Hunter's Instinct

82 Episódio 82 - Leave It Behind


Notas iniciais
BOA TARDE MINHA GALERINHA MARAVILHOSA! Gente, desculpa pela demora. Na verdade eu nem deveria me desculpar pra muitos de vocês, seus safadinhos, porque alguns demoraram bastante pra comentar HEHEHEHEH! Ai, ai, ai! Mas tô brincando gente. Acontece mesmo, eu não tive como atualizar antes, por exemplo, porque acabei de me mudar. Aí vocês imaginam o tanto de coisas que eu ainda tenho pra resolver... Mas, antes tarde do que nunca, chegou atualização! Aêêêê! Esse "episódio" terá dedicatória destinada a linda da AustenGirl, essa diva fantástica que dedicou a Hunter's Instinct sua vigésima quarta recomendação! *____* Muito obrigada, minha querida, você realmente deixou meu coraçãozinho refrescante de hortelã muito feliz, lisonjeado e repleto de animação com essa minha história que eu tanto amo escrever! Esse tipo de gesto gentil e afetuoso que me impulsiona a meter a cara na escrita dessa fanfic, que já é um projeto colossal, que em termos de tamanho de capítulos e total de palavras escritas pode ser comparado a uma saga de livros. É bom demais saber que H.I. continua agradando e encantando vocês! A fanfic já fez dois anos, galera! E acho que 2017 será o ano de fechamento dela... Mas não se preocupem, porque ela não está perto de acabar ainda. Prevejo que isso só vai acontecer lá pra dezembro mesmo. Tem muita história pra fechar e contar ainda! Nesse capítulo, por exemplo, temos dois POVs. Peggy retorna (estava com muitas saudades dessa minha pequena Sininho filósofa), com direito a flashback enternecedor e autosuperação. O pessoal que está no Reino está se preparando para mitar, vocês vão ler! E logo depois, um POV da Mavie, que está cheio de tudo: tensão psicológica, barracos, Negan sendo um monstro, testando nossa roedora rebelde aos limites. Mas ela é foda, e vai mostrar que vai conseguir entrar no jogo sem se submeter de fato às decisões dele. Quero agradecer aos leitores comentaristas do "episódio" passado! Dixon Girl, Sami, marcelammota, AustenGirl, Caçadora, Mirah, Vivi Costa, Kayle Ammany, Joke, Kanon e Babi Prongs, que comentou por áudio! En Sabah Nur e Dama de Vermelho, espero vocês, meus lindos! E a todas as minhas amadinhas que já comentar, meu MUITO OBRIGADA, gente! Sabem o quanto eu preciso de vocês como combustível para estar seguindo sempre em frente com essa fanfic! Esse é o MAIOR capítulo de Hunter's Instinct até agora, encarem isso não como uma ofensa ou um desafio, mas uma compensação pela demora UHSHUSUHE! É grande, mas acho que o POV da Mavie em especial vai passar voando. Muitos diálogos e momentos dinâmicos. Não dava pra dividir, sério. O ritmo de postagens vai ficar mais frequente agora que esse fuzuê todo da mudança já está acalmando. Se duvidar apareço no início da semana que vem com capítulo novo! Dito isso... Beijos e boa leitura!

Pegou o pequeno frasco de espuma de banho. Abriu a tampa e colocou o conteúdo inteiro na banheira cheia d’água, um tanto distraída de suas próprias ações.

Era assim que ela se sentia há dias.

A garota percebia que tinha dificuldades de concentração desde que aquilo acontecera. Era como se metade dela estivesse presente ali, espalhando a espuma na água na qual pretendia se banhar, e o que sobrava de si estivesse presa. Escondida dentro dela mesma, em seus próprios recônditos mentais. Perdida em memórias dolorosas, emoções aflitivas compondo seu luto desolador.

Peggy Taylor tirou suas roupas, as dobrou e colocou em cima da bancada da pia de seu banheiro. Entrou na água quente, que logo relaxou seus músculos cansados.

Com a mão direita, alcançou na bancada um fino livro embolorado. O título embotado se fazia visível, apesar de algumas letras mais apagadas do que outras:

“Assim Falava Zaratustra”.

Abriu o volume na página marcada mentalmente. Não tinha dificuldades de memorização, sabia encontrar o que procurava bastando apenas uma leitura introdutória. Logo chegou a “Da Virtude Dadivosa – item III”:

“...O homem de conhecimento não deve poder, somente, amar seus inimigos, mas, ainda, odiar também seus amigos. Retribui-se mal um mestre quando se permanece sempre e somente discípulo. E por que não quereis arrancar folhas da minha coroa?

Vós me venerais; mas e se, algum dia, a vossa veneração vier a morrer? Tomai cuidado com que não vos esmague uma estátua!

Dizeis que acreditais em Zaratustra? Mas que importa Zaratustra! Sois os meus crentes; mas que importam todos os crentes!

Ainda não vos havíeis procurado a vós mesmos: então, me achastes. Assim fazem todos os crentes; por isso, valem tão pouco todas as crenças.

Agora, eu vos mando perder-vos e achar-vos a vós mesmos; e somente depois que todos me tiverdes renegado, eu voltarei a vós.

Em verdade, com outros olhos, meus irmãos, procurarei, então, os que perdi; com outro amor, então, vos amarei...

...Então o que desaparece se abençoará a si mesmo, a fim de passar para o outro lado, e o sol do seu conhecimento estará no seu meio-dia”.

Peggy fechou o livro e o colocou ao seu lado de novo. Mergulhou o rosto, molhando os cabelos presos em um coque malfeito. De olhos fechados, as memórias vieram, claras como água cristalina.

[...]

Era noite. A janela entreaberta permitia-lhe a visão de poucas estrelas em um céu aberto. Ela estava imersa em uma banheira parecida com aquela.

Relaxava seus pés em cima de uma das extremidades, os cabelos presos altos enquanto seus olhos liam absortos “Vontade de Potência”, compilado de Friedrich Nietzsche.

Escutou o som de algumas batidas suaves na porta. Não as respondeu, atenta a leitura. A porta se abriu devagar, e ela seguia lendo:

“Aos meus discípulos — A todos os seres humanos com quem me importo, desejo sofrimento, desolação, doença, maus-tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de autoconfiança e a desgraça dos derrotados. Não lhes sinto compaixão, porque desejo-lhes a única coisa que pode provar hoje se alguém é digno de algo ou não — o ato de ser ou não capaz de resistir”.

— Estou atrapalhando? — A voz também suave de Moritz Alvintzi preencheu o ambiente, harmoniosa com o som da água estalando conforme Peggy Taylor movia as mãos para seguir avançando pelas páginas.

— Eu estava pensando... — Peggy respondeu em um tom reflexivo. Moritz andou alguns passos próximo da banheira e sorriu.

— Como de costume — comentou, divertido.

— O que te atraiu primeiro em mim... Foi o quanto eu estava sofrendo? Como eu lidava com isso? — questionou, levantando os olhos do livro para o rosto dele.

Moritz deu-lhe um sorriso mais brando e sentou-se na beira da banheira.

— Não foi exatamente assim. Eu vi potencial em você — assumiu, ajeitando uma mecha de fios úmidos da garota atrás de sua orelha. Ela fechou os olhos, se regozijando com o toque dele.

— Eu vi uma jovem injustiçada pela vida, se sentindo perdida em meio ao caos, mas que não se conformava com isso. Uma jovem questionadora, que queria encontrar respostas, mesmo que essas respostas não fossem fáceis ou agradáveis. Mesmo que fossem a ausência de verdades ou soluções definitivas. — Ele a fitava com olhos ternos, o olhar caloroso transbordando de afeição.

A garota pensou no que havia acabado de ler. Um meio sorriso orgulhoso brotou no canto de seus lábios, e ela ergueu uma das sobrancelhas.

— Tudo isso apenas em uma conversa? A mesma que eu estranhei que você estava sendo canalha, flertando comigo? — debochou, se recordando do primeiro diálogo a sós que tiveram, quando ela entrara sem permissão na casa dos circenses em busca de Aiyana.

Moritz deu uma risada breve, abaixando o rosto e o levantando outra vez para encará-la.

— A juventude é mais exposta, Sininho... — Acariciou o rosto de Peggy, passando os dedos por seu queixo. — As pulsões nascem mais naturalmente em vocês, que são combustão pura. Mas você revelou uma habilidade reflexiva além do que eu esperaria da sua idade. Foi isso o que me surpreendeu. Você já era dotada do “instinto filosófico” nessa época. Sempre foi, eu diria, pela minha experiência de professor. Talvez tenha apenas despertado até sua consciência naquele momento específico.

— Você viu uma possível aluna, portanto — ela retrucou, torcendo os lábios em feições brincalhonas.

— Não. Muito mais do que isso. — Respirou fundo e segurou o rosto dela com uma mão afável.

— No auge do meu egoísmo “humano, demasiado humano” — citou, com uma risada melancólica — Eu vi um recomeço. Para mim e para você — confessou, agora acariciando a mão esquerda dela com as suas.

— Foi o que aconteceu. Você é realmente um bom professor — enalteceu-o, enquanto movia o rosto para mais perto do dele. Moritz sorriu mais uma vez, agora em feições mais próximas do desejo do que da ternura.

— Seu reconhecimento me lisonjeia — brincou, e passou a beijá-la. Peggy jogou o livro para o lado e o puxou para dentro da banheira, fazendo ambos rirem.

— Eu ainda estou de sapatos! — reclamou ele em um tom entre a diversão e a recusa a sujar a água do banho de sua jovem filósofa. A garota deu mais uma risada, sem se importar.

— Você acha que em Hilltop poderemos ensinar? Acho que eu gostaria disso — Peggy admitiu em voz alta algo que passara pela sua cabeça há algum tempo.

Em um mundo em que a sociedade se recriava, aprender sobre áreas do conhecimento como sociologia, antropologia e outras ligadas aos fundamentos da vida social humana era algo essencial. E a filosofia, como mãe de todas essas matérias, poderia voltar a receber o respeito e a compreensão que merecia. Salvando os seres humanos das trevas da ignorância, que os tornava ainda mais limitados do que já eram por sua própria condição insignificante.

— Você seria uma professora inspiradora, Sininho. Abrindo mentes com seu pó de pirlimpimpim — gracejou ele mais uma vez. Beijaram-se, e aquele banheiro deixou de ser palco da higiene de Peggy para dar lugar a outros atos do casal.

[...]

As lágrimas haviam secado. Talvez porque seria impossível chorar debaixo d’água, talvez porque, simplesmente, aquela fase de seu luto já tivesse passado.

Mudanças doíam, ela sabia como ninguém. Fora forçada a se adaptar a todos os tipos de perdas na curta vida que levara. A morte de seus irmãos. De seu pai. De seu padrasto. Sua mãe. Aya. Annie. E agora... Moritz.

O homem que a ajudou a descobrir-se a si mesma se fora. Restava, porém, uma etapa em sua jornada. Mas ela não sabia se tinha forças para isso. Ela não sabia se ainda via sentido em sua existência de dor e sofrimento, por mais que soubesse que tudo o que passava era parte intrínseca da vida.

A verdade, a dura verdade, era que lhe doía estar viva. Doía-lhe se ver mais uma vez sem rumo, sem um lugar no qual se encaixava. Sem sonhos que a estimulassem.

Peggy temia estar fadada a um sofrimento inútil. Não o sofrimento que seu filósofo favorito defendia, o que ensinava, o que ajudava a se reconstruir. A garota duvidava de que seria capaz de superar mais este obstáculo. Talvez, o pior de todos. O que a realocara na mesma estaca baixa de antes, depois de um vislumbre efêmero de evolução.

Enquanto se perdia em sua própria desesperança, ela ouviu ao longe batidas na porta. Não queria ser interrompida.

Peggy Taylor saiu do banho, se secou e se vestiu rápido. Xingando em seus pensamentos quem a interrompera, desceu até a sala e abriu a porta. Como não escutara rosnados próximos, imaginara que seria Delilah.

— Eu falei ontem para você que queria ficar sozinha... — Peggy abriu os olhos e viu o Rei Ezekiel parado na soleira da entrada, uma cesta cheia de romãs em mãos. A garota pegara gosto pela fruta, era apenas o que conseguia comer naqueles tempos.

— Não te vejo tem alguns dias, jovem donzela, então creio que está enganada — Ezekiel falou em tom de brincadeira, usando de uma fala pomposa para fazer graça.

— Huh? — ela balbuciou.

— Se me permite, imaginei que seu estoque estivesse acabando — comentou o Rei, andando para dentro da casa sem que Peggy lhe desse licença. Ele teve de se esgueirar perto dela para contorna-la, que continuava parada na frente da entrada. Assim que o homem saiu de seu campo de visão, a garota anteviu um cadáver putrefato largado na grama, atingido na têmpora por um corte fundo. O Rei deveria ter se livrado dele.

— Eu não encomendei frutas — resmungou a garota, caminhando rápido para seguir Ezekiel que já as guardava na fruteira da cozinha.

— Não. Mas algo importante aconteceu, além da sua despensa vazia — advertiu-a, enquanto apontava para a cozinha sem mantimentos.

Peggy pestanejou. Seu coração passou a bater rápido, descompassado.

— O que quer dizer com isso?

— Outro amigo seu veio até nós. Morgan encontrou o Reino. Shiva pareceu aprova-lo. Tem uma aura calma em volta dele — admitiu, dizendo tudo aquilo em um tom tranquilo demais para que ela aceitasse.

Peggy andou ainda mais rápido até Ezekiel, quase trombando contra suas costas. Ele se voltou na direção dela, surpreso pelo movimento repentino. A diferença de altura entre os dois era tão evidente que o homem tinha de curvar o rosto para baixo para encará-la, enquanto ela tinha de levantar o queixo para fita-lo.

Ele é bem mais alto do que Moritz. Pensou, e quase arregalou os olhos com o pensamento. Por que fizera aquela associação estúpida?

A garota cruzou os braços e perguntou, ansiosa:

— Ele deu notícias sobre Alexandria?

— Sim. — O olhar de Ezekiel se mostrou mais compassivo.

Aquilo não era um bom sinal.

— Ezekiel... O que ele contou?

O Rei fitou a estante de frutas, e depois a garota. Suas feições pareciam reticentes, mas logo respondeu.

— Não sei se deveria ser eu a dizer essas notícias — mostrou-se duvidoso. Taylor se enfureceu.

— Não importa! Eu preciso saber. Tenho direito de saber — insistiu, decidida. O Rei ergueu as sobrancelhas e meneou o rosto, soltando a expiração.

— Acho melhor você se sentar — encaminhou a jovem até um sofá de dois lugares na sala, e ambos se ajeitaram. Peggy ainda estava apertando os próprios braços contra seu corpo.

— Você tem certeza de que quer escutar isso de mim? Tenho certeza de que logo Billy, Becky, Morgan e Delilah aparecerão por aqui — tentou uma última vez e a garota afirmou um sonoro e determinado “sim”.

Ambos se fitaram por alguns segundos.

— Negan os encontrou — Ezekiel começou e Peggy de imediato afrouxou o aperto em seus próprios braços. Eles tombaram contra suas pernas.

— Não foi nada bom. Ele... Quis passar uma mensagem. Estava revoltado pelas tentativas de o desafiarem — continuou, ao passo que a garota sentia que engolia um tijolo garganta abaixo.

— O que ele fez? Com... Quem? — ela reuniu coragem para perguntar. Sua voz soou trêmula, falha, aguda.

— Ele matou duas pessoas. Glenn. E Tara. Não sei os detalhes, preferi não perguntar para poupá-los — esclareceu Ezekiel, enquanto Peggy baixava o rosto para encarar o tapete no chão. Mal via o item de decoração. Seus olhos apenas refletiam as imagens que se passavam em sua mente. Os rostos de Glenn e Tara.

Duas das pessoas mais amorosas, bondosas e proativas que encontrara em Alexandria. O baque de sabe-los assassinados, provavelmente de uma forma brutal, a deixou zonza por alguns instantes.

Morara junto com todos eles. E ambos eram os melhores amigos de Mavie, a quem Peggy tinha, apesar dos pesares, como uma espécie de prima mais velha.

— Levou dois dos que estavam com Morgan também, para onde reside. Redmond e Daryl, eram esses os nomes. Para obriga-los a cooperar — disse. — De resto, estão todos em Alexandria. Vivos... Mas não muito estáveis. Emocionalmente. Como você pode imaginar — teve de ser honesto.

— Na verdade, há outro detalhe. Uma delas, a namorada de Daryl, Mavelle, segundo Morgan. Também quis ir com os Salvadores. Se recusou a deixa-lo para trás.

Ezekiel pareceu terminar os relatos, pois fez uma pausa longa após a última frase.

A mente de Peggy, porém, estava em polvorosa. Inúmeros pensamentos voavam pela sua cabeça atormentada, incapaz de se focar em apenas um deles. A tontura que sentia apenas aumentou, e ela passou a esfregar as mãos nas calças jeans que vestia apenas para tentar se concentrar e dar alguma ordem a eles.

Daryl e Mavie cativos, junto do tio de Delilah. Glenn e Tara mortos. Rick submisso.

Tudo aquilo acontecera naquele intervalo de poucos dias, enquanto ela se perdia em seus próprios pensamentos?

O acaso era mesmo uma força irônica da vida. Peggy se sentia presa a uma morosidade que lhe parecia eterna, as horas transcorrendo com a lentidão de dias, e os dias, como semanas. Mas fora por pouco tempo. Pouco tempo no qual, para ela, teve de passar por um tormento mental intenso. E para Rick e os outros... Algo muito pior se sucedia.

— Eu preciso falar com eles. Onde estão Lilah e os outros? — interpelou, incapaz de tomar outra decisão.

Ezekiel não pôde conter um breve sorriso. Pareceu satisfeito.

Ela não era tola. Pensou que o Rei deveria ter falado com os outros que iria na frente, para tentar convencê-la a tomar parte em alguma investida contra os Salvadores.

Aquelas notícias, por piores que fossem, foram o gatilho para reagir e vencer a inércia que a afogava. Peggy estava perdida, e continuaria assim por algum tempo, ela sabia. Mas agora sua dor não era mais inútil.

Ela poderia escolher entre se isolar e sofrer sem frutos, ou continuar em suas batalhas internas, junto a outras que também tinham valor. Lutas externas. Afinal, todos eles lutaram contra Hashimoto. Negan era mais um déspota que não poderiam permitir crescer como tirano. Tinham de cortar o mal pela raiz.

Ela não era mais uma alexandrina, e nunca mais seria.

Mas iria reagir, junto com eles.

Moritz e Aya não eram cidadãos daquela comunidade. Eram circenses, nômades, que ali se acomodaram por algum tempo e tanto a ensinaram. Confortaram-na. Esconder-se naquela casa de lamentações para sempre não seria fazer justiça ao que aprendera. A quem ela era, quem ela queria se tornar.

Peggy agora conhecia a si mesma. Era chegado o momento da discípula parar de seguir o mestre, e trilhar seu próprio caminho. Sair da sombra daqueles que admirava, e tornar-se ícone de sua própria admiração. Devia isso as memórias de Moritz e de Aiyana. Devia isso a Mavie, que estava sob o jugo de um homem, um ídolo* que deveria ser derrubado. Devia isso a si mesma.

Era chegada a hora de superar o mestre. Fosse ele Nietzsche. Fosse Aya. Fosse Moritz, e o amor que ela sabia que sempre nutriria por ele.

Só assim poderia ajudar a trazer, para essa nova civilização, luz na escuridão.

Peggy conhecia o caminho.

Precisava apenas obrigar seus pés a trilhá-lo.

*****

Passara a noite toda em claro.

Sua manhã foi dedicada a separar os itens mais valiosos do último saque de Alexandria para que fossem levados diretamente para o último andar da fábrica. Assim, foi forçada a destinar a Negan os melhores whiskeys, cervejas, vinhos e conhaques da comunidade, os embutidos mais saborosos, e, pior do que os suprimentos alimentícios...

Mavelle Berry teve de distribuir a ele objetos pessoais de seus amigos. Uma das camisas favoritas de Billy Ray, que ele costumava usar com frequência no Aquário da Georgia. Óculos escuros unissex que Tara vivia usando para fazer graça. Uma câmera fotográfica de Glenn. E a caixinha de música de Maggie, a qual ela costumava dar corda para que Bethalie escutasse e se acalmasse.

A raiva que Mavie era obrigada a suprimir chegava a níveis insuportáveis. Ela sentia como se fosse forçada a colocar uma pedra garganta abaixo a cada objeto que Negan parecia escolher de maneira proposital. Ele era inteligente, a irlandesa percebia. Escolheu cada item para ser levado aos seus domínios pessoais depois de observar as reações da neta de Annie. Mavelle, naquele momento, fingia com todas as suas forças sua melhor fisionomia indiferente. Mas ela estava diante de um expert em lidar com as reações humanas.

— Acho que eu sei quem gostaria dessa caixinha... — O ardiloso homem voltou o rosto para fitar Mavelle por uma vez incontável. Ela se viu forçada a encará-lo, sabendo que ele gostaria disso. Seu sorriso largo emoldurava seu rosto repulsivo, e seus olhos escuros pareciam querer ler por dentro dela.

Negan andou alguns passos na direção de Mavie. Atrás deles, no primeiro andar do Santuário, muitos homens e mulheres organizavam e descarregavam as caixas, distribuindo alguns poucos itens entre si. Era com o coração partido que Mavelle era obrigada a baixar a cabeça para aquela apropriação desonrosa de um lugar que ela considerava seu lar.

O homem de jaqueta escura girou seu taco de baseball devagar entre os dedos, em um movimento curto e preciso. Parou poucos centímetros ao lado da garota morena, movendo o rosto para a direita, de forma a mirá-la melhor. Não escondeu um olhar lascivo que desceu e subiu por todo o seu corpo, se focando por alguns segundos em sua boca, para depois fitar seus olhos de novo.

Mavelle já conseguia distinguir o cheiro dele. Era algo almiscarado, algum perfume masculino que seria atrativo, não fosse seu dono o ser humano que ela mais detestou em toda a sua vida.

O líder dos Salvadores não respeitava qualquer zona de conforto ao fazer aquele tipo de movimentação sinuosa para perto de Mavie. Ela sempre podia sentir sua respiração calma e controlada lhe batendo ao pescoço, por vezes na nuca. Era como estar acuada por um predador que se diverte em testemunhar o sofrimento da presa antes de devorá-la.

Negan segurou as mãos de Mavie, o que a fez estremecer. Por puro repúdio.

— Calma, Coelhinha... — Seu sorriso imenso apenas aumentou. Os olhos negros cintilaram, divertidos com a reação que causava. — Abra essas suas almofadinhas**.

Sem escolha, Mavelle obedeceu. Esticou os dedos e fez suas palmas visíveis.

O ditador colocou a caixinha de música de Maggie em suas mãos, fechando com suposta delicadeza os dedos de Mavie entre ela. Continuou tocando nas costas das mãos da irlandesa, enquanto ela engolia em seco.

— Eu acho que a minha Princesinha vai adorar esse presente — mencionava Callie, a mais jovem de seu harém. — Quando subir para preparar o jantar delas, quero que leve para mim. Essa noite estarei ocupado — disse, com uma piscadela que julgou divertida. Mavie quase se sentiu aliviada por pensar que não teria de encontra-lo ao menos por algumas horas, mas a sensação não durou muito.

Dwight surgiu no corredor em que ela e Negan estavam parados, já vazio de outras pessoas. Restavam apenas caixas espalhadas, que logo seriam recolhidas pela própria assistente do déspota.

Ele puxava Daryl Dixon pelo moletom imundo, quase arrastando o namorado da irlandesa. Sangue escorria de uma ferida na altura de seu ombro, e seu rosto estava manchado por hematomas horríveis.

O impulso de correr na direção dele foi mais forte por uma fração de segundo, mas assim que fez menção de se movimentar o ditador colocou Lucille na frente de sua barriga, impedindo que saísse do lugar. Sua outra mão livre passou a acariciar as mãos de Mavie que seguravam a caixinha de música, enquanto a olhava com íris falsamente ternas.

— Você não vai para lugar nenhum por enquanto, certo? Tem trabalho a fazer — lembrou em um abusivo tom de fingido carinho. Mavelle teve de desviar o rosto e o olhar, pois não suportaria encarar por mais de um segundo aquelas feições de sadismo disfarçado.

— O problema é que hoje seu namorado, ou ex-namorado em breve, quem sabe — o déspota fingiu um tom de voz sonhador, afastando-se alguns passos de Mavie na direção de Daryl. — Fez uma merda fodida! — quase urrou. A expressão em sua face passou de debochada para séria, nos traços que Mavelle aprendera a reconhecer como realmente ameaçadores.

Mavie Berry não pensou, apenas agiu. Manteve a caixinha de música em uma mão, e, com a outra, segurou a jaqueta de Negan, na altura de seu braço direito, o que tinha seu bastão consigo.

Ele parou de caminhar por um segundo. Em seguida, girou nos tornozelos em uma volta obviamente ensaiada, seu amplo sorriso parecendo misturar satisfação e surpresa.

— Não se preocupe, minha linda, não vou ficar longe de você! Por hora. — O homem de jaqueta escura segurou a mão de Mavelle que puxara seu casaco, e com a outra tocou seu rosto, em uma falsa carícia afável. O nojo contorceu o estômago da irlandesa em voltas incontáveis. Foi com muito esforço que ela sustentou o olhar do líder dos Salvadores.

— Por favor, não faça nada com ele! — Mavelle pediu, sua voz saindo aguda e suplicante. Estava muito duro suportar tudo aquilo.

Negan fingiu uma expressão de comiseração. Arqueou as sobrancelhas e continuou a afagar o rosto da irlandesa, que já não sentia mais aquela repulsa intensa, apenas medo pelo homem que amava. O chefe miliciano abaixou o rosto na altura de seus ouvidos, e Mavelle pôde ver Daryl.

Ele a fitava diretamente em seus olhos, sua expressão derrotada, inerte, incapaz de reagir. O homem loiro que o mantinha parado o segurava pelo pescoço, como um animal surrado. Vê-lo tão frágil fez sua boca tremer e seus dentes proeminentes baterem contra seu lábio inferior.

— Você sabe que eu posso perdoar boa parte do que vocês fizeram se você me oferecer um acordo interessante — recordou-a, sua voz grave carregada de insinuação sexual.

De imediato, a irlandesa arqueira se lembrou de Meredith, na madrugada anterior. De tudo o que ela e Redmond haviam lhe dito. Do destino de Lauren, a outra assistente de Negan antes dela, que se recusou a ceder. Não poderia reagir da mesma forma.

Mas também não poderia desistir.

— Que tal? Mudou de ideia? — o homem doentio sussurrou aos seus ouvidos, enquanto calafrios corriam pelo corpo da garota estrangeira.

Mavelle Berry apenas meneou o rosto em negativa. Negan se afastou soltando um suspiro.

— É uma pena!

Andou a passos determinados até Daryl, movendo Lucille com gosto, assobiando a mesma melodia que precedeu a morte hedionda de Glenn e Tara.

— POR FAVOR! — Mavie quase gritou, as lágrimas descendo de seu rosto. Dwight forçou Daryl de joelhos, e os dois caçadores se fitaram mais uma vez. Mavelle percebeu que seu namorado parecia querer formular alguma frase silenciosa. Talvez uma despedida.

— NÃO! — Mavelle enfim berrou quando Negan pareceu ter desferido o bastão de baseball na direção do crânio de Daryl. Contudo, parou no meio da ação, e colocou os dedos da mão livre na boca, soltando um assobio alto. Um chamado.

Cerca de uma dezena de homens se aproximou, saindo do final do corredor. Ignoraram Berry, andando na direção de seu mandatário.

— Daryl aqui deu um puta de um fodido murro na cara do Dwight hoje de manhã. Você consegue acreditar em uma burrice dessas? — Negan indagou, se movendo na direção da irlandesa. Seguia em passos mais leves, enquanto os homens cercavam Daryl Dixon.

Ele a mirou, e Mavie pôde ler os lábios do namorado:

“Vai ficar tudo bem.”

As lágrimas desceram por seu semblante, enquanto o homem de jaqueta preta parava ao seu lado, segurando com a mão livre em suas costas. Mavelle retesou a coluna e respirou fundo, a sensação de extremo asco que lhe acometia quando o líder dos Salvadores a tocava a invadindo outra vez.

— Tudo porque ele ficou nervosinho. Olha, eu não gosto de ninguém dando chilique, mas homem dando chilique é algo que eu realmente não posso aceitar — falou o ditador, dando uma risada alta. Fitava Daryl com um sorriso de escárnio. Sua arma repleta de arame farpado estava erguida em sua mão, encostada em seu ombro direito.

— Quando eu falei que você era a nossa assistente pessoal, minha e das minhas meninas, ele não pareceu gostar. E quando eu contei o ótimo trabalho que você estava fazendo, ele ainda ficou me olhando com essa cara de vira-lata fodidamente malcriado do caralho. — Apontou com Lucille para Daryl, já encurralado pelos Salvadores.

— Era para ele se sentir honrado, lisonjeado! Uma namorada tão bonitinha, gostosa e ainda por cima capaz de me fazer algo útil... Mas não. Sabe o que ele fez? — O homem de jaqueta escura moveu o rosto para fitar Mavie novamente, balançando as faces em negativa, como se estivesse exasperado.

Em seguida, segurou no ombro esquerdo de Mavelle, que tremeu de maneira involuntária.

— Esse imbecil do seu namorado — falou com claro desprezo na voz — Resolveu partir pra cima do Dwight quando eu perguntei se ele tinha conseguido o uniforme que você está usando agora. — Usou o taco de baseball para indicar as vestimentas vergonhosas que Mavelle usava, roupas de empregada doméstica justas, que lembravam algo fetichista, para óbvio deleite pervertido de Negan.

— Eu posso ter falado antes que você tinha ficado um absurdo de gostosa com essa roupa, mas nossa, eu falei em um tom elogioso! Que cara ciumento! Será que ele é tão machista assim de achar que você é posse dele ou algo do tipo? — O déspota debochou dando uma risada seca, como se estivesse incrédulo.

A ironia hipócrita que ele usava era proposital, ela sabia. Ele, o maior exemplo de opressor de mulheres que Mavelle já havia topado na vida... Queria apenas tirá-la do sério.

— Podem cuidar dele. Daryl precisa de mais um tempo na cela para voltar a aprender a ser gente. Cachorro bravo a gente trata com surra! — Abriu um sorriso largo. — E acho que é bem isso o que ele quer — determinou o ditador, ao passo que seus homens começaram a desferir socos, chutes e demais golpes violentos em Dixon.

Berry não queria sair de perto dele, mas o déspota a forçou a se virar de costas, para encará-lo.

— Espero que você esteja entendendo. Ele está sendo punido pela burrice que fez. Você está bem, porque está agindo bem. É simples assim. Eu sou um homem razoável, lembre-se disso — afirmou o líder dos Salvadores, dando um olhar fuzilante a Mavelle. Ela fingiu concordar, meneando o rosto de maneira positiva. Queria, na verdade, arrancar o taco de suas mãos e esmigalhar a carótida daquele sujeito.

— Já está bom! — O chefe do grupo miliciano ordenou, e seus homens pararam de espancar o homem que ela amava. Daryl estava arqueado no chão, inúmeras lesões espalhadas por seu corpo. As lágrimas de Mavie continuavam descendo, incessantes.

Pouco a pouco os Salvadores deixaram aquele andar, restando apenas o maníaco homicida, o arqueiro, sua namorada e o capanga de cicatrizes no rosto.

Negan andou até Daryl, e depois encarou Mavie.

— Pode vir. — Deu-lhe um sorriso luminoso.

A garota irlandesa caminhou a passos lentos e incertos, seu queixo ainda batendo, parando ao lado do mandatário.

— Você fez sua namorada chorar. Está orgulhoso disso? Ela estava tendo um dia bom, trabalhando, produtiva, e você não soube se controlar. É melhor resolver seus problemas de raiva, Daryl. Mais um tempo na cela e talvez você volte a somar dois mais dois! — Negan pareceu ralhar em um tom debochado. Logo depois, se movimentou para perto de Berry. Dwight levantou o caçador do chão já manchado com o sangue de Dixon.

— Eu não te disse que você iria poder ver seu namorado se viesse para cá? — ironizou falando com uma voz mansa, voltando a segurar as duas mãos da irlandesa em supostas carícias gentis.

— Eu sou um homem razoável, já falei para vocês dois. — Negan dividiu encaradas entre Mavelle e Daryl. — Basta cooperarem que tudo vai melhorar. — O homem autoritário se aproximou ainda mais da garota de cabelos escuros.

— Tenha uma boa tarde de trabalho, Coelhinha — despediu-se da irlandesa depois de dar um olhar sádico na direção de Dixon, e um lascivo para Berry. Segurou com a mão livre o queixo da irlandesa e lhe beijou na bochecha direita, demorando um exato longo segundo.

Mavie sentiu como se seu rosto tivesse sido cortado com uma lâmina funda por conta daquele toque, que literalmente lhe doeu. Quase vomitou ao sentir a barba rala do líder dos Salvadores raspando sua pele.

Mavelle anteviu Dwight dar um olhar apavorado para Daryl, como se temesse que ele não conseguisse se conter. O caçador arqueiro apenas tremeu dos pés à cabeça e desabou no chão de novo.

O subalterno do miliciano puxou Dixon para longe de Berry, que não pôde fazer nada, apenas vê-lo se afastar, estática. O sádico líder já havia seguido na direção oposta, para longe do corredor e do primeiro andar da indústria.

Mas ela não conseguia se mexer. Mavelle não começara a se perguntar quando chegaria aos seus limites à toa.

Ela já não aguentava mais.

Suas pernas bambolearam, enquanto ela tentava se manter de pé, em vão. Tropeçou e caiu no chão, incapaz de se levantar. Percebeu que seu fôlego lhe fugia, como se estivesse se afogando em plena terra firme. Segurou a própria garganta, seu corpo todo tremelicando, enquanto soltou a caixinha de música de Maggie, que rolou pelo chão.

Forçava-se a respirar fundo, mas era como se o ar não chegasse aos seus pulmões. Não tinha ideia do que estava acontecendo, apenas sentia como se estivesse presa em uma situação sem escapatória.

Mavie achou que morreria ali, naquele desespero. Tinha certeza disso, sofrendo de uma sensação firme de que não havia mais esperança.

Aquilo durou apenas alguns segundos, o tempo de um Salvador encontra-la caída no chão, suando em bicas, respirando pelos lábios. Ela foi levada por ele até a enfermaria, e atendida pelo médico do Santuário.

Mavie sequer conseguia dizer o que estava sentindo ou o que acontecera. Parecia que estava na iminência de um infarto. Seu peito doía, seu coração disparava, suava sem parar. O médico a examinou, a fez deitar, tirou sua pressão, e, depois de alguns minutos e certo tempo em repouso, chegou ao diagnóstico.

— Você teve um ataque de pânico. Toda vez que se sentir se perdendo em uma espiral de ansiedade deve tomar um desses comprimidos sublinguais. — Ofereceu-lhe um remédio ansiolítico em mãos. — Vai controlar os sintomas. Você não pode esperar o grau de ansiedade subir, porque seu corpo demorará mais para se recuperar depois.

Mavelle Berry olhou para a cartela de remédios.

— Quantos pontos são?

Dr. Carson a fitou devagar, ajeitando o jaleco.

— Alguns — falou em um tom condescendente.

— Não vou tomar — recusou-se. Não poderia contrair dívidas com Negan. Pioraria a situação de Daryl.

— Você vai. Isso não é algo que você possa controlar sozinha. Se você segurar sua ansiedade, poderá trabalhar mais e melhor, e pagar seus remédios. Se não conseguir... — deixou a interpretação no ar, mas Mavelle a fisgara antes que ele terminasse de falar.

Secando as lágrimas, a irlandesa deixou o consultório médico de Carson, subindo as escadas até o último andar. Era a hora de pavonear as escravas sexuais de Negan.

Era difícil andar. Seu corpo parecia pesar uma tonelada, e tinha dificuldades de se focar em tarefas simples, como abrir a primeira porta do corredor. Era como se seu corpo e sua mente tivessem sido forçados até o limite, e agora estivessem tão fatigados que pareciam incapazes de reagir a qualquer estímulo externo.

Chegou até a sala em que algumas das esposas do mandatário se distraíam em atividades quaisquer. Julie, a moça de pele negra a quem Negan chamava de “Bonequinha” se dedicava a afinar as cordas de seu violão, sentada em uma cadeira perto de uma das amplas janelas fechadas com cortinas rubras. Tessa, a quem o sádico homem chamava de “Gata”, jogava com Callie uma partida de algum jogo da franquia Mario Bros. em um antigo Nintendo 64 conectado a uma televisão de tubo. As duas estavam sentadas em almofadas em cima do tapete.

Por fim, Meredith, a chamada “Pombinha” se sentava no sofá, no mesmo local que no dia anterior, quando Mavelle a conhecera. Lia outro livro.

As duas trocaram um breve olhar significativo. A mulher de cabelos ruivos encaracolados piscou algumas vezes, focando na irlandesa um olhar mais atento. Talvez a perturbação mental de Mavie estivesse evidente em sua fisionomia derrotada.

Não havia sinal de Sherry, Mavelle percebeu, e de súbito Calliope soltou um grito estridente. Mavie pestanejou, abrindo parcialmente os lábios.

— Argh, que ódio! — reclamou a garota loira. — Eu não aguento mais essa merda, meu controle tá com defeito!

A irlandesa notou que ela parecia uma criança resmungando por birra, sem saber perder. Calliope jogou o controle do videogame de maneira negligente no chão, o que fez Tessa repreendê-la.

— Porra, Callie, se quebrar vai ser difícil achar outro. Já temos pouca coisa pra fazer aqui, pare de estragar a diversão dos outros! Você perdeu porque é uma merda jogando, só isso! — ralhou, enquanto a “Princesinha” de Negan revirou os olhos.

— É um videogame, Tessa. Para uma ex-garota de programa, você parece preferir se distrair mais com coisas que eu não imaginaria — provocou a outra esposa do dono daquele lugar.

— Se toca, garota. Você é completamente maluca e acha que pode julgar alguém? — Tessa se ergueu, e Callie abriu um sorriso perverso.

— Meninas, vamos parar com isso, por favor — Meredith interveio, já de pé, se aproximando das duas. Mavie apenas assistia a discussão, parte dela presente naquele ambiente, mas o resto de si apenas pensando em Daryl, e no que ele estaria sofrendo.

A agonia terrível que se apossara dela cerca de meia hora atrás ameaçou surgir novamente. Ela fechou os olhos e se pôs a respirar fundo, controlando a respiração.

— Na verdade, acho que eu estou com um pouco de fome. Não querem comer não? Ele deve subir daqui a pouco — Julie comentou, e Mavie reparou no uso de um tom um pouco mais baixo quando mencionou “ele”.

— Mavelle, será que você poderia preparar o jantar, por favor? — Meredith voltou-se para a irlandesa com um olhar gentil. Algo cintilou em seus orbes esverdeados, e a neta de Annie compreendeu que era mais seguro ela parecer mais formal e distante na frente das outras moças.

A caçadora apenas moveu o rosto, assentindo. Logo depois, entregou o presente de Negan a Calliope, que comemorou em pulinhos animados. Ela se sentiu culpada, mas engoliu o pesar por Maggie, Glenn e Bethalie e desceu para ir às cozinhas.

Mavie se esforçou para se focar no preparo do jantar, uma sopa leve conforme Meredith lhe instruíra de manhã ser o cardápio que as garotas costumavam preferir àquela hora. Terminou de cozinhar, subiu e pôs a mesa para elas, que sequer se moveram para ajudá-la em nada. Sentiu o olhar da mulher ruiva na sua nuca por todo o tempo, como se estivesse prestando atenção em cada ato dela.

As cinco comeram enquanto Mavelle aguardava parada a um canto da sala, como uma governanta de luxo. Volta e meia Callie lhe demandava alguma coisa. Algum tempero, gelo, bebida diferente, guardanapos, apenas para não lhe deixar em paz. Por fim, cada uma se recolheu, abandonando a sala. Negan não voltara, e já passavam das nove da noite.

Mavie conteve um bocejo, mais exausta do que em qualquer outro momento daquele dia. Precisava manter aquela postura subserviente por Daryl, mas percebia, a cada minuto que se passava, que aquela tarefa não seria nada simples.

Calliope continuava na sala, lendo um gibi qualquer. Em determinado momento da noite, perto das dez horas, ainda não havia liberado Mavie de seu trabalho. Ela sabia que provavelmente era uma forma de torturá-la. A garota loira parecia nutrir algum tipo de paixão doentia por Negan, e em sua cabeça louca deveria julgar a irlandesa concorrência.

A jovem arqueira estava quase dormindo em pé quando a moça loira a chamou com uma exclamação:

— Você! — Estalou os dedos. — Venha pintar minhas unhas.

Mavelle pestanejou, incrédula.

— Vou ter que pedir duas vezes? Meu amor me disse que você seria eficiente — ameaçou de forma velada, forçando a irlandesa a obedecer de pronto.

— Onde ficam os...

— Você não sabe onde guardamos nossas coisas? Mas que merda de empregadinha é você?! — Calliope xingou, mas a namorada de Daryl não se importava. Nada do que ela fizesse poderia machucá-la. Não depois de tudo o que Negan lhe fizera sofrer. Ele matara Glenn. Tara. Torturara Daryl. Parecia ter um prazer especial em lhe causar o pior tipo de dor que já sentira em vida.

— Peço perdão — disse a irlandesa em um tom gélido, claramente falso. Callie rolou os olhos, impaciente.

— Segundo banheiro, à direita. — Apontou. — Se demorar mais, vou ter que contar como uma advertência — falou, o que levou Berry a quase sair correndo da sala. Não poderia piorar a situação de Dixon.

Poucos minutos depois, a irlandesa já estava de volta com um kit de manicure a postos. Calliope se levantou e andou até uma cadeira, erguendo seus pés em cima de um banco.

— Vou querer pedicure. Cor: azul claro — demandou, e Mavie passou a lhe mostrar inúmeros esmaltes. A garota foi negando cada um deles até chegar ao último tom de azul que tinham, em uma provocação óbvia para cansar Mavelle.

Mas a caçadora tinha prioridades muito maiores do que sua própria dignidade em jogo.

Calliope acompanhou o trabalho cuidadoso de Mavie, sem poder achar motivos para reclamar. Depois de alguns minutos, fechou a expressão, mirando-lhe com olhos maldosos.

— Quem você pensa que é? — indagou, misteriosa porém ameaçadora.

A jovem irlandesa ergueu os olhos para ela e baixou a cabeça, de maneira submissa.

— Mavie. Sou sua assistente pessoal — respondeu em um fio de voz, passando o esmalte no terceiro dedo dos pés da garota loira.

— Não, você não é. Você é um problema — sibilou em sussurros furiosos.

— Só quero trabalhar — respondeu a irlandesa, evasiva. Pintava a quinta unha da garota loira.

Callie ergueu o pé sem esmalte de súbito, desferindo um chute no queixo de Mavie que a fez morder a língua.

Mentirosa! Quem você pensa que é pra recusá-lo? Você se acha melhor do que ele. Se acha melhor do que nós. Do que eu — testificou, mirando a garota morena com ódio em seus olhos azuis acinzentados.

— Nunca disse isso — retorquiu a irlandesa, mantendo a postura distante, acariciando o próprio queixo ferido. Queria dar um murro no rosto daquela garota arrogante, mas sabia que não poderia.

— Não precisa dizer. Está estampado nessa sua cara. Você se acha. Mas não é nada. Quando ele cansar de você, estará morta. Não antes de ver aquele seu namorado patético morrer também! — Callie soltou uma risadinha maldosa, e dessa vez Mavie não aguentou.

— Você realmente acha que ele te ama? — Mavelle disse com escárnio. Seus olhos de avelã esverdeado mergulharam nos azuis acinzentados da garota iludida. Calliope a encarou lentamente.

— Eu sei que ele me ama. Eu sou a preferida dele. Ele só ama a mim. As outras são distração — afirmou em definitivo.

— Ele não ama ninguém. Muito menos você. Ao menos as outras sabem disso. você prefere viver um conto de fadas fingindo que um demônio é seu príncipe, “Princesinha” — Mavie debochou e abriu um sorriso largo.

Callie reagiu como uma serpente atacando. A irlandesa não viu, apenas sentiu os punhos da garota acertando sua bochecha direita, a mesma que Negan beijara mais cedo. Pelo impacto, seus dentes cortaram sua gengiva e ela passou a sangrar.

Aquela dor era bem-vinda. Ao menos dividia espaço com a dor emocional por tudo o que passava.

— Você não é digna nem de respirar o mesmo ar que ele. Mas ele vai abrir os olhos. Vai ver o monstrinho que você é. E você vai desejar nunca ter vindo parar aqui — assegurou Calliope, fitando Mavelle caída sentada ao chão.

Mavie limpou os lábios e continuou sorridente. Callie não suportou.

— Você é imbecil para continuar sorrindo assim?! — vociferou, revoltada, a encarando de cima.

— Não. Só estou constatando algo — Mavelle retrucou, enquanto Calliope a puxava pelo colarinho do uniforme, a erguendo do chão. Era uma garota alta e atlética, Mavie percebia, e tinha uma força maior do que sua aparência demonstrava.

— Você deveria medir as palavras que saem dessa sua boca de merda — Callie falou entre dentes, rangendo o maxilar.

— Eu meço. Por isso, talvez, quem sabe, eu esteja reconsiderando a proposta dele — Mavelle não resistiu. Teve de plantar a dúvida para atormentar aquela garota.

Calliope esbugalhou os olhos, a soltando na mesma hora. Logo depois, semicerrou as pestanas e deu outro sorriso de canto de lábios.

— Não tem problema. Se você decidir ficar aqui, tanto melhor. Eu mesma me livro de você — garantiu, segura de si. Mavelle ajeitou o coque, a fitando com olhos prepotentes. Tinham quase a mesma altura, Callie tinha apenas dois centímetros a mais do que Mavie.

— Eu posso ser bem apaixonante. Talvez a “Coelhinha” ganhe da “Princesinha”. Não é disso que você tem medo? — manteve a provocação, e Calliope semicerrou ainda mais os olhos. Mavelle pôde vê-la bufando de ódio antes de responder.

— Você não tem lugar aqui, sua iludida. Você é só uma erva-daninha. E ervas-daninhas se arrancam pela raiz — Calliope soltou a última ameaça e lhe virou as costas, guardando seus esmaltes e batendo a porta com um estrondo.

Mavie passou o punho pelo rosto ferido, ainda satisfeita por ter descarregado um pouco da tensão naquela garota idiota. Foi quando percebeu que não estava liberada do trabalho ainda. Teria de esperar Negan chegar ou que uma das moças a permitisse se recolher.

As horas se passaram e nenhuma das garotas apareceu na sala. Perto de uma da manhã, Mavelle já havia completado mais de vinte e quatro horas sem dormir, e quase caía no piso de tão exausta. Nisso, a porta da sala se abriu, e ela reconheceu o assobio que entrava no ambiente.

— Coelhinha! Dando duro mesmo, hein? Gostei de ver! — o mandatário aprovou, colocando Lucille em cima da mesa e andando até o bar. — Pode me servir uma dose de whiskey? Tive um dia fodidamente exaustivo! — Cobriu os lábios enquanto bocejava e depois deu um sorriso que deveria julgar animado para Mavelle.

— Você é irlandesa — lembrou, fechando um dos punhos como se comemorasse aquilo. — Confio no seu bom gosto. Não me decepcione — falou em um tom de troça, enquanto a garota se movia até o bar. Era forçada a passar na frente da poltrona em que o homem se sentara, e ele a olhou de maneira despudorada dos pés à cabeça.

— Olha, eu tenho que admitir... Daryl pode ser muito burro, mas a cada dia que passa eu percebo melhor o quanto ele tem bom gosto. Você tem todo um jeitinho de menina-mulher que é pra deixar qualquer um maluco — assumiu, voltando o rosto para trás para acompanhar Mavie com o olhar.

— Isso é um elogio, só para deixar registrado — troçou, erguendo as sobrancelhas. Ela o fitou com seu melhor olhar de falsa submissão.

— Obrigada. — Caminhou até ele e o entregou um copo de Green Spot envelhecido, um excelente whiskey irlandês. Ele mandou que ela se sentasse defronte a ele, e a garota o obedeceu.

Negan bebericou o whiskey, mastigando de canto da boca. Mavelle reparou que ele devia ser apreciador da bebida, pois aquela era a forma correta de apreciação.

O homem soltou um “ah” satisfeito e abriu um sorriso aprovador.

— Essa merda é foda! Não me lembrava de que ainda tínhamos algo tão bom. Vamos, experimenta você também! Você merece — incentivou-a, erguendo o copo para a garota.

Sabendo que aquilo o agradaria, Mavelle controlou seu repúdio por partilhar uma bebida com aquele desprezível sujeito e tomou um gole. O whiskey apenas aumentou o efeito do ansiolítico, fazendo-a relaxar mais. Fora algo bem-vindo, apesar de arriscado para sua própria saúde.

— Quer uma dose? — o sujeito ofertou, parecendo se divertir com a companhia dela.

— Tenho que trabalhar cedo — se mostrou prestativa.

— Não tem problema. Te dou folga na manhã de amanhã — assegurou, lhe dando outro sorriso largo. Parecia realmente entretido com a companhia dela, o que fez Mavelle se sentir desconfiada.

— É sério. Você sabe que eu sou um homem de palavra. — Ele olhou para Lucille, e Mavie estremeceu, se lembrando do que fizera com Glenn e Tara. Mas, dadas as circunstâncias, não tinha outra escolha.

— Ok — aceitou. Negan se ergueu e serviu à Mavelle um copo do mesmo whiskey, a convidando para sentar de novo.

A caçadora bebericou com avidez, querendo encurtar aquela conversa o mais rápido que pudesse. Ele, porém, bebia devagar, aparentando saborear o momento.

— Sabe, eu vejo muito potencial em uma garota como você — comentou com uma voz mansa. Mavelle o fitou, atenta, sua postura cada vez mais preparada para lidar com qualquer reação surpreendente.

— Vamos ser honestos aqui, Mavie. — Ouvi-lo chama-la por seu apelido de verdade fez um arrepio desagradável subir pela espinha da garota. — Você caça, usa arco e flecha e sobreviveu esse tempo todo. Namora um cara bem durão, e ouso dizer que você talvez seja tão ou mais durona do que ele. E pelo que eu vi da sua comunidade, conseguiu o afeto e a confiança de muita gente — asseverou, coçando a própria barba. Não mais sorria. Ela ergueu os olhos outra vez, mirando-o com cuidado.

— Você sabe se virar. Você é uma garota, ou melhor, uma mulher independente. Deve ter passado por muito na vida. Mudando de país. Perdendo o noivo. Matando o noivo... Jeffie deve ter feito merda, não é? — Negan atestou, sério, curvando o corpo na direção dela. Não tinha mais o olhar depravado de sempre, mas sim decidido, parecendo interessado. — E eu te fiz passar por mais merda. Não posso dizer que peço desculpas, porque vocês fizeram por merecer. — Ele ergueu os braços e soltou uma risada seca. Mavelle crispou os dedos na poltrona, controlando o ódio.

— Mas ter gente como você do meu lado... — Ele a indicou com as mãos. — É disso que eu preciso. Eu vejo essa capacidade em você... Você poderia ser mais do que é. Eu te ajudaria nisso, de verdade. — Os olhos daquele homem estavam mergulhados nos dela, cobiçosos, não de sua aparência, mas de algo diferente,

Hashimoto uma vez falara consigo da mesma forma, quando a rendera junto a Glenn, Billy Ray e Rick.

— Você poderia ser uma figura admirada. Uma líder. Eu te daria essa oportunidade — garantiu o déspota, estudando Mavie com fervor. — Talvez poderíamos até soltar o Daryl... Se você estivesse disposta — sugeriu, e Mavelle pestanejou, seu rosto tremendo.

Aquilo deveria ser um jogo. Alguma provocação. Não poderia cair tão fácil.

— Você quer dizer... Governar?

Negan cruzou os dedos, ainda a mirando com atenção.

— Você gostaria de governar, Mavie? — perguntou, a voz ainda mais firme, baixa, controlada. Ela não podia acreditar naquilo. Ele era um ditador. Autoritário. Fascista. Queria o poder apenas para si. Deveria ser algum teste.

Os calafrios que ela sentia apenas aumentaram.

— Eu gostaria que Daryl estivesse livre — respondeu, somente. Os dois se encararam por algum tempo, enquanto Negan terminava seu whiskey. Mavelle já havia bebido todo seu copo.

— Talvez um dia possamos negociar isso. Se você continuar me parecendo um investimento lucrativo — articulou, e a jovem irlandesa apenas franziu os lábios.

— Vamos, você está exausta. Dá pra ver. Vou te levar ao seus novos aposentos.

Mavelle outra vez arregalou os olhos, seu coração disparando. Ficou em posição de defesa, grudada na poltrona.

Negan franziu as sobrancelhas e riu com vontade.

— Você tem que parar de pensar tão mal de mim, Coelhinha! — Ele voltou à postura devassa anterior. Berry se viu obrigada a controlar seus impulsos enojados.

— Eu já te disse. Não levo nenhuma mulher para a cama se ela não quiser — assegurou, e parecia realmente seguro do que dizia, o cinismo em pessoa. — Mas você, sim, é quem parece estar com ideia fixa com isso — falou de maneira sugestiva, deixando a irlandesa ainda mais nervosa. Ela nada respondeu, então Negan apenas sorriu, mordendo a língua, e continuou:

— Você trabalhou bem. Isso significa que está ganhando pontos comigo. Pode dormir em um quarto melhor, esta noite. E poderá continuar nesse quarto, enquanto se provar uma boa funcionária — disse o ditador, a levando até um repartimento na outra extremidade do andar. Lá havia uma cama e não um mero colchão, e todo o local estava em melhores condições de limpeza. Tinha até mesmo uma televisão com um aparelho de dvd, um armário e uma estante de livros.

Mavie entrou nos aposentos fingindo estar satisfeita.

— É muito bom. Essa estante, então, parece de pub. Só falta uma bandeira da Irlanda para eu me sentir em casa — falou em um tom que beirava o deboche, mas que se esforçou para disfarçar. Negan anuiu de maneira positiva, lhe dirigindo outro sorriso. Enquanto ela virava de costas, mirando a cama, ouviu o som da porta fechar.

A garota girou nos calcanhares, subitamente apavorada. O homem de jaqueta escura levava os dedos aos olhos fechados, parecendo também exausto. Em seguida, a fitou com um olhar tão predatório quanto o de quando parecia querer agarrá-la ou espanca-la, no dia anterior.

Caminhou até a irlandesa, que recuou até suas costas encostarem no armário. A tensão extrema que sentira estava voltando. Nem mesmo o whiskey e o ansiolítico poderiam segurar o medo que lhe acometia naquele momento.

Negan parou a centímetros dela, deixando uma de suas mãos tocarem a porta do armário, perto do rosto de Mavelle. Curvou o pescoço perto dela a olhando com um olhar que ela não conseguia retribuir, tamanha a intensidade. Poucas vezes na vida Mavie se sentira tão vulnerável.

— Tem mesmo algo de especial em você, Coelhinha. Você exala liberdade. — Mavelle podia sentir seu hálito misturado entre pasta de dente de hortelã e o cheiro do whiskey, enquanto ele soltava o coque que prendiam os cabelos da irlandesa. — Você testa meus limites, em vários sentidos — enunciou, abaixando o tom de voz aos ouvidos dela, ao passo que Mavelle sentia seus cabelos caindo em cascata por seus ombros e costas. Negan deveria julgar aquilo sedutor, mas Mavie só se sentia aterrorizada.

— E eu tenho que admitir que isso me diverte muito — falou o maníaco homicida, se afastando de seus ouvidos, a olhando diretamente nos olhos. A atração óbvia que ele sentia por ela era palpável, quase, Mavelle percebia. Provavelmente porque ele a considerava um brinquedo divertido. Um troféu a ser conquistado.

A garota não reagiu, apenas lhe deu um breve olhar e depois fixou seus olhos na estante de madeira próxima, tremendo dos pés à cabeça. Ele pareceu desistir.

— Tenha uma boa noite, Mavie — fez uso de seu apelido pela segunda vez, enquanto puxou uma das mãos da irlandesa. Beijou as costas da mesma mão, virou-se na direção da porta e saiu.

Mavelle Berry correu para o banheiro anexo ao quarto, lavando na pia com pródigas quantidades de sabão a mão que ele tocara. Se sentia suja, maculada, por tudo o que ele a fizera passar.

Mas ali ocorrera algum avanço. Meredith tinha razão. Por pior que fosse, Redmond também.

Mavelle entrara no jogo, e não estava disposta a perder. Tinha muito em risco.

Salvaria sua pele, e a de Daryl, burlando as regras do homem que imaginava conduzir — sozinho — o tabuleiro, movendo os peões como ela e seu namorado ao seu bel-prazer.

Mas as peças também tinham vontade própria, e não deveriam ser subestimadas.

Notas finais
*Ídolo: o Nietzsche era o filósofo do "martelo", um "desconstruídão" antes da gíria existir ahusuhshue! Ele se lança contra os "ídolos" da época dele, que eram as ilusões antigas e novas do Ocidente: a moral cristã, os grandes equívocos da filosofia, as idéias e tendências modernas (da época) e seus representantes. Ele era um crítico de tudo o que tinha de equivocado no século XIX (claro que tinha suas falhas, mesmo sendo um gênio. Por exemplo, ele era misógino :/), que queria desconstruir essas verdades absolutas e figuras carismáticas que as pessoas obedeciam quase cegamente. No caso, o "ídolo" do contexto da fanfic é o Negan. **Almofadinhas: sabem aquela parte macia da pata dos bichinhos como gatos e coelhos, uma partezinha interna? Então, é chamado de almofadinha, porque é todo fofo, macio, bom de apertar. No caso foi um trocadilho nojento do Negan com a palma da mão da Mavie, que ele insiste que é a "Coelhinha" dele. Ew. ~ Como eu falei pra vocês, a Peggy amadureceu muito, e vai amadurecer mais. Teve seu tempo de reflexão a sós, e agora vai usar seu intelecto invejável e sua casca grossa para ajudar o grupo. Esperem bastante dessa garota porque está estampado na testa dela que ela só vai mitar daqui pra frente. ~ Mavie está aprendendo a dançar conforme a música para logo quando for necessário mexer no music player e mudar o ritmo (ahushsauhhs)! Você vai longe, Esquila! Que a força esteja com você, Squirrel Stardust (quem não viu Rogue One, VEJA, porque a Jyn Erso simplesmente É a Mavie! Não só por ser a Felicity Jones, a personagem em si é muito Mavie, e o Captain Cassian é meio Daryl também, ou seja, Davie intergalático UHSUHSUHSH)! ~ Aguardo comentários!