Hunter's Instinct

88 Episódio 88 (Bônus) - The Reaper


Notas iniciais
Boa noite, galerinha querida da Mentinha! Espero que gostem desse capítulo também. É um "episódio" todo em flashback. Não vou dizer de quem é o POV pra não estragar a surpresa. Mas recomendo DEMAIS que escutem a música: https://www.youtube.com/watch?v=ClQcUyhoxTg, é bem simbólica de certos dois personagens e sua relação que eu minimamente posso classificar como doentia. Aguardo comentários em ambos os capítulos, por favor, porque capítulo sem comentário é algo triste demais. Sei que demorei, mas tentei compensar com esse extrinha aqui. Acho que vão gostar! Por favor, me deixem saber suas opiniões sobre o 87 e o 88! =) Beijos e boa leitura!

Love of two is one
Here but now they're gone
Came the last night of sadness
And it was clear she couldn't go on

Then the door was open and the wind appeared
The candles blew then disappeared
The curtains flew then he appeared, saying don't be afraid

Come on baby, and she had no fear
And she ran to him, then they started to fly
They looked backward and said goodbye,
she had become like they are
She had taken his hand,
she had become like they are
Come on baby, don't fear the reaper...

Blue Öyster Cult — (Don't Fear) the Reaper

[DOIS ANOS ANTES DO CERCO DE NEGAN]

Um baque pesado se fez ouvir do lado de fora, estremecendo o contêiner gelado, fétido e imundo no qual ela se escondia.

A garota abraçou os próprios joelhos, enrolada em um velho cobertor de lã como uma indigente desamparada mal se protegendo do frio da noite. Um calafrio medonho perpassou seu corpo inteiro em uma fração de segundo, afastando o pouco controle mental que ainda detinha.

Apenas parte de seu rosto estava fora da manta comprida, seus olhos de um tom azul escuro e acinzentado arregalados, não se permitindo deixar de ver qualquer que fosse a ameaça que se aproximava. Ela reconhecia a sensação que se apoderava do seu corpo aos poucos. Sua mente enevoava, e tudo ao seu redor parecia irreal, presa em si mesma. O pânico chegava, galopando desesperado como um alazão fugindo da tempestade. Logo, a atropelaria, e tomaria conta de tudo.

Ela apertou os joelhos contra si, os dedos da mão direita fincados no cachorrinho de pelúcia que cabia dentro de sua mão. O boneco, puído, o material preto que revestia parte dele, já cinzento, e sua barriga e focinho brancos também acinzentado pela sujeira.

A garota não gostava de sua própria voz. Sabia que cantava mal. Mas aquela música a lembrava não de sua falta de afinação, mas das poucas lembranças que ainda conseguiam lhe dar alguma força.

A música country estava impressa na sua memória, gravada até mesmo em seu subconsciente. Ela mal se lembrava de como falar. Era difícil formular frases, depois de tudo o que passara. Mas aquelas palavras, musicadas, era só o que conseguia impulsionar suas cordas vocais a proferirem.

Daddy dance with me, I want you to see the woman I've become — murmurou entre notas agudas e trêmulas. Ela ouviu o som duro lá fora aumentando. Passos. Cada vez mais próximos.

Daddy don't let go, I want you to know I'll always need your love — ela continuou, apertando-se contra si mesma em um movimento arredondado. Não mais chorava. As lágrimas haviam secado. Tudo o que restava, naquele mundo morto, era o medo. O medo, a fome, e o vazio. O vazio que a impedia de dormir, de chorar, de falar.

Calliope não conseguia dizer uma palavra há meses. Desde que o último outono começara, quando seu pai morrera. Depois que chegaram a pequena comunidade, alcançada vindo do norte do Missouri, naquela jornada por quase dois anos até o extremo leste dos Estados Unidos.

Viviam em uma área industrial nos arredores da Virginia. Um local entupido de contêineres abandonados, perto de um porto, fechado por grossas cercas industriais. O grupo de algumas dezenas de pessoas que ali sobrevivia era liderado por três irmãos. Um deles, o mais velho e mais sábio, faleceu em uma empreitada de contenção de uma horda. O do meio e o mais novo, que jamais se entenderam bem, começaram a brigar sem parar pela liderança. E, como parecia acontecer na natureza, o macho alfa subjugou o lacaio. O irmão mais novo conseguiu a confiança da maior parte dos homens da pequena sociedade, e decidiu que o do meio deveria ser expulso.

A cerimônia de banimento não deu certo. Com o grupo rachado, a minoria se voltou contra a maioria, que respondeu em retaliação. O cercado virou uma praça de guerra, com sangue por todos os lados. Todos os resistentes foram mortos, restando somente as mulheres e crianças, incluindo Callie, que não pôde proteger seu pai. Um homem pacífico, que não quisera lutar e não concordava com a postura autoritária dos que se pretendiam ser os novos líderes.

...Today I became his wife, but I'll be your baby girl for life. — Calliope finalizou o refrão da canção que ela e seu pai gostavam de dançar juntos, sua garganta doendo por tê-la forçado, tão acostumada ao silêncio sepulcral.

Quando criança, ela revirara a coleção de CDs country dele sem sua permissão, e quando escutou essa música, definiu que tocaria na dança que faria com seu pai em seu casamento. Ao invés de castiga-la, ele ficou tão emocionado que decidiu que ensaiariam a dança desde cedo, então.

Ela queria chorar. Queria tanto.

Queria sentir ao menos alívio, para diminuir o medo que a corroía. Por que pensar que poderia encontra-lo não a ajudava? Por que a ideia de que sua vida acabaria ali poderia ainda assustá-la?

Callie não conseguia mais falar. Passara o fim do outono e o início do inverno fazendo tarefas domésticas para o grupo, junto com as outras jovens e mulheres. Comia pouco, dormia pouco. E passou a comer menos ainda quando os alimentos acabaram.

Seu líder determinara que teriam de comer os mortos. O frio do inverno, o mais rigoroso desde então, fizera com que muitos adoecessem, então eram o único material comestível disponível.

Ela vivia uma sub-existência, na qual seu único consolo era poder dormir. Quando dormia, às vezes sonhava, sempre com seu pai. E quando não tinha sonhos, podia dispor do consolo de não viver aquela realidade hedionda por algumas horas.

A garota ouviu um ruído retumbante, de alguém batendo contra o metal que revestia o contêiner. Se encolheu toda contra a extremidade oposta, abraçando a si mesma. Levou a pelúcia do cachorrinho que seu pai lhe dera quando viajaram para Vancouver na direção do peito. Um husky siberiano branco e preto de olhos azuis que cabia nas suas mãos.

Meus pintinhos, venham cá, a raposa já morreu! — entoou uma voz masculina a cantiga de brincadeira infantil, em um tom de humor, do lado de fora. Outro calafrio percorreu a espinha da garota, que sentiu seu corpo todo estremecer.

Comprimiu a própria respiração. Sabia que não poderiam ouvi-la ali dentro, ainda mais com a neve que caía lá fora. Bastava abrirem a porta que a achariam. Não tinha aonde se esconder.

Seu coração pulsava na sua garganta, parecendo querer pular para fora da boca. Ela ouviu um som estrepitante, de algo encostando em três golpes ritmados contra o metal do contêiner. Soltou uma exclamação baixa, cobrindo a boca outra vez com o cobertor. Sentia-se como uma criança se escondendo do bicho-papão.

Só que os monstros, no caso, eram piores do que meras assombrações. Eram humanos. Vivos. Capazes de atrocidades que os fantasmas do imaginário infantil não atingiam.

Quem quer que estivesse lá fora pareceu desistir. Calliope mal teve tempo de relaxar seus ombros, porém. Menos de dez minutos depois, a porta foi aberta. Por alguém que caminhava fazendo menos alarde.

Ela reconheceu um homem de bigode e cabelos rareados. Era e não era careca. Cruzaram olhares, e a jovem pôde apenas soltar uma exclamação arfante, aterrorizada.

— Meu Deus, ainda tinha mais uma... — o homem comentou, coçando os poucos cabelos. Alguém olhou por cima do ombro dele, se aproximando. Callie distinguiu uma mulher negra, usando um casaco térmico imenso. Tinha uma metralhadora enorme nos braços, o que fez a garota se encolher ainda mais.

— O que foi? — indagou a mulher com ar militar, mas seus olhos escuros e severos logo avaliaram Calliope.

— Uma garota. Céus, parece um bezerrinho desmamado. Olha como está magra — o homem desconhecido parecia fita-la com comiseração. Calliope tremia os ombros, o queixo batendo nos joelhos.

— Aqui está fedendo que nem uma vala. Tire ela daí — a mulher ordenou, dando as costas para o homem de bigode e a garota loira. Ele entrou no contêiner, e Calliope se arrastou por instinto para trás. Não havia mais para onde recuar, então ela só fechou os olhos e agarrou seus joelhos, escondendo o rosto.

Por algum motivo, se lembrou do campeonato de dança que tinha ganhado no último ano de seu colégio. Ela era líder de torcida desde o segundo ano de ensino médio, e antes de se formar ganhara o primeiro lugar no concurso inter-regional. Lembrou-se da expressão de seu pai na plateia, na primeira fileira do ginásio, quando ela e seu time levantaram o troféu.

Se ela morresse, ali e agora, queria que fosse com aquela imagem em mente.

— Prometo que não vou te machucar. — A voz do homem careca soou calma, poucos centímetros a sua frente. Calliope abriu os olhos, acuada, a postura ainda fechada em si mesma, como se pudesse se proteger assim, de alguma forma.

Ele sorria, mas Callie não lhe dava confiança. Contudo, não tinha forças para resistir.

— Nós somos os Salvadores. Temos um lugar seguro. Sem esses troços podres. Quente. Com aquecedores. Podemos levar alguns de vocês, se estiverem dispostos a trabalhar conosco — disse em um tom professoral. Ela não conseguiu responder.

O sujeito franziu as sobrancelhas, parecendo curioso e preocupado ao mesmo tempo.

— Você consegue me entender? — interpelou, cuidadoso.

Callie apenas anuiu em concordância.

— Você consegue falar? — perguntou, a voz em um tom ainda mais comedido.

Calliope meneou a cabeça, dizendo pelo gesto que não.

— Tudo bem. — Ele expeliu o ar, batendo de leve nos joelhos e se levantando. — Consegue caminhar? — indagou novamente.

A garota se levantou devagar, e tentou dar um passo à frente. Não sabia se deveria ir com aquele sujeito, mas não imaginava o que poderia ser pior que seu último líder. Culpado pela morte de seu pai e de tantos bons homens, que ainda tinham a cabeça no lugar depois de todo o horror testemunhado. Presos nos cercados por hordas de mortos-vivos, sem comida, sobrevivendo de carne humana e da pouca água que ainda tinham.

— Bom, muito bom — ele a incentivou, e Calliope se sentiu ainda mais humilhada. O homem de bigode parecia trata-la como uma criaturinha frágil, débil. Ela sabia que assim o era, mas não queria passar essa imagem para os outros. Não fora para isso que seu pai morrera, que se sacrificara por todo esse tempo. Ela deveria permanecer viva, forte, inteira. Por ele.

Na hora de sair do contêiner, ele a estendeu uma mão, que Callie não aceitou. Apenas manteve seu olhar assustado no rosto dele, que deu um sorriso que deveria se pretender tranquilizador e falou:

— Meu nome é Simon. Quero leva-la até meu chefe. Ele será seu chefe, se quiser ir conosco. Mas antes de trabalhar, vamos te ajudar a se recuperar. Todos vocês que quiserem ir — garantiu em um tom assertivo.

A garota nada disse. Ajeitou o cobertor esfarrapado ainda mais contra si. Só tinha seu rosto de fora, e o tecido se arrastava pela neve.

O homem não insistiu mais. Caminhou ao lado dela, a levando pela trilha de contêineres. Calliope se escondera no último, o mais reservado, disposto contra uma parte do cercado amplo daquela reserva industrial perto do porto. Simon e ela andaram pela fileira daqueles amontoados metálicos que lhes serviram como lar improvisado nos últimos meses, e chegaram na entrada da comunidade.

Ela sentiu seu queixo cair, ao ver o cadáver de Brandon, o braço direito do líder autoritário de seu grupo, esparramado na neve. O que era sua cabeça fora esmagado, estraçalhado em tantos pedaços que ela não reconhecia, manchando a terra alva daquele líquido rubro viscoso. Seu corpo jazia no chão branco em um arco contorcido, os braços esparramados.

A garota parou de caminhar, seus olhos ficando ainda mais esbugalhados. Mais a frente, via que a mulher de cabelos tingidos de loiro e pele negra encaminhava três membras da comunidade para dentro de um caminhão. Não eram muito próximas de Callie, mas foram as últimas que sobreviveram ao inverno, além dela.

Perto do cadáver de Brandon, alguns dos homens da comunidade estavam de joelhos, todos eles partidários do golpe que Ernie, seu líder atual, havia dado, motivador da morte de seu pai. Apesar da violência exposta, ela se sentiu vingada. E, de pé na frente deles, um homem parecia discursar. Reconheceu a voz debochada. A mesma que tinha escutado, antes da de Simon ou da mulher soldado.

Tinha uma espécie de sorriso no rosto, uma expressão leve e bem humorada que não condizia com aquela cena desoladora.

Era alto, de ombros largos, vestido com uma jaqueta de couro preto e um cachecol vermelho. Tinha as mãos cobertas por luvas negras, e carregava consigo um taco de baseball de madeira. Mas não um bastão qualquer. Um enrolado em arame farpado, que estava sujo de sangue e o que parecia ser pele humana.

Calliope pestanejou. Fora ele que matara e subjugara Ernie e os outros. Todos os homens que ela mais odiava no mundo. Era ele, ele e seus soldados, o grupo que seu líder tirano falavam aos sussurros e queriam evitar a todo custo.

Uma espécie de onda fervente subiu por todo o seu corpo. Não sentia mais apenas medo. Sentia ódio. Renovado. A mesma emoção que sentira quando seu pai morrera, e que fora calada pelo terror do regime ditatorial que lhe foi imposto.

Brandon merecia aquilo. Ernie merecia aquilo. O que eles haviam feito com aquelas pessoas, somente por se acharem dignos da liderança, apenas pelo poder... Todos aqueles que tiraram seu pai dela mereciam aquele tratamento.

— Ele já vai falar com você. — A voz de Simon se fez ouvir perto dela, que teve um sobressalto. Tinha se esquecido do homem careca próximo de si. A presença do sujeito com o taco de baseball de mau gosto era chamativa, não só pela cena pitoresca testemunhada, e pela sensação de vingança e liberdade que a acometeu.

Ele parecia ter, por si só, algo em si que reunia as atenções. Uma espécie de magnetismo. Carisma.

A garota seguiu o homem de bigode, que a levou para o mesmo caminhão das outras sobreviventes. Ali estavam duas idosas, Elizabeth e Sue, e uma garotinha de meros doze anos de idade, Lana, de cabelos morenos e olhos verdes assustados. Sentou-se ao lado da criança, que abraçava uma almofada contra si. Calliope percebeu que ainda tinha o cachorrinho de pelúcia nas mãos.

Ajeitou-se com o cobertor ao lado de Lana, o oferecendo para ela também, que o aceitou. Ela podia ver, da traseira aberta do caminhão, muitos homens passando de um lado ao outro, levando o pouco que tinham naquela comunidade.

Deixem Ernie e os outros morrerem sem nada, pensou Callie, vingativa. Era bom sentir aquilo. Era melhor sentir ódio do que medo. A raiva era quente. Aquecia, e preenchia o vazio. Substituía a dor que se apossara dela e a impedira de se reconhecer a si mesma.

Depois de algum tempo, ela começou a ouvir os veículos estacionados na entrada da sua comunidade começarem a dar a partida. Não vira sinal do homem de jaqueta escura, e já se perguntava se ele realmente viria quando viu sua silhueta aparecendo em seu campo de visão, andando de lado. Simon falava com ele, e ele concordava, parecendo ter um olhar aprovador. Calliope não pôde deixar de olhar o taco em suas mãos, e ver os restos de Brandon ali lhe trouxe outra vez uma sensação de liberdade controversa e revigorante.

Queria ela mesma ter tido forças de fazer aquilo, com suas próprias mãos.

Ela desviou o olhar do bastão ao reparar que o homem de cachecol vermelho já estava parado do seu lado, do lado de fora do caminhão.

— Eu sei, eu sei, Lucille é uma visão intimidadora quando está vermelha desse jeito — o homem com o taco de baseball com arame farpado sussurrou, sua voz em uma troça desinibida. Tinha um sorriso largo em seus lábios, e fitava Calliope diretamente em seus olhos. Ela teve um sobressalto ao constatar aquilo, e não soube como reagir. Ele passou o taco para Simon depois de reparar em Lana. Provavelmente não queria que a criança visse aquela arma suja de restos humanos.

— Pobrezinhas, vocês passaram por muito — constatou em voz alta, deixando seus olhos irem de Callie a Lana, e depois mirando rápido Elizabeth e Sue. — Mas não se preocupem, tudo vai melhorar agora. — Seu tom de voz se ergueu mais animado. — Então! Eu sou Negan. O líder dos Salvadores. Viemos libertar vocês — assegurou, e Calliope se viu mais uma vez mirando o sorriso acolhedor no rosto daquele homem um tanto excêntrico.

Ele olhou primeiro para as idosas, levantando as sobrancelhas. Callie percebeu que queria que elas se apresentassem. Sue entendeu primeiro.

— Sue — disse, e Elizabeth, ao seu lado, ergueu uma mão, falando seu próprio nome. Lana se apresentou, se esquentando no mesmo cobertor que Calliope, sua voz fraca. Negan lhe fez um gracejo paternal, aproveitando para perguntar se ela estava com sede. Não parava de sorrir, percebia a garota loira.

Lana fez que sim com o rosto, e ele mandou que Simon buscasse um suco de caixinha para a menina. Em seguida, o líder dos tais Salvadores apoiou os braços na traseira do caminhão, abaixando-se um pouco enquanto arqueava o corpo. Voltou a mirar Callie, que não tinha tirado os olhos dele até então.

— E você, querida, qual seria seu nome? — perguntou em um tom de voz afável. Ele arqueou as sobrancelhas dando ao seu rosto uma expressão mais branda, e Calliope tentou abrir os lábios. Queria falar algo, mas não conseguia.

— Ela é a Callie — Lana disse por Calliope, enquanto Simon voltava e entrava na traseira do caminhão, entregando um suco de uva com canudo para a menina morena.

— Ok, Callie! — Negan retornou ao tom empolgado. Calliope ainda o fitava mesmerizada. Não conseguia entender como o sujeito poderia ter acabado de brutalizar Brandon e parecer tão leve logo depois. Não deveria ser a primeira vez que ele fazia aquilo, ou algo parecido com aquilo.

— E você? Quer algo? Um chocolate quente, talvez? — Callie passou a reparar que ele tinha olhos escuros de cor, mas cujas íris pareciam brilhar. Era um homem cheio de vida, com o que parecia ser uma personalidade vibrante como ela jamais tinha visto naquele mundo tão devastado pela morte.

Ela anuiu com o rosto, sem saber realmente como agir. Negan pediu para que o sujeito de bigode buscasse três xícaras de chocolate quente para ela e as idosas, e lhes falou que a viagem para sua nova casa não demoraria muito.

— Tudo vai melhorar agora, vocês vão ver. Vocês estão protegidas agora. Estão seguras — reiterou, enquanto alguns Salvadores tripulavam a carga do caminhão junto com as sobreviventes.

Aquelas palavras tiveram um peso efetivo sobre Calliope. Por algum motivo, finalmente, seus olhos conseguiram ficar cheios de lágrimas outra vez. Mas não um pranto aflitivo. De alívio, na verdade.

Depois de muito tempo, enquanto tomava o chocolate quente, ela experimentou uma sensação que lhe parecia quase irreconhecível.

Se sentiu confortada.

A viagem até seu novo lar demorou. Callie tivera tempo de dormir por algumas horas junto a Lana, que se aconchegou em seus ombros. Ela não tinha irmãos, mas a menina pareceu resolver adotá-la.

Ao chegarem em sua nova residência, Calliope se deparou com um terreno enorme, no qual uma imensa fábrica fora construída. Tinha diversos andares. As quatro sobreviventes libertas foram recebidas por algumas mulheres, que as levaram tão somente ao primeiro andar, dado o estado precário de saúde em que se encontravam. Ganharam camas no que parecia ser um leito enorme, dividido por cortinas, como quartos mais modestos de hospitais.

Callie e Lana dividiram a mesma cama, porque a menina não se sentiu confortável para dormir sozinha. Passaram a semana recebendo cuidados médicos do Doutor Carson e comeram refeições equilibradas, embora Calliope rejeitasse qualquer tipo de carne, traumatizada depois de ter sido forçada a comer carne humana para sobreviver.

Depois de todos esses dias, a garota loira já se via voltando a sua forma física anterior. Sempre fora muito ativa, gostava de exercícios, e também apreciava, especialmente, dançar. Sue ajudava cuidando das crianças da comunidade chamada “Santuário”, seu novo lar. Elizabeth, cozinhava e limpava. Já Callie, ainda tentava encontrar sua maior utilidade, dividindo-se entre serviços domésticos e mecânicos. Sabia consertar alguns aparelhos, canos e equipamentos, o tipo de trabalho manual que aprendera com seu pai.

O trabalho no Santuário era muito duro. Para receberem o que comiam, bebiam e fruíam, era preciso pagar com suor e esforço. Sue e Elizabeth pareciam ter segundos pensamentos a respeito do lugar, mas aquilo não incomodava Calliope. Ela ainda sentia como se tivesse sido libertada de um flagelo pior. Ter de trabalhar para sobreviver era muito melhor do que ter de ser alimentada pelos carrascos de seu pai.

No nono dia de estadia do Santuário, Callie auxiliara os Salvadores a descarregar mercadorias que haviam conseguido. Desempacotando algumas caixas no andar do estoque, o primeiro subterrâneo, Callie achou algo surpreendente.

Dois pompoms de torcida, verde e branco, a mesma cor dos Green Wildcats, time de sua escola. Lembrava-se bem do uniforme com a estampa das panteras verdes, que tanto gostara de usar em outra vida.

Sentiu uma sensação reconfortante subir-lhe ao peito. Aquilo era um sinal. Ganhara um teto seguro, quente, confortável. Trabalho a fazer, para ocupar a mente. E, depois de se livrar da sombra da opressão de Ernie e dos outros, ainda era presenteada, no meio da jornada de trabalho, com um pompom nas cores de seu time do coração. Pediu licença por meio de sinais para Davey, que supervisionava o trabalho, para sair rapidamente. Ainda não conseguia falar. Perguntou se não poderia guardar os pompons consigo, os apontando, ele deu de ombros, dizendo que sim, afinal não tinham utilidade. Alegou pensar que serviria de brinquedo para as crianças, mas não fariam falta.

Assim, a garota loira subiu alguns lances de escada e se viu no primeiro andar. O corredor no qual estava parada não tinha ninguém, e ela não resistiu. Revigorada, tendo aqueles pompons na mão, era como um lembrete do destino de que nem tudo estava perdido. Ela não se perdera completamente. Talvez ainda poderia ser a menina alegre, sorridente, ativa, decidida... A menina que uma vez tanto enchera seu pai de orgulho.

— Gooooo, Wildcats! — Callie ouviu sua própria voz falando, e se surpreendeu. Riu consigo mesma, lembrando de uma das coreografias que mais gostava. Girou nos tornozelos, sacudindo o corpo todo em harmonia enquanto erguia os pompons no ar, seus músculos parecendo agradecer pelo movimento. Ela amava dançar, sempre amara, desde quando seu pai a guiava, quando pequena, até os treinos extenuantes das líderes de torcida.

Recordou-se da música que costumava usar para treinar. Dentro de sua mente, a melodia guiava os passos da coreografia ainda incrustada em sua memória. Depois de arquear seu corpo para o lado em um movimento dançarino harmonioso, movendo os braços no ar, deu um salto abrindo as pernas, girando outra vez em uma coreografia bailarina. Caiu com elegância, jogando os pompons para o ar, os braços erguidos para recebe-los exatamente do jeito que tantas vezes ensaiou.

— Gooo, Wildcats! — comemorou, segurando os pompons e fazendo uma reverência para ninguém.

Seu sangue gelou quando ouviu um som de palmas discretas. Ela ergueu o rosto, os olhos esbugalhados, de imediato envergonhada e temerosa.

Para sua surpresa, Negan estava parado no final do corredor, recostado na parede. Batia palmas suaves, um sorriso amplo no rosto em uma expressão aprovadora. Não tinha o taco de baseball consigo, o que também surpreendeu a garota.

As faces de Calliope enrubesceram no mesmo momento. Ela fincou os dedos no pompom, se sentido irremediavelmente estúpida. Deveria estar trabalhando, e não fazendo uma coreografia aleatória no meio do corredor.

O líder da comunidade, todavia, não parecia desagradado. Muito pelo contrário. Andou até ela com o mesmo sorriso satisfeito.

Callie mordeu o lábio inferior, incerta. Mal vira o mandatário do local depois que ali chegara. Não sabia o que esperar daquela interação.

— Esse é o tipo de coisa que não se vê todo dia — Negan falou, erguendo as sobrancelhas, o mesmo ar divertido em seu semblante. Ela não sabia se havia um tom de deboche na sua fala, por isso baixou o rosto, tímida.

Ele riu.

— Não, não, é sério! Isso foi foda! Acho que você é a primeira ex-líder de torcida que eu conheço em anos — comentou o homem vestido com sua costumeira jaqueta negra. Calliope o fitou de novo, e viu que ele tinha um brilho incentivador em seus olhos escuros. Reparou que ele deixara a barba crescer. Era um pouco grisalha, contrastando com seus cabelos negros.

Callie sentiu um ímpeto forte de responder, mas sua língua ainda não a obedecia. Portanto, baixou a cabeça, em uma expressão subserviente de vergonha.

— Hey — ele tentou, em um tom apaziguador. Calliope sentiu que o homem tocou de leve em um de seus ombros. Ela sentiu um estremecimento involuntário. Porém, não reconheceu sensação alguma de medo ao seu toque. — Esportes sempre fizeram parte da minha vida. Puta que o pariu, como eu sinto falta de assistir futebol! Basquete. Até golfe, caralho — confessou, dando uma risada. Callie ergueu os olhos novamente e se viu fitando o sorriso dele.

Sorriu também, sem nem perceber que o fazia.

— Isso — disse Negan em um tom mais calmo. — Isso que eu queria ver — aprovou o sorriso dela, fazendo outro rubor subir as maçãs do rosto da garota loira. Calliope esquivou os olhos outra vez. Podia sentir que ele ainda a fitava, mas não sabia como reagir. Algo nele a deixava desconcertada. Talvez sua alegria de viver. Talvez seu carisma. Talvez sua beleza inegável.

— Qual é o seu nome mesmo, querida? — perguntou, parecendo ter um interesse genuíno na resposta.

Aquilo foi motivação suficiente para que ela falasse.

— Callie — respondeu em um murmúrio, mas foi o suficiente para que ele escutasse. O líder dos Salvadores fez uma expressão de contentamento tão explícita, movendo o rosto como se não esperasse pela resposta dela e fosse realmente surpreendido por vê-la falando, que ela teve de rir.

— Finalmente! Dois milagres em um dia — incentivou, dando outro sorriso enorme para a garota. Mesmo sem jeito, Calliope continuou sorrindo em retorno.

— E há quantos tempo não treina? — indagou no mesmo tom alegre.

— Há três anos. Tenho vinte anos — contou, e um lampejo de interesse diverso ao ar afável de antes perpassou os orbes escuros daquele homem. Aquilo a fez sentir uma espécie de sensação quente lhe subindo pelo ventre.

— Dá para ver que o seu talento não te deixou — enalteceu-a, e ela percebeu que sua voz ficou mais mansa e arrastada. A sensação quente se intensificou.

— Obrigada — respondeu, lhe dando um sorriso discreto.

— Não há de quê — falou ele, por sua vez. Levantou o indicador na luva negra que gostava de usar e tocou a ponta do nariz de Calliope. Ela deu outro sorriso agradado pelo gesto carinhoso.

— Espero que continue sorrindo mais — o homem disse em tom de despedida, parecendo que ia seguir caminho pelo corredor.

— Posso ficar...? — Callie pediu, levantando os pompons. Não sabia se teria de pagar algum preço pelos itens de torcida.

Negan abriu um sorriso imenso que fez os joelhos da garota ficarem bambos.

— Deve. É seu. — Ele pegou uma das mãos dela, que segurava um dos pompons, e beijou-a perto dos nós dos dedos. Manteve os olhos mergulhados nos de Calliope por todo o tempo, suas íris escuras em uma expressão penetrante, que ela sentiu como se ele fosse capaz de ler sua mente. Como se ele pudesse atestar perfeitamente o efeito arrebatador que tinha sobre ela.

Ela sentiu as costas de suas mãos queimarem em brasas quando os lábios dele se afastaram. Podia senti-los ali enquanto ele lhe dava um “tchauzinho” em despedida e lhe dava as costas, caminhando assobiando em outra direção, sumindo pelos corredores do primeiro andar.

Callie levantou a mão beijada até seu rosto, e fechou os olhos, se encostando na parede. Respirou fundo, elevando os ombros. Graças aquele homem, ganhara sua liberdade de volta, e uma vida nova. Graças a ele, reencontrara sua antiga identidade. Pudera voltar a sorrir, e a falar. A se redescobrir como mulher, pois era inegável o quanto se sentia atraída por ele.

Negan não era só uma figura de liderança. Ele era um homem caloroso, divertido, simpático, Em muitos pontos, a lembrava de seu próprio pai. Mas, mais do que isso, ele era um homem que parecia gostar, acima de tudo, de viver. De viver sem reservas.

Pudera ser, para ela, a figura que a levara a recuperar o próprio gosto pela vida.

Não se preocupe, papai. Estou segura aqui.

Estou segura com ele.


Notas finais
~ Callie no gif, toda inocente... Mal faz ideia que o "Reaper" (tradução: ceifador, uma das representações simbólicas da morte), no caso, é pra ser muito temido, e não amado... Esse foi o começo do fim dela; ~ Música que a Callie cantarola para ela mesma: https://www.youtube.com/watch?v=KMDFwa-sr40 e ~ Aguardo comentários! Louca pra saber o que vão achar dos dois capítulos!