Hunter's Instinct

78 Episódio 78 - Let Me In


Notas iniciais
Boa tarde, meus leitores e minhas leitoras amados e amadas! Como estão vocês, seus lindos, depois de um feriado? Gente, eu sei, não tem nem uma semana que eu atualizei Hunter's Instinct, mas sinto muito, a inspiração tá fluindo louca aqui, então não posso deixar de escrever e postar, é mais forte do que eu. E eu já chego com a notícia de que essa semana vamos ter DOIS capítulos! Sim, dois! Era para ser um só, mas foi aquela veeelha história... Ficou grande pra caramba, então tive de dividir em dois! O roteiro da segunda parte já está pronto, falta sentar e redigir o capítulo em si. Devo postá-lo sábado ou domingo. Sei que muita gente ainda não teve tempo de ler o capítulo que postei semana passada, mas não faz mal, leiam no ritmo de vocês. Só não deixem de me contar o que estão achando, por gentileza! :) Dedico este capítulo a leitora Kayle Ammany, que me surpreendeu comentando no 77 pela primeira vez, bem como favoritando e recomendando a fanfic! GENTE! Hunter's Instinct chegou a casa das vintenas, nas recomendações! *o* Isso é lindo demais! Muito obrigada, Kayle, por todo o afeto que nutre pela minha humilde história, e por toda a sua gentileza! Fico muito recompensada por isso, de verdade. Tomara que isso inspire as literais centenas e centenas de leitores fantasmas a seguirem o exemplo dela ehheeheh! =D Só vão me fazer uma Menta ainda mais feliz! E o capítulo também é dedicado a ela porque é o níver dela, gente! Parabéns, Kayle, muitas felicidades, tudo de bom pra ti, e muitas leituras emocionantes e divertidas pra você, hehehe! =D Agradeço também aos leitores que já comentaram o capítulo passado: Sami, marcelammota, Mirah, Vivi Costa, Kayle Ammany (de novo eheheh) e Babi Prongs, que comentou por áudio, como sempre. Fico muito gratificada de ver que vocês sempre arranjam tempo em suas agendas para ler minhas invenções mirabolantes! Nesse capítulo, temos três POVs: Peggy, Carol e Mavie. Reino, Hilltop e Alexandria. Vamos ver o que aconteceu com a galera enquanto nosso pobre Cupido era torturado. É um capítulo mais de feels, mas acredito que a "sofrência" pelos últimos acontecimentos foi mais suavizada tanto pelo que acontece nos POVs da Peggy quanto no da Carol. O da Mavie... Bem, digamos que é um cliffhanger pro próximo capítulo eheheheh que virá cheio de decisões determinantes! Aquele aviso básico... CONTÉM SPOILERS DO EPISÓDIO 7x02! CONTÉM O PREVIEW DO 7x04 (eu particularmente não considero isso spoiler, mas, vai saber né)! Leia por sua conta e risco! Beijos e boa leitura! Pessoal que ainda não pôde ficar em dia com a história, por favor, não deixem de comentar quando lerem! =)

[ALGUNS DIAS ATRÁS]

O som ritmado dos galopes ligeiros dos cavalos parecia coincidir com as batidas de seu coração. Ela sentiu seu corpo inteiro formigar, tentando fechar os olhos e manter seu emocional estável. Era difícil. A garota sentia como se uma trava fechasse sua glote, em uma desesperada reação corporal à ansiedade que retornava a tomar-lhe os sentidos.

Bastava piscar os olhos que via a imagem já solidificada em sua mente. Por mais que cada vez que fechasse as pálpebras o movimento não durasse mais do que uma fração de segundo, era o tempo suficiente para testar cada mínima porção das forças que ainda lhe restavam. Pouco a pouco, ela sentia sua resistência fraquejar.

Piscou mais uma vez.

Enxergava a imagem quase palpável de Moritz Alvintzi ensanguentado, seu corpo tombado na grama manchada pelo líquido que escorria de seus múltiplos ferimentos. O meio sorriso com que se despediu da vida, e a abandonou naquela clareira desolada.

“Tudo ascende”, ele dissera antes de expirar.

Me deixa ir com você.

Peggy pensou, e sentiu seu corpo escorregar.

Ela caiu para fora do cavalo no qual era levada. Teve apenas breve consciência de que a mulher que a carregava consigo gritou, chamando a atenção do outro grupo de cavaleiros.

Não sentiu dor física alguma quando seu corpo se encontrou em um baque estrepitante contra a grama. Viu sua pele se arranhar, parte de seu braço com alguns poucos cortes, mas nada daquilo a afligia.

Ela quase sorriu ao ver que, perto dela, alguns mortos-vivos se aproximavam.

Me deixa ir com você... Ela novamente suplicou para a imagem de Moritz assassinado, prensada em sua mente.

Os mortos caminhantes avançavam em sua direção, e, próximos dela, os cavaleiros tentavam montar um cerco, usando suas lanças contra os cadáveres mais perto. Ela franziu o cenho, desagradada.

— Peggy! — A garota mais jovem ouviu que Delilah berrou, saltando do cavalo no qual andava de carona com uma cavaleira de cabelos ruivos encaracolados. A sobrinha de Redmond correu até a adolescente, tentando erguê-la do chão. Ela não se movia nem respondia, apenas tinha os olhos fixos nos mortos-vivos.

— Eles não... — Peggy Taylor reclamou, mal balbuciando aquelas palavras, quando reparou em uma casa próxima. Um carniceiro se atirava contra o vidro de uma janela fechada.

Ela pestanejou, e não enxergou mais um cadáver ambulante.

Mas sim Moritz, lhe acenando daquela janela.

Peggy Taylor sorriu com alegria pura. Lágrimas molharam seus olhos, enquanto ela conseguiu se impulsionar de pé com a ajuda de Lilah. Assim que se viu em cima de suas pernas, avançou trôpega até a residência. Delilah não previu o movimento brusco, e não a segurou a tempo.

— Peggy, o que está fazendo?! — a amiga questionou, sua voz aguda, preocupada.

Taylor não lhe dava atenção. Nada daquilo tinha importância. Ela logo estaria com o homem que amava, finalmente. E tudo, tudo o que lhe restava nessa vida de sofrimento... Não passaria de um sonho ruim.

Todavia, quando estava prestes a alcançar o portão, um carniceiro a puxou pelo braço. Peggy movimentou o rosto, sem entender, e um cavaleiro galopando próximo trotou rápido até ela. Perfurou a cabeça do morto-vivo, que soltou a garota. O cavalo, porém, se assustou com a mudança brusca de direção. Ergueu-se nas patas traseiras, e por um estúpido e contraditório instinto de sobrevivência súbito, a menina em luto se afastou dele, temendo ser pisoteada.

Tropeçou nos próprios pés, caindo para trás. Soltou uma exclamação assustada, ao perceber que cairia em cima da cerca da casa.

A cerca branca perfurou seu tronco na altura das costelas esquerdas, fazendo Peggy arfar de dor. Agora, sim, sentia algo além da tristeza que tentava lhe controlar. Ela levantou o rosto, piscando apavorada na direção da janela da casa. Não via mais Moritz. Apenas um carniceiro de meia-idade arranhando o vidro.

Ela proferiu um urro de dor. Sua visão escureceu, podendo apenas ver relances de Delilah chegando até ela, exclamando aterrorizada.

— Peggy, você vai ficar bem! Você vai... — A voz da amiga sumiu, e a visão dela também. Peggy Taylor fechou os olhos, e foi envolvida pela escuridão da inconsciência.

Ela sonhou que estava seguindo Moritz. Ele caminhava por um local bonito, um bosque bem cuidado. Ao redor de ambos, via árvores de um verde brilhante pelo sol da tarde.

— Aonde está me levando? — Peggy perguntou, feliz de se ver com ele outra vez.

— De volta. — A voz gentil de Moritz logo respondeu, lhe dando um breve olhar por cima do ombro. Ele estava poucos passos a sua frente.

— Para onde? — ela novamente inquiriu. Aspirou o cheiro bucólico do local, e tentou caminhar mais rápido, para alcança-lo. Moritz apressou o passo. Ela franziu as sobrancelhas, sem entender.

— Para onde você deveria estar — afirmou o professor de filosofia, de forma misteriosa.

— Eu estou onde deveria estar. Com você. E depois quero ver minha mãe, meu pai. Aya. Haywood. Meus irmãos. Annie — Peggy disse, começando a se sentir agoniada.

Moritz Alvintzi parou de andar e a olhou outra vez. Peggy Taylor escutou sons discretos de sinos.

— Ainda não, Sininho. Ainda não é a hora — ele falou de maneira definitiva, com um sorriso triste e carinhoso.


A garota acordou, sentindo seu pescoço erguendo sua cabeça em um movimento brusco. Ela respirou pela boca, os lábios entreabertos, arregalando os olhos.

Defronte a cama em que estava deitada, havia uma janela aberta. O sol de fim de tarde banhava partes dos aposentos em que recobrou a consciência, e, do lado de fora, podia antever sinos dos ventos pendurados na varanda, tocando pela ação de uma brisa leve.

Ela pestanejou, movendo o rosto para a esquerda. Viu Delilah sentada, lendo um gibi, compenetrada. Não percebeu que despertara.

— Por quanto tempo eu dormi? — perguntou para a garota mais velha. As mãos de Delilah tremeram e ela esbugalhou os olhos pelo susto.

— Peggy! Ah, meu Deus, que bom... — Arfou. — ...Por dois dias, mais ou menos — disse a outra menina.

— Onde estamos? — Taylor inquiriu Feld, tentando se sentar perto do espaldar da cama. A dor física que sentia em seu tronco não a incomodava mais do que lembrar que estava viva em um mundo onde Moritz não mais existia.

— Vou te mostrar. — Delilah abriu um sorriso discreto. — É melhor do que eu pensava. Billy e Rebecca também vieram parar aqui! Acho que talvez nossa sorte esteja mudando — considerou Lilah, dando a amiga um olhar esperançoso.

Peggy não se sentiu convencida. Ao tentar se ajeitar nos travesseiros, uma pontada lancinante na costela a fez gemer.

— Cuidado, você fraturou uma costela — Lilah lhe avisou, se levantando e ajudando a amiga a se sentar. — O médico disse que você está se recuperando, que poderia ser muito pior. Mas você teve sorte! — A garota mais velha sorriu de novo, dando um de seus sorrisos largos e ingênuos.

— Me ajuda a sair desse quarto — Peggy pediu, olhando em volta. Não queria mais ouvir aquele som de sininhos.

Delilah preparou uma cadeira de rodas que já estava próxima da cama de Peggy. Com cuidado, auxiliou a amiga a se sentar e a levou para fora do quarto, e da casa em que antes estavam.

Peggy Taylor estudava o ambiente a sua volta. Viu o que parecia ser uma comunidade parecida com Alexandria, talvez mais rural e menos moderna. Atestou que havia criações de bodes, de cabras, inúmeras plantações, e construções em um estilo mais rústico, como se o lugar antigamente fosse uma grande fazenda.

— Eles guardaram pra você sua mochila, mas esconderam as armas — Delilah confessou atrás da amiga, a empurrando na cadeira pelas ruas. Passaram por uma construção de madeira protegida por um teto simples, sem paredes em volta, apenas baixos muros também amadeirados. Peggy reparou em um quadro-negro e uma mulher com giz e apagador nas mãos. Ouviu vozes infantis, e se lembrou da escola em Alexandria que foi obrigada a frequentar.

Uma mistura de raiva e tristeza inundou seu peito, a obrigando a respirar fundo para conseguir se conter. Lilah ainda tagarelava.

— Como eles nos ajudaram, eu não discuti. Ficaremos com eles até podermos sair daqui – a amiga de Taylor a explicou. — Acho que deve demorar uma semana, mais ou menos. Aí podemos ir para Hilltop, conseguir notícias de todos. — Peggy percebeu que a voz da garota pareceu menos contente. — Billy e Becky estão preocupados também.

— Que merda é esse lugar?! — a garota mais nova resmungou, revoltada.

— As pessoas aqui, huh... Chamam de Reino — Delilah falou, e Peggy voltou o rosto para ela. Lilah levantou as sobrancelhas, torcendo os lábios. A mais jovem a olhou com uma expressão de descrença, e a mais velha apenas respondeu com feições condescendentes, erguendo a cadeira de Peggy Taylor rampa acima.

Peggy escutou cascos de cavalos, enquanto se deixava olhar alguns pneus em hortas extensas.

— Eles estavam te ajudando, então eu, Billy e Becky estamos ajudando eles também — Delilah mal terminou de explicar, quando um rapaz loiro levando um cavalo com uma criança, um menino também loiro, passou e saudou a sobrinha de Redmond. Peggy viu a garota lhe dar um sorriso animado, do tipo que Taylor um dia teria gostado de aprender, cumprimentando o rapaz em retorno.

— Vocês... Vocês foram idiotas de contar pra eles o que aconteceu com a gente? Sobre quem somos? — Peggy deixou a raiva fluir e questionou a amiga, duvidosa.

— O que quer dizer? — O tom de voz de Delilah parecia um tanto ofendido.

— O que você disse para eles, afinal?! — insistiu a mais jovem, mal contendo a revolta de se ver onde estava.

— Eles nos encontraram assustadas. Sozinhas. Billy e Becky chegaram em um estado pior do que a gente, quer dizer, antes de você se machucar. Eles só contaram que perdemos muitos e precisávamos de ajuda, relaxa. E eu disse que você tem a minha idade. Imaginei que ia preferir que achassem que é maior de idade — Delilah Feld assegurou. — É tudo o que ele sabe — adicionou.

— Ele quem? — Peggy indagou outra vez, preocupada com a inocência estúpida da amiga.

— O cara que lidera isso tudo, quem eu estou te levando pra conhecer.

— Esse “cara” tem um nome? — Peggy Taylor perguntou no mesmo tom trocista e impaciente.

— Lilah? — insistiu, e olhou para a amiga. Ela abaixou o rosto.

— Yeah. Ele... — Peggy percebeu que chegaram em uma construção diferente. Ampla. Delilah franziu a testa e mordeu os lábios, aparentando incerteza. — Eles chamam ele de Rei Ezekiel.

Quê?! — A sobrevivente do Aquário mirou a outrora habitante de Hilltop, boquiaberta pelo absurdo que escutara.

— Yeah... — Delilah parecia sem jeito. Peggy meneou o rosto, levando uma das mãos a testa, como se não acreditasse. Ao abaixar a palma, leu em uma parede branca, no corredor que transpunham:

“A Esperança é a Estrela que norteia. Deixe que ela te guie — R.E.”

— ...Rei Ezekiel... — continuou Lilah, com um riso constrangido. — E... Ele faz uma coisa meio dele. Bem dele, na verdade — a garota alguns anos mais velha do que sua amiga disse, empurrando a cadeira de rodas até chegar em uma sala específica. A porta estava aberta.

— E o que isso significaria? — A irritação fluía dentro de Peggy, tão pulsante quanto a tristeza que deixava todo seu corpo pesado.

— Bem...

Delilah não precisava dizer mais nada. Entraram em um auditório, descendo uma rampa estreita. Peggy enxergou, perplexa, um sujeito vestido com roupas de um estilo ultrapassado, acima do peso, com traços asiáticos, parado com desenvoltura perto de um homem negro, de cabelos grisalhos em dreads compridos.

Ele segurava correntes grossas, que envolviam o pescoço de nada mais, nada menos, do que um tigre. Um tigre, parado a menos de um metro de distância de Peggy, de carne e osso. Tão vivo quanto ela.

— Chegamos! É... — a amiga de Peggy ainda não parecia saber juntar as palavras o suficiente para ilustrar aquela situação pitoresca. — Eu esqueci de dizer que ele tem um tigre.

O homem acariciou o tigre parado ao seu lado. Peggy tinha o queixo caído, e apenas encarava o animal em seus olhos amarelados. O felino a fitava de volta por todo o tempo. O tigre deu alguns poucos passos a frente e soltou um rosnado que fez cada centímetro da pele de Peggy se arrepiar.

— Shiva, chega. A jovem donzela enfrentou muitas provações — o homem de dreads passou a conversar com o animal, que, surpreendentemente, pareceu relaxar de postura. Ainda fitava a garota sentada na cadeira de rodas, porém. — Elas são nossas hóspedes — continuou o sujeito que a tinha em uma coleira improvisada, com sua fala teatral.

— Relaxa aí, S! — Peggy ouviu o sujeito de traços asiáticos dizer.

— Jerry, você é um intendente fiel, mas suas palavras me confundem. Eu entendo sua preocupação, Shiva. Você não conhece Peggy — o homem de modos pomposos falava com a tigresa, pelo visto, pelo nome feminino. A recém-chegada podia apenas piscar os olhos, sem acreditar no que via bem diante dela.

— Nem eu. Mas se ela é amiga de Delilah, Billy Ray e Rebecca — o suposto rei mexeu nas correntes e pôs o corpo em uma postura mais alongada, arqueada para a frente — Devemos considerá-la uma amiga do Reino até que se prove o contrário.

Peggy trocou um olhar incrédulo com Lilah, cujas feições se mantinham um tanto constrangidas. A garota mais nova fitou a tigresa novamente, que ainda não desviara o olhar de si.

— Ela está melhorando graças a ajuda de vocês — Delilah tentou, em um tom agradecido.

— De fato! Agrada-me bastante ver que está se recuperando, Peggy. Eu sou o Rei Ezekiel. Bem-vinda ao Reino — ele disse, munido de afetação tamanha que apenas deixava a garota mais confusa.

Peggy decidiu se manter em silêncio, apenas mirando a tigresa de volta. A felina se ergueu, deu uma volta ao redor de seu rei, rosnando baixo. Mexeu as orelhas, se sentou nas quatro patas, e, em seguida, fixou seu olhar em Peggy Taylor.

— O Rei lhe dirigiu a palavra, todavia, você se mantém silente — o homem atestou, em seu vocabulário simulado. — Por acaso percebo ceticismo de sua parte? Talvez me ache maluco — Ezekiel comentou, movendo a cabeça — Talvez ache que este lugar não passa de uma miragem. Então, me diga... — O tal rei franziu as sobrancelhas.

— O que você pensa do Reino, Peggy? — indagou, e esperou alguns segundos. — O que você pensa do rei? — acrescentou, e a fitou da mesma maneira misteriosa que sua tigresa.

— Eu não sei o que dizer. Honestamente, não sei o que achar — a garota falou, sabendo que poderia até soar cortês, embora não fosse sua intenção. — Eu ficaria sem palavras se já não estivesse falando — disse com ironia, embora não pudesse garantir que o estranho rei entendesse.

— Como Delilah e seu casal amigo já sabem, eu encorajo os que aqui se abrigam a desfrutar de nossa grandeza pelo tempo que precisarem. Contanto que contribuam. Beba do poço, e o reabasteça. Quando estiver bem o suficiente, é claro — afirmou Ezekiel em um sorriso polido.

— Me parece justo — Peggy soltou em resposta, junto a um sorriso amarelo.

— Ezekiel é sempre um “poço” de sabedoria — seu intendente falou, brincando. Ezekiel pareceu o fitar um tanto desagradado pela piada ruim.

— Onde estão meus modos? Jerry, leve para elas! Por favor, aceitem: temos magníficas maçãs, nectarinas, romãs. Tudo cultivado dentro do reino — o rei se gabava, ao passo que sua tigresa mexia as orelhas, aos poucos aparentando maior tranquilidade. Ainda assim, não parava de mirar Peggy Taylor.

— É hora da fruta! – Jerry se aproximou com um cesto, e Peggy se conteve para não lhe dar um olhar desdenhoso.

— Ah... Obrigada, estou bem — recusou, se esforçando para dar um meio sorriso.

— Ora, pegue ao menos uma romã! — Ezekiel tentou, gesticulando.

— Ah, não gosto tanto delas. — Peggy se manteve decidida.

— São frutas doces, cercadas de um paladar amargo. Um tanto contraditórias, mas valem o esforço — Ezekiel ainda parecia desejar convencê-la, usando de um sorriso cortês.

— Estou sem fome, muito obrigada. — A garota mais jovem fez um gesto de abanar o ar com as mãos.

— Se precisar de algo, ficaremos exultantes em poder lhe ajudar. Se gosta de música — as feições do rei se mantinham simpáticas — Temos um violinista cujo talento emociona. E nosso pequeno coral dá espetáculos incríveis — disse, e Peggy apenas meneou o rosto.

— Obrigada. Só preciso descansar um pouco mais — refutou a sugestão. — De qualquer jeito, obrigada, vossa majestade. Devo lhe chamar de vossa majestade, não? — Peggy fingiu entrar no jogo, apenas para sair dali o mais rápido possível.

— Pode — respondeu Ezekiel, as feições afáveis.

— Obrigada, vossa majestade — disse Peggy, sem curvar a cabeça.

— Não há de que, Peggy. Fique bem — falou o rei, e fez um gesto em dispensa.

Delilah empurrou a cadeira de rodas da amiga para fora do auditório e daquela construção. Ao se afastar, Peggy sentiu um formigamento correr por seu corpo ao escutar Shiva rosnar.

Assim que chegaram aos jardins, dois desconhecidos passaram pelas garotas. Lilah os cumprimentou com doçura, ao passo que a garota mais jovem lhes deu um sorriso amarelo. Peggy apenas respirou devagar, enquanto Delilah correu para a frente da cadeira, as mãos unidas como se rezasse para que a mais nova tivesse paciência.

— Olha, eu sei...

Você tá de sacanagem com a minha cara, não é?! — Peggy quase rosnou como a tigresa, furiosa com a outra garota.

— Sei que é bizarro, ele é... Sei lá — Delilah não conseguia se explicar, tensa.

— Chega! Para com isso — Peggy Taylor ergueu uma mão. — Esse lugar... Esse lugar é a merda de um circo — afirmou Peggy, com muita dor por toda essa simbologia. Foi impossível não se lembrar de Moritz. Toda a excentricidade daquilo tudo... Era tão ele.

Tão dele.

— Tudo isso. As pessoas... É tipo um conto de fadas de péssimo gosto! — reclamou a garota mais jovem. — É tudo fingimento, e você... — Peggy apenas balançou o rosto, arqueando as sobrancelhas. Nem sabia o que dizer.

— Eu não vou ficar aqui nem fodendo — Peggy Taylor resolveu, determinada.

— Peggy, essas pessoas... — sua amiga tentava formular uma frase coerente, mas ela a interrompeu outra vez.

— Nem começa, Lilah. Nem tenta — respondeu para a sobrinha de Redmond, ríspida. — Eu vou esperar. E quando você nem ninguém mais puder me impedir, eu vou embora — assegurou a amiga.

— Sabe que eu não posso deixar — a sobrinha de Redmond redarguiu. — Eu vou... — Mas Peggy a impediu novamente.

— Vai fazer o quê? — duvidou Taylor. — Partir pra briga comigo? Me prender em correntes que nem fizeram com você na base dos Salvadores?

Ela percebeu que foi longe demais. As feições de Feld murcharam. A fala da garota mais nova tinha sido covarde.

— Desculpa. Desculpa, Lilah, eu gosto de você, não deveria ter dito isso — Peggy conseguiu se desculpar, a dor, o luto, a raiva, a impaciência, tudo isso perturbando seu emocional. — Mas a decisão não é sua. Eu não quero ficar aqui. Se você quer, vá em frente. Se você quer sair atrás do seu tio, faça isso. Mas esses não são meus propósitos, e você tem de aceitar — reiterou. As duas se fitaram, e Peggy não se abalou pela expressão magoada da amiga.

— Mas eu não posso deixar você morrer sozinha lá fora — Delilah não desistiu. — Eu amo meu tio, mas quando ele traiu todos vocês, ele procurou por isso — ela assumiu, franzindo os lábios. — Vou tentar o meu melhor para salvá-lo também, quando chegar a hora. Mas você é minha amiga, e eu não vou te abandonar. Eu não sei exatamente o que eu vou fazer daqui pra frente, mas sei o que não vou fazer — falou com o mesmo tom decidido da outra menina.

Peggy Taylor soltou a expiração, tentando se conformar.

Lilah um dia entenderia. Ela não passara por tudo o que Peggy passara. Era demais para uma pessoa só. E aquele lugar... Aquele lugar apenas parecia testar mais de sua pouca resistência.

Decidindo deixá-los na primeira oportunidade, a menina que se considerava viúva de Moritz passou os dias apenas acompanhando o dia a dia do Reino, tentando se passar incólume. Queria ser invisível para eles, por isso, tentava ficar sozinha o máximo possível, evitando se integrar com os grupos. De vez em quando se permitia passar um tempo na companhia de Delilah, Billy e Rebecca — esta última quase chorou de alívio ao enfim encontrá-la, prometendo-lhe que tudo melhoraria —, mas podia sempre dispensá-los quando dizia que estava se sentindo fraca e precisava repousar.

Até que chegou o dia ideal. Rebecca e Billy Ray estavam cansados, haviam voltado de uma missão longínqua com o rei, e Delilah parecia entretida em seu treinamento de combate pelo casal, junto a Ben, o rapaz loiro que Peggy conhecera em seu primeiro dia de estadia no Reino.

Naquele momento, a garota da Georgia mirava os dizeres escritos na parede de seu quarto.

“Beba do poço, reabasteça o poço — R. E.”

Maluco de merda, pensou Peggy Taylor, com raiva. Sentada na cadeira de rodas, se fingindo ainda inválida, a adolescente vislumbrou, alguns metros longe, no jardim, Billy Ray mostrando a Lilah como segurar uma facão, e Becky ensinando Ben a manejar seu próprio taco de baseball.

Percebendo-os entretidos, a garota desceu em sua cadeira de rodas para fora da casa. Sabia onde ficava tudo o que precisaria afanar. Foi até algumas hortas, retirando legumes e verduras com discrição, os escondendo em seu cobertor. Depois, passou perto de alguns marceneiros que trabalhavam ao ar livre, furtando algumas lâminas afiadas. Por fim, se punha a mexer em uma pilha de roupas depois de se fingir emocionada, pedindo um lenço para um homem que cuidava do varal próximo, quando escutou uma música conhecida vir entoada de uma janela aberta poucos centímetros a distância dela.

Onde o coral do Reino ensaiava.

“Well, it ain't no use to sit and wonder why, babe

Even if you don't know by now

And it ain't no use to sit and wonder why, babe

It'll never do somehow...”

Peggy deixou a camisa que saqueava cair de volta a pilha de roupas. Seus olhos fitavam o tecido, mas ela não prestava atenção na peça de vestuário.

“When your rooster crows at the break of dawn

Look out your window, and I'll be gone

You are the reason I am traveling on

But don't think twice, it's all right...”

Ela conhecia aquela canção cantada pelo coro de vozes. Conhecia muito bem. Uma das músicas mais famosas de Bob Dylan, o cantor que seu pai amava, que embalou sua infância dourada, tão feliz com a sua família. O musicista que seu pai a ensinou a amar.

“And it ain't no use in turning on your light, babe

The light I never knowed

And it ain't no use in turning on your light, babe

I'm on the dark side of the road”

Lágrimas verdadeiras se formavam em seus olhos amendoados. Lembranças imediatas de seu pai, de sua mãe, de seus irmãos.

De Moritz.

Da noite em que se amaram pela primeira vez, quando ela escutara um de seus discos preferidos de Dylan antes de ser encontrada pelo professor de filosofia em seu quarto.

“But I wish there was somethin' you would do or say

To try and make me change my mind and stay

But we never did too much talking anyway

But don't think twice, it's all right...”

Peggy, finalmente, se entregou ao choro prensado em sua garganta. Soluçou convulsivamente, chegando a ser amparada pelo sujeito que lhe buscara o lenço. Ela não acreditava em nenhuma força superior além do acaso, mas aquilo... Aquilo não poderia ser coincidência.

À noite, segura de si, Peggy já estava pronta para fugir. A música fora como o último sinal para deixar o Reino. Andava discreta pelo pomar, tentando uma saída furtiva, acabando de guardar um pêssego em sua mochila. Seguiu até as romãs, perto dos muros da comunidade. Fitou as frutas, em dúvida se deveria recolher uma delas.

— Sinta-se à vontade, jovem donzela! Pegue uma!

A voz sonora do Rei Ezekiel fez Peggy controlar uma exclamação de assombro. Assim que se voltou na direção dele, uma espécie de luminária foi acesa, uma tocha preparada no jardim. Aquele homem estranho até mesmo surpreendia de maneira dramática. Jerry o seguia, um pouco atrás.

— Este lugar foi construído com o propósito de servir para lazer e estudos — Ezekiel contou em um tom leve, despretensioso. Peggy o fitou desconfiada.

— Eu o transformei em um jardim a altura de nossa grandeza. Ouso dizer que é meu lugar favorito de todo o reino. Fico feliz que tenha visto com os seus próprios olhos antes de escolher nos deixar tão de repente — afirmou o rei, mantendo um olhar compassivo na direção dela. Aquilo irritou a garota.

Geez, yeah... — Peggy disse, se esforçando para não descontar sua raiva nele. — Mas eu não tenho serventia aqui — assegurou, categórica. O rei a mirou por alguns segundos, silencioso.

— Jerry, poderia nos dar licença?

— Se precisar de mim, é só chamar. Estarei por perto. Paz e amor — o homem asiático levantou os dedos em um “v”, afastando-se em seguida. A menina apenas lhe deu um breve olhar descrente.

— Se eu não tivesse topado por acaso com você agora... Como é aquele ditado? — O rei jogou um fósforo aceso em outra tocha preparada para ser incendiada, e depois fitou a garota.

— “Nunca tente enganar um enganador” — falou o homem de dreads grisalhos. — É assim que se diz? — indagou, seu olhar esperto fuzilando Peggy.

— Esse papel discreto, de quem tenta se tornar invisível ao ambiente, que vem fazendo, é bem inteligente. Quase funcionou comigo — garantiu. — Se esconder, conquistar a pena das pessoas, pegar o que precisa delas, e então fugir, como se nunca tivesse passado por lá. — A garota franziu o cenho, um pouco preocupada que ele a tivesse flagrado e lido tão bem. Não era tão menos ingênua do que Delilah, afinal.

— As armas que você trouxe na sua mochila... Algumas delas pertencem aos Salvadores — o homem asseverou, mais sério.

— O que você sabe sobre os Salvadores? — Peggy, agora, tivera sua atenção conquistada.

— Mais do que eu gostaria, infelizmente — ele reconheceu. A garota sentiu uma emoção fervente subir por seu corpo, esquentando sua testa como se estivesse febril.

Desejo de vingança.

— Você os confrontou, pelo visto, e saiu viva. Você, Delilah, Billy Ray, Rebecca — disse Ezekiel — Vocês venceram.

— Vindo parar aqui? — Peggy enfim se permitiu debochar, dando um sorriso sarcástico. Em seguida, andou até um banco próximo, soltando sua mochila de qualquer jeito.

— Isso é engraçado para você? — Ezekiel perguntou, mantendo o tom polido.

— Sim. Você é uma piada. Seu “Reino” também — a garota retorquiu, sem papas na língua. — É o que se faz com piadas e com palhaços, você ri. Ou ao menos tenta.

Peggy fitou suas próprias mãos, se lembrando desolada de Moritz.

— Lá fora. Lá fora é real. Até poucos dias atrás, eu achei que eu poderia ser feliz. Viver nessa fantasia que vocês vivem. Quase me convenci disso. — Ela parou para respirar, mas aspirar fundo não lhe deu alívio. — Está dando a essas pessoas um conto de fadas. E elas vão ser cobradas por isso, assim como você — Peggy garantiu, retornando a se irritar.

— Talvez precisem de um conto de fadas — Ezekiel contrapôs. — Nietzsche diz que nem toda ilusão é ruim. Elas existem para que a realidade possa ser suportável. Todos precisam de escapismo — reiterou, citando “O Nascimento da Tragédia”. Peggy ficou pasma. Ergueu o olhar rápido, seus olhos encontrando os dele.

— Talvez a contradição seja a questão. Aceitar a si mesmo, em suas contradições, e não tentar resolvê-las, buscando uma verdade inatingível. Somos humanos, somos limitados — Ezekiel continuou a demonstrar seu conhecimento da filosofia do pensador favorito de Peggy. Ela tentou se mostrar menos atônita e mais cética.

— E ser o governante de todas essas pessoas te puxando o saco é uma contradição necessária? – ela provocou, ainda surpresa.

O rei caminhou até ela, a encarando com cuidado. Perguntou se poderia se sentar ao seu lado, indicando o lugar vago com a mão. Peggy assentiu, desconfiada, dando de ombros. Ezekiel olhou para as chamas a sua frente, na luminária ardente. A garota, todavia, o mirava.

— As pessoas querem alguém para seguir. É da natureza humana. Querem alguém que as faça se sentir seguras. Pessoas que se sentem seguras são menos perigosas, são mais produtivas. Eles veem um cara com um tigre e pronto. — Ezekiel fez uma expressão de deboche, não mais usando de sua retórica forçada. Seu sotaque verdadeiro era transmitido no que dizia.

— Começam a contar histórias de que ele a achou na selva, lutou com ele e a domesticou como seu bicho de estimação. Eles engrandecem esse cara, o tornam um herói. — O suposto rei fitou a garota.

— Quem sou eu para contrariá-las? — disse, desviando o olhar. Peggy, a contragosto, não podia deixar de refletir acerca de suas palavras. — E sem que eu perceba, começam a me tratar como realeza. Eles queriam, eles precisavam de alguém para seguir, então eu assumi esse papel. Fingi até convencê-los — o homem reconheceu. Ambos se olharam em silêncio.

— Eu era guarda de zoológico. Shiva caiu em um fosso no local em que vivia. Os veterinários já tinham ido embora, estava tudo vazio, mas a perna dela se abriu em uma ferida horrível. Ela iria sangrar até morrer. O som que ela fez... — Ezekiel pareceu conter um suspiro. — Ela estava sofrendo muito. — Fez uma pausa.

— Eu sabia dos riscos. Tinha de tentar. — Peggy ouvia, abaixando o rosto. — Coloquei minha camisa em volta da perna dela, e salvei sua vida. Depois disso, ela nunca mais mostrou nem um dentinho pra mim. — A garota o mirou outra vez. Ezekiel dava um sorriso carinhoso, rememorando tudo aquilo.

— Manter um tigre não é prático, eu sei. — Ele ergueu uma mão, demonstrando que sabia de suas excentricidades. — Ela come o mesmo que dez pessoas. Poderia arrancar a corrente das minhas mãos e morder meu braço fora. Mas não fez isso. — O tal rei fitou a menina outra vez. — Nem fará. Eu perdi muito, assim como todos os que estão vivos até hoje. Quando tudo começou a ruir, eu voltei ao zoológico. Shiva era um dos últimos animais que restavam. Ela estava presa... Faminta, sozinha. — Ezekiel e Peggy desviaram o olhar, ambos agora mirando as chamas acesas.

— Assim como eu.

O rei voltou a olhar para a garota. Peggy logo esquivou de suas íris, sentindo emoções controversas. Queria e não queria continuar aquela conversa.

— Ela era a última coisa viva neste mundo que eu ainda amava. — Peggy podia compreender aquele sentimento. Fitou-o outra vez.

— Ela me protegeu. Me trouxe até aqui, me fez crescer enquanto pessoa. E eu construí este lugar — Ezekiel pareceu terminar de contar sua história de vida.

— Desculpa, mas... Como aguenta encenar tanto? — Peggy interpelou-o, séria. Ela mal conseguia fingir para si mesma que ainda tinha algum norte.

— Eu costumava atuar em teatros comunitários. Interpretei alguns reis — ele riu. — Arthur, Macbeth, Martin Luther — Peggy se surpreendeu rindo à menção jocosa de Martin Luther King. — Mas meu nome realmente é Ezekiel.

Peggy o fitou de novo. Ele se mantinha a encarando.

— Isso é cem por cento verdade. Sem ilusões — ele brincou outra vez, para tentar, talvez, tranquilizá-la em sua companhia.

— Gosta de Nietzsche e de filosofia? — a garota não podia deixar de perguntar.

— Sou um ator. Já atuei em musicais e em tragédias gregas. Eu levava a sério meu hobby. Um ator que se preza tem de gostar dos dois — fez a piada simpática, e Peggy não pôde deixar de dar mais uma risada breve. Nietzsche em um de seus livros mais famosos, “O Nascimento da Tragédia”, defendia a tragédia grega encenada como um tipo superior de arte.

Assim que terminava de rir, porém, seu peito doía. A tristeza não a abandonara.

— As cartas estão na mesa. Nenhuma na minha manga — afirmou Ezekiel, enquanto meneava a cabeça. — Mas gostaria que mantivesse isso entre nós. — Ele apontou com o queixo para os terrenos da comunidade. — Por eles. E um pouquinho por mim também. — Sorriu.

— Eu não me importo. — Ela lhe deu um sorriso de lábios fechados. — Pode fazer o que quiser. — Levantou as sobrancelhas. — Eu só quero ir embora — declarou, em um sorriso cansado.

— Para onde?

Peggy Taylor apenas olhou para o fogo, em silêncio.

— Peggy? — Ezekiel instou.

— Para longe — respondeu evasiva.

Nem ela mesma sabia. Peggy se ergueu do banco, colocou sua mochila nos ombros, e se afastou.

— Eu sinto muito. — A garota ouviu a voz do homem mais atrás, e parou.

— Pelo quê?! — indagou, irritada.

— Por todo o mal que você passou — Ezekiel disse em um tom de voz cheio de empatia que apenas enfureceu mais a garota.

— Há tanto disso lá fora... — ele falou em um tom de alerta afável. Peggy moveu o rosto para fitá-lo, impaciente.

— Até demais. Lá fora, parece que tudo é ruim. Especialmente quando se está sozinho — o homem testificou.

Peggy tinha começado a caminhar, mas outra vez freou. Ouviu o som de passos na grama. Ezekiel se aproximava, atrás dela.

— Mas a verdade... É que nem tudo é ruim. Não pode ser, não é — demarcou. — A vida não é ruim. Mesmo que possa ser trágica — afirmou, outra vez citando Nietzsche. Peggy franziu as sobrancelhas.

— Aonde há vida, há esperança. Heroísmo, graça e amor — Ezekiel disse, e Peggy não pôde deixar de lembrar de Moritz. De tudo o que a ensinara. Fora ele, ele e Aya, aqueles que a ensinaram a amar a vida novamente.

Desistir dela seria o mesmo que desistir deles também.

O coração de Peggy se apertou, enquanto seus olhos novamente umedeciam.

— Onde há vida, há vida. Amor fati. Espero que não esteja tentando se afastar disso — o homem falou da filosofia trágica de Nietzsche outra vez.

— E se eu estiver? — Peggy rebateu, ao enfim se voltar para ele. A expressão de Ezekiel ficou ainda mais branda ao ver as lágrimas nos olhos da garota.

— Você não precisa. Eu construí meu próprio mundo aqui. Consegui passar por cima do que há de ruim ressaltando o que há de bom. Eu aceitei a contradição — ele falou sorrindo.

— Talvez você também possa, do seu jeito. Talvez você possa ir e não ir — sugeriu. A jovem apenas o olhou, duvidosa.

— É, eu sei, eu soo como uma pessoa louca, talvez eu seja. Mas eu acho que eu posso ajudar. Se você me deixar — mostrou-se solícito.

— Por que você liga? — Ela de novo se sentia indignada. Aquilo tudo era muito parecido... Muito similar a algo que já lhe acontecera.

— Porque me faz me sentir melhor.

Peggy não soube o que responder. Apenas sentia seu emocional se dividir, incapaz, porém, de aceitar sua própria contradição.

— Vou juntar suas coisas e chamar uma pessoa de confiança para ir ao portão, então você pode ir e não ir. Veremos se eu sei algo. Ou se é mais besteira — propôs Ezekiel, com outro sorriso caloroso.

— O que me diz? — Mirou-a.

Peggy já tinha sua resposta, por mais que surpreendesse a si própria com aquela decisão.

Foi deixada no dia seguinte na casa em que escolhera residir, onde encontrara o morto-vivo que a lembrara de Moritz. Billy e Rebecca foram reticentes, a princípio, mas acabaram cedendo. Delilah parecia a mais emotiva com tudo isso, mas respeitou a vontade da amiga. Foi encarregada de levá-la.

Peggy prometeu que continuaria frequentando a comunidade, afinal, ainda estava dentro dos limites do Reino. Quando Lilah a deixou sozinha, a garota entrou em sua nova residência. Logo se deparou com o cadáver caminhante. Acabou com sua sobrevida, e, com seus próprios esforços, o arrastou para o jardim, no qual havia um pequeno cemitério. Cavou a cova que não pôde para seu amado, e assim fez um enterro simbólico. Chorou o luto contido, por todo o tempo que durou sua cerimônia particular.

Mais a tarde, decidiu acender a lareira.

Ver as chamas acesas não só a lembrou da lareira no quarto de Moritz, o que partia seu coração já rasgado. Mas também a fez se recordar da estranha conversa com Ezekiel, na noite anterior.

Você me deixou, mas me levou a um lugar que parece ter sido criado por você. Peggy refletiu, dando um sorriso triste para o fogo. Apenas não chorou mais porque não conseguiria. Estava exausta.

Ele se parece com você.

No instante em que teve aquele pensamento inoportuno, ouviu batidas na porta. Virou-se, rápido, as mãos indo até uma faca que tinha no bolso.

Escutou, logo em seguida, um rugido impossível de ser confundido.

Peggy engoliu em seco e andou até a porta. Cautelosa, a abriu com lentidão.

Ezekiel estava parado em trajes mais despojados, com uma romã nas mãos. Ao seu lado, Shiva fitava Peggy, seus olhos felinos penetrantes encarando a garota que, como diria Aiyana... Tinha garras de tigresa.

Segundo sua melhor amiga, o tigre era seu animal espiritual.

— Você realmente precisa experimentar uma dessas — Ezekiel ofereceu a fruta.

Peggy franziu as sobrancelhas, cruzou os braços, mas sentiu sua expressão se abrandar. Sem que percebesse, fora tranquilizada por certa leveza inesperada.

Ele a fitava com um sorriso suave no rosto, que não só demonstrava acolhimento, como a sugestão de um recomeço.



****

[DIAS ATRÁS]

O enterro de Glenn e Tara mal tinha acabado, mas Rick alertara ao grupo que deveriam se preparar para deixar Hilltop.

Os pássaros cantavam na paisagem vespertina daquela comunidade repleta de árvores, rios e construções ídilicas. Trailers e casas modestas, porém hospitaleiras e cômodas, dividiam espaço com a rica paisagem natural do lugar que ela havia passado apenas uma noite. Mas todo aquele ambiente bonito e acolhedor não traduzia o que se passava dentro dos corações alexandrinos.

O que ela sentia, o que tinha de suportar, para fortalecer seus amigos que pareciam prestes a desistir.

A mulher caminhou até Rick Grimes, parado perto do trailer RV que era abastecido com poucas provisões fornecidas por Paul Rovia e Gaspar Sandoval, apiedados pelos últimos terríveis eventos.

— Você vai precisar ser forte.

Carol Peletier avisou ao amigo de anos, que baixou os olhos para a grama, concordando em silêncio. Carl passava perto do pai carregando algumas provisões.

— Se não conseguir conter o emocional deles... Pode ocorrer uma revolta — a mulher preveniu, arqueando o cenho. — As coisas não podem sair do lugar. Estão em terreno perigoso — alertou.

— Eu sei. Você não precisa se preocupar — Rick tentou, mas não chegou nem perto de enganar Carol. Ela segurou em um de seus ombros, procurando lhe passar algum conforto. Ele tocou na mão da amiga, e logo Michonne chegou, avisando ao líder que estavam preparados para sair.

Carol Peletier ajudou Heath a descarregar uma última caixa de mantimentos, e quando a colocou na parte de trás do veículo, escutou uma voz conhecida falar baixo perto dela.

— Hey.

Ela se virou e fitou Tucker Hayes.

— Hey — respondeu, enquanto Eugene dizia alto, a todos, que havia um pequeno problema no motor do trailer, e o repararia o mais rápido possível.

— Vamos entrar? — Tucker tentou usar uma voz calma, talvez para confortá-la. Carol via o quanto ele estava abalado. Tinha os olhos inchados de tanto chorar. Negan deveria lhe parecer uma segunda versão de Hashimoto.

— Eu não vou — ela disse, em um tom de voz mais baixo.

— Hã?! — Hayes tartamudeou, incrédulo.

— Eu disse que não vou. — Desviou o olhar e passou a caminhar para longe do trailer. Tucker pareceu estático por alguns segundos, e logo a seguiu.

— E ia me avisar quando?! — ele se revoltou.

— Agora — disse, sem culpa alguma. Era mais fácil assim.

Tucker tentou segurar sua mão. Carol se voltou para ele, respirando fundo.

— Por que está fazendo isso? — Ele ainda a mirava, descrente, entre a ofensa e a mágoa.

— Porque você tem de voltar. Eles contam com você lá. — Apontou para o RV. — Você é importante em Alexandria.

— Você também!

Ela sacudiu o rosto. — Maggie precisa de alguém. Ela não pode ficar aqui sozinha — afirmou, detendo seus olhos nos olhos azuis do rapaz.

— Mas... — Ela o cortou, impaciente. Não precisavam sofrer mais do que o obrigatório.

— Tucker, eu sou mãe. Maggie precisa de amparo. A filha dela precisa de amparo. Ela não pode ser forte agora. Alguém precisa ser, por ela — certificou, decidida. Deu as costas ao rapaz de novo. Caminhou mais rápido. Tucker, todavia, não desistiu. Ultrapassou-a e parou defronte a ela.

— Você acha que isso é ser forte? — duvidou, deixando seu olhar magoado nos orbes dela. Carol emitiu um riso de escárnio.

— Você está fugindo de novo! — o rapaz esbravejou e depois baixou o timbre. — Você está fugindo de novo — ressaltou, mais controlado. — Porque o que vimos doeu demais. Eu sei. Eu sei — Tucker repetiu, gesticulando, e se aproximou dela. A mulher baixou os olhos para a grama, e o fitou.

— Você está com medo de que isso aconteça de novo — disse, e a olhou com um misto de mágoa, pena e compreensão. Aquilo revoltou Carol.

— Tucker, volte pra casa. Eu tenho que ficar aqui — ela disse, fria, se afastando do rapaz. Fingindo não se importar.

Lembre-se do que você precisa fazer, pensou, não se permitindo sentir a dor que subia ao seu peito. Caminhou até a casa Barrington, entrando no quarto em que Mavelle se despedia de Maggie, as duas emocionadas. A viúva, parecendo emocionalmente destroçada. A irlandesa, à beira do choro, como estivera por todas as horas passadas.

Carol esperou pela neta de Annie no batente da porta. Surpresa, Mavie perguntou o que a mulher queria. Peletier levou Berry para fora da casa, e passou a aconselhá-la:

— Vai ser difícil, mas você precisa continuar firme. Por ele. — Carol Peletier sabia que poderia soar inconveniente, mas conhecia o emocional daquela garota. Era como Daryl. Bondosa e sensível. Não sabia esconder o que sentia.

— Eu sei o que eu preciso fazer — Mavelle Berry retorquiu, um tanto reservada.

— Eu sei que sabe — Carol usou um tom de voz mais afável. — Você ouviu o jeito com que ele falou com você, não é? — se referia a Negan, e sabia que a irlandesa entendera.

— O quê?! — Mavie fechou a expressão, ainda mais áspera.

— Você é esperta. Homens assim, homens como ele — ressaltou — Não desistem fácil do que querem. A resistência alheia é como um jogo divertido para eles. Acham que conseguem tudo. Use isso ao seu favor. É como uma carta na manga. Use isso a favor de Daryl — recomendou. Mavelle encrespou as sobrancelhas.

— O que você quer dizer com isso?!

— Você vai saber. Quando o momento for propício — Carol garantiu, e a deixou refletindo.

A mulher entrou novamente na casa Barrington, ajudando Maggie, deprimida e frágil, a cuidar da filha. Alguns minutos mais tarde, percebendo que o burburinho de pessoas andando de um lado ao outro nas ruas de Hilltop havia diminuído, decidiu sair. Foi até onde o trailer RV de Alexandria estava parado, e, surpresa, não viu nada nem ninguém.

— Eles já foram embora — Gaspar disse ao longe, caminhando com Paul. Carol apenas mirou o casal, e voltou a fitar o lugar vazio onde o trailer antes estacionara.

Carol Peletier sentiu um nó torcer seu peito. Levantou uma das mãos na direção do coração. Percebeu que Tucker se ofendera tanto com sua tentativa de despachá-lo da maneira menos dolorida possível que nem lhe dissera até logo.

Ou adeus.

Egoísta, Carol se xingou em pensamento. Aquela era a forma menos dolorosa para ela. Mas não para ele, pelo visto.

Sentindo-se estúpida, ela percebeu que seus lacrimais umedeceram. Estava a ponto de chorar, virando as costas, quando foi surpreendida por uma voz vinda de alguém que se recostava nas paredes de um trailer afastado.

— Yo! — Tucker a saudou, daquele seu jeito bobo, juvenil, ridículo. Ela sentiu o alívio percorrer cara poro de seu corpo, se voltando na direção dele com um sorriso que sabia também ser abobalhado.

— Demorou, hein? — debochou o rapaz, caminhando até ela. Tinha as sobrancelhas franzidas, mas sorria também.

— Por que você ficou? — Carol perguntou, mas a resposta era óbvia.

Os olhos azuis dele a fitavam com uma mistura de impaciência e afeto profundo.

— Eu vi o que aconteceu com o Glenn e a Maggie. Com o Daryl e a Mavie — elencou, e Carol engoliu em seco. O olhar de Tucker pareceu ainda mais resoluto.

— Enquanto eu estiver vivo, não vou permitir que isso aconteça com a gente. Não me importa se você quiser morar em Hilltop ou na casa do caralho — o rapaz falou, com honestidade esdrúxula. Carol teve de soltar uma risada aliviada.

— Eu não vou ficar longe de você à toa. Meu lugar é aonde você estiver — declarou ele, e os olhos de Carol continuavam marejados, agora, por outra razão. O rapaz se aproximou e a envolveu em um abraço forte, terno, protetor. Ela escondeu o rosto em seus ombros, retribuindo o gesto. Tinha de parar de infantilizar Tucker. Ele era um homem feito, e tinha de começar a aceitar suas decisões. A vê-lo de igual para igual.

Ela sorriu, sem jeito, quando se afastaram, e disse:

— Então é melhor deixar que os cidadãos de Hilltop conheçam seu novo arquiteto.

****

[QUATRO DIAS DEPOIS]

Ela tinha olheiras fundas em seu rosto.

Dava passo atrás de passo, mas mal tinha consciência dos movimentos mecânicos que realizava. Como um autômato, uma máquina programada.

Sabia que tinha uma caixa carregada de produtos alimentícios em mãos. Sabia que tinha de levá-la até a despensa de Alexandria. Sabia que, depois, deveria ajudar a descarregar as outras mercadorias restantes.

Todavia, dava apenas parcial atenção as suas tarefas diárias. Mal dormia. Mal comia. Mal bebia. Fazia tudo do mínimo necessário para sobreviver. Já emagrecera dois quilos em cinco dias, e seu rosto estava pálido, mesmo que saísse ao sol todos os dias, trabalhando até ficar fatigada.

Seus olhos, antes tão costumeiramente vistos em expressões doces, convidativas, alegres e simpáticas, agora estavam sempre avermelhados. Pelos pesadelos, pelo sono mal dormido, pelo pranto contínuo.

Mavelle Berry chorava todos os dias, sem exceção.

Fez um desvio em sua rota. Não poderia passar por aquela rua. A rua em que Daryl a convidara para morar consigo em uma casa apenas para os dois, na semana passada.

Não tinha estrutura emocional para suportar.

Não parecia que fora há tão pouco tempo assim. Rindo, se divertindo, se amando dentro das paredes daquela casa. Pareciam memórias pertencentes a outra pessoa. Não ao caco de gente que se tornara a garota irlandesa.

Contudo, antes que pudesse se preocupar em se obrigar a caminhar adiante, seus ouvidos foram surpreendidos pelo barulho de uma buzina alta, longínqua. Franziu o cenho, olhando para trás. Aquilo era estranho. Rick dissera que Rosita ainda não havia saído com Heath para coletar suprimentos.

Ela deixou a caixa no chão, pouco a pouco compreendendo o significado daquela visita.

Seu coração ribombou em seu peito, e ela abriu os lábios, correndo desenfreadamente até a rua defronte aos portões de Alexandria. Ao chegar ao seu destino, se escondeu perto do tronco de uma árvore, mirando os portões de longe, como um animal acuado.

Rosita estava parada lá, abrindo a porta do carro com o qual antes pretendia sair. Eugene e Heath estavam perto, assim como Floyd, um homem de meia idade, morador de Alexandria.

Devastada, Mavelle apenas vislumbrou, inerte, uma silhueta horrivelmente conhecida se aproximando dos portões, um vulto agourento que caminhava assobiando.

Ele estancou, bradando com humor negro perverso:

Tam tam tam taaaam! — o homem responsável pelo tormento de Mavie entoou uma onomatopéia de suspense. Em seguida, levantou o instrumento hediondo responsável pela morte de seus melhores amigos. Bateu três vezes seguidas nas grades, o ruído reverberando torturante nos ouvidos de Mavelle.

— Porquinho, porquinho, me deixe entrar!

Ele clamou, em uma analogia de deboche cruel: o lobo mau pedindo passagem para dentro das casas de palha e de madeira, que, pelo visto, eram as de Alexandria. Seus tijolos simbolizavam apenas uma falsa resistência.

Se não obedecessem, o lobo iria soprar, até derrubar tudo.

Negan retornara para atormentá-los.

Notas finais
~ O título do capítulo "let me in", é tanto uma ironia com o Negan lobo mau quanto simbolicamente pra representar o Tucker lutando contra as defesas ainda presentes na Carol, e também o Ezekiel oferecendo uma saída menos dolorida pra Peggy. ~ Eu estou particularmente MUITO feliz de ter resolvido colocar nossa adolescente mais badass da saga nessa trama do Reino. Tem tudo a ver com ela. O Ezekiel e o Moritz certamente foram irmãos em outra vida HUSHUSHUS! Fora a simbologia toda da Shiva, uma tigresa, e nossa Peggy "garras de tigresa", como dizia a Aya. Estou muito empolgada. ~ O mais engraçado de tudo é que essa fala que o Ezekiel REALMENTE diz no 7x02 sobre "aceitar a contradição" é parte principal da filosofia trágica do Nietzsche. O cara gosta do filósofo mesmo, o mais foda é que eu realmente mal precisei inventar partes desse diálogo, socorro AHUSUHSUH me contrata AMC! ~ Eu amo meus momentos de simbiose com os roteiristas de TWD. Vocês sabem que eu encho os capítulos de Hunter's Instinct com referências a Bob Dylan (a Peggy, por exemplo, é bem fã dele, como já vimos no capítulo Bringing It All Back Home, há um tempo). Quando tocou Don't Think Twice, It's All Right no coral do Reino eu fiquei tipo "não tô crendo no que tô vendo/ouvindo" AHUHUSSHU! Mais H.I. impossível! ~ Aguardo comentários!