Hunter's Instinct
87 Episódio 87 - We Shall Overcome Some Day
Notas iniciais
We shall overcome
We shall overcome
We shall overcome, some day
Oh, deep in my heart
I know that I do believe
We shall overcome, some day...
Pete Seeger — We Shall Overcome
Humilhação. Não havia outra palavra para descrever melhor.
Acima do território alexandrino, nuvens carregadas se erguiam, precipitando uma possível tempestade. O clima cinzento e entristecido parecia combinar com mais uma cena de opressão que os cidadãos daquele pequeno município improvisado eram obrigados a presenciar. Negan e seus milicianos saqueavam Alexandria, chegando mais cedo do que os dias previstos para a retirada de metade dos bens disponíveis.
Desta vez, o momento de violência e degradação era estrelado por Rick Grimes e Michonne, rendidos na frente dos portões principais da comunidade.
Os Salvadores vasculhavam um caminhão repleto de itens que variavam entre medicamentos, enlatados e materiais de construção — os últimos, aparentando ser os que mais atraíam os olhares dos capangas de Negan — retirando do veículo todos os suprimentos que Rick e Michonne passaram os últimos dias coletando, quase sem dormir.
O líder da comunidade deu um olhar de esguelha na direção de sua namorada. A mulher cruzava os braços, franzindo o cenho enquanto fitava um Salvador de cabelos compridos e castanhos remexendo em uma das grandes caixas de papelão. O capanga ria, parecendo satisfeito com o que via.
Até que não pareceu mais.
— Mas que merda é essa? — indagou o homem a mando de Negan. — Você acha que isso é algum tipo de piada? — O sujeito exibia um papel que nem Rick, nem, pelo visto, Michonne, haviam notado embaixo de uma boa quantidade de itens encontrados.
Nele, apesar do bolor e mofo, via-se um desenho malfeito de um dedo do meio, com letras garranchosas nos dizeres:
“PARABÉNS, OTÁRIO. AGORA TENTE SAIR VIVO DAQUI”
Rick e sua namorada tinham achado aqueles suprimentos em uma cabana abandonada no meio de um lago, cheio de armadilhas. Dentre elas, barcos furados. Provavelmente quem armara aquela emboscada imaginou que aquele recado seria a última coisa que aqueles que tentassem recolher seus bens leriam.
Em desespero, Rick levantou uma das mãos, para tentar pedir calma ao sujeito que andava rápido na direção de Michonne. Um Salvador, parado atrás de si, deu uma coronhada na nuca de Grimes, o que o fez no impulso abaixar o braço e levantar a guarda.
No segundo seguinte, o homem de cabelos compridos já estava defronte a namorada do policial. Ele apenas teve tempo de vê-lo desferir um soco direto no nariz da espadachim.
— PAREM! — bradou Rick Grimes, tentando ir até sua companheira, poucos centímetros ao seu lado. Com um Salvador de braços fortes a segurando por trás, a mulher não conseguia reagir enquanto recebia um murro depois do outro. Em pouco tempo, o rosto de Michonne estava sanguinolento, ao passo que Rick piscava os olhos, mal ouvindo suas próprias súplicas para que aquela brutalidade cessasse.
O som dos socos parecia atingir a si mesmo. Ressoavam dentro de seu peito, como se o esmurrassem também.
Quando o miliciano pareceu satisfeito, acariciou os próprios nós dos dedos, que chegaram a ficar machucados. O rosto de Michonne estava inchado, temporariamente disforme, com seus lábios grossos cortados, o nariz afundado e um dos olhos roxos.
O Salvador que a mantinha presa a soltou no chão com agressividade, fazendo com que a mulher cambaleasse e caísse no pavimento. Rick correu até ela, para ampará-la, sentindo seus olhos arderem de ódio e dor. Dor emocional, intensa, o mesmo sofrimento que não o abandonara desde a noite do assassinato de Glenn e Tara. Pulsante, pungente, como uma lâmina que fora prensada direto em seu coração e jamais arrancada.
Michonne juntou os lábios feridos, expelindo sangue no asfalto. Rick segurou seu rosto com cuidado, tentando acarinhá-la sem tocar seus ferimentos e aprofundar sua dor. Poucos Salvadores se mantinham perto dele, assim como não haviam moradores de Alexandria ao redor do casal. A maioria tinha se dirigido para o centro da comunidade, atraídos por um burburinho que vinha daquela direção.
— Eu... — tentou, mas a mulher conseguiu reunir forças para tocar no peito do policial, como se não precisasse de palavras de consolo.
— Estou viva. Estou bem. Nossos corações continuam batendo — ela disse, como se para acalmá-lo, colocando a palma da mão direita no lado esquerdo do peito dele.
Grimes não soube o que responder. Apenas a ajudou a se levantar, tentando carrega-la no colo. A espadachim recusou.
— Posso andar.
— Michonne... — insistiu, mas ambos foram silenciados por um ruído surpreendente.
Pessoas gritaram, ao mesmo tempo que o som do disparo de uma arma foi escutado. Rick conseguiu discernir o ruído. Era algum tipo de pistola.
Seu coração quase parou.
Carl. Judith.
Pensou em seus filhos. Não poderia ter acontecido nada com eles. Não poderia.
Repetindo aquilo como um mantra, tentou convencer Michonne a entrar em uma casa próxima e descansar. Meneando o rosto, nervosa, a espadachim mais uma vez se recusou. Queria saber o que estava acontecendo.
Cedendo, o policial a levou o mais rápido que podia sem deixa-la ainda mais extenuada depois daquela surra, e logo compreenderam o que se passava.
A voz de Negan se fizera audível, e Rick reconheceu que ele gritava, fora de si. Alguém o deixara muito irritado.
Apressado, o pai de Carl seguiu na direção da zurraria, e, por instinto, estacou protegendo Michonne quando escutou outro ruído de tiro. Desta vez mais agudo. Outra pistola. Diferente da que atirara primeiro.
— M-michonne — Rick balbuciou, mas ela o cortou.
— Vamos. Por favor — ela insistiu, determinada a não ficar para trás. Precisavam controlar a situação.
Porém, Rick Grimes mal conseguia controlar os próprios pés e seus próprios nervos.
Estava tão zonzo e atordoado que apenas percebeu que chegara a cena do crime quando Negan o saudou, cheio de deboche:
— Hey, Rick! Olha pessoal, é o Rick! — o déspota vociferou, andando rápido até o policial e sua namorada, que o pai de Carl mantinha segura com um dos braços acima de seus ombros.
— Puta que pariu, fizeram um estrago com a sua garota. Que merda — Negan fingiu lamentar, coçando o nariz. — Mas tenho certeza que não foi à toa. Controle-a melhor da próxima vez, meu amigo! — troçou, com um enorme sorriso no rosto. Rick o fitou com seu autocontrole comprometido. Seu estômago revirou ao ser obrigado a não se manifestar, quando seu maior desejo era de tirar a peixeira que tinha no cinto e dividir o crânio do ditador ao meio.
Todavia, não poderia comprometer ainda mais a segurança de Michonne, seu filho, Judith. Eles dependiam de sua suposta covardia. Dezenas de Salvadores mantinham miras de metralhadoras e pistolas na direção dos poucos alexandrinos, em uma desvantagem numérica óbvia.
Rick notou que Rosita estava estatelada no chão, submissa em uma pose vergonhosa sob a mira de uma pistola de uma mulher negra de cabelos pintados. Lembrou-se de seu nome: Arat. O rosto da ex-namorada de Abraham estava marcado, sangue escorrendo de um corte fundo em sua bochecha.
— Nós tínhamos um acordo! — Rick respondeu a Negan, sua voz saindo um pouco esganiçada enquanto tentava manter uma postura de falsa subserviência.
— Sua gente me fez perder a voz de tanto gritar — o autoritário miliciano comentou, pigarreando. Estava um pouco rouco. — Rick, que tal um “obrigado”? — debochou o homem de jaqueta escura, enquanto dava ao homem que atormentava um sorriso torto.
Grimes mal se segurava, mudando o peso entre as pernas enquanto respirava fundo para continuar são, raciocinando.
— Digo, eu sei que começamos isso tudo comigo enfiando a porrada até a morte em dois dos seus amigos — Negan começou seus discursos de cínico e sádico deboche. — E por causa disso a gente nunca vai passar um tempo juntos, trançando nossos cabelos, nem compartilharemos nossos segredos mais profundos e sombrios — Sorriu, zombando sem pudor algum — Mas que tal me dar um pouco de crédito? Eu me esforcei pra mostrar como sou razoável — o psicopata enunciou, parando de sorrir para lamber os lábios.
O déspota apontou para Carl, retomando a fala.
— Seu filho? — Negan mirou Rick com olhos incrédulos. — Ele se escondeu em um dos meus caminhões e metralhou uma caralhada dos meus homens. E eu o trouxe de volta pra casa! São e salvo! E ainda dei espaguete pro moleque comer — disse, como se tivesse feito um favor ao pai de Carl. O policial fitou seu filho, sentindo que seu coração acelerara de desespero. Passara poucos dias fora, e nunca soube que o garoto tinha saído de Alexandria sem permissão e se infiltrado no covil do inimigo.
— E outro dos seus amigos... Ele queria que eu te matasse e o colocasse no comando. — O maldito aumentou seu tom de voz. Rick varreu os olhos por aquela rua, e viu perto de uma mesa de sinuca disposta no meio do asfalto diversas vísceras espalhadas. Intestinos. Uma poça de sangue viscoso já escurecera o pavimento. O queixo do líder de Alexandria quedou, enquanto ele mal respirava.
— Eu matei ele... — Negan apontou para o policial com o indicador. — Por você! E aquela ali — usando seu bastão com arame farpado, indicou Rosita no chão com o corte sangrento no rosto — Ela atirou na Lucille, tentando me matar! — Levantou o taco. Embasbacado, Rick reparou que havia um buraco de bala na madeira.
— Então lhe dei uma boca a menos pra alimentar. — Foi a vez do ditador apontar para o cadáver da Olivia, caído na varanda frontal da casa de Rick, inerte em uma poça de sangue no chão. — E olhando bem pra ela, dá pra ver que aquela boca fazia um estrago do caralho.
Rick nem se importou com o deboche sociopata do líder dos Salvadores, preocupado demais com Carl, Michonne e Judith. Por instantes que sequer chegaram a lhe causar culpa, apenas agradeceu internamente por não terem matado seus filhos nem sua namorada.
— Pessoalmente, eu não a escolheria pra ir pro beleléu, mas a Arat, sei lá... — Negan dizia em tom de troça, mencionando Olivia, ao passo que dava de ombros. — Não devia confiar nela.
Rick o fitou, reparando que o ditador mantinha suas expressões desinibidas de sempre. Como ele podia matar tantos com um sorriso no rosto? De pura descontração?
Uma onda nauseante revirou as entranhas do policial, que aspirou fundo, apertando uma das mãos de Michonne. Sua companheira respondeu ao aperto, como se quisesse dar-lhe suporte.
— ...Suas coisas estão no portão lhe esperando. Apenas vá — Rick tentou dizer com austeridade, mas sua voz soou como se implorasse.
— Com certeza, Rick. Assim que eu descobrir a pessoa que fez essa... — Os olhos de Negan escureceram enquanto proferia aquela frase. — Bala. Arat? — chamou sua capanga.
Ela ergueu a pistola e a manteve a centímetros do rosto de Michonne.
Não.
— Fui eu! — Padre Gabriel reagiu antes de Rick, que mal conseguia se manter de pé.
Negan fitou o sacerdote com um olhar de evidente desconfiança. Rick abria os lábios para retorquir, mas uma voz surpreendente o calou antes que dissesse algo.
— Não, não foi — choroso, Eugene assumiu a manufatura das balas caseiras. — Fui eu. — Sua voz saiu abafada, pois cobria o rosto com as mãos.
Pouco a pouco, os Salvadores fizeram um cerco em volta do cientista alexandrino. Rick arqueou o cenho, segurando a respiração.
— Fui só eu — o ex-professor admitiu, quase gaguejando, enquanto o policial apenas testemunhava a tudo, atarantado.
— Você? — Negan questionou-o, defronte ao cientista. Seu timbre repercutiu ameaçador, baixo porém grave.
— Utilizei um cartucho usado, prensa, pólvora, um funil — Eugene listou, mas foi interrompido.
— Cale a boca — demandou o líder dos Salvadores, com a mesma voz e expressões sérias, como Rick podia atestar. O ditador segurou nos ombros do homem outrora covarde.
— Eu acredito em você — confirmou, abrindo um sorriso curto.
Em seguida, caminhou até o meio do aglomerado de pessoas ali reunidas, ficou de costas para Eugene e fechou os olhos. Ergueu seu detestável taco de baseball enrolado em arame farpado. Estava com as mãos cruzadas como se rezasse.
— Lucille, me dê forças — pareceu orar, o que fez Rick desviar os olhos para o chão, sentindo que nada daquilo fazia sentido. Poderia cair no meio do asfalto e ter um colapso nervoso a qualquer instante. Como aguentar tamanha falta de nexo, tamanha violência arbitrária? Tamanha opressão?
— Vou levar... O seu fazedor de balas, Rick — Negan o avisou, retraindo Rick de seu torpor aflito para coloca-lo em outro. — Ele e tudo o que deixou pra mim no portão de entrada. — Deu alguns passos na direção do policial, que mais uma vez apertou a mão de sua namorada. Negan o assustava. Quando aquilo passou a acontecer? Como se permitira descer tão baixo?
— E não importa o quanto você tenha arranjado, não foi o suficiente. Porque você continua me devendo pra caralho depois de hoje — sublinhou com sua voz acentuada e compassada. Rick entendeu que não era uma ameaça, era um aviso. O líder miliciano gastou mais alguns segundos fitando o pai de Carl com toda a fúria disfarçada no olhar que poderia demonstrar. Ele se esforçou para mirá-lo nos olhos.
— Então vamos nessa! — urrou Negan, desistindo de acuar o policial, chamando seus capangas para evacuarem Alexandria.
— Não... Não! — Rosita berrou, parecendo voltar aos seus sentidos, depois que Arat se afastou dela. Gritava do chão, em um estado lamentável. — Por favor, só me leva! Me leva no lugar dele! — suplicava, mas o companheiro de Michonne percebeu que o ditador nem deu ouvidos a garota latina.
— Rick, eu não vou mentir... Sua cozinha é uma bagunça fodida — Negan sussurrou aos ouvidos do pai de Carl, dando a ele um último sorriso de zombaria. Olhando por cima dos ombros, colocando Lucille atravessada neles, se despediu:
— Até a próxima vez!
Rick, parado estático, arregalava seus olhos. Podia ouvir a respiração pesada de Michonne, que perdia sangue ao seu lado.
Atrás dele, sons guturais se fizeram ouvir. Ele moveu o rosto para trás, podendo antever o cadáver de Floyd se arrastando, sem seus intestinos, metade de seu corpo começando a se desprender. Queria chegar até as canelas do policial e de sua namorada, para tentar se alimentar.
Zonzo, Rick pretendia se abaixar para eliminá-lo daquela sub-existência deprimente, porém não foi preciso. Padre Gabriel correra para ajuda-lo e fincou um canivete na têmpora direita do morto-vivo.
Depois de deixar Michonne na enfermaria, aos cuidados de uma atordoada Sally Adams, a psicóloga de Alexandria, que se revezava entre cuidar da espadachim e do ferimento no rosto de Rosita, o policial foi até a cela que Morgan construíra. Carl queria ficar consigo, mas Rick não tinha forças para falar com o filho. Estava aliviado por saber que estava vivo, e Judith também, mas o líder de Alexandria estava exausto. Incapaz de lidar com tudo o que ocorrera, que parecera esmigalhá-lo com um peso insustentável. Como se ele sim tivesse sido a vítima de Negan e seu taco de baseball, explodindo seus miolos em pedaços irreparáveis.
Como se manter são depois de tudo isso? Como tomar alguma decisão... Como poderia ousar se chamar de líder?
Sentou-se no chão, cobrindo o rosto com as mãos.
Não soube quanto tempo passou, incapaz de formular um pensamento inteligível, apenas entregue ao penar e a mortificação mental que o consumiam.
Focava-se apenas em aspirar e expirar, um movimento automático depois do outro. Até que recebeu uma visita.
— Carl me disse que você estava aqui.
Escutou a voz de Michonne e ergueu o rosto. Ela estava parada na porta da cela. Sequer a ouvira se aproximar, tamanha sua angústia que o distraía do mundo. Preso dentro de seu próprio pesar.
Gesso envolvia seu braço esquerdo, e tinha alguns curativos no rosto. Seu olho direito continuava inchado, escurecido.
Rick se levantou.
— Você precisa descansar. — Sua voz soou frágil, quebradiça.
Michonne negou, movimentando o rosto. Grimes foi até ela, sem forças para insistir. Segurou seu queixo e beijou sua testa, controlando a vontade de se entregar a um choro desgostoso.
— Eu sinto tanto... — murmurou ele. Não apenas pela surra que ela sofrera. Por toda a humilhação. Na verdade, sentia por tudo o que acontecera desde que decidira atacar a base dos Salvadores. Desde Hashimoto. Desde Jed. Desde que aceitara se assumir líder de toda aquela gente, e quantos deles não foram vítimas desde então. Pessoas que ele tinha como dever primordial proteger.
Michonne o parou, levando dois dedos aos lábios do policial.
— Eu achei o que estava procurando — enfatizou, fitando Rick com olhos castanhos cheios de carinho e devoção. Ele não entendia aquilo.
— Quando fomos, eu não tinha achado o que estava procurando. Mas sim depois... Depois de tudo o que me fizeram hoje. Eu percebi, Rick. O caminho não pode ser só meu — falou, sua voz determinada. — Nem só seu. Tem de ser nosso — garantiu, segurando uma das mãos do namorado.
— Há mais Salvadores do que nós, sabemos estar em desvantagem. Mas isso não muda a forma como eu me sinto. Não muda a forma como as coisas são. — Ela fungou, e Rick passou a acariciar seu rosto.
— Estamos vivos, Rick. Tanta coisa aconteceu, tanta coisa que não deveríamos ter aguentado. E por causa disso, talvez apenas por termos passado por isso, nós vivemos. Suportamos — enunciou, dessa vez a mulher passando os dedos da mão direita pelo rosto do namorado. Sorriu, e seu companheiro sentiu seu próprio peito esquentar. Seu coração acelerou, não por medo.
— Ainda estamos aqui. Nós dois. Estamos de pé. Apesar de tudo. E continuaremos de pé. — Ela deu mais um passo na direção do homem defronte a espadachim.
— Então o que vamos fazer com isso? — Michonne moveu a cabeça para o lado esquerdo, com lágrimas em seus olhos mergulhados nos de Rick, que também estavam marejados. — Como faremos isso ter significado? — indagou, e ele compreendeu que era uma pergunta retórica. Ela já tinha a resposta. O policial também.
— Somos nós que fazemos as coisas acontecerem. Você disse isso. Nós somos os que sobrevivem. Os que não se rendem. É por isso que temos de lutar — sua mulher ressaltou, sorrindo um sorriso discreto. — Não por nós. Mas pela Judith. Pelo Carl. Por Alexandria. Hilltop. Por todos nós! — Michonne agora estava séria.
— Podemos enfrentá-los, Rick, podemos achar uma forma de derrotá-los. Podemos conseguir isso. Mas... — ela soluçou, e algumas lágrimas desceram de seus belos olhos castanhos.
— ...Só se... Nós... — enfatizou ambos. — Fizermos isso. — Rick compreendeu. Sua namorada queria retificar a importância de serem eles os líderes. E ninguém mais.
— O primeiro passo tem de ser nosso — Michonne articulou a verdade que ele não poderia negar. Era sua responsabilidade. Muitas vidas tinham sido perdidas, mas ele não poderia dar para trás. Não poderia deixar como estava.
Tinha de viver, e deixar que vivessem.
— É, agora eu sei disso — Rick assumiu, sua voz com uma rouquidão emocionada.
Michonne chorou abertamente. Ele a abraçou, salientando sua postura decidida.
— Eu sei disso agora — repetiu, beijando seus cabelos de ébano.
Os dois se beijaram. Eram amantes. Companheiros. Parceiros. Amigos, há muito tempo.
Os líderes eleitos de Alexandria, e, portanto, os líderes eleitos da insurreição. Deviam isso ao seu povo. A todas as vozes caladas pela ditadura de Negan.
Aos seus filhos.
— Eu prometo que isso nunca mais vai acontecer — Rick sussurrou aos ouvidos de sua mulher, passando os dedos em seus cabelos. Os dois se fitaram em silêncio.
— Estamos juntos nessa, até o fim.
— Até o fim — ela confirmou.
Ele a mirou por mais alguns segundos, e, com toda a coragem que tinha, se declarou:
— Eu te amo.
Michonne ainda não tinha parado de chorar. Os olhos escuros dela, marejados, se estreitaram quando ela lhe deu um sorriso de alegria verdadeira, pura, mesmo depois de tanto horror sobrevivido.
— Eu também.
E foi a vez de Rick, enfim, sorrir.
*****
Esgotamento. Não havia outra palavra para descrever melhor.
Refugiados em Hilltop, escondidos sob a guarda de Paul Rovia, os fugitivos do cativeiro mantido por Negan tentavam apenas restaurar as forças, depois de sobreviverem a dias de tortura, em todos os âmbitos que tal bestialidade poderia ser imposta. Psicológica. Física.
Sexual.
Daryl Dixon deu um murro na parede de uma velha casa da comunidade do alto do morro. Estava fumando um cigarro, sozinho, depois de Maggie e Carol terem implorado para que saísse do quarto em que Mavelle dormia, também extenuada de cansaço.
Ele se recusava a tirar os olhos da Esquila. Não depois de tudo que fora forçado a sofrer para poderem escapar. Não depois de tudo que ela tivera de fazer para fugirem.
Foi preciso liberar o ódio que sentia em mais outro murro. E outro. E mais outro. Os nós de seus dedos já estavam ficando roxos, raspados contra o tijolo, quando parou, surpreendido por uma voz familiar.
— Vai se machucar mais fazendo isso — Carol aconselhou, se aproximando do velho amigo. Seus olhos daquele azul cor de anil estavam focados no rosto do arqueiro, que mal lhe fitou de volta. Não queria conversar. Não podia. O que estava dentro dele deveria ficar ali, trancado, e só poderia sair de um jeito. Na porrada.
Quando enfim pudesse colocar as mãos em Negan e fazê-lo sofrer tudo o que queria que o assassino de Glenn e Tara sofresse. Fazia questão de vê-lo padecer lentamente, em suas mãos. Nem toda a tortura do mundo seria suficiente para vingar os horrores que aquele homem maldito trouxera para os seus.
Para sua Esquila.
Daryl deu uma tragada no cigarro, depois de um último murro tão potente que ele achou um milagre não ter quebrado um osso no movimento.
Escorou-se na parede, sem olhar para a amiga, que se recostava ao seu lado. O sol da tarde já ia alto, as nuvens do céu se abrindo aos poucos com um vento leve de primavera.
— Não estou machucado — retrucou em um murmúrio revoltado.
Carol apenas arqueou uma sobrancelha, o mirando sem acreditar. Mas nada disse. Respeitou-o.
— Ela está dormindo pesado. Você deveria fazer o mesmo. Se quiser, temos sedativos aqui...
— Cala a boca, porra — Daryl retorquiu, mais grosseiro do que queria soar. A mulher não pareceu se ofender. Apenas dirigiu a ele mais um olhar maternal.
— Você sabe o que eu vou te dizer — ela tentou, mais baixo, soando razoável.
— Então não diga — revidou, e a mulher de cabelos grisalhos tocou de leve em seu braço. O caçador recuou com tamanha agressividade que ela arqueou as sobrancelhas, preocupada. Era evidente o quanto estava perturbado.
— Você precisa botar pra fora. Você sabe disso. E pode me xingar o quanto quiser. Eu não vou te deixar sozinho agora. — Carol deu mais um passo em sua direção, e Daryl quis desviar os olhos, mas não conseguiu.
— Essa é a hora de tirar o peso dos ombros. Você sabe, Daryl. E eu sei também. Eu sei que você fez o seu melhor. Nada disso é culpa sua — acentuou, e ele não aguentou mais. Zuniu o cigarro longe, e a mirou com raiva.
— Você não sabe de porra nenhuma. Não sabe o que é ficar trancado por dias numa caixa de metal, com seu próprio mijo, merda e vômito! — esbravejou, andando para mais perto da amiga. — Meu melhor — grunhiu, debochado. — O meu melhor me fez ser preso por aquele filho da puta, surrado, humilhado, escorraçado de todo jeito, caralho! — praguejou, soltando sua fúria em cima dela. Era por pouco que não desferia um soco nela, tamanha a intensidade da ira reprimida por tanto tempo.
— O meu melhor fez ela... Fez ele... — Sua garganta se contraiu, como se subitamente fosse se afogar. Estacou por um segundo, aflito. — Ele passava a mão nela na minha frente. Ele tocava nela. Falava coisas pra ela... Eu não sei como eu não fiquei maluco. Eu devo estar maluco. — Daryl levou as mãos ao rosto, seus dedos penetrando em seus cabelos compridos, quase os arrancando. Começou a respirar rápido, angustiado.
Carol o segurou pelos ombros, sem dizer nada, apenas o fitando como se compreendesse. Mas ela não poderia entender. Como entenderia?
— Eu não sei nem o que ele fez com ela. E isso... Se ele tiver feito... Eu não sei... Eu não vou... — Daryl balbuciava, sem fazer sentido, dando as costas para Carol, fechando as mãos em punho e esmurrando a parede outra vez. Continuou a fazer o movimento, enquanto lágrimas quentes, ardentes, escorriam de seus olhos. As imagens de Negan acariciando Mavie daquela maneira obscena não saíam de seus olhos muito abertos. Se os fechasse, era pior ainda, conseguia ver com nitidez de detalhes ele se aproximando dela, tocando seu rosto, beijando sua testa, passando aqueles dedos repulsivos nos braços, mãos, cabelos dela...
Não conseguia se permitir imaginar mais. Não tinha sequer coragem. Daryl não sabia se suportaria com sanidade saber que Negan tinha se aproveitado ainda mais de sua Esquila. O maldito a tivera para si por tanto tempo.
Aquilo corroía seu âmago, revirava-o de dentro pra fora, como se estivesse sendo consumido por algum veneno ardiloso, aos poucos.
— Ele nunca vai tê-la. Ela te ama. É por isso que vocês escaparam juntos. Porque essa era a prioridade de vocês dois. Negan pode matar todos nós, mas isso nunca vai mudar — Carol prometeu atrás dele, tocando em seus braços. A melhor amiga de Daryl o amparou de lado, recostando sua cabeça em seu ombro. Daryl parou com os socos, e encostou a testa contra a parede, escondendo o rosto.
E enfim, chorou até soluçar.
Passou minutos assim, soltando sua raiva naquele pranto de angústia enfim liberta, soltando o peso que mal conseguia segurar, com sua melhor amiga o dividindo consigo. Quando sentiu que seus lacrimais estavam vazios, secou o rosto inchado e pegou outro cigarro. Ofereceu um para Carol que agradeceu, meneando a cabeça em concordância.
— Mavie. Eu a amo — Daryl assumiu, finalmente conseguindo dizer aquilo em voz alta. Um alívio que até então ele não conhecia subiu pelo seu corpo, aquecendo seu peito. Soltou a fumaça do cigarro, enquanto Carol, ao seu lado, lhe deu um sorriso cúmplice.
— Todo mundo sabe. Tenho certeza de que ela também — afirmou a mulher com seu ar sabichão. Daryl apenas moveu o rosto em negativa, mas a breve conversa foi interrompida.
Maggie veio andando rápido na direção deles.
— Ela acordou — contou, e Daryl nem esperou. Jogou o cigarro no calçamento, e correu para dentro do trailer de Carol e Maggie.
Deitada na cama da viúva de Glenn, Mavie coçava as pálpebras fechadas, bocejando sem cobrir os lábios. Tinha o rosto redondo, marcado pelo travesseiro. Parecia uma menina sonolenta, e Daryl amou-a ainda mais, por vê-la tão relaxada, segura, protegida.
Queria tanto poder apagar tudo o que ela passara, abraça-la, deitar ao lado dela pelo resto da vida.
— Que horas são? — a voz de passarinho de Mavelle perguntou, e o coração de Daryl deu um salto de tão feliz por poder ouvi-la tão longe de Negan.
— Isso importa? — ele perguntou. Sua voz saiu mansa, calma, em um timbre que ele só conseguia usar direcionado a sua Esquila.
Mavie sorriu, o fitando com afeição. Ele queria poder gravar aquele momento para sempre.
— Não.
Daryl Dixon caminhou até Mavelle Berry, sentando-se ao lado dela em uma distância respeitosa. Ela ergueu as sobrancelhas e riu, parecendo incrédula.
— Pelo amor de Saint Patrick, deita aqui do meu lado! — a irlandesa pediu, o puxando pela camisa de Dwight, que ele vestia.
Daryl fez o solicitado, ajeitando-se defronte a ela, a abraçando pela cintura. Estavam apertados naquela cama estreita, mas aquilo não o incomodava, muito pelo contrário. Respirou fundo enquanto piscava, sentindo o cheiro dela entorpece-lo de afeto. Seus narizes quase se tocavam.
Mavie tocava seu rosto cheio de machucados e hematomas. Mas o toque dela não doía, pelo contrário. Tinha o efeito de uma pomada aplicada sobre uma queimadura. Curativo.
Ela o beijou com delicadeza, e o arqueiro sentiu que o rosto dela estava úmido. Depois do beijo, notou que ela começara a chorar.
— Eu nem consigo acreditar que você está aqui. Que estamos aqui. Esperei tanto por isso — Mavie confidenciou, sua vozinha trêmula fazendo uma dor aguda subir ao peito do caçador.
— Eu também. Mas estamos. Não vou te deixar nunca mais — garantiu, as palavras saindo antes que ele sequer pudesse pensar nelas. Acarinhou as bochechas da sua Esquila, enquanto via um sorriso singelo dela se formar. Aqueles dentinhos salientes aparecendo daquela maneira charmosa que tanto o encantava. Arrebatado por aquela visão magnética que era o sorriso arteiro de Mavie, sempre tão contrastante com seus olhos de inocência jovial, demorou a perceber que ela lhe fizera uma pergunta.
— Promete? — Sua garota o fitava com suas lindas íris entre o verde e o castanho, afoitas por uma resposta.
— Prometo — assegurou Daryl, dessa vez ele se aproximando para beijá-la. Seus lábios ainda se roçavam devagar, mergulhados naquele afago tão ansiado por ambos, quando ouviram alguém bater na porta.
Mavelle piscou, se levantando antes do arqueiro. Ele a seguiu, poucos passos atrás, como faria um fiel cão de guarda.
A irlandesa abriu a porta, e Maggie estava parada ali, com olheiras fundas em seu rosto também exaurido. Todavia, um sorriso parecia brincar em seus lábios.
— Mandaram nos avisar dos portões. Temos companhia — disse, parecendo empolgada.
— Quem? — Daryl perguntou em resposta, rouco. Arqueiro e arqueira se entreolharam e depois miraram a mãe da bebê que ambos eram padrinhos.
A viúva, mesmo tão maltratada pela vida, de fato sorriu ao dizer:
— Rick.

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