Hunter's Instinct
91 Episódio 91 - Sabotage and Self-Sabotage
Notas iniciais
Como mesurar o tempo de um movimento precipitado?
Ao tomar uma decisão por impulso, muitas vezes o ato em si parece flutuar em pleno ar. Como se só percebêssemos o que fizemos quando o feito já decorreu.
Foi assim que Delilah Feld assimilou o braço esquerdo de Dwight soltando a balestra que carregava em seus ombros. Ante a pergunta que acabara de proferir, ele iria atirar uma flecha.
Contra ela.
— Joga isso no chão. Agora. Perto de mim — ordenou a garota. O revólver ASG Dan Wesson nunca estivera tão firme em seus dedos alvos. Ela podia sentir a pressão em suas pálpebras, hirtas de tão convictas.
Um movimento em falso, e ela estouraria sua fronte. Sem hesitar.
Ela conseguiu enxergar a dúvida nos olhos castanhos daquele homem. Um lampejo incerto, que se apartou de suas íris escurecidas tão logo se acendeu. Desprendeu os lábios, sua fala ressoando em uma tonalidade de suspeita.
— Não me mataria — desacreditou-a.
Delilah tinha dedos mantidos no cabo da foice que ela mesma esculpira, com a ajuda de Morgan. Ergueu a arma com um floreio, a fazendo girar, e também a apontou para o captor de seu tio. A arma de fogo visava a têmpora direita do homem loiro. Bastaria um disparo.
— Matei alguns dos seus junto de Morgan, poucos dias atrás. Eu tenho tempo de um tiro limpo, e minutos livres para correr daqui. Ou posso atirar a ponta da estaca contra a sua garganta — girou a foice nas mãos, deixando a ponta do cabo esculpida em formato de lança ameaçando o sujeito — e uma morte suja. Se você colaborar, nenhum dos dois precisa acontecer.
A voz de Delilah Feld não titubeou por nenhum momento. Seu tom, costumeiramente jovial, estava repleto de decisão feroz.
Ela notou que os ombros de Dwight tremeram. Conteve um sorriso inclinado, desafrontada.
O homem de rosto queimado punha a balestra no piso do primeiro andar do bangalô, lento e cuidadoso. Após colocada no assoalho, a empurrou com o pé direito até Delilah.
A jovem pegou a arma e a vestiu pela alça em seu ombro direito. Não baixara o revólver.
— Onde está meu tio, e por que está aqui? Quem mais está por perto? — questionou-o, diminuindo o timbre de sua voz, receosa de que pudesse ser ouvida por terceiros.
— Não sei. Deve estar no Santuário. Esta é a minha casa. Foi... A minha casa — corrigiu-se, de pronto. Uma agulhada pontuda perfurou seu peito por dentro, ao pensar em seu tio ainda sendo molestado por Negan e seus capangas.
Delilah ergueu o cenho, confusa, porém, ao apreender outra informação de importância.
— Sua casa?
— Sim — insistiu o homem, movimentando o queixo para apontar a mesa lateral na qual parara perto. Tinha as duas mãos erguidas em rendição, uma portando o pedaço de papel em mãos, outra uma lanterna, mas Lilah notou que ele pareceu usar os nós dos dedos da mão direita para coçar a pálpebra. Ou para secar as lágrimas que flagrara.
Delilah deu um breve olhar para a mesa. A fotografia que vira quando encontrara aquele bangalô, repleta de exaustão emocional e também física, revelava algo que ela não percebera.
Sua idiota, como deixou passar isso?
Recriminou-se em sua mente, ao crispar a boca vendo que o homem loiro com a jovem mulher bonita da foto enquadrada não era ninguém mais além do sujeito que supostamente invadira aquela residência.
O capanga de Negan era o dono daquela casa, de fato. Não atentara para a fotografia direito, então sequer aferiu que se tratava de Dwight antes de ser queimado.
— Ser ou não a sua casa não é uma resposta para o que está fazendo aqui, nem se está sozinho ou acompanhado — exigiu ela, recobrando a postura determinada. Coçou o pescoço com suas unhas compridas, mirando o homem loiro através de um encarar atilado e ressabiado.
— Estou procurando minha mul... Uma das mulheres de Negan. Estou a sós — esclareceu Dwight, depois de Delilah mover o revólver em um movimento ameaçador.
— Quem? — Ela franziu as sobrancelhas, ainda mais surpresa.
— Sherry. Ela. — Dwight indicou com a mão a fotografia da mesa. Lilah pestanejou, aturdida.
— Se está mesmo sozinho, vai dar um giro por essa casa comigo. Ilumine o caminho e não tente nada, se quiser viver — demandou a garota. Ele seguiu conforme o comandado, enquanto Delilah fazia a vistoria pela residência. Abriu uma das janelas e olhou para fora. Nenhum sinal de vida humana, apenas os mesmos apodrecidos quase sem membros rastejando pelas ruas.
— Me dá isso. — Reivindicou com a mão livre, a que não segurava o revólver e já guardara a foice no apoio perto de suas calças. Seus dedos se moveram em um sinal apressurado, indicando o papel que queria ler.
— Isso não é da sua conta — Dwight se recusou, dando um passo para trás. Lilah soltou um riso seco.
— Eu te perguntei alguma coisa?
O homem loiro deve ter percebido que a mira firme no revólver se mantivera por todos os minutos desde que o alvejara. Não ousou desobedecer, apesar de esticar o braço perto da garota com lentidão. Estava muito contrariado.
Lilah leu a carta, escrita por Sherry para aquele homem. Ao passo que descia os olhos sobre o conteúdo escrito, franziu os lábios e o cenho algumas vezes. Não queria admitir, mas se surpreendera com o que ali fora redigido.
Era uma carta de despedida. Sherry, a ex-mulher de Dwight, narrara parte dos melhores momentos da vida deles, e dos piores. Como tinham casado e começado a vida juntos, os planos para engravidar, o dia a dia de recém-casados quando eclodiu o surto da doença dos apodrecidos. Todo o caos e o horror, e como Negan e o Santuário, depois de meses vivendo na miséria, lhes parecera a salvação.
E, em verdade, foi apenas o começo do que viria de pior, para ambos. Sherry acusava Dwight de ter deixado de ser o homem que ela amava, mas que, em consideração a vida que tiveram juntos, lhe desejava que pudesse um dia se redescobrir, e, se possível, se redimir.
Todavia, fora direta em lhe dar adeus. Não iria querê-lo ao seu lado nunca mais.
Ao dobrar o papel de volta e entrega-lo ao seu destinatário, a jovem piscou os olhos, tentando evitar lhe dar um olhar compassivo. Dwight merecia aquilo. Ele fora conivente com a brutalidade de duas pessoas inocentes, com o rapto de seu tio, com o sequestro de Daryl, e sabe-se lá o que mais. Era apenas um capacho de Negan, alguém que cumpria suas vontades, alguém tão sem valor que não pudera ser perdoado sequer pela mulher com quem um dia se casara.
Lilah avistou o engradado de cervejas que Dwight deveria ter trazido, e deixado do lado do saco de pretzels que estavam em cima da mesa. Era uma promessa, uma piada interna que os dois consortes tiveram um dia. Mas ao invés de um símbolo de encontro, servira como um retrato de despedida.
— Eu quero ajudar. Quero ajudar, depois de achar Sherry — o homem loiro assegurou. Delilah semicerrou os olhos, duvidosa.
— Por que você está procurando por ela? Por que não está no Santuário?
— Houve um problema... Uma passarela de concreto caiu. Matou um bando de gente, deixou alguns mortos-vivos perambulando pelo nosso território, e algumas pessoas abandonaram o Santuário — Dwight afirmou, guardando a carta no bolso de sua calça jeans, em um pedaço mínimo, depois de ter feito diversas dobras no papel.
— Meu tio... — Lilah já se punha a indagar, mas o sujeito loiro a cortou.
— Não aconteceu nada com ele. Estava dentro do prédio — garantiu, mas Delilah não se sentia tão certa.
— Quem saiu de lá, então? — exigiu saber.
— Sherry, Mavelle, Daryl — respondeu ele, passando a mão na nuca, parecendo desconfortável. Era evidente que Negan deveria estar furioso com isso.
— Seu chefe te mandou atrás de Sherry? — por um segundo, Delilah teria falado “da esposa dele”. Mas não conseguiu ser cruel o suficiente. Não era da sua natureza.
— Sim.
— Acharam Mavie e Daryl? — Uma gota de suor frio escorreu por sua testa.
— Não. Não até agora — afirmou. Lilah deu um olhar para a janela. Não demoraria muito até o amanhecer, poucas horas, apenas.
— Eu juro. Eu quero... Quero ajudar — instou Dwight. Delilah meneou o rosto, incrédula.
— Você acha que eu sou idiota? — interpelou-o, as sobrancelhas franzidas por escárnio. — Você não ajudou sua mulher. Por que me ajudaria?
— Porque Sherry tem razão. — Tocou no bolso da carta, encarando Lilah com um olhar decidido. — Porque eu já fui longe demais. Eu não tenho mais razões para estar vivo. Insisti por todo esse tempo que era o mais importante, continuar respirando. Mantendo-a viva, custasse o que custasse. E eu posso ter feito tudo o que fiz para nada. — Estalou os dedos, desviando o olhar. Ela notou que olheiras profundas estavam impressas embaixo de seus olhos. — Posso descobrir que ela foi comida viva por algum desses monstros, e que passou anos sendo refém de outro monstro, um que respirava, apenas postergando o mesmo fim maldito.
Os lábios de Delilah entreabriram-se. Ela arqueou de leve o cenho, ajeitando os ombros. Não baixara a mira do revólver ainda.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que quero achar Sherry. Quero me certificar de que está segura, e então, só então, quero matar Negan. E depois me matar — completou. Seus olhos escuros fuzilaram os de Delilah com uma certeza impressionante.
Lilah não reagiu, por alguns momentos. Não deveria se importar. Era um homem cruel, um homem covarde que obedecera um tirano doente que cometia os piores atos escabrosos.
— Vamos atrás de Sherry. E logo depois, você vai me levar até o Santuário. Terá sua chance de matar Negan, mas só após salvarmos meu tio.
Dwight mirou os olhos castanhos de Lilah, e naquele momento era seu rosto que mostrava uma expressão de quem não acreditava no que ouvira.
Delilah Feld estava certa de que aquele homem que a fitava com íris surpreendidas não merecia sua consideração.
Mas ser insensível a dor alheia, fosse de quem fosse, não era de sua natureza. Ela poderia se tornar uma sobrevivente rápida, que sabia manejar algumas armas e se defender... Mas continuava a mesma menina compassiva, empática.
A mesma garota órfã, solitária, que se apiedava de outras almas tão sozinhas quanto ela.
*****
Embrenhou-se pelos jardins daquela pequena sociedade extravagante, pulando alguns muros, as botas de caça pisando firme na grama enquanto avançava a passos grossos. Mal controlava a irritação, o destempero e o desconsolo que pareciam, juntos, abraça-lo e dominar todos os seus sentidos.
O Reino de Ezekiel era apenas mais uma piada, como Alexandria também era, antes de Rick Grimes assumir a liderança. Como Hilltop não deixava de ser, com seu líder frágil e covarde. Como o Santuário de Negan, com seu nome de ironia perversa, declarava explicitamente ser, no pior dos humores doentios.
Todas aqueles projetos de novas coletividades não passavam de esperanças ingênuas. Tentativas desesperadas de fingir que a humanidade poderia prevalecer, a civilização poderia se reerguer, quando o natural do ser humano, em verdade, já reinava naquele novo mundo. Já se espalhara no comportamento daqueles cadáveres grotescos que, famintos por carne humana, vagavam insólitos por todos os cantos, sempre em busca de sangue e vísceras.
Daryl Dixon considerava os mortos-vivos menos hipócritas do que os humanos cujos corações ainda batiam dentro de seus peitos. Estes, fingiam querer construção, redenção, salvação.
Mas iam, esfaimados, sempre atrás de mais destruição.
Essa era a natureza humana. Egoísta, sádica, desesperada por morte e destruição. Era isso o que as pessoas buscavam e encontravam, mais cedo ou mais tarde.
Ele aprendera aquilo desde pequeno. Desde que fora deixado à mercê de uma mãe letárgica, que nada fazia além de se drogar, dia após dia. Desde que sua criação ficara dependente de um pai ensandecido pela dor, que descontava em seus filhos todo o mal que se abatera sobre si, e se tornara, nesse ciclo de sofrimento, seu carrasco particular.
Depois de tanto tempo obrigado a se acostumar com uma vida de sobrevivência, matar para não morrer, endurecer para não quebrar, ele julgara que estava pronto. Seus amigos também. Passaram por tanto juntos. Desde o acampamento perto de Atlanta até Alexandria. Tudo o que tiveram de fazer... Shane, o Governador, Dawn, Jed, Hashimoto. Não faltaram ameaças e desafios, todas derrubadas. E o grupo se mantinha, como um corpo coletivo, perda após perda. Até o último homem de pé.
Estavam tão errados. De que adiantariam continuar de pé, se havia alguém que poderia fazê-los ajoelhar? Qual era o valor de passar por aquilo tudo, para, mais uma vez, serem subjugados? Quantas vidas seriam ceifadas, quantos enlouqueceriam, quantos seriam feito em pedaços — fosse pelo sadismo humano, fosse pelos cadáveres sanguinários —, até o fim de tudo? Esse fim sequer existiria?
Daryl suportara o horror no Santuário. Não se lamentava por si. Lamentava-se pela dura lição que Negan veio lhe lembrar, a lição que seu pai já o tinha ensinado quando era criança, e que ele tentara esquecer, esconder em algum recôndito de sua memória. Não há finais felizes.
“Se você acha que as coisas vão dar certo pra você, ou é muito burro, ou não está prestando atenção.”
Seu pai dizia essa frase antes de algumas surras. Daryl Dixon a escutava calado, e tentava seu melhor para não gemer de dor quando o cinto de seu pai arrancava pedaços da pele de suas costas, fazendo o sangue jorrar.
Ele aguentara tudo de pé, até ser forçado a ajoelhar. E de joelhos, tentou se manter. De que adiantou seguir respirando, se isso não impediu Negan de fazer o que fez? De todo o mal que impôs a Mavie, e ele foi forçado a assistir, inútil como o traste que era?
“O mundo seria um lugar melhor se você e seu irmão nunca tivessem nascido. Filhotes da desgraça.”
Os ecos fantasmagóricos da voz repleta de desprezo de seu pai pareciam chegar aos seus ouvidos.
Fingindo que não estava prestes a desmoronar, Daryl abriu a porta da casa para a qual rumava, um pequeno casebre quarto e sala no qual Mavelle e ele estavam alojados.
A porta para o quarto estava entreaberta, uma cama simples de casal com o edredom desfeito visível da porta de entrada. Nenhuma luz acesa. Na bancada que fazia a divisão entre a sala e a cozinha, inúmeras latas de cerveja estavam dispostas. Algumas viradas, vestígios do líquido amarelo manchando a madeira.
Um cinzeiro em uma mesa de centro estava cheio de cigarros. Do lado dele, uma cartela de remédios jazia vazia. E, no sofá de dois lugares de uma cor laranja manchada, ela estava jogada, o tronco e um dos cotovelos apoiado no braço esquerdo do móvel, outra mão segurando uma taça cheia de bebida. Vestia apenas uma camisa rosa claro, de um número muito maior do que o seu, cobrindo parte de suas coxas.
Ele fechou a porta, e acendeu um abajur alto perto do sofá.
— Você demorou — Mavie atestou, sua voz de passarinho ressoando embriagada. Daryl contara mais de vinte latinhas largadas em cima do balcão de cozinha americana. Na mesa de centro, uma garrafa de vinho estava aberta, quase terminada.
— Esquila, você vai se afogar, desse jeito — murmurou, tentando não ficar ainda mais desolado pela imagem descontrolada dela. Aquilo era culpa dele. Mavelle bebendo ao ponto de desmaiar era sua responsabilidade.
O arqueiro andou até a caçadora, e tentou tirar a taça de suas mãos, com gentileza. Mavie se esquivou, franzindo o cenho em uma expressão infantil. Daryl notou que seus lábios rosáceos estavam escurecidos, roxos de tanto vinho bebido.
Ao impedir o namorado de tirar o cálice de suas mãos, Mavelle sujara a blusa rosa claro que vestia com metade do que havia no recipiente. A mancha de vinho se espalhou pelo tecido, e ela ignorou.
— Precisa trocar de roupa — Dixon orientou Berry que, embriagada, soltou um “tsc” com os lábios.
— Não importa. Eu sempre vou continuar suja — Mavie sussurrou, fazendo Daryl olhar por cima do ombro. Estava guardando a garrafa de vinho, evitando que ela bebesse mais.
Parou o movimento na hora, deixando a garrafa em cima de uma mesa lateral e voltando até ela.
— Do que você está falando?
O arqueiro fitou a companheira, seus olhos estreitos analisando o rosto angelical da garota. Mavelle, de lábios abertos, não controlou um tremor em seu queixo. Seus dentinhos salientes, brancos, estavam também escurecidos pelo vinho.
Daryl reparou que os olhos entre o verde e o castanho dela estavam umedecidos. Aparentava estar prestes a cair no choro, a qualquer momento.
— Você não merece estar comigo! Você tinha que ir embora. Sair de Alexandria, da Virgínia... Ir para um lugar muito longe desse horror — Mavelle bradou, se levantando de súbito. Zonza, quase tropeçou. Ele correu para segurá-la pelos ombros, mas ela se desvencilhou. De costas, parecia querer evitar olhá-lo nos olhos.
— Eu não mereço você mesmo. Achei que teria percebido isso antes — admitiu Daryl, sua voz roufenha soltando a expiração. O peso que sempre carregava voltou a suprimir seu peito, trazendo-lhe mais um choque de realidade. Os ombros de Mavelle tremeram, assim que escutou isso. Estava rindo, para o sobressalto dele.
Sentiu como se uma lâmina afiada partisse seu peito em dois pedaços. Ela lhe dizia aquelas verdades e ainda achava graça de sua miséria?
A garota girou nos calcanhares, o fitando de frente. Tinha um sorriso desconsolado nos lábios, as íris entre o verde e o castanho brilhantes. Não por alegria. As lágrimas já descendiam por suas bochechas.
— Sou eu quem não merece você — declarou Mavie, sua voz de trinado de passarinho falhando ao enunciar aquela dolorida frase. Os dois se fitaram por um longo segundo, enquanto Daryl franzia o cenho, sem compreender.
— O quê?
— Eu não mereço você — ratificou a irlandesa. — Você sempre fez tudo por mim. — A garota deu um passo à frente, cruzando os braços, chorosa, deixando a taça de vinho na mesa de centro. — E eu te amo, eu te amo mais do que eu amei qualquer pessoa nesse mundo esquecido por Deus — confidenciou ela, baixando os olhos para o sofá ao seu lado direito. As lágrimas não paravam de cair de seus olhinhos de anjo, e Daryl sentia seu coração se partir em inúmeros fragmentos irreparáveis. Como ele poderia acabar por fazer tanto mal a garota que amava, que o amava também, tentando seu melhor apenas para protege-la?
— E por isso eu queria... Eu queria que você não tivesse passado por nada disso. Todas as noites eu sonho com o pesadelo que vivemos nas mãos daquele... — Mavie ainda não conseguira fitar Daryl nos olhos outra vez. — ...Toda aquela morte. Desde Glenn e Tara, a fábrica, Meredith... A loucura nos olhos da Calliope — a garota tartamudeava, e dessa vez foi ele quem avançou. Tocou em seus ombros de maneira zelosa, e a irlandesa o mirou.
— O que ele fez com você... O que ele fez conosco... — Mavelle Berry olhava para Daryl Dixon com o rosto doce esfacelado em um retrato de desamparo.
— Eu não me importo com o que ele fez comigo. Isso não é o pior — o arqueiro garantiu, sério. Ergueu uma mão para acariciar os cabelos morenos de Mavie.
Ela balançou o rosto, tentando secar as lágrimas que não paravam de cair.
— Você deveria. O que ele te fez... É sim o pior. Se ele te fez reviver o que é que ocorreu para você ser assim... Bom demais, generoso demais... Ele fez você se odiar de novo, Daryl, e eu não consigo parar de sofrer com isso — Mavelle assumiu, dando mais um passo para perto dele. Segurou a mão que a acariciava e a apertou.
— Não se preocupe comigo — refutou, mas sua voz saiu mais rouca do que de costume. Como ela o lia tão bem?
— É óbvio que eu me preocupo. Eu não quero... Eu queria poder apagar tudo aquilo. Voltar no tempo, evitar que acontecesse. Tudo. Desde aquela noite... Aquela maldita noite em que Glenn... — Daryl não a deixou terminar de falar e a puxou para um abraço apertado. A irlandesa fincou seus dedos nas costas dele, o agarrando contra si como se sua vida dependesse disso.
Seu rostinho delicado estava prensado contra os ombros dele, recostada junto a si. Daryl beijou o topo de sua cabeça, sentindo o perfume de seus cabelos morenos. Por aquele ínfimo segundo, toda a dor passou.
— Ele me forçou — Mavelle Berry confessou contra os ombros de Daryl Dixon.
Ele a afastou pelos ombros, arregalando seus olhos azuis estreitos, enquanto mergulhava seus orbes nos dela.
— Ele ia te matar. Eu tive que... Eu não queria. Eu não tive escolha.
Os olhos de Mavelle ficaram contraídos de dor. Seu rosto estava abalroado de lágrimas, e suas íris cintilantes pelo sofrimento pareciam implorar por perdão.
— O que ele fez? — Daryl perguntou, sentindo que algo dentro dele morria. Os lábios de Mavie tremelicaram de novo. O arqueiro apertou seus braços, angustiado.
— O que ele fez? — insistiu, e Mavelle baixou os olhos aos seus pés antes de mirá-lo e responder.
— Eu aceitei a proposta. Disse que seria uma das esposas. Então...
Era como se ele estivesse em queda livre, parado estático no chão. Como se não tivesse aonde se apoiar, como se os míseros restos de equilíbrio que tivessem lhe sobrado fossem arrancados, sem dó.
O pior que ele temera tinha acontecido.
— Ele me beijou. E eu tive de aceitar aquilo. Eu nunca... — Mavelle Berry estremeceu dos pés a cabeça, os dentinhos que ele amava batendo contra o lábio inferior. — Eu nunca senti tanto nojo na minha vida. Eu mal consigo me olhar no espelho mais. É como se eu não fosse mais eu mesma... Como se fosse uma outra versão de mim, uma versão imunda que nunca mais vai voltar ao que era — desabafou, seu olhar revelando uma expressão de desgraça.
Daryl Dixon a puxou para si outra vez. Mavelle soluçou em seu peito, os braços mais uma vez o cingindo contra si, como se esconder seu rosto nele pudesse também ocultar o horror que tivera de aguentar.
— Foi isso... E no dia seguinte, Meredith e eu armamos a fuga. Redmond nos ajudou. A passarela caiu porque ele planejou tudo. Não estaríamos aqui se não fosse ele e a Merry. E ela... — Mavie balbuciou, e o arqueiro se manteve a embalando, como se ninasse uma criança desconsolada.
— Ela deu a vida pelo que ela acreditava. Como você daria... Como eu daria — Daryl sussurrou aos ouvidos dela.
Mavelle ficou um tempo em silêncio, apoiada nele. Depois de apartar seu corpo do dele, os dois caçadores se fitaram, e a garota irlandesa parecia manter um pedido mudo de desculpas. Como se o que fora forçada a fazer precisasse ser desculpado por ele. Daryl moveu o rosto em negativa, ferido por dentro como estava, como se internamente tivesse uma coleção incontável de machucados ainda sangrando e pulsando.
— Eu não me importo com o que ele fez comigo, porque não teria nada que ele pudesse fazer que mudaria isso. Que mudaria meu objetivo, que era o mesmo que o da Meredith, que era o mesmo que o seu — afirmou o arqueiro, tocando o rosto de Mavie com as duas mãos. Ela segurou as costas de suas mãos, mergulhando seus olhos nos dele.
— Eu faria qualquer coisa pra te dar uma chance de viver, como você fez por mim. Eu estou furioso com isso, em pensar em você se arriscando tanto, se expondo tanto... Mas ao mesmo tempo, isso é... Patético. Eu não poderia ficar puto assim — assumiu, acarinhando as bochechas da Esquila, que o fitava intensamente com seus olhos entre o verde e o castanho.
— Por quê?
— Porque eu também daria minha vida por você. Você sabe disso — em mais uma declaração brusca, inédita, lancinante e intensa, ele não disse mais do que a verdade.
Mavie vergou as sobrancelhas, soltando um suspiro emocionado.
Movimentou os braços para o pescoço dele, o enlaçando, quase pulando. Seus lábios se tocaram, e ele a beijou, ávido, aflito, desvairado. Como se quisesse por aquele enlace desejoso, vigoroso e lento demonstrar que queria consertar tudo, que queria ela consigo, bem, curada, livre de todo aquele mal.
Ao se afastarem, Daryl podia sentir o toque dos lábios macios dela ainda nos dele. Nada importava mais do que aquilo. O mundo poderia estar perdido, sem esperanças, mas ele ainda queria viver. Por ela. Com ela.
— Por favor, não sai nunca mais de perto de mim — Mavie implorou em um sussurro desesperado, agudo, quase infantil. Daryl, enfim, deu um diminuto, porém significativo, sorriso melancólico.
Ele a puxou nos braços, a levantando no colo. Mavelle Berry soltou uma exclamação de surpresa, mas aceitou.
Dixon levou Berry até o pequeno banheiro, a ajudando a entrar no chuveiro. Lavou seus cabelos, cuidando dela, sorvendo cada pequeno momento em que ajudava a garota frágil, bêbada, quebradiça — mas, ainda assim, a garota que ele amava —, a entrar nos eixos. Ajudou-a a secar os cabelos e a guiou até seus aposentos. Mavelle reclamou de ser tão pavoneada, mas ele não acreditou. Parecia estar amando toda a atenção.
Aquele caipira de merda estava certo, o arqueiro teve de admitir, pensando nos conselhos de Billy Ray Holloway.
Mavie se vestiu com outra camiseta masculina de tamanho grande, uma azul turquesa, e entrou nas cobertas. Depois de se despir e ficar apenas de calças, ele fez o mesmo.
— Por favor, dorme abraçado comigo até eu acordar — ela pediu com sua voz de passarinho, agora trinando sonolenta, se aninhando contra ele.
— Pode deixar, Esquila — concordou, e ela lhe deu a sombra de um sorriso no quarto escurecido. Daryl beijou a ponta de seu nariz e a apertou contra si.
Poderia ter todos os piores pesadelos naquela noite, mas ao acordar, a realidade não lhe traria apenas pavor. Traria a mulher que ele amava em seus braços, confortável, segura, com um futuro pela frente. Como ele há tanto sonhara em ver.
Manteria seguro o futuro de Mavie, nem que tivesse de dar sua vida para garanti-lo.
*****
— Não, tio, não é assim que se faz!
Redmond acompanhava uma pequena Delilah, que brincava de amarelinha consigo.
— Você tem que jogar a pedrinha e só depois pular. Entendeu? — sua sobrinha o lecionava uma aula de amarelinha.
— Ah, sim! Ainda bem que você me explicou, isso é difícil! — debochou, fazendo graça com a menina. Ela sorriu e deu uma risada animada.
— Você é muito bobo! — Delilah continuava a rir, enquanto Redmond fingia ser difícil atirar a pedra no lugar correto. A pedrinha alcançou o último desenho de giz, e ele foi pulando, variando entre um pé só e dois, de maneira pateta para divertir sua garotinha. Fingiu tropeçar, e de propósito não chegou ao fim da amarelinha.
— Quase! — Ela parecia acreditar que fora um erro verdadeiro. — Minha vez!
Lilah jogou a pedra no último desenho da amarelinha, e seguiu fazendo movimentos lépidos. Chegou ao final do jogo e se virou, triunfante, para o tio.
— Ganhei! — se gabou, cheia de si. Deu um sorriso enorme para Redmond, o sorriso que continuava igual mesmo já moça crescida.
Redmond sentiu seu peito aquecer, enternecido.
— Muito bem, pestinha. Hora de ir pra casa, fazer lição — falou, enquanto Lilah reclamava.
— Ah, mas você ainda não chegou no Paraíso... — a menina se queixou. — Vamos brincar de novo!
— Já brincamos muito, mocinha. Hora de estudar — determinou, e Delilah derramou os ombros, frustrada. Atravessou a saída da cerca da pracinha, e Red a seguira.
Não precisava alcançar o Paraíso da amarelinha. Cuidar daquela menina já era seu presente divino.
Acordou com batidas retumbantes na porta do quarto em que dormia.
Pestanejando, imediatamente desperto, ele olhou em seu relógio de pulso. Ainda eram três da manhã.
Red se pôs de pé, vestindo um roupão em cima do pijama que trajava e colocando seus óculos. Abriu a porta, e Simon o fitava com olhos exaustos, porém preocupantes. Seus orbes castanhos denotavam ira contida.
— O chefe está te esperando. Lá em cima — alertou, apontando para o último andar.
Requisitara a presença de Redmond em seu andar privado.
O homem de meia idade fez um aceno com a cabeça, mas respondeu.
— Claro, só vou me trocar e...
— Acho que você não entendeu, rato olhudo — Simon debochou de seus olhos esbugalhados. — O chefe está te esperando — reiterou, severo.
— Certo... — Redmond assentiu, dando mais um nó no roupão e se pondo corredor adentro até a escadaria do meio do edifício.
Subiu o mais rápido que conseguia todos aqueles andares, e, arfante, bateu na porta que dava entrada a antessala dos quartos usados por Negan.
Uma de suas esposas, de cabelos escuros e pele negra, abriu a porta. Julie, ele se lembrou do nome.
Red mal lhe deu mais do que um olhar. Evitava fitar aquelas garotas, pois lhe eram um lembrete diário do que poderia ter acontecido com Delilah.
Sentado em um sofá de veludo rubro, Negan tinha Calliope no colo, que descansava o rosto inconsciente deitado em seu peito. A moça loira aparentava estar mergulhada em um sono pesado, o rosto um pouco molhado, dando a entender que chorara há pouco.
O tirano passava os dedos pelos fios loiros dourados da garota, a outra mão a abraçando pela cintura, enquanto, do outro lado, estava sentada outra jovem mulher, de cabelos compridos até a cintura, castanhos escuros. Tinha olhos grandes e expressivos, que fitaram Redmond com suposta indiferença. Parecia distraída, mas suas sobrancelhas em feições endurecidas demarcavam que estava muito incomodada.
Não se surpreendia. O próprio Redmond sofrera um baque imprevisto naquele dia. Meredith, sua aliada, ao colocar em prática tudo o que planejaram, acabara morrendo durante o deslinde do feito. Um dos terríveis preços pelo primeiro grande golpe contra Negan.
— Princesinha... Vou precisar ter uma conversa com o Red agora, então melhor ir dormir lá dentro. Vocês duas também. — Negan olhou da garota loira para as outras duas jovens, que se levantaram e seguiram para o quarto a esquerda do sofá.
— Quero ficar com você, Big Daddy. Você brigou tanto comigo, quero provar que vou ser boazinha... — Calliope murmurou em um timbre infantil, puxando a camisa de Negan com as mãos. Esfregou seu rosto contra o peito dele, tentando se aninhar ainda mais.
— Depois falamos sobre isso. Você aprendeu uma lição importante hoje, certo? — Negan a forçou a levantar o queixo, segurando seu rosto com mãos supostamente gentis, porém firmes. Ambos se encararam, e o tio de Lilah sentiu seu estômago dar voltas enojadas.
— Sim... Eu estou muito arrependida. — Redmond testificou que os olhos azuis acinzentados da garota fitavam Negan com profundo pesar.
— Eu sei. Eu sei... — O tirano deu um beijo aparentemente carinhoso nos lábios da garota loira. Ela o mirava com deslumbramento no olhar. — Então continue provando que é boazinha e vá dormir com as outras.
Callie aquiesceu com o rosto, saindo do colo de Negan. Andou até a mesma porta, deu um olhar insolente para Redmond — como se o culpasse pela intromissão — e entrou nos aposentos.
O ditador estalou as costas, erguendo a coluna, e depois se levantou. Caminhou até uma mesa próxima, e tirou o bastão de baseball com arame farpado de cima dela.
— Me dê um bom motivo para não esmigalhar essa sua puta cara feia agora.
Negan fitava Redmond sem um traço de humor na voz. Tampouco seu rosto revelava algum tipo de deboche. Fitava o homem de meia idade com seus orbes enegrecidos repletos de sua expressão mais ameaçadora.
Um calafrio ansioso subiu pelas costas do tio de Delilah, que o disfarçou o melhor que podia.
— Como? — Arregalou seus olhos azuis em seu melhor encarar sonso.
— Você é a porra do meu engenheiro principal, e a merda da sua passarela — Apontou com o taco de madeira para fora da janela — Simplesmente cai, mata uma caralhada de gente, e nessa confusão da porra, uma das minhas esposas, uma esposa em potencial e um empregado saem correndo daqui. E, claro, uma esposa minha pira e atira na outra, que queria fugir também! E essa outra morre! A porra de uma esposa ruiva, cacete! Sabe o quão difícil é achar uma esposa ruiva? — acrescentou, girando Lucille nas mãos. Seu timbre aumentava a cada frase, enquanto caminhava devagar, calculado, na direção do tio de Delilah.
— Eu sinto muito. Estive fora do trabalho, hoje, o doutor me prescreveu repouso — afirmou, fingindo subserviência.
— Eu fiquei sabendo dessa porra — o homem de jaqueta escura confirmou, levando dois dedos ao osso do nariz, fechando os olhos com força. — É impressionante como basta você sair de cena e as coisas simplesmente saem desmoronando por aí! — troçou Negan, dando um sorriso furioso, muito perto de Redmond. Seus rostos estavam a centímetros de distância.
Ele ergueu o taco de baseball recoberto de arame, o deixando a centímetros da bochecha direita de Red. O tio de Lilah se manteve estático o melhor que podia.
— A passarela não estava pronta. Tenho meus documentos comprovando isso. Não dei ordem nenhuma... — Redmond se defendeu com todo o álibi que tinha preparado.
— Eu sei! — vociferou Negan, sem tirar Lucille de perto do homem de olhos azuis. — Eu olhei essas merdas todas. É revoltante comprovar que eu tenho um bando de imbecis no meu comando. Mas — o ditador parou para respirar fundo. Deu um sorriso largo para Red. — Eu trouxe um novo chefe pra essa área, mais eficiente — debochou.
— Quem? — Red se perguntou, a dúvida honesta em sua voz imprecisa.
Negan andou alguns passos até uma porta a direita e a esmurrou. Poucos segundos se passaram, e ela foi aberta.
Redmond Lewis esbugalhou seus olhos claros, já naturalmente arregalados.
Eugene Porter mirava Negan, apavorado, um pote enorme de picles em suas mãos.
— Sim? — indagou, nervoso.
— Nada. Só queria que seu estagiário te visse. Pode se refestelar com esses pepinos — o homem autoritário zombou de Eugene, que assentiu com o rosto, estonteado. Fechou a porta na cara do ex-morador de Alexandria.
— Ele não é um engenheiro, é um professor do ensino médio... — tentou Redmond, mas Negan se aproximou rápido dele com um sorriso de tubarão em seus lábios. Calou-se.
— Eu não me importo com a porra do diploma dele tanto quanto me importo com o seu. Não estou nem aí se você chupou o pau do reitor da sua universidade pra ter um mestrado, ou se ele é a merda de um biólogo frustrado — troçou com agressividade, e Red engoliu em seco. Negan já erguia o bastão perto de si novamente, e Redmond buscou apenas manter a postura ereta, mal fitando a arma ameaçadora.
— A questão é que eu fiz uma visita a Alexandria, e eles aprenderam mais algumas coisas hoje. Esse cara — Moveu Lucille por cima dos ombros, na direção da porta que acabara de esmurrar — Vai se reportar diretamente a mim. Você — O taco foi levantado perto de seu rosto — Se acha o fodão porque tem as credenciais. Mas a única credencial que me importa, de verdade — O líder do Santuário andou, lento, tal qual um predador, até ficar a centímetros de distância do funcionário rebelde.
— É a que se consegue fazendo a porra de um bom trabalho — ressaltou, sério e gravoso. Seus olhos escuros cintilaram, implacáveis. — Se eu desconfiar que você anda tendo outras ideias além de me servir bem, a porra de um mínimo que seja — Ergueu o polegar e o indicador em um gesto representativo — A sua cara vai ficar mais amassada que a carne podre dos mortos-vivos destroçada embaixo da sua passarelinha de quinta — Fez o taco com arame farpado dar duas batidas suaves no ombro de Redmond, mal o pinicando. O tio de Delilah Feld estremeceu.
— Entendido. — O engenheiro assentiu com o rosto, de pronto.
— Mas não se preocupe... Eu já mandei trazer a sua sobrinha. Eu acho que você está precisando de um incentivo para voltar a ser o empregado exemplar que já foi! — o chefe miliciano deu um sorriso lento e perverso para Redmond, que esbugalhou os olhos.
Na mosca, pensou. A partir daquele momento viria a parte mais complicada de seus planos. Afinal, a queda da passarela, a escapatória de Sherry, Daryl, Mavelle e Meredith (como pretendera), era apenas uma parte de uma longa cadeia de eventos já preparada.
Um plano maior, que resultaria em trazer o completo caos entre as comunidades em guerra, para que ele e Lilah pudessem, no momento certo, fugir do Santuário, da Virginia, e do vigilante olhar de Negan.
— Você me garantiu que não tocaria nela! Que ela ficaria segura! — Red fingiu alarde e desespero.
— E eu continuo sendo um homem de palavra. Colocar mais uma garota para trabalhar não vai fazer mal algum, só vai trazer mais produtividade! — Girou o taco de madeira nas mãos, rindo consigo mesmo — E ela vai estar muito segura aqui, conosco... Se você não fizer mais nenhuma cagada — o líder daquela comunidade reiterou, duro, com um sorriso luminoso de sadismo.
— Por favor... — Redmond Lewis aparentou implorar, mas o homem de jaqueta preta não lhe deu mais muita atenção. Pôs Lucille em cima da mesa, bocejou, e depois o fitou com olhos determinados e atrozes.
— Suma da minha frente.
Redmond apenas aquiesceu, movendo a cabeça, e deu as costas para o homem autoritário. Saiu de seus aposentos, desceu as escadas, e, assim que se julgou longe o suficiente, modificou sua expressão.
Deixou seu semblante apavorado assumir suas feições reais. Um sorriso de triunfo, representativo do sucesso de tudo o que imaginara, até então.
Negan o julgava um sujeito covarde, frágil apesar de inteligente. Alguém que conseguia manipular através do medo e de sua própria esperteza. Um rato assustadiço.
Mas Redmond era um melhor manipulador do que ele. E o rato logo se revelaria uma cobra... Pronta para dar o bote.

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