Hunter's Instinct

83 Episódio 83 - All the Regrets


Notas iniciais
OIÊÊÊÊ PESSOAL AMADO DA MINHA VIDA DE FICWRITER! Como estão todos vocês? Espero que muito bem! Eu estou com a vida cheia de coisas pra resolver, nesse sentido tá bem complicado por aqui, muito trabalho pra fazer. Por isso, acabei me atrasando para escrever e postar esse capítulo. Consegui fazer isso essa quinta-feira porque a semana começou mais leve. O capítulo trata de três POVs: Tucker (que saudades desse guriiii), Mavie e Redmond! Sei que tem um povo aí que não curte o Redmond, mas vocês vão ter que admitir que ele é um personagem e tanto, e, acreditem, vai fazer toda a diferença pra história, tanto pro bem quanto pro mal dos personagens que vocês amam hehehehehehe! Os POVs são todos meio fofos e feels, tem altas revelações de diversos personagens. Claro que tem drama e tristeza, porque essa fase da série é opressão pura, mas já estamos entrando na curva de melhora e esse capítulo demonstra isso. Se eu falar mais é spoiler! Por isso, quero dedicá-lo a Arrriba, que chegou em pé de postagem comigo AÊÊÊÊÊ! Sua linda maravilhosa! ENFIM ESTÁ ACOMPANHANDO JUNTO COM AS ATUALIZAÇÕES! =D E quero agradecer aos leitores comentaristas que seguem nessa jornada do instinto de caça comigo de mãos dadas: Arrriba, AustenGirl, Sami, Dixon Girl, Caçadora, Mirah, marcelammota, Dama de Vermelho, Kayle Ammany, Vivi Costa e Babi Prongs, que sempre comenta por áudio. Se não fossem vocês, sério mesmo, eu provavelmente teria desanimado de H.I. há muito tempo. Vocês são meu combustível pra continuar tão empolgada assim com a história! Por isso... Beijos e boa leitura!

Ele sentiu sua boca se entreabrir, ainda ruminando em pensamento as palavras que o homem sentado na cadeira de praia próxima de si havia acabado de lhe dizer.

Seus dedos que seguravam o cigarro tremelicaram. A fumaça subia ao redor de seu rosto, o cheiro do narcótico já prensado no ambiente. Os olhos de Gaspar Sandoval estavam fixos nos seus orbes azuis, mas o rapaz não o enxergava.

Outra memória perturbou e desanuviou sua visão por um momento. Em meio a fumaça do cigarro que cobriu suas faces por alguns segundos, o jovem rememorou algo que não gostava de relembrar. Dias escuros, pintados em tons de chumbo e cores rubras: cores de sangue, balas, pólvora e lâminas. Dias perdidos em uma época de sua vida na qual ele não se reconhecia. O tempo em que fora escravo de Hashimoto, subjugado as suas vontades. Não tinha livre pensamento, não tinha escolhas, não tinha vontade própria.

Não era ele mesmo.

— M-munição envenenada? — O rapaz tartamudeou, incerto. Bateu o cigarro em um cinzeiro perto, coçando a testa com dedos nervosos.

Tucker Hayes tentara seu melhor para não se amedrontar e continuar esperançoso. Mas aquela frase de Gaspar liberara a angústia que ele tentara negar dentro de si.

Negan era outra Hashimoto. Talvez uma versão pior. E não haveria outra escolha além de combate-lo.

Com todas as possíveis perdas que esse embate traria.

— Isso — confirmou o homem latino. Sandoval se inclinou mais para frente, seus olhos esverdeados focados no rosto de Hayes como um gavião prestes a dar o bote. — Eu já viajei bastante pela América do Sul quando era repórter itinerante. Cobri guerras civis, explorações de biólogos, enfim, me pagavam para escrever minhas aventuras. — O mexicano abriu um sorriso que aparentava denotar orgulho de si próprio.

— E o que isso... — Tucker já ia perguntar, ansioso. Pegou outro cigarro de seu maço.

— Espera, Bonitinho. O que você tem de gracinha tem de nervoso. — O explorador levantou uma mão espalmada, e o mais jovem continuou a estranhar aquele tratamento esquisito. O rapaz franziu as sobrancelhas, encrespando de leve também seus lábios. — Um desses trabalhos foi passar um tempo com comunidades indígenas na Guiana Francesa. A tribo vivia em um local preservado, longe da civilização, o que significava que caçavam com armas próprias da cultura deles — contou o ex-jornalista, e Tucker fechou os lábios, enfim compreendendo a linha de raciocínio. Deu um trago em seu novo cigarro aceso.

— Aquelas armas tipo flechas envenenadas e coisas assim que vemos em filmes de faroeste? — comentou o rapaz, e o outro homem anuiu com a cabeça. Hayes puxou a fumaça e depois bafejou-a, mas a sensação incômoda se mantinha. Teve um impulso estúpido de desejar heroína e as outras drogas pesadas que consumia na época em que era soldado do Exército de Wyoming County.

Sí. É por aí, mas um pouco mais bem pensado — troçou Gaspar. — As armas se chamam zarabatanas. Tem um formato de flauta, comprido, e pequenas lâminas incrustadas de veneno, como flechas, são atiradas por elas — disse, sua voz aumentando de tom. — Eles me ensinaram como construí-las, com algum treino e tentativas suficientes acho que podemos ensinar os artesãos, ferreiros e outros trabalhadores braçais daqui de Hilltop a montá-las também — falou o latino, seu sotaque saindo mais pronunciado enquanto ele abria um meio sorriso. Seus olhos claros cintilaram ante a sugestão.

— Certo, Gênio — foi a vez de Tucker debochar, levantando uma sobrancelha e ainda fumando. — Eu poderia aprender também, mas isso não muda nada da parte mais bizarra dessa história, que já é estranha por si só: e a porra do veneno da munição? — Sentiu-se impaciente. Negan tinha munição de verdade e pessoal. Eles tinham menos gente e bala alguma.

— Aí é com você, Bonitinho Lerdinho! — Gaspar aumentou seu sorriso, enquanto continha uma risada. O rapaz se sentiu ainda mais ofendido. Franziu o cenho e já ia xingá-lo de volta pelos absurdos, mas o mexicano ainda não havia terminado.

— Essa é a parte que entram os seus conhecimentos de química. Pense bem: se você sabe distinguir venenos, e reconhecer quais são os mais potentes, como agem no organismo e como funcionam, em suma — disse o explorador, gesticulando mais animado — Você pode também “tunar” as nossas flechas. Temos ótimos ferreiros em Hilltop, todos capazes de produzir armas brancas de qualidade. Mas não temos químicos — adicionou, levantando o indicador e apontando para Hayes.

— Eu já disse que eu não sou...

— Não interessa. Você é o que é. Eugene te ensinou sobre isso, não? — indagou novamente.

— Sim. Tivemos de fazer algo mais ou menos assim contra a... — A voz de Hayes falhou quando tentou mencionar Hashimoto. Coçou sua nuca, ansioso.

— Então! É isso o que importa. — Gaspar deu-lhe outro sorriso reluzente. — Não estou interessado em ver seus diplomas formais. Se eu estivesse solteiro, talvez estivesse interessado nesses seus olhões azuis lindos e no seu corpo — deu uma piscadela galhofeira, enquanto Tucker abria a boca, surpreso.

Sandoval pôs-se a se levantar, e olhou ao redor do trailer.

— Hã... — Tucker balbuciou outra vez, e o latino o olhou com orbes que pareciam lhe apressar.

Vámonos*! — urgiu, abrindo os braços e mirando o rapaz com avidez. — Vamos fazer uma lista. Onde tem papel e caneta nesse muquifo? — interpelou, ofendendo também o trailer em que o jovem residia.

— Quem você pensa que é, cara?! — Tucker Hayes se ergueu e se aproximou de Gaspar Sandoval, depois de apagar o cigarro no cinzeiro. — Eu não sou seu... Seu escravo ou algo assim. Não sou sua vadia! Se você quer minha ajuda, é melhor parar com essa merda aí, seja ela o que for! — Apontou na direção do homem latino com o braço direito, andando para bem perto dele.

Gaspar apenas cruzou os braços e o olhou de cima a baixo, a expressão impassível. Em seguida, deu uma gargalhada, seus cabelos compridos na altura do ombro caindo para trás.

— Qual é a porra da graça?! — Hayes indagou, revoltado.

— O Bonitinho tem bolas também. Gosto disso — aprovou, dando um sorriso enviesado. Tucker se afastou alguns passos, reticente.

— Fique bem longe delas — alertou, franzindo as sobrancelhas e fitando o mexicano excêntrico.

— Recado dado e compreendido — brincou em retorno o ex-repórter itinerante. — E então, Tucker, qual é a sua resposta? Podemos levar esse projeto adiante? — tentou em um tratamento e tom menos abusados.

— Não sei. Eu teria que pensar mais sobre isso. Você já discutiu a respeito com o Jesus e o Gregory? — Hayes ajeitou o casaco que usava.

— Esse é o tipo de coisa que não deve ser discutida com o Gregory. Você viu que ele queria entregar você, Maggie e Carol na última vez que os Salvadores nos abordaram aqui. Se souber que estamos planejando retaliar, você pode imaginar que ele não reagiria bem — afirmou o mexicano. Hayes voltou a coçar a nuca, caminhando de um lado ao outro, duvidoso.

— Cara... Yo, eu imagino que você queira fazer isso para proteger seus amigos e tal. Mas eu não sei. Se o Gregory não gostar e isso criar um racha... Precisamos nos unir agora — o jovem tentou sair pela tangente, mas o olhar de Gaspar lhe demonstrava que estava impassível.

— Eu pensei bastante sobre isso. Mas não será o caso. Maggie está conquistando a confiança de todos por aqui. Acho que ela será uma futura líder da comunidade — considerou o latino, soltando os braços cruzados e dando um passo para mais perto do rapaz.

— Eu não vou fazer parte de um golpe aqui dentro! — Tucker ergueu seus braços, recuando outro passo.

— Não é disso que estou falando, Bonitinho. Digo, Tucker — corrigiu-se logo, soltando uma expiração em seguida. — Estou dizendo só que as pessoas gostam dela. Mais do que gostam do Gregory. Eu posso te falar isso com propriedade. Estou aqui há bem mais tempo do que você. — Levantou as sobrancelhas e deu um olhar fuzilante ao jovem arquiteto.

— Entenda. Isso vai acontecer. Maggie é carismática. Está unindo as pessoas. Inspirando-as a reagir. Negan está forçando a barra. Não podemos escolher outra coisa, não se quisermos proteger as pessoas que amamos. Tenho certeza de que você quer isso. Você e seu grupo se envolveram na luta contra o Exército de Wyoming County — Gaspar foi incisivo, e Tucker sentiu calafrios lhe subirem pelas costas.

— O preço disso foi caro. O de agora também vai ser — o rapaz o cortou, fitando o latino com olhos graves.

— O preço de viver é caro. Sempre foi. Hoje em dia, só é mais jogado na nossa cara. Você não pode fugir da dor. Ela vai voltar. Ela sempre volta. Você só pode escolher como vai lidar com ela — aconselhou Gaspar Sandoval, andando para perto de Tucker Hayes. Segurou em seu ombro em um gesto afável, mas o rapaz outra vez se afastou.

— Vou dar uma espairecida e pensar mais sobre isso — avisou, sem olhar para o ex-jornalista. Ele apenas o respondeu, de longe:

— Me procura quando tiver a resposta!

Tucker caminhou a esmo pela comunidade, as mãos nos bolsos do abrigo largo. As memórias da época em que Hashimoto lhe usava como bem entendia não queriam deixar seus pensamentos. Junto a elas, era impossível não se lembrar do pesadelo que tivera depois da primeira noite que passara junto com Carol. Ela, encolhida, prestes a morrer.

Ele não queria acreditar que aquilo poderia ser um presságio. Pensou que era apenas um reflexo do trauma que a japonesa causara em si e que demoraria muito a sarar, se é que um dia seria superado. Evitava refletir sobre a simbologia de todo aquele sonho hediondo, mas a realidade era uma vadia, e não o deixaria se esconder por muito tempo. Negan chegara, os Salvadores chegaram, e, com eles, a verdade dura: não haveria paz enquanto ela não fosse construída. Não haveria paz sem luta, muita luta, fossem em batalhas internas ou externas.

Atordoado, o rapaz sentiu um sobressalto quando passou perto de um bosque, e ouviu uma garota xingar alto. Um palavrão pesado, que o fez encrespar o cenho e buscar quem fora a pessoa que o proferira. Deveria estar muito desagradada.

Uma menina de cabelos castanhos claros longos, pele sardenta e olhos de um verde-água tinha uma prancheta no colo e um lápis na mão. Sentava em uma pedra cheia de musgo e olhava para o papel com uma expressão insatisfeita e irritada. Parecia ter no máximo oito anos de idade.

Hayes ficou curioso. Perguntou-se se ela estaria tentando desenhar algo. Sempre gostara de conversar com outros interessados em artes gráficas. A menina franziu os lábios muito rubros que tinha e soltou outro palavrão exasperado, depois de mexer o lápis no papel algumas vezes.

Tucker sentiu uma súbita vontade de rir, e decidiu caminhar até ela.

— Yo! ‘Tá tudo bem? — saudou-a a distância, andando até ela. A menina encrespou as sobrancelhas de um tom ainda mais claro que seus fios, lhe dando um olhar rápido. Fez menção de esconder a prancheta contra seu corpo.

— ‘Tá — respondeu monossilábica. A um olhar o rapaz pôde perceber que ela não parecia agradada com a aproximação.

Tentou soar mais simpático. Deu-lhe um sorriso discreto e perguntou, a uma distância educada:

— Qual é seu nome? Eu sou o Tucker — se apresentou. Ela o olhou com um semblante pedante. Quase como se dissesse “não precisava saber disso”.

— Trudy — disse, sua voz monocórdia em um tom antipático.

— Trudy é apelido? — indagou. A expressão da garota pareceu ainda mais incomodada.

— Não — ela falou e desviou o olhar. O rapaz achou que ela parecia mentir. Sentiu-se um pouco inconveniente, mas insistiu.

— Pode falar. Meu nome parece um sobrenome, é meio tosco. E eu tenho um sobrenome bonito. Pelo menos eu acho. Meus pais gostavam de nomes de cowboy, me chamaram de Tucker e a minha irmã de Bonnie — comentou desinibido, mas falar de sua irmã mais velha lhe trouxe uma pontada aguda de saudades e tristeza. — Éramos os irmãos Hayes — acrescentou, seu sorriso murchando um tanto.

— Sinto muito — a menina articulou de uma maneira quase automática. — Meu nome é Gertrude. Por causa da Gertrude Stein. Gosto do que ela escreve, detesto o nome. — A expressão de Tucker deveria parecer pasma, pois ela continuou a explicar. — Sabe, a poeta e ativista do feminismo — comentou, e o arquiteto apenas levantou as sobrancelhas, surpreendido.

— Hã... Sei, claro — mentiu. — Mas quantos anos você tem? Já lê esse tipo de livro? — perguntou, assombrado. Ela pareceu orgulhosa antes de responder. Deu um semi-sorriso.

— Eu tenho doze anos. E sim, leio. Minha mãe me dava aulas em casa. Eu não ia para a escola — esclareceu, e o queixo do rapaz caiu. A menina parecia bem mais nova, tinha traços bem juvenis. Continuava sendo uma criança, mas ainda assim, aparentava menos idade.

— Que... Legal — Hayes formulou a frase um tanto tola.

— É. Mas, por favor, não me chame de Gertrude. Só de Trudy — pediu ela, e Hayes levantou o polegar indicando que entendera.

— Pode deixar. — A menina sorriu, grata. A expressão antipática em seu rosto já desanuviara. — E você pode me chamar de Tucker mesmo. Acredite, seu nome é melhor do que ser chamado de “Bonitinho” pelo Gaspar — admitiu o rapaz, olhando por cima do ombro para indicar a direção que o mexicano seguira. Conseguiu fazer Trudy dar uma risada breve, e abriu um sorriso contente por isso.

— Mas o que estava te irritando? Você estava desenhando? — indagou, genuinamente interessado.

— Sim. É algo que eu estou tentando... — Gertrude iria começar a lhe contar, mas ouviram uma voz retumbante alguns metros longe deles soar, alta e apressada:

— TRUDY! — Tucker seguiu o ruído e viu a silhueta de Gregory ao longe, chamando a garota em um gesto com as mãos. Ela revirou os olhos e se levantou, quase batendo os pés.

— Depois nos falamos. Tchau, Tucker — ela se despediu, levantando um braço sem muita animação.

— Tchau — respondeu o jovem arquiteto com um aceno de mão, observando a menina caminhar na direção do líder de Hilltop. O mandatário a abraçou pelos ombros, a levando para dentro da Casa Barrington. Por alguma razão misteriosa, Hayes não gostou daquilo. Sentiu alguma espécie de desconfiança daquela proximidade.

Esperou a porta de entrada do casarão colonial ser fechada, e girou nos calcanhares. Decidiu seguir caminho até o trailer de Carol. Queria perguntar a ela o que acharia do plano de Gaspar. Continuava incerto acerca daquela ofensiva.

Não queria ser pivô de qualquer risco para Carol.

Ao chegar em seu trailer, foi recepcionado por Maggie, que cuidava de Bethalie, adormecida e relaxada. A mãe recente lhe contou que Carol estava nos portões, ajudando os sentinelas da comunidade a aprenderem algumas técnicas de defesa pessoal básica, para serem utilizadas tanto contra cadáveres ambulantes quanto para se protegerem de pessoas hostis. Só voltaria à noite.

Para se distrair, o rapaz falou que poderia cuidar da bebê. Disse a Maggie que saísse para descansar e fazer algo para melhorar a cabeça cansada. Tinha uma aparência exausta. Muito acontecera nos últimos dias. Talvez quisesse visitar o túmulo do marido. Ela o abraçou, agradecendo em um sussurro suave.

Maggie Rhee lhe deu algumas instruções e logo saiu. Sozinho com a neném adormecida, Tucker se viu visitado por seus pensamentos aflitivos em pouco tempo. Colocou a criança no berço e decidiu entrar no quarto que Carol e Maggie dividiam, para abrir uma das janelas e refrescar o ambiente e sua mente atormentada.

Ao entrar no aposento pequeno, contendo duas camas em cada canto, mal separadas por alguns centímetros de distância, ele teve uma grata surpresa. Seu peito se encheu de ternura ao vê-la ali, bem exposta, com seus próprios olhos.

Carol mandara emoldurar o desenho que ele fizera dela, colocado em um retrato de cabeceira. Conseguira guarda-lo, mesmo depois de todo aquele caos contra o Exército de Hashimoto. E não só o mantivera consigo, como cuidara dele com todo o zelo, como se fosse mesmo uma preciosidade.

Tucker deu um sorriso emocionado. Lembrava-se bem das circunstâncias que o levaram a fazer aquele desenho. Uma despedida especial para ela, que se tornara aquela pessoa tão especial para ele. A mulher por quem ele se apaixonara, depois de achar que perdera a capacidade de vir a sentir aquilo por alguém.

Eu amo você. Tucker pensou, se dando conta disso enfim. Sentiu lágrimas se formarem no canto de seus olhos, mas logo as secou com a manga do casaco. Voltou a atenção para Bethalie, que soltara algum suspiro no berço. Ele embalou a bebê, que logo pegou no sono outra vez. Não demorou muito, e Maggie estava de volta, agradecendo o arquiteto pela ajuda.

Ele se despediu dela, e, com a consciência que tomara, lhe veio outra decisão.

Tucker Hayes procurou por Gaspar Sandoval, até encontra-lo conversando com alguns dos ferreiros. O mexicano lhe abriu outro sorriso empolgado, mas ele nem deu tempo do latino dizer nada.

— Vamos fazer isso. Eu topo.

Cathy fora o primeiro amor de sua vida, mas talvez Carol fosse o último.

****

Seu corpo adormecido rolava pelo colchão, se ajeitando inquieto pelas cobertas. Dormia, mas seu sono estava agitado, como todos os seus últimos dias. Deitada de bruços, suas pernas se moviam, sem descansar.

— Psiu! Acorda!

Ela piscou os olhos, desperta por uma voz murmurada nervosa que vinha do vão semiaberto da porta. Girou o corpo rápido, se erguendo pelos cotovelos e acendendo a luz do abajur em uma mesinha ao lado da cama.

— Quem está aí? — interpelou, também ansiosa. Seu coração se pôs a bater descompassado em seu peito. Mal saíra do estado adormecido e já estava de todo alerta, cada um de seus músculos enrijecidos.

— Sou eu. Meredith — a voz feminina sussurrou urgente. — Vou te levar para ver seu namorado. Se você quiser — adicionou, no mesmo tom apressado.

Os dentes salientes de Mavelle Berry se pronunciaram ao passo que ela abria seus lábios, impulsionada a seguir a outra mulher. Porém, e se fossem descobertas?

— Temos só alguns minutos. As escadas de emergência até o corredor onde ele está estão sem patrulhamento. Mas não vão ficar assim por muito tempo. Se quiser vir, tem que ser agora — alertou-a, e Mavie já estava de pé. Vestira um pijama masculino antigo para dormir, o que havia de limpo naquele armário que não era aberto há tempos. Nem se dignaria a trocar de roupa. Não importava.

Daryl fora escorraçado por Negan na manhã do dia anterior. Quase morrera. Sem suportar tamanha tensão acumulada, Mavelle tivera uma crise aguda de pânico, o que a forçou a começar um tratamento com um medicamento calmante. Suas vidas estavam por um triz, e ela não perderia tempo. Todos os seus esforços, agora, residiam em ajuda-lo. Faria o que fosse necessário, por ele.

— Você tem certeza? — Mavie perguntou, assim que tomou mais um comprimido de ansiolítico. O médico lhe dissera que não esperasse os sintomas de ansiedade se agravassem para se medicar. E ela não poderia se permitir se auto sabotar, podendo correr o risco de colocar o sucesso daquela investida a perder se não estivesse suficientemente segura.

— Tenho. Venha comigo — a mulher ruiva garantiu, indicando o caminho para Mavelle. — Eu vou ficar de tocaia na entrada. Se por um acaso algum deles se adiantar, sei onde podemos nos esconder sem sermos vistas — afirmou, e Mavie apenas acenou em conformidade com a cabeça.

As duas desceram as escadas de emergência, seguindo até o corredor dos presos. Berry percebeu que se tratava de uma espécie de masmorra improvisada, como as que vira nos castelos medievais que já visitara em sua terra natal. A umidade, a temperatura fria e o mau cheiro constante eram muito parecidos.

O coração da garota irlandesa se apertou enquanto caminhava a passos ligeiros e silenciosos na direção da cela na qual Daryl estava trancado. Meredith a avisou por sinais gesticulados que esperaria na ponta do corredor. Mavelle respondeu com o rosto dizendo que compreendera, e se agachou, se encostando na porta pesada fechada.

— Daryl? — sussurrou, e sentiu a voz embargar assim que disse seu nome. Queria conseguir arrastar aquela porta para longe para libertá-lo. Para ampará-lo em seus braços e lhe dizer o quanto ela lamentava por tudo.

O quanto o amava, mais do que tudo. Mais do que todos.

— Esquila? — aquela voz tão amada lhe murmurou de volta, fazendo as lágrimas descerem grossas por seus olhos. Mavie espalmou as mãos na porta de metal, como se assim pudesse ficar mais perto dele.

— Sou eu, meu amor. Estou aqui. Estou aqui com você — ela falou com urgência, empurrando as mãos e o corpo contra a porta, por instinto tentando tocá-lo.

— É perigoso. Você precisa sair — Dixon respondeu apressado, e Berry reparou que a voz dele saiu falha, mais rouca do que de costume. Deveria estar comovido também.

— Eu vim falar com você. Está seguro. Tenho cobertura — assegurou, mas Daryl não pareceu convencido.

— Pode ser uma armadilha. Sai daí, por favor — ele pediu com ainda mais urgência, o que fez as lágrimas dela descerem ainda mais intensas.

— Não se preocupe. Eu juro pra você. Temos aliados, Daryl. Vamos fugir daqui. Nós dois. Vamos conseguir, eu prometo — jurou a jovem irlandesa, as palavras saindo de sua boca com tanto afã quanto o pranto que manchava seus olhos de avelã-esverdeado.

— Mavie... — Ela reparou que ele usou seu apelido. Quase nunca a chamava assim. O nó em seu peito estava tão apertado que ela achou que pararia de respirar. — ...Eu só quero que você fique bem — articulou em poucas palavras. Ela entendeu. O arqueiro não era eloquente, mas a sinceridade de sua fala, a emoção em sua voz... Tudo isso lhe entregava o que ele não conseguia formular em frases.

— Vamos ficar, nós dois. Eu prometo. Eu te amo muito — declarou-se mais uma vez. Ele já sabia daquilo. Mas era preciso que a garota ressaltasse o quanto o amava, sempre. Ainda mais quando ele sofria tanto.

— Eu sei. Não se preocupe comigo, Esquila — disse o caçador, e ela não pôde conter um soluço.

— Não chora — Daryl pediu, outra vez sua voz soando com uma rouquidão enternecida.

— Não estou chorando mais — mentiu ela, secando as lágrimas sem jeito.

— Temos que ir — Meredith murmurou ao longe, caminhando na direção dela.

— Eu sempre estarei com você, Daryl. Sempre — Mavelle prometeu, ao passo que a esposa ruiva de Negan chegava perto do casal separado pela porta de metal.

— Eu também — o homem que ela amava lhe respondeu rápido, o que a surpreendeu.

Aquilo era, por si só, uma declaração de amor.

Meredith teve de levar Mavie para longe do caçador arqueiro, a puxando para um quarto vazio que havia em um corredor mais habitável daquele mesmo andar subterrâneo. Quase aos tropeços pela pressa, ambas se esconderam embaixo de uma cama de casal em um quarto a portas fechadas.

A irlandesa escutou o som de passos do lado de fora e algumas vozes risonhas, parecendo falar enrolado. Alterados. Vigilantes entorpecidos aquela hora da madrugada.

Mavie ainda sentia o eco das palavras de Daryl em seu coração. Seu peito estava quente, e ela se sentia embalada pelo sentido do que aquilo significava. Ele a amava também. Era inegável.

— Redmond “batizou” a quentinha deles sem que eles vissem. Pedi a ele que me ajudasse nisso para que você pudesse confortar seu namorado — confidenciou a mulher ruiva. Mavie a fitou, surpreendida pela generosidade. Ainda mais vindo daquele homem que ela desprezava. Só assim parou de pensar em Daryl para prestar atenção na moça ao seu lado.

— Estão chapados. — Ela deu um sorriso debochado que Mavelle teve de retribuir. — Mas vamos ter que ficar escondidas aqui até a troca de turnos. Aí poderemos sair sem que nos vejam — esclareceu, e Mavie concordou.

— Você fez muito por mim hoje. Muito obrigada — admitiu a irlandesa, mostrando gratidão.

— Não fiz mais do que a minha obrigação. Eu sei o que você está sentindo — Meredith afirmou, olhando para a outra garota com orbes carinhosos e repletos de empatia.

— Será que... Esquece — Mavie tentou, mas mudou de ideia no meio da frase.

— O quê? Pode me perguntar — respondeu a mulher ruiva em sussurros baixos.

— Nada.

— Pode me perguntar — insistiu a mulher de cabelos cacheados.

Mavelle engoliu em seco, incerta.

— Já sei... Você quer saber por que eu virei esposa dele, não é? — indagou, astuta. Mavie ficou em silêncio. A falta de resposta demonstrava que era exatamente isso.

— Eu era casada. E tinha um filho pequeno. Ian. O menino mais lindo do mundo. Tinha três anos — contou Meredith, dando um sorriso doce. Seus olhos verdes, porém, aparentavam uma expressão de recordações de tristeza profunda. Mavie se lembrou do filho que teria, se Jeffrey não a tivesse forçado a abortar. Seu estômago revirou.

— Nós viemos para cá bem no começo. Assim que Negan começou a governar esse lugar. Acredite se quiser, ele não começou tão autoritário assim. — Ela suspirou, levantando os ombros, e voltou a mirar os olhos de avelã-esverdeado irlandeses. — Vimos uma chance. Conseguimos sobreviver bem por um tempo. Eu cheguei a acreditar que Ian cresceria em um lugar bom — comentou, enquanto franzia os lábios e entrelaçava os dedos. Esquivou o olhar outra vez, e tirou uma mecha de cabelo que lhe caiu aos lábios. Ao voltar a fitar Mavie, seus olhos estavam lacrimejantes.

— Aconteceu o que sempre acontece. Meu marido se endividou. Negan o forçava a trabalhar como um escravo para pagar os medicamentos de Ian, que tinha bronquite e asma. Eu trabalhava também, mas nunca era suficiente. Meu filho precisava de uma bombinha. E, com a situação tensa dos mortos-vivos lá fora... Ele ficava estressado e tinha crises. Muitas — Meredith continuou, e Mavelle a enlaçou pelos ombros.

— Meu marido morreu em uma missão com os Salvadores. Para aterrorizar outras comunidades. Eu sabia que o que fazíamos era errado, mas era por Ian. Então eu fechava meus olhos. Mas nós pagamos depois. Pelo sofrimento que causamos aos outros. — Os olhos da mulher ruiva já estavam cobertos de lágrimas.

— Meu marido morreu em uma dessas missões. Um morador de outra comunidade reagiu e deu um tiro nele. Foi fulminante, na cabeça, segundo me contaram. Chorei por dias — Meredith assumiu, mal limpando as lágrimas no canto de seus olhos. — Mas o pior veio depois — ela admitiu.

— Seu filho morreu? — Mavelle perguntou, para não obriga-la a falar aquelas palavras. Ela se compadecia da dor da esposa de Negan. Não conseguiria nem imaginar como reagiria se fosse consigo. A mulher alguns anos mais velha do que ela confirmou com o rosto, lentamente.

— Eu virei esposa de Negan assim que meu marido morreu. Ele já queria antes, mas eu resistia. Fui julgada por outras mulheres do Santuário, mas não me importava. Negan poderia me usar do jeito que quisesse, contanto que meu filho estivesse seguro. Saudável — afirmou a mulher ruiva, soltando um lamento agudo, mas baixo, controlado.

— Só que os medicamentos acabaram. Eu implorei a Negan que mandasse missões para achar outros. Meu filho precisava. Eu fiz tudo, Mavie, fiz de tudo para agradá-lo. Você não tem ideia. Eu me sentia suja, tinha nojo de mim mesma, do meu corpo, mas isso era secundário — garantiu a mulher, e Mavelle concordou com o rosto. Jamais a julgaria por isso.

— Eu era a putinha pessoal dele, a que ele mais usava e abusava, porque sabia que de mim conseguiria tudo. Eu jamais o negaria nada. Até que chegou a Callie. E, do jeito dela, porque ele a enlouqueceu... Ela também era tão objeto dele quanto eu. — O estômago de Mavelle revirou outra vez, em ondas dolorosas. Sentiu ainda mais raiva de Calliope.

— E ele não pareceu mais tão interessado em conseguir os medicamentos do Ian. Mandava as missões seguirem, mas não com tanta urgência... — Meredith soluçou de novo. — ...Ele teve uma crise, um dia, antes dos Salvadores chegarem com a bombinha. Morreu sufocado, chorando, chamando por mim e pelo pai. Eu não pude fazer nada. Nada — lamentou-se, e Mavelle a abraçou com força.

— Eu queria morrer. Eu queria me matar. Que nem a Lauren tinha feito. Mas aí vieram a Sherry. A Julie. E elas chegaram tão destruídas... Tão quebradas... Tanto quanto eu. Eu não sei, algo em mim me disse que eu não poderia deixa-las sozinhas. Eu cuido delas, eu cuido das meninas como se fossem minhas filhas. Talvez, para aplacar a dor que eu sinto o tempo inteiro, por causa do Ian — assumiu a mulher ruiva, limpando as lágrimas que não cessavam de cair de seus olhos. Mavie a abraçou por um tempo em silêncio, acariciando seus cabelos cacheados.

— Você é uma mulher muito forte. Uma das mais fortes que conheci. E nós vamos ir embora. Juntas. Vamos conseguir. Você vai viver de verdade. Vou te levar para a nossa casa — falou a irlandesa, olhando fundo nas íris verdes da resistente mulher ao seu lado.

— Pode me chamar de Merry, Mavie — a moça ruiva disse com um sorriso curto, e Mavelle a abraçou outra vez.

— É uma promessa, Merry. Nós vamos embora daqui. Juntas — assegurou-a, e ela enfim a abraçou de volta.

— Juntas — respondeu Meredith, correspondendo com firmeza ao abraço.

Por algum motivo, com a triste história de Merry, a irlandesa se lembrou de sua avó, Annie. De Carol. De Maggie. De Michonne. Das mães resilientes, resistentes, adaptáveis e de coração maravilhoso que havia conhecido. O mundo era cruel. Mau. Podre.

Especialmente com as mulheres, mesmo depois da humanidade ter sido entregue, em todos os gêneros, ao caos dos mortos-vivos.

****

Olhou no relógio pendurado na sala de entrada do Santuário. Eram cinco e meia da manhã. Hora de começar a trabalhar.

Pontual como sempre, já estava uniformizado e com os utensílios que precisaria para dar as diretrizes finais da obra. Caminhou por aquela sala ampla, quase vazia de gente, exceto por um ocasional faxineiro que passava com baldes e rodos.

Ajeitou os óculos em seu nariz adunco, e abriu a porta de correr para sair ao pátio da comunidade. Dwight e alguns homens fumavam em um canto, perto de onde eram guardados os apodrecidos usados para torturar os pobres prisioneiros. Daryl era carregado por um dos capangas do ditador do Santuário para dentro das cercas dos mortos-vivos, onde provavelmente seria forçado a remanejá-los e encaixar um ou outro nas estacas e grades para fazer a segurança da entrada da comunidade.

Ele sentiu sua garganta travar por uma fração de segundo, mas logo se recuperou. Ignorou os grunhidos e os rosnados dos apodrecidos, passando perto deles, mas a uma distância segura. Eles erguiam os braços putrefatos em sua direção, tentando arrancar um naco de sua carne sem sucesso.

Aquilo terminaria logo. Ele se encarregara disso. Não havia chance de seu plano dar errado.

Negan era muito inteligente, mas Redmond era ainda mais.

O tio de Lilah seguiu caminho até a construção da passarela superior acima dos portões, e passou a orientar os mestres da obra dos últimos retoques que seriam necessários. Fortificações e todos os maiores atos para garantir que poderiam utilizá-la nos próximos dias. Em determinado momento, uma jovem mulher se aproximou dele, usando um capacete de obra. Tinha cabelos castanhos ondulados, olhos castanhos e um sorriso simpático no rosto.

— Red... — Ela ia lhe pedir alguma instrução, tendo algumas anotações com desenhos da obra nas mãos, mas Redmond, atônito, arregalou os olhos já naturalmente esbugalhados. Por um segundo, não vira aquela habitante do Santuário.

Mas sim o rosto de Delilah o fitando, e o chamando.

“Tio...”

Pôde ouvir a voz da garota ressoar em seus pensamentos, como se estivesse ao alcance dos seus ouvidos. Redmond levou uma mão ao rosto, estupefato.

— Red, você está bem? — a jovem mulher parecida com sua sobrinha questionou, e ele sacudiu rápido o rosto.

— Sim, claro, o que você quer, Alex? — interpelou. A garota de mesma idade que sua sobrinha tirou suas dúvidas consigo e logo voltou ao trabalho.

Red não pôde deixar de lhe dar um olhar furtivo outra vez. Ela levantou uma das mãos lhe dando um aceno em agradecimento a distância, junto a um sorriso que tanto o lembrou de Delilah.

Foi como se um peso de toneladas caísse em cima de seu peito. Redmond foi forçado a girar nos calcanhares e seguir em outra direção da obra, mas não pôde evitar seus pensamentos. Suas lembranças. A saudade, a preocupação e o amor que sentia por sua sobrinha o invadindo por inteiro.

[...]

Redmond Lewis dirigia seu carro. Voltava para casa depois do enterro de sua irmã, mãe de Delilah. A garota estava no banco de trás, quieta, os dedos encostados no vidro do carro, tamborilando, nervosos. O olhar perdido no horizonte que passava pela janela.

— Lilah, pare com isso, é irritante — ralhou o homem, sem paciência. A menina não parou de tamborilar os dedos, como se não o tivesse escutado.

Estava exausto emocionalmente pelo dia horrível que tivera, depois de anos de sofrimento acumulado pela doença degenerativa de sua irmã, que a transformou em um vegetal humano antes de morrer. Ela morrera sofrendo, definhara até escapar daqueles dias de dor. E Delilah acompanhara tudo aquilo, assim como Redmond, que antes era mais distante da família.

Fora forçado a assumir a guarda da garota assim que sua irmã adoecera a níveis gritantes, incapaz de cuidar da criança. Aquilo o incomodara profundamente. Era um homem que vivia para o trabalho, um engenheiro de uma das maiores empresas de seu estado, respeitado em seu âmbito profissional, invejado por muitos. Não tinha tempo de ser guardião de uma órfã.

Portanto, cansado de tudo o que se tornara sua vida, de tudo o que fora obrigado a confrontar, não teve consideração com o sofrimento da menina.

— DELILAH, PARE COM ESSA MERDA AGORA! Ou eu vou te dar uns tapas para você parar! — ameaçou, virando na direção da garota e freando o carro bruscamente. Ela o fitou, chocada, os olhinhos castanhos arregalados.

Sentiu-se um monstro no mesmo instante. Mas não fez nada para se desculpar. Apenas se virou para o volante e continuou a dirigir.

Seguiram até o velório, Delilah quieta por todo o tempo, assim como Redmond. Lá, uma babá contratada ficou de olho em Lilah enquanto o engenheiro se prestava a receber as homenagens póstumas. De noite, quando todos haviam ido embora, incluindo a babá, Red encontrou Lilah sentada na varanda da frente, desenhando no caminho de terra da entrada com um graveto.

Ele a olhou por cima do ombro e viu que, na verdade, ela estava escrevendo.

“I MISS YOU”

Terminava a curva do “U”, fazendo as letras garrafais com um cuidado zeloso. Red sentiu como se uma mão em garras apertasse seu coração e o arrancasse de dentro de si.

— Lilah... Desculpe-me por ter gritado com você no carro — falou com a voz mais contida. A menina levantou o rosto e o fitou.

— Tudo bem, tio — falou de seu jeito dócil. — Eu fiquei quieta como você pediu. Espero que não tenha atrapalhado. — Piscou os olhinhos castanhos, submissa.

Aquela menina era tão carente. Tão desamparada. Nunca teve um pai, e sua mãe fora arrancada dela por uma das piores doenças degenerativas da humanidade: o mal de Hudson. Tão nova, obrigada a sofrer tanto com uma tragédia daquelas.

— Você não precisa ficar quieta, Lilah. Eu estava errado. Vamos. Vamos subir, está tarde. — Ele lhe ofereceu a mão para que ela se levantasse. A garota aceitou. Mas, de pé, não soltou a mão dele.

Redmond piscou os olhos, surpreso com a sensação de conforto morno que sentiu. Não queria soltar a mãozinha dela.

— Você tem que tomar banho, e antes de dormir eu te conto uma história. Gosta de ouvir histórias? — indagou com um tom de voz calmo, tentando soar reconfortante. Cuidara da mãe dela no último ano que se passara, e mal se dera ao trabalho de conhecer direito aquela menina.

— Gosto — Delilah disse. — Gosto de ler também — contou, ainda segurando a mão do tio.

— Isso é bom. Ler faz bem. Te deixa mais inteligente, sabia? — incentivou-a, e Lilah concordou com o rosto.

Ele a levou escadas acima, e, enquanto a menina tomava seu banho, escolheu algum livro de leitura. Achou a história de Branca de Neve, e resolveu conta-la para a menina. Nada que envolvesse mães seria recomendável.

Colocou Delilah para dormir depois que ela vestiu o pijama, e assim que a cobriu começou a ler. Ao final da leitura, a garota lhe perguntou:

— A Branca de Neve tinha pai? — Franziu as sobrancelhas, curiosa. Ela ainda fazia essa mesma expressão idêntica, mesmo anos depois, já mulher feita.

— Tinha. Todos temos pai — Redmond disse, em um tom plácido de voz. Lilah desviou os olhos para a cômoda, e depois bocejou.

— Eu não — ela discordou, séria.

— Você tem. Você não o conheceu, só. Mas você pode ter outro, se você quiser — Red assegurou, e se surpreendeu ao escutar sua voz saindo em um tom carinhoso que ele não reconhecia.

— Quem?

— Eu sou seu tio. Mas posso ser seu pai. Se você quiser. Você quer? — perguntou, ajeitando o lençol em cima dela, garantindo que não sentisse frio de madrugada.

— Quero — Delilah respondeu e lhe deu um sorriso enorme. Honesto. Como se ficasse empolgada com a sugestão.

Redmond não pôde deixar de rir. Levantou-se e lhe deu um beijo na testa, de boa noite.

— Então vai ser assim. Pode me chamar de tio. Ou de pai. O que preferir. Durma bem, Lilah — despediu-se, andando até a porta.

— Boa noite, papai — Delilah falou entre outro bocejo. Red se emocionou.

Lembrou-se da morte de sua irmã, de como ela não era mais a mulher que um dia fora, já há um ano. Todo o tempo em que a doença se alastrou, galopante, consumindo sua mente, seu corpo. De como ela conheceu o traste que era o pai de Lilah, que jamais assumira a paternidade e abandonara sua irmã grávida.

De como, apesar de todo essa tristeza, essa menina continuava um poço de ingenuidade. De esperança.

Redmond chorou, de costas para a menina. Levou os dedos as pálpebras, secando o canto dos olhos. Quando voltou a olhar para a criança, ela já estava embalada pelo sono.

E ele, pela confiança e ternura que ela lhe dera, tão honesta, tão pura, tão meiga.

Aquela foi a primeira vez que ele se sentiu pai, e aquele sentimento nunca mais o abandonou.

[...]

— RED! Seu rato velho e esperto! — Negan se aproximava, abrindo os braços, um deles portando Lucille. Simon seguia em seu encalço, assim como muitos outros Salvadores. Pareciam preparados para alguma missão externa.

— Nós vamos dar uma saída, precisamos levar mais um lero com o Rick e companhia — avisou o mandatário désposta, com um sorriso sádico comprido em seu rosto de traços jocosos. — Mas acho que está tudo sob controle por aqui, não é? Puta que o pariu! — Apontou com o taco de baseball para a plataforma que Redmond construída.

— Olha só essa merda! Isso que eu chamo de trabalho de engenheiro! Uma porra de uma passagem moderna, fodidamente foda, que vai ajudar e muito as nossas defesas! — enalteceu-o em seu linguajar truculento. — Você realmente foi uma adição e tanto, rato. Tenho que admitir. — Segurou em um dos seus ombros com a mão livre. — Sabe, eu odeio gente língua solta. Minha vontade era mesmo de fazer a Lucille calar sua boca depois de descobrir o quão covarde você me pareceu ser, mas não é que você tomou jeito? Está trabalhando como um expert! Que eficiência do caralho! — Apertou o ombro que tocava, outro sorriso enorme se plantando em meio a sua barba rala. Seus olhos escuros faiscaram, repletos de exultação.

— É bom saber que estou agradando — respondeu Redmond com polidez fingida, mas que parecia honesta.

Negan deu uma risadinha seca e alguns tapas nas costas do homem de óculos.

— Está mesmo! Já mandei um grupo de busca por sua sobrinha, é bom que saiba. Vamos acha-la e cuidar dela como uma princesa. — Red lhe deu um olhar aturdido. — Não se preocupe, ninguém vai tocar nela. Senão eu castro o filho da puta com essa minha maravilha aqui. — Girou Lucille em seus braços.

— Obrigado — agradeceu com a mesma voz de falsa cordialidade.

— De nada! Continue com o bom trabalho, só vai lhe render mais frutos. — O homem de olhos escuros caminhou até o de olhos esbugalhados. Suas feições debochadas, agora, denotavam um misto de sagacidade e zombaria. — É muito bom saber que você decidiu pela lealdade para o lado certo — enunciou a frase devagar. Soou como uma ameaça clara.

— Pode ter certeza disso — Redmond disse por sua vez, sem vacilar ante o olhar perscrutador de Negan.

Ele pareceu satisfeito. Deu mais uma risada, desta vez alta, e se curvou em uma postura animada.

— Vamos pegar a estrada, pessoal! Fat Joey dirige, é o único jeito desse gordo de merda parar de comer por um minuto! — debochou, fazendo alguns de seus homens rirem.

Conforme o governante autoritário daquela comunidade se afastava, Redmond rememorou a frase que acabara de proferir.

Pode ter certeza disso. Minha lealdade sempre esteve e estará com a minha filha. Com o que for preciso para cuidar dela.

A moça que lhe lembrava de Delilah outra vez passou perto dele, e o viu a fitando. Deu-lhe outro sorriso jovial e seguiu caminho. Redmond fechou os olhos, sorrindo para si mesmo um sorriso breve.

Vamos nos ver logo.

Tinha o rosto de Delilah muito claro em sua mente. O seu sorriso, e não o daquela moça.

O mundo não parecia um lugar tão ruim quando Delilah sorria. O mesmo sorriso que ela sempre teve e teria, até depois de moça. O sorriso que estava por trás de cada uma de suas ações, e que, para ele, sempre fora e sempre seria maior do que qualquer julgamento alheio.

Amava aquela menina mais do que amava a si mesmo.

Notas finais
*Vámonos: em espanhol, um "vambora". ~ Tucker é muito fofo. Essa Trudy que apareceu agora vai ter uma boa importância nesse arco final da história, da saga contra o Negan. O que esperam dela? Tão lindo esse menino percebendo que ama a Carol. Um fofo. ~ Mavie, sua maravilhosa. Eu quase chorei escrevendo a sua conversa com o Daryl. Tudo melhora pra vocês. Pode ter certeza disso. E a Meredith é uma linda também. ~ Redmond, seu babaca. Você não presta, mas o amor que você tem pela sua sobrinha é sua qualidade redentora, aos meus olhos. ~ Reparem que o título é "todos os arrependimentos", porque demonstram os personagens enfrentando seus próprios piores sofrimentos e ações que tomariam diferentes, e tentando consertá-las. Tentando seguir em frente. ~ Imaginei essa atriz lindinha aqui como a Trudy, para quem está se perguntando: http://myhowbook.com/uploads/biographies/1417297161Samantha%20Isler.jpg ~ AGUARDO REVIEWS! =D