Hunter's Instinct
10 Episódio 10 - Surviving Together Is All That Matters
Notas iniciais
Love we need it now
Let's hope for some
Cause oh, we're bleedin out
I belong with you, you belong with me
You're my sweetheart
I belong with you, you belong with me
You're my sweet
I belong with you, you belong with me
You're my sweet
The Lumineers — Ho Hey
– O que a senhora queria comigo? – perguntou Maggie, tentando colocar uma entonação agradável e educada em sua voz. A avó de Mavie, a simpática menina de dentes salientes que morava no Aquário da Georgia, havia pedido licença para interrompê-la em uma ronda de patrulhamento dos arredores do Oceanário de Atlanta, que fazia junto a Noah e Sasha.
– É algo importante, querida – disse a idosa, sua voz tentando soar o mais doce que conseguia, embora sua personalidade fosse um tanto fria e reservada. – Mas não é nada para se preocupar. – Annie, a médica do Oceanário, guiava Maggie Greene pelos corredores até enfim adentrarem a sala hospitalar do Aquário de Atlanta.
– Se não é para me preocupar, por que estamos indo para a ala médica? – questionou a jovem moça de cabelos castanhos.
Annie apenas lhe deu um sorriso curto. Seus olhos castanhos escuros faiscaram ante a pergunta de Maggie. Parecia um pouco ávida para contar-lhe o que realmente pretendia.
– Entre aqui nessa sala, por gentileza. – A médica do Oceanário abriu uma porta em meio à sala hospitalar, revelando outros cômodos que a Greene desconhecia até então. Passou os olhos pelos novos aposentos que entrava, e percebeu rapidamente que eram uma espécie de laboratório.
– Como já pode presumir, o que eu venho lhe falar tem relação com o resultado dos seus exames de sangue – a idosa de cabelos tão alvos quanto os de seu pai, Hershel, lembrança que ainda lhe causava dor ao peito quando recordada, falava com a voz mais calma e controlada, agora.
– O que é? – Maggie a interpelou, já ansiosa. Já fazia quase dois anos que não recebia nenhum tratamento médico com alguma tecnologia especializada, e podia imaginar que passar tanto tempo em condições insalubres, enfrentando má alimentação e um estresse extremado traria malefícios à sua saúde. E a de qualquer um, na verdade.
Se tiver algo de errado comigo, Glenn não pode saber. Refletiu rapidamente a jovem mulher. Estaria determinada a esconder dele o que quer que fosse que pudesse aumentar suas preocupações. Seu marido já passara por muitos maus bocados para que ela os incrementasse ainda mais. Protegeria-o de qualquer notícia ruim que fosse, sabendo que aquilo o abalaria.
Glenn não sofreria mais.
Nunca mais.
Não enquanto ela pudesse evitar.
– Venha aqui. – A médica do grupo de Jed a chamou com um gesto de uma das mãos, e a moça de cabelos castanhos seguiu-a. Caminhou para mais perto da idosa, e viu que ela lhe indicava uma cadeira do laboratório a frente de um microscópio. Ali haviam alguns potes de exame de sangue coletados, etiquetados por nomes. Os que jaziam em cima daquela bancada a frente da idosa estavam com uma etiqueta escrita: “Maggie Greene”.
– Apenas me fale, por favor – a jovem mulher insistiu, inquieta.
– Querida, por gentileza, eu vou lhe falar, mas preciso que se sente. É um assunto de grande relevância – disse a idosa, de forma quase formal.
Engolindo em seco, um pouco contrariada pelo tratamento polido demais da avó de Mavelle Berry, Maggie sentou-se, batendo um dos pés levemente no chão. Já estava ficando sem paciência, embora soubesse que deveria manter a postura cordial, por tudo o que já prometera a Rick. Ele ajudara a manter seu namorado e agora esposo vivo, salvara seu pai decepando-lhe a perna quando fora mordido por um errante, e fizera de tudo para resgatar sua irmãzinha. Maggie respirou fundo, sentindo mais uma pontada de dor agonizante no peito ao lembrar-se de Beth.
Eu tenho que viver. Tenho que continuar viva, não importa quais sejam essas notícias.
Ninguém vai tirar Glenn de perto de mim.
– Você sabe o que significa o hormônio chamado gonadotrofina coriônica humana? – perguntou gentilmente, porém com certa frieza, a idosa.
– Não – Maggie respondeu, ajeitando a mecha de seus cabelos que agora já lhe cresciam na altura dos ombros para trás de uma orelha. – Não segui carreira em biomédicas – disse a jovem moça, com apreensão crescente.
– Estou vendo que você está aflita – Annie comentou, olhando-a com um pouco mais de zelo. – Vou tentar ser a mais direta possível, com delicadeza – assegurou-lhe a idosa médica.
– Não precisa ser delicada. Se sobrevivi até agora, eu aguento o tranco, do que quer que seja – retrucou a Greene, com alguma hostilidade irrefutável.
– Pois bem – suspirou delicadamente a idosa, e a mostrou um papel impresso com letras de forma de vários termos médicos. – Este daqui é o resultado dos seus exames. Esperei alguns dias para examinar a coleta várias vezes e ter certeza do que vou lhe informar – Annie acrescentou.
– Você está com doses boas de colesterol, porém um pouco anêmica e com a glicose muito baixa. Vamos tentar melhorar sua alimentação, porque será fundamental para a sua saúde daqui para a frente – a idosa alertou-a, com a voz muito séria.
– O que é o tal hormônio que você falou? – perguntou a jovem mulher, preocupada. Procurou-o pelo nome no papel impresso, mas não o achou.
– O hormônio da gonadotrofina coriônica humana é mais conhecido como Beta hCG ou BhCG – a médica esclareceu.
– Espera, eu acho que já ouvi falar disso... – Maggie esfregou as mãos na blusa, ajeitando-a, tentando tirar da memória o que aquilo significava. Por alguma razão, aqueles termos lhe eram um tanto familiares.
– Sim, provavelmente. É biologia básica, e imagino que seja formada na escola – falou a idosa, dando-lhe um sorriso contido. – O BhCG é o hormônio usado especialmente, quando em exames de sangue dessa espécie, para medir com perfeita acurácia os níveis de gestação de uma mulher – disse Annie, e tudo ficou claro para Maggie. Parecia-lhe como se houvesse passado muito tempo em um quarto escuro, e alguém subitamente abrisse cortinas que ela não enxergava, fazendo-lhe ficar quase cega com a nova iluminação.
Mas é claro. Aquilo tudo condizia com algo que já estava importunando-lhe desde que chegara ao Aquário, há um mês e alguns dias.
Ela não sabia se ria ou se chorava.
– Você está me dizendo... Que eu estou... Grávida? – perguntou Maggie Greene, embora já soubesse a resposta.
Annie apenas assentiu com o rosto. – Sim. Meus parabéns! – A idosa segurou o braço da jovem moça de cabelos castanhos, apresentando-lhe suas congratulações. – Suas dosagens de BhCG estão de 32 mIU/ml. Suponho que esteja grávida de cerca de 3 semanas.
Maggie, sentada naquela cadeira, sentiu como se sua respiração parasse de lhe obedecer, e seu corpo parecia pesar mais do que uma tonelada.
Passou por volta de minutos olhando fixamente o rosto de Annie, sem saber como reagir. Estava tonta, enjoada. Sem saber o que fazer. Sem saber nem mesmo o que pensar. Aquilo era inegável.
Tentara negar o atraso da menstruação, fingindo que era estresse, que era algum problema hormonal pela dieta pouco equilibrada que levava, inventara todo tipo de desculpa possível para fugir da verdade... Por mais que tivesse se protegido daquilo, ela estava grávida.
Ah meu Deus. Ah, meu bom Deus.
– Não se preocupe, querida. As instalações do Aquário são suficientemente boas e completas para cuidar de um bebê. Quando me der permissão, alertarei a Jed de sua condição e você receberá porções extras de comida, bem como uma dieta melhor balanceada. Arranjaremos um berço para seu neném, e não será difícil arrumarmos os alimentos corretos para ele. Temos um grupo de caçadores e patrulheiros fortes e bem dispostos – a idosa falava, mas Maggie mal prestava atenção em suas palavras.
A garota de cabelos castanhos passava as mãos freneticamente pelos fios, ajeitando as mechas que insistiam em cair por sobre suas orelhas, também não prestando atenção em seus gestos.
Sentia-se tonta, enjoada, como se o mundo ao seu redor girasse em voltas cada vez mais rápidas, incessantes. Os pensamentos aflitivos a perseguiam cada vez mais.
Como vou cuidar de um bebê? Como Glenn vai lidar com isso? E o resto do grupo? E o grupo deles? E se Rick entrar em guerra contra o Aquário e perdermos a segurança do local antes do bebê nascer? Serão mais nove meses no mínimo convivendo com esse grupo, e se toda essa gente se desentender?
Como vou sobreviver com um bebê pela estrada? Como ele vai conseguir nascer? Como ele vai viver nesse mundo horrível? Como vou criar uma criança? Como vou protege-la?
Terei o mesmo destino de Lori?
Vou ser obrigada a deixar Glenn sozinho?
Glenn... Glenn, nós vamos ter um bebê.
Nós vamos ter um filho.
– ...Precisa de alguma coisa? Eu sei que é algo muito marcante. Posso lhe oferecer um calmante, se quiser – a idosa sugeriu, acariciando delicadamente um dos ombros de Maggie.
Agora a médica parecia realmente solícita a ela, olhando-a de forma carinhosa, quase como fazia com Mavelle. Greene não soubera quanto tempo passara alheia a tudo, presa em seus pensamentos.
– Tome isso, querida – Annie falou, enquanto a entregava um frasco pequeno de algum remédio líquido. – É clonazepam, para ser usado por seres humanos, e não outros animais. Tome entre três a seis gotas, se sentir necessidade. Vai acalmar os nervos – a médica a orientou, com delicadeza.
– Eu não preciso disso. – Maggie Greene levantou-se, orgulhosa, de um salto. Sentiu-se nauseada pelo movimento brusco, e se apoiou de leve na bancada hospitalar ao seu lado.
– Não é vergonha alguma – a médica insistiu, e colocou o frasco no bolso da blusa que Maggie usava. – Pense que é apenas um recurso que estará aí se precisar. – Deu-lhe mais um sorriso sincero, e Greene respirou fundo. A idosa parecia mesmo estar fazendo o melhor que podia, e ela precisava acalmar-se ao máximo que conseguisse. Havia muito em jogo, com essa novidade.
– Você contou isso para alguém? – perguntou a jovem moça.
– Não. Apenas você sabe. Mantive os resultados do seu exame escondidos – respondeu com honestidade a idosa. Maggie não teria como comprovar aquilo, sendo sua única escolha a de acreditar ou não na palavra da avó de Mavelle.
– Eu aprecio seu gesto. Peço que não conte nada para ninguém, ao menos por enquanto – falou Greene, séria.
– De nada. Pode contar comigo – disse, por sua vez, a médica do Oceanário de Atlanta, aquiescendo ao pedido da grávida. – A propósito, pelos meus cálculos, você está grávida há 23 dias. Cerca de três semanas e uns poucos dias.
– Bate com o meu atraso – afirmou Maggie, sem refletir muito, levando a mão a testa, encarando o piso cinzento daquela sala de laboratório. Até mesmo respirar estava um tanto difícil naquela situação.
– Querida, se você precisar, pode ficar aqui o quanto quiser. Posso deixa-la sozinha. E farei com que ninguém entre para importuná-la – garantiu-lhe a avó de Mavelle, solidária à angústia que Maggie sentia, e que provavelmente estava estampada em seu rosto apavorado.
– Não precisa – disse Greene, balançando a cabeça, franzindo o cenho. – Eu estou ok. É sério. Estou bem. Só... Só preciso ir. – A jovem moça deu as costas para a idosa, que lhe lançou um último olhar preocupado.
O que eu vou fazer? O que vai ser de mim agora?
O que será de nós, Glenn? Perguntou Maggie para si mesma, em pensamentos, sendo levada cada vez mais por um torpor hediondo de pânico.
Andou a esmo pelos corredores do andar da ala médica do Aquário da Georgia, ignorando as pessoas por quem passava. Olhava fixamente para o chão, tentando se controlar, tentando dar algum rumo aos seus pensamentos completamente angustiados e desordenados.
Depois de andar sem parar e sem destino, a jovem mulher decidiu procurar o marido. Não havia outro jeito, Glenn precisava saber. Não fazia ideia de como ele reagiria à notícia, mas ele era parte daquilo.
E, dessa vez, ela infelizmente não poderia protege-lo da verdade.
Buscou pelo companheiro em todos os lugares possíveis, subindo as rampas do Oceanário, indo até os jardins externos e portões diversos, mas não o achou em lugar algum.
Aflita, perguntou a primeira pessoa que achou, Noah, que lhe informou que Glenn havia saído horas atrás para uma tarefa externa, procurar materiais de construção específicos para o Aquário, para reparar algumas falhas nos muros altos, identificadas por Rick.
Saíra junto a Daryl, Buck, Rick Grimes, Billy Ray, Haywood e Dakota, pois a distância era longínqua até o local onde poderiam encontrar os apetrechos que precisavam, e um grupo pequeno apenas atrasaria a busca. Quanto mais gente naquele caso, melhor.
Maggie mal controlou as lágrimas. O garoto reparou em seu estado de nervosismo agudo, e perguntou-lhe se estava tudo bem. Ela apenas assentiu com a cabeça, engolindo o próprio choro com dificuldades, mas o menino insistiu. Dessa forma, foi obrigada a ser grosseira com ele, falando que a deixasse em paz de uma vez. O rapaz a olhou com feições confusas, mas não mais a abordou.
Ela lembrou-se daquilo. Glenn se despedira dela de manhã bem cedo, enquanto ainda dormia, despertando-a com carinho, avisando-a que voltaria o mais rápido que pudesse. Falou que poderia demorar horas, e não poderia lhe dar uma previsão mais exata de retorno.
Greene estava à beira do desespero. Digerir uma notícia com um peso daqueles no dia a dia de uma existência normal já não seria algo fácil. Toda a ansiedade, medo, receio e importância de uma nova vida a caminho, de uma futura maternagem... De uma família nova por vir, era multiplicada a níveis incontáveis em meio ao verdadeiro horror e caos que era o mundo atual.
De mais a mais, ela e Glenn não planejavam ter filhos. Se protegiam o melhor que podiam de uma consequente gravidez. O problema é que nenhum dos métodos contraceptivos que usavam eram cem por cento confiáveis, e infelizmente o azar e as poucas probabilidades superaram o que seria esperado.
Ah, meu Deus. Ah, Deus. O que eu vou fazer?
Maggie sentia suas pernas bambolearem, tremendo, seus músculos todos retesados em uma ansiedade incontrolável. Buscou algum local fechado do Aquário, uma sala pequena no terceiro andar, onde não havia nada além de um depósito de materiais, como uma espécie de almoxarifado. Jogou-se no chão, e, enfim, permitiu-se sentir todo o medo que ameaçava consumí-la por inteiro.
Em segundos, estava chorando descontrolada. Cobriu a boca com uma almofada furada que ali havia, engolindo poeira acumulada ao fazê-lo. Mal conseguiu suprimir seus lamentos, e não queria que alguém que passasse no corredor do lado a ouvisse em prantos inconsoláveis naquele lugar.
Papai, como eu queria que estivesse aqui. Annette. Shawn... As lembranças de seu irmão, de sua madrasta e de seu pai a traziam apenas mais angústia, sabendo que nunca mais os veria de novo. Aquele mundo em que vivia não permitia luto, não permitia lamentações... Mas era inevitável.
Estava amedrontada, perdida. Completamente desamparada.
Maggie teria um filho, teria sua própria família, e nenhum dos seus parentes estaria vivo para testemunhá-la.
Beth. Bethy... Pensou a jovem moça. Um soluço agudo escapou de seus lábios.
A imagem de sua irmã era tão clara em sua mente. Clara como seus cabelos loiros, radiantes como uma manhã de sol no verão. Seus grandes olhos azuis, sempre tão inocentes, a olhando buscando orientação, guia, conforto.
Beth sempre fora a protegida da família, seu jeitinho doce, meigo, uma princesinha naturalmente... Sempre inspirara naqueles que a amavam uma vontade muito forte de protege-la. Evitar que qualquer mal a encontrasse.
E, tal como seu irmão, tal como sua madrasta, e tal como seu pai... Maggie não pudera fazer nada para salvá-la de seu trágico destino.
“Maggie... Maggie, estou com medo, não consigo dormir.” A voz de Beth Greene ressoava límpida nas lembranças de sua irmã mais velha, naquele momento.
“Beth, volte para sua cama. Papai já falou que precisa dormir no seu quarto.” Maggie, naquela época com 14 anos, respondia sonolenta à uma Beth de 8 anos, assustada.
“Por favor, Maggie, só hoje. Por favooor...” Pedia Beth, com sua vozinha doce, que sempre soara juvenil e inocente mesmo quando já tornava-se uma adulta.
“Tá bom. Vem cá.” Respondera Maggie para a irmã, fazendo um gesto para que fosse até sua cama. Abriu-lhe as cobertas e permitiu que ela se ajeitasse do seu lado. “É a última vez, hein? Você precisa ser corajosa, Bethy. Ser forte. Não existem monstros. Nenhum monstro vai te pegar, eu não vou deixar.” Falara a irmã Greene mais velha, protetora.
“Ok. É a última vez.” Disse Beth, com um sorriso meigo em seu rosto. A menina loirinha encarava a irmã mais velha com admiração, e muita gratidão. É claro que aquela não fora a única vez que cedera aos pedidos de Beth para dormir com ela, bem como outras requisições. Maggie Greene nunca conseguira negar qualquer coisa que fosse para aqueles olhos pidões de sua irmãzinha.
Lembrar daquilo apenas a fizera chorar ainda mais compulsivamente. Maggie Greene agora abraçava os próprios joelhos, desconsolada.
Desculpa, Bethy.
Desculpa, papai.
Desculpem... Desculpem, por não ter protegido vocês.
Desculpa por não ter salvado vocês dos monstros.
Greene foi subitamente despertada de seu choro convulsivo por uma luz estranha que adentrava o recinto no qual se escondera. Por estar com os olhos selados entre os próprios joelhos, ela sequer vira que alguém abrira a porta daquele esconderijo.
Mavie Berry a encarava, seu rosto não demonstrando nenhuma expressão de questionamento ou estranheza pelas feições claramente chorosas e angustiadas de Maggie.
– Hey, te achei! – falou a jovem menina de dentes salientes. Abrira um sorriso doce idêntico aos que Beth costumava dar. Tão parecido, que, por um segundo, Maggie Greene quase poderia ter visto relances da irmã no rosto da garota irlandesa.
– O quê? – perguntou Maggie, limpando o rosto com as costas das mãos. Não queria ser interrompida, mas, de certa forma, era melhor estar acompanhada do que presa sozinha em seus pensamentos aflitivos.
– Preciso da sua ajuda – Mavelle disse como se não tivesse notado nada de diferente no rosto da jovem mulher, fingindo tal ação muito bem. Maggie sentiu-se intimamente grata.
Uma das melhores qualidades daquela garota era sua sensibilidade. Parecia perceber bem como e quando se aproximar das pessoas, tendo o tato preciso para garantir a simpatia delas. Isso era algo muito característico de sua irmã mais nova, também, quando era viva.
Até mesmo de Daryl, sempre tão recluso e fechado em si mesmo, ambas conseguiram manter uma aproximação. Além de Maggie, Daryl fora provavelmente quem mais sentira a perda de Beth.
Já quanto à Mavelle, Dixon a tratava com aspereza e a evitava, Maggie percebia isso, mas a garota conseguia pouco a pouco conquistar algum apreço do arqueiro caçador.
– O que quer? – Maggie Greene questionou outra vez, levantando-se e respirando fundo.
– Os meninos me passaram o trabalho chato hoje. – A garota irlandesa revirou os olhos em uma careta divertida. O ar leve que havia junto aquela menina deixou Maggie um pouco menos agoniada. Ela tinha a mesma aura jovial em volta de si que Beth sempre apresentava.
– Tenho de consertar uns encanamentos – contou Mavie, apresentando para a jovem mulher de cabelos castanhos a caixa de ferramentas que levava em suas mãos. – Terminarei mais rápido se receber uma ajuda. – Deu a Maggie uma piscadela marota e um sorriso divertido.
É o melhor que posso fazer, agora. Refletiu Greene, sabendo que se distrair, ao menos até quando Glenn chegasse, seria o melhor a ser feito. Sucumbir ao medo e ao desespero não resolveria nada.
Assim, as duas seguiram até o andar precisamente acima de um aquário cujo encanamento de filtração estava danificado. Ali nadavam diversos peixes comestíveis, saborosos e nutritivos que o Aquário da Georgia mantinha vivos e alimentados para que, em caso de urgência, pudessem ter garantidamente alimento comendo-os.
Mavelle passou a Maggie alguns instrumentos técnicos e uma chave de fenda, e ambas, sentadas junto ao piso daquela sala, passaram a consertar alguns rombos, furos e danos no encanamento referente ao filtro daquele tanque.
Depois de muitos minutos de trabalho, Maggie sentia-se um pouco menos desamparada. A companhia silenciosa de Mavelle, que percebera o quanto Maggie estava em um momento delicado e grave, ajudando-a a esfriar a cabeça com alguma tarefa que ocupasse forçadamente seus pensamentos... Fora algo inestimável para ela, quando vítima de uma angústia tão profunda. No que poderia estar sendo o momento mais difícil de sua vida até então.
– Obrigada, viu? – falou Maggie Greene, com um leve sorriso no rosto, de lábios fechados. Encarava o cano que consertava, e não o rosto de Mavie.
– Por nada – respondeu a irlandesa, com seu sotaque evidente. Maggie sabia que ela entendera pelo que a agradecera. – Mas nunca ia imaginar que você gostasse de uma tarefa tão chata – brincou Mavelle, sorrindo jovial. – Precisamos melhorar seu senso de diversão – continuou a menina morena.
Maggie deu uma risadinha sem som. – Só ter com o que se ocupar já é algo bom – disse ela, com sinceridade irônica na voz.
– Pois é. Todos temos trabalhos para fazer – Mavie continuou a falar, com voz doce, mexendo em um parafuso com sua chave de fenda.
Maggie Greene sentiu seu coração parar de bater.
– O que você disse? – perguntou, surpresa. Isso sim era coincidência demais.
A mesma exata frase que Beth costumava dizer, para dar-lhe forças, na época em que Glenn estava adoentado e em risco de falecer na prisão. A frase que o pai de ambas ensinara as duas, para que não desistissem jamais, e continuassem tentando, indo sempre em frente, com fé e persistência.
– Que todos temos trabalhos para fazer. Não trabalhos como empregos, mas... – explicou a menina, olhando para Maggie como se não compreendesse bem a pergunta que ela fizera.
– Ah, sim. Eu entendi. Esquece... É só que... – falou Maggie, com a voz levemente embargada. Sentia que teria de prender o choro outra vez.
Mavelle levantou os olhos para a jovem mulher de cabelos castanhos. Pôs a chave de fenda de lado, movendo o rosto um pouco, inclinando-o delicadamente. Céus, como essa menina parece com ela.
– Desculpa – disse Greene, respirando fundo. – É só que você me lembra demais a minha irmã – Maggie falou, forçando-se a engolir o choro. Mavelle a encarava com delicadeza, seus olhos de avelã esverdeado focados nos de Maggie, tentando ajuda-la a se sentir melhor.
– Eu sinto muito – Mavie a consolou depois de um tempo, parecendo realmente sincera. Aquela menina era muito doce. Rick teria de protegê-la, quando seu grupo afinal subjugasse o grupo do Aquário da Georgia.
Ela era doce como sua irmãzinha sempre fora.
– Eu acho... Acho que todo mundo do meu grupo também te vê da mesma forma. Todos já devem ter reparado. As semelhanças são incríveis. Quero dizer, fisicamente ela era loira, tinha olhos azuis, e o temperamento dela era um tanto diferente... Mas não sei. Você tem o jeitinho dela. Em essência, vocês duas se parecem muito – tentou explicar Maggie.
– Bem, obrigada – agradeceu Mavelle, por sua vez, um pouco sem jeito. Entretanto, algo nos olhos dela sugerira à Maggie que a comparação feita mexera com a garota irlandesa. – Eu não tive irmãs, sou filha única. Se eu pudesse ter uma irmã, talvez fosse alguém como você. Quero dizer, nossos nomes já são muito parecidos – disse a garota, brincalhona, com tanta honestidade na voz que era impossível não se sentir envolvida pelo o que ela falava.
Maggie apenas sorriu. Não havia muito a ser dito depois disso. Passaram alguns minutos focando-se na tarefa do conserto, enquanto Maggie Greene se recuperava mais uma vez.
– And I ask you, friend, what's a fella to do, 'cause her hair was black and her eyes were blue... – cantarolou baixinho Mavelle, sua voz afinada, porém potente, belíssima de se ouvir.
Maggie Greene não pôde conter uma risadinha nervosa. Aquilo estava realmente ficando estranho.
– O que foi? Cantei mal? Desculpa por machucar seus ouvidos – perguntou Mavie, fazendo uma careta fingida de arrependimento.
– Não. Muito pelo contrário, sua voz é uma graça. É só que a minha irmã adorava essa música. "Galway Girl", certo? – disse Greene suspirando. – Papai a tinha nos discos antigos de músicas irlandesas. Ouvíamos muito quando éramos crianças, na nossa fazenda – lembrou-se Greene, tentando se manter mais calma.
– Eu imaginava que você tivesse uma raiz irlandesa – comentou Mavelle, animada. – Greene. Seu sobrenome é comum no meu país – acresceu.
– Temos. Minha família toda veio da Irlanda – afirmou Maggie, sorrindo com ternura para aquela menina que tanto a lembrava de sua irmã.
– Eu sinto falta de lá – confessou Mavie, baixando os olhos do rosto da jovem mulher ao seu lado para encarar o encanamento do filtro. Piscou os olhos algumas vezes, e depois levantou o olhar de volta a Maggie, parecendo empolgada com algo. – Eu tenho um violão que deixo bastante afinado. Depois do jantar de hoje à noite, podemos fazer uma rodinha de violão. Acho que vai ser melhor para se divertir do que apertar parafusos soltos – debochou graciosamente Mavelle.
– Música é sempre uma boa distração, como meu pai dizia – respondeu Maggie Greene, concordando. – E Glenn adora tocar esse instrumento – adicionou Maggie.
– Ótimo! Eu empresto para ele. Vocês podem até fazer um dueto, olha que romântico – brincou Mavie, levantando uma sobrancelha.
– Eu prefiro me abster de cantar. Minha irmã que era cantora, um passarinho praticamente. – Sorriu Maggie. – Mas acompanho com gosto – disse.
– O que preferir, chefe! – brincou Mavelle Berry, já animada. – Porém eu realmente acho que ninguém hoje em dia liga muito para afinação. Não quando o que mais se ouve por aí são rosnados, e não trinados – fez a piada de humor negro que Maggie não pôde evitar não rir.
A jovem mulher de cabelos castanhos olhou discretamente para seu relógio de pulso, reparando que já passava da hora do jantar do grupo do Oceanário. Realizavam as principais refeições do dia todos juntos, para que a contagem de alimentos fosse precisa. Provavelmente Jed decidira aguardar um pouco mais para a chegada dos ausentes.
Depois que enfim terminaram o conserto dos canos quebrados, Maggie foi enfim agraciada com o som de vários passos diferentes subindo a rampa próxima aquela sala onde estavam as duas jovens mulheres. Andavam pelos corredores, e pareciam formar um grupo considerável de pessoas, pelos ruídos dos passos.
– Glenn! – Ela se levantou de um salto, falando em altos brados o nome do marido, instintivamente. Saiu correndo da sala, sendo seguida por Mavelle, que ia com menos ânsia checar quem chegara.
Viu Daryl Dixon subindo primeiro, que as saudou com um aceno de cabeça e um boa noite seco, Rick, que foi mais caloroso no cumprimento, e, enfim, vira seu companheiro de volta. Sequer prestou atenção em Haywood, Dakota e Buck, que seguiam um pouco atrás, e duas outras pessoas que não reconhecera.
Maggie correu até os braços dele e o abraçou com força, beijando-o como se tivesse esperado uma vida para vê-lo de novo. Quando seus lábios se afastaram, ele sorria com carinho para ela, acariciando seu rosto.
– Ei, o que houve? – perguntou ele, com aquele jeito recatado e tímido que sempre a atraíra. – Eu falei para você que iria voltar – afirmou o rapaz, acarinhando os cabelos de Maggie Greene.
– Eu te amo – disse ela, pura e simplesmente, dando-lhe mais um beijo e um abraço apertado. Não queria largá-lo nunca mais.
O que lhe importava tudo o que poderia acontecer? O medo de morrer, o medo do confronto entre os grupos, o medo do mundo horrível que existia lá fora? Glenn estava com ela, ela estava com ele... Eles estavam juntos.
E ela sabia que não haveria ninguém capaz de separá-los. Jamais.
– Eu também – ele respondeu, segurando o rosto dela entre as mãos. – O que aconteceu? – falou mais baixo, percebendo que havia algo estranho na forma dela se comportar, ainda que Maggie estivesse se segurando para não demonstrar nada a respeito. O resto do grupo que saíra naquela excursão matutina já havia se dispersado pelo corredor e por outros quartos.
– Depois a gente fala sobre isso. – Maggie segurou-o pela mão. Glenn apertou com doçura e firmeza a mão que ela lhe dera, mas ela fez um meneio de cabeça. – É sério. Depois a gente fala disso – insistiu a jovem mulher de cabelos castanhos. – Assim que pudermos ficar sozinhos.

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