Hunter's Instinct
9 Episódio 9 - Fixing Time
Notas iniciais
– Pode ir, pookie – disse Carol Peletier para Daryl Dixon, com um sorriso fraternal em seu rosto. A perna da mulher de cabelos grisalhos já estava bem recuperada. Suas forças já estavam tão resgatadas que não mais se locomovia por meio de uma cadeira de rodas, mas sim pelo uso de muletas. Como as que Hershel usara ao perder uma pequena parte de sua perna em um ataque de errante na prisão.
Dando espaço para que Daryl entrasse na ala hospitalar do Aquário da Georgia, Carol tocou o ombro do amigo, como se lhe dissesse silenciosamente que estava tudo bem com ela. Vê-la cada vez mais forte após aquele terrível ferimento era algo que trazia uma das poucas sensações de alívio que Dixon experimentara desde que virara refém das pessoas do Oceanário de Atlanta.
– Tudo ok? – ele insistiu, sério.
– Sim – Carol respondeu com uma risadinha baixa. – Eu consigo me virar sozinha com as muletas. Não se preocupe, eles não colocam por aqui nenhuma armadilha espalhada pelo chão – falou ela com ironia, referindo-se às armadilhas para ursos que Mavie e Billy Ray dispuseram naquela tarde na floresta de Nantahala, quando Carol fora acidentalmente machucada.
Saindo das vistas do arqueiro, Carol Peletier foi caminhando devagar com ajuda das muletas, cruzando o corredor que havia próximo aquela sala de atendimento médico. A luz azulada, tão típica da iluminação em geral do Aquário da Georgia, nas partes em que o grupo de Jed se permitia gastar a potência do gerador de energia elétrica, já estava dando nos nervos de Daryl.
Como Mavie se ferira há três noites atrás, quando tentara seguir Daryl Dixon depois de encontrá-la por coincidência nadando no antigo tanque das belugas, aquela semana ele ficaria sem ir em uma nova caçada. Jed não julgava três um bom número para a caça, não quando um dos três caçadores precisasse estar em observação, como seria o caso de Daryl, por ainda não confiarem plenamente nos integrantes vindos do grupo de Rick Grimes.
Billy Ray parecera se divertir com a expressão levemente frustrada e ainda mais irritadiça do arqueiro ao saber que estaria confinado integralmente por mais uma semana, e aquilo só deixava Dixon ainda mais enraivecido. Quando eu tiver minha chance, seu merdinha, você vai ver só. Pensava o caçador, prometendo a si mesmo que tiraria rapidamente o sorrisinho babaca de Billy Ray de seu rosto escroto.
Assim, engolindo a própria raiva de estar ainda mais preso do que de costume, Daryl Dixon seguiu o que lhe estava reservado para aquele momento; seu primeiro exame médico de rotina dentro do grupo do Oceanário de Atlanta. Entrou na sala repleta de instrumentos médicos e cirúrgicos, e aguardou os procedimentos a serem orientados por Annie.
Aparentemente, por uma questão de extrema organização e minúcia de Jed e Annie, todo e qualquer integrante do Aquário da Georgia era obrigado a passar por exames rotineiros para constatar a plena saúde física.
Diziam ambos que era uma forma de prevenir doenças antes de remediá-las e evitar que possíveis enfermidades se espalhassem pela população do Oceanário sem controle algum. Sei. Deve ser só mais uma desculpa para nos considerar carne morta e nos jogar para os tubarões. Caso adoeçamos. Refletiu Daryl, descrente na boa vontade do grupo do Aquário. Eles que tentem me atirar para aqueles bichos. Vão cair nos dentes dos tubarões antes de conseguirem falar “homem ao mar”. Pensou o arqueiro, com ironia.
Logo que terminou de lavar as próprias mãos e colocar um par luvas de látex, a mulher idosa se aproximou dele calmamente. Pediu-o que tirasse a camisa, por gentileza, para que pudesse examinar seus batimentos cardíacos com clareza.
Tirou a pressão do arqueiro, examinou seus olhos, ouvidos e garganta, o que fez Daryl sentir-se irritantemente em uma das poucas consultas médicas em que Merle já o levara na vida, nos postos de saúde precários perto de sua casa nas montanhas da Georgia.
Odiava tomar injeções, e era quase grato ao seu pai por não levá-lo nunca, quando pequeno. Sentia raiva de Merle, naquela época, por obrigá-lo a tomar algumas delas, as mais básicas, e rir dele se chorasse de medo. “Você é uma bichinha mesmo, Darlena. É só uma agulha. Você vai gostar de agulhas quando crescer...” Dizia seu irmão mais velho, se referindo ao uso de heroína e outros “picos”. Drogas injetadas no sangue por meio de agulhas.
Daryl, examinado por Annie, se sentia em um daqueles malditos exames de crianças em pediatras. Em seguida, ela lhe indicou que poderia vestir a camisa novamente, o que ele fez, e lhe questionou se havia feito o devido jejum pedido. O homem respondeu que sim, movendo levemente a cabeça. A idosa logo buscou uma agulha esterilizada, alguns potes de coleta sanguínea e passou a retirar sangue de uma de suas veias em seu braço esquerdo.
– Como vocês acabaram de chegar, terei de fazer uma coleta um pouco mais extensa com você e os outros de seu grupo – falou Annie, olhando para o sangue coletado, enchendo o último pote que restava. Dizia aquilo com um ar profissional que já não mais surpreendia Dixon. Ela agia como se realmente estivesse trabalhando, antes do mundo virar o caos que virara. – Não sabemos como estão nutridos, se portam alguns tipos de doenças... Mas é algo muito protocolar. Não se preocupe – ela disse, com certa frieza em sua voz plácida.
– Temos um laboratório excelente aqui no Aquário da Georgia, que antigamente era utilizado para o tratamento e detecção de doenças dos animais marinhos que aqui viviam – a idosa acresceu. – Só recomendo que depois do exame, coma bem e descanse um pouco. Jed não vai pedir nenhuma atividade exaustiva de você, Glenn, Maggie, Michonne e Tara, os examinados de hoje. – Annie deu-lhe um sorriso amplo, lembrando os sorrisos de Mavie quando queria ser genuinamente simpática.
– A mão da sua neta está melhor? – perguntou Daryl, aproveitando o momento para tentar conquistar mais a afeição da idosa mostrando alguma preocupação pela saúde da garota dentuça. Não sabia qual era a versão dos fatos de três dias atrás que Mavelle contara à avó, mas ele não era um covarde. Caso ela tivesse lhe culpado por algo e o delatado para a velha, ele não teria medo de saber e lidar com aquilo.
– É interessante que tenha entrado neste assunto – Annie comentou, soltando a faixa que amarrara no braço de Daryl para facilitar que achasse sua veia. Ele aguardou que a idosa continuasse a falar, enquanto ela buscou os vários potes repletos do sangue do arqueiro, e caminhou para outra porta em meio à sala hospitalar, sendo seguida pelo caçador.
Saíram em meio a um grande laboratório, repleto de instrumentos científicos que Daryl desconhecia completamente. Aquele ambiente o lembrara vagamente dos amigos de Merle que tentaram improvisar um laboratório de formulação de drogas dentro das próprias casas, uma vez.
– Minha neta me contou como ela se machucou – Annie foi direto ao ponto. Não olhava nos olhos de Daryl, todavia, colocando os potes de sangue em algum instrumento de verificação. Observou-os por algum tempo, e depois voltou-se para o arqueiro, as duas mãos nos bolsos de seu jaleco tão branco quanto seus cabelos.
– E ela me contou também que foi você quem prestou socorro aos ferimentos dela. – Os olhos castanhos claros da idosa faiscavam, fuzilando Daryl com o olhar. Ela andou alguns passos para mais perto dele, que manteve-se estável e parado no mesmo lugar.
– Eu presumo que saiba que eu não era favorável à sua estadia aqui, quando chegou. Bem ou mal, você foi o único que atacou minha neta. – A idosa enfrentava Daryl. – Eu apenas compreendi a decisão de Jed porque precisamos de auxílio para manter este lugar funcionando, e porque posso aceitar que você a flechou apenas para se defender e proteger os seus. De início, eu o desculpei. – Annie continuou, respirando fundo.
– A única razão que me mantém aqui, trabalhando para este lugar, é porque quero que minha neta continue viva. Eu sobrevivo e faço o melhor que eu posso fazer, dentro das minhas óbvias limitações, para garantir o melhor futuro possível para ela. – A idosa ficava cada vez mais séria e fria. O som da voz dela era gélido como uma geada de inverno.
– Eu imagino – Daryl respondeu, mantendo fixo o olhar da mulher de idade. Parecia desafiá-lo, encarando-o daquela maneira, e ele já entendia aonde ela queria chegar.
– Então espero que compreenda, Daryl Dixon, quando eu digo que se você machucá-la outra vez, ou se você tiver relação com o menor ferimento causado à ela, não será Jed a decidir mais nada a respeito. Eu me reservarei ao direito de me livrar de você. Imediatamente – falou a idosa com um sotaque idêntico ao de Mavelle Berry.
– Eu compreendo – Daryl disse, e não teve sequer intenção de se defender. Talvez Mavelle tivesse contado uma versão deturpada dos fatos ligados ao machucado de sua mão para a idosa, ou talvez a velha o tenha julgado mal, mas ele não perderia tempo se justificando para ela. Não se importava com que ela o condenasse por algo que ele não era realmente culpado e o enfrentasse daquela forma honesta.
Na verdade, ele quase se sentia grato por aquilo. Era bom ver, no meio de toda aquela falsidade daquele Aquário, alguém que o confrontava diretamente, sem mentiras, sem falsa cordialidade.
O homem moveu-se para sair do laboratório, voltando a sala de exames médicos para depois rumar aos corredores, quando Annie o interrompeu novamente.
– E a mão dela está quase sarando. Daqui a quatro dias, poderá voltar às atividades normais externas – a avó de Mavie afirmou com o forte sotaque igual ao de sua neta.
– É bom saber disso – Daryl redarguiu, em poucas palavras, sisudo. Annie lhe deu um último olhar avaliador, e moveu os olhos novamente de volta ao sangue que coletara do caçador. E, enfim, Daryl Dixon deixou aquele ambiente.
Assim que caminhou por alguns dos corredores, buscando a cozinha do Aquário para se recompor depois dos exames de sangue, foi parado por Jed, que de imediato lhe pediu um “favor”. Os favores pedidos pelo líder do grupo do Oceanário de Atlanta nada mais eram, na verdade, do que ordens educadas que geralmente deveriam ser cumpridas de imediato.
– Por obséquio, Daryl, preciso que encontre Mavie para mim. Estamos tendo dificuldades na ventilação dos corredores do segundo andar, e Eugene e Buck supõem que alguma peça se quebrou em um dos dutos. Só ela é pequena e ao mesmo tempo tem a força suficiente para se esgueirar por aqueles condutores de ar sem ficar presa lá dentro. – Sorriu Jed com polidez fingida.
– Se não consertarmos isso logo, a qualidade do ar do Oceanário poderá ficar comprometida. Avise-a que é para nos encontrar na frente do salão de festas do Aquário, no segundo andar – o idoso solicitou com sua gentileza atuada, e Daryl apenas lhe deu um olhar o mais petulante que ousava lhe agraciar, mas ao mesmo tempo mostrando compreensão.
Dixon passou em torno de uma hora revirando o maldito Oceanário de cima a baixo em busca da garota dentuça, mas justamente quando precisava dela ela sumira. Quando não queria achá-la, a garota morena surgia dos lugares mais inconvenientes atrás dele, mas agora que precisava encontrá-la logo, ela resolvera se esconder. A maldita Esquila deve ter achado algum buraco oco de árvore e se enfiou lá dentro. Pensou Daryl, com raiva.
Perguntou para Glenn e Maggie, que tratavam quimicamente a água de um dos tanques de peixes do segundo andar, mas eles disseram que a última vez que a viram fora no café da manhã. Perguntou para Haywood, que acompanhava Dakota e Peggy em uma das leituras da Bíblia de Padre Gabriel, e nenhum deles sabia lhe informar o paradeiro da dentuça. Ao enfim desistir de perguntar as pessoas que encontrara pelo caminho, decidiu pelo mais óbvio, mas também mais desagradável.
Ela provavelmente devia estar em seu próprio quarto.
Daryl subiu as rampas e escadas até o quarto andar, onde se localizavam os alojamentos do pessoal do Aquário, um dos últimos andares da construção. Uma fileira enorme de aposentos seguia rumo a um corredor estreito e imenso, e seria difícil adivinhar qual quarto era de qual pessoa. Também não era insano a ponto de sair abrindo as portas, e ameaçar dar de cara com algum morador do Oceanário em seus aposentos particulares.
Irritado por cumprir aquela tarefa imprestável, rangendo os dentes, Dixon se segurava para não caminhar batendo os pés e derrubando lixeiras e outros objetos pelo caminho. Quando já estava no fim do corredor e pretendia dar meia volta para procurar a maldita garota de dentes grandes em outro local, ele foi surpreendido pelo som baixo, porém já conhecido de uma voz familiar:
– Ai! Filho da puta – xingou Mavie, reclamando, o som de sua voz passando pelas frestas de uma porta ao lado dos ouvidos de Daryl.
Ele se aproximou e bateu com impaciência na superfície da porta.
– Pode entrar – Mavelle respondeu lá dentro, alto, com uma voz parecendo desinteressada.
Daryl cumpriu o que ela disse sem a menor cerimônia, entrando nos aposentos dela de uma vez. Fechou a porta em seguida, porque por alguma razão não queria ser flagrado ali.
– Cupido! – ela falou, surpresa, abrindo-lhe um sorriso de orelha a orelha. A irritação de Dixon apenas aumentou. – Você era a última pessoa que eu imaginava que entraria aqui – a garota admitiu, as feições de seu rosto já mostrando sua expressão debochada típica.
– Yeah – Daryl concordou, quase rosnando, sua voz muito rouca. Olhou para os lados, examinando o ambiente asséptico, simples. As paredes eram azuis, iguais a todo o Oceanário de Atlanta, e o quarto era praticamente idêntico ao que Daryl se alojava.
Com a diferença de alguns objetos entulhados por Mavie em cima da cômoda branca com o logo do Aquário da Georgia estampado, e alguns itens estranhos e desordenados que Dixon não prestou muita atenção. Além disso, havia deixado em um canto seu violão que ela tocara no maldito dia em que Daryl fora sequestrado, e o arco e flecha da garota em cima de seu criado-mudo, bem como a aljava de flechas.
– Só vim para cá porque Jed está te procurando. Quer que você se enfie num tubo de ventilação ou algo assim – falou Daryl, irrequieto, sem meias palavras. – Disse que é para você ir para o segundo andar agora. Ele, Buck e Eugene estão te esperando na frente do tal salão de festas e essas merdas aí do Oceanário – complementou o arqueiro, rudemente.
– “Quer que eu me enfie num tubo de ventilação?” – respondeu Mavie, quase rindo. Parecera um pouco nervosa quando ele dissera isso. – Bem, ele vai ter que esperar um pouco. – Mavelle levantou uma sobrancelha.
Daryl enfim reparara no que ela fazia. A jovem mulher estava sentada em sua própria cama, usando uma de suas camisetas justas, com uma calça jeans e várias linhas de costura em cima do colo. Sua mão direita, que não estava machucada, segurava uma agulha, e a outra tentava manter a calça na posição certa para costurá-la.
Era a peça de roupa que Daryl rasgara ao tentar flechar a garota e matá-la, no dia em que fora levado por ela e Billy Ray.
– Você tem que resolver isso agora? – o homem retrucou, já impaciente. Ia fazer questão de levá-la até Jed, para que o velho filho da puta não inventasse razões além das que já tinha para complicar a vida do arqueiro.
– Estou tentando consertar esse fecking rasgo desde de manhã – disse Mavie, entre dentes. – Se você não tivesse me flechado, para início de conversa... – A garota levantou os olhos para ele, parecendo provocá-lo.
Nem comece, Esquila. Para não reagir arrastando a dentuça para fora do quarto e jogá-la em cima de Jed, Daryl tentou a manobra menos boçal, porém mais trabalhosa.
– Pode me dar essa merda – Dixon respondeu, grosseiro, e sentou-se ao lado de Mavie. Puxou as calças da mão dela, e esperou que ela o desse a agulha com a linha.
– É sério que você sabe costurar? Agora me surpreendeu. – Mavelle parecia atônita. Demorou alguns instantes, mas, curiosa como era, lhe entregou a agulha.
– É. Aprendi muita coisa sozinho – retrucou o arqueiro, irritadiço. Passou a mover a agulha pelo rasgo, mas logo vira que aquilo não seria recuperado daquele jeito. Queria resolver isso logo, para que a garota de dentes salientes não inventasse mais razões para demorar e o obrigasse a ficar sozinho com ela. Dentro da porcaria do quarto da Esquila.
– Sua esperta – falou ele com ironia – isso daqui vai precisar de um remendo – disse Daryl, sem paciência. – Tem algum trapo aí? – ele pediu, olhando para a cômoda dela, buscando algo para costurar o rasgo.
– Espera, eu acho que tenho um lenço aqui em algum lugar. – Mavelle se levantou, ficando de costas para ele e fazendo com que as pernas da calça que Daryl costurava caíssem pela cama dela. Como a peça de roupa que costuravam cobria o colo de Mavie, ele não havia percebido ainda o que ela vestia, além da camiseta.
O arqueiro reparou, assim que ela se levantou, que a jovem caçadora não usavaas calças que costumava vestir naquele dia, mas sim um short um tanto curto para que não reparasse no comprimento pequeno.
Esquila filha da puta. Pensou Dixon com raiva, se forçando a olhar para a parede ao seu lado, assim que a garota morena se abaixou, curvando-se sinuosa para procurar algo na última gaveta de sua cômoda, em um movimento que inevitavelmente atraía os olhos masculinos. Assim que ela se levantou novamente, voltou seus olhos para a garota, evitando o melhor que podia olhar para as pernas quase desnudas dela.
Mavie rasgou o lenço, parecendo alheia ao efeito irritante que causava, e deu-o nas mãos de Daryl.
– Vamos lá. Quero ver se sabe fazer isso mesmo – Mavelle brincou, mas parecia um pouco ansiosa. Dixon percebia que nem mesmo ela não era sem noção a ponto de desobedecer as ordens de Jed.
Quieto, o arqueiro passou a costurar o lenço, um pedaço de pano xadrez rosa e branco, no rombo da calça, feito na altura da coxa de quem usasse aquela peça de roupa. Logo na metade, ela o interrompeu:
– Está errado – ela começou a falar rápido, quicando de leve na cama para mais perto dele, parecendo cada vez mais uma esquila. Pelo visto, queria observar com mais atenção o “trabalho” de Daryl. – Está errado! – ela insistia, rindo de leve. – Vai soltar muito fácil assim. – Seu sotaque estranho continuava.
– E você vai fazer melhor, com essa mão enfaixada?! Vai demorar um ano para terminar essa merda! – Daryl reclamou audivelmente, já quase enfurecido.
– Sossega no seu canto, Esquila, ou vai acabar roendo meu ombro a essa distância – falou ele com ironia sobre a proximidade irritante de Mavie, que olhava com atenção para a costura, e, nervosa, parecia ainda mais com um esquilo, falando rápido e mexendo-se de um lado para o outro. Contrariado, ele sentiu o perfume que vinha dos cabelos morenos da garota, um cheiro muito agradável de shampoo feminino como ele não sentia há muito tempo.
– Está fazendo errado – Mavie insistiu, rindo, parecendo divertida em provocar o arqueiro. Daryl voltou o rosto para ela, dando-lhe o melhor olhar de desprezo que podia, controlando a própria fúria.
– Cale essa merda de boca – Daryl retrucou, rangendo os dentes, finalizando a costura finalmente. Se estivesse com mais paciência, teria costurado melhor, realmente. Mas seria impossível fazê-lo com a companhia azucrinante de Mavelle ao seu lado.
– Muito obrigada por me ajudar. E por ter feito meus curativos também – Mavie falou, exibindo um ar mais simpático e doce. Estava mais uma vez apresentando uma postura parecidíssima com a de Beth, quando se sentia grata por algo. Daryl apenas respirou fundo para se controlar, e entregou as calças consertadas nas mãos dela.
– Agora vá lá encontrar seu chefe – o arqueiro falou mais calmo, livre daquela azucrinação.
– É engraçado que você meio que deu um jeito nos machucados que causou ou ajudou a causar – Mavelle comentou, divertida, ainda sentada, e irritantemente perto do caçador. – Sabe, me ajudou quando caí naquele dia, e agora consertou a calça que você tinha estragado com a sua flecha. – Ela sorria com doçura, e baixou os olhos para o remendo costurado.
A garota de dentes salientes colocou a calça consertada para o lado da cama, e Daryl desviou os olhos rapidamente de suas pernas, que ela balançava delicadamente.
– Você viu meus cortes feios na mão outro dia. Mas ainda não olhou o corte que deixou na minha coxa. Já cicatrizou. Quer ver? – Mavie, fingindo inocência, moveu as pernas para mais perto de Daryl, apontando com o indicador a coxa aonde a flecha do arqueiro passara de raspão.
Uma cicatriz comprida ainda mais branca do que a derme alva de Mavelle se fazia ver sobre a pele dela, que parecia macia e cálida de se tocar. Inevitavelmente, Daryl se sentira um idiota por não ter conseguido deixar de olhar para as pernas dela, à mostra daquele jeito, tão incomodamente sedutoras tanto aos olhos quanto ao toque.
– Minha família tinha a superstição de que beijar um machucado o curava – ela continuou a provocar, sua voz soando falsamente meiga. – Pena que isso não funcione com cicatrizes, né? – a garota falou com seu sotaque estranho, munida de um descaramento ímpar.
O arqueiro levantou devagar o olhar para os olhos dela. A Esquila conseguia algo admirável: mantinha os mesmo olhar juvenil que o lembrava de Beth, e, ao mesmo tempo, um sorriso malicioso que evidenciava estar provocando-o, contradizendo seu olhar inocente. E parecia estar gostando de fazê-lo.
– Você acha engraçado provocar, Esquila? – Daryl respondeu baixo, a voz rouca como sempre, tentando dar uma entonação ameaçadora ao que dizia. Infelizmente, seu comportamento anterior lhe condenava, impedindo que pudesse fingir um ar completamente desinteressado.
– Depende de quem me inspira a tanto – retrucou Mavie, usando de uma frase que Daryl lhe dissera para lhe cortar, quando foram caçar juntos pela primeira vez. Levantou-se de um salto, dando um último sorriso travesso para o arqueiro e foi andando porta afora, sem esperar a reação do caçador.
Ela sabia que tivera muito sucesso na provocação, e provavelmente estava cheia de si. Daryl, enquanto isso, sentia-se apenas um completo imbecil.
Puta que pariu. Pensou Daryl Dixon, honesta e simplesmente.

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