Hunter's Instinct
90 Episódio 90 - Come As You Are
Notas iniciais
Come as you are, as you were
As I want you to be
As a friend, as a friend
As a known enemy
Take your time, hurry up
Choice is yours, don't be late
Take a rest, as a friend
As an old memory, yeah...
[MADRUGADA]
— Cara, eles estão aqui!
A voz do rapaz soou apressada, porém firme, enquanto abaixava os binóculos de longo alcance. Fitou os dois vigilantes ao seu lado, na murada de Hilltop. Seu interlocutor balançou a cabeça, em um gesto indicativo de que estava atento e compreendera.
Alguns metros adiante, os caminhões dos Salvadores avançavam pelas estradas morro acima. Muito perto da comunidade do alto do morro.
— Ándale*, Kal!— Gaspar Sandoval atendeu ao aviso do rapaz, dando um tapa nas costas de Kal, que o mirou nervoso, fechando os punhos ao redor da lança que tinha em mãos. — Eles vão vir com sangue nos olhos. Tente distraí-los enquanto nós vamos até a Casa Barrington — o namorado de Paul Rovia deu as instruções e passou a descer a escada colocada ao lado dos muros.
Tucker Hayes logo o seguiu, prendendo a respiração por alguns segundos. Quando alcançaram a grama, segurou o braço de Gaspar para impedi-lo de sair em disparada.
— Yo, eles não sabem que estamos aqui. Eu e Enid — Tucker o lembrou — Ela não é conhecida por eles, mas eu estive com você naquela... Naquela noite em que Glenn e Tara morreram. — Sentiu um desconforto no peito ao mencionar aquele episódio traumático. — Eles vão querer colocar pressão no Gregory. Se me virem, estamos fodidos.
— Eu sei, Bonitinho. Não se preocupe com isso. Você vai assistir tudo do camarote dos refugiados. — Sandoval deu um sorriso debochado para Hayes.
— O quê?
Gaspar não respondeu mais, apenas o puxou pelo braço para correr acompanhando seu passo. Enquanto os portões eram abertos para os Salvadores, os dois chegavam às portas dos fundos da Casa Barrington.
O latino quase empurrou o rapaz para dentro, que protestou, irritado.
— Sem mais um pio. Você vai ouvir tudo, e muito bem, daqui de baixo. — Gaspar indicou o chão. Tucker acompanhou o movimento e esbugalhou seus olhos, indignado. — Eu nunca fui um sujeito de gostar jogos de azar, mas posso dizer que depois dessa noite aposto que entenderá porque Gregory precisa ser destituído — falou em um tom entre a raiva e a troça, enquanto puxava um grosso tapete para longe.
Hayes olhou para o piso de madeira encerado com esmero. Quase imperceptíveis, conseguiu enxergar escuras frestas na madeira formando um formato específico.
Um alçapão.
— Puta merda — assobiou baixo, ao passo que sua expressão mudava de irritação para assombro, compreendendo a estratégia.
— Eu falei que cuidaria de você, Hermoso** — o latino zombou dele. Aproximou-se de Tucker, dando uma piscadela.
— Para com essa merda ou eu vou te quebrar a cara, vadia — Tucker retrucou, olhando para Gaspar de maneira atônita. O ex-jornalista riu e o ajudou a abrir o alçapão. O arquiteto de Alexandria desceu até o porão oculto, e disfarçou o sobressalto ao ouvir patas de animais chispando pelo chão de concreto. Ratos, provavelmente.
— Se não prestar atenção, olha que eles te mordem, hein — Sandoval falou em um tom dúbio, e Hayes se controlou para não lhe levantar um dedo do meio. Logo em seguida, o latino fechou o alçapão e sussurrou para Tucker.
— Não se preocupe. Não vão te descobrir aqui, eu me encarrego disso — assim que o assegurou, Tucker viu o tecido do tapete tapar as frestas acima de si. Estava escondido na escuridão daquele porão-refúgio. Mesmo assim, não tirou os olhos da madeira, aguardando algum sinal de chegada de alguém.
Depois de poucos minutos, Hayes passou a escutar um burburinho. Uma discussão, travada em murmúrios abafados.
— Eu não tenho nada a ver com isso! — Tucker escutou a voz de Gregory soar fora do timbre controlado habitual, mesmo sufocada pelo tecido do tapete. — Se eles quiseram trazer os Salvadores revoltados à nossa parte porque quebraram o acordo, o problema é deles — o covarde mandatário de Hilltop bradou.
— Claro que tem algo com isso! Greg, entenda. — Foi a vez do rapaz ouvir a voz do namorado de Paul Rovia — Se entregar Tucker, isso vai deixa-los mais irritados ainda.
— Você ficou maluco?! — Gregory se exaltou — Eles devem estar atrás do casal que fugiu. Se eu me recusar a colaborar aí sim eles irão nos punir com certeza! — o arquiteto podia ouvir passos circulares acima dele.
— Meu velho, entenda — A voz de Gaspar se tornou mais suave, amigável. Aquilo deixou Tucker desagradado. O latino poderia ser bem falso, se assim pretendesse. — Concordo com você. Eles devem estar atrás do casal foragido. Mas o que eles vão pensar de você entregando uma menina e um cara de Alexandria, assim, de bandeja? Acha mesmo que não vão pensar que você os acobertava antes?
O rapaz parou de ouvir passos.
— Será que não vão achar que você deu um jeito de evitar entregá-los em outra chance? Não vão se preocupar com a possibilidade de você estar quebrando o acordo? — A voz mais dócil do ex-jornalista foi aos poucos crescendo para um tom ameaçador.
— Eu falei que não me envolveria. Vocês estão estragando tudo... — resmungou Gregory, pouco acima de Tucker. O batimento cardíaco do rapaz acelerava cada vez mais.
— Para não estragar tudo, é melhor manter a mesma estratégia, certo? Não sabemos de nada. Não tem nenhum membro de Alexandria aqui — o latino sugeriu, retornando a voz tranquilizadora.
— Não tem nenhum membro de Alexandria aqui — concordou o idoso mandatário de Hilltop.
Tucker quase soltou um suspiro de alívio. Gaspar manipulara Gregory com sucesso.
No mesmo instante, escutaram batidas pesadas na porta principal da Casa Barrington. Por instinto, o rapaz recuou.
Pouco depois, Tucker ouviu o rangido da porta se abrindo. Muitos passos ecoaram acima dele. Seu coração voltou a acelerar.
— Boa noite, rapazes. A que eu devo essa visita noturna? — Gregory falou com cordialidade fingida poucos metros acima do arquiteto.
— Você não fez nada. Quero dizer, é o que esperamos. Caso contrário, as coisas não vão ficar boas para vocês.
Tucker reconheceu a voz de Simon, cortante e fria como aço. O braço direito de Negan viera ter com Gregory.
Seu sangue gelou, enquanto um silêncio fúnebre imperou metros acima dele.
Alguns passos martelaram a madeira e foram reprimidos pelo tapete. Simon devia estar parado bem em cima do ponto que ele olhava.
— Sabe, Negan está muito descontente com Alexandria. Nessa noite, muitas coisas erradas aconteceram lá. Muitas. E outras coisas erradas aconteceram na nossa sede. — Simon limpou a garganta.
— Rick deixou o pessoal dele pirar, e por isso nós trouxemos alguém de lá. Ele precisa aprender a obedecer — o capanga-chefe de Negan relatou.
Logo em seguida, Tucker ouviu o que pareceram passos de uma pessoa sendo empurrada, buscando equilíbrio para não cair.
— N-nós vamos precisar leva-los. Aonde esconderam Daryl e Mavie?
Tucker Hayes tapou a boca com urgência, chocado. Reconhecera a voz de Eugene, soando embargada naqueles gaguejos.
— Como eu confio que você é um cara inteligente e obediente, que sabe para quem trabalha — Simon pareceu interromper Eugene — Eu imagino que eles não estejam aqui. Então você não vai se importar se a gente fizer uma limpa, porque tenho certeza de que você não os esconderia da gente, não é?
— Eles não estão aqui — garantiu Gregory, assertivo.
— Eles não passaram aqui e fugiram para algum outro lugar, não é? — indagou o braço direito de Negan.
— Não. — Tucker reconheceu a voz de Gaspar respondendo e mentindo.
— Eu te perguntei alguma coisa? — Simon retorquiu, rude.
Mais alguns segundos de silêncio, e Hayes sentiu seu coração à beira de um rebentamento.
— ...Não. Não sei nem de quem está falando — o líder de Hilltop sustentou a mentira.
— É bom mesmo que seja verdade, meu amigo. — Tucker escutou Simon dar tapinhas encorajadores nos ombros de Gregory. — Eu sei que você não conseguiria esconder uma bomba dessas de nós — riu o capanga, e o líder do alto do morro o acompanhou na risada. Hayes sentiu seu estômago dar voltas.
— Pessoal, vamos fazer o check up de tudo. Revirem a porra toda — Simon demandou, e Tucker passou a escutar passos repicando na madeira acima, indo para todos os lados. Ouviu sons de móveis sendo arrastados, objetos caindo e se partindo, e pessoas subindo as escadas.
— Hey! Tem pessoas dormindo lá em cima — Gregory anunciou, e Simon logo o repreendeu com um timbre duro:
— Eu acho que não tem problema acordá-las, se for preciso. Você não acha?
O líder demorou alguns momentos para responder, submisso:
— Certo. Não, não tem problema.
Tucker apenas escutava, nervoso, roendo a pele em volta da unha de um dos dedos da mão. Não tirava os olhos do alçapão.
Seu coração quase saltou do peito quando escutou o som de um grito feminino. De criança.
— Hey! — a voz de Gregory chamou, mais desagradada.
— Essa porra dessa garota tentou jogar uma lâmpada partida bem na minha cara! — A voz de um homem desconhecido soou furiosa. Hayes ouviu o som de um corpo pequeno sendo atirado no chão, rolando pelo tapete acima de si. A voz feminina gemeu agudo, ferida, muito perto dos ouvidos dele.
Tucker, aos poucos, já formava a imagem de quem seria a menina que gritara e apanhara dos Salvadores.
Trudy.
— Gertrude, por que fez isso? Esse não é o jeito de tratar nossos convidados! — o líder de Hilltop teve a audácia de repreendê-la. — Não foi assim que eu te ensinei — o covarde tentou jogar a culpa na criança.
Tucker estava a ponto de subir as escadas e abrir o alçapão. Apenas para socar a cara sem valia de Gregory.
Para seu júbilo, ele logo ouviu o som de um corpo maior e mais pesado caindo de joelhos ao chão. Provavelmente submeteram o líder do alto do morro.
— Pelo visto o espírito rebelde está em todos vocês. Isso não é nada legal. Nada legal mesmo — enunciou o capanga careca de Negan.
— Amigo, não podemos resolver isso de um jeito melhor? Ela é só uma criança. Deve ter o que, uns nove anos? — Tucker escutou a voz de Gaspar, tentando soar conciliador.
— Doze. — Ele discerniu a voz de Trudy, a menina desenhista que encontrara nos jardins de Hilltop poucos dias atrás.
— Que seja — continuou o latino, e Hayes supôs ter notado hesitação nervosa em sua voz. Ele estava tentando proteger a garota. — É só uma criança. Estamos aqui separando toda a coleção de whiskey de Gregory, e o melhor da nossa safra de comida e bebida. Pra que vamos nos importar com as peraltices de uma menina? — Sandoval tentava convencê-los.
Simon liberou uma risada, devia aprovar a atitude do ex-jornalista.
— Eu não sou a favor de maus tratos infantis. Só de ter sido atirada desse jeito no assoalho por um cara grande como o Reed, porra, provavelmente vai ficar marca nessa pelezinha branca. Olha só o braço dela — Simon riu mais, sádico. — Coitadinha. Esse corte foi fundo, deve ter sido no vidro partido que ficou espalhado. Vai ficar cicatriz, com certeza.
A injustiça e covardia daquela cena que ele nem conseguia ver subia ao sangue de Tucker, o impedindo de manter a calma. Teve de morder o próprio maxilar para não perder a cabeça e sair do esconderijo.
— Continuem com o trabalho. E você, Gregory... — O braço direito de Negan fez uma pausa cruel. — Continua aqui de joelhos. É melhor treinar.
— T-treinar? — O arquiteto ouviu o líder de Hilltop balbuciar, metros acima de si.
— É, treinar. Se tivermos de voltar aqui por conta de uma chuva de merda parecida com a de hoje... Com certeza Negan vai querer vir. E colocar vocês assim, de joelhos, em fileiras. Sabe, às vezes parece ser a única maneira das pessoas aprenderem!
Hayes compreendeu a sugestão. A bile lhe subiu a garganta, rascante, ácida, e ele quase vomitou. As imagens vívidas dos crânios brutalizados de Glenn e Tara continuavam prensadas em sua memória.
Ficou preso naquele pesadelo verossímil por algum tempo, colocando as mãos na frente da boca e do nariz para que o som de sua respiração ficasse oculto. Saiu do transe apavorado apenas quando escutou uma voz masculina avisar alto a Simon que não tinham achado nada.
— Sabia que você não iria me desapontar, Greggy! — o capanga-líder riu chamativo, metros acima de Tucker. — Se eu fosse vocês, eu começaria a procurar mais comida assim que o sol nascesse. Rapamos quase tudo, hoje. Mas sei que compreendem. Não é, Gasparzinho? — debochou.
— Yeah. São os ossos do ofício. — O arquiteto ouviu o namorado de Paul fingir concordar.
— Ossos do ofício! Gostei — Simon aprovou, dando mais uma risada breve. — E você, menininha... Cuidado com o que faz. Não sabe que o bicho-papão vem pegar as crianças malcriadas? Ele ainda pode te ensinar uma lição, se você não aprender a se comportar.
Um arrepio de nojo e fúria subiu pela espinha de Tucker. O capanga estava tentando apavorar uma menina de doze anos. O “bicho-papão” em questão era real.
Tratava-se de Negan.
Para o alívio do rapaz, a garota não respondeu. Ele escutou os ruídos espalhafatosos dos Salvadores saindo da Casa Barrington, empurrando outras pessoas e móveis no processo. Gregory se lamentou em murmúrios incompreensíveis, e Gertrude parecia sufocar as lágrimas. Soluçava baixinho.
Tucker mal aguentava esperar. Quando já se punha a subir as escadas para fora do alçapão, a porta se abriu acima de si.
— Foi por pouco — assumiu Gaspar, secando suor da testa. Deu uma das mãos para ajudar o rapaz a sair para a sala.
— Eugene... — Hayes começou, mas Sandoval o parou.
— Eles levaram Eugene. Não pude impedir. Já vieram com ele, sequestrado. — Gaspar movimentou o rosto, tristemente.
Antes que Tucker pudesse responder, Gregory tinha caminhado rápido até se postar defronte ao latino.
— Se eu tiver de lidar com outra humilhação dessas de novo, vocês todos vão pra fora.
— Não vai acontecer — Gaspar respondeu, ligeiro. — Estaremos mais preparados.
— Vocês não vão estar nada. — O líder de Hilltop levantou um dedo e apontou para o latino e para o arquiteto. — Se eu tiver de lidar com mais uma prensa dos Salvadores, eu vou colocar todos pra fora.
— Gregory... — O ex-jornalista ergueu uma mão, conciliador, mas o chefe do alto do morro o cortou.
— Desista. Cansei de ouvir você e o Paul. Desde que trouxeram essa gentalha pra cá, tudo piorou! — esbravejou, abrindo com brusquidão a porta para seu escritório. Tucker notou que ele procurava uma garrafa de whiskey no bar perto da escrivaninha, mas, pelo visto, os Salvadores tinham levado todas.
— Filhos da puta... — xingou, rangendo os dentes. — E você, Gertrude! Já pro seu quarto, limpe esse corte e pare de choramingar. Mal tocaram em você!
O idoso depositava um olhar severo na criança. A menina tinha os cabelos castanhos claros, quase loiro acinzentados, cobrindo seu rosto. Quando os tirou da frente de suas faces, seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Hey, Trudy... — Tucker tentou falar com ela, sua voz saindo mansa, calmante. Tentou tocar no braço da menina, que desviou ao menor contato, arisca. Ainda estava sangrando. Fitou o rapaz com suas íris verde-azuladas repletas de receio. A centelha de medo sumiu depois de um segundo, para em seguida parecer envergonhada.
Nisso, ela girou nos calcanhares e subiu as escadas quase correndo. Gregory gritou para que tomasse cuidado, mas ela não respondeu.
— E nem sequer deu boa noite. Pirralha mal educada! É igual, o mesmo comportamento da mãe! Pode ter morrido, mas deixou uma cria idêntica — comentou o líder de Hilltop. Hayes se controlou para fita-lo com o menor nível de petulância e desagrado possível. O rapaz reparou que Sandoval apenas testemunhava a tudo, isento de emoções.
— Se você tivesse mais paciência, talvez ela respondesse melhor — Gaspar sugeriu.
— Não me lembro de ter te pedido um conselho — redarguiu o idoso, e o latino deu de ombros. — Sumam da minha frente. Não quero ver ninguém até amanhecer — finalizou a conversa, dando as costas para os dois. Entrou em seu escritório e fechou as portas com um ruído exagerado.
Tucker nem se importou com a grosseria. Ergueu o olhar para o alto das escadas, preocupado com Trudy.
— Depois — Gaspar sussurrou, perto dele. O arquiteto fitou o ex-jornalista, surpreso, que apontou com a cabeça para a porta de saída.
Saíram para a madrugada em Hilltop, vendo uma movimentação fora do comum pelos jardins e áreas externas. Muitas luzes acesas, de lampiões, velas e lanternas. Os moradores da comunidade praguejavam, choravam e se lamuriavam pela última invasão e humilhação imposta pelos Salvadores.
Tucker coçou a barba por fazer, angustiado. Até quando isso perduraria?
— Eu preciso te mostrar uma coisa — o latino disse entre dentes, falando muito baixo. O rapaz teve de se esforçar para compreender.
— Precisa ser hoje? Estou quebrado. E me sentindo a porra de um inútil por não ter feito nada para ajudar aquela menina maltratada — reclamou, dando um olhar duro para Gaspar.
— Eu não te impedi de fazer nada. Pode melhorar essa cara. — Apontou com o indicador para o rosto de Hayes. — Só te dei um conselho, e ainda bem que você seguiu. Podemos lidar com a situação Gregory-Gertrude depois — retificou.
— Ela não gosta do nome dela. Prefere que a chamem de Trudy. E se você acha que uma criança maltratada não é urgente, não sei o que estou fazendo falando com você — o rapaz debochou do namorado de Paul. Gaspar deu meia volta e parou na frente de Tucker em um movimento brusco. Por um segundo, o rapaz achou que levaria um soco.
Até gostaria disso. Sandoval às vezes era muito abusado, e se ele partisse pro físico, poderia retribui-lo na mesma moeda e ao menos descarregar a frustração e a tensão dos últimos dias.
— Você pode ser bonito, mas testa minha paciência. Não seja burro, Tucker — o latino finalmente o tratou por seu verdadeiro nome. — É óbvio que me ferve o sangue ver um pendejo de mierda*** como Gregory tratando uma criança daquele jeito. Mas ele é padrasto dela. Quando tirarmos ele da parada, aí sim poderemos fazer algo a respeito.
— Padrasto? — indagou retoricamente. Fazia sentido. Por isso Gertrude morava na Casa Barrington, e Gregory viera busca-la nos jardins no que dia em que ele a conhecera.
— Quando eu vim para cá, a mãe dela ainda estava viva. Estava junto do Gregory, eram um casal. Pode imaginar como ela morreu — comentou Gaspar, sombriamente.
— Salvadores? — Hayes perguntou, sem querer estar certo. Sandoval assentiu, e o estômago do rapaz embrulhou.
— Como alguém pode ser tão covarde? Ele tinha que protegê-la! Essa menina esperava essa postura dele — Tucker questionou, angustiado. Ele mesmo sofrera tanto. Fora destruído de todas as maneiras possíveis por Hashimoto. Mas nunca agira assim. Nem mesmo em sua época mais frágil. Ele só desistiu de tudo quando tinham tirado tudo de si.
Quando fora forçado a matar Bonnie.
Ele se sentiu tonto. Teve de parar de caminhar e levar uma das mãos a testa. Suava frio. Sentiu uma vertigem se apossar de seu equilíbrio; o chão pareceu tremer embaixo de si, e quase caiu.
— Hey, hey, hey — Gaspar acudiu, o segurando pelos ombros. — Fica calmo. Venga lo que venga****, vamos ajudar a garota. Ok? — o latino garantiu, mirando os olhos do rapaz.
Tucker respirou fundo, fitando as íris verdes do namorado de Paul.
— Beleza. O que você precisa me mostrar de tão urgente? — O rapaz se esforçou para recuperar a estabilidade. Gaspar sorriu ao ouvir a pergunta.
— É uma ideia que precisará ser posta em prática mais rápido do que nunca, depois das novidades de hoje. Você vai entender assim que ver — garantiu, e o guiou até a casa mais afastada de Hilltop. Uma construção vazia, um barraco de depósitos, onde objetos quebrados e inutilizados eram colocados para o remoto caso de poderem ainda servir para algo.
Escadas empoeiradas de madeira desciam até um porão que estava trancado com correntes e cadeado. Sandoval tirou um molho de chaves do bolso da jaqueta que vestia e abriu-o, empurrando as correntes para os lados.
Ele abriu a porta escorando com o ombro direito. Deveria estar pesada e fora de uso há tempos.
— Mas que porra?! — Tucker ia xingar ao ver o que o aguardava lá dentro, mas Gaspar ergueu o indicador falando “shh!”. Não deveriam chamar a atenção. Pelo visto o que aquele porão continha era algo também secreto.
Hayes cobriu a boca e as narinas com a manga do casaco que usava. O porão fedia a carne podre, o cheiro pestilento emanando de quatro cadáveres andantes amarrados com correntes e presos nas paredes, como uma espécie de calabouço. Os quatro mortos-vivos tentavam se lançar contra os dois homens que haviam chegado naquelas “masmorras”, mas as correntes os seguravam.
— Cacei esses lá fora, quando resolvi dar início a ideia que pretendo te explicar agora — alegou o latino, dando um olhar breve e atento para o rapaz.
— Você é algum tipo de maníaco psicopata ou o quê?! — Tucker arregalou seus olhos azuis, mirando abobalhado o ex-jornalista.
— Lembra-se de quando eu disse que eu precisaria do que você aprendeu com Eugene? — começou o companheiro de Paul, sério. Não havia deboche em sua voz.
O rapaz anuiu, assustado.
— Eles levaram Eugene. Talvez tenhamos de lutar no estilo fogo contra fogo. Entende o que eu quero dizer?
— Não — respondeu o arquiteto, sincero.
Gaspar levou uma das mãos a testa, parecendo irritado.
— Simples: Eugene é um cientista. Negan é inteligente. Vai tentar produzir as próprias "armas" dele. Algum tipo de ataque surpresa, contra nós. Tirar vantagem dos conhecimentos privilegiados de um cientista. E é por isso que precisamos produzir nossas zarabatanas para ontem — testificou o latino.
— Eu não sei tanto quanto o Eugene — Tucker se defendeu. Desde que Gaspar surgira com aquele projeto mirabolante, o arquiteto ficara bastante cético.
— Não importa. Você vai me ajudar a produzir o veneno, porque já me confirmou que isso você sabe. E mais — O mexicano apontou para os corpos putrefatos — Vamos produzir um tipo de munição especial. Sem o veneno que você sabe fazer. Com outro, que será a nossa arma secreta — falou e deu um olhar triunfante para o rapaz. Suas íris verdes cintilaram, empolgadas. Sorria.
— Não entendi nada — confessou Hayes. Sandoval respirou fundo e revirou os olhos.
— Pensa comigo. Vamos devagar — o mexicano retornou a debochar, e o arquiteto tentou não se irritar. — As zarabatanas são armas que atiram o quê?
— Flechas, ou dardos — respondeu o rapaz.
— Muito bem — Gaspar sorriu, trocista. Tucker lhe deu um olhar feio.
— E essas flechas, ou dardos, são mortais por quê?
— Porque contém veneno — Tucker afirmou, e o mexicano assentiu com o rosto.
— E por que os babosos***** aqui são capazes de trazer ferimentos mortais em quem mordem? — Sorriu o latino, esnobe.
O queixo de Tucker Hayes caiu. Enfim entendera o raciocínio de Gaspar Sandoval.
— Porque a mordida deles... É como se fosse venenosa — disse, sentindo que uma luz fora acesa dentro de sua mente.
— Boa, Bonitinho! Quase isso! — Gaspar ergueu um polegar em um gesto positivo, sorrindo. — É porque a saliva deles, em contato com a corrente sanguínea de um ser humano vivo... Infecciona. Envenena. — Os olhos do ex-jornalista brilharam, animados. — Estamos todos contaminados pelo vírus deles, você sabe. — Apontou para os mortos-vivos com uma das mãos. — Mas a infecção só se manifesta quando morremos. A não ser que... Sejamos mordidos — o mexicano foi preciso.
— Você é um gênio do mal — comentou Tucker, ainda fitando os cadáveres, aparvalhado. Ao dirigir o olhar para o ex-jornalista, ele estreitava os olhos para o rapaz, cheio de si.
— Só “gênio” está bom.
— E o que você tem em mente, exatamente? — o arquiteto o questionou.
— Vamos extrair saliva de um deles e conservá-la. Você vai me ajudar a fazer isso. Precisamos das substâncias que compõem a saliva deles ativa. E algumas de nossas munições, só as que nós dois soubermos, vão receber essa carga especial. Poderemos ter uma arma fatal contra Negan, sem antídoto que o salve. É importante que isso não caia em mãos erradas — advertiu, sério. Gaspar mirou Tucker devagar, que retribuiu o olhar.
— Poderemos ter uma arma fatal contra Gregory também, em outras palavras — disse Tucker, enfim astuto. — Porque a saliva não precisa ser colocada em um dardo. Pode ser colocada em um copo de whiskey, talvez, é isso o que você quer? — perguntou em um tom denunciador.
— Pensei que você não aprovasse um padrasto que abusa da enteada — o mexicano o provocou.
— Não aprovo. E não aprovo assassinato a sangue frio — acusou, feroz.
Gaspar deu uma risada de troça.
— O mundo não é um conto de fadas, Hermoso. Achei que já tinha entendido isso. — Sandoval o deu um olhar que parecia piedoso.
— Eu sei muito bem disso. E é justamente por saber, na pele, que não quero mais ter sangue nas minhas mãos, enquanto puder evitar — reafirmou, duro. O sorriso do mexicano murchou.
— Às vezes as coisas ficam feias, quando a guerra é declarada. Os fins justificam os meios. Talvez tenhamos de matar dois líderes covardes e filhos da puta. Abusadores. Violentos. Para salvar a vida de gente inocente. Não seja você mesmo um covarde — o latino insultou-o.
Tucker não aguentou. Tinha virado de costas para sair, mas ao ser xingado de covarde, seu sangue subiu à cabeça. Ele poderia ser tudo, menos covarde.
Sem nem pensar, correu em direção ao mexicano e desferiu um soco em sua bochecha direita. Gaspar cambaleou para trás, tentando proteger o rosto, mas Tucker parou.
Fora além do limite. Arrependeu-se.
Assim que tentou ir embora de novo, sentiu a perna esquerda ser atingida por um chute furtivo pelas costas, de força brutal, como se pisassem em cima de sua batata da perna. Dobrou os joelhos e caiu no chão, urrando de dor.
— A vida é assim. Se você deixar, vai ter gente que vai te atingir pelas costas. Negan quer isso! Quer que você vire as costas para ele, seu idiota. Não dá mais para bancar o herói quando quem você enfrenta não vai seguir as regras — argumentou Gaspar.
Hayes, furioso, levantou os olhos para Sandoval, que o mirava de cima, massageando a bochecha atingida.
— Eu prefiro continuar vivo e poder proteger as pessoas que eu amo, do que ser morto por um senso de honra de mierda e deixa-las sem ajuda, à mercê desse tipo de gente. É isso o que você quer para a Carol? — perguntou, sem mais um traço de humor na voz e no rosto.
— Não fale nela — Tucker respondeu, entre dentes. Controlava um gemido de dor, Gaspar o atingira em cheio. Quase o lesionara.
— Da próxima vez que você tentar me bater, eu prometo que te quebro a perna — o mexicano garantiu. O rapaz cuspiu, arrogante.
— Vai me ajudar ou não? Você pode ir embora daqui e me deixar fazer isso sozinho. Ou você pode me ajudar e ter certeza de que ninguém mais vai tocar na Trudy. E que Negan não vai chegar perto da Carol — tentou o ex-jornalista, insistente.
— Já disse para não falar nela! — O rapaz se ergueu, franzindo os lábios para não deixar sair um som lancinante, pois sentira um dolorido espasmo com o movimento.
— Eu só te aviso uma coisa: caso você resolva dar pra trás, e contar isso pra alguém... Vai ser a sua palavra contra a minha. Hilltop inteira me respeita. Eu sou o braço direito de Gregory. Eu e Paul somos. — Gaspar sorriu. — Vai sobrar pra você.
— Você é um babaca do caralho, vadia — Tucker o xingou, controlando a fúria e a dor na perna atingida. O latino lhe deu um sorriso enviesado em resposta.
— Estou inteiro até hoje, não estou? Quase sem cicatrizes. — Apontou para o próprio corpo.
Hayes soltou um estalo de desdém com os lábios e virou as costas, olhando por cima dos ombros. Gaspar não era muito normal, poderia tentar ataca-lo de novo. Quando chegou perto das escadas para sair, esfregou a palma das mãos no rosto, nervoso.
O que ele poderia fazer? Estivera sempre naquele papel. Carregado de um lado a outro. Sempre se escondendo. Sempre tentando evitar se envolver. Ele acabava se envolvendo do mesmo jeito, no final das contas.
Lembrou-se de Cathy, morrendo devorada. A bile lhe subiu quase aos lábios, pôde sentir na garganta toda o líquido que iria vomitar. Lembrou-se da irmã, e do tiro de misericórdia que lhe dera. As risadas de Hashimoto. E as risadas de Negan, na noite que assassinou Glenn e Tara.
As risadas da japonesa e do ditador se misturaram em sua mente. Ele apertou as pálpebras, soltando uma exclamação dolorosa, aturdido.
Pensou em Trudy, a garota de apenas doze anos com o braço perfurado por vidro, o corpo marcado por hematomas por ter sido empurrada no chão por um dos Salvadores. Sangue espalhado na madeira e no tapete que escondera um paspalho como ele de ser visto pelos capangas de Negan.
Pensou em Carol, ajoelhada e submissa como ele fora forçado a ficar naquele dia em que Negan trucidara dois de seus amigos. Ele não pudera fazer nada para protege-la. Nada para evitar. Poderia ter sido ela no lugar de Glenn ou de Tara. Poderia...
— Foda-se. E foda-se você também — grunhiu para Gaspar, revoltado. — Piscou longamente, e recuperou o fôlego.
— Vamos fazer isso — topou, e o latino comemorou fechando um dos punhos. Sorriu, convencido.
— Prometo que você vai voltar a gostar de mim — o mexicano falou em tom de troça, mas o humor de Tucker estava abalado, muito além do limite.
Vou fazer isso por ela, prometeu para si mesmo, se lembrando do sorriso de Carol. Só esperava que aquele Tucker, o Tucker que descobriu quando fora torturado por Hashimoto, o mesmo Tucker que se descobrira capaz de matar mais pessoas do que poderia contabilizar...
...Nunca mais voltasse.
*****
[POUCOS MOMENTOS ATRÁS, NA MESMA MADRUGADA]
Ele movimentou os ombros, ajeitando o rifle atravessado na bandoleira. Inspirou devagar e soltou a expiração com lentidão, olhando para cima. Poucas nuvens fechavam os céus daquela noite fria no Reino de Ezekiel. Em seguida, entrou no auditório vazio, que há poucas horas tinha amontoado tanta gente.
Falta só a cela da tigresa e termino, refletiu, um pouco aliviado. Estava tarde. Precisava voltar para dormir ao lado dela e se certificar de que estava tudo bem consigo.
Tinha tantas responsabilidades novas, agora que seria pai.
Billy Ray Holloway tentou comprimir um bocejo, mas falhou. Abriu a boca sem pudor algum, e estalou as costas, se espreguiçando um pouco. Guiou-se para os fundos do auditório que naquela noite o abrigara, bem como a Ezekiel, Becky, Peggy, Rick, Michonne, Paul Rovia, Rosita, Padre Gabriel, Maggie e sua neném, Carl, Carol, Daryl e Mavie.
O sulista lidou com um sobressalto de alegria e choque ao ver a irlandesa inteira. Não a encontrava há tanto tempo. Desde que passara a morar no Reino com Rebecca, Peggy, Morgan e Delilah, seu tempo em Alexandria parecia outra época longínqua da vida. Ver Mavie ali, com a postura alquebrada que estava, o lembrou mais uma vez da dura realidade que enfrentavam.
A ameaça de Negan pairava sobre todos eles, pesada, agourenta, muito próxima.
Chegou a ser emocionante testemunhar o reencontro de Peggy e Mavelle. A pequena correu na direção da irlandesa e a abraçou. Ambas choraram uma nos braços da outra. Billy compreendeu que Peggy tinha certeza de que nunca mais a veria de novo.
Não podia negar que esse temor também passara pela sua cabeça, como nuvens escuras de uma tempestade. Mas fora soprado para longe, quando se lembrava de que seu foco tinha de ser Becky e o filho que teriam em questão de meses. Sentia por Mavie, esperava que ela estivesse bem, mas seus esforços se concentravam na sua família.
Na sua menina, no filho que ela logo geraria.
Era até mesmo surpreendente pensar em como mudara tanto. Há dois anos atrás, estava apaixonado por aquela menina da Irlanda. Amara-a de todo o coração. Agora, experimentava um amor ainda mais forte, porque era sólido, porque era retribuído, porque era real... Junto de Becky.
Por isso a decisão de Ezekiel, naquela noite, o deixara desalentado. Não imaginou que o Rei fosse decidir não lutar junto de Alexandria contra Negan. Billy tentou dissuadi-lo, mas ele estava irredutível. Aceitou receber Rick e os outros por aquela noite, mas asseverou que não mudaria de escolha. Estaria fora do embate contra os Salvadores.
Billy Ray precisava proteger sua família. Era um homem que logo seria casado. Um homem que logo seria pai. Ele não podia deixar sua família desamparada.
Pensando consigo mesmo uma solução para mudar a determinação de Ezekiel, ele entrou nos aposentos que continham a cela de Shiva, sem nem perceber que alguém estava ali, antes, a sós com a felina.
Uma sombra se levantou de súbito, arredia, ficando em postura de defesa. Por instinto, o caçador do Alabama moveu as mãos para o rifle e mirou. Pela mira infra-vermelha, viu o rosto de Daryl Dixon se desenhar na escuridão.
— Diacho, me deu um susto do caramba! — Billy se queixou, ajeitando o rifle de volta aos ombros. — O que está fazendo aqui embaixo? — perguntou, tentando não ser muito antipático com o caipira da Georgia. Seu tempo de rivalidade já se fora. Não tinha mais razões para ser grosseiro com aquele sujeito limitado.
Talvez devesse ter pena dele, na verdade. Mavelle parecia tão fragilizada, e o próprio arqueiro também.
— Não é da sua conta — Daryl quase rosnou de volta.
— Na verdade é — retorquiu Billy Ray, com um sorriso de canto de lábios, debochado. — Eu estou fazendo a ronda a mando de Ezekiel. Essa cela costuma ficar vazia de noite. Ele prefere assim — disse o sulista do Alabama.
O caipira arqueiro não falou nada. Apenas virou o rosto e tocou nas grades da cela. Shiva tinha acordado com a movimentação, e andava para perto dele, farejando, meticulosa.
— Se eu fosse você... — Billy ia aconselhar, mas Daryl, para sua surpresa, deixou uma das mãos entrar por entre as barras de ferro. — ...Céus, ela vai...
Billy Ray jurou que veria a mão do caipira ser arrancada pela tigresa em uma mordida. Mas a felina apenas esfregou uma das bochechas contra os dedos de Daryl, como se lhe pedisse carinho.
Tá de brincadeira, o sulista do Alabama pensou, meneando o rosto. Até a porqueira de uma tigresa gosta desse desmilinguido. Deve ser porque ele é mesmo um animal, refletiu, ferino.
— Ezekiel deixou a porta aberta — Daryl disse, como se fosse justificativa o suficiente.
— É o que parece — concordou Billy, com deboche, arqueando as sobrancelhas. O caçador da Georgia mantinha o olhar direcionado para a quadrúpede.
— Bem, já que pelo visto vocês se entendem, vou dar por encerrado meu trabalho e vou dormir — declarou Billy Ray. Daryl não se manifestou. Shiva dava meia volta e esfregava a outra bochecha nos dedos do caipira.
Quando estava prestas a girar a maçaneta e deixa-lo sozinho, porém, Billy se sentiu culpado. Era claro como água que Daryl estava perturbado. Por que estaria ali embaixo, escondido com a porcaria de um bicho de zoológico, ao invés de dormir do lado da namorada?
Franziu as sobrancelhas, irritado consigo mesmo. Não devia nada aquele sujeito. Mas foi inevitável. Expeliu a respiração, irritado, e se pôs a falar:
— Acho que Mavie deve estar te esperando. Já está tarde — comentou Billy Ray, tentando ser o mais calmo e gentil possível. O outro caçador reagiu na hora.
— Você não tem porra nenhuma a ver com isso — ressaltou Daryl Dixon, estúpido e direto. Fitou Billy Ray Holloway com seus olhos azuis estreitos fuzilantes de ira.
— Não tenho mesmo. Mas a vida é sua, a namorada é sua. Eu vou dormir com a minha mulher, se eu puder te dar um bom conselho, acho que você poderia aproveitar e fazer o mesmo.
Dixon mirava a cela da tigresa outra vez, irredutível. Billy conteve um sorriso maldoso.
— Ela deve realmente estar sentindo sua falta. Eu sei do que estou falando. Caso você tenha se esquecido, eu conheço bem sua namorada.
Não resistiu a provocar o outro caipira. Daryl caiu na isca, de imediato.
— Fale nela de novo e eu te quebro os dentes — o arqueiro ameaçou, andando rápido na direção de Billy.
O sulista do Alabama levantou as mãos, fingindo rendição. Segurou mais um sorriso.
— Você não tem mais porque lidar assim comigo, compadre. Eu sou quase um homem casado — disse, e mostrou a aliança que agora vestia. Conseguira um par para si e para Becky, além do anel de noivado rosa que a presenteara na noite em que ela disse “sim”. — Mas Mavie é uma amiga. E eu sei. — Parou para respirar fundo.
— Acha que sabe o quê? — Daryl o desafiou, ainda furibundo.
— Eu sei que ela te ama. Há muito tempo — falou Billy, humilde. — Desde a época em que eu ainda a amava — assumiu, exibindo feições sérias, não mais debochadas. — Ela sempre quis estar do seu lado.
Daryl Dixon o fitou da cabeça aos pés, o medindo. Ficou algum tempo sem nada dizer, e depois soltou um “tsc”, dando as costas para Billy Ray.
— Sabe, na época que derrotamos Hashimoto... Fomos eu e a Becky. Você lembra. Naquele plano que fingimos entregar o Tucker para ela — recordou-se, e o outro caçador lhe deu um olhar desconfiado.
— Eu achei que seria o fim. Achei que acabaria ali, naquela base do Exército, no meio do fogo, dos carniceiros, de toda aquela morte. Eu não queria deixar que acabasse sem que ela soubesse o que eu sentia. Eu disse que a amava, e perdi a consciência. — O sulista do Alabama deu um sorriso triste. — Eu não tinha dado a chance para ela me responder, para ela lidar com isso. Eu não tinha me doado, ainda, para ela. Não de verdade — confidenciou, coçando a nuca.
— A vida continua. E se assumimos esse compromisso, de estar junto com as pessoas que amamos, a sério, não dá para dar pra trás. É bem difícil, porque é uma responsabilidade imensa. O peso quase quebra a gente em dois. Eu chego perto de perder a cabeça ao pensar que algo pode acontecer com ela. A cada dia que nos aproximamos mais, esse medo aumenta. Mas minha alegria de viver... De viver junto com ela, aumenta também. Vale toda a parte dura — Billy disse aquelas palavras sinceras que sequer tinha formulado em pensamentos conscientes. Daryl o mirava com discrição, menos xucro.
— Nós vamos ter um filho — Billy Ray se viu contando para Daryl Dixon. O caçador da Georgia o fitou e lhe deu a sombra de um sorriso.
— Parabéns — congratulou-o em sua voz rouca.
O caçador do Alabama sorriu com gentileza e fez um aceno com a cabeça. Daryl desviou o olhar para Shiva de novo, mas parecia distraído da tigresa.
O homem do Alabama achou por bem deixa-lo, depois daquilo. Imaginou que o outro sulista compreenderia o que ele quis dizer.
— Eu realmente imagino a merda que tudo isso deve ser — Billy afirmou, já com as mãos na porta, para sair. Não fitava Daryl mais, apenas a madeira da porta. — O que vocês devem ter passado nas mãos daquele doente — mencionou, engolindo em seco.
— Você não sabe — negou o caipira da Georgia, sua voz mais baixa e gutural mostrando que estava outra vez ensimesmado e esquivo.
Billy Ray soltou uma expiração exausta.
— E é por isso mesmo que ela precisa de você. Não dê pra trás agora. Isso seria o mesmo que deixar Negan vencer. Vai deixa-lo tirá-la de você? — aconselhou-o, saindo daqueles aposentos. Não esperou para ouvir uma resposta de Daryl Dixon.
Todavia, contornou o prédio, parando aonde poderia ouvir o estalo da porta pela qual saíra. Escorou-se na parede, passando uma das mãos em seus cabelos escuros. Becky iria brigar com ele, mas a compensaria depois.
Não poderia deixar de se importar com aquilo. Mavie merecia mais. Daryl tinha de tentar mais.
Quando estava desistindo, quinze minutos depois de ter passado aquela conversa no caipira, Billy já tinha dado alguns passos para longe, dirigindo-se para a casa na qual morava com Becky, Morgan e Delilah. Foi surpreendido com o som da porta sendo aberta com violência, quicando contra a parede. Passos pesados perfuravam a grama próxima. Billy olhou com discrição naquela direção e viu Daryl Dixon caminhando rápido, impávido, por uma das ruas do Reino. Seguindo caminho para o local em que Mavie se alojara.
Billy Ray sorriu, satisfeito consigo mesmo, e tomou o rumo de casa.
Seu dever estava cumprido naquela noite.
*****
Ela acordou com o ruído discreto da porta de entrada sendo fechada.
De um salto, saiu da cama de casal em que deitara e adormecera sem querer. Seu coração batia descompassado dentro de seu peito, todos os seus cinco sentidos alerta.
Fez uma das mãos ir até a foice que mantinha presa em seu cinto. Segurou-a pelo cabo, retirando-a devagar de onde a guardava, enquanto a mão esquerda já destravava o revólver ASG Dan Wesson que tinha consigo, escondido no cós da calça.
Abriu a porta do quarto devagar, protegida pelas sombras da madrugada. O corredor estava vazio. Retraiu as pálpebras e mirou o andar debaixo, pelas escadas em formato de “L”.
Reconheceu uma silhueta masculina parada no térreo do bangalô, agachada defronte a um móvel com alguns porta-retratos. Tinha uma lanterna direcionada para algo em suas mãos, a única luz naquela casa abandonada. Era um homem de pele branca, alto, porém não muito truculento. Esguio, vestia uma camisa xadrez e não parecia portar uma arma de fogo à vista.
A garota desceu as escadas devagar, a mira do revólver direto na cabeça do homem desconhecido.
Ao chegar no primeiro andar, ainda escondida pelas sombras, discerniu que ele tinha cabelos compridos até os ombros. Eram fios loiros.
Delilah Feld reparou que o homem invasor daquela casa lia algo escrito com capricho em um papel. Uma caligrafia bonita, que, aos olhos dela, pareceu feminina.
Seus cabelos loiros e lisos escondiam seu rosto, mas ela notou que pingos d’água caíam no papel.
— Você está chorando? — ela murmurou, ainda mirando o revólver na direção da cabeça do homem.
Ele reagiu rápido. Levantou-se em um pulo, escondendo a carta consigo e mirando a lanterna no rosto dela.
Ambos se enxergaram, e Delilah Feld o discerniu.
Era ele. O mesmo capanga de Negan, que sequestrara ela e seu tio, e arrastara Redmond para o covil do sádico ditador.
Lilah fitou o rosto deformado daquele homem enquanto seus lábios tremiam. Ela ergueu ainda mais o revólver, querendo, mais do que nunca, atirar.
— Dwight?

Fale com o autor