá-la nos olhos.
— Não. Estou... Cansado — mal respondeu. Ela apenas assentiu, sem mais tocar no assunto.
— O local está limpo. Tem um ou dois quartos com alguns mortos-vivos que eu limpei... — Ela pareceu hesitar, e Dwight entendeu suas razões. Provavelmente eram cadáveres de suicidas. — Mas o restante está sem nada. Fora a poeira, o mofo e talvez alguns insetos — ela falou, dando de ombros.
— Vou deitar — Dwight avisou, se pondo para subir as escadas. A espelunca tinha apenas dois andares.
— Você sabe que não posso te deixar sozinho, não é?
— Por quê? — respondeu ele, irritadiço. Deu um olhar furioso para a garota, que mal piscou.
— Você sabe. — Ela ergueu os ombros, segurando o cabo da foice que libertara Sherry daquela sub-existência morta-viva.
— Não, eu não sei! O que eu sei é que você é a única ex-escravinha frágil daqui. — Apontou o dedo na direção do rosto de Delilah, sua voz aumentando de tom pela raiva.
— Não vou te deixar sozinho porque combinamos algo. Não é porque eu quero te consolar — foi a vez da voz da garota morena soar seca, quase debochada. — Você não cumpriu sua parte ainda.
Dwight a fitou por alguns segundos, e depois soltou outro “tsc” estalado. Subiu batendo os pés na escada manchada de sujeira.
Escolheu um quarto qualquer, abrindo a janela para tentar diminuir o ranço de quarto fechado por muito tempo. Espirrou algumas vezes, e largou a balestra em cima de uma das duas camas que havia no quarto. Se jogou em uma delas, a mais longe da porta.
A mesma brisa da manhã soprava de madrugada, um tanto mais gélida. Dwight se sentia imune ao frio, a qualquer outra sensação que não fosse a de seu coração afundado em seu peito. Era como se reagisse no automático. Como se estivesse vazio, entorpecido, apenas um grande pedaço de carne oca.
Delilah entrou no quarto esfregando os braços, já protegidos por um casaco. Revirou uma cômoda e achou ali um cobertor, no qual se enrolou e sentou em uma poltrona que parecia macia, na frente da cama do homem de rosto deformado. Dwight a observava, mas não a via direito. Sua cabeça estava longe.
A garota jovem separou um cantil, o qual jogou na cama na qual ele deitava, recostado em alguns travesseiros e no espaldar florido. Jogou também um sanduíche com carne de um pássaro que haviam caçado. Estava enrolado em papel plástico.
Ela começou a comer o sanduíche que fizera para si, mordiscando devagar. Olhava pela janela, depois para as cortinas. Bebeu água, e ao fazer tal movimento, empurrou a mochila na qual se recostava um pouco para o lado. Ele pôde ver pela abertura do zíper.
— Você pegou um filme?
Dwight não entendia o sentido daquilo, mas não tinha realmente interesse em saber a resposta. Fora uma pergunta sem pensar. Sua cabeça estava tomada por pensamentos a respeito de Sherry, e como sabia ser o pior ser humano que ainda respirava. E sequer tinha coragem para se matar.
Delilah deu um sorriso curto. Parecia triste.
Ela mexeu na mochila e tirou o DVD em mãos. Mostrou-o para Dwight. Tinha a imagem de uma índia de cabelos compridos na capa. Era um desenho animado.
— Era meu filme favorito, quando criança. Na minha opinião, é o melhor da Disney. Fiz meu tio assisti-lo comigo mil vezes, como tinha feito com a minha mãe — falou.
— Pocahontas — ele leu o título em voz alta.
Delilah afirmou com o rosto.
— Vi muito esse filme depois que minha mãe morreu. Eu tirei muitas lições dele. Sobre como não desistir, como encontrar seu lugar no mundo, saber que você importa, sabe? Por você mesma. Pelo valor do que você pode fazer... — tagarelou, e Dwight piscou os olhos, devagar. O tom da voz dela tinha algo de estranhamente calmante.
— Besteiras — resmungou o homem.
— Podem ser. — Delilah deu um risinho triste. — Mas é simbólico pra mim.
A jovem bebeu mais água, desviando o olhar para o chão. Pareceu mais menina com aquele comentário. Dwight sentiu impulso de continuar a conversa. Era melhor do que o silêncio estarrecedor.
— Do que sua mãe morreu?
— Mal de Huntington. É uma doença degenerativa... Começa tomando seu corpo, depois...
— A cabeça — respondeu por ela. Ela anuiu. Passou os dedos pelos cabelos e depois coçou o canto de uma sobrancelha. Ergueu-as em um trejeito que ele começou a reconhecer como sendo dela.
— Eu não sei se tenho os genes. Mas é algo bem triste... De se morrer. Mas é pior pra quem vê. Eu acho — supôs, e foi a vez de Dwight concordar com a cabeça.
— Nada é mais difícil do que perder quem amamos — afirmou, e ela concordou. Os dois se fitaram por algum tempo, e Dwight, um pouco desconfortável, resolveu sentar também. Arrastou o corpo para a beira da cama. Ela não recuou, continuou sentada na mesma posição na poltrona. Um joelho levantado perto do peito, outro dobrado pelo assento.
Dwight cruzou as mãos.
— Obrigado pela ajuda hoje. Vamos atrás do seu tio amanhã — garantiu. Ela concordou com o rosto, e pareceu engolir em seco.
— Eu realmente sinto muito — Delilah disse. — Foi muito... Muito triste acabar assim.
Seus olhos ficaram embargados de lágrimas no mesmo instante.
Dwight a mirou, sem saber o que fazer. Não entendia como ela podia ser tão empática. Aquele mundo não fazia mesmo nenhum sentido.
Delilah se levantou, como se calculasse seus passos. Ajeitou a mochila na poltrona, deixou sua foice ali, e depois sentou do lado de Dwight. Os dois se miraram mais uma vez. Ele não entendia o que ela queria.
— Existe algo pior do que perder quem amamos — ela disse, afirmativa.
Dwight esperou, fitando-a.
— Viver sem amar ninguém — a jovem sussurrou, dando a Dwight um olhar de profunda empatia com seu sofrimento. Ele arregalou os olhos, surpreso.
— Essa é a coisa mais piegas que eu já ouvi na vida — retrucou, sem se abalar. Delilah reagiu com uma risada, o primeiro riso não tão triste que ele a testemunhou dar.
No momento seguinte, ela o abraçou. Foi um abraço tímido, desajeitado, e logo o soltou. Dessa vez, não recuou. Ficou aliviado por ela ter se afastado. Se tivesse o tocado por um segundo a mais, desabaria em prantos, como uma criança.
— Vai dormir, menina — aconselhou-a, a fitando com certa estranheza. Ela mais uma vez secou as lágrimas, e procurou a outra cama do quarto.
— Não confio em você o suficiente para dormir antes que você durma — ela respondeu, sentando na outra cama. Foi a vez de Dwight dar uma risadinha, que saiu dolorosa de seu peito despedaçado.
Em minutos, ele próprio tinha adormecido.
Algo na companhia esquisita e inusitada daquela garota pôde acalmá-lo. Nem que fosse o suficiente por algumas horas, antes de acordar para seu pesar outra vez.
*****
Ela chorava.
Chorava, porque era apenas o que podia fazer, e a tristeza era apenas o que podia sentir.
“Ele não te ama. Ele não ama nenhuma de nós”.
É mentira, a jovem loira pensava, entre soluços incontidos. Ele me ama, ele cuida de mim. Sempre cuidou.
Calliope estava encolhida em um canto da cama king size que costumava dividir com Negan, e, muitas vezes, outras esposas. Era de costume que o líder do Santuário se deitasse no meio do longo colchão, sempre ornamentado com lençóis refinados, e pelo menos duas esposas se deitassem com ele, cada uma ao seu lado. Callie gostava de ficar do lado esquerdo dele, pois assim podia abraçá-lo e ouvir as batidas de seu coração. Aquilo a acalmava. Dava-lhe a impressão de aconchego, segurança, de enfim ter um lugar nesse mundo perdido no qual poderia repousar.
E confiar.
Mas, naquela madrugada, ele a fizera chorar até quase perder as forças. Culpou-a pela morte de Meredith, a acusando em altos brados de ser uma inútil, um peso morto para si. Depois, tentou se desculpar, mas o estrago já estava feito. Callie não conseguia lidar com qualquer rejeição dele. Ficava histérica.
Para piorar, Negan recusara-se a dormir com suas mulheres, as deixara a sós e saíra em uma missão de reconhecimento junto de alguns de seus principais homens. Tessa e Julie estavam aliviadas com isso, Sherry não estava mais no Santuário, e Calliope contava os segundos para a volta de Negan. Não sabia viver sem ele. Ele era o centro de sua vida, por mais doentio que aquilo fosse.
“Ele não te ama”, a voz de Tessa, rascante, parecia vir de sua memória como se fosse um alerta de sua consciência. Mas ela se recusava a acreditar.
Fechou os olhos, aspirando o cheiro dos cabelos e da nuca de Negan, impregnados no travesseiro. Apertou a fronha, e enfim adormeceu, sozinha naquele amplo quarto escuro.
[...]
Era uma tarde de verão, e Calliope trabalhava organizando as cozinhas do Santuário. Gostava de limpar, se sentia mais leve depois de deixar aqueles balcões industriais desengordurados, cintilando como móveis de propaganda de lojas rebuscadas.
Simon entrara pelas portas duplas de empurrar daquele amplo salão da fábrica, mas ela não lhe dera atenção. Alguns Salvadores supervisionavam o trabalho daqueles que trabalhavam por pontos, e imaginou que o braço direito de Negan fosse ter com eles. Mas veio falar consigo.
Entregou-lhe um bilhete curto, cuja mensagem era passada sem desvios:
“Gostaria de me acompanhar para jantar esta noite? Só eu e você.
Negan”
Os olhos da garota se arregalaram enquanto seus dedos de unhas finas e compridas, vestidos em luvas domésticas, seguravam o papel. Ela já havia descoberto, depois de passados alguns meses no Santuário, que Negan era poligâmico, ou seja, usufruía da companhia de mais de uma mulher. Aquilo fizera arrefecer um pouco o interesse que sentira por ele logo de início, seu Salvador da comunidade que a reduzira a um fiapo de gente. Não gostava da ideia de ter de dividir um companheiro, mas era inegável que, de um jeito estranhamente convidativo, o líder do Santuário fazia parecer a ideia de ser uma de suas esposas algo que lembrava um privilégio. Como se fosse uma dádiva única e especial, mesmo sendo reservada a mais de uma pessoa.
— E então? — Simon parecia esperar a resposta.
— Isso... É pra mim? — Ela demorou a acreditar.
— Você se chama Callie, não é? — o braço direito de Negan perguntou, ao passo que ela aquiescia. — É a garota que dá aulas de ginástica e dança para as crianças e as idosas, e trabalha por pontos? — continuou, fazendo um relatório das funções da jovem no Santuário. Quase como se esse jantar simbolizasse algo mais parecido com uma entrevista de emprego, e não um convite pessoal.
— Sou — afirmou, e Simon lhe deu um olhar entre o debochado e o impaciente.
— Então é exatamente com você. Se quiser ir, o chefe estará esperando na varanda do nono andar. Gosta de massa? — continuou a inquirir, e Calliope, confusa, apenas fez que sim.
— Negan sugeriu a lasanha que o Fat Joey sabe fazer. É excelente — Simon comentou, fazendo um gesto unindo os dedos de quem aprovava a comida. Girou nos calcanhares e a deixou ali, com as luvas de borracha e esponja umidificada nas mãos, tocando o bilhete.
Callie passou a tarde em dúvida se deveria ou não comparecer, mas era um convite do chefe, e, mais do que isso, um convite para ela. Específico. Fosse o que fosse, não poderia segurar a curiosidade.
No horário marcado, se vestiu com a melhor roupa que tinha, um vestido florido de alças finas, alaranjado, que ressaltava o dourado de seus cabelos e contrastava de forma bonita com sua pele bem clara. Vestiu sandálias beges e maquiou-se com pinturas leves, batons claros e sombra clara, destacando sua juventude. Respirou fundo antes de começar a subir as escadas até o andar mencionado por Simon.
Ao chegar na varanda, uma mesa quadrada com toalha quadriculada, como de restaurantes italianos, estava posta. Negan se sentava em uma das pontas, tomando um cálice de vinho. Assim que a viu chegar, abriu um sorriso imenso para ela, mergulhando seus olhos escuros nos orbes azuis acinzentados de Callie.
Ela percebeu que não teria defesas.
Negan lhe serviu vinho, enquanto um dos homens que trabalhava por pontos junto a ela, nas cozinhas, fazia as vezes de garçom. Serviu-os a lasanha de Fat Joey, que realmente estava deliciosa, e enquanto jantavam, Negan a divertia lhe contando histórias sobre o time de futebol americano que torcia, sobre algumas desventuras que vivenciou em idas ao estádio em finais de campeonato e outros momentos emocionantes. Perguntou a ela com toda a atenção sobre sua curta carreira de líder de torcida federada, e ela lhe contou dos campeonatos que tinha vencido, seus melhores momentos.
— Meu pai sempre torceu muito por mim, investiu tudo em mim. Foi por causa dele que cheguei aonde cheguei — confessou Calliope, sentindo seus olhos marejarem. — Ele nunca perdeu nenhuma partida e nenhum campeonato de dança que eu participei.
Negan levantou os dedos e limpou as lágrimas dela de maneira delicada. Aquilo a emocionou mais. Seu pai costumava fazer gestos parecidos.
— Deve sentir muito a falta dele — disse o líder do Santuário, em um tom cheio de empatia. Seus olhos escuros estavam fixos nos dela, que assentiu, aspirando devagar.
— Muito. É como se eu tivesse perdido uma parte de mim. Dói todos os dias, pequenas fisgadas, sempre que eu penso nele. Bem aqui — ela apontou para o meio de seu peito, na altura do coração.
Negan seguiu o movimento, e por um curto segundo, seus olhos perderam o tom de solidariedade à dor de Callie, e assumiram uma fagulha inadvertida. Algo um tanto... Dúbio.
— Mas você não está sozinha mais. Nós, os Salvadores, te salvamos. Você é parte do Santuário — ele falou, abrindo um sorriso menor, mas mais gentil. Fitou os olhos dela e não mais seu decote, e Calliope sorriu também.
— Eu sou. Eu sou Negan — ela articulou, para agradá-lo. Para sua surpresa, o líder negou com o rosto. Segurou em suas mãos, e a fitou profundamente.
— Não, não é. Você é uma garota maravilhosa — falou, e Callie poderia jurar que suas palavras pareciam sair mansas, flutuando como uma brisa suave de seus lábios abertos em um sorriso sedutor.
— Eu... — ela abaixou os olhos, sem jeito. Corou, mas deixou suas mãos nas deles, que agora a acarinhavam. Percebeu que seu coração começou a acelerar.
— Se possível, eu gostaria de te conhecer melhor. Você gostaria disso também? — Negan perguntou, sem rodeios. O queixo de Calliope caiu alguns milímetros, enquanto ela piscava os olhos e se sentia arfar.
— Eu... — murmurou a jovem, outra vez. Negan moveu uma de suas mãos para seu rosto, tocando seu queixo. Ela teve coragem de encará-lo de novo.
— ...Eu adoraria — ela se entregou, enfim. Algo dentro de si, uma pequena parcela de si, tão sem voz quanto ela já fora um dia, tão frágil como ela era antes de ser resgatada por Negan, parecia lhe alertar algo. Para que tomasse cuidado.
Mas já era tarde demais.
[...]
Calliope acordou no dia seguinte, muito tarde, sendo chamada por Julie. Sonhara com o primeiro encontro que eles tiveram, outra vez. Um dos sonhos comuns. Um dos sonhos que tentavam lembrá-la do porque ela estava ali, e porque continuava ali. Sentindo o nó da angústia contorcê-la por dentro, desejou que fosse possível voltar para aquele instante. Quando ainda existia algo além da dor da rejeição.
*****
Solidão.
Esta era uma palavra com a qual ela tinha muita intimidade.
Tomava uma xícara de café preparada por si com os grãos cultivados no Reino, naquela casa que era só sua, um espaço apenas dela. Sem outras pessoas, sem animais de estimação, sem ninguém. Apenas ela, e sua mente irrequieta.
Apenas ela, e a ausência dele, a presença constante de sua memória.
Peggy Taylor fechou os olhos. Ainda conseguia lembrar perfeitamente de seu rosto. O jeito como sorria, como se tivesse algo mirabolante passando em seus pensamentos o tempo todo. A maneira como dormia, tranquilo, um ressonar de quem não se abala perante os pormenores fúteis dessa vida. Os olhos castanhos sempre espertos, brilhantes, cheios de vida. Lembrava-se de seu cheiro, uma mistura do sabão líquido que usava para lavar suas roupas em Alexandria e o aroma natural dele, suave, reconfortante.
Moritz era repleto de alegria de viver, mesmo depois de tudo o que enfrentara. Nunca desistira da afirmação da vida, até seu último suspiro, quando se despediu dizendo a frase enigmática, “tudo ascende”.
A dor ainda era presente. Lembrar de como ele morrera em seus braços, sem que ela pudesse fazer nada para evitar, em um rompante inesperado, sem sentido... Fora demais para lidar, por algum tempo. Ela quase se suicidara. Teria morrido, se não fosse pela intervenção de Delilah, se não fosse Ezekiel, Jerry, Billy Ray e Rebecca. Eles a mantiveram ali, sobrevivendo a um dia de cada vez, até recobrar suas forças.
Por mais que estudasse, por mais que refletisse, Peggy ainda era humana. E sendo humana, tinha seus defeitos. Era difícil conviver com Delilah, e seu jeito esperançoso. Peggy perdera muito da fé na vida e nos outros por conta dos baques que sofrera. Achava importante continuar vivendo, ainda assim. Era contraditório, mas era o que era, era o que sentia.
Era difícil conviver com Billy Ray e Rebecca e sua alegria esfuziante, de noivos que logo iriam se casar e teriam um filho. Peggy mal tivera tempo junto do homem que amara mais do que tudo. A injustiça daquilo não lhe descia; uns com tanto, outros sem nada. Não queria mal a Billy e Becky. Mas queria ter sido feliz por mais tempo.
Bebeu mais um gole do café, tomado depois de comer ovos com bacon. Mesmo ainda vivenciando o luto, seu apetite melhorara, o que era um bom sinal. Pulsão de vida, como diria Freud, como diria Moritz.
Fechou os olhos, expirando lentamente. Soltou um suspiro, movendo o pescoço de um lado ao outro, depois de sorver mais um gole de café.
“Por que não está brilhando, Sininho?”
Era a frase carinhosa que Moritz gostava de usar para animá-la, quando a via entristecida. Peggy abaixou a xícara de café, devagar. Em seguida, baixou a cabeça para cima de seus braços apoiados na mesa. Podia vê-lo em seus pensamentos, lhe dizendo aquelas palavras.
E aos poucos aconteceu. Seus ombros e braços tremeram. Seus dedos. O pranto foi saindo, sofrido, devagar. Primeiro, silencioso. Depois, em lamentos. Logo, estava soluçando, chorando como havia chorado assim que Moritz fora assassinado.
“Eu não merecia isso. Por que aconteceu?”, Peggy se viu pensando, enfim. Finalmente, tendo piedade de si mesma. Permitindo-se sentir, mais uma vez. Permitindo-se, quem sabe um dia... Aceitar.
Ela ouviu batidas na porta da sala, e secou seus olhos rápido em um guardanapo de pano. Saiu da cozinha e abriu a porta de entrada, se deparando com alguém que não esperava.
— Desculpe se vim cedo demais. Bom dia — Carol Peletier a cumprimentava em seu pórtico de entrada. Peggy ergueu as sobrancelhas, sem compreender, mas logo respondeu.
— Bom dia. Já estava acordada há algum tempo — a jovem comentou, e a mulher de cabelos grisalhos pareceu vistoriar seu rosto em um olhar ligeiro. Peggy notou que ela provavelmente reparou em suas olheiras fundas. Dormia mal, nos últimos tempos.
— Aconteceu alguma coisa? — a menina inquiriu a mais velha.
— Nada além da reunião de ontem à noite. Rick, Daryl, Mavelle, Rosita e os outros de Alexandria estão se preparando para voltar para a comunidade. Eu irei para Hilltop com Jesus — contou Carol, e Peggy apenas acompanhava sua fala, tentando entendê-la. — Mavie deve te procurar para se despedir — acrescentou, mas a jovem não precisava daquela informação. Sabia que a irlandesa o faria, estava muito emocionada por revê-la bem. Peggy ficou tão surpresa ao reencontrá-la que demorou a acreditar. Imaginava que nunca mais a veria de novo.
— E então...? — Peggy Taylor insistiu.
— Eu percebi que você e o Rei são íntimos. Ele parece levar seu julgamento muito a sério — adicionou Carol, parada perto da entrada. Peggy havia feito um gesto para que a mulher entrasse, mas pelo visto ela não faria mais do que uma visita breve.
— Ezekiel é um bom amigo — a jovem respondeu, sem se abalar. Esquecera-se do quanto Carol era excelente em ler as pessoas.
— Eu acho que, se há alguém capaz de fazê-lo mudar de ideia sobre o que decidiu, é você. E eu tenho certeza de que você não gostou da decisão do Rei de se manter alheio a guerra contra Negan. Não só porque concordou com a visão de Rick, de que devemos nos preparar para unir as comunidades, mas também porque sei que tem seus motivos. Pessoais, para tanto — mencionou as lembranças daquela manhã da jovem, de maneira delicada.
— Você quer que eu convença Ezekiel de que o Reino deve lutar? — Peggy indagou, um pouco ultrajada. Ora, a mulher que se virasse para tanto.
— Você não quer? — a mais velha respondeu com uma pergunta evasiva, e lhe deu as costas. — Boa sorte no que decidir! — Carol clamou ao longe, saindo pelos portões baixos da casa de Peggy.
Peggy Taylor fechou a porta, encostando-se nela e franzindo o cenho. Não poderia negar que pensara sobre a ideia de dissuadir Ezekiel. Mas ela morava no Reino há pouco, e devia muitos favores ao governante daquela comunidade. E, por mais que tivesse experiência, ainda era uma jovem de meros dezessete anos de idade.
Esfregou as mãos no rosto, soltando um latejo contrariado. Era óbvio que queria lutar contra Negan. Era óbvio que era contra a ditadura que ele instaurara, e que sabia que evitar essa guerra fingindo colaborar não significaria que, uma hora ou outra, ela não viesse contra eles. Era uma questão de tempo. Alguém faria um primeiro movimento. E era melhor estarem preparados, como Rick Grimes os orientara.
Ezekiel tinha temores reais. Temia perder o espaço que construíra, temia perder o respeito que obtivera, temia, em suma, que seu povo morresse nessa empreitada. Mas o que era aquela espécie de vida que tinham? Não era apenas uma ilusão de liberdade e segurança? No fundo, a proteção que Ezekiel tecera com tanto cuidado caíra para Negan. Eles estavam tão sós quanto Hilltop, quanto Alexandria. Quanto todas as comunidades que Negan subjugara.
Peggy lavou a louça e organizou a cozinha, com aqueles pensamentos em mente. Quando foi para a sala, viu que acima de um dos assentos de seu sofá, Ezekiel deixara um livro da coleção dela. Volta e meia, ela o emprestava seus tomos de filosofia.
A capa verde esmeralda de “Humano, Demasiado Humano” de Friedrich Nietzsche olhava para ela. Seu subtítulo, naquela fonte branca e estreita, dizia: “Um livro para espíritos livres”.
E, subitamente, ela teve um estalo. Uma iluminação filosófica.
Abraçou o livro e saiu porta afora, rumo a comunidade do monarca, quase correndo. Avistou Jerry antes, que lhe contou que o Rei saíra em uma missão de entrega de itens aos Salvadores, o que a fez tremer de ojeriza. Aguardou e encontrou-o algum tempo depois, em uma das praças da comunidade, perto do coreto onde algumas crianças tinham aulas. Estava sentada no banco do jardim, relendo o livro de Nietzsche, marcando mentalmente as passagens que queria.
— Boa tarde, jovem donzela! Tenho um dia cheio hoje. Há algo que quer de mim? — perguntou, em seus modos teatrais.
— Se tiver algum tempo para conversar... — ela falou, mansa. Olhou em suas íris negras sem pressa em seu próprio encarar.
Ezekiel moveu o rosto por cima dos ombros. Um de seus homens de armadura esperava por ele, e o Rei lhe disse para que fosse aos portões da comunidade e adiantasse a organização dos suprimentos. Pelo visto, seriam ainda mais extorquidos naquele dia.
O líder do Reino se sentou ao lado da jovem, que lhe mostrou o livro. Ezekiel sorriu.
— Ainda não tinha lido “esse Nietzsche”. Sabe que conheço mais seus escritos quando jovem, mais voltados para o teatro e as artes — disse, e Peggy abriu em uma das páginas que queria. Leu em voz alta.
“— Vivemos num tempo em que a civilização periga morrer por meio da civilização.”
— Interessante — articulou o Rei, mas Peggy levantou uma mão e abriu outra página.
— “Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra — e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem”. — Parou para respirar, e fitou Ezekiel. O Rei a mirava com olhos confusos.
— Você voltou a ideia de deixar o Reino? — o homem a interpelou.
— Não. — Peggy negou movendo o rosto. — Leia o subtítulo do livro.
Ela acompanhou o Rei lendo o que se referia aos espíritos livres.
Abriu o livro, por fim, na última página que usaria para embasar seus argumentos.
— “É chamado de espírito livre aquele que pensa de modo diverso do que se esperaria com base em sua procedência, seu meio, sua posição e função, ou com base nas opiniões que predominam em seu tempo. Ele é a exceção, os espíritos cativos são a regra”. — discorreu, enfim fechando o volume literário.
— Faça seu ponto, enigmática donzela — Ezekiel comentou com deboche, mas parecia um pouco irritadiço.
— Meu ponto é que você está enganado. Você não pode dizer não para esta guerra — esclareceu Peggy, e ele ergueu as sobrancelhas. Parecia afrontado. Sua mão direita apertou o cetro que portava.
— E Nietzsche te fez perceber isso? — articulou, talvez mais sarcástico do que pretendia soar. Peggy sequer piscou.
— Não. Eu — Apontou para a própria cabeça — Percebi isso.
O homem a mirou por algum tempo, sem aparentar certeza.
— E por quê?
— Porque você vive dentro de uma ilusão de conforto. Uma bolha firme, mas ainda assim uma bolha, de segurança, e de estabilidade. Que pode ser rompida. Já conversamos sobre isso. Talvez o teatro tenha sido necessário, por um tempo, para manter a todos seguros — Ela abriu seus braços, indicando a amplitude da comunidade — Mas não é a medida certa agora. Não é suficiente.
— Eles precisam que eu seja o Rei — Ezekiel insistiu, determinado.
— Sim. E ser o Rei, nesse momento, é mostrar o caminho. Mostrar porque devemos lutar — a jovem retrucou, rápida.
— E você teve algum tipo de insight filosófico que a fez notar que a única solução é lutar? — O Rei riu consigo mesmo, ainda descrente da jovem. Mas ela tinha mais a dizer.
— Se vivemos em um tempo que a civilização de Negan, sua ditadura que furou sua bolha, que aos poucos perde o ar, até que todos nós sejamos sufocados... — Continuou, respirando fundo. — Vivemos mesmo em um tempo que a civilização periga matar a civilização. Pois a civilização de Negan é um teatro maior, mais bem ensaiado e mais ofuscante do que o seu. — Apontou em uma direção hipotética aonde ficaria a base principal dos Salvadores. — Não à toa estamos submetidos a vontade dele.
Ezekiel coçou o queixo, aguardando. Ainda não parecia convencido.
— Essa civilização funciona. Enquanto funcionar, não deve haver guerra — afirmou ele, sério.
— Funciona? — foi a vez de Peggy rir com escárnio. — Você viu o estado em que Mavelle e Daryl chegaram aqui ontem? Mal parecem pessoas. Estão em pedaços. Shiva parece mais humana do que eles — admitiu, severa mas realista. Ezekiel engoliu em seco.
— Você não pode viver sob a sombra de uma ameaça e mentir para si mesmo que está livre. Isso só faz de você um espírito cativo. Como um Rei, você não pode se dar ao luxo de ser um espírito cativo. Você deve guiar sua população para a liberdade. Mesmo que isso signifique a solidão — aconselhou-o, e o Rei voltou a mira-la com cuidado.
— A solidão?
— A dor da perda. A responsabilidade pelas perdas. Elas existem, elas sempre existiram, desde que Negan os dominou, não é verdade? — Não desviava o olhar das íris escuras do homem.
Ele franziu os lábios, parecendo considerar aquelas palavras.
— A paz é muito frágil, Peggy. Talvez você seja muito jovem...
— Eu perdi o homem que eu amava julgando que essa paz existia, ou poderia existir. Ela não existe. Ela nunca foi uma opção — retorquiu, cortante.
Ezekiel não soube o que responder por quase um minuto. Os dois apenas se fitaram. Peggy, resoluta. O Rei, duvidoso.
— Não existe paz se existe opressão. Se não existe liberdade. Uma não vive sem a outra — a jovem elencou, falando com mais suavidade. Tocou em uma das mãos do líder, que não afastou o toque.
— Você disse que Florence foi o amor da sua vida. Sua colega de teatro. Que se casou com outro homem, e teve uma morte sofrida. Câncer. Você diria que ela era um espírito livre? — Peggy Taylor lembrou, e o Rei retirou sua mão da dela, soltando um suspiro incomodado.
— Sim, eu diria. — Ele já não a mirava mais.
— Então torne-se você mesmo um.
O Rei Ezekiel coçou o pescoço, parecendo nervoso.
— Eu sei o que é temer a perda. Eu sei o que é a dor de ter de se reconstruir do zero. Eu perdi tudo. Meus pais, meu padrasto, meus irmãos, minha melhor amiga. O homem que eu amava. Eu entendo isso perfeitamente — declarou, muito séria. Ele a fitou mais uma vez, e seus olhos negros pareciam denotar mais calma. Como se estivesse mais propenso a ouvir.
— Eu sei que a responsabilidade pesa nos seus ombros. Mas fugir do que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde, não vai evitar que aconteça. Precisamos estar preparados. O medo não é a resposta — disse, e por algum motivo sentiu que Moritz deveria estar muito orgulhoso de si.
— Talvez não haja resposta... — Ezekiel considerou, e Peggy negou com o rosto de novo.
— “Quem está só? — O temeroso não sabe o que é estar só: atrás de sua cadeira há sempre um inimigo” — ela mais uma vez usou das palavras de seu filósofo favorito.
— Não pode haver paz, nem liberdade, à sombra de Negan. Não pode haver Reino, à sombra de Negan. Não pode haver Rei. Não pode haver Rei que não enfrente a solidão de assumir para si o que ele é. Sua posição perante seu povo. Você é um líder. Independente de quem era antes. — Apontou para o governante. — Agora, neste momento, você é um líder. Então seja um — ela afirmou, e o Rei se levantou. A jovem continuou sentada. Aguardou, nervosa, até que ele se virou com um sorriso no rosto.
— “Torna-te o que tu és” — Ezekiel respondeu a Peggy, sorrindo, agora ele mesmo resoluto. Citou seu filósofo guia. Uma sensação de triunfo e potência tomou conta do peito da jovem morena, antes sempre repleto de pesar.
— Jerry! Ivan! Peterson! — chamou, em altos brados, os homens sob seu comando, mais perto deles. Até mesmo a pequena sala de aula improvisada no coreto da praça parou para ouvir. Peggy viu algumas cabeças de alunos olhando para trás, bem como o rosto da professora idosa focado no que o Rei diria. Abandonou o giz no quadro, atenta a Ezekiel.
— Preparem nossas forças. Rick Grimes estava certo. Precisamos avisar Alexandria — decidiu. Peggy se levantou, sorrindo.
— Certo, Majestade. Mas por quê? — Jerry interpelou-o, sem compreender. Ezekiel segurou o seu ombro e lhe deu um olhar significativo, antes de responder.
— Porque o Reino marchará para a batalha.
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