Hunter's Instinct

86 Episódio 86 - The Price of Freedom


Notas iniciais
Boa tarde, minha gente linda! Como estão todos e todas nessa véspera de feriado? Espero que muito bem, obrigada! Eu confesso que foi maravilhoso sair de um feriadão pra já engatar em outro, aqui é #vagabundawayoflife UHAHUSSHUE então admito que ter essa folguinha é algo que muito me contenta! E olha só, deu pra aproveitar e trazer capítulo novo! Aê! Vou me esforçar pra deixar essa meta de capítulos novos de quinze em quinze dias, acho que é um prazo que dá pra cumprir. Aí vocês não precisam esperar tanto, e, ao mesmo tempo, têm tempo de sobra pra organizar a leitura. Só dois capítulos por mês, é de boa de acompanhar. Dedico esse "episódio" a uma leitura muy especial, a srta Dixon Girl, que está dodóizinha. Que essa dedicatória sirva como um incentivo de boas energias para que melhore loga! Força, mana, estou contigo nesse momento de dor. Agradeço as leitoras comentaristas do capítulo passado: Vivi Costa, Dixon Girl, Arrriba, AustenGirl, Sami, HeartBeat, marcelammota e Babi Prongs, que sempre comenta por áudio de whatsapp. Vocês sabem que eu preciso muito desse feedback de vocês. É algo que me enche de estímulo para continuar escrevendo mais e melhor, sempre! s2 Muito obrigada por continuarem comigo, minhas companheiras! Vamos juntas escrevendo Hunter's Instinct! =) Esse capítulo contém: ação, drama, reviravoltas, O PLANO DO REDMOND POSTO EM PRÁTICA, conspirações, cenas tensas da série adaptadas, cenas tensas criadas da minha cabeça, mortes e um momento DERRADEIRO para Daryl e Mavie. POVs da nossa Esquila e do nosso Cupido, os dois que eu considero que compõem o maior OTP de HI. Tá bem emocionante, vou mentir não! Espero que gostem! Obs: Recomendo que leiam o capítulo com o link pra música que eu deixei ali na epígrafe. Me inspirou total pra escrever. E é total Daryl e Mavie, nesse momento! Beijos e boa leitura!

I’m looking for freedom, looking for freedom

And to find it, cost me everything I have...

Sentia seus olhos arderem. Ela passou os dedos pelas pálpebras fechadas, coçando-as com vigor.

A pele próxima de suas íris de avelã esverdeado começava a ressecar, enquanto ela insistia no ato quase mecânico, sem perceber que o fazia. Sua fraca concentração ia muito longe de seu próprio rosto. Gastava o pouco foco que tinha em algo muito diferente de sua própria consciência corporal. O calor de estar tão perto da fornalha, a tosse pela fumaça que inalava, nada disso a incomodava.

Seus pensamentos voavam a uma velocidade imensurável, relembrando tudo o que ocorrera naquele curto período de tempo.

Passara a noite chorando por horas nos ombros de Meredith, que literalmente a dera colo depois da irlandesa ter se submetido as vontades lascivas de Negan, naqueles beijos horríveis que se fincariam em seu espírito e sua memória como um trauma. A mulher ruiva lhe garantira que tudo terminaria no dia seguinte, e ali estava ela.

Mavelle Berry quase agradecia em pensamento pela chegada desse dia. Mal podia acreditar que estava tão perto de sua chance. A oportunidade de ouro. A virada da maré para que pudesse enfim se libertar dos grilhões que a prenderam ao homem que ela mais odiara em seus vinte e quatro anos de vida.

Teria a chance de salvar Daryl, de poder enfim libertá-lo daquele tormento que parecia infindável, para ambos. Uma luz em uma noite escura, um anoitecer de trevas insondáveis que se propagaram a partir do assassinato grotesco de Glenn e Tara, e que não terminara até então. Mas um fraco lume solar estava visível no horizonte.

Uma pálida aurora se aproximava, e Mavelle Berry queria correr de braços abertos em sua direção.

— Ele chegou — Meredith sussurrou ao seu lado. Estava de braços dados com Mavie, volta e meia acarinhando as costas da jovem irlandesa. A garota morena seguiu o olhar da mulher ruiva, e anteviu Negan caminhando pela passarela alta da entrada da fábrica. Carl estava com ele, o seguia a uma distância prudente.

O coração da ex-moradora de Alexandria acelerou no mesmo instante. Suas mãos tremelicaram, e seus joelhos ameaçaram bambear. Não queria ver aquilo, mas a esposa ruiva do ditador a explicara que tudo só poderia começar depois que passassem pelo castigo de Mark. Redmond delineara seu plano com a precisão e rigor quase doentio de um ourives montando uma jóia minúscula. Tudo precisaria seguir o passo a passo, ou não funcionaria.

Era pegar ou largar.

Mavie entreabriu os lábios, sentindo seus dentes salientes mordiscarem seu lábio inferior. Em um átimo de segundo, recordou-se de Negan ameaçando Julie de maneira velada, naquela manhã. A garota sucumbira, aceitara o castigo do namorado, mentindo ao déspota que o amava, dizendo a falsa declaração com seu belo rosto lavado de lágrimas.

Mavelle sabia que o governante não acreditara em palavra alguma dela, e constatar aquilo retorcera seu estômago. O cinismo de Negan era um de seus traços mais assustadores. Ela sabia que o ditador tinha certeza de que suas mulheres não passavam de moças coagidas a se deitarem consigo, e parecia lidar com aquilo sem culpa alguma.

Ela ergueu alguns de seus dedos e passou a roer a pele em volta das unhas, ansiosa, acompanhando a silhueta do déspota que caminhava até ficar ao centro da passarela defronte aos Salvadores e moradores do Santuário que ali se reuniam.

A garota morena queria que o castigo de Mark acabasse logo, ao mesmo tempo que não queria vê-lo castigado. Eram muitas emoções conflitantes para administrar.

O corpo todo de Mavie tremeu quando escutou Negan bater três vezes com seu taco de baseball ominoso na grade da passarela. Ela piscou, rangendo o maxilar, e Merry lhe deu um pequeno apertão reconfortante no braço direito.

A irlandesa deu um olhar de soslaio ao lado. Estava vestida com um vestido preto, no mesmo estilo das roupas das esposas do mandatário. Julie era amparada tanto por Sherry quanto por Tessa, as duas se revezando entre lhe murmurar palavras reconfortantes e focar os olhos na figura do líder, metros e metros acima da multidão.

Callie estava parada recostada em uma pilastra, bocejando. Suas mãos com unhas pintadas em um tom de esmalte delicado cobriam os lábios.

Mavelle controlou um ímpeto de revolta pela indiferença daquela garota, e voltou a focar na silhueta do mandatário. Tinha de fingir estar atenta.

Como se obedecessem a um movimento ondulatório, pouco a pouco todos os habitantes do Santuário iam se ajoelhando, subservientes a presença de seu chefe. Berry fez o mesmo, aliviada por não ter visto sinal algum de Dixon.

Ao fitar Negan outra vez, Mavelle notou que ele sussurrou algo para Carl. O menino olhava para todos junto com o líder.

O mandatário pôs as mãos no ferro da grade, inclusive a que ainda portava Lucille, e começou seu discurso doentio:

— Vocês sabem como funciona. O que vai acontecer será difícil de ver — alertou, e Mavie desviou o rosto por um momento. Mirou Mark, parado amarrado em uma cadeira perto da fornalha. Dwight estava próximo dele, aquecendo o ferro no fogo. A irlandesa engoliu em seco e depois voltou a fitar o chefe miliciano.

— Eu não queria ter que fazer isso. Eu gostaria de poder ignorar as regras e deixar isso passar... — Ela reparou que Negan firmava mais as mãos no metal da grade, enquanto continuava sua fala mentirosa. — Mas não posso! — o líder enunciou em seu timbre despojado, dando um tom de deboche a seu discurso, o que deixava tudo aquilo ainda mais torpe de acompanhar.

— Por quê? — indagou aos seus seguidores.

— As regras nos mantém vivos — todos responderam em um mesmo tom monocórdio, passivo. Mavie apenas balbuciou aquelas palavras em um fraco sussurro.

— Essa é a verdade! — Negan bradou, colocando os ombros para trás e usando de uma postura mais austera. — Nós sobrevivemos. Nós levamos segurança para os outros. Nós levamos a civilização de volta a esse mundo! — enfatizou, em uma fala inflamada. — Nós somos os Salvadores! Nós não podemos fazer isso sem regras. — Mavie podia notar, a distância, que os olhos escuros do líder déspota pareciam brilhar. Como se ansiasse por aquilo, ao contrário do que dizia.

— As regras são o que fazem tudo funcionar. Eu sei que não é fácil. Mas há sempre trabalho a se fazer, há sempre um custo a pagar — ele fez uma pausa, e Mavelle percebeu que seu olhar mudara de animado para ameaçador. — Aqui, se você tentar passar por cima disso, se você quiser me driblar — Negan passou a vociferar, sua voz audível, trovejante, como um rosnado de um predador feroz prestes a dilacerar sua presa. A garota de dentes proeminentes mordeu seu lábio inferior, respirando mais rápido pelo desconforto e ansiedade.

O homem de jaqueta negra riu sarcástico, e depois terminou a sentença:

— Se você me enganar, então é o ferro pra você — decidiu, apontando com Lucille para Mark. Julie colocou uma das mãos nos lábios e conteve uma exclamação de pavor.

— Fiquem de pé — o líder ordenou, baixando o tom de voz e se encaminhando para descer as escadas. Carl foi atrás.

Mavelle se levantou aos poucos, ajeitando a postura e movendo os ombros. Estava tão tensa que sentiu seus músculos doerem. Depois de alguns momentos, o chefe dos Salvadores passou por suas esposas, segurando no queixo de Julie, que o fitou com seus olhos negros arregalados de medo.

Depois, caminhou defronte a Meredith e a irlandesa, lhes dando um sorriso largo. O filho de Rick continuava andando atrás dele, e trocou um rápido olhar com a namorada de Daryl assim que passou diante dela.

Negan parou perto de Mark, lhe dando um tapinha nas costas. O rapaz arquejou, não contendo uma breve exclamação temerosa.

— Hoje vamos resolver isso... — o líder miliciano pigarrou, retornando a falar. Dwight tirou o ferro da caldeira com um gancho comprido, o passando para o governante autoritário.

— Mark, foi mal, mas as coisas são como são — Negan fingiu um tom de lamentação, e Mavie escutou Julie comprimir o choro abafado. Deu-lhe um olhar de esguelha, e reparou que Sherry a abraçava com força, enquanto Tessa apertava um de seus ombros, tentando reconforta-la o melhor que podiam.

A garota da Irlanda não queria ver aquilo. Queria poder desviar o olhar, mas era como se estivesse hipnotizada. Sequer piscou.

Negan tinha um gosto notável pela violência. Era um abusador de mulheres, um manipulador, um estuprador, um ditador, um agressor e um assassino, em todos os sentidos. E ali, com Mark, mostrava a Mavie como se fizera delineado o destino de Dwight, e de outros homens que o confrontaram.

O que poderia ter sido o destino de Daryl, se ela não tivesse interferido.

O líder atroz levou o ferro até a bochecha esquerda de Mark, que passou a urrar de dor, o metal em brasas deformando para sempre seu jovem semblante. O cheiro da carne queimada passou a feder, invadindo as narinas de Mavelle, que teve de se esforçar para conter a ânsia de vômito. Seus ouvidos zumbiam, a ansiedade avançando dentro de si em níveis cavalares, o grito de dor lancinante do namorado de Julie como um lembrete ensurdecedor do que era a vida no Santuário e do que significava viver sob o jugo de Negan.

Terror e sofrimento, apenas isso.

O mandatário retirou o ferro do rosto do rapaz, que havia perdido os sentidos. Seu rosto desabou para a frente, a cabeça pendendo, os olhos cerrados de quem sofrera tanto que ficara inconsciente.

E o fedor da carne em brasas seguia empesteando o ambiente.

Carl trocou breves olhares com Mavie, que meneou o rosto rápido, como se lhe dissesse para que não a fitasse. Não poderiam demonstrar fragilidade naquele momento. Era o que o líder miliciano iria querer.

A irlandesa fitou a esposa negra do governante, que agora escondia o rosto nos ombros de Sherry. Tessa a abraçava pelas costas, as duas fazendo uma espécie de casulo protetor com seus corpos, como se aquilo pudesse de alguma forma diminuir o pesar e a culpa que a jovem deveria sentir.

Com mais um olhar de horror e ojeriza, a garota morena notou que uma poça se formava abaixo da cadeira de Mark. Ele urinou em si mesmo, apavorado, antes de desmaiar.

— Ah, não foi tão ruim, foi? — Negan interpelou a multidão. Sua voz estava de fato calma, como se não tivesse acabado de cometer um ato brutal. Deu uma risada de troça logo depois. — Jesus, o cara se mijou todo. — O líder franziu as sobrancelhas, erguendo os dedos e chamando um homem vestido com uniforme de limpeza alguns metros longe. Por um segundo irracional, Mavelle temeu que fosse Daryl, mas um rapaz careca e de pele muito branca seguiu o comando do déspota. Logo o faxineiro passou a limpar a poça, e o homem de jaqueta escura andou na direção da irlandesa.

— Isso teria sido tarefa pro seu ex-namorado — enunciou devagar. Mavie pestanejou e segurou a respiração. Forçou-se a fita-lo. Negan a olhava com desejo cintilante em suas íris escuras.

— Mas como eu te disse, eu mantenho minha palavra. Por hoje, ele não vai sair da cela. Como você queria. — O chefe dos Salvadores ergueu a mão livre do taco de baseball e acariciou a bochecha de Mavelle. — Eu só preciso resolver algumas coisas com esse rapazinho ali — Apontou com o queixo para Carl — E depois podemos cuidar da nossa... Cerimônia. Estou cheio de expectativas — afirmou, passando os dedos pelos cabelos soltos de Mavie. Ela comprimiu o tremor enojado que queria se apossar de seu corpo, e apenas endureceu seus músculos, continuando a mirá-lo em silêncio.

O governante autoritário lhe deu um último olhar e sorriso luminoso, para em seguida girar nos calcanhares e bradar para o médico:

— Doc, vai lá fazer seu negócio! — ordenou ao Doutor Carson, que andou ligeiro até o jovem desmaiado.

— Bem... — Negan outra vez limpou a garganta, abrindo os braços para seus seguidores. — ...A bichinha desmaiou. Mas está resolvido! — Varreu a multidão com seus olhos escuros. — Que a cara do Mark seja um lembrete diário para ele e pra todo mundo — foi enfático — Que as regras são importantes. Eu espero que todos tenhamos aprendido algo hoje, porque eu não quero ser obrigado a fazer isso nunca mais — disse com pesar fingido, para depois sorrir para Mavelle e Carl.

Ela o ouviu se aproximar do garoto e murmurar perto dos ouvidos dele:

— Que parada louca, né? Provavelmente você acha que eu sou um maluco. Mas vamos lá... — Riu. — Vem cá que eu quero descobrir o que fazer com você. — Colocou um dos braços ao redor dos ombros do filho de Rick Grimes, o puxando para fora do primeiro andar da fábrica. Pelo que Mavelle podia julgar, imaginou que o levaria andares acima, entrando por um dos corredores que daria acesso as escadas internas.

As pessoas foram aos poucos se dispersando, enquanto Mavelle ainda tentava se focar em sua respiração e evitar os pensamentos acelerados que ameaçavam tomar conta de sua mente.

Está perto. Está quase lá, repetiu para si mesma, como uma reza.

— Hey, Frank — Meredith chamou, e um dos capangas mais truculentos de Negan se aproximou. Era um homem alto, de quase dois metros de altura, queixo quadrado com um furo no meio e olhos bem afastados, castanhos.

— Dr. Carson me pediu para lhe entregar isto. — Ela passou o bilhete com as instruções que Redmond lhes deixara escritas.

— Red não vai para o turno da tarde? — Frank indagou com sua voz de barítono. Fitou a mulher ruiva sem compreender aquelas diretrizes.

— O doutor me falou que ele está de cama. Pode confirmar com o Carson se quiser. Não entendo nada do que está escrito aí também — Merry disse com um ar submisso e doce, como lhe era costumeiro. Mavelle fez seu melhor para continuar impassível, sem demonstrar que aquilo fazia parte de uma manobra arquitetada.

— Não disse que não entendo — o homem retrucou, mais ríspido. Meredith falou um “me desculpe”, abaixando os olhos. A atuação dela era mesmo impecável, Mavie reparava.

— Só não sabia que ele me deixaria trabalho dobrado. Coroa filho da puta! Como ele acha que poderemos levar todo o material que trouxemos de Alexandria para dentro do depósito? Temos de passar a mão final na argamassa da passarela acima dos portões. Não vai dar tempo, Negan vai nos matar — resmungou.

Mavelle abaixou os olhos. Teve de se conter. Estava acontecendo exatamente como Redmond dissera a Meredith.

— Por que não une as duas coisas? Posso estar falando besteira — Merry começou a sugerir, levantando as mãos e arqueando as sobrancelhas — Mas acho que vocês podem guardar as provisões na torre que já está pronta, não? A do lado esquerdo do portão principal — sugeriu.

O homem coçou o queixo, guardando o pedaço de papel.

— É verdade... A passarela está quase pronta. E a maior parte dos materiais que coletamos na última ida são de construção. Vão ficar perto das obras, ainda por cima. — Ele deu um olhar surpreso para Meredith. — Você é mais inteligente do que parece! — disse como se fosse um elogio, e ela sorriu para o capanga do líder miliciano como se assim encarasse.

— Onde nós vamos agora? — Mavie perguntou, depois de fitar Frank se afastar, reunindo um bom grupo dos trabalhadores da obra para guardar as provisões que trouxeram de madrugada conforme a sugestão de Meredith.

Os Salvadores não puderam se ocupar das tarefas de armazenamento por conta de ordens de seu líder. Passaram o restante da noite e o começo da manhã vasculhando as áreas fora do Santuário para encontrar Mark, que estava foragido. O garoto tentara escapar, temendo receber a punição que lhe fora reservada por ter tido uma noite de amor com uma das esposas do chefe miliciano, sua ex-namorada Julie.

— Nós vamos esperar. Negan acha que ainda fará a cerimônia com você. Talvez não hoje, não sei o que pretende com o menino — mencionava Carl, e um arrepio subiu pela espinha de Mavie. — Mas dependendo das condições, até ele poderá escapar junto de nós — articulou, o que fez a irlandesa soltar uma expiração mais calma.

— Então por isso preciso te levar para os preparativos. Ele gosta que tenhamos uma espécie de “despedida de solteira”. Na verdade é uma maneira de fazer as esposas se conhecerem e lembrar a nova esposa das regras — afirmou, levando Mavelle pelos corredores do Santuário adentro. — Mas antes, você vai escrever uma coisa — disse, entrando em um escritório vazio e puxando um papel de um caderno e entregando a irlandesa uma caneta.

— O quê?

— O bilhete que Sherry vai deixar para Daryl. Ele conhece sua letra? — indagou, seus olhos verdes denotando expectativa.

— Sim. Cansamos de montar mapas e rotas um pro outro. Caçávamos juntos em Alexandria, e fazíamos muitas missões externas também — comentou a irlandesa, sentiu o nó em seu peito se apertar. Parecia que aquelas memórias boas pertenciam a vida de outra pessoa que não ela. Tão distantes de si...

— Então escreva algo que só ele entenda — recomendou a mulher ruiva.

— Como um código?

— Exatamente. Aí ele vai se sentir seguro o suficiente pra sair e tentar a sorte. Vamos, escreva algo que indique que vocês podem fugir juntos — sugeriu, e Mavelle pensou por alguns instantes. Em seguida, rabiscou com sua letra, os dedos trêmulos:

“Maple Street, 17”

Seus olhos encheram de lágrimas enquanto preencheu o papel com o endereço da casa em que ela e Daryl moraram juntos por poucos dias, antes do assassinato de seus melhores amigos.

Meredith pareceu entender, porque guardou o papel o dobrando com cuidado e colocando uma de suas mãos em suas costas, a acarinhando devagar.

— Eu juro que logo vai passar — ressaltou, e Mavie apenas confirmou com a cabeça, sem falar nada.

Depois daquilo, a mulher ruiva levou Mavelle ao subsolo, para um determinado local onde havia o abastecimento de provisões alimentícias. Um dos “agrados” que as esposas de Negan poderiam ganhar em sua “despedida de solteira” eram os comes e bebes que quisessem para celebrar a futura união.

A neta de Annie fingiu escolher um champagne qualquer. Na verdade, detestava aquele tipo de bebida. Era muito doce, e para seu paladar que preferia sabores amargos ou salgados, considerava o gosto enjoativo.

Em seguida, as esposas de Negan a acompanharam até uma praça do Santuário, um local com um jardim improvisado e alguns bancos, perto dos portões principais. Podiam ouvir os barulhos da obra da passarela acima dos portões, mas tinham alguma privacidade. Calliope olhava para Mavie com seus olhos azuis cinzentos de pálpebras semicerradas, como se duvidasse de que a garota realmente tivesse cedido a “sedução” do líder miliciano.

Tessa tentava deixar o ambiente mais descontraído, querendo distrair Julie que estava sentada em um banco de madeira, chorando. Sherry fumava e, discretamente, pediu licença para ir ao banheiro. Deixou sua taça de champagne com Meredith, e Mavelle viu que a mulher ruiva sutilmente lhe passou o bilhete que a irlandesa escrevera.

No mesmo momento, a arqueira mirou Callie, que se sentava cruzando os braços, revirando os olhos. Continuava com a mesma expressão de tédio do início do dia. Sequer percebera que Sherry se afastava, o que fez a caçadora soltar a respiração, aliviada.

Depois de passados alguns minutos em que Mavelle fingia conversar com Meredith e Tessa, entrando na tentativa de consolar Julie, Calliope se mantinha alheia as outras moças. Subitamente, soltou uma exclamação surpresa. Mavie seguiu o olhar da garota loira, e notou que ela mirava um caminhão que se movia cerca de quinze metros à frente, perto dos portões principais do Santuário.

Negan está saindo? Mavelle se perguntou, e trocou um olhar nervoso com Meredith. Ela lhe abriu um sorriso discreto, como se sugerisse triunfo. Era ainda melhor que ele estivesse longe.

As mulheres seguiram juntas até o caminhão, enquanto Callie se aproximava da porta do veículo. O líder dos Salvadores acarinhou os cabelos da moça loira, lhe dizendo que voltaria antes da noite cair. Só precisaria levar Carl de volta para Alexandria.

— Eu e você, Coelhinha... Teremos muito o que comemorar — despediu-se de Mavie, levantando os olhos que antes estavam focados em Calliope. Deu um sorriso enorme para a irlandesa, que sentiu seu estômago embrulhar. Negan riu e acelerou o caminhão assim que os portões da comunidade foram abertos.

A garota loira andou devagar até ela, seus olhos azuis cinzentos agora gélidos.

— Eu não sei o que você acha que está fazendo. Mas você não deveria mexer com ele. Você não vai conseguir fazê-lo de otário — ameaçou. Em seguida, deu um olhar de soslaio a Meredith.

Callie teria entendido algo, afinal de contas?

Mavelle mirou rápido a mulher ruiva, que não a fitou de volta. Merry era melhor naquela farsa. Mavie era muito transparente para levar aquele tipo de encenação adiante. Tinha de reconhecer, se não fosse a ajuda da mulher ruiva e de Redmond, estaria perdida.

Sherry caminhava até elas, voltando com um ar blasé em seu bonito rosto e outro cigarro em mãos. A irlandesa reparou que a ex-mulher de Dwight e a mulher ruiva trocaram olhares de mútua compreensão, comunicando-se em silêncio. Pela tranquilidade de Sherry, ela tivera sucesso em entregar o bilhete a Daryl.

A arqueira sentiu como se algo aquecesse seu peito instantaneamente. Como uma onda de calor reconfortante, bem-vinda, acalentadora. Talvez, quem sabe, eles realmente tivessem uma chance.

Ela fechou os olhos, respirando devagar, agradecendo por tudo estar correndo finalmente bem. Pestanejou rápido, assim que ouviu sons de trovões. Até o clima conspirava a favor da própria conspiração.

— Isso vai acelerar as coisas. Vamos — Meredith murmurou para ela, a puxando pelo braço. Contornaram os portões e o pátio dos mortos-vivos. Sherry foi junto, enquanto Tessa seguia, insistente em abraçar Julie pelos ombros, que não mais chorava. Apenas piscava os olhos, olhando para o cimento da fábrica, desconsolada. Calliope, pelo visto, desistira de segui-las.

— Eu vou na frente — Sherry sussurrou perto de Merry e Mavie. Meredith concordou em um aceno quase imperceptível de cabeça.

A chuva começou a cair do lado externo do Santuário. Mavelle queria abrir os braços e rir, sabendo o quanto a chuva aceleraria o plano de Redmond. Mas, contendo-se, apenas parou perto da grade que as separava dos mortos-vivos, fingindo indiferença aos trabalhadores da obra que seguiam de um lado ao outro. Ficou protegida na marquise, junto com as outras esposas de Negan.

— Olhe. — Meredith a cutucou. A irlandesa seguiu a direção em que a mulher ruiva apontara. Frank atravessava a passarela construída acima dos portões. Levava um carrinho de mão pesado, entulhado de diversos materiais de construção pesados. Atrás dele, seguiam mais quatro capangas de Negan. A chuva chicoteava suas silhuetas, um vento forte fazendo seus casacos balançarem.

Como se assistisse a tudo em câmera lenta, Mavie sentia que via uma espécie de jogo de “Jenga” ser feito na vida real. Bastaria colocar uma peça no lugar errado... E tudo que havia sido amontoado desmoronaria.

Foi exatamente o que aconteceu.

Frank empurrava o carrinho na altura dos portões principais. Bastou um piscar de olhos, e Mavelle notou a passarela inteira tremer. O homem parou de caminhar, olhou para baixo, e não pôde fazer mais nada.

A passarela desmoronou aos seus pés, quebrando pelo excesso de peso.

O som da enorme estrutura se rompendo aos poucos parecia com uma sucessão de trovões. Frank gritou, mas seu berro se perdeu em meio ao ruído estrondoso de pedra e cimento caindo contra os portões, esmagando as grades e as contorcendo. As lanças dos portões perfuraram o corpo do homem, o deixando pendurado em espetos como os reservados aos mortos-vivos.

Em um efeito dominó planejado por Redmond, que propositalmente sabotara a própria obra apenas esperando por aquele momento, Mavie testemunhou de olhos esbugalhados a chuva cair junto a diversos pedaços da passarela que se romperam, nas partes da estrutura sem pilastras grossas abaixo.

O que restara da passarela entortara perigosamente para baixo. Os Salvadores que tentavam atravessá-la quedaram, alguns deles em cima do pátio dos carniceiros. Um deles desabou em meio a pedra e cal em cima da cerca dos mortos-vivos, rompendo-a e os liberando para toda a área externa do Santuário.

O dano estava feito. A passarela, construída para atravessar todo o comprimento dos portões principais e muros adjacentes, destruía na queda não só os portões principais, como também metade das cercas do pátio reservado aos carniceiros, causando estragos sem precedentes. Pó levantava do chão como uma tempestade de areia, pessoas gritavam e corriam tentando se proteger da enorme estrutura em queda, entortando aos poucos. E os carniceiros se libertavam de seu cativeiro, buscando carne fresca para se alimentar. Enquanto isso, a chuva caía inclemente.

Era chegada a hora de se libertar.

Meredith puxou Mavelle pelo braço na direção por onde fugiriam.

— Se quiserem escapar daqui, essa vai ser a única chance! — a esposa mais velha de Negan bradou por cima do ombro, fitando Tessa e Julie. As duas demoraram a reagir e logo se levantaram, correndo na direção das rebeldes.

A irlandesa e a moça ruiva tiraram seus sapatos, correndo descalças para não serem atrapalhadas pelos saltos. Enquanto avançavam desesperadas, ouviam sons de tiros sendo trocados, pessoas gritando e mortos-vivos rumando desenfreados, movidos pela fome eterna que sentiam. Estiveram presos por tanto tempo. Agora libertos, o frenesi alimentício os guiaria sem dó.

Mavelle olhou algumas vezes por cima do ombro, vendo por trás de Julie e Tessa que corriam em seu encalço. Carniceiros devoravam moradores do Santuário, não apenas capangas de Negan, mas até mesmo pessoas que não se envolviam com as atividades brutais do líder miliciano.

Obrigando-se a não sentir culpa por aquilo, Mavie voltou o rosto para frente e acelerou o passo. A conspiradora ruiva ainda a puxava pelo braço, correndo em disparada. Arfantes, chegaram no estacionamento de motocicletas e outros veículos menores, uma saída lateral do Santuário que só era usada por automóveis de pequeno porte ou pedestres.

Mavelle cobriu os lábios com as mãos, estacando de repente. Vira algo que a surpreendera.

Perto de algumas motos estacionadas, Daryl tinha um pé de cabra nas mãos, e golpeava continuamente o rosto de um homem caído no chão. Um homem que ela reconhecera pela silhueta. Fat Joey, como Negan o chamava.

O rosto de Joseph já estava desfigurado. Mavie não conseguia ver sinal nem de seus olhos, nariz, ou boca. Paralisada pela cena simultaneamente chocante e surpreendente, não soube como reagir, então Meredith teve de arrastá-la.

— Daryl? — ela perguntou, quando recobrou a consciência. Sentia-se tonta, ao mesmo tempo que tinha os pés firmes no chão. Só queria segurar na mão de seu namorado e correr para longe dali.

O arqueiro parou no mesmo momento. Pestanejou, como se tivesse sido desperto de algum torpor. Tinha o pé de cabra, os braços e o moletom imundo repletos do sangue de Joey, mas seus olhos estavam firmes nos olhos da garota que o chamara.

Seus olhos azuis estreitos marejaram no mesmo momento. Mavie, também comovida, soltou um soluço e se desvencilhou dos braços de Meredith. Correu na direção do homem que ela amava, sabendo que nada agora poderia impedi-los de se salvarem de Negan.

E de tentarem se salvar dos traumas que ele lhes deixara.

De súbito, porém, Julie gritou. Mavelle teve de voltar os olhos para trás. Viu Callie parada, segurando um revólver, as mãos tremendo, incapaz de manter a mira. Apontava a arma diretamente para Mavie.

Não.

****

Seus últimos dias não pareciam que tinham passado. Era como se vivenciasse um pesadelo sem pausas. Sem momentos de alívio, sem o doce esquecimento da inconsciência, de uma noite sem sonhos.

Quando estava acordado, vivia o inferno de ser um escravo de Negan, e de ser forçado a não reagir para proteger Mavie. Sabia que o que aquele filho da puta mais queria era que cedesse ao ódio e colocasse os pés pelas mãos. Todas as vezes em que reagira, o ditador conseguira atormentar mais sua garota. Então tinha de se diminuir àquilo, a fingir que era a vadia daquele monstro, seu brinquedo particular de tortura.

Assim, ao menos, Mavie teria mais chances.

Dia após dia, tinha de evitar os pensamentos sobre o que ele poderia tentar fazer com ela, pois se permitisse que aquilo tomasse conta de sua cabeça, enlouqueceria.

E Daryl Dixon já duvidava da chance de um dia conseguir recobrar, sem sequelas, sua própria sanidade.

Mas naquela tarde, por alguma fortuita virada do destino, ele recebera um surpreendente bilhete. Escrito na caligrafia feiosa da Esquila, aquelas letras inclinadas e garranchadas com o endereço do primeiro lugar que Daryl conseguiu chamar de lar, desde quando deixara a casa em que morara com seus pais.

A casa no número 17, na rua Maple de Alexandria, era o único lugar no mundo em que o arqueiro enfim relembrou o que significava “se sentir em casa”. Algo que ele não se recordava de sentir depois da morte de sua mãe, quando foi entregue, sem a proteção dela, sem a ajuda de Merle, aos abusos violentos de seu pai.

Daryl tivera de seguir o símbolo daquele bilhete. Conseguiu se esgueirar para fora da cela, destrancada, se esconder e sair ao estacionamento das motos. E assim topara com ela.

Sozinha, perto dele, ao lado dos portões laterais abertos. Para que pudessem fugir, sem que ninguém os impedisse.

Mas agora uma das garotas que Negan enlouquecera estava ali, apontando uma arma para a mulher que ele amava.

Aquilo não terminaria assim.

— Callie, pelo amor de Deus, abaixa essa porra! — Tessa bradou, desesperada, puxando Julie para trás. A garota negra apenas fitava assombrada a moça loira.

— Você estragou tudo. Estragou tudo — Calliope falava rosnando, como se estivesse surtada. Seus olhos azuis cinzentos estavam fixos em Mavelle, que levantava os braços, rendida, recuando devagar.

Daryl entendeu o que a Esquila pretendia. Ela tinha instinto de caçadora, tão afiado quanto o dele. Estava disfarçando suas verdadeiras intenções, fingindo ceder, para quando Callie vacilasse pudesse correr e escapar dali.

Mas o arqueiro não se permitiria contar apenas com a sorte.

Foda-se.

Daryl Dixon se moveu muito rápido, mais ligeiro do que pretendia. Puxou Mavie para trás de si com agressividade incontida, fazendo a Esquila tropeçar no processo. Se impôs defronte a ela, parando protetoramente. Se aquela loira maluca quisesse atirar, teria de mata-lo, mas não tocaria em Mavelle. Nada aconteceria com ela. Nada.

Não enquanto ele ainda respirasse.

A mão de Calliope tremeu ainda mais. Ela franziu as sobrancelhas. A mulher ruiva que antes levara Mavelle pelo braço andava na direção da garota loira.

— Callie, por favor, isso não precisa ser assim... — A mulher de cabelos acobreados tentou, sua voz saindo dócil mesmo naquela situação limite. Daryl reparou que a moça de cabelos dourados nem a olhou. Mantinha seu olhar que parecia fora de si em Dixon, como se quisesse ver por trás dele.

Os grunhidos ameaçadores de errantes estavam cada vez mais audíveis. A moça de pele negra gritou.

— Os mortos! Estão muito perto! — A mulher ao lado dela, uma morena de olhos expressivos, chamou a garota loira pelo nome outra vez. A tal Callie não atendeu seu chamado.

Daryl ouviu o som de uma rajada de tiros. Por um segundo, achou que tinha sido atingido. Mas eram sons de metralhadoras, não de um revólver como o que a moça loira tinha empunhado. Alguns dos errantes que se aproximavam deles caíram depois daquele som.

O caçador compreendeu. Os Salvadores já estavam eliminando os mortos-vivos.

— Ela não pode sair assim, Meredith! — A garota loira fitou a mulher ruiva. — Não depois do que fez. Não... — Callie balbuciou, arregalando os olhos cinzentos e entortando os lábios. Parecia querer olhar por cima dos ombros de Daryl, que impedia a Esquila de se colocar a sua frente.

— Vai ficar tudo bem, Callie. Eu prometo... — Meredith estava muito perto dela, falando com sua voz mansa. Os tiros continuavam, e mais mortos-vivos desabavam. Um trovão riscou o céu perto, atingindo os vidros da fábrica, na altura do terceiro andar. Instintivamente, a moça negra e a moça morena se jogaram no chão, tentando se proteger.

— NUNCA FICA BEM! NUNCA! — a moça loira berrou descontrolada, mas Meredith já havia puxado seu braço para baixo. A moça mais jovem reagiu.

Ergueu o punho que a mulher ruiva segurava, como um movimento reflexo. Piscou os olhos.

E disparou.

— NÃO! — Mavie gritou atrás de Daryl, tentando saltar na frente dele. Ele a abraçou, contendo a garota irlandesa que se debatia, tentando chegar até Meredith.

A bala perfurou a mulher ruiva na altura do estômago. Ela olhou sua barriga, soltando os braços da moça loira, que antes segurara com carinho. Seus dedos se desprenderam com leveza graciosa, e seu corpo caiu em um arco suave para trás.

Tombou de costas para o chão, a chuva manchando seu vestido negro agora empapado de sangue. O cimento abaixo de onde caíra, sujo de sangue espalhado pela chuva.

As mãos de Callie estavam rubras pelo sangue da mulher que assassinara. Daryl viu que ela olhava para seus dedos, largando o revólver no chão. Pareceu retomar a consciência.

— Não... Não... — a garota loira levou as mãos as bochechas, esbugalhando os olhos cinzentos e arqueando o cenho. Manchou seu rosto com o sangue de Meredith. — NÃO! NÃO! — berrou, descontrolada, mas as outras agiram. A moça de cabelos morenos compridos a puxou pelos braços, junto da garota negra. Arrastaram a garota loira para longe, entrando no corredor pelo qual Daryl fugira, fechando a porta em seguida.

Uma multidão de errantes que não havia sido abatida já se ajoelhava perto de Meredith, arrancando pedaços de seu corpo. Mavelle gritava e urrava alucinada nos braços do caçador, e Daryl percebeu que aquela seria a última chance definitiva.

Deixando todo seu lado animal aflorar, puxou com todas as forças a garota que amava, a levando para longe do cadáver da amiga que estava sendo devorada. Ela dera a vida para que pudessem escapar. Dixon não a conhecia, mas sabia que aquilo não poderia ser desperdiçado nem desvalorizado.

Quando deu por si, Daryl percebeu que já havia corrido por milhas distantes do Santuário, levando Mavelle consigo. Ela parara de gritar e se debater, mas seu rosto continuava ou lavado de lágrimas, ou molhado pela chuva. Talvez os dois ao mesmo tempo.

Passaram um longo tempo embrenhando-se na mata fechada, para ter mais chances de escapar.

Continuaram correndo até o arqueiro sentir que teria teto preto e desmaiaria. Achou uma cabana de pesca abandonada perto de um lago, e lá se permitiu recuperar o fôlego, junto de Mavie.

O tempo estava fechado, mas a chuva na floresta estava mais amena. O vento não soprava tão forte ali, e tinham um bom esconderijo para descansar ao menos mais meia hora antes de procurar abrigo em uma comunidade segura.

A irlandesa não falara nada. Seus olhos entre o verde e o castanho estavam inchados, com olheiras encavadas e escuras embaixo deles. Nunca a vira com aquelas feições tão exaustas, nem mesmo depois da morte de Glenn e Tara, quando a encontrara em Alexandria, já escravo de Negan.

Ele queria conseguir dizer algo. Mas era impossível.

Daryl não conseguia falar nem o que se passava dentro dele. Não conseguia nem entender os limites de dor a que fora submetido. Por todo aquele tempo, revivera na atualidade memórias de sua infância de abusos domésticos e tortura, somados ao medo de que aquilo se estendesse a Mavie.

Queria saber falar como os outros sabiam. Como Rick. Como Carol.

Como Maggie. Como Glenn. Como Tara.

Queria dizer que enfim podia voltar a respirar de novo ao ver que ela estava livre de Negan.

Queria articular o quanto sofria pela morte de seus amigos. O quanto sofria por vê-la sofrendo.

Queria, enfim, poder dizer o quanto a amava. Esse sentimento que explodia dentro dele, tomava conta de si mais forte e visceral do que que qualquer instinto de sobrevivência que pulsasse consigo.

Mavie o fitou. Com aqueles olhinhos cheios de lágrimas que ele queria secar. Os dentes proeminentes que ele tanto estimava batendo, porque ela continuava chorando convulsivamente.

Ela se aproximou, o olhando por todo o tempo. Parecia que queria dizer algo também, mas não conseguia.

Daryl tinha de fazer aquilo.

Ela fora tão corajosa. Se sacrificara por ele. O arqueiro não era idiota. Sabia que, se aquele bilhete veio dela, ela também estava por trás daquela fuga.

Olhando o rosto daquela garota, a Esquila, sua Esquila, livre, enfim, das mãos daquele monstro... Tudo o que ele era agora, tudo o que ele seria depois de estar com ela, seria dela. Para sempre.

— Eu... — Daryl começou a falar, mas uma silhueta surgiu ao lado deles, se fazendo visível da janela do casebre.

— Foi mal — uma voz que não a dos dois caçadores falou.

Os arqueiros moveram o rosto ao mesmo tempo, fitando o estranho. O coração de Daryl quase parou.

— Preciso tirar vocês daqui. Venham comigo. Vamos para Hilltop.

Paul Rovia os olhava com íris atentas, decididas.

Notas finais
~ Mavie, como eu te falei no capítulo anterior: teu sofrimento nas mãos do Negan, do jeito que tava, acabou. Finalmente, Esquilinha. Pode respirar aliviada; ~ Daryl, tadinho desse homem. Um cara desses, bicho. Não dá pra lidar com ele sofrendo tanto e ficar de boa com isso. E o pior é que esse tormento que eles passaram nas mãos do Negan vai criar novos traumas... Mas isso é papo para próximos capítulos! ~ Eu acho que vocês vão odiar ainda mais a Callie depois desse capítulo, não é? Mas eu continuo tendo apenas pena. Talvez vocês sintam pena quando eu começar a lançar os flashbacks dela (acho que no próximo capítulo já tem um). ~ O Redmond é um gênio do crime que o Negan nem desconfia. Ele planejou a passarela de pedestres acima dos portões e do pátio dos mortos-vivos de propósito, só pensando nessa chance de literalmente botar tudo abaixo sem ninguém desconfiar. Porque 1: ele sabia que mostrar sua habilidade como engenheiro e mestre de obras iria deixar o Negan feliz, sentindo que valeu a pena investir nele, mesmo sendo um dedo-duro. 2: conhecendo a própria obra, poderia planejar tudo exatamente pro momento em que a estrutura deveria desabar e dar a chance desse primeiro golpe contra a ditadura do Negan. 3: o ditador pode só desconfiar, mas nunca vai ter provas de que a merda aconteceu por causa dele. Porque ele não é engenheiro, porque o Redmond não estava no momento em que deu a treta (ficou doente de propósito, sim, até isso foi planejado), ou seja, o Red enfiou na raba do líder dos Salvadores e ele vai ter que agradecê-lo por isso AIHUSHUSHE! Na moral, quem não gosta do Redmond tem que simpatizar ao menos um mínimo com ele depois dessa manobra genial. ~ Fanart linda e maravilhosa Davie feita pela linda da Dixon Girl! Vejam as artes dela em: dixcreations.tumblr.com; e ~ Aguardo comentários! :3