Hunter's Instinct

76 Episódio 76 - Lullabye


Notas iniciais
Boa noite, meus lindos e minhas lindas! Como estão todos vocês? Eu estou particularmente bem animada, porque vou viajar! Saio dia 19/10 e só volto no dia 02/11! Por isso não poderia deixar largada minha fanfic tão querida sem uma atualização! :) Aliás, estou também muito feliz porque meu Bobby ganhou o Nobel de literatura! Vocês já me viram fazer referências ao Dylan pra caramba aqui por Hunter's Instinct, e os leitores de outras fanfictions minhas também. Pra mim, Bob Dylan está para a música como Nietzsche está para a filosofia. É meu musicista favorito! E realmente é um poeta, um dos maiores ícones da poesia contemporânea norte-americana, prêmio mais do que merecido. Dedico este capítulo aos leitores comentaristas do capítulo passado: marcelammota, En Sabah Nur, Sami, Mirah, Lady Circe, Caçadora, Vivi Costa, Joke, Filho de Kivi e Lil Monster, bem como a Babi Prongs que comentou por áudio =P! Muito obrigada pelo apoio de sempre, gente, ainda mais depois de um capítulo tão pesado quanto o passado. E devo adiantar que esse, embora não seja tão aterrorizante quanto, também está longe de ser leve. POVs: Rick, Maggie, Daryl e Redmond. É um capítulo bem bad vibe e cheio de feelings. Temos tensão, mais tortura psicológica do Negan em três dos POVs, despedidas, enfim, é um capítulo repleto de fardo emocional. Mas acho que vão gostar. Recomendo fortemente que escutem a música "Lullabye (Goodnight, my Angel), do Billy Joel, especialmente nessas versões: https://www.youtube.com/watch?v=wKvDjGNYujk e https://www.youtube.com/watch?v=ZRpxd-zn5AY. Lá embaixo eu explico porque. Digamos que a letra tem realmente tudo a ver com alguns personagens. PESSOAL QUE RESOLVEU ABRIR ESSE CAPÍTULO ALEATORIAMENTE E NÃO LEU O ANTERIOR AINDA, NÃO DESÇAM PRAS NOTAS FINAIS! TEM SPOILERS! VOCÊS FORAM AVISADOS! Dito isso, beijos e boa leitura!

...Goodnight my angel, now it's time to dream

And dream how wonderful your life will be

Someday your child may cry, and if you sing this lullaby

Then in your heart, there will always be a part of me

Someday we'll all be gone,

But lullabies go on and on

They never die,

That's how you and I will be

Billy Joel – Lullabye (Goodnight, My Angel)



Ele nunca se sentira daquele jeito.

Hirto, paralisado em meio a ruína.

Com os olhos fixos na terra a sua frente, apenas pôde deixar os olhos focarem nos vestígios do que foram os rostos de duas pessoas que fizeram parte do seu grupo. Membros da sua família. Fundamentais até mesmo para que ele estivesse ali, testemunhando seu martírio. Sem saber como ainda encontrava forças para respirar.

Por mais que pestanejasse, os restos espalhados dos crânios de Glenn e Tara ali estavam e continuariam. Lembranças em carne e sangue espatifados, esparramados naquele solo funesto. Mortos em um brutal assassinato perverso, motivado pela estupidez de seu líder.

Rick Grimes fizera todo o possível para evitar que Negan pudesse lhes ferir tanto quanto Hashimoto. E, por tudo o que demonstrara naquela noite... O carnífice provou que fez e que poderia fazer ainda pior do que a psicopata japonesa.

O policial tinha os ouvidos ensurdecidos pelos lamentos, altos e baixos, dos sobreviventes acossados perto dele. Alguns choravam em silêncio, outros se lamuriavam audivelmente, outros sequer se manifestavam, estáticos pelo terror atestado, tão silentes como se espelhassem os cadáveres dos amigos flagelados.

Às suas narinas, chegava o grotesco odor do sangue fresco, dos resquícios mortais dos supliciados. E, em meio a todo aquele cenário inimaginável em cada aspecto horripilante que se traduzia como real... Negan foi até ele.

— O quê? — perguntou, dando alguns passos para perto de Rick. — A piada foi tão ruim assim? — O pai de Carl não o olhou, mas podia imaginar o sorriso debochado no rosto desgraçado daquele homicida. Como se rompesse o torpor do horror que Grimes sentia, o policial percebeu outro sentimento surgir dentro de si, em oscilações cada vez mais rápidas e intensas. Raiva. Completa e irremediável ira.

Para não responde-lo, o outrora líder dos alexandrinos teve de se conter ao máximo.

— O quê? — Negan insistiu. — Eu não ouvi direito, você vai ter que falar mais alto. — Manteve o tom jocoso, se abaixando outra vez na frente do policial. Rick se viu obrigado a encará-lo.

Eu vou te matar. Não hoje, nem amanhã. Mas eu vou te matar.

O pai de Carl jurou em pensamento. Enquanto isso, fitou o algoz de Glenn e Tara sem desviar os olhos.

O líder miliciano estalou seus lábios. Seu olhar debochado passou de divertido para brevemente incomodado, como se esperasse mais um vacilo da parte do policial. Continuou a fita-lo fixamente, até que rompeu o silêncio.

— Simon. O que ele tem, uma faca? — indagou o sádico homem, seu sorriso enviesado estampado em seu rosto. Rick tinha vontade de rasgar sua boca com os dedos e quebrar seu maxilar, ali mesmo.

— Uma machadinha — respondeu um homem mais atrás do policial.

Negan mirou seu capanga, rindo. Pareceu novamente divertido, como se tudo o que fizera a Glenn, a Tara, e todo o terror psicológico elaborado de maneira minuciosa não lhe causasse nem uma ínfima parcela de culpa.

— Uma machadinha? — duvidou o líder dos Salvadores, mantendo o riso seco que já soltara algumas vezes naquela noite infernal.

— Um machado pequeno — corrigiu-se seu seguidor.

Aquilo pareceu satisfazê-lo. Rick, ainda não esquivando os olhos do olhar fulminante que Negan lhe dava, o escutou falar com voz mansa.

— Simon é meu braço direito — afirmou. — Ter um desses é importante. Quero dizer, o que te sobra sem eles? Muito mais trabalho — elucubrou, o deboche presente em suas palavras ditas em um tom de falsa placidez. O carrasco de Glenn e Tara franziu as sobrancelhas. — Você tem um? Quem sabe uma dessas pessoas bacanas que ainda estão respirando... — supôs, claramente tentando provocar Rick. O pai de Carl finalmente desviou o olhar, para conseguir manter um mínimo de sanidade.

— Ah... Ou será que eu...? — Negan continuou a tortura-lo, fazendo um som estalado com a boca, em uma onomatopeia do ruído dos crânios partidos dos jovens amigos de Rick.

O rosto de Rick Grimes retornou a tremer sem parar. Pestanejou os olhos em um tique nervoso, sem que pudesse se conter. Se pudesse mata-lo... Ali e agora...

“Hey. Você aí no tanque, seu babaca”. As primeiras palavras de Glenn Rhee dirigidas a ele ressoaram em seus ouvidos. Glenn fora sua ponte com todas aquelas pessoas que conhecera. Se não fosse por ele, talvez jamais teria conhecido o grupo que agora liderava. Que o salvou de mortos-vivos, de outras pessoas, e de si mesmo. Tantas e tantas vezes. Pessoas que, quase dois anos depois, Tara se unira para fortalecer a família que formavam.

“Glenn me disse que você salvou a vida dele” dissera Rick Grimes para Tara Chambler, quando escaparam de Terminus. “Ele salvou a minha”, ela respondera. Rick sorriu e adicionou, naquela ocasião: “É assim que funciona com a gente, certo?” no que aquela garota confirmou, dizendo um doce e assertivo “Certo” em resposta. Não contente, levantou o punho fechado em um cumprimento juvenil, divertido, empolgado e afável, como era de sua personalidade. Cumprimentaram-se, e o policial se viu satisfeito em perceber o grupo crescendo, criando novos vínculos e laços de afeto.

Um rapaz e uma jovem mulher. Tão novos, tão ternos, tão bons. Aquele mundo não perdoava a bondade. Era brutalmente eliminada da face daquela terra abandonada, povoada de morte e sofrimento.

Dissipando os pensamentos excruciantes do outrora mandatário de Alexandria, o homem de nome Simon andou até seu chefe, lhe entregando o machado do policial.

Negan manteve o olhar mergulhado nos orbes de Rick, sem nem piscar. O pai de Carl travava uma batalha interna para prosseguir naquela guerra silenciosa, obstinado, mas se aquilo demorasse mais alguns minutos, talvez enlouquecesse.

Era dor demais para qualquer ser humano.

O líder miliciano guardou o machado de Rick próximo ao cinto, e se levantou. Grimes mal teve tempo de piscar, quando o matador o puxou pela gola do casaco.

— Eu já volto — garantiu Negan, sua voz sempre bem humorada tomando um tom soturno e macabro — talvez Rick venha comigo. Se não, bem, a gente pode simplesmente estraçalhar essas pessoas e virá-las do avesso, não é? — rugiu, sua voz em grunhidos truculentos, exibindo todo o sadismo que lhe aprazia. — Quero dizer, os que sobraram — acrescentou com morbidez.

Enquanto dizia tais frases, arrastou Rick Grimes pela grama e terra batida, dilatando ao extremo a humilhação já imposta ao homem que tentara liderar Alexandria e proteger seu povo. Negan era forte, levou-o com um braço como se fosse um peso morto fácil de carregar.

Ele atirou o pai de Carl para dentro do trailer, entrou e fechou a porta com um estrondo.

Rick tentou se colocar de pé, enquanto o líder miliciano o fitava com um olhar risonho. De esguelha, o policial vislumbrou o Salvador que arrancara Bethalie dos braços da mãe se levantar. A criança gemia assustada, deitada no sofá do RV.

— Pegue o bebê, entre no quarto e feche a porta — ordenou o líder dos Salvadores ao seu capanga mais próximo. O sujeito assentiu e ligeiro seguiu o comando.

Rick e ele estavam sozinhos. Grimes não fazia ideia do que aquele homem cruel queria tentar, apenas tinha certeza de que era algum outro embate psicológico. Se fosse mata-lo, o faria na frente do grupo.

— Vamos nos sentar, não é? Não somos dois animais — ironizou Negan, apontando com o taco para a mesa do trailer. Sentou-se, e Rick, vendo-se sem alternativas, fez o mesmo, pondo-se defronte ao homem que desejava ferrenhamente assassinar.

O líder dos Salvadores retirou o machado de Rick do cinto, enquanto deixava Lucille em cima da mesa. O torturador fitou Grimes, parecendo se deliciar com o transtorno que causava. Tinha uma expressão tão gritante de regozijo em seu rosto, como se enlouquecer o mandatário de Alexandria pudesse lhe trazer o maior dos êxtases.

— Acho que você já entendeu que precisa fazer o que eu mandar. Certo? — Usou de um timbre paciente e debochado.

— Eu te fiz uma pergunta — ressaltou, o tom de voz perigosamente mais baixo e rouco. Rick pestanejou. Não poderia ser causador de outras fatalidades, e o homem tinha a filha de Glenn sujeita as suas vontades no quarto ao lado. Por sua culpa, o pai daquela bebê morrera. Se algo acontecesse a ela, ou a Maggie, Rick preferiria ter de matar a si mesmo do que lidar com essa culpa.

— Certo — respondeu, aviltado.

— Então coloque as suas duas mãos em cima da mesa.

Rick havia desviado o olhar por um segundo. Assim que ouviu aquela frase, mirou o rosto de Negan.

O homem não parecia brincalhão. Não havia sorrisos em seu rosto, apenas um olhar sério e fulminante dirigido ao policial.

— Eu não vou mandar outra vez — retificou o sujeito, o mesmo semblante austero e ameaçador evidente. As pálpebras de Rick Grimes tremeram pelo estresse insuportável.

Suas mãos tremulavam antes que colocasse as palmas em cima da superfície da mesa. Negan apertou os dedos na base do machado. Levantou-o com a mesma violência com que elevou Lucille antes de destroçar os rostos de Glenn e Tara. Rick fechou os olhos, esperando a agressão.

— Tente não gritar — debochou o homem, e desferiu o golpe.

A lâmina do machado se chocou em um corte brutal e penetrante, o ruído afiado rasgando os ouvidos do pai de Carl. Porém, surpreendentemente... Rick não sentira dor.

Abriu as pálpebras, surpreso. Sofrera tamanho desgaste emocional que era incapaz de sofrer padecimentos físicos? Realmente não sentira uma de suas mãos ser decepada?

Surpreendeu-se ao não ver nenhum sinal sangrento em cima da superfície.

E suas duas mãos intactas.

— Agora eu definitivamente te fiz cagar nas calças — o homem de sadismo patológico debochou, abrindo um amplo sorriso para o outrora mandatário. O machado partira a superfície da mesa, fincado bons centímetros nela. Bem no meio das suas duas mãos espalmadas.

— O que mais você quer? — Rick não compreendia. Sua voz saiu falha, incapaz de sequer fingir resistir. Não conseguia entender como aquele homem podia ver tamanho prazer no sofrimento de todos eles. Em estender aquele horror ao máximo. Será que não era suficiente?

O sorriso de Negan se mantinha em seu rosto, um pouco menos empolgado.

— Eu já disse. Metade do que vocês têm — reiterou, segurando Lucille outra vez. Resquícios da pele, carne e sangue de Glenn e Tara mancharam a superfície da mesa.

— Quero ter certeza de que você vai cumprir o trato. Espero que você esteja ciente de que merda está acontecendo aqui, Rick. — O delinquente o fitou com cuidado, como se duvidasse da capacidade mental dele de assimilar a mensagem que queria passar.

— Eu matei dois dos seus para que você compreenda, de uma vez por todas, que você não manda mais em porra nenhuma. Você obedece as minhas ordens. Como fez, colocando suas mãos em cima da mesa porque eu falei. Se eu quisesse, teria cortado uma delas. E você não iria nem reclamar. Certo? — Outro sorriso enviesado nasceu no rosto daquele homem perverso.

— Certo — confirmou o policial, seu queixo tremelicando.

— Isso mesmo. — Negan colocou as mãos em cima da mesa, uma delas segurando o bastão, e aproximou o rosto alguns centímetros para a frente.

— Eu vou deixar a sua comunidade em paz se vocês colaborarem. Vou evitar que mortos-vivos rondem as merdas das suas fronteiras, e vocês vão me pagar por isso. Com trabalho, com o que produzirem. Vamos fazer isso funcionar. Certo? — indagou novamente. Rick se sentiu zonzo.

— Certo — disse Grimes, atordoado.

— É bom ver que você ainda tem alguns neurônios funcionando! — comentou o algoz, sorridente. — Rick, você me fez matar a porra de um pai de um bebê e uma garota bonita. Um moleque que não devia ter nem vinte e seis anos, e uma que com certeza não tinha nem trinta. Como você acha que eu me sinto com isso? — ironizou, levando uma das mãos ao peito. Era claro que só queria realçar a culpa de Rick Grimes pelo destino dado aos seus desafortunados amigos. Seu bom humor deixava óbvio sua indiferença bestial.

Rick apenas anuiu com a cabeça, completamente submisso.

— Então, estamos conversados. Você não vai ser um idiota, vai se comportar bem, cuidar da sua comunidade. Depois faço uma visita para vocês. Vou carregar aquele língua solta do Redmond comigo, tenho alguns planos para ele, imagino que não vá ligar — falou com sarcasmo. — Mas, só para ter certeza de que você vai me obedecer... — Negan se ergueu do assento, movendo Lucille consigo. Deu um olhar predatório para Rick.

— Eu vou levar o seu braço direito. Não literalmente — debochou. — E algo me diz que eu sei quem é. — Seus olhos rutilaram, animados, combinando com seu sorriso doentio.

— Você... — Rick Grimes balbuciou, mas Negan lhe deu um olhar significativo. Pela expressão impiedosa que fez, o policial se rendeu.

— ...Está certo — completou, abaixando o semblante. O homem a sua frente, de pé, riu. Deu-lhe um tapinha de falsas condolências na cabeça. Abaixou-se perto dos ouvidos dele, lhe dizendo aos sussurros:

— Você vai se acostumar logo, logo. Se quiser continuar vivo, ou que seu povo continue vivo. Seu filho. Eu não gosto de separar famílias, mas você já sabe o que sou capaz de fazer se for necessário — salientou. Deu um olhar cruel para o quarto ao lado. O sangue de Rick gelou.

Era onde estava a bebê de Glenn e Maggie.

O tirano andou até a porta do quarto do RV e bateu. Disse ao homem que estava lá dentro que entregasse a neném para Rick. Ele recebeu Bethalie nos braços, apavorado. O homem portando Lucille mordeu os lábios, parecendo se esforçar ao conter a própria diversão sádica.

— Você vai na frente. — Negan abriu a porta do trailer, outro sorriso enorme se desenhando em seu rosto. Rick seguiu a ordem dada, caminhando para fora com Beth acalentada consigo. Assim que desceu as escadas, cobriu o rosto da bebê, escondendo-a em seu peito para que não visse o cadáver destroçado do pai.

— Vamos levar o Red com a gente, e mais um amigo de vocês para ter certeza de que o Rick aqui vai cumprir com lealdade sua parte no trato — o algoz dos alexandrinos bradou, um pouco atrás do policial. Cambaleante, o pai de Carl arrastou os pés até Maggie, que abraçava os próprios ombros, chorando desconsolada. Olhava sem parar para o cadáver de seu marido assassinado.

— Ele vai trabalhar diretamente com a gente agora — garantiu o opressor, e Rick viu que ele movimentou o taco de baseball responsável pelo suplício de seus amigos para Daryl Dixon.

Rick sentiu como se algo pesado desabasse em seu peito, tornando sua respiração entrecortada ainda mais dificultosa. Indefeso, apenas assistiu os Salvadores puxarem Daryl, tão espancado que não tinha forças nem para se mover sozinho. Outros empurravam Redmond na direção dos automóveis do grupo facínora.

— Não. — O policial ouviu Mavelle se insurgir contra as ordens do homem com o taco de baseball. Por alguns momentos, temeu que tivesse de lidar com o peso de mais um assassinato cometido as custas de suas escolhas estúpidas.

Todavia, Negan não pareceu se enfurecer com a reclamação da irlandesa. Apenas a olhava com uma expressão na qual Rick reconheceu desejo e diversão.

— Não se preocupe, eu vou te visitar. E se quiser se mudar para a nossa casa, será muito bem recebida — o sádico assegurou, e andou até a garota ajoelhada. Rick o viu de costas, abaixado na frente dela. Atestou, paralisado, ele segurar no queixo da namorada de Daryl, sem esconder que provavelmente Mavie era também um de seus interesses em Alexandria.

— Pode ter certeza disso — o homem impiedoso enfatizou sua fala anterior, enquanto o pai de Carl vislumbrou os Salvadores jogarem Daryl Dixon e Redmond Lewis em um mesmo caminhão e passaram a vendá-los.

Ao passo que largavam metade das armas do grupo de Grimes pelo chão, todos os seguidores daquele psicopata se preparavam para deixar a clareira. Esta, ainda envolta pela névoa horripilante que os cercava, parecendo o reflexo da tortura angustiante sofrida e consolidada. E logo o déspota se despediu.

— Em uma semana vou para Alexandria pegar minha parte do acordo. Não se esqueçam de deixar tudo pronto para nós! — proferiu uma falsa recordação do que seriam seus afazeres, e logo entrou em um dos caminhões. Os Salvadores e seu líder perverso se afastaram daquele campo de extermínio, deixando os alexandrinos e moradores de Hilltop ao léu do tormento trágico.

Rick Grimes só então conseguiu entregar a filha de Maggie para a mãe, lágrimas descendo de seus lacrimais, sabendo que por sua culpa dois grandes amigos faleceram. Um deles, inclusive, deixando órfã uma criança inocente, que nada tinha a ver com as perversidades humanas. Eram os ingênuos, os doces, os melhores, como Glenn e Tara, que sofriam as piores punições naquele inferno de mundo.

Maggie Greene abraçou sua neném, que agora chorava desesperançada junto a ela. Mãe e filha de luto pelo pai e esposo, morto daquela maneira implacável, um destino que não deveria ser reservado nem ao pior dos seres humanos.

Rick desviou o rosto para as massas disformes que eram o que restou dos rostos de Glenn e Tara. Ambos desfigurados, irreconhecíveis, a marca da maldade e da horripilante vitória de Negan sobre qualquer sonho de liberdade dos sobreviventes. O anel de Maggie jazia misturado a carne rompida sem qualquer traço de misericórdia, provavelmente perdido enquanto ela estrebuchara no chão, desvairada pelo assassínio pavoroso.

Ele apenas levantou os olhos quando viu Mavelle Berry parada defronte a si, depois que ela soltou um grito agudo.

Os dois trocaram olhares, e a irlandesa o socou com toda a força de seu punho direito.

— SEU COVARDE DE MERDA! — Mavie gritou, rosnando, golpeando o rosto do policial outra vez. Rick quase se sentiu grato por aquilo. Sabia que merecia. Sofrer aquelas agressões era o mínimo. Negan sabia. Ele sabia.

Nada daquilo teria acontecido se não fossem as escolhas de Rick Grimes.

— Você deixou isso acontecer! — O punho direito de Mavelle se chocava sólido contra a bochecha esquerda de Rick, que apenas manqueteava, recebendo os murros.

— Deixou eles matarem o Glenn! — A voz de Mavie se tornou mais aguda, visceral, vinda do fundo de seu âmago atormentado. — A Tara! Eles eram seus amigos, seu filho da puta! — Ela não parava. Assentava golpes diretos no rosto de Rick com suas duas mãos, que já sangravam. Feriu seu nariz, suas bochechas, seu queixo.

— Teria sido mais piedoso você matar eles você mesmo! — O rosto da irlandesa estava lavado de lágrimas e lívido de fúria. Mas, subitamente, ela estacou.

— Por que você parou? — Grimes indagou, quase como se lamentasse. Merecia aquela punição, queria aquela punição.

Ele moveu o rosto por cima dos ombros. Enxergou Carl Grimes, as mãos trêmulas mas fixas na pistola dos Salvadores que tinha consigo.

Mirando Mavelle Berry.

— Para de bater no meu pai — Carl soluçou, ele mesmo mal se mantendo de pé. Rick, que ficara tão surpreso com a postura gélida do filho ante as torturas mentais de Negan, agora queria apenas abraçá-lo e ampará-lo consigo. Seu filho. Ainda estavam vivos. Glenn não teve a mesma sorte.

Por sua culpa, por sua imensa culpa.

— Carl, abaixa essa arma. Agora — enfatizou o policial, com muito esforço. Até mesmo falar era difícil.

— Só se ela prometer que vai parar de te socar — respondeu o filho de Rick, as bochechas tremelicando. Michonne caminhou até ele e o fez abaixar o braço, lágrimas grossas marejando os olhos escuros da namorada do policial.

Carol, por sua vez, havia se aproximado de Mavelle. Levara-a pelos ombros para longe de Rick.

— Fica calmo — pediu a espadachim aos ouvidos do garoto. Rick Grimes foi até o filho, que apenas o olhou, como se pedisse uma mísera migalha de alento. O pai o fitou de volta, destruído por dentro, sem poder ajuda-lo.

Paul, Gaspar, Heath, Morgan, Eugene e Tucker se dispersavam, tentando recolher as armas deixadas pelos Salvadores perto do trailer. Pareciam farrapos humanos.

— Você está bem? — Grimes escutou Peletier perguntar para Berry, que se desvencilhou das mãos da mulher de cabelos grisalhos, respondendo que sim.

— Não podemos ficar aqui — o policial articulou em voz alta. O cheiro de sangue fresco de Glenn e Tara atrairia errantes.

— Vamos para Hilltop. Minha filha precisa de um médico — falou Maggie com severidade. Havia se erguido com sua criança.

— Certo, Maggie, eu... — Rick tentou dizer, formulando uma frase enquanto gesticulava, mas ela não quis ouvir.

— Glenn será enterrado lá. E é aonde eu e Bethalie vamos morar — ela assegurou, sem mais olhar os rostos partidos do marido e da jovem mulher que morava consigo.

— Maggie... — Mavelle murmurou, e foi interrompida.

— Não. Só calem a boca! — A mãe de Bethalie levou sua filha até o trailer. Beth começou a chorar alto novamente.

— Tem alguma coisa para enrolá-los? — Rick Grimes apontou para os corpos assassinados. Mover as mãos doía. Emocionalmente, não fisicamente.

— Temos — Carl disse ao pai, indicando com o queixo algo a direita. Heath e Morgan recolhiam alguns panos caídos, deixados como gesto de misericórdia — ou para reforçar a humilhação de todos eles — pelos Salvadores.

Rick ajudou os dois homens a cobrir os rostos depredados de Glenn Rhee e Tara Chambler, lembrando de como eram antes. Vivazes, alegres, jovens...

...Cheios de esperança. Algo que morrera naquela noite. Despedaçada, irremediavelmente, junto com eles.

****

O céu azul revelava os lumes fracos da aurora, que timidamente tentava banhar a cena do enterro de duas pessoas tão jovens. A pouca luz daquele dia de céu aberto parecia simbolizar a tragédia ali ocorrida, refletindo o estado de espírito desconsolado dos reunidos.

Ela se movia, um passo depois do outro. Com a mente enevoada, anestesiada depois de ver o inferno e, por razões inexplicáveis, sobreviver a ele.

Na noite passada, tinha levado sua filha até o médico daquela comunidade, o Dr. Harlan. Ele a tratou com os remédios adequados, e a manteve sob cuidados atentos até ter certeza de que fora uma gripe forte que não traria maiores consequências se ficasse de repouso. Não evoluiria para uma pneumonia, pois se certificariam de que a neném dormisse sob o teto e as paredes seguras e quentes da Casa Barrington.

Carol a ajudara por todo o tempo, mas ela mal tinha consciência da presença da mulher. Seus amigos cuidaram dos preparativos para o enterro de seu marido e de sua amiga próxima. Em determinado momento da madrugada, Mavelle veio lhe avisar de que providenciaram um caixão fechado para Glenn, assim como para Tara.

A garota irlandesa tinha os olhos de avelã-esverdeado inchados de tanto chorar. Ela sabia o quanto a madrinha de sua filha era próxima de seu marido, uma grande amiga do casal, e também de Tara. Todos eles haviam morado juntos, até poucos dias. Porém... Ela sentia como se tudo não passasse de memórias de uma outra vida.

Mavie perguntou se ela gostaria de conferir se tudo estaria de seu agrado, e a jovem mãe apenas meneou a cabeça, negando.

O corpo que seria enterrado era apenas uma casca, destroçada pelo sadismo humano, que arrancou às vistas de Maggie Greene a vida de Glenn Rhee. O pai de sua bebê de poucos meses. Um rapaz de vinte e poucos anos.

O homem com quem escolhera se casar.

Ela passou a madrugada velando o sono de sua filha, fazendo naquilo, instintivamente, o velório de seu marido recém falecido. Vítima de uma crueldade inconcebível para seu bom coração. Lembrou-se da morte de sua mãe, quando era criança. Da perda de sua madrasta, mãe de seus irmãos. De seu irmão Shawn. De Otis. Patricia. Seu pai. E por fim, Beth, sua irmã mais nova. A única família que lhe restara no mundo fora Glenn.

Carol tentou convencê-la a dormir, sem sucesso.

Paul Rovia e Gaspar Sandoval conseguiram motivar a comunidade de Hilltop a fazer o enterro ao amanhecer. Chamaram uma freira para realizar a cerimônia, bem como algumas mulheres que participaram de um coral de uma igreja batista.

Maggie pediu para que Carol cuidasse de sua filha enquanto estivesse no funeral. Naquele momento seguia o cortejo na direção do cemitério de Hilltop. As mulheres do coral cantaram músicas em homenagem aos finados, e a viúva de Glenn apenas chorava em silêncio. Seu marido, como sua saudosa irmã mais nova, adorava música. Gostavam ambos de cantar e de tocar violão.

Eugene chorava quieto, assim como Tucker, Heath e Morgan. Mavie estava de braços dados com Maggie, como se a amparasse para caminhar até o túmulo reservado a Glenn, seus lábios entreabertos. O queixo da irlandesa tremia, como se estivesse reunindo esforços para ela mesma não desatar a chorar.

Michonne e Carl seguravam as mãos, os dois com expressões desoladas. Ao chegarem defronte as covas cavadas, Paul, Gaspar e Rick ajudaram a descer os caixões tanto de Glenn quanto de Tara, enquanto as cantoras terminavam as elegias.

Maggie ficou parada, fitando cada pá de terra ser jogada em cima do caixão fechado do marido, por Rick Grimes. Mavie ainda estava enlaçada aos seus braços, e já não segurava mais as lágrimas. Soluçava baixo, tentando se conter provavelmente o melhor que podia. Maggie Greene apenas deixava as lágrimas descerem, em silêncio, estática. Mal piscava os olhos, fixos no caixão de seu esposo.

Ao final do enterro, apenas percebeu que deveria descer de volta a Casa Barrington quando notou que era a hora de dar de mamar a sua filha. Mavie limpou o rosto e a auxiliou a caminhar até lá, as duas dando as costas aos túmulos. Maggie não sabia dizer o que sentia. Na verdade, não sabia dizer sequer se sentia algo exato.

Apenas um amontoado de sofrimento indiscernível.

Bethalie se alimentou bem, e dormiu depois de chorar um pouco. Deveria estar também exausta, espelhando o emocional da mãe.

Certamente sentia falta do pai.

Quando a criança já estava adormecida, Maggie Greene se sentou na cama ao lado do berço, e Mavelle Berry se aproximou. Carol Peletier saíra dos aposentos e as deixou sozinhas.

Mavelle segurou uma de suas mãos e mirou seus olhos com afinco.

— Eu prometo pra você. Eu não vou deixar isso acabar assim — jurou a garota irlandesa, o rosto com olheiras fundas, os olhos vermelhos pelo choro contínuo.

— Mavie...

— Eu não sei o que Rick pretende, o que ele vai decidir, mas eu prometo. Por você. Pela Bethalie. Pelo Daryl. Pela Tara. Por G-Glenn — ela gaguejou, o choro umedecendo seus olhos. Ao pensar em seu marido morto por uma incontável vez, mais uma pontada dolorosa se abateu sobre seu peito despedaçado de angústia. — Ele não vai sair dessa, não vou medir esforços — a garota iria continuar a prometer vingança contra Negan, mas Maggie foi levada por uma fúria exaurida.

— Chega! Eu não me importo — retorquiu Maggie Greene, lágrimas pelo luto ofuscando sua visão. Mavelle piscou os olhos, sem compreender.

— Maggie... — a irlandesa tentou, mas foi interrompida novamente.

Foda-se! Poderíamos matar Negan do mesmo jeito que ele matou meu marido, isso não vai trazê-lo de volta! Não vai trazer o pai da minha filha de volta. NADA vai mudar isso! — bradou Maggie, ao passo que olhou para sua criança, que gemeu no berço. Ergueu-se e correu até ela, vendo seus olhos piscarem e se abrirem.

Os olhos de Glenn Rhee.

Aliviada, viu que a sua neném suspirou e dormiu de novo.

Maggie Greene não suportava mais.

— Por favor, olhe um pouco ela. Eu só preciso... Preciso... — Maggie caminhou até a porta do quarto sem nem olhar para trás. Abriu-a, e entrou nos aposentos ao lado. Viu uma almofada disposta em cima de uma poltrona.

Tropeçou, caindo no chão. Arrastou-se com dificuldades até a cadeira, puxando a almofada. Colocou os lábios prensados contra o pano, e gritou até sentir as cordas vocais rasgarem sua garganta. E as memórias vieram cavalgando em sua mente, aceleradas, sem parar.

Tudo começara entre eles com uma aventura, como Glenn tanto gostava.

Maggie que sugerira que fizessem sexo, despretensiosamente. Jamais imaginaria o que resultaria daquele envolvimento.

Lembrou-se de como ficou furiosa com Lori, pensando que o rapaz com quem se envolvia cada vez mais poderia ter morrido por seu egoísmo. Como se revoltava com o grupo de Rick, que o usava continuamente como isca. Recordou-se da coragem de Glenn de revelar o segredo de seu pai sobre os errantes no celeiro, temendo que aquilo se voltasse contra a própria sobrevivência dela. Mesmo que Maggie pudesse jamais perdoá-lo por expôr o pai. Glenn dissera que preferia que ela vivesse eternamente brava consigo e segura, do que satisfeita com ele e correndo riscos.

Recordou-se de que dissera que a amava ao confortá-la quando perdera seu lar e tantos de sua família no incêndio da fazenda. Não cedera ao pânico por causa dele. Apenas por causa dele.

Depois, já na prisão, foram feitos reféns pelo Governador. Maggie fora abusada sexualmente por aquele sujeito, violentada de diversas maneiras, mas apenas titubeou em entregar Rick e seu grupo quando viu a vida de Glenn ameaçada. Só assim cedeu.

Rememorou seu pedido de casamento na prisão, e como o aceitou de imediato. Sem dúvida alguma passando em seus pensamentos. Como dormiam juntos em uma das torres de vigia, adaptada para ser seu ninho de amor no fim do mundo. Ele tirou uma foto dela enquanto dormia, e a guardou como se fosse seu maior tesouro.

Lembrou-se de como temeu por ele quando estava doente. Não o deixou sozinho. Preferiu se contaminar do que correr o risco de não ter a chance de estar lá, se o pior acontecesse. Recordou-se do colapso da prisão, e de como jamais duvidou de que ele a procuraria. De todas as pistas que deixou. De como se encontraram no túnel, antes de Terminus.

"Você nunca mais vai precisar de uma foto minha", a filha de Hershel lhe garantira. Logo depois, quando perdera sua irmãzinha, apenas ele foi capaz de ajudá-la a continuar.

Recordou-se do Aquário da Geórgia, quando contou para ele que Bethalie nasceria, e seu amado fizera a expressão mais alegre que já vira em seu rosto. Seu "eu te amo" mais sincero, ao concretizar o sonho de ser pai.

Por fim, se lembrou de como viram juntos sua bebê nascer, como ele chorara no parto, um pranto de felicidade genuína, alegria tamanha como jamais imaginaram ser plausível de existir naquele mundo de sofrimento.

O dia mais feliz de sua vida. Da vida dos dois.

Seu Glenn. Tão corajoso e subestimado por seu grupo. Sempre disposto a ajudar, capaz de se salvar de todos os apuros já enfrentados.

Até que não pôde mais.

Sua viúva chorou todas as lamúrias contidas, o desamparo refreado por todo esse tempo. Maggie Greene, sentindo que parte do seu coração fora arrancada de si com a perda dele, seu marido, seu homem, o pai de sua filha, abraçou a almofada, ainda gritando e chorando. Evitara soltar a insustentável agonia que a acometia apenas para proteger Bethy, o símbolo do amor dos dois concretizado.

A herança de Glenn no mundo, ainda viva.

Maggie sabia. O único motivo que a mantinha respirando, e não a levava de encontro aonde quer que Glenn poderia ter ido, era sua filha. Nascida do amor que sentia por Glenn.

Multiplicado.

Teriam de arranjar algum jeito de conseguir seguir em frente. Mãe e filha, juntas, ainda que sozinhas. Mesmo sabendo que para sempre conservariam o pesar pelo pai e marido perdido.

O primeiro homem que uma menina amava era seu pai, ela sabia, e não fora diferente com Bethalie. Vira como a pequena se sentia feliz, amada, rejubilada no colo dele.

Glenn fora o último, e o maior amor da vida de Maggie.

E para sempre seria.

****

As horas se passaram como se tivessem durado anos, angustiantes em cada minuto arrastado.

Cada sacolejo dos caminhões lhe trazia uma nova contorção ao estômago, o tronco, barriga, pernas, braços e rostos machucados pela surra que levara naquela noite. Contudo, os ferimentos físicos eram superficiais. Aqueles hematomas quase lhe causavam alívio.

Desviavam da dor emocional que sentia, profunda, densa, insuportável.

Ter sido levado vendado até o covil dos Salvadores e seu líder que se revelara o pior sujeito que ele já topara na vida apenas acentuava essa sensação de completo desamparo. Sentia-se patético, inútil, a mesma sombra humana que, em seu íntimo, sempre julgara ser. Um estúpido, um peso sem serventia, um homem bruto, sem qualidades, sem virtudes, que sobrevivia como o animal limitado que era. Um fraco.

Incapaz de proteger as pessoas que amava, e, agora, nem mesmo conseguia se proteger.

A garganta de Daryl Dixon estava seca, uma sensação rascante tomando seu interior, e até mesmo engolir era difícil. Ser forçado a percorrer todo o caminho entre aquela floresta amaldiçoada e a base aonde Negan e seus capangas moravam de fato sem poder sequer ver os locais transcorridos o obrigava a rememorar mentalmente toda a cena do suplício de Glenn e de Tara.

Sem parar.

A cada fração de segundo.

E, ao fim da barbárie, lembrar de que fitara Mavie, vendo seus olhos absortos naquela violência paralisante. Todo o rosto da garota que amava revelando horror irremediável, do qual ele não pôde salvá-la.

Recordava, também, em pensamentos incessantes, que aquele homem que jurou de morte assim que ele ousou tocar em Mavelle com intenções repulsivas demonstrara abertamente seu desejo por ela. Provavelmente julgava que conseguiria tê-la consigo, mais cedo ou mais tarde.

Daryl não permitiria aquilo. Ele jamais deixaria Negan ter o gosto de vê-lo incapaz de evitar aquele destino terrível para a irlandesa.

Sua Esquila.

Ninguém tocaria nela. Só por cima de seu cadáver, e depois de se certificarem de que ele não voltaria para arrancar suas vísceras.

Aquele pensamento repetitivo era o que o mantinha são e capaz de se controlar. Pensar que não podia pôr tudo a perder por Mavie. Devia aquilo a ela, e também a Glenn. Sabia que seu grande amigo faria o mesmo por Maggie, se preciso fosse. E gostaria de que Daryl não desistisse. Não só para ajudar a proteger sua esposa e a madrinha de sua filha, mas por ser, ele próprio, padrinho de Beth.

Assim, o pano esfarrapado que vendava as pálpebras do arqueiro foi arrancado depois de um bom tempo, horas de viagem que ele não foi capaz de contabilizar com segurança. O caçador piscou os olhos, acostumando-se a luz ambiente.

Um sol fraco iluminava um terreno imenso.

O braço direito de Rick Grimes logo pôde perceber que atrás de si se erguiam muros imensos, feitos de algum material metálico, compacto, que parecia resistente. Seguiam além do que sua vista alcançava, os estudando de dentro do caminhão do Exército americano que tinha suas cortinas abertas.

Olhando mais para cima, reparou em um prédio também alto, com dezenas de andares. Era não só comprido, como largo. Cinzento, manchado pela fuligem do tempo, a pintura descascada. Em parte dos muros, foram construídas também torres altas, similares as que haviam em Alexandria para vigia.

Daryl continuava acossado por diversos homens fortemente armados perto dele, então se manteve em silêncio, observando com discrição.

Fitou jardins bem cuidados, e, surpreendentemente, pessoas comuns, ao que pareciam, caminhando de um lado ao outro. Algumas evitavam olhar para os caminhões e os recém-chegados, outras os saudavam com polidez contida. Todas, porém, pareciam reverentes a Negan. Daryl Dixon estudou o prédio imenso, pensando em que tipo de edifício seria.

Foi empurrado para fora por alguns dos malfeitores, e lhes fingiu subserviência. Um homem de óculos parecendo ter idade similar a de Redmond, que era acuado mais à frente de Daryl, se aproximara do líder dos Salvadores, já fora do caminhão.

Trocaram algumas palavras. Dixon tentou com sutileza, mas sem sucesso, escutar ou discernir o que diziam pelo movimento de seus lábios. Depois de alguns minutos conversando, o homem sádico passou a mão na testa, parecendo cansado. Daryl mirou o taco de baseball ominoso em suas mãos. Ainda sujo de sangue, já seco. Teve uma vontade quase irresistível de correr em sua direção e trucidar o próprio crânio daquele psicopata com sua Lucille.

— Dwight, vamos ter que conversar depois — bradou o líder daquelas pessoas, fazendo com que o outro arqueiro de balestra caminhasse ligeiro em sua direção. — Depois, porra! — ressaltou, e o homem loiro pareceu contrito.

— Agora temos algo mais importante para cuidar... Puta que o pariu, eu só queria descansar um pouco e ver as minhas meninas, será que é pedir demais? — reclamou o sujeito perverso com um sorriso cansado. Daryl escutou com atenção, e notou o uso do plural. Ele, pelo visto, mantinha múltiplas mulheres reféns. Compreendeu para que serviam.

A raiva que apenas crescia dentro do sulista tornou-se ira fervente.

Negan caminhou até o arqueiro, o sorriso exausto novamente se animando, como se Daryl pudesse lhe servir como um brinquedo divertido. Parou defronte ao caçador, olhando diretamente em seus olhos. Como fizera com Rick na noite anterior, parecendo deliciado em arrancar dele qualquer indício de medo.

Mas Daryl não lhe daria esse gosto.

— Puta que o pariu, mas você está feio pra caralho. Sua cara está tão fodidamente amassada que com certeza a Coelhinha não vai te querer de volta — provocou, chamando Mavie por aquele apelido odioso que cunhara. Abriu um amplo sorriso ao auferir uma mudança no olhar de Daryl. Não conseguira se conter.

— Se você tentar pôr essas suas mãos de merda nela, eu vou arrancar as duas fora e te obrigar a comer — grunhiu para o metido a maioral.

Negan soltou uma risada retumbante. Fulminou Daryl com os olhos.

Agora estamos conversando, porra! De homem pra homem — ironizou o miliciano, seu sorriso odioso se desenhando em seu rosto maldito outra vez.

— Simon! — chamou alto. O Salvador parcialmente careca, de bigodes grossos, logo veio para perto dos dois.

— Leve esses filhos da puta para o subsolo. — O carrasco apontou com o taco de baseball manchado pelo martírio de seus amigos na direção do edifício de muitos andares. — Uma sala para cada um — sentenciou, e o subordinado assentiu com o rosto.

— Vamos resolver nossas diferenças logo, logo — Negan disse em tom de promessa para Daryl. O caçador sustentou seu olhar doentio. A diversão mal reprimida em seus olhos escuros evidenciava que a tortura da noite anterior provavelmente continuaria.

Dixon foi obrigado a seguir por uma entrada escondida do edifício amplo. Guiaram-no por corredores soturnos até escadas que desciam muito abaixo do nível do solo. Um odor fétido de mofo, suor, sangue e ferrugem se misturavam a uma temperatura úmida e fria.

Daryl foi empurrado para dentro de uma sala com portas pesadas de metal, difíceis de serem abertas ou fechadas. Lembravam as portas das solitárias que vira na prisão em que morara antes do Governador destruí-la. Apenas uma lâmpada velha e amarelada estava disposta no centro daqueles aposentos macabros, mal iluminando a escuridão debaixo da terra.

Um rato morto estava parado no canto de uma daquelas quatro paredes sem nada, apenas um piso de concreto fedido.

Ao ouvir os passos dos Salvadores se afastando, Daryl correu e arremeteu contra a porta todo o peso de seu corpo. Não pretendia tentar se soltar assim. Apenas descontar toda a raiva contida depois do horror que fora obrigado a suportar.

Repetiu o movimento até se ferir, cortando o braço direito, que passou a sangrar. Os hematomas presentes em seu corpo só pioraram.

Jogou-se no chão, apoiado contra uma das paredes, e esperou. Fitou o rato, e notou que ele tivera a cabeça pisoteada. A náusea embolou seu estômago mais uma vez, trazendo as memórias fixas dos cadáveres de Glenn e Tara em sua mente.

Controlou-se o melhor que pôde para não vomitar. Não podia enfraquecer perante aquele filho da puta.

Pense nele. Pense nelas. Tentou focar em suas memórias de Glenn, do jovem afetuoso e espirituoso que era, sempre pronto para ajudar a todos. Em Tara e sua personalidade tão pró-ativa e generosa. Em Maggie, jovem viúva mãe de uma criança já órfã, enteada dele.

Em Mavie. Ele tinha de protege-la. Faria o que fosse preciso para impedir que Negan cumprisse qualquer um de seus propósitos vis que reservasse a ela. Nem que desse todo o seu sangue e suor nessa tarefa.

Daryl escutou ruídos abafados e se levantou de pronto. A porta se abriu, e ele se viu sozinho, cara a cara com Negan.

— Está na hora de te contar algumas verdades, Daryl — debochou o psicopata, os olhos cintilando ante a sugestão de sadismo. Redmond pelo visto já abrira a boca e dissera seu nome. Negan fechou a porta em um empurrão truculento, fazendo o peso do metal retumbar naquelas catacumbas silenciosas.

— Faça o seu melhor — desafiou Daryl Dixon, lançando ao sequestrador um olhar ainda mais ameaçador.

****

O rosto dele sangrava, marcado por cortes após uma série de agressões dirigidas a si.

Mas a pior violência física sofrida fora outra. Era a marca deixada em seu peito, que queimava em carne viva, ardendo e pinicando em lancinantes pontadas de dor. O sangue descia de sua ferida, caindo até sua barriga. A camisa aberta, expondo o que fora talhado com um estilete em seu peito:

RED, THE RAT*

O senso de humor de Negan era mesmo peculiar.

Achara divertido mandar Dwight com a proposta de proteger Delilah, caso seu tio abrisse a boca e lhe entregasse os alexandrinos e, também, alguns moradores de Hilltop que os acompanhavam, como Jesus e Gaspar.

Achara divertido montar uma armadilha sádica, com aquele final repugnante dos crânios esmagados para passar uma mensagem.

Como também achara divertido levar Redmond consigo, apenas para tortura-lo com sessões de surras e minutos pungentes de um profundo corte feito pelo próprio líder dos Salvadores em seu peito, que basicamente significava “Red, o Dedo-Duro”.

Mas o que Negan provavelmente devia achar mais hilário, de tudo aquilo, era o fato de que ele jamais precisaria incutir na pele de Redmond algo que já estaria solidificado em sua mente por todo o tempo que sua vida durasse.

Redmond Lewis era um pai, ainda que não biológico, de sua sobrinha. O amor que sentia por ela fora capaz de superar qualquer outra emoção arrebatadora que já sentira em vida.

E, como um pai, jamais poderia superar a culpa que sentiu ao se ver como o delator que causou o martírio de um rapaz novo como Glenn, pai de uma bebê de poucos meses. Ele nunca veria sua filha crescer. Jamais a veria ser criança, aprender a andar, falar, escrever, ler. Jamais brincaria com ela. Jamais a veria se tornar adolescente, virar uma mulher. Em suma, nunca mais acompanharia sua vida.

Não acompanhou de fato. Apenas um sopro leve, efêmero, vago, uma presença constante de poucos dias... Que provavelmente seria lembrada, se é que poderia ser rememorada, como uma lembrança distante. Um vislumbre de pai, uma imagem longínqua, uma ilusão fora do encontro daquela criança.

Como se nunca tivesse existido para a pequena.

Redmond Lewis jamais se perdoaria por aquilo. Sabia que precisava se manter vivo, capaz de preservar seu raciocínio lógico e sagaz por algum tempo. Ao menos, até conseguir encontrar sua sobrinha e se certificar de que ela estava bem, de verdade. Devia isso aquele garoto, cuja lembrança o assombraria para sempre.

Por isso, esperou o sangue de sua ferida aberta secar. Depois de um tempo, fechou a camisa com cuidado, e começou a bater na porta da cela por várias vezes, até ser atendido. Negan e os Salvadores que o torturaram há muito o haviam deixado ali, sozinho.

Finalmente alguém rosnou do lado de fora:

— Que merda você quer, Rato? — indagou uma voz desconhecida, de tocaia.

— Uma conferência com o seu chefe — pediu com humildade. O sujeito do lado de fora gargalhou.

— E eu quero comer a Angelina Jolie. Boa sorte para nós dois — satirizou, mas Red não desistiu.

— Fale para ele que eu tenho informações sobre Rick — tentou, e o homem demorou alguns segundos para responder.

— Quando ele quiser extrair algo de você, vai descer aqui — falou o capanga. Lewis respirou fundo. Sabia que não tinha outra alternativa melhor.

Munindo-se de coragem, colocou alguns dedos na ferida aberta, forçando-os para dentro, urrando de dor. Poderia se matar fazendo aquilo, quem sabe atingindo alguma artéria ou no mínimo infeccionando o ferimento amplo.

O homem logo abriu a porta, aterrorizado.

— Filho da puta... Ele provavelmente vai cortar suas mãos depois dessa, seu idiota — alertou-o, aparentando sentir pena de Redmond por antecipação.

O capataz levou o prisioneiro andares acima, por uma escada que parecia ser de emergência daquele edifício que Red reconheceu como sendo uma fábrica abandonada. Conduziu-o por muitos andares de escada, e Lewis já estava fraco e zonzo, quando o Salvador o empurrou para dentro de uma sala.

Negan estava de pé, conversando com algumas pessoas, homens e mulheres. Virou o rosto na direção dos recém-chegados.

— Caralho, como você consegue ficar em pé? Para a porra de um covarde você é até durão! — ironizou, parecendo admirado. — Conversamos depois. — O mandante fitou os curiosos com quem antes dialogava, e os dispensou.

— O que você quer, Red? Não vai me dizer que enlouqueceu de culpa... — debochou com um falso sorriso piedoso.

— Quero dizer que estou do seu lado.

O miliciano piscou os olhos, dando um sorriso surpreso. Fez um gesto para que o vigia dos prisioneiros os deixasse a sós. Ele saiu daquele repartimento e fechou a porta.

— Isso não é tipo síndrome de estocolmo ou uma merda maluca dessas não, eu espero... — continuou a troça, fazendo pouco do engenheiro.

— Não. Estou decidindo minha lealdade — garantiu o tio de Delilah, sério.

Negan coçou a barba, não parecendo convencido.

— Eu não me sinto muito seguro com uma declaração de fidelidade de um dedo-duro — troçou, insistindo em uma zombaria.

— Dedurei Rick Grimes e todas aquelas pessoas porque não me importo com elas. Não sinto um pingo de culpa pelo que fiz. Faria tudo de novo, se fosse preciso, para salvar minha sobrinha — disse, seguro de si. Parte daquilo era mesmo verdade.

Os olhos escuros de Negan mergulharam nos esbugalhados olhos azuis de Redmond. Parecia mais interessado.

— Rick Grimes me disse que você me mataria, porque segundo ele sou um sujeito sem lealdade alguma, e, por isso, descartável. Mas isso não é verdade. Nunca fui fiel a ele. Jamais o considerei um bom líder. Era por isso que tentei sair de Alexandria para Hilltop o mais cedo possível. — Naquele momento, tudo o que dizia era verdadeiro.

— E vai ser leal a mim, que te usei de exemplo e te mandei para a cutelaria com a sua sobrinha? — duvidou Negan, rindo. — Red, você tem sangue frio, eu te dou essa. Mas deve achar que eu tenho cara de otário. — O sorriso do líder dos Salvadores sumiu de seu rosto.

— Eu prefiro apostar no homem que eu conheço há anos, do que no que vi ser incapaz de gerenciar uma comunidade pequena como Alexandria — ratificou Redmond, definitivo. — Rick é soberbo, desorganizado, delirante. Ele vai se voltar contra você. É só uma questão de tempo — asseverou. Negan voltou a mirá-lo devagar, cuidadoso.

Andou até o tio de Delilah e colocou Lucille a centímetros de sua bochecha.

— E o que você pensa que está propondo? — falou Negan com uma voz fria, gélida, bem diferente do tom caloroso e sadicamente divertido que Red o testemunhara utilizar na noite passada e ao longo daquele dia.

— Um acordo. Eu só quero ver de novo minha sobrinha viva, e segura — pediu Redmond, piscando os olhos suplicantes.

— Em troca de? — Ele o mirava com olhos letais. Aquilo era muito perigoso.

— Trabalharei o resto da vida para você. Você só tem a ganhar. E, além disso... Eu vou te ajudar a derrubar Rick — prometeu Redmond Lewis, oferecendo a tentação a Negan que sabia lhe ser irresistível.

Notas finais
*Rat é uma gíria da língua inglesa, especialmente usada por policiais e marginais para designar dedo-duro, infiltrado, coisas do gênero. ~ Gif by me. Em preto e branco em homenagem aos nossos saudosos Glenn e Tara. As legendas fazem parte da letra da música que eu achei simplesmente a cara do que o Glenn gostaria de poder falar para a Maggie, agora que ela ficou viúva. Ainda mais considerando que há três capítulos ele estava cantando uma canção de ninar (lullaby) para a Bethy. O título dessa música se chama "Lullabye" porque é um trocadilho com lullaby e bye, de despedida. :( Especialmente essa parte: "Goodnight my angel, now it's time to dream And dream how wonderful your life will be Someday your child may cry, and if you sing this lullaby Then in your heart there will always be a part of me" ~ Mais dois gifs, um da amizade Glenn e Tara: https://media.giphy.com/media/3oI9K2G86Mj8IhsTcc/source.gif ~ E o último, Glenn e Bethalie. Aviso de feelings pesados: http://i.imgur.com/Dt9mn4t.gif ~ Aguardo comentários! Se eu demorar para responder, lembrem-se, é porque estou viajando! :D