Hunter's Instinct

81 Episódio 81 - Game Plan


Notas iniciais
Boa noite, meus lindinhos e minhas lindinhas! É quase véspera de Natal, então podem considerar minha chegada triunfal com um novo "episódio" seu presente natalino dados pela Mentinha aqui ahushushuhe! Não sou Mamãe Noel, mas trago regalinhos pra vocês, viram? Esse capítulo é dividido em três POVs. Mavie, Billy Ray (sei que muitos e muitas estavam com saudades hahahahahaha) e um estreante: Gaspar! Sim, o namorado de Jesus! Estava doidinha pra começar a desenvolver esse personagem! Como adiantei pra vocês quando eles apareceram no final dos "episódios" sessenta, tanto a Delilah quanto seu tio e o mexicano arretado vão ser personagens MUITO importantes na saga do Negan. Apenas leiam e testemunharão! Esse capítulo tem revelações e novos mistérios, sugestões, momentos fofos, reencontros, beijos, e muitos planos mirabolantes. Alguns serão revelados mais cedo, outros só quando concretizados. As peças no tabuleiro de Negan se movem enquanto ele se esquece de que até o mais humilde peão pode ter vontade própria. #NãosomostodosNegan! Quero dedicar o capítulo a leitora Lil Monster, que recomendou Hunter's Instinct! Muito obrigada, sua maravilhosa! Adorei as palavras lisonjeiras e cheias de afeto! ^^ Esses números que não param de crescer (leitores, favoritos, recomendações, comentários) me enchem de gratificação e felicidade! Quem quiser me dar um presente de Natal, fica a dica! Estou aceitando recomendações hehehehehe é de graça! xP Também quero agradecer aos leitores comentaristas do último "episódio": Dixon Girl, Mirah, Sami, Kayle Ammany, marcelammota, Dama de Vermelho, Caçadora, Vivi Costa, En Sabah Nur e Babi Prongs, que sempre comenta por áudio. Vocês me fazem uma pessoa mais feliz, sério. Preciso do apoio de vocês, me deixa MUITO animada para escrever mais e sempre melhorando. Aliás, ganhei de presente de aníver umas renderizações MARAVILHOSAS feitas pela Dixon Girl, que além de artista visualmente é uma ficwriter fodástica! Confiram no tumblr de Hunter's Instinct: hunters-instinct-fanfic.tumblr.com! E confiram os escritos dela aqui: https://fanfiction.com.br/u/130343/ Beijos e boa leitura!

Seus dedos se fincaram no papel, o amassando em uma tira desordenada. Ela levantou os olhos e o queixo para cima, erguendo-se nos cotovelos, seu olhar fitando a parede manchada de fuligem a sua frente.

Recebera um bilhete. Com instruções claras.

“Quinto andar. Escadas. Quatro da manhã”

A jovem mulher travou sua própria respiração. O choque de ler aquela caligrafia torta escrita às pressas a deixou pasma a ponto de passar alguns segundos apenas pestanejando, seus pensamentos fluindo a mil para tentar desvendar quem seria o remetente daquela mensagem.

Antes de poder conjecturar a respeito, escutou batidas suaves à porta do quartinho fechado que lhe fora dado como dormitório. Mavelle Berry moveu o rosto ligeiro na direção do som, retesou a coluna e deixou sua postura de todo atenta.

Talvez aquilo fosse parte de algum plano. Mais alguma tramoia de Negan para lhe deixar ainda mais à sua mercê. Algum teste de resistência psicológica.

Por instinto, Mavie tentou procurar qualquer objeto afiado por perto que lhe pudesse servir de arma, para ataque ou defesa. Já era perto da meia-noite, e fora largada naqueles aposentos sujos e apertados com as ordens de adormecer e despertar antes da aurora do dia seguinte para mais uma jornada exaustiva de trabalho como a “gata borralheira” do mandatário e suas escravas sexuais.

Uma escrava das escravas, ela pensou. Era isso o que aquele homem doentio escolhera para si, depois que contestou sua autoridade de maneira tão aberta e ousada.

Não encontrou nada, então apenas pôde se erguer e recuar por cima do colchão na direção da parede mais longínqua da porta, assim que ela se abriu. Berry anteviu cachos encaracolados de um tom arruivado, mal iluminados pela pequena lâmpada amarelada que pendia do teto.

E logo uma das esposas de Negan se fazia visível, cerrando a porta atrás de si e encostando em sua superfície.

— Desculpa. Devo ter te assustado — a mulher chamada Meredith disse, erguendo uma das mãos em um pedido de desculpas.

Mavelle não lhe respondeu. Manteve a mesma fisionomia alerta, agradecendo internamente seus reflexos rápidos que a fizeram esconder o bilhete dentro da fronha do travesseiro antes que a recém-chegada pudesse vislumbrá-lo.

— Eu só vim aqui para tentar te ajudar... — A mulher de cabelos ruivos acobreados tentou, justificando a súbita aparição. Mavie a estudou dos pés à cabeça, com desconfiança. A entrada dela logo após ter achado a mensagem era estranha. A irlandesa pensou se não teriam câmeras escondidas naquele quarto, por um breve segundo delirante, se lembrando das armações de Jed no Aquário da Georgia. Era impossível, não naquele espaço minúsculo sem nada acoplado nas paredes.

As duas trocaram olhares por algum tempo. Meredith não arredava pé. Pelo visto, continuaria ali até receber uma resposta.

— Por que você faria isso? — Mavelle indagou, sem se mover pela suposta boa vontade da mulher ruiva.

— Porque eu sei como é. Acredite, eu sei... Nós sabemos. A Callie talvez não entenda tão bem, por outros motivos... — Ela desviou o olhar por um instante e depois focou os olhos verdes em Mavie. — Mas é... É complicado. É melhor você colaborar com ele. Você o irritou de um jeito que eu não via há algum tempo — Meredith falou em um tom agourento, o que trouxe um calafrio desagradável na nuca de Mavelle.

— Por que você está aqui? Com ele? — a irlandesa interpelou, tentando mudar os rumos da conversa. A “Pombinha” de Negan entrelaçou os dedos da mão, abaixando o rosto e o erguendo de novo, parecendo mais tensa.

— Porque era o melhor que eu poderia fazer. Não era como se tivesse outras alternativas — acresceu, coçando um dos ombros com suas unhas bem-feitas e pintadas de esmalte escuro.

— Não é verdade. Sempre há escolha — a jovem estrangeira discordou, franzindo os lábios. Sentiu raiva. Aquela mulher era fraca. Aquelas cinco moças se curvaram a vontade daquele tirano, permitindo que ele se convencesse de que realmente era o dono de suas vidas.

— Então você veio para cá por escolha? Porque fez uma escolha que considera boa? — Meredith rebateu Mavie, erguendo uma das sobrancelhas.

— Não foi uma boa escolha. Mas foi a mais acertada que eu poderia fazer — a irlandesa afirmou, fechando ainda mais suas feições.

— Foi exatamente o que eu quis dizer — respondeu a mulher ruiva, fitando Mavelle com um olhar piedoso. Aquilo a enfureceu ainda mais. — Olha, sobre os seus brincos... Acho que eu consigo te devolver daqui a um tempo. — Os olhos verdes da mulher de cabelos encaracolados ganharam um tom ainda mais empático.

Mavie Berry passou os dentes da frente pelo lábio inferior em um movimento irritadiço.

— Não tem importância — mentiu ela. — O que você realmente quer comigo? — Deu a mulher alguns anos mais velha um olhar fuzilante.

Meredith lhe dirigiu um pequeno sorriso compassivo.

— Eu já disse. Te ajudar. Eu estou aqui há dois anos. Sei como lidar com ele — garantiu, mantendo a expressão gentil.

— Não me lembro de ter pedido ajuda — retorquiu a irlandesa, séria.

— Não. E eu entendo que não confie em mim ainda. — A mulher ruiva deu um passo para a frente e Mavelle recuou um pouco. — Sherry e Julie demoraram também. Elas estão aqui há poucos meses. Eram as novatas. Quer dizer, antes de você — informou, voltando a entrelaçar os dedos em um gesto tímido. Sua voz era baixa e frágil, o horrível apelido de “Pombinha” realmente combinava com ela.

— Eu não vou ser uma de vocês — a jovem irlandesa assegurou, sem dó.

Meredith arqueou as sobrancelhas em feições que pareceram ainda mais condolentes. Mavie sentiu a bile lhe subir a garganta, nauseada com a sugestão de se submeter ao assassino de seus melhores amigos.

— Amanhã é provável que a Callie tente seus maiores esforços para torrar sua paciência. Não ligue. Ela tem ciúmes. Quanto menos atenção você der a birra dela, menos ela vai se sentir ameaçada. — Mavelle escutou tais palavras sentindo ondas de asco subirem por seu corpo. Como elas poderiam se sujeitar a isto?

— Acorde cedo, antes das seis, e eu sugeriria que se arrumasse um pouco. Eu tenho maquiagens e produtos de beleza para te emprestar. Vai agradá-lo. Ele gosta que estejamos bonitas — recomendou, e a jovem arqueira quase se sentiu tonta de raiva.

— Eu estou pouco me fodendo — respondeu a irlandesa, ácida, seu sotaque saindo forte pela ira intensa.

Meredith passou a mão direita pelo cotovelo esquerdo em um gesto acanhado. Em seguida voltou a mirar a recém-chegada com olhos indulgentes.

— Eu não queria te assustar... Mas pelo visto vou ter de contar. — A mulher ruiva piscou, parecendo nervosa. — Já teve uma antes de você. “Assistente” pessoal dele. E nossa também — complementou. — Era a Lauren. Ela trabalhou por alguns meses. Negan a queria como esposa, mas ela não aceitou as propostas dele — contou, outra vez entrelaçando os dedos. A garota morena reparou no uso do plural para mencionar as tentativas de aliciamento por Negan da tal Lauren.

— O que aconteceu com ela? — Mavelle Berry não resistiu, teve de perguntar.

— Ela não aguentou. A vida trabalhando por pontos... Pode ser muito dura. — Meredith desviou o olhar. Aquelas lembranças pareciam lhe trazer emoções aflitivas.

— Você quer dizer que ela se matou? — Mavie crispou os punhos.

A esposa do ditador anuiu devagar com a cabeça, voltando a arquear as sobrancelhas. Seus olhos brilharam aquosos por um momento. Ou aquela mulher era uma farsante excelente, ou de fato se solidarizava com os riscos que Mavelle corria.

— Ela tinha um irmão gêmeo. Os dois queriam sair do Santuário, mas como Negan a queria como esposa, tentou de tudo para convencê-la a ficar. Lauren achou que poderia comprar sua saída com um bom veículo e suprimentos trabalhando. Ela era muito dedicada. — Meredith suspirou e continuou. — O problema é que logo seu irmão ficou endividado e ela se viu determinada a pagar a dívida dele. E depois veio a exaustão. É uma rotina pesada, e fraquejamos. E quando vacilamos, a dívida aumenta. É um ciclo vicioso. — Meredith passou as unhas delicadamente por seu antebraço, outra vez esquivando os olhos e depois os repousou no rosto da irlandesa. — Lionel, o irmão dela, morreu em uma das missões externas. Lauren ficou muito abatida. E suas dívidas seguiam aumentando. Deixar o Santuário com segurança era um sonho longínquo. Enquanto isso, Negan insistia que bastava ela querer ser esposa dele que tudo seria perdoado — a mulher ruiva contava, ao passo que arrepios de temor subiam pela espinha da forasteira.

— Ela não suportou — Mavelle terminou a história por Meredith, que de novo apenas meneou a cabeça de maneira afirmativa. A escolha da tal Lauren lhe parecia fazer bastante sentido. Se tudo desse errado, se ela falhasse e Daryl falecesse... Era melhor morrer do que se submeter ao assassino de Glenn e Tara. Ao torturador de Daryl.

— Ela não tinha mais nada. Negan quer você como esposa, então ele vai repetir o que tentou com a Lauren. Se você agir do jeito que ela agiu, como você quer agir — A mulher de cabelos encaracolados apontou para Mavie e logo voltou a falar — não vai resolver. Até porque você tem outra pessoa envolvida, como ela tinha. É melhor você jogar o jogo que Negan cria estando consciente dele, de como funciona. Porque ele continua, e você faz parte, querendo ou não — aconselhou, dando mais um passo para perto de Mavie. Ela não recuou.

— Eu não vou virar uma escrava sexual — a caçadora asseverou, e Meredith baixou a cabeça, crispando os lábios. A irlandesa não se comoveu.

— Sherry está ficando deprimida. Eu me preocupo com ela. Ela tem uma história parecida com a sua também. Está aqui para proteger Dwight, o marido dela. — Os olhos verdes da “Pombinha” do miliciano fitaram a irlandesa em um olhar significativo.

Saber que aquele capanga odioso do líder do Santuário tinha uma esposa que se tornou esposa de Negan lhe trouxe ainda mais repulsa.

— Sempre vai nas escadas de emergência fumar por horas, sozinha — comentou, mantendo as feições caridosas. Mavelle atentou para a menção a escadas diferentes das principais, que subira naquele dia. Talvez aquilo fosse uma pista?

— Não se pode culpa-la — ironizou a garota morena, ainda reservada.

Meredith expirou, parecendo impaciente.

— Eu sei que você quer resistir. Mas você não precisa fazer isso de uma forma burra — a mulher ruiva disse, sem mais se preocupar em ser delicada. — Quanto mais você contrariá-lo, mais ele vai insistir. É como uma caçada, uma perseguição de gato e rato. Você veio aqui para proteger seu namorado, não foi? — Meredith deu mais um passo para perto de Mavelle. Ela manteve seu olhar insistente.

— Pense nele então. Fique atenta aos sinais. Você não está sozinha — a mulher de cabelos encaracolados pareceu finalizar seus conselhos. — Eu vou deixar algumas coisas para você na mesa de centro da sala — avisou, virando de costas e caminhando até a porta.

— Sinais? — Mavelle indagou, quando a moça ruiva já tinha as mãos na maçaneta.

— Colabore. Colabore para se proteger, e protege-lo. Quando eu descobri isso, já era tarde demais — confidenciou em um sussurro, de costas para a irlandesa. Abriu a porta e saiu, deixando a garota de dentes proeminentes sozinha com muitas reflexões a fazer.

Mavie passou a roer as unhas, olhando para o travesseiro que escondia o bilhete. Não conseguiria dormir. Passou as horas que restavam até as quatro da manhã remoendo as palavras de Meredith. Ela falou em sinais, e que não estava sozinha. Isso seria uma sugestão de algo? De um motim planejado contra Negan? Talvez suas esposas não fossem marionetes tão obedientes assim?

Perto da hora marcada, ela se levantou. Foi até a pia no banheiro anexo ao quarto abafado, pisando na barata que ainda se arrastava pelo chão, para descarregar a frustração. Abriu a torneira e molhou o papel, o rasgando em muitas tiras até que ele se desfez e entrou pela tubulação. Era melhor não deixar nada que pudesse incriminá-la.

Caminhou para fora dos aposentos com cuidado, seus passos praticamente inaudíveis pelos corredores escuros. Ela sabia onde ficava a escadaria principal, mas desconhecia a saída de emergência. Como o prédio era industrial, supôs que não seria complicado acha-la. Tentou as extremidades do prédio, primeiro a esquerda, não encontrando nada, e quando investigou os corredores a direita, encontrou uma porta amarelada com um sinal “EXIT” no que seria uma ala aos fundos.

Tateou a barra de empurrar no escuro, e adentrou corredores ainda mais desalumiados. Provavelmente o governante miliciano exigia que as luzes de emergência fossem desativadas para poupar energia elétrica, como o líder do Oceanário de Atlanta costumava fazer. Assim, cega em meio a escuridão, a garota percorreu os degraus segurando no corrimão para controlar o som dos passos, sem topar com vivalma.

Desceu até o quinto andar, e o patamar estava vazio. Estava tão escuro que a antes moradora de Alexandria não conseguia ver sua mão segurando no corrimão. Um torpor de medo começou a tentar tomar o controle das emoções da irlandesa. Ela logo se sentia arrependida de ter seguido as orientações da mensagem misteriosa. Talvez fosse mesmo uma armadilha, algum esquema de Negan para atormentá-la mais.

E logo a porta de correr defronte a ela se abriu. Mavie controlou uma exclamação de susto, voltando o rosto na direção de quem entrava. Não reconheceu quem era, vislumbrando nas trevas apenas uma silhueta poucos centímetros mais alta do que ela.

A pessoa indiscernível se aproximou rápido demais, tapando a boca de Mavelle com uma das mãos antes que ela pudesse reagir. Uma luz de lanterna foi acesa pela mão livre de quem vedou seus lábios, e ela comprimiu outra exclamação, agora de fúria e surpresa.

— Não grite. Se nos encontrarem aqui será terrível para você. Eu vou dizer que a trouxe aqui para provar que você não é digna de confiança. Acredite, minha palavra vale mais do que a sua por aqui.

A voz controlada, firme e ominosa de Redmond Lewis quebrou o silêncio, seus olhos azuis naturalmente arregalados mergulhados cuidadosos nos de Mavie.

Ele tirou sua mão abominável dos lábios da irlandesa, a erguendo em um gesto de quem pede paz.

Mavelle limpou a boca com as costas da mão em um gesto tanto infantil quanto propositadamente agressivo. Red não pareceu se importar, mantendo o mesmo olhar seguro.

— Fui eu o autor do bilhete — Lewis declarou, a voz baixa porém clara. — E essa será a primeira e última vez que nos encontraremos assim — testificou.

— Pode ter certeza disso — Berry respondeu em um tom irritado e sarcástico.

— Você sabe da minha sobrinha? — perguntou, e ela não teve dó.

— Não. Provavelmente está morta — disse, fechando as mãos em punho. Só não começou a agredir Redmond para não chamar a atenção de ninguém que pudesse flagrá-los ali.

Ele baixou os olhos para o chão, seu olhar decidido vacilando por um momento, e depois fitou a garota irlandesa.

— Ele queria minha sobrinha. Ela foi levada para a base em que fomos escravizados para me manter na linha e depois ser enviada para cá — contou, mas Mavelle não se apiedou. — Eu vi... Eu vi o que ele fez com o seu amigo. E a sua amiga. Ele era pai — Redmond disse em sussurros urgentes, ao passo que Mavie pestanejou, tentando não rememorar por uma incontável vez os assassinatos brutais de seus melhores amigos.

Foi culpa sua também, seu filho da puta — acusou-o em sussurros hostis. Red não desviou o olhar, apenas arqueou as sobrancelhas.

— É por isso que vamos agir — falou usando de um timbre determinado. Mavelle franziu o cenho, desagradada pelo uso de uma palavra coletiva.

— Eu nunca confiaria em um merda como você — a irlandesa retrucou, torcendo os lábios em um esgar descrente da sugestão de Redmond.

— Você não está em condições de escolher aliados que te agradem. Ainda mais depois da estupidez que fez lá na obra — retorquiu, passando a usar ele próprio de sarcasmo. — Eu estou trabalhando em uma saída desde que cheguei aqui. Já tenho um plano, e você pode usufruir do resultado dele, assim como seu namorado. Apenas te chamei para essa conversa para que saiba quem também está contra Negan — assumiu, resoluto.

— Não posso acreditar em você — Mavelle disse, tão dura quanto Redmond.

— Apenas fique atenta aos sinais — repetiu a frase de Meredith. — Se prestar atenção, vai ver que falo a verdade. Você tem duas aliadas só no andar onde está residindo. Elas podem te ajudar a saber como lidar com tudo isso. — Olhou ao redor, e depois mirou a garota de novo. — Observe, reflita e perceberá — instruiu-a, e a garota morena apenas meneou o rosto, incrédula, deixando os lábios entreabertos.

— Que tipo de plano um delator ingrato como você poderia traçar? — duvidou.

— Você vai ver, e logo. Literalmente — assegurou em murmúrios ligeiros. — E pare de agir sem pensar. Tudo o que fizer por impulsividade vai se voltar contra você. Negan é inteligente, provavelmente mais do que você. — A ira da irlandesa apenas aumentou. — Ele vai tentar manipula-la para que você mesma se prejudique. — Mavelle fechou ainda mais a expressão, o que fez Redmond passar uma das mãos pelos cabelos rareando, respirando fundo.

— Escute, isso é um conselho, porque vou conseguir resolver essa situação com ou sem a sua ajuda. Estou te oferecendo uma saída, apenas — falou em um tom condescendente. Mavie teve de se controlar para não esmurra-lo.

— Fique atenta aos sinais. Teremos nossa chance em pouco tempo — reiterou, e a jovem de dentes salientes apenas o fitou da mesma maneira resistente.

Redmond e Mavelle trocaram olhares em silêncio, até o homem mover a cabeça em um gesto afirmativo. Voltou-se na direção da porta de empurrar, e enfim Mavie se moveu.

Deu-lhe um soco robusto na bochecha direita, entortando o maxilar do tio de Delilah por um momento. Ele cambaleou para trás, quase caindo pela violência do golpe, movendo uma das mãos para a parte do rosto ferida. Piscou e a encarou.

— Nunca vou te perdoar pelo que fez — a irlandesa garantiu, dando um olhar impávido para Redmond.

— Acredite, eu também não — ele respondeu com um sorriso enviesado, direcionando a arqueira um último olhar naquela noite. Empurrou a porta do quinto andar e saiu.

****

[POUCAS HORAS DEPOIS DO AMANHECER]

Seu cavalo galopava em um ritmo cadenciado. Estava perto do local que pretendia vasculhar, seus olhos atentos para qualquer movimentação suspeita.

O homem ajeitou o chapéu de vaqueiro em sua cabeça, percebendo pelo vento que soprava e as nuvens que cortavam o céu que em breve uma chuva pesada cairia. Era melhor se apressar.

— Lilah, eu vou entrar pela frente — avisou, voltando o rosto por cima dos ombros. A garota que galopava poucos metros atrás confirmou com a cabeça, guiando o cavalo um pouco desajeitada para pará-lo ao lado do alazão que ele montava. O cavaleiro notou que o animal que parecia ter o controle da direção, e não a menina.

— Eu posso checar os fundos — ofereceu a ajuda, mas o homem teve o ímpeto de negar. Ela estava treinando técnicas de defesa pessoal e ataque há pouco tempo, e considerando seus modos destrambelhados, ele pensou se não seria arriscado à toa.

— Billy, eu posso — insistiu ela, determinada, parando o cavalo e retirando uma peixeira que levava em uma bolsa de pano atravessada.

Billy Ray coçou a barba, indeciso. A garota era maior de idade, e a cada dia que se passava se esforçava bastante para se tornar independente. Tinha aulas extenuantes consigo e com Rebecca para aprender a lutar contra carniceiros, e se proteger de indivíduos mal intencionados. Precisava confiar nela, em seu potencial, afinal de contas, era agora seu tutor. Billy poderia ser alguém protetor em demasia com as pessoas por quem se afeiçoava. Ir por esse caminho costumava resultar em erros, e, portanto, desta vez ele decidiu fazer diferente.

— Tudo bem. Sabe o sinal se der algum rebu* — recordou, e Delilah fez que sim com a cabeça. Logo depois, ele bateu com o calcanhar nas costelas do alazão, indicando que galopasse e pulasse as cercas baixas perto deles. Lilah o seguiu com seu cavalo não tão disposto a obedecê-la. Ela desceu enquanto o animal resfolegava, e teve alguma dificuldade para amarrá-lo perto das cercas. Billy já estava pronto quando ela terminou, e menearam o rosto em um sinal silencioso afirmativo.

Ela contornou aquela loja pela lateral esquerda, enquanto Billy Ray tirava uma pedra do chão e a lançava por uma vidraça quebrada. Aquele lugar ainda fazia parte dos terrenos do Reino, então estava livre de mortos-vivos. Mas era sempre bom conferir.

Não viu sinal de movimentação alguma pelo lado de dentro. Empurrou a porta já quebrada, e logo viu uma comprida sala com estantes e prateleiras reviradas. Inúmeros objetos variados estavam largados pelo piso de madeira, o estabelecimento todo feito em um estilo amadeirado. O piso, as paredes, os balcões e as estantes eram feitos do que parecia ser o mesmo material.

Um quadro negro que pendia do teto, já entortado, tinha dizeres desamparados:

“Loja de Penhores H.Q.”

Billy Ray respirou fundo e passou a erguer com algum esforço algumas das estantes quebradas. Viu troféus, estátuas, instrumentos musicais e outros objetos de valor estilhaçados e caídos pelo chão, alguns em melhores estados do que outros. Não seria tão fácil achar o que queria ali.

Resolveu ir até o balcão onde viu a máquina registradora. O vidro que separava o mostruário de madeira das mãos dos clientes em outra época estava partido.

Mas dera sorte. Poderia até mesmo escolher qual levaria.

Em um pequeno mostruário delicado, todo branco, notou alguns poucos anéis etiquetados com a pedra que portavam. Viu esmeraldas, topázios, quartzos... Até que viu um prateado, com uma pedra rosácea incrustada: “morganita”. Uma breve explicação era passível de leitura na etiqueta.

“Propicia a harmonia conjugal. A pedra estimula o companheirismo do casal e incentiva o amor romântico”

Billy Ray sorriu, passando uma das mãos pela barba. Era aquele. Becky amava cor de rosa, e o relacionamento que tinham sempre foi fundado em uma parceria inabalável. Desde quando se encontraram na estrada, perseguidos pelos Wolves, e Rebecca decidiu deixar seu grupo para trás para que o caçador não servisse de isca.

Lágrimas vieram aos seus olhos, enquanto ele soltava um riso frouxo, tirando o anel com cuidado do mostruário. Ficou imaginando como ela reagiria quando a pedisse em casamento.

— Conseguiu o que você queria? — Delilah perguntou, entrando por uma porta aos fundos. Billy apenas assentiu em um gesto, enquanto ainda olhava para o anel em seus dedos, tentando conter as emoções.

— Ahhhh... Meu Deus, então era para isso! — a garota falou, andando na direção do sulista. Lilah abria um sorriso enorme para ele quando Billy Ray a fitou.

— Acha que ela vai gostar? — indagou, embora tivesse certeza que sim. Feld concordou com o rosto, sorrindo agora apenas com os lábios cerrados.

— Vamos manter como uma surpresa então. — Billy Ray guardou o anel no bolso do casaco de caça que vestia, o fechando com delicadeza. Delilah levantou os dois polegares com outro sorriso animado.

— Confie em mim, cowboy! Sou sua escudeira nessa e em outras aventuras — brincou, e o homem lhe deu um olhar e sorriso simpáticos.

Estava tão emocionado e entretido com seus próprios pensamentos que nem percebeu que alguém os observava, escondido por entre as prateleiras. Seus instintos de caçador foram completamente entorpecidos pela imagem que projetou de Rebecca sorrindo com os mesmos olhos marejados.

Uma sombra se moveu rápido, surpreendendo os dois. Lilah exclamou, e na mesma fração de segundo a pupila de Billy avançou por impulso, erguendo a peixeira firme na direção do intruso que se revelava.

Antes de ser atingido, o bisbilhoteiro conseguiu acercar um golpe calculado na mão da garota que segurava a faca, forçando seu braço direito para baixo. Ela gemeu de dor e derrubou a lâmina no chão, mas Billy já tinha o rifle de caça apontado para o recém-chegado.

O caçador do Alabama piscou os olhos e o reconheceu, um segundo depois.

— Morgan, seu desgraçado, eu quase atirei em você! — Ele abriu um sorriso pasmo, feliz e também surpreso por rever o amigo. Não encontrara ninguém de Alexandria desde que seguira com Rebecca a rota de Peggy e Lilah e as acharam no Reino.

— Ai... — Delilah reclamou de novo, movendo o punho atingido. O homem perito em artes marciais lhe deu um olhar dócil, como se pedisse desculpas.

— Tive de te desarmar, senão você teria me acertado. Seus reflexos estão bons — elogiou, enquanto Lilah se abaixava e tirava sua peixeira do chão. Ela franziu as sobrancelhas, como se ficasse em dúvida se agradeceria ou não.

— Como você entrou aqui sem ninguém do Reino te achar antes? — o sulista o questionou. Morgan coçou a nuca e rebateu com outra pergunta.

— Como um caçador atento como você não percebeu minha presença? — brincou com um sorriso terno. Billy e ele se olharam por algum tempo e o homem do Alabama avançou para lhe dar um abraço.

— É bom te ver — Morgan disse, retribuindo o afeto com alguns tapas nas costas do amigo.

— Digo o mesmo. Boas notícias em tempos pra lá de difíceis... — comentou o sulista do Alabama, respirando fundo e se separando do abraço caloroso.

— Você falou sobre um... Reino? — Jones indagou, encrespando o cenho.

— É... É melhor você ver por você mesmo. Podemos te levar. Rebecca está conosco, Peggy também, mas escolheu morar fora do que seria a... Capital? Poderíamos dizer assim — contou, ao passo que Morgan desviou o olhar, parecendo preocupado. Billy deu uma olhada rápida em Lilah, e percebeu que ela também parecia mais reservada, como se hesitasse em dizer algo.

— Como estão todos? — o caçador perguntou, não mais tão empolgado.

— Eu... A situação está muito ruim, Billy. É por isso que saí de Alexandria para ir atrás de vocês — o homem de cajado disse, e o ar na loja de penhores pareceu mais denso. — Seu tio está vivo — falou, fitando Delilah com olhos compassivos.

— Em Hilltop? — ela perguntou, mas parecia duvidosa. Morgan passou uma das mãos no cajado, abaixando os olhos. Sua expressão já respondia. A fisionomia da menina morena esmoreceu ainda mais.

— Eles o levaram. Daryl também — Jones declarou, e Holloway arregalou um pouco os olhos. Pensou em sua amiga irlandesa no mesmo momento. Deveria estar arrasada.

— Estão mesmo vivos? — o caçador insistiu, e Morgan o fitou.

— Acho que sim. Vimos Daryl ontem. Está... Está trabalhando como você trabalhou, antes — Jones usou de eufemismos enquanto deu uma rápida encarada em Feld. Mencionava o trabalho escravo que ela fazia em uma das bases dos Salvadores.

— Mavie está bem? E Tucker? — Billy não pôde deixar de perguntar.

Morgan respirou fundo.

— Tucker quis ficar em Hilltop. E Mavelle quis ir com eles. Com os Salvadores. Não suportou ver Daryl sendo levado outra vez.

Billy se sentia zonzo por tantas informações ruins.

— Espera... Você quer dizer que se encontraram com os Salvadores, eles levaram Redmond e Daryl, e depois ainda passaram em Alexandria? — interpelou, enquanto o homem de cajado anuía com o rosto. Delilah tinha os olhos cheios de lágrimas.

— A comunidade está trabalhando para eles agora. Como Hilltop. Providenciando suprimentos — afirmou, enquanto Billy levava uma das mãos a testa, incrédulo.

— Rick está aceitando isso? — Não podia acreditar.

— Aparentemente — Morgan disse, erguendo os ombros enquanto ainda passava os dedos pelo cajado, apoiando o peso em outra perna.

— O que o fez ceder? Como ele deixaria levarem os dois assim? — O sulista não se conformava.

— Nós encontramos Negan — admitiu Jones, enquanto Feld levava uma das mãos a boca, os olhos antes úmidos expressando medo. Billy Ray engoliu em seco.

— Ele nos cercou com centenas de homens. Foi uma armadilha. Não podíamos reagir — articulou devagar, como se cada uma daquelas palavras lhe exigisse muito esforço.

— O que ele fez, Morgan? — indagou Billy, temeroso pela expressão sombria no rosto do amigo. Morgan Jones era muito calmo, não se abalava fácil. Ele abaixou os olhos e depois fitou o homem do Alabama.

— Ele matou Glenn e Tara. Com um taco de baseball enrolado em arame farpado. Chama o bastão de “Lucille”. — As feições de Morgan se retorceram em uma expressão dolorosa.

— Jesus Cristo — sussurrou Billy Ray, olhando ao redor da sala bagunçada. Em seguida, Billy reparou que a jovem que o acompanhava naquela tarefa tinha um olhar estarrecido, boquiaberta, enquanto mirava o homem de cajado, que por sua vez ainda fitava o piso de madeira.

Sentiu-se estúpido pelos breves segundos de alegria plena que passou. Tantos derrotados. Tantas baixas. Tantas perdas horríveis. Aquele mundo não lhes dava trégua, e por cada momento de felicidade pagavam um preço muito caro de horror.

— Eles eram tão bons — o homem do Alabama murmurou, sentindo pesar por aqueles jovens. Glenn acabara de se tornar pai. Aquilo poderia ter acontecido consigo. E Billy Ray nem teria a chance de conhecer seu filho.

— Eram — concordou Morgan, ao passo que Lilah tinha as duas mãos perto do rosto, cruzadas, seu rosto em feições claramente assustadas.

A urgência que sentia em pedir Rebecca em casamento apenas aumentou. Cada dia deles poderia ser o último. E ele estava determinado a não perder mais tempo.

— Tenho de te levar até Ezekiel. É o Rei... É o líder daqui — esclareceu, sem mais bom humor algum na voz. Morgan pareceu estranhar, mas logo assentiu.

— Precisamos nos organizar. Acho que o exílio de Peggy vai ter de acabar agora — Billy Ray falou, olhando determinado para Delilah. Ela o fitou de volta, sem compreender.

— Precisaremos nos unir. Eles são muitos. Mais do que o Exército de Wyoming County — ratificou Morgan Jones, olhando para Billy Ray Holloway com olhos cúmplices.

— O esconde-esconde acabou. Vamos resistir — Billy Ray disse, se munindo de coragem, trocando olhares resolutos com os amigos.

Logo seria pai. E se recusaria a ter o mesmo destino que Glenn. Cuidaria de seu filho, nem que tivesse de derrotar outro Jed, outra Hashimoto, ou mil e um Negans.

Ninguém tiraria isso de Rebecca.

Ninguém tiraria isso dele.

****

[DURANTE A TARDE]

Passara o dia seguindo os rastros daqueles dois.

Depois da investida dos Salvadores que Hilltop sofrera na madrugada, decidiram redobrar a vigilância para muito além dos muros altos. Percorreu quilômetros, levando alguns dos melhores cidadãos do Alto do Morro para postos de observação traçados em um perímetro extenso. Recebera ajuda do rapaz novato para aquilo, além de trabalhar neste projeto com seu namorado.

Negan os atormentara recentemente, querendo passar seu recado de maneira clara para seus novos vassalos. Os alexandrinos. Era uma política de demonstração de força a qual ele já conhecia há alguns anos. Quando a situação se acalmasse um pouco, as armadilhas diminuiriam, se ninguém tentasse contestar a autoridade do líder dos Salvadores.

Gaspar Sandoval abaixou o binóculo que usava para se certificar da posição do rapaz e da menina que avançavam rumo a sua comunidade. Seguira sua rota à distância, sabendo que os garotos não faziam ideia de que estavam sendo observados.

Aquilo era um péssimo sinal. O namorado de Paul já não gostava de Rick Grimes por saber que o governante de Alexandria mantivera Rovia trancado em uma cela por um mês. Sabia que fora salvo, por sua vez, pela ação do xerife de atacar a base da cutelaria de Negan, o livrando de seu cativeiro. Mas aquilo não fora o suficiente para perdoá-lo por completo.

E não ter conseguido manter seu próprio filho, um pirralho, dentro dos muros da sua própria comunidade, nem uma garota adolescente que o mexicano não conhecia direito... Era mais uma prova da incompetência do mandatário. Não à toa parecia tão chocado com o poderia do chefe dos Salvadores.

No puede mantener consigo un chico de mierda...** Pensou Gaspar, rangendo os dentes.

Bebeu um gole da água com limão que tinha em sua garrafa térmica, e se aproximou alguns passos, escondido na ampla vegetação desbravada por aquele casalzinho adolescente. Eles pareciam conversar. Não demorou, e logo estavam se beijando.

Gaspar soltou um suspiro exasperado. Decidiu se revelar, levantando um estilingue que tinha consigo. Pegou uma pedra comprida e mirou na árvore ao lado do garoto de tapa-olho.

Ele reagiu no mesmo instante, se separando da menina e apontando uma arma na direção do mexicano. Certamente estava sem balas, pela expressão atordoada no rosto do garoto.

— Se eu quisesse, teria matado vocês dois — repreendeu-os, se aproximando a passos compridos, empurrando o mato perto de si. Carl Grimes o mirou com uma expressão entre o desafio e o desdém. Aquilo irritou o latino. A garota olhava do adolescente ao homem, confusa.

— Não teria — duvidou o garoto, guardando a arma no bolso. Gaspar colocou as mãos nos bolsos de sua calça jeans, dando uma risada debochada.

Chico***... Quer enganar quem que tem munição nessa arma? — Apontou para a pistola. — Nós usamos essa mesma tática de intimidação há anos. Sei que é só aparência — falou, com dó fingida.

— Por que nos seguiu? — perguntou a menina, franzindo o cenho e cruzando os braços.

— Porque achei os rastros. Os Salvadores nos visitaram há pouco tempo — assumiu, enquanto a garota arregalava os olhos. — Não se preocupem. Seu pessoal está bem, continuam conosco — avisou, e suas expressões e posturas abrandaram. — Então cautela é a palavra de ordem do momento. O que vocês obviamente não têm — enfatizou, levantando a mão para apontar o casal.

— Vim trazer Enid. Tomamos cuidado pelo caminho. Você não sabe nada sobre nós — o rapazinho continuou em sua postura arrogante. Gaspar deu outra risada de troça.

. Nada — ironizou, com um sorriso enviesado. — Só que o plano de vocês contra Negan e sus cabróns**** não deu certo — zombou, e Carl deu um passo à frente, seu olhar enfurecido.

Ouviram um som arrastado a uma distância próxima, bem como os rosnados característicos dos apodrecidos. Gaspar se colocou à frente dos dois em uma posição de proteção. O filho de Rick recusou a ajuda, avançando e se colocando ao seu lado.

Por trás de alguns arbustos, cinco mortos-vivos manqueteavam na direção dos três. Gaspar tirou sua faca de trilha do cinto, a fincando direto na têmpora direita do mais perto de si. Os adolescentes, todavia, não esperaram. Puseram-se a atacar os outros apodrecidos, os eliminando com uma agilidade que surpreendeu Sandoval. Eles não eram indefesos contra os mortos.

Apenas ingênuos contra a maldade humana.

— Escutem. Eu não conheço vocês, vocês têm razão. Mas se puderem aceitar um conselho de quem conhece os Salvadores há anos, esse é o pior momento para sair da sua comunidade. Negan está testando a obediência de vocês. Qualquer ato que parecer rebelde vai contar contra. Contra vocês, contra o seu pessoal que está com a gente, contra o seu pai. — Mirou o olho de Carl Grimes com afinco.

— Eu pretendia vir sozinha. Não quis colocar ninguém em risco — admitiu Enid, baixando os olhos. Carl ainda fitava Gaspar com desconfiança, sem lhe dar muita moral.

— Vocês fazem parte de um todo. Precisam entender isso. Negan entende. Ele sabe manipular a coletividade que vocês estão inseridos. Se querem sobreviver a isso, vão ter que aprender a jogar o jogo. Entendem? As regras são outras agora. Não as regras dele. — Apontou para fora da comunidade, em uma direção hipotética de onde ficaria o lar do tirano. — Mas o mundo de vocês é maior. Está maior. E isso não muda. Vocês fazem parte de uma rede de comunidades, querendo ou não. Então as suas decisões têm impacto nos outros. Não afetam só vocês — tentou ajuda-los, e o olhar desagradado que o garoto lhe dirigia pareceu mais receptivo.

— Você falou igual ao Jesus agora. Não ao da Bíblia, o que nós conhecemos — comentou Carl, parecendo curioso. Aquilo trouxe uma emoção terna ao peito de Gaspar.

— Não à toa. Eu e Paul somos companheiros. Namorados — adicionou, dando um sorriso breve, enquanto Carl Grimes levantava as sobrancelhas. Parecia não saber daquilo. Paul e Gaspar não tinham um namoro muito convencional, e por conhecerem os preconceitos da sociedade, não eram o tipo de casal cheio de demonstrações de afeto em público. Tanto por suas personalidades, quanto para se preservarem.

Os adolescentes nada disseram, então o mexicano se pronunciou outra vez.

— Vamos entrar? — convidou-os, e Enid assentiu. O filho do xerife, todavia, não se moveu.

— Eu tenho que voltar — afirmou, estático.

Gaspar lhe olhou e o avaliou. De alguma forma, o garoto parecia insatisfeito. Como se estivesse frustrado com algo. Talvez achasse que encontraria algo diferente ali.

— Não posso te deixar voltar sozinho — respondeu o mexicano. Carl o fitou com o mesmo olhar duro de antes.

— Minha segurança não é sua responsabilidade — o menino quis discutir. Sandoval rolou os olhos, impaciente.

— Vou ter que repetir o que eu acabei de falar? Não entendeu mesmo? — Ergueu os braços, incrédulo. — Se algo de errado acontecer, isso não atinge só você. Atinge todos nós. Você pode não gostar disso, mas o seu pai, a comunidade de vocês, a nossa comunidade... — Indicou com o queixo os muros elevados de Hilltop. — São aliadas. Seja na derrota ou na vitória. Nós honramos nossos compromissos — acrescentou, severo.

Carl não respondeu, mas virou as costas depois de dar um aceno para Enid. A menina balbuciou seu nome, talvez para convencê-lo a ser razoável, mas ele continuou a caminhar. Disse, enquanto seguia caminho:

— Eu não tenho medo dos Salvadores.

Gaspar soltou um palavrão em espanhol.

— Então você é burro mesmo! — Exaltou-se, e depois se voltou para a menina. Ergueu um braço para que ela fosse na frente. Enid seguiu adiante em silêncio enquanto o latino fazia a cobertura dela. Mataram alguns poucos apodrecidos até chegarem na comunidade, e logo o mexicano indicou a ela o trailer onde Maggie, sua bebezinha e Carol moravam. Tucker, o arquiteto jovem de Alexandria, residia em um trailer menor, parado ao lado.

Tinha certo favor para pedir para aquele garoto com jeito de drogado. Mas, antes disso, precisava resolver o problema do filhote de xerife.

Gaspar procurou seu namorado pela comunidade, o encontrando nos portões ao norte. Já estava preparado para sair de novo, mas Sandoval o parou.

— Você tem algo mais importante para fazer. É melhor do que eu nisso — falou, enquanto seu companheiro o fitava curioso.

— O quê? Ser simpático? — debochou, e Gaspar lhe deu um sorriso em resposta, além de um rápido tapa em um dos ombros.

— Não. Aquele garoto caolho, o filho do cabrón de Alexandria — comentou sobre Carl, ao passo que Paul levantava uma sobrancelha pela referência um pouco ofensiva ao menino e o policial. — Estava aqui metido a cowboy trazendo a donzela indefesa. A namoradinha dele resolveu vir morar aqui — resumiu, enquanto Rovia agora passava os dedos em uma mecha de sua barba comprida.

— Carl e Enid? E como você os achou? — perguntou, ainda mais curioso. Gaspar sempre se admirava com a tranquilidade de Paul. Enquanto ele era a parte sangue quente do casal, seu namorado era o lado calmo e conciliador. Apenas o vira perder o controle com as covardias de Gregory, ou naquela noite apavorante.

Quando viram a execução daqueles pobres alexandrinos.

— Achei o rastro deles há quinze quilômetros daqui. Segui-os desde então. O menino teimou, pelo visto é tão idiota quanto o pai, quis voltar sozinho pra casa. Não tinha cordas nem nada comigo, então não pude simplesmente pará-lo no lugar em que estava — foi seu momento de debochar, e Paul apenas arqueou o cenho, refletindo.

— Se você se apressar, consegue rastreá-lo em uns dez minutos — falou quase com displicência. O diplomata o fitou com um sorriso torto.

— Oito — gabou-se implicitamente. Gaspar riu outra vez. Era impressionante como até aquelas interações bobas que os dois tinham o deixavam mais feliz.

— Metido. Dez já está de bom tamanho — provocou, enquanto Rovia ainda se mantinha convencido.

— Você gosta de me subestimar. Sabe que eu sou o melhor rastreador de nós dois — Paul fingiu fazer drama, e Gaspar já sorria de novo.

— É, mas eu sou o ex-jornalista itinerante e latino. Viajei cinco continentes. Quem é mais charmoso? — continuou a brincadeira, e Rovia deu uma risada baixa. O latino adorava aquele som. Paul sorria muito, mas nem sempre ria. Tinha uma risada doce, límpida como sua voz calma.

— Tenho que me apressar. Esse seu papo furado é uma estratégia pra me impedir de achar o garoto em oito minutos — troçou Paul, dando uma piscadela ao namorado. Gaspar ergueu os ombros e as sobrancelhas.

— Pra quem diz que se garante tanto, está parecendo que tem medo de falhar, Cabelão — zombou o latino, descendo os olhos pelos fios compridos de Rovia. Seu companheiro lambeu os lábios e deu outra risada.

— Você é muito chato. Só eu mesmo pra te aturar — debochou, se aproximando do mexicano. Gaspar sentiu vontade de beijá-lo, mas se continha na frente dos cidadãos de Hilltop. Amava Paul demais para expô-lo na frente daqueles preconceituosos.

— Você me ama, Hippie — brincou, lhe dando um olhar semicerrado, mais sedutor. Paul sorriu, interessado.

— Você também, Che — fez a troça e se aproximou do latino, lhe dando um abraço forte. O mexicano retribuiu, o apertando contra si por alguns segundos. Logo se afastaram.

Vuelve pronto. Te amo mucho***** — falou em espanhol, sabendo que só seria compreendido pelo diplomata. Paul lhe deu um sorriso mais discreto, porém coberto de afeição.

— Eu também — respondeu, e o deu um aceno de rosto em despedida. Gaspar retribuiu, e ficou observando o homem de cabelos longos seguir caminho. Depois de algum tempo, notou um dos idosos de Hilltop o fitando fixamente com uma expressão reprovadora no rosto. Era um dos jardineiros e responsáveis pela colheita. Passava pelos terrenos do portão norte naquele momento, e, pelo visto, ficou prestando atenção na conversa dos dois.

— Boa tarde, señor Arnold! Já foi para la concha de la lora****** hoje? — perguntou em um tom cordial, levantando um dos braços para saudá-lo à distância. O morador apenas ergueu uma das mãos, incerto, sem saber que Gaspar acabara de manda-lo ir à merda.

Depois, aproveitaria o tempo que Paul passaria longe para tentar adiantar um plano que sabia que seu namorado talvez não fosse muito favorável a execução. Era arriscado, e envolvia certa exposição, adicionada a uma leve manipulação dos recém-chegados. Portanto, com as informações que tinha, foi visitar quem atendia seus interesses, e que, para si, parecia o mais facilmente influenciável.

Gaspar bateu na porta do trailer e logo foi recebido. Sentiu o cheiro de cigarro empesteando a pequena moradia, mas não falou nada a respeito.

— Yo, boa tarde — Tucker Hayes cumprimentou Gaspar Sandoval com um cigarro de filtro vermelho na boca.

— Yo para você também — Gaspar respondeu, pestanejando. — Será que podemos conversar? — indagou, dando um sorriso mais gentil.

Tucker abriu um dos braços para gesticular que o latino poderia entrar em sua casa. O mexicano subiu os degraus e fechou a porta do trailer. Hayes indicou uma cadeira de praia e se sentou em outra, disposta defronte ao outro assento.

— Quer um? — ofereceu um cigarro, mas Gaspar recusou. Fumava, mas queria ir direto ao assunto.

— Você trabalhava com o tal Eugene, não é? O cientista? — interpelou-o. Hayes franziu o cenho, o fitando com seus olhos azuis brilhantes. Era um garoto bem bonito. Se não fosse fiel a Rovia, talvez se divertisse flertando a sério com ele e o deixando desconcertado.

— Yeah... Nem sempre, mas algumas vezes. Por quê? — respondeu com outra pergunta, reticente.

— Sendo seu auxiliar, você aprendeu algo sobre química? — questionou novamente. Hayes anuiu lentamente com o rosto, bafejando a fumaça do cigarro que fumava.

— Não muita coisa. Mas por quê? — parecia cada vez mais hesitante em responder.

— Porque eu quero sua ajuda em uma coisa. — Gaspar curvou o corpo mais para frente, cruzando as mãos. Fitou o rapaz com um olhar fulminante. Tucker pestanejou, suas feições confusas.

— No quê, cara? — perguntou o garoto, talvez um pouco acuado pela postura direta e desinibida do mexicano.

— Eu soube que estavam projetando balas. Eu tenho uma ideia parecida — admitiu, e Tucker tossiu.

— Olha, cara, eu não sei o que imagina de mim, mas... — Já se punha a recusar, mas Gaspar não havia terminado.

— Munição mais útil do que materiais feitos com pólvora, Bonitinho — falou com um sorriso para que ele esperasse antes de dizer algo, e o rapaz de olhos azuis cintilantes se calou. Abriu os lábios, surpreso pelo tratamento.

— Huh? — o garoto tartamudeou, espantado.

— Munição envenenada — disse, com um sorriso de canto dos lábios. E Tucker Hayes outra vez ficou silente, o mirando com olhos azuis estupefatos.

Notas finais
*rebu: confusão. **Não pode segurar consigo um menino de merda. ***Garoto, menino. ****seus patifes. *****Volta logo. Te amo muito. ******A boceta do papagaio. Sim, isso mesmo HUSHSHUS é uma expressão em espanhol para mandar alguém a merda. ~ Eu iria colocar uma das imagens perfeitas da Dixon Girl no fim do capítulo, mas estou guardando certa arte Bicky para um certo momento fofolindo. E as artes Davie também serão utilizadas no momento certo, quando tivermos mais desses dois sobreviventes resilientes. ~ Alguns de vocês acertaram o palpite sobre o/a responsável pela mensagem! xP Mas faz parte do estilo dessa pessoinha dizer e não dizer ao mesmo tempo. Pior que a Mavelle não tem muito com o que trabalhar mesmo não. Vai ter de aguardar e observar, como lhe foi aconselhado. ~ Billy, seu lindão. Tô adorando esse homem recomposto, pai de família, organizando a resistência. QUE ORGULHO! Becky, você investiu bem, gata! ~ Confesso que já amo o Gaspar. O que ele tem de implicante tem de badass. Ele vai continuar a se provar tão foda quanto o namorado de agora em diante, ahuahushu! ~ Aguardo os reviews e quem sabe recomendações de presente natalino! =D Não perco as esperanças, ahuushhusheu!