Hunter's Instinct

79 Episódio 79 - Loyalty


Notas iniciais
BOA NOITE MINHA GENTE LINDA! Como estão todos vocês? Sei que muitos ainda estão atrasildos na leitura por causa das obrigações de final de ano, mas esse capítulo ficou pronto e, bem, é isso o que fazemos com capítulos prontos! Postamos! =P Esse é toooodo em POV da Mavie, uma adaptação do 7x04 que eu diria, honestamente, ter ficado mais dolorosa que o original, por razões que vocês logo vão saber. Mas CALMA, gente, eu prometo que uma curva de melhora pro nosso pessoal oprimido está chegando logo. Negan realmente não faz ideia de que mexeu numa colméia de vespas venenosas hehehehehe! Capítulo cheio de feels e que certamente vai deixar vocês com mais raiva desse misógino safado de uma figa. Aquele aviso básico: ESTÁ CHEIO DE SPOILERS DO EPISÓDIO 7x04! NÃO LEIA SE AINDA NÃO ASSISTIU! Dedico ele novamente a leitora Kayle Ammany, porque em tese ele teria feito parte do capítulo passado, então na verdade é como se fosse uma continuação haahahah! Então como o último foi dedicado a ela pela maravilhosa recomendação que presenteou Hunter's Instinct (e por ter sido o aniversário dessa leitora fofa), nada mais justo que outra dedicatória! Também é importante agradecer aos leitores e leitoras marcelammota, Sami, Kayle Ammany, En Sabah Nur, Vivi Costa e Babi Prongs (que comentou por áudio, como sempre), por já terem lido o capítulo passado e me deixado saber da opinião de vocês! Como sabem, receber respaldo do que eu escrevo é parte fundamental que me motiva a continuar a escrita dessa fanfic, cada vez mais animada e tentando melhorar! A fanfic só cresce em números, seja de acompanhamentos, favoritos (aceito mais recomendações também hehehehehe), seria BEM legal se mais leitores se dispusessem a comentar. Eu só teria a agradecer, e com certeza me empolgaria a escrever! Dito isso... Beijos e boa leitura!

“...I'll take your part

When darkness comes

And pain is all around

Like a bridge over troubled water

I will lay me down

Like a bridge over troubled water

I will lay me down”

Simon and Garfunkel — Bridge Over Troubled Water



Ela chegou a escutar o som de sua própria expiração resfolegante. Um ruído quase inaudível, rasgado, mal libertado ao atravessar sua garganta. Ao piscar os olhos, percebeu que mal sentia seus dedos, por mais que suas mãos se crispassem em punho. Uma sensação de dormência corria por toda a sua pele, seus poucos pelos corporais eriçados em uma reação de medo instintiva.

Mas ela não dava atenção ao seu estado emocional-cognitivo e físico deveras atordoado. Por mais que seu coração palpitasse, trovoando dentro de seu peito, ou que suas mãos suassem sem parar e que cada um de seus músculos estivesse intumescido em uma reação de defesa a um pavor iminente... Aquela visita, ainda que indesejada, significava a chance de revê-lo.

Em segundos, poderia descobrir se Daryl estava ali. E o que haviam feito com ele.

Mavelle Berry encolheu seu corpo atrás do tronco da árvore, ocultando sua presença o melhor que pôde, enquanto todos os seus sentidos corporais estavam alertas para a abertura do portão de Alexandria, e quem por ali entraria.

Um morador de meia idade da comunidade, chamado Floyd, puxou a primeira camada do portão, permitindo que todos pudessem ver o tirano homicida causador dos piores pesadelos da garota irlandesa. Negan estava parado a centímetros das grades, um sorriso descarado em seu rosto, o taco de baseball ominoso recostado em seus ombros.

— E aí? — perguntou o miliciano, o sorriso fixo em seu rosto odioso.

— Uh... Quem é você? — Mavie escutou, atônita, Floyd lhe responder. A expressão do assassino de Glenn e Tara não pareceu se modificar muito, mas ela conseguiu perceber, mesmo à distância, que seu sorriso amplo diminuiu.

— É melhor que você esteja de sacanagem com a minha cara — o perverso homem disse, as feições ainda debochadas. — Negan, Lucille... Eu sei que causei a porra de uma primeira impressão bem forte — ironizou, e Mavie sentiu seu ouvido entupir, tomado por um zumbido angustiante. Mesmo de olhos abertos, se lembrava com nitidez do que ocorrera algumas noites atrás.

Teve um sobressalto quando alguém passou a seu lado, quase esbarrando em seus ombros. Rick Grimes caminhava rápido de encontro ao líder dos Salvadores.

Por trás do portão, o cruel sujeito abriu um sorriso enorme ao vislumbrar o outro líder.

— Olha só, olá! — saudou em um timbre que devia julgar divertido. Esforçando-se para respirar fundo e acalmar as batidas descompassadas de seu coração atormentado, a jovem irlandesa fitou Rosita Espinosa se aproximar do pai de Carl, que chegava perto dela e de Eugene.

À distância, a caçadora discerniu Negan olhando de Rick a Rosita.

— Não me faça ter que pedir — falou o governante ditatorial, e seu rosto já não demonstrava mais diversão alguma. Enunciou aquelas palavras com autoridade.

Grimes olhou para Espinosa, e depois se moveu para arrastar o portão.

— Você disse uma semana — articulou o líder de Alexandria. Apenas cinco dias haviam se passado desde aquela noite hedionda. — Chegou cedo — o policial disse, terminando de abrir as grades.

A resposta do chefe dos Salvadores foi, como era de se esperar, sarcástica.

— Senti sua falta — rebateu Negan, com outro sorriso imenso e sardônico. Deixou seu olhar no rosto de Rick por segundos aflitivos. Em seguida, soltou uma breve risada. Mavie percebeu que um morto-vivo se arrastava para perto dos portões, atraído pelo burburinho.

— Opa, Rick, vem aqui fora pra ver isso daqui! — o tirano chamou, animado, andando para trás. — Esse é meu! — pontuou o sarcástico homem, caminhando até o carniceiro.

Em um golpe com seu taco grotesco, o cadáver foi eliminado em um som oco e úmido. Negan riu alto.

Easy peasy lemon squeezy!* — disse, provocativo, julgando-se engraçado. Mavelle varria com os olhos todos os inúmeros veículos parados na entrada de Alexandria. Ela ainda não podia distinguir quem se aproximava, mas podia notar que ele trouxera um grande séquito de Salvadores.

— Beleza, galera! Vamos começar! — Negan mantinha o tom empolgado. A irlandesa viu um contingente massivo de homens se aproximando de seu líder. Alguns altos, outros baixos, gordos, parrudos, troncudos...

...E então o enxergou.

Vestido com trapos espurcos, sujos das barras das calças até a gola do moletom esfarrapado, Daryl Dixon era guiado até o líder dos Salvadores pelo homem loiro que ela sabia se chamar Dwight. Este, usava a jaqueta e o colete de “cupido” de seu namorado.

Um largo “A” desbotado em uma tinta de tonalidade rubra fora pichado naquele blusão encarvoado. Daryl parecia refletir o estado de suas vestimentas precárias: imundo, os cabelos sebentos, o rosto repleto de feridas e marcas roxas no que se fazia visível de sua pele.

Caminhava recuado perto do Salvador que usava as roupas que eram de Dixon, este também com uma expressão nada amigável em seu semblante.

Mavie levou a mão a boca, sentindo seu corpo todo tremer. Quase perdeu o equilíbrio.

O que fizeram com você?

Seu peito apertou em intensidade tamanha que ela julgou que seu coração poderia parar de bater. Ela jamais se imaginara em uma situação dessas. Ninguém, por mais duro e resiliente que seja, pode estar preparado para ver quem ama sofrer. Reduzido a tal estado precário, destruído, por dentro e por fora.

Mavie via, tão próximo e tão distante, o homem que ela amava mais do que qualquer outra pessoa viva naquele mundo miserável... Ser desfeito em pedaços. Sem que pudesse fazer nada para evitar.

— Hey, Rick, você viu o que eu acabei de fazer? Isso sim é um serviço bem feito! — Negan permanecia debochando, mas a irlandesa não o escutava direito. Toda a sua atenção estava desviada para Daryl, de cabeça baixa como um animal domesticado, submetido pela violência.

— Quase fomos parados no portão, de qualquer jeito — comentou o chefe do grupo miliciano, sua voz soltando uma nota de frustração. — Quem é esse cara, porra? — Mavelle moveu o rosto para fitá-lo por breves segundos, e viu que o homem de jaqueta negra apontava Floyd. — Por acaso eu deveria ficar bravo, fazer uma cena, arrebentar a cabeça de um japonês ou de alguma moça? — troçou. — Nope! Eu só cuidei de um apodrecido de merda que poderia ter matado um de vocês. — Ele sorriu e fez uma reverência sarcástica para Rick. — Serviço prestado! — disse, enfático, seu sorriso que Mavelle detestava estampado em seu rosto. Os homens do autoritário líder estavam muito próximos. Mavie podia ver o rosto de Daryl com mais detalhes, e não conseguiu mais se manter escondida.

Correu até o portão, sentindo que seu coração poderia sair pela boca. Negan aparentou perceber o movimento e levantou as sobrancelhas. Pareceu ainda mais alegre. Em seguida, mordeu a língua, depois de a mirar com um sorriso lascivo no rosto. Mas ela mal deteve um olhar no facínora. Apenas mirava o caçador arqueiro, que, cabisbaixo, tinha os olhos fixos no chão.

A garota pretendia abrir a boca para chamá-lo, quando o líder miliciano a interrompeu, andando alguns passos à frente e impedindo que ela continuasse a fitar Daryl.

— Oh meu bom Deus, se não é a Coelhinha! Resolveu saltitar pra fora da toca, querida? — Negan debochou. Em resposta, Mavie estancou. Paralisada, piscou os olhos, mirando o taco nas mãos do psicopata. Imediatamente, mesmo que estivesse limpo, ela anteveu os restos de Glenn e Tara naquela arma monstruosa.

O ódio prendeu sua garganta, ao passo que a garota sentiu seu maxilar enrijecer.

Mesmo sem resposta, o chefe dos Salvadores girou Lucille nas mãos, erguendo sua ponta, incrustada daquele arame repugnante. Riu em seco, andou até Rick e ordenou:

— Segura.

Negan adentrou a comunidade, seguido por dezenas de Salvadores. A superioridade numérica chegava a ser apavorante. Mavie recuou um pouco, pestanejou atordoada, e deixou seus olhos mirarem Daryl novamente. Sentiu o choro subir de imediato às suas lacrimais, mas ela o travou com tudo o que restava de sua resistência física.

— Puta que o pariu! — exclamou o líder totalitário, sorridente. Abriu os braços e continuou a comentar sobre Alexandria, sua voz em um tom aprovador. — Esse lugar é magnífico! Chique no último, como eles dizem — elogiou, e a garota irlandesa o testemunhou mirar Rick. Rosita segurou no braço de Mavelle, que não tinha reparado em sua aproximação. As duas trocaram olhares, e, pelas feições sérias da mulher latina, percebeu que ela lhe pedia para que ficasse calma, em silêncio. Daryl não fitava Mavie, o que a deixava ainda mais angustiada.

— Sim senhor, eu acredito que vocês terão muito a me oferecer! — Berry escutou o déspota gargalhar. Grimes se moveu de forma que pareceu pretender se aproximar de Dixon. A irlandesa desviou do braço de sua amiga e também conseguiu chegar perto do homem que amava.

— Daryl...

Mavie quase suplicou, em uma voz chorosa. Ele não pareceu mais conseguir resistir. Teve de erguer os olhos para ela. Estava tão maltratado que a garota não pôde deixar de escapar um soluço. Sentiu sua garganta se prender, travar, como se fosse incapaz de respirar. Iria sufocar de tanta dor.

— Não. — A reação autoritária de Negan se deu uma fração de segundo depois. Voltou até onde Mavie estava parada, desaprovando a curta interação.

Mavelle piscou os olhos, seu queixo trêmulo, tentando olhar para o arqueiro. Negan se interpôs entre os dois arqueiros, impedindo que tivessem contato visual. Fitou-a com um sorriso enviesado.

— Ele é meu empregado — falou, dogmático, e desviou seu olhar cintilante de sadismo do rosto de Mavie. Passou a mirar Rick, Rosita, Eugene e Floyd. — Não olhem para ele, não falem com ele — demandou, e depois caminhou centímetros mais próximo de Mavelle. A proximidade impertinente fez a garota recuar por instinto.

— E Lucille não terá que fazer nada com ele também — disse Negan, chegando tão perto da irlandesa que ela teve de esquivar o olhar e mirar o asfalto abaixo de si. — Certo? — indagou em uma voz baixa, porém clara. Grave. Não mais no timbre debochado que costumava fazer uso.

Ela ergueu os olhos devagar para o opressor, que abriu outro sorriso. Mavelle podia sentir sua respiração bafejando perto de seus ouvidos. Arrepios de profundo desgosto percorreram seu corpo. Ela apenas pôde mirar o governante ditatorial com seu melhor olhar de desprezo, para em seguida se afastar alguns passos.

De costas para o homem de jaqueta, a garota pôde ouvi-lo rir. Chegou até mesmo a escutá-lo murmurar para Rick, depois de soltar o fôlego na risada.

— Muito suspense ali... Eu e ela temos uma tensão sexual palpável, não concorda? Acho que ela nem sabe o quanto — sussurrou Negan para o mandatário de Alexandria. A neta de Annie teve de fechar os olhos, tamanha a sensação de nojo e ódio que sentiu.

Você não pode chorar. Tem que se segurar. Essa pode ser a chance de acabar com tudo de uma vez, Mavie tentou se convencer em pensamento. Seu inimigo estava em Alexandria. Daryl também. Tinham de pensar em um plano para se livrar daquela opressão.

— Muito bem, vamos logo com isso! Vamos ver quais são as boas que vocês têm. — O algoz dos alexandrinos retornou ao seu tom de ordem. Mavelle girou nos tornozelos, perto de Rosita. As duas se fitaram, e a irlandesa pôde perceber que a latina tentava lhe dar um olhar de amparo.

— Nós separamos metade dos suprimentos — Rick avisou, o que levou Negan a fitar o pai de Carl em uma expressão reprovadora.

— Não, Rick. — O líder dos Salvadores retornou a andar na direção de Grimes. — Não! — Apontou para o rosto do policial.

— Você não decide o que levamos — determinou o ditador, em mais um sorriso de deboche. — Eu decido.

Mavie tinha todos os seus esforços dedicados a não se permitir mirar Daryl. Sabia do nível ímpar de crueldade daquele homem que os visitava. Se lhe desse uma chance, por menor que fosse, certamente se aproveitaria daquilo para os aterrorizar ainda mais.

— Arat! — A voz retumbante do líder miliciano se fez ouvir. Uma mulher negra de cabelos encaracolados tingidos de loiro seguiu seu chamado. Portava uma potente metralhadora.

— Ouviram o homem. — Mavelle ouviu a soldado de Negan falar. — MEXAM-SE! — esbravejou, movendo a metralhadora que tinha nos braços. Os Salvadores a obedeceram ligeiros, caminhando para dentro da comunidade. Outros moradores de Alexandria já haviam se aproximado dos portões, e fitavam em choque aquela apropriação sem aviso de seu território.

A irlandesa cruzou os braços, os apertando com força contra si, como se tentasse se abraçar para se proteger daquela realidade repressora. Enquanto isso, via o homem de jaqueta escura batendo curtas palmas debochadas, munido de outro de seus sorrisos alegres. Ela se permitiu mirar Dwight, e podia ver, de esguelha, que Daryl continuava perto dele.

— Eles só vão revistar um pouco as casas — ela reparou que Negan passou a explicar, gesticulando. — Dar andamento ao processo — disse, sarcástico. Mavelle fitou Rick, e o viu abaixar a cabeça. A mão dele que era forçada a segurar o taco pareceu tremer.

Faça. Mavie pensou, irracional.

Porém, os olhos da garota foram obrigados a desviar do objeto dos homicídios de seus melhores amigos. Negan andava de novo em sua direção.

— Sabe, Coelhinha, eu estou meio ocupado agora, mas adoraria conversar com você depois. Acho que temos muito pra colocar em dia — ele falou em um tom de flerte brincalhão, o que apenas a nauseou. Era difícil continuar olhando para aquele rosto repulsivo.

Dwighty boy, acho que poderíamos pensar em algo de útil que a... — Negan movimentou o rosto na direção do capanga loiro, mas subitamente arregalou os olhos e ergueu as sobrancelhas, dando um sorriso que se pretendia embaraçado. — Ah meu Deus! — riu e levou uma das mãos na testa. — Não perguntei seu nome ainda, minha linda! — O chefe dos Salvadores abriu outro sorriso largo. Mavie crispou os lábios, se sentindo molestada por aquele tratamento.

— Daryl, qual é o nome da sua gracinha de namorada? — Negan provocou, se voltando para Daryl. Uma onda fervente de ódio se alastrou pelo corpo da garota. Foi inevitável. Teve de olhar para o arqueiro, sentindo seu coração se contorcer de tanta dor.

Daryl apenas erguera o olhar, com lentidão, para o algoz.

— Eu não ouvi — debochou o miliciano. Todavia, sua voz voltara ao timbre que mais alarmava a garota de cabelos escuros. Sério, sem nenhuma nota de diversão.

Ela encrespou as sobrancelhas, mirando o caçador. Como queria correr até ele, abraçá-lo, protegê-lo de todo aquele mal que passara. Seu peito parecia se dilacerar por dentro, obrigada a ficar ali, parada.

— Mavie.

Daryl respondeu roufenho em um fio frágil de voz. Ela não esperara por aquilo. Não achara que fosse responder.

Cobriu a boca com as mãos, chocada pela surpresa apavorante.

— Mavie! — Negan retornou a mirá-la. — Uma gracinha também. Combina muito — elogiou, enfático. Andou mais alguns passos até ela. — É apelido? — perguntou diretamente para a garota.

— De Mavelle — a irlandesa respondeu rápido. Era menos humilhante ser chamada pelo seu verdadeiro nome do que por “Coelhinha”.

— Exótico. — O ditador abriu um amplo sorriso aprovador. — Você não é daqui também, é? — Parecia ainda mais interessado nela.

— Sou irlandesa — Mavie retrucou sem emoção. Negan surpreendeu-a, abaixando em um gesto comemorativo, soltando um “wow!” vibrante. A arqueira tremeu, apreensiva.

— Porra, assim já é apelação! — Os olhos do assassino de Glenn e Tara pareceram brilhar de excitação. Aflita, Mavelle desviou o olhar rápido para Rick, perto, como se pedisse ajuda. O mandatário se mantinha submisso, porém parecia mal conter a raiva. Em seguida, ela percebeu que Dwight caminhava para perto de seu chefe. Atrás dele, Daryl apenas olhava para baixo, mas a garota notou uma mudança na expressão derrotada de seu namorado. Seu rosto havia começado a tremer, reagindo.

— Dentinhos de coelho, essa carinha linda de novinha, e irlandesa. Mas que combo do caralho! Daryl é mais inteligente do que eu pensava. — Negan soltou uma risada e continuou a falar. — Eu admiro irlandeses. Um povo que gosta e sabe como aproveitar a vida. Grandes conhecedores de bebidas alcóolicas — disse, abaixando o rosto perto dela. Mavelle não desviou o olhar, dessa vez.

E cheios de histórias de revoluções e rebeliões. Ela pensou, mas permaneceu em silêncio.

— Vamos ter que conversar mais depois. Eu estou empolgado para te conhecer melhor — falou, seu tom de voz deixando claro o quanto estava repleto de segundas intenções. Fitou-a em seus olhos por alguns segundos com descaramento, até que decidiu se afastar. O alívio inundou o corpo dela, mas não por muito tempo. O tirano deu uma ordem a Dwight:

— Pense em alguma mercadoria que a Mavie possa trazer pra nós. Coelhos são bons farejadores — debochou, dando mais um olhar para ela. Em seguida, estalou um tapa no ombro de seu capanga, indo de encontro ao pai de Carl depois.

— Então, Rick! Vai me mostrar o lugar ou não? — Caminhou com despojamento insolente até o mandatário. — Hein? — grunhiu junto a um sorriso debochado.

Rick, sem alternativas, teve de levá-lo adiante. Mavelle foi obrigada a ficar parada, tentando fitar o caçador arqueiro. Daryl continuava desviando os olhos dela.

Por favor, olha pra mim, implorou mentalmente.

Logo depois, Dwight caminhou até a irlandesa, se aproximando com uma bolsa aberta.

— Suas armas — exigiu o homem de rosto marcado. Ela tirou uma pistola do cós da calça e a munição, as colocando ali. Enquanto isso, ainda tentava conseguir que seu namorado a fitasse.

— Agora que isso foi resolvido, eu tenho um trabalho pra você — o Salvador loiro falou entre o sério e o debochado. Talvez para intimidá-la. Ela foi obrigada a olhar para seu rosto.

— Vá pegar a moto do Daryl. E tudo o que puder trazer de bom da oficina que vocês têm aqui — comentou. Ela pestanejou. Olhou rápido para Daryl, e depois para o homem que roubara suas vestimentas.

— Pois é, já sabemos disso tudo. Agora fica a pergunta: será que foi o Red quem nos contou... Ou foi o seu namorado? — sugeriu, ameaçador. A ansiedade que já dominava Mavelle há dias apenas se intensificou.

— O que está esperando? Pode ir — avisou, guardando a bolsa com as armas nos ombros. Dwight sorriu com escárnio. — Seu namorado não vai sair daqui. Por enquanto. Se você não demorar — alertou cruel, ao passo que levava Daryl na direção para onde Negan seguira.

Mavelle, humilhada, foi obrigada a ir sozinha até a oficina na qual o arqueiro de Alexandria trabalhava em sua moto. Rosita e Eugene já haviam saído de perto, assim como Floyd, cada um encarregado de outra tarefa degradante.

Ela caminhou a passos largos até a garagem de Aaron e Eric. Tentava raciocinar. Vocês vão dar um jeito. Rick vai dar um jeito. Deve ter alguma saída. Pensava consigo mesma, se incentivando a mover as pernas com rapidez. Logo já estava dentro da casa que pertencera ao falecido casal amigo. Subiu as escadas até o quarto deles, procurando alguma mala larga em que pudesse socar o máximo de ferramentas para distrair os Salvadores.

Mexeu em seus armários, demorando a achar algo que lhe servisse. Não conseguiu deixar de pensar que aquela casa, abandonada, era muito parecida com a casa em que havia acabado de se mudar junto a Daryl. Talvez nunca mais morassem juntos ali. Talvez ficassem para sempre separados, como Aaron e Eric, por conta do sadismo de Hashimoto que matou ambos.

Ou, no caso deles, em razão do sadismo de Negan.

Mavelle arfou, agoniada, incapaz de se segurar. Socou a porta do armário que tinha aberto muitas vezes, até quebrar a madeira e machucar as próprias mãos. Lágrimas escorreram por seu rosto, mas não por dor física.

Pensava em Glenn, em Maggie. Em Bethalie. Em Tara. Em Peggy, desaparecida.

Pensava em Daryl, e todo o horror que lhe imputaram para que ele fosse transformado naquela sombra oca do homem corajoso, resistente, forte e impávido que um dia fora. O homem que ela amava tanto.

Ela arfou, chorando um pranto agitado. Arqueou o corpo, deixando o rosto pender para o chão, seus joelhos bambeando. Seu corpo se arrastou lento até o piso de madeira, as mãos cravadas na porta do armário quebrada.

Estava a ponto de ser controlada em totalidade por suas emoções aflitivas, mas um som longínquo e inconfundível a fez despertar daquela espiral de angústia. Ela ergueu o rosto, e correu até a janela.

Ouvira um ruído de tiro. Pela direção da qual veio, atestou que fora um projétil disparado na enfermaria. Longe de onde Daryl estava.

Seu corpo todo tremeu, sendo incapaz de conter o pensamento sobre quem teria morrido daquela vez.

Você tem que ser firme. Por ele.

Mavie se recordou das palavras de Carol. Ela estava certa. Quanto mais rápido resolvesse aquilo, mais cedo poderia pensar em alguma solução para eles. Alguma maneira de resgatar Daryl, tanto das mãos de Negan, quanto do tormento que aquele homem perverso o incutira.

A garota correu para a garagem com uma mala grande. Passou a guardar todas as peças úteis para consertos de motocicletas, ocupando sua mente naquela atividade. Todavia, quando principiava a se distrair, escutou outro disparo.

Por instinto, se abaixou. Fora próximo. Terrivelmente próximo.

A garota correu até a sala da casa, saindo do porão tão veloz que em poucos segundos já alcançara a janela mais próxima. Percebeu que na esquina daquela rua, havia um furgão parado. Perto dele, vislumbrou as silhuetas de Rick e Negan, que tinha uma pistola nas mãos. Olhou ao redor, procurando um cadáver, mas logo reparou em uma janela estilhaçada. No vidro, pôde ver que parte dele fora perfurado, formando um buraco redondo.

Ela soltou um suspiro de alívio. No segundo seguinte, Daryl passou defronte ao miliciano, carregando um dos rifles de caça da comunidade.

Mavelle se viu forçada a controlar o choro e o impulso de se lançar até ele. Retornou até a oficina de Aaron e Eric. Muitos minutos se passaram, e ela já estava prestes a terminar de organizar as peças quando foi outra vez interrompida.

Um Salvador, um rapaz da idade dela, de cabelos encaracolados compridos e olhos claros, abrira a porta da garagem.

— Seu antigo chefe precisa dar uma palavrinha com todos vocês! — vociferou.

— Mas eu estou...

— Não interessa. Ordens de Negan. Continua a fazer isso depois — ordenou o miliciano. Mavelle mordeu a bochecha, contendo a vontade de descontar todo o seu ódio naquele sujeito. O Salvador a escoltou até a capela de Padre Gabriel, e parou defronte à entrada. Muitos Salvadores cercavam o local, provavelmente impedindo que os alexandrinos saíssem de lá.

Ao entrar, Mavie reparou em Rick olhando pela janela da capela. Ela se sentou no último banco, esfregando as mãos nas calças, ansiosa. O pai de Carl caminhou para fora do altar, enroscando os dedos. Parecia nervoso.

— Eu já pensei em esconder algumas das armas — Rick começou seu discurso. — Eu fiz isso antes — se referia a época em que ele, Mavelle e os outros chegaram em Alexandria. — Achei que poderíamos enterrar algumas por aí. — O policial olhou para os moradores sentados nos bancos da igreja. — Quem sabe não tocar nelas por anos.

— Anos?! — Mavie não se conteve, e rosnou a pergunta. Rick a fitou, e seus olhos claros demonstravam certa parcela de culpa.

— Sim, isso mesmo — reiterou o mandatário. — Mas e se os Salvadores acharem essas armas? E se os encontrarmos e eles usarem as armas contra nós? Um de nós morre — ele usou de um tom explicativo que se pretendia calmo. Continuou a andar pela capela. — Talvez mais do que isso. Talvez muitos. — Varreu os olhos preocupados pela multidão.

— Não importa o quanto temos de balas. Não é o suficiente — assegurou, dando as costas ao seu público. Em seguida, olhou para Mavelle e os outros novamente. — Eles vencem. — Rick levantou o braço em um gesto. — É assim mesmo, preto no branco — alegou, conformista.

— Esconder duas armas não é a resposta, não mais — asseverou o líder de Alexandria. Escutar Rick Grimes usar daquele tom desistente, frágil, submisso, patético... Apenas a irritou. O policial, porém, continuava andando em meio aos bancos da igreja.

— Não temos de gostar disso, mas precisamos entregá-las — Rick provou o quanto estava derrotado, usando daquelas desprezíveis palavras.

— Uma Glock 9 e uma bobcat .22 — continuou a mostrar, sem pudor, seu fracasso. — É o que eles estão procurando. — Apontou com o indicador para a porta. — Quem está com elas?

Ninguém o respondeu.

— Alguém sabe onde estão ou com quem estão?

Apenas silêncio mais uma vez.

— Entendam, se não as acharmos, eles vão matar Olivia. — Mavelle abriu os lábios. Subitamente entendera a postura submissa do policial. — Eles vão! — Rick ressaltou.

Dominic, um homem careca, alto, atlético e negro, se levantou.

— Por que eles se importam? — questionou, duvidoso.

Mavie se sentiu intimamente vingada.

— Duas armas não são ameaça pra eles. — o morador insistiu. — Mas essas duas armas poderiam ajudar a nos proteger do que mais tiver lá fora.

Mavelle se sentiu minimamente melhor pela resistência. Era verdade, afinal. Passaram por Hashimoto. Agora tinham de enfrentar Negan. E ele provavelmente não seria o último tirano remanescente naquela sociedade em colapso.

Rick anuiu com o rosto, não parecendo querer discutir.

— Você está com elas? — perguntou o pai de Carl, simples e direto.

— Quem me dera — Dominic respondeu e se sentou.

Rick Grimes passou os dedos pelo rosto, tentando juntar palavras.

— A maioria de vocês não estava lá — falou, e pelo seu tom de voz, Mavelle pôde perceber que ele começava a ficar transtornado. — Vocês não tiveram que assistir. Vocês podem desviar o olhar agora enquanto outra pessoa morre, ou podem ajudar a resolver isso. Nós damos a eles o que querem e vivemos em paz.

Mavelle Berry não suportou ouvir aquele final.

PAZ, Rick?! — Mavie se descontrolou, falando agudo. — Você chama isso de paz?! O que aconteceu com o Daryl? Com o Glenn? Com a Tara? Com a gente?! — ela acrescentou, furiosa.

De seu destempero, resultaram murmúrios de aprovação. Mavelle nem chegou a se sentir culpada. A fraqueza de Rick apenas a desesperava ainda mais.

— Digamos que achemos as armas. E aí, como saímos dessa? — Floyd, que mais cedo tivera de ajudar a abrir os portões, perguntou. Seu irmão gêmeo, Tristan, estava sentado ao seu lado.

— Não tem como sair dessa — respondeu o mandatário. Mavelle sentiu seu estômago dar voltas, nauseada por tudo aquilo. Rick caminhou para ainda mais perto da multidão. — Deixem-me dizer isso da forma mais clara possível pra todos vocês: eu não estou no comando — avisou, negando com a cabeça.

— Negan está — admitiu.

Mavelle sentiu o ódio correr pelo seu corpo, tão quente que estava a ponto de ebulição. Sua testa fervia, suava como se estivesse febril.

— Agora... Quem tem as armas? — Rick repetiu aquela pergunta vergonhosa. Mavelle teve de passar as mãos pelo rosto para se impedir de gritar de fúria.

— Nem todos estão aqui — depois de alguns segundos, Eugene fez a constatação. A garota irlandesa subitamente ergueu o rosto das mãos. Era verdade. Estava tão desorientada pelos últimos acontecimentos que não percebera que não vira Rosita nem Michonne no grupo da capela.

— Então, alguns de nós vão procurar pelas armas. Os que não terminaram ainda o que eles pediram, voltem as suas funções — Rick Grimes determinou. Mavie se recusou a ouvir mais. Podia escutar os alexandrinos reclamarem com seu líder em rumores tumultuosos. Mas não ficaria para acompanhar. Senão começaria a socar o rosto do pai de Carl outra vez.

Ela saiu, abrindo as portas da capela. O mesmo Salvador que a escoltou antes a acompanhou de volta até a garagem. Ao pararem na oficina, o capanga de cabelos longos mandou que Mavelle achasse um carrinho de mão. O que ela separara não fora suficiente. Decidira levar todas as peças de moto.

Aviltada e sujeita ao sadismo de Negan e seus homens, Mavelle Berry terminou por ser forçada a levar a moto de seu namorado até seu torturador. O Salvador que a conduzia disse-lhe, com deboche, que levaria o carrinho de mão, por ser mais pesado. Mavie compreendia que obriga-la a entregar ao inimigo a moto de Daryl era mais uma forma doentia de provar o domínio de Negan sobre eles.

Ao caminhar para perto dos portões, a garota irlandesa logo avistou Rick, Daryl, Dwight, Negan, Arat, Heath, Rosita e alguns parados na entrada da comunidade. Michonne, vindo de outra rua, chegava com um cervo morto nas costas.

De longe, a garota de dentes salientes viu Rick entregar mais um rifle para Negan. Sua namorada seguia com a caça perto de um caminhão.

— Vamos logo — rosnou o capanga ao seu lado. Ela se forçou a arrastar as pernas e a motocicleta de Daryl adiante. Em determinado momento, Dwight avançou até ela, tirando a moto de suas mãos.

— Vou levá-la — disse, em um tom de voz falsamente agradecido. Subiu na moto do namorado da garota irlandesa, e arrancou, parecendo se divertir em experimentá-la. O coração já partido de Mavie se estilhaçou novamente, ao perceber que Daryl nem sequer olhava para o homem loiro que decidira saquear o veículo que ele tanto gostava.

— Você pode ter de volta. É só dizer a palavra.

Mavelle escutou Dwight dizer para o outro arqueiro. O caçador se manteve silente, enquanto Mavie se forçava a fechar os lábios, temendo começar a chorar outra vez.

Ela se aproximou do Rick, cautelosa, parando um pouco mais atrás. Negan parecia se divertir torturando o mandatário com alguma fala sádica que ela preferiu não ouvir. Todavia, logo reparou em sua aproximação. O sorriso que tinha em seus lábios por atormentar Rick com o que quer que dissesse naquele momento apenas se ampliou.

— Hey, Coelhinha! — a saudou do mesmo modo repulsivo. Mavie notou que Rick olhou para ela e depois para Negan, como se lhe implorasse para que ficasse calma.

Daryl estava perto de um caminhão no qual os Salvadores depositavam muitas mercadorias pilhadas.

Mavelle sabia o que tinha de ser feito.

— Agora que sabe que seguimos suas regras... — o policial tentou, se aproximando do mandatário miliciano.

— Sim? — o ditador aguardou, seu timbre zombeteiro, como de costume.

— Daryl pode ficar?

Não fora Rick que perguntara. Fora Mavelle, por mais que lhe machucasse ter de suplicar daquele jeito.

Ela e Rick trocaram um olhar breve. Mavie sabia que seria isso o que o policial pediria. Mas tinham maiores chances de conseguir se fosse ela tentando.

Negan fitou Mavelle, e depois Rick. Enquanto o homem facínora detinha seu olhar no mandatário, a jovem irlandesa fitou Daryl. Ele enfim a olhou de volta.

O mínimo alívio que ela sentiu ao depositar seus olhos nos dele foi arrasado com o que se seguiu. O arqueiro lhe disse um não silencioso com os olhos e o rosto, mal movendo a cabeça em negativa. Parecia apavorado. Mavie nunca o vira tão fragilizado assim.

Sentindo que lágrimas desceriam por seu rosto a qualquer segundo, ela logo mirou o homem de jaqueta escura novamente.

— Não vai rolar — o pervertido respondeu com uma feição falsamente triste. A neta de Annie piscou os olhos, a boca entreaberta, ainda fitando o algoz, sem acreditar.

— Quer saber? Eu não sei! — ele falou, surpreendendo a todos. Tinha uma expressão abertamente brincalhona em sua face. — Talvez o Daryl possa suplicar. Talvez Daryl possa me persuadir! — Negan fitou o namorado de Mavie, outra vez parecendo se animar. O sulista não o fitou em retorno. Mantinha seu rosto abaixado, a cabeça ondulando, seu corpo todo, bamboleando, atordoado.

Por favor, Daryl, fique comigo. Mavelle implorou em pensamento, mais uma vez sentindo seus olhos umedecerem.

Por favor, meu amor.

— Daryl? O que tem a dizer sobre o pedido da Coelhinha? — Negan continuava falando com o arqueiro. O caçador se manteve silente, sem reagir.

O sórdido sujeito levantou as sobrancelhas e riu abertamente.

Mavelle não podia deixar de olhar para Daryl, mesmo contra as ordens do abominável déspota. Levou as duas mãos ao peito e arqueou as sobrancelhas, já sem suportar tanto sofrimento. Seu queixo não parava de tremer, e sabia que logo soluçaria.

O que ele fez com você? se perguntou em pensamento, um horror legítimo a corroendo por dentro.

O chefe dos Salvadores, por sua vez, fez uma careta falsamente incomodada e olhou para Mavie de novo. Deu outra risada divertida.

— Isso é um pouco constrangedor... Acho que ele não sentiu tanto a sua falta. — O mandatário miliciano lhe deu um olhar de fingida pena. Caminhou para perto dela. — Bem, você tentou! — falou em um tom de falsa empatia, seus lábios se abrindo em um sorriso suave.

— Agora o que vocês têm que fazer é sair dessa porra dessa murada enorme de vocês e tentar mais duro lá fora — demandou em tom de bronca, apontando além dos muros de Alexandria. — Arranjem provisões para mim — ordenou, e em seguida apontou para si mesmo.

— Porque vamos voltar logo. E quando voltarmos, é bom que tenham algo de interessante para nós, ou a Lucille vai tocar o zaralho nessa porra — o homem de jaqueta escura avisou, sério, olhando para Rick.

— Quero você ouça isso de novo, Rick.

Com a garganta travada, Mavelle o fitou ameaçar o policial.

— Se você não tiver algo de interessante pra nós... — O líder dos Salvadores caminhou até o pai de Carl, com um imenso sorriso no rosto. — ...Alguém vai morrer. E nada mais de armas mágicas que aparecem do nada na minha mão — debochou, em um sussurro.

Mavelle não mais fitava Daryl, temendo que o autoritário líder descontasse em seu namorado.

— Arat, pegue o cervo, está ficando tarde! Vamos pra casa! — decidiu-se Negan, falando alto. Michonne deixou a caça cair perto da mulher general que o recolheu, destinando ao chefe dos milicianos um olhar de claro desprezo.

Dwight já havia parado a moto e apenas sondava Daryl, parecendo se certificar de que ele continuava parado no mesmo lugar. As bochechas de Mavie tremeram em um tique nervoso, a ansiedade fluindo descontrolada por todo seu corpo.

— Cara, eu adoro uma garota que me paga o jantar e não espera que eu transe com ela por isso! — Mavelle escutou o líder dos Salvadores sussurrar em deboche lascivo aos ouvidos de Rick. Negan deve ter percebido o olhar enojado de Mavie, pois logo em seguida andou até ela, a examinando com um sorriso torto. Depois, voltou-se para Rick, rindo uma risada silenciosa.

— Então ninguém morreu! — o governante maníaco falou e abriu os braços. — Sabe o que eu penso? Eu acho que nós dois refinamos o nosso entendimento! — O líder miliciano sorriu para Rick Grimes e mordeu a língua.

— Me deixa te perguntar uma coisa, Rick: você quer que eu vá? — debochou, enquanto andava para mais perto do policial.

Rick meneou a cabeça, pasmo, em uma expressão de concordância.

— Eu acho que seria bom — falou, seus olhos trêmulos denotando o quanto estava fragilizado.

— Então diga aquelas duas palavrinhas mágicas — brincou com sadismo o mandatário déspota.

Rick abaixou a cabeça uma vez, depois a ergueu. Em seguida, a abaixou de novo e disse, sem fitar o seu torturador.

— Muito obrigado — respondeu, vulnerável em sua voz submissa. Mavie, cada vez mais apavorada por mais um fracasso que parecia se delinear, inevitável, sentia seu peito apertar sem parar. Incapaz de se segurar, olhou para Daryl, que ainda insistia em fitar seus próprios pés.

Não. Não.

Negan riu, depois da fala de Rick.

— Não seja ridículo! — A arqueira o viu dar um tapinha nas costas do policial.

— Muito obrigado você! — respondeu o tirano debochado, munido de um amplo sorriso. Passou a língua pelos dentes, e depois reparou em um morto-vivo que cambaleava perto dos portões.

— Mais um! Vocês realmente precisam da nossa ajuda! — ironizou, e fitou um Salvador. — Davey, me passa esse castiçal!

A neta de Annie testemunhou um capanga sorridente entregar ao seu chefe um castiçal comprido.

— Sabe o que eu acho, Rick? Eu acho que nós dois vamos sair ganhando nessa! Olha só como eu mando bem — gabou-se sua alegria forçada, dando as costas ao policial. Mavie reparou que os punhos do pai de Carl se crisparam no taco de baseball.

Vai, torceu, ensandecida, para que Rick pusesse tudo a perder e acertasse a cabeça de Negan com o taco.

Mas o policial se manteve inerte, apenas assistindo o miliciano eliminar o carniceiro e soltar uma exclamação exultante.

O líder sádico foi sorrindo até Rick, depois de girar em seus tornozelos.

Yep! Nós ganhamos. Deveria limpar isso pra mim na próxima vez — troçou, jogando o castiçal no chão. O objeto quedou em um estrépito irritante.

— Vamos embora! — falou o ditador maníaco, dando alguns passos à frente.

Mavie se pôs adiante também, crispando os punhos. Notou que apenas naquele momento passaram a empurrar Daryl aos caminhões.

Ao vê-lo sendo levado de novo, o nervosismo da garota foi atiçado a um nível incontrolável. Estava a ponto de chorar de medo, de ódio, de raiva que era incapaz de suprimir.

Negan, de costas perto de um caminhão, piscou e fitou um de seus subalternos.

— Espera! — Segurou um Salvador perto de Daryl. — Hey, deixe ele parado um pouco aí.

O coração de Mavelle acelerava, sem ritmo.

— Que descuido da minha parte... — O homem de jaqueta novamente se virou para Rick, suas sobrancelhas erguidas.

— ...Você não achou que eu ia deixar a Lucille, né? — Estende a mão para o policial, enquanto andava em sua direção. — Quero dizer... — A voz do líder dos Salvadores se abaixou, gutural. — ...Depois do que ela fez — Abriu os braços. — Por que você iria querer tê-la?

Um calafrio de pavor perpassou todo o corpo de Mavelle. Não havia limites para as brincadeiras sádicas daquele sujeito perverso.

— Obrigado por ter sido tão hospitaleiro, amigo — o mandatário atroz sussurrou para Rick e puxou o taco de baseball de suas mãos. Olhou feliz para seu bastão, o movendo em suas mãos.

— E caso não tenha percebido... Eu acabei de deslizar meu pau fundo na sua garganta e você me agradeceu por isso — ironizou com a fala mais asquerosa que Mavelle ouvira naquele dia, seu sorriso se alastrando predatório pelo seu rosto em uma expressão de sadismo puro. Riu.

Mavie, comprimindo o asco, apenas viu Rick olhar em frente, seus orbes azuis desnorteados, beirando o descontrole. Em seguida, a garota desviou rápido seus olhos para Daryl, ainda parado perto. A cabeça do arqueiro ondulava de leve, ele mesmo parecia conter os tiques ansiosos que deveriam também atormentá-lo. Mavie inspirou profundamente, sem saber como conseguia aguentar tudo aquilo sem tomar uma atitude suicida e correr até seus braços.

Negan parou de dar risadas às custas de Rick e se voltou para a jovem irlandesa, que percebeu seu movimento. O abusador lhe fitava com um olhar fuzilante. O coração de Mavelle ribombou, o terror que sentia voltando a dominar seus sentidos.

— Ainda tínhamos muito pra conversar... — O líder dos Salvadores caminhou até ela, tendo seu bastão de baseball em uma das mãos. Mavie conseguiu ver de esguelha Daryl levantar o rosto e mirá-los.

— ...E temos mesmo. O que me leva a te fazer um convite, Coelhinha — ele começou, mas Rick levantou a voz.

— Negan, por... — o mandatário de Alexandria pretendia implorar, mas Negan ergueu Lucille e o fitou com uma expressão de seriedade ameaçadora.

— Eu estou falando com ela, Rick. Seja um bom garoto e não me interrompa — debochou. Ao fitar a garota irlandesa novamente, já tinha retornado a expressão de falso despojamento. Mavie mordeu os lábios, tentando se manter firme.

— O que você acha de voltar comigo? Eu tenho certeza que vai achar a nossa casa acolhedora — disse o miliciano, com uma voz carregada de más intenções. Abaixou o rosto para fitar Mavie, que reuniu seus esforços para não esquivar daquele olhar aviltante.

Por cima dos ombros de seu algoz, a garota podia enxergar Daryl. Como em poucos momentos daquele dia, ele a olhava diretamente. Movia a cabeça quase imperceptivelmente de um lado ao outro, como se lhe dissesse que negasse. A negativa estava estampada em seu rosto preocupado.

— E então...? — Negan aguardou, e a garota da Irlanda apenas piscou e olhou para suas botas. Não disse nada. Enfiou as unhas nas próprias palmas, para se conter.

A centímetros à sua frente, o miliciano apenas soltou uma expiração, deu de ombros e abriu os braços. Outro sorriso se desenhou em seu rosto. — É uma pena! Botem o Daryl no caminhão! — Já tinha virado de costas e se afastado.

Mavie levantou o rosto. Seus ouvidos começaram a zumbir.

Como se o tempo passasse em câmera lenta, ela via a figura do abusador se afastando, seus olhos focados nas costas de sua jaqueta escura. Demorou apenas uma fração de segundo, mas pareceu muito mais.

Ela pensou em Daryl.

Na noite no chalé com os trevos de três folhas em volta, na primeira vez em que se amaram. Em todas as noites que vieram depois. Nos momentos em que riu com ele, e que chorou em seus ombros. Nos breves instantes em que ele a permitiu consolá-lo. Nos poucos sorrisos que ele dava, tão difíceis, tão fugazes, tão raros.

No dia em que lhe disse que o amava, com uma certeza que também era difícil de ser encontrada. Fosse no mundo de antigamente, ou na realidade caótica em que eram forçados a suportar e enfrentar.

E, de súbito, tomou uma decisão.

Não vai ficar assim.

— Espera!

Negan girou nos calcanhares, devagar. Movimentou o taco de baseball no ar, abrindo um sorriso satisfeito ao ouvir aquele pedido de Mavelle.

— Eu vou com você. Se eu puder vê-lo enquanto estiver lá — ela exigiu tais condições, olhando para seu namorado. Mavie reparou que tanto Rick quanto Michonne, Rosita e Heath a fitavam apavorados.

— NÃO! — Daryl finalmente disse algo, e o som de sua voz rouca bradando aquela negativa desesperada cortou os restos do coração da garota irlandesa. Ela pestanejou, vendo alguns Salvadores o empurrarem contra o caminhão sem dó alguma, falando um “cala a boca” bem alto. O arqueiro recebeu alguns socos certeiros, fazendo Mavelle soluçar assustada.

O chefe miliciano deixou seu olhar ir da garota irlandesa até o sulista da Georgia. Depois, caminhou até o caçador, ao passo que algumas lágrimas escorriam dos olhos da neta de Annie.

— Você não decide por ela. E acho melhor continuar bem quieto — Negan avisou, e depois andou de volta até a garota de cabelos escuros. Ela teve de secar as lágrimas.

— Mavie, você... — Rick tentou, sua voz soando assustada, mas o líder dos Salvadores o parou também.

— Qual é o problema de vocês, pessoas?! — Levantou Lucille perto do pai de Carl, em um tom entre o deboche e a seriedade. Abaixou a voz para que ficasse mais grossa e séria. — A garota tem livre arbítrio. Deixem ela escolher o que quer — disse, malicioso, e fitou Rick com um olhar autoritário. Em seguida, mirou Mavelle, abrindo mais um de seus típicos sorrisos odiosos. Foi até ela, o taco de baseball em seus ombros.

— Você com certeza vai poder vê-lo. Nós somos uma comunidade também, somos pessoas normais — o líder maldoso garantiu, com um grande sorriso. — Só que terá de trabalhar para pagar o seu custo de vida, como qualquer outro aqui. — Girou Lucille ao redor. Depois mirou a garota irlandesa como se esperasse a resposta final.

— Ou! — exclamou, e se aproximou mais da garota que atormentava. — Você pode levar uma vida privilegiada. Sem ter que pagar pelo que consome. Conforto, luxo, descanso, lazer e nada mais... — Sua voz se tornou murmurante. — Mas pra isso... Você teria que casar comigo — Negan fez a oferta, e Mavie fechou os olhos, não podendo suportar a onda de nojo que subiu por seu corpo só de imaginar a sugestão.

— A escolha é apenas sua. Qual é a sua decisão? — perguntou, sorrindo enviesado. Mavelle sustentou seu olhar.

Respirou fundo, e abriu os lábios.

— Eu vou com você. Mas como trabalhadora — ressaltou.

E vou te matar, ao seu primeiro deslize, jurou em pensamento.

Negan abriu um sorriso maior. Ainda a encarava. Mavie sentiu suas pernas tremerem pela mudança em seu olhar. Algo que parecia misturar frustração e diversão, como se duvidasse de que essa seria a sua resposta final.

— É claro — ele concordou, e parecia ter uma nota de ironia em sua fala. Aquilo trouxe um calafrio de mau agouro, subindo ligeiro pela espinha da garota irlandesa. Podia sentir aquele sujeito a devorando com os olhos.

Mavelle trocou olhares com Rick, Michonne, Rosita e Heath que ainda a fitavam incrédulos.

— Tem algo que queira levar, Coelhinha? Se sim, é melhor se apressar — alertou, e Mavelle negou com a cabeça. Era melhor deixar seu arco e suas flechas em Alexandria. Assim não roubariam dela.

Abalada, a garota apenas deu um último olhar para Rick e os outros.

— Adeus — despediu-se. O líder dos Salvadores mirou Mavelle e seus companheiros de Alexandria com falsas feições de empatia.

Ninguém disse nada em resposta.

— Ela se despediu. Onde está a boa educação de vocês? — O chefe miliciano parecia fingir incredulidade. Em seguida, deixou uma mão tocar as costas de Mavie, perto de sua cintura.

Ela arfou. Estremeceu de nojo, mas se controlou. Tinha de seguir o conselho de Carol. Se ninguém agiria, ela jogaria com as cartas que tinha.

Jamais abandonaria Daryl, não importava a covardia de Rick e dos outros.

— Adeus — murmurou o pai de Carl. Michonne, Heath e Rosita se despediram no mesmo tom derrotado.

— Vamos achar um lugar confortável pra você — disse o líder autoritário, perto dos ouvidos de Mavie. O abusador ainda tocava em suas costas brevemente com uma das mãos. Ela quase podia sentir dor física aonde ele tocava. Era como se queimasse sua pele, por tanto ódio e repúdio que nutria contra aquele homem.

Mavelle teve de passar pelo caminhão onde Daryl era forçado a ver tudo. Agora, sim, ele parecia realmente destruído. Como se o pior de seus pesadelos se tornasse real.

Caçador e caçadora, tornados caça, trocaram um olhar agoniado, antes de serem mais uma vez separados por seu algoz.

Eu te amo. Eu te amo muito. Mavie pensou, fitando Daryl, esperando que ele pudesse ler seu olhar.

O abusador a fez contornar o caminhão e seguir até um menor, fechado.

— Pode ir com a Arat aqui atrás. Quando chegarmos, nós conversamos mais. — Negan abaixou a mão que a tocava, não mais encostando na garota. Ela respirou fundo, um pouco menos aflita por não sentir mais o toque dos dedos dele. O líder dos Salvadores lhe deu uma piscadela lasciva, seguida de um sorriso sugestivo, umedecendo os lábios. Parecia um lobo arreganhando as presas antes de devorar sua caça.

Controlando um calafrio horrorizado, Mavelle subiu no caminhão, após Negan lhe estender uma mão que se fingia cavalheiresca, para que ela entrasse. Naquela situação, se viu obrigada a aceitar, querendo imediatamente lavar a mão com água quente e sabão assim que se viu livre de seu toque outra vez.

Arat fechou a porta, perto dela, a mesma metralhadora ostensiva em seu colo. Mavie sentou na parte de trás do caminhão, em um canto. Os Salvadores ali presentes a miravam com expressões que se dividiam entre desdém e diversão.

Mavelle gastou suas últimas forças para se concentrar em controlar a própria respiração. Sabia o que fizera. Estava indo, sozinha, sem defesas, apenas com parcas esperanças, para a comunidade governada por Negan, em toda a sua tirania.

Ainda assim, sabia que aquela escolha seria a que lhe doeria menos. Poderia ser levada para um local onde seria ainda mais humilhada. Mas nada a atormentaria mais do que se ver longe de Daryl, imobilizada, incapaz de ampará-lo. Sem poder, simplesmente, estar perto dele.

Ela o seguiria até o covil do inimigo, apenas pela ínfima, mísera e quase impossível chance de resgatá-lo.

Notas finais
*Easy peasy lemon squeezy = seria uma expressão até meio infantil, tipo "mamão com açúcar", "mais mole do que maria-mole", esse tipo de coisa. ~ Próximo capítulo teremos Santuário e Reino (se eu conseguir encaixar). Se preparem para MUITAS CENAS TENSAS haushushus! Mas também muitas mitagens de parte da nossa Esquila. Negan não sabe o quanto ela pode ser teimosa e corajosa. ~ Gif retratando os momentos mais tristes/tensos desse capítulo... ~ Aguardo reviews, seus lindos e suas lindas!