Hunter's Instinct
75 Episódio 75 - Fatuous Fire
Notas iniciais
Aquela noite seria uma das últimas do inverno.
A temperatura que se esperava mais branda, contudo, não correspondia a esta expectativa. Próxima aos zero graus, todo o terreno pertinente aquela clareira estava mergulhado em um frio cortante, o clima gélido visível a olhos nus pela penumbra que os ladeava de todos os lados. Um último fenômeno brumoso, espelhado com terrível perfeição ao que pretendia seu mestre de cerimônias.
Seu algoz.
Da direita para a esquerda, alinhavam-se, de joelhos, desarmados e paralisados de terror: Morgan, Gaspar, Paul, Redmond, Carl, Heath, Mavelle, Rick, Maggie, Carol, Michonne, Tucker, Eugene, Daryl, Tara e Glenn.
Os sobreviventes de Alexandria estavam acuados não apenas pelas literais centenas de homens ao seu redor. Até mesmo os galhos e as árvores sem vida, desfolhados pela estação hostil, lançavam sombras macabras acima das silhuetas daqueles ajoelhados sob a vontade de Negan. Seus rostos, cada um com uma expressão estarrecida diferente, adaptada as próprias feições.
Compartilhando do mesmo terror unânime, que parecia ser o combustível para cada sorriso de gritante regalo no rosto daquele homem. Que, no momento, se encontrava parado a centímetros de distância, a direita de Mavelle Berry.
Fitando diretamente Rick Grimes.
A pequena pausa que fizera após lhe garantir que se arrependeria amargamente por ter cruzado seu caminho e contestado sua autoridade já acabara. Munido de descaramento ímpar, Negan parecia orientar o policial em uma fala de irônica instrução, como se falasse paciente com uma criança com dificuldade de aprendizado.
— Veja Rick, seja lá o que faça, não importa que porra for... — enfatizou, seu rosto revelando um bom humor fleumático que apenas deixava Mavelle mais nervosa.
— ...Você não mexe com a nova ordem mundial. E a nova ordem mundial é isso, e é bem simples. Por mais que você seja fodidamente burro, o que provavelmente é — Mavelle o notou arregalar os olhos — Você consegue entender. Está pronto? — perguntou o sujeito teatral.
Mavie se esforçava para tentar dar ritmo a sua respiração. Tomada pela adrenalina que corria nociva por sua corrente sanguínea, ela apenas podia sentir a turbulenta ansiedade que a controlava, engolfando-a cada vez mais em um tormento aflitivo sem escapatória.
Suas palmas das mãos suavam, e o mesmo suor frio escorria por sua testa. Seu maxilar estava cravado, retesado em uma postura de defesa acossada. Seu coração batia em descompasso.
Era uma situação desesperadora. Se permitir ceder ao pânico que tentava toma-la não era uma opção, pois apenas facilitaria o resultado perverso provavelmente almejado pelo chefe dos Salvadores.
A irlandesa apenas se sentira dessa forma uma única vez. Quando fora feita refém por Hashimoto, mas em um contexto totalmente diferente. A japonesa, quando a rendeu, queria somente passar uma mensagem a Rick Grimes. Queria convencê-lo a ceder ao seu poderio. Já Negan... Quem poderia dizer? Com constantes calafrios de pavor lhe subindo pela espinha dorsal, Mavelle sentia que a pretensão daquele homem ia muito além de assustá-los.
Queria puni-los.
Era difícil tirar os olhos daquele sujeito que portava o estranho bastão de baseball, por inúmeras razões. Seu comportamento de suposta indiferença divertida apenas explicitava sua possível imprevisibilidade. Era óbvio que se dedicara de corpo e alma para elaborar aquela armadilha. Era óbvio que queria que o escutassem. Era óbvio, também, que apenas esperava uma oportunidade para chocá-los ainda mais, levando a tortura psicológica às vias físicas de fato.
Mavie não conseguia parar de pensar no que poderia acontecer. Cada segundo poderia ser o último. Dela ou de seus amigos.
De Daryl.
A garota de cabelos escuros fechou os olhos com força, os abrindo de novo e voltando a mirar o homem que agora se regozijava em atormentar Rick. Temia ser castigada se não fizesse o que ele queria. E, certamente, o que ele mais desejava no momento era ser a estrela da noite.
De esguelha, a caçadora pôde atestar que o rosto de Rick Grimes tremia sem parar. Aquilo lhe trouxe uma pavorosa sensação de frio na barriga. Se até mesmo o frio policial mordera a isca do suplício mental, quem mais resistiria?
Negan deu mais um passo para perto do pai de Carl. As mãos de Mavelle tremelicaram.
— Aqui vai. Preste atenção... — O homem de jaqueta preta abaixou o taco de baseball, se curvando brevemente em direção a Grimes. O pôs perto do rosto do mandatário de Alexandria, e a arqueira prendeu a respiração. O policial desviou o olhar, fitando agoniado o arame farpado a centímetros de seus olhos. Mavelle podia ouvir sua respiração entrecortada.
Negan riu. Declinou a cabeça para o lado, umedecendo os lábios antes de continuar.
— Entregue as suas porras — enunciou cada sílaba, os olhos sem deixar os de Rick por um segundo sequer. — Ou eu vou matar você — garantiu, dando a Grimes mais um largo sorriso. Em seguida, ergueu os olhos, perpassando o olhar na direção das pessoas a direita de Mavelle e Rick.
— Hoje foi o dia da orientação vocacional! Nós investimos muito para que vocês soubessem quem eu sou e o que sou capaz de fazer — assegurou, mantendo sua expressão zombeteira.
— Diferente de umas malucas japonesas por aí... — A irlandesa fitava o líder dos Salvadores, que varreu os olhos pela fileira de sobreviventes rendidos, claramente mencionando Hashimoto. — ...Eu não estou aqui para ficar pregando qual é a merda da nova verdade do mundo ou qualquer palhaçada megalomaníaca dessas. E já que vocês me livraram do trabalho de ter de domesticar a doideira fodida dessa mesma psicopata oriental, o que eu agradeço, saibam disso — ressaltou, dando uma risada seca, sem som. — É bom que saibam que vocês trabalham para mim agora. Não sou um profeta do fim do mundo, não sou seu general ou uma porra dessas. Sou seu chefe — afirmou, retornando a olhar apenas para Rick Grimes. — O único homem no comando, é bom deixar bem claro — enfatizou, elevando o cenho para o policial.
— E sendo seu chefe, se vocês têm algo, vocês dão para mim. É essa a função de todos vocês agora — passou a esclarecer com o mesmo tom sarcasticamente zeloso e desinibido que usou com Rick, fazendo gestos despojados.
Mavelle sentiu sua coluna se curvar brevemente para a frente, cedendo a sensação angustiante de medo que a dominava. Esforçou-se para mantê-la reta, erguendo o rosto outra vez para mirar o degenerado sujeito perto dela.
— Agora, eu sei que isso é muita porra pra ser engolida — debochou com as palavras de baixo calão da situação dos ajoelhados. Ela viu que Negan quase deu de ombros ao continuar. — Mas vocês certamente vão engolir, e vão engolir pra caralho — asseverou, e moveu o taco na direção de Rick, o indicando outra vez.
— Você era o chefe. Você matou a japonesa dos infernos e aquela cacetada de robôs humanos que ela liderava. Você construiu algo — disse, anuindo com o rosto, como se compreendesse o pensamento de Rick e quase sentisse pena dele. — Pensou que estava seguro. Eu entendo. — Suas feições debochadas apenas se intensificaram a cada palavra mordaz. Mavie contemplou o homem de jaqueta preta colocar a mão no peito, como se fingisse sentir empatia por eles.
— Mas andam dizendo que vocês não estão seguros... — Passou a caminhar na direção a direita de Mavelle. Sua silhueta fazia sombras nos sobreviventes parados, que o fitavam de baixo para cima, inertes, escutando atentos as suas palavras como o fariam a um semideus que descera dos céus para governa-los. Ou que subira do inferno para liderar as cinzas que sobraram daquele fim de mundo.
Seus passos controlados, vagarosos e simultaneamente determinados evidenciavam o quanto se entretinha em fazê-los suas presas. Ela o seguiu com o olhar, desejando fervorosamente em pensamento que ele não decidisse estender aquele suplício a Daryl.
— Vocês não estão nem perto de seguros. Na verdade, vocês estão fodidos, e mais fodidos — voltou-se para apontar o taco de baseball para Rick, realçando a ameaça — se não me obedecerem. E o que eu quero, é metade das suas porras. Se for muito, vocês podem criar, achar ou roubar mais, e logo estaremos quites. — Soltou um sorriso enviesado. — Essa vai ser a vida de vocês agora! — Mavelle o viu abrir os braços. — Quanto mais resistirem, pior vai ser... — sustentou o discurso, e continuou a caminhar, agora retornando na direção de Rick, abaixando o taco que tinha consigo.
— Então se alguém bater na porra da sua porta, você vai nos deixar entrar. Somos os donos da merda da porta. Se tentar nos impedir, nós botamos a porra toda abaixo. — Parou na frente de Rick. Os palavrões e xingamentos não combinavam com a voz plácida e carismática que utilizava. Isso demonstrava, percebia Mavie, que ele de fato estava no controle do que dizia. Nenhuma de suas palavras era gratuita.
— Entendeu? — indagou, mirando Rick Grimes com fingido cuidado. Com o canto dos olhos, Mavelle Berry podia reparar que o policial continuava tremendo dos pés à cabeça. O pai de Carl tinha feições desvairadas, como se estivesse se esforçando para manter a compostura.
O líder de Alexandria não respondeu. Após poucos segundos de silêncio, o sádico homem com o taco de baseball moveu o rosto para o lado, colocando a mão livre em concha aos ouvidos, se abaixando na direção do policial ajoelhado. O mandatário rendido continuou silente.
O miliciano coçou sua barba.
— O quê? Sério, sem resposta? Vocês não acharam que iam passar por isso sem punição, não é? — o homem riu enquanto gesticulava, incrédulo.
— Olha, eu não quero matar seu pessoal. Quero deixar isso bem claro também. O que eu quero é que trabalhem pra mim. — Mavelle o testemunhou mirar diretamente Rick de novo.
Cada segundo do monólogo torturante daquele sujeito a deixava mais apreensiva. Ele parecia calmamente preparar o terreno para o ápice do show. Apenas os conduzindo devagar pelo caminho até o clímax horripilante.
Outra vez apontou para o policial com seu taco enrolado em arame farpado. Mavie engoliu em seco.
— Mas o seu pessoal não vai poder trabalhar se estiver fodidamente morto, não é? — proferiu mais uma risada de escárnio. — Não estou cultivando um jardim aqui — debochou. — Mas — fez uma leve pausa. — Você matou o meu pessoal. — O tom já escuro de seus olhos ficou ainda mais soturno.
— Uma caralhada deles! Mais do que eu posso me sentir confortável — falou, levando uma das mãos ao peito novamente. — E, por causa disso... Por isso, vocês têm que pagar — anuiu com o rosto, em uma expressão resoluta, como se chegasse a uma conclusão meramente lógica, e não de óbvia perversidade.
— E agora... — Negan movimentou o taco de baseball no ar, fazendo Mavie engolir uma lufada de ar. — Eu vou arrebentar a porra de um de vocês na porrada — testificou, girando o taco e lambendo os lábios. Em seguida, deu um de seus amplos sorrisos cruéis. Deixou o olhar passar pelos rostos de todos os presentes. Demorou meio segundo a mais no rosto de Mavelle, antes de fitar Rick novamente. Ela sentiu uma sensação ainda mais desagradável advir daquele contato.
Uma péssima intuição.
— Esta. Esta é a Lucille. — Negan se curvou perto do policial, exibindo seu taco com arame farpado. — E ela é foda — enunciou cada uma das palavras. A caçadora se sentia aterrorizada com aquela encenação sádica, mas algo chamou sua atenção. Ouviu sons baixos de alguém se arrastando, cerca de dois metros a distância dela.
Glenn Rhee tentava rastejar para perto de Maggie Greene, sem que o flagrassem.
Os olhos de Mavie se arregalaram por meio segundo, mas ela os desviou do rosto do melhor amigo para não revelar sua posição. Glenn, volta, pelo amor de Deus, pense na sua filha, Mavie Berry gritou em pensamento, desesperada. Era provavelmente tudo o que Negan queria.
— E tudo... Tuuudo isso é só para que possamos escolher qual de vocês vai ter a honra — a irlandesa percebeu que ele mencionava quem conheceria de perto a infame Lucille. O algoz dos alexandrinos caminhou outra vez a direita de Mavelle.
Passou por Rick, Maggie, Carol, Michonne, e estacou na frente de Tucker. A irlandesa moveu o rosto para fitar o rapaz. Ele olhava o líder dos Salvadores de volta, seus lábios entreabertos, as sobrancelhas franzidas em feições de temor. Carol, perto do rapaz, pareceu conter uma exclamação.
Por um segundo de pavor, Mavelle segurou a respiração, achando que era o fim do arquiteto.
Surpreendentemente, Negan apenas riu.
— Huh. Preciso raspar essa merda — comentou o sujeito perturbado, passando a mão na própria barba. Pelo visto considerara os pelos faciais no rosto do rapaz ridículos.
Ele retomou a caminhada, andando até Tara e Glenn, mirando mais a jovem morena do que o descendente de asiáticos.
Mavie Berry engoliu em seco, o coração ribombando em seu peito atormentado pela ansiedade. O homem portando seu taco não parecia minimamente interessado em acabar com aquele martírio pavoroso.
— Porra, Rick, você não brinca em serviço! — afirmou ele, retornando a andar para perto de onde Mavie estava parada na fileira dos sobreviventes humilhados.
— Além dos seus soldados genocidas, você recrutou um bando de assassinas. Uma mais gostosa do que a outra, tem até MILFs! — Apontou o taco para Carol Peletier. — Você não é tão burro assim. — Deu um sorriso largo de troça, mirando Rick Grimes novamente.
O homem perverso caminhou até Carl. Mavelle fitou Rick, ao seu lado, que acompanhou o líder dos Salvadores com o olhar. Temeu que o policial pudesse colocar tudo a perder. Ainda assim, ela teve de mirar Negan outra vez, temendo que ele percebesse a filiação.
— Você estava com uma das nossas armas. — O torturador apontou o indicador para o garoto. — Yeah, você tinha muitas armas nossas. Presente de alguém? — debochou com outro sorriso. Abaixou-se para ficar na altura do garoto e mirá-lo melhor.
Mavelle, impressionada, reparou que Carl Grimes sequer pareceu amedrontado. Nem se moveu. Tampouco piscou o olho.
— Que merda, moleque. — Negan soltou um enorme sorriso, parecendo ainda mais divertido. — Anime-se! Ao menos chore um pouco — sugeriu com deboche, rindo. Aparentemente, aprovava a postura gélida do adolescente.
Parecendo cansar de provocar Carl, o homem se levantou, e outra vez olhou para a fileira de sobreviventes, ajeitando a jaqueta por cima da calça ao se levantar. Mavelle reparou que havia uma pistola no cós da calça.
O líder dos Salvadores manteve seu passo predatório, passando por Heath, Mavie, Rick e desta vez parou em frente a Maggie.
— Jeeeesuuus... — enunciou, erguendo as sobrancelhas. — Você está um lixo, foi mal, e olha que normalmente deve ser uma gata. — Uma centelha interessada brilhou nos olhos escuros do homem, e Mavie temeu por uma reação súbita de Glenn.
— Tão nova e já com bebê... Parabéns ao papai — brincou Negan, claramente querendo constrange-la. — Se eu fosse um monstro... — o homem fingiu levantar Lucille, fazendo a bebê no colo de Maggie chorar, e o sangue de Mavelle gelou. Viu que Glenn caiu na provocação.
— NÃO! NÃO! — Glenn Rhee urrou, se lançando para a frente, saindo da linha que os Salvadores haviam organizado. Na mesma fração de segundo, Dwight e outros capangas começaram a esmurra-lo, fazendo Maggie implorar para que parassem. Beth chorava de soluçar no colo da mãe.
Mavelle também gritou um “por favor, não” agudo, ao passo que o Salvador loiro de rosto marcado empunhava sua balestra contra a cabeça do grande amigo da irlandesa.
— Parem com isso! — Greene insistia, escondendo o rosto da filha febril em seu peito. Berry percebeu que lágrimas grossas desciam de seus olhos suplicantes.
Em resposta, Negan coçou o bigode e seu rosto denotava impaciência.
— Não. Não. Botem ele de volta na fila — mandou, fazendo um gesto simples com a mão livre. Dwight arrastou o pai de Bethalie, cujo queixo tremia, os olhos lacrimejantes de ódio e pavor. Seu rosto estava sanguinolento pelas recentes agressões.
— Por favor... — Maggie suplicou em um fio de voz.
— Porra! Alguém tira esse bebê daqui! — exclamou Negan, como se subitamente percebesse a criança em prantos. — Fiquem com ele no trailer — pediu a um miliciano próximo da jovem mãe. — Não quero que a porra de um bebê assista uma merda dessas — garantiu, como se subitamente nutrisse algum pingo de empatia com os sobreviventes reféns.
Um homem brutamontes foi até Maggie, enquanto outro a segurava. Ela tentou evitar que arrancassem Bethalie de seus braços, que apenas ficou ainda mais agoniada, chorando em berros desamparados.
— POR FAVOR! — Maggie e Glenn imploraram em uníssono, mas Negan estava impassível, e o Salvador ao seu comando também. O homem seguiu com a bebê em prantos até o trailer, entrou e fechou a porta atrás de si. Não ouviram mais som algum vindo da criança.
Maggie Greene chorava abertamente, seus ombros tremendo, a vista de todos os sobreviventes detidos e dos Salvadores. O coração de Mavelle se partia em pedaços incontáveis ao testemunhar aquela cena, a tristeza pelo sofrimento dos amigos e da afilhada menor somente do que o ódio que apenas aumentava por Negan, em ondas fervorosas graduais.
Glenn Rhee, porém, seguia protestando, grunhindo ao passo que tentava se arrastar até o trailer para recuperar a filha. Os Salvadores tiveram maior trabalho para contê-lo, mas depois de alguns socos firmes em seu maxilar, fazendo sua boca se cortar e sangrar, o pai de Beth pareceu perder um pouco das forças.
Mavelle, se sentindo nauseada por tamanho horror, reparou que o sádico homem de jaqueta fitava Glenn, parecendo satisfeito. Abriu um sorriso enorme para o melhor amigo de Mavie, rindo. Em seguida, abaixou a cabeça, a levantando logo depois.
— Beleza, escutem! — O maníaco tomou fôlego. — Acho bom que nenhum de vocês faça algo parecido de novo. Vou encher de porrada o engraçadinho que repetir isso até aprender na marra a calar a boca, sem exceções. — Mavelle atestou que o miliciano já não tinha mais o semblante divertido de antes. — O primeiro foi de graça. É um momento emotivo, não é, papai? — Indicou o melhor amigo de Mavie com o indicador, lhe dando um olhar debochado. Como se ficasse orgulhoso pelo rapaz ter engravidado Maggie. — Eu entendo — falou, com fingida empatia.
Maggie apenas gemia, próxima da irlandesa. Rick, ao lado da caçadora, movia o rosto para a frente e para trás, talvez ele mesmo à beira de um surto psicótico. Negan pareceu notar isso, pois andou até o líder de Alexandria, levantando as sobrancelhas. Parou defronte a ele outra vez, o rosto em uma expressão solidária forçada, como se sentisse pena do policial.
— É uma merda, não é? — interpelou. — O momento em que você percebe que não sabe de porra nenhuma — disse em seu típico deboche cruel. Rick parecia se esforçar para evitar continuar trêmulo como estava, fitando o algoz e engolindo em seco.
O líder dos Salvadores deixou o olhar ir de Rick Grimes até Carl Grimes. Piscou os olhos. Em seguida, fitou Rick, e depois Carl novamente. Apontou Lucille do mandatário refém até o menino.
— É seu filho, não é? — Andou decidido até Carl, rindo outra vez.
— Porra, definitivamente é! — comentou, ainda mais animado. Mavelle reparou em outra centelha sádica nos olhos negros daquele homem, ainda apontando Lucille para o filho de Rick.
— PARE COM ISSO! — bradou o líder de Alexandria. Mavie fechou os olhos rápido, temendo a reação aquela falha do policial.
— HEY! — Negan urrou mais alto, imponente e ameaçador do que Rick. Caminhou rápido até o pai de Carl. — Não me faça matar o pequeno futuro serial killer! — Colocou uma das mãos ao peito, em um gesto de falsa solidariedade que pelo visto lhe era costumeiro. — Não facilite para mim! — ralhou com deboche, sorrindo para o pai acuado.
— Eu preciso escolher alguém. — Negan fingiu dar de ombros, a voz novamente tranquila. — Toooodos na mesa estão esperando que eu faça o pedido... — Apontou o taco de baseball com arame farpado ao redor.
O homem de jaqueta negra retornou sua caminhada torturante, assobiando a cada passo calculado. Estudava com toda a calma do mundo cada um dos sobreviventes cercados por seus homens, meneando a cabeça positivamente, tentando escolher seu mártir.
Cada gesto, palavra ou movimentação daquele sujeito parecia instável, apesar de ensaiada. Como se em um segundo ele estivesse falando, e no outro, começasse a trucidar todos ali presentes com suas próprias mãos.
— Puta que pariu, eu simplesmente não consigo decidir... — O sujeito de jaqueta negra soltou uma risada seca, seu hálito quente esfumaçado no frio daquela noite de inverno. A fumaça exalada de seus lábios parecia reger o conjunto de brumas naquela cena macabra, a névoa sitiando o grupo encurralado como fogo fátuo saindo de um túmulo.
O homem chamado Negan ria e seus olhos cintilavam, divertidos. Mas, por trás da fachada alegre, suas íris escuras revelavam algum tipo de expectativa doentia. Como se estivesse se alimentando do medo de Rick e seus companheiros, pavor denso como a penumbra que os envolvia.
Depois de virar as costas com os dedos junto ao osso do nariz, como se tentasse escolher alguém, seus olhos fuzilaram Mavie. Ela sentiu seu coração parar de bater por um segundo. Sua intuição arrepiante estava certa.
— Por exemplo. Olha só essa daqui. — O homem se aproximou de Mavelle Berry, colocando seu taco de baseball com arame farpado a centímetros da bochecha esquerda da irlandesa. Os olhos dele pareceram arder com um interesse escuso.
Daryl Dixon lançou-se para a frente imediatamente, rugindo como uma fera bestial, conseguindo por um segundo distrair os Salvadores que estavam parados atrás de si. Reagindo da mesma forma súbita, três milicianos o seguraram e o espancaram a ponto de deixá-lo à beira da inconsciência. A cada som de socos desferidos, Mavie teve de morder os lábios para não gritar.
O queixo de Mavelle tremia, lágrimas grossas escorrendo por seus olhos. Não era capaz de falar. Ou evitava dizer palavra, para não piorar a situação do arqueiro. Ainda assim, encarava o homem de jaqueta negra diretamente em seus olhos. Ele não desviava o olhar.
Negan riu o mesmo riso seco outra vez.
— Nem parece a matadora que eu sei que é, como todos vocês são. Porra, olha que gracinha. — Sua voz estava carregada de uma devassidão controlada, mas não por isso menos libidinosa. Pornográfica. Parecia deixar evidente o interesse que tentou disfarçar, ao admirar Maggie ou Tara.
Parte dos salvadores riram, parecendo concordar com o líder. Daryl ainda tinha de ser contido, mesmo espancado e sanguinolento. Seu rosto fora preso junto a terra batida, enquanto seu corpo todo tremia.
— Olha a carinha de menina que tem... Esses olhos. Os dentinhos... — A voz de Negan fingia um tom admirado, quase carinhoso, mas denotava lascívia tamanha que era obscena de se escutar. Extremamente incômoda. Um estuprador tentando acalmar sua vítima.
Daryl grunhiu mais uma vez, quase desacordado, mas foi facilmente calado com mais um golpe dos capangas. Mavelle sentiu que ela mesma era emocional e mentalmente espancada a cada golpe dado contra seu namorado.
— Dentinhos de coelho. Gosto de coelhos! — O sujeito doentio pareceu começar a elucubrar algo consigo mesmo, ainda olhando Mavie, franzindo as sobrancelhas. — A carne deles é boa de comer. — Ampliou ainda mais seu sorriso. — E são bichos que amam trepar pra caralho. Trepam o dia todo. Inspirador, não acha? — A fagulha devassa em seus olhos pareceu queimar ainda mais. Mavelle não conseguiu sustentar o olhar, enojada.
— Hey, hey, hey! — interpelou o depravado. — Não, olhe pra mim de novo. Assim — ele sussurrou. — Gosto de ver moças bonitas que nem você assim, olhando de baixo pra cima pra mim. — Moveu Lucille para si e depois para Mavelle, indicando a posição de cada um.
— Me fazem imaginar certas situações bem fodas... — o homem fez a óbvia analogia a sexo oral, da mesma forma repulsiva como falava anteriormente. A irlandesa franziu os lábios, tentando controlar o repúdio que sentia.
— Sabe, se a Lucille não ficar com ciúmes e quiser te matar hoje... — Negan fingiu lamentar, olhando para o taco como se não tivesse escolha alguma naquilo. — ...Posso te garantir depois uma vida bem melhor. Esse merdinha ali é o seu namorado? — Apontou o taco de baseball para Daryl. Mavelle não respondeu.
Ele moveu Lucille perigosamente para perto do rosto de Mavie, fazendo todos os sobreviventes de Alexandria e Hilltop soltarem expirações e exclamações de terror.
— Sim. — Sua voz parecia um fiapo sonoro, como se realmente estivesse à beira da morte. Berry estava apavorada, por mais que não tentasse demonstrar.
Negan franziu os lábios, meneando a cabeça, como se realmente se frustrasse.
— Ah, que desperdício. Mas tudo se ajeita... Eu poderia te dar uma vida muito melhor, sabia? Eu sei muito bem como tratar uma mulher. — O líder miliciano passou uma das mãos por uma das bochechas de Mavelle, acariciando sua pele. Ela fechou os olhos, franzindo as sobrancelhas, tremendo.
Permitiu abri-los quando sentiu os dedos dele se afastarem de seu rosto. Fitou-o a sua frente e reparou que seus olhos escuros pareceram lampejar, animados com algo.
— Tive uma ideia! — Perpassou o olhar em todos os sobreviventes, abrindo os braços, empolgado. Seus olhos rutilavam, fazendo coro ao sorriso sádico que tomava conta de seu rosto.
— Acordem esse babaca. Quero que ele veja — indicou Daryl com seu taco de baseball. Um dos Salvadores jogou água fria no rosto do namorado de Mavie até força-lo a recobrar a consciência. Tinha o rosto roxo, inchado de tantos golpes. A caçadora comprimiu um gemido de dor, levada ao extremo do terror mental.
E então, com a voz, postura e feições complacentes com que começara todo aquele jogo psicológico apavorante, ele parecia chegar ao seu último número. O último ato antes do fim.
— Eenie — Mavelle sentiu seu sangue congelar, ao ver Negan apontar o taco de baseball com arame farpado perto do rosto de Rick. Andou para a direita do policial, e, em seguida, moveu o taco para Maggie.
— Meeny — mal havia apontado a arma para a mãe de Bethalie, quando indicou outra sobrevivente.
— Miny — Mavie testemunhou o líder dos Salvadores indicar Carol com Lucille. O rosto do homem de um sadismo ímpar parecia iluminado, atingindo o ápice da diversão naquele momento doentio. Peletier demonstrava apreensão discernível.
— Moe — Caminhou até Michonne, passando o taco perto de sua face. A namorada de Rick não reagiu, implacável como Carl Grimes.
— Catch — Foi a vez de Tucker ser alvejado. O rapaz outra vez fitou o algoz com olhos apavorados.
— A — A vogal da agora perturbadora cantiga infantil foi reservada para indicar Eugene, que tinha o rosto repleto de lágrimas.
— Tiger — Negan apontou Lucille para Daryl, ampliando o sorriso zombeteiro. Mavelle sentiu outro arrepio aterrorizante transcorrer sua espinha.
— By — Levou o taco até centímetros do rosto de Tara, que piscava consecutivamente.
— The... — O líder sádico se divertiu apontando Lucille para Glenn. Se permitiu alguns segundos aproximando o taco do rosto do rapaz, que fitou o arame, seu queixo tremelicando. Em seguida, o miliciano girou nos calcanhares e foi até o outro lado da linha de reféns torturados psicologicamente.
— Toe! — Indicou Morgan, com alegria doentia. O homem abaixou o rosto, vulnerável.
— If — Mavie reparou que ele apontou Lucille para Gaspar e Jesus ao mesmo tempo. Ambos compartilhavam feições chocadas, inertes, como se sequer ousassem respirar.
— He — Redmond e Carl foram indicados juntos também. O filho de Rick, impassível. Redmond, com os olhos tão esbugalhados que poderiam saltar fora do rosto.
— Hollers — Lucille foi movida para perto de Heath. O rapaz de dreads soltou um gemido temeroso.
— Let him go! — Apontou o bastão para Mavie, lhe fitando com um sorriso sugestivo. Ficou claro para ela o que já desconfiava. A frase de duplo sentido, citando Daryl nas entrelinhas, escancarava que aquele uni duni tê não era nada arbitrário. Negan já havia se decidido.
E ela temia contar e descobrir o destinado aquela morte sangrenta.
— Eeny, meeny, miny — proferiu, indo outra vez de Rick, para Maggie, para Carol e parou, finalmente, sua voz em um tom definitivo.
— Moe. — Lucille indicava Tucker Hayes.
Negan abriu um sorriso imenso.
Mavelle arregalou os olhos, fitando o rapaz. Tucker levantou o rosto, devagar, como se nem ousasse encarar seu carrasco. Seus olhos azuis tremelicavam, tomados completamente pelo pavor de se ver assim, inerte aos caprichos sádicos daquele psicopata.
Carol Peletier gemeu e suplicou.
— Não! — implorou. Mavie viu os olhos da mulher se encherem de lágrimas, enfim. Jamais a testemunhara chorar.
Negan riu.
— Não tinha acabado! Quanta ansiedade... — ironizou, e moveu Lucille até Eugene.
— My mama! — continuou o homem perverso, e o cientista de Alexandria baixou o rosto outra vez, ao ver o bastão de baseball tão próximo.
— Told me to — o líder dos Salvadores não tentava mais esconder que a contagem não era aleatória. Usou três palavras apenas com Michonne, que manteve o olhar, sem titubear.
— Pick the very best one — debochou e indicou Daryl com o taco apinhado de arame farpado. Fitou o caçador arqueiro por algum tempo, como se estivesse realmente tentado a parar ali. Mavelle estava quase gritando quando o miliciano continuou.
— And you are i… — Tara ergueu os olhos para o bastão, já esperando o golpe. Esbugalhou seus olhos castanhos aterrorizados.
Mas Negan não havia parado.
Ainda.
— It.
Mavelle Berry não soube como conseguiu assistir aquilo.
Como sobreviveu aquilo.
Estava prestes a assistir uma cena tirada dos recônditos de um pesadelo infernal, capaz de ser imaginada somente por uma mente sedenta por sangue, além do nível que ela poderia compreender ou alcançar.
O tempo pareceu suspenso no ar, assim como estava o bastão de Negan.
Diretamente indicando Glenn Rhee.
— NÃO, POR FAVOR! — Maggie gritou, o berro escapando de sua garganta como se levasse consigo parte da sua vida. O som rascante feriu os ouvidos de Mavelle como se a jovem mãe tivesse sido alvejada, mas a irlandesa não conseguiu reagir. Apenas assistiu, boquiaberta, implorando para que estivesse presa em um pesadelo de realismo medonho.
— Se alguém se mexer ou tentar impedir, cortem o outro olho do garoto e deem para o pai comer. — A voz de Negan soava determinada, longe do tom blasé e tranquilo de antes. Assemelhava-se em fisionomia e postura com os lobos que uma vez a cercaram na floresta próxima ao Aquário da Geórgia, famintos pelas vísceras dos invasores de seu território. E agora os reféns apenas assistiam, em paralisia estarrecedora, o lobo alfa arreganhar suas presas.
— E então vamos começar! — A frase de Negan saiu gutural, o sadismo presente em cada palavra proferida.
— NÃO! — Maggie berrou outra vez, seu tronco caindo para frente, como se seu corpo não conseguisse sustenta-la. Mavie pestanejou, ainda não acreditando no que acontecia.
Era horrível demais para ser real.
— Vocês podem respirar, piscar, chorar, gritar. Inferno, todos vocês vão fazer isso! — assegurou.
— Por favor, não — pediu Glenn, rouco, em um fiapo sonoro, mas Negan não parecia capaz de escutar.
Golpeou o crânio do jovem pai com bestialidade.
O bastão munido de arame farpado atingiu violento a testa do marido de Maggie, a esburacando e deformando aquela parte de seu rosto para sempre. Chegou a perfurar sua pálpebra, deixando seu olho saltado. Sangue escorreu sem parar da ferida profunda e irremediável.
Mavelle sentiu a bile subir de seu estômago para sua garganta. Estava prestes a vomitar.
Glenn Rhee soltou um som que lembrou um ganido débil de um animal espancado. Boa parte dos sobreviventes gritavam, mas os ouvidos de Mavelle zumbiam. Ela mal escutava o que se passava. Apenas assistia, com olhos esbugalhados, seu melhor amigo ser feito de sacrifício humano.
— M-Ma-Mag-gie? — gaguejou ele, com a cabeça amassada e a pálpebra direita furada. Sua testa afundara, e o rapaz movimentou o rosto para fitar a esposa, enquanto Negan ria, surpreso. Mavelle percebeu que Maggie berrava sem parar, chamando o homem que amava, que nada poderia fazer para corresponder aos seus apelos.
— Puta merda! Olha só isso! Segurou que nem um campeão! — O líder dos Salvadores não esperou. Levantou os braços vigorosos e amassou ainda mais o crânio já disforme do pai de Bethalie.
— GLENN! — Outro estridente berro desatinado saiu de Maggie, que só findou o grito quando não tinha mais fôlego.
— Glenn... — Mavelle apenas sussurrou, sentindo a náusea se misturar com o choro desamparado que enevoava seus olhos e banhava suas faces.
— Não! — protestou Carl, enfim reagindo a todo aquele tormento insuportável.
— PARE! — Michonne urrou, seus olhos escuros aparentando brilhar de dor e ódio.
— ESPEREM! — Rick tentou incutir algum controle na situação, mas todos se lamentavam, provavelmente sentindo dentro deles cada talho, fissura e desumana barbárie destinada ao jovem pai.
A violência não parava, o som do rosto e crânio de Glenn surrados com ferocidade, ditando o ritmo daquele assassinato repugnante. Ruídos úmidos, grotescos, de carne e ossos triturados sem dó.
Mavie viu que Tucker não aguentou. Pôs-se a vomitar aos seus próprios pés, ao passo que Carol chorava em silêncio, cobrindo o rosto, sem suportar a visão infernal. Heath, abismado, olhava para cima, as lágrimas descendo incessantes de seus olhos. Eugene também baixara o rosto. Paul e Gaspar olhavam em frente, trêmulos, talvez testemunhando pela primeira vez de perto o horror feito pelas mãos de Negan.
Redmond suava frio, dividindo seu olhar atônito entre o líder de Alexandria rendido e o sádico assassino. Até Daryl, sempre inalcançável, fitava o martírio de Glenn com olhos perplexos.
Tara, perto do amigo que era espancado até a morte com requintes de crueldade, não parava de gritar e chorar. Feria o próprio rosto com as unhas, desesperada por estar tão perto daquela cena retirada da mente de um psicopata insano.
A cada golpe de Negan, pele, sangue e até mesmo partes do cérebro de Glenn respingavam no corpo e rosto de Tara, que cortava suas bochechas com as próprias unhas.
Negan continuou a macerar o crânio do rapaz, que sofreu em uivos excruciantes, soando atravessados na garganta. Pareceu engasgar em seu próprio sangue até desmaiar. Mesmo desacordado e provavelmente morto, o líder dos Salvadores desfigurou o crânio do pai de Bethalie com determinação doentia. Ao finalmente se cansar, o mandatário miliciano deixou o maxilar do jovem que assassinara partido, sua língua cortada, um dos olhos fora do rosto, diversos ossos de sua face amassados. O semblante sempre gentil e doce do melhor amigo de Mavelle, deformado em uma máscara de sua morte violenta e dolorosa.
O retrato da brutalidade do homem que os violara — a todos — da pior forma possível.
O matador passou a mão livre na face, limpando do rosto os restos de Glenn e seu sangue ainda fresco.
— Ok... Puta que pariu, isso foi feio. Lucille é sanguinária — o psicopata fingiu se lamentar. Mavelle apenas fitava os restos do melhor amigo executado daquela maneira desumana, atroz, impensável por qualquer pessoa minimamente piedosa. Não sabia como conseguiria viver dali em diante.
Aquele mundo parecia o próprio inferno.
— Eu vou te matar... — Rick Grimes não se conteve, o rosto todo molhado de suor e lágrimas. Mavelle Berry deixou seu pranto descer de seus lacrimais, sabendo que a fala do pai de Carl sem dúvidas não sairia barata.
Maggie, alheia a todos, puxava os próprios cabelos, cortados em um corte curto. Arrancava tufos com as próprias mãos, berrando desvairada. Continuava caída no chão, encolhida, os olhos fixos no cadáver de seu marido e pai de sua filha, bebê já feita órfã pela maldade humana.
— O quê? Depois de tudo isso... Depois desse circo infernal você não entendeu porra nenhuma?! — Negan não parecia acreditar. Andou impetuoso até o líder de Alexandria, o bastão de baseball repleto de sangue e vestígios do que um dia fora a pele no rosto de Glenn.
— Caralho, o quão fodidamente burro você é, seu imbecil? — O líder dos Salvadores sacudiu a cabeça, respirando fundo.
— Filho da puta, lá vamos nós de novo. — O assassino quase rolou os olhos, bufando.
— NÃO! Por favor, chega! — pediu Tucker em súplicas veementes. Chorava lágrimas grossas, como boa parte dos sobreviventes reféns.
Mavelle não tinha sequer forças para protestar. Não conseguia tirar o olhar do que sobrou da cabeça esparramada de Glenn, a imensa poça de sangue, seu corpo em um arco contorcido.
Estava morto. Daquele jeito. Trucidado até o fim.
— Eenie — Negan disse, e ia começar, apontando Lucille para Rick. Mavelle o viu, pelo canto dos olhos, menear a cabeça e desistir. — Espera, é fácil! Vamos por eliminação — resolveu, com um tom de voz orgulhoso.
O carnífice caminhou até Tara Chambler, ainda fincando as unhas nas bochechas, arfando desconsolada pela morte terrível de seu grande amigo.
— POR FAVOR! — Tara gritou, sabendo o que a esperava.
Mavelle pestanejou, finalmente conseguindo desviar o olhar dos restos mortais de seu melhor amigo. Não seria a única perda hedionda daquela noite de horror e trevas.
Chambler chorava abertamente, olhando para Negan com súplica quase infantil em suas íris desperançadas.
— Foi culpa do seu antigo líder, querida. — O maníaco homicida terminou de falar e barbarizou o rosto de Tara Chambler em um ataque ainda pior que o primeiro reservado a Glenn. Dentes da jovem mulher voaram longe, seu maxilar, nariz e testa desfigurados no primeiro golpe.
Mavie não pôde mais se controlar. Expeliu para fora a bile, regurgitando ainda presa a dor que não deixaria seu corpo — tampouco sua mente — tão cedo. Se é que um dia seria superada.
O mesmo coral de suplício de almas atormentadas gritou, uivou e chorou ao mesmo tempo. Todos imobilizados, ajoelhados e sujeitos ao flagelo maquiavélico escolhido para eles.
Mavelle sentiu sua noção de equilíbrio sumir. Tudo girava verticalmente, e ela parecia flutuar, aguardando uma queda vertiginosa que jamais pararia. Jogada ao abismo do total desalento em uma realidade onde tudo que existia era apenas brutalidade, ódio e terror.
Imobilizada, a irlandesa assistiu a tortura e posterior morte hedionda de Tara se dar nos mesmos termos que a de Glenn. Seu crânio se transformou em uma papa de carne, seus restos mortais esmagados, suas feições irreconhecíveis.
— Puta que a pariu... Não consigo me acostumar com essa merda — reclamou o assassino doentio, sacudindo o bastão de baseball. A arqueira, presa em seu tormento mental após ter sido obrigada a passar por tamanho terror indescritível, atestou de longe o líder miliciano caminhar até Maggie Greene.
— Vamos trazer seu neném de volta, mas antes disso preciso levar um lero com esse filho da puta fodido do caralho. — Abaixou-se na frente da jovem viúva, e indicou Rick com Lucille, banhada no sangue dos melhores amigos de Mavelle.
Mavie não tinha consciência de seu corpo, praticamente. Apenas sentia a vertigem tomar conta de si, e se perguntava como ainda conseguia respirar. Os minutos que se passaram destinados a conversa de Rick e Negan dentro do trailer sequestrado não importavam, sequer foram sentidos.
Ela não era mais capaz de reagir a algo além do pesar e horror imensurável gerado pelo martírio de seus amigos, supliciados até a morte derradeira. Seu queixo batia, seus dentes rangendo, não pelo frio, mas pelo pavor.
Depois de um tempo, Rick saiu do trailer com Beth no colo, tapando seus olhos e a embalando de forma que não pudesse ver o cadáver do pai. O rosto do mandatário de Alexandria, em feições que Mavelle jamais vira antes. Demonstrando completo e irremediável fracasso. Derrotado, definitivamente.
— Vamos levar o Red com a gente, e mais um amigo de vocês para ter certeza de que o Rick aqui vai cumprir com lealdade sua parte no trato — Negan disse, voltando a sorrir. Mavelle o fitou. A onda fervente de ódio que se alastrou por seu corpo como veneno imediatamente ingerido conseguiu superar a repulsa que já sentira por todo e qualquer outro ser humano. Até maior do que o reservado a Jeffrey.
— Ele vai trabalhar diretamente com a gente agora — alertou, assinalando Daryl Dixon ao apontar Lucille para o arqueiro. Os Salvadores andaram até o caçador e o forçaram a se levantar e caminhar. Outros fizeram o mesmo com Redmond Lewis.
— Não — Mavelle tentou responder, soltando o ódio que crescia acelerado dentro de si. Sua voz, contudo, não obedeceu a emoção. Soou frágil, debilitada, um rosnado fraco de uma fera abatida.
Negan olhou para ela como se fitasse algo adorável. Divertia-se com a dor e com a aparente revolta da irlandesa.
— Não se preocupe, eu vou te visitar. E se quiser se mudar para a nossa casa, será muito bem recebida — falou, caminhando até a garota que continuava de joelhos. Prostrou-se defronte a ela e segurou em seu queixo com a mão odiosa que brutalmente assassinara seus grandes amigos.
— Pode ter certeza disso — garantiu, os dedos ainda no queixo da irlandesa. Por cima do ombro do assassino, Mavie podia testemunhar que Daryl, arrastado pelos Salvadores, era até mesmo impedido de olhar aquela cena.
Os homens a mando de Negan guiaram o engenheiro de Hilltop e o arqueiro de Alexandria até um caminhão, onde os empurraram e os vendaram. Subiram todos aos seus veículos, que foram deixando a clareira. Dwight e outros jogaram metade das armas e munições dos alexandrinos e moradores de Hilltop perto da porta do trailer, e Negan deu sua última fala em despedida:
— Em uma semana vou para Alexandria pegar minha parte do acordo. Não se esqueçam de deixar tudo pronto para nós! — aconselhou, já munido de sua expressão sorridente, lhes saudando em deboche.
Ele entrou em um dos automóveis e todos os Salvadores dirigiram para longe daquela floresta, que ficaria para sempre marcada em suas memórias como um campo de tortura e extermínio brutal.
Mavelle, caída em seus joelhos, deixou os braços tombarem para frente. Escondeu o rosto na terra, fechando os olhos. O cheiro de sangue e carne destroçada dos executados empesteava o ambiente, levado pela névoa às narinas de todos os sobreviventes.
Ela gritou até perder as forças, sentindo que morrera por dentro, junto com seus amigos.

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