Hunter's Instinct

74 Episódio 74 - The Pathos of Distance


Notas iniciais
Boa noite, galerinha linda! Como estão vocês no final desse final de semana de eleição? Eu estou um pouco feliz porque aqui no Rio o Freixo passou pro segundo turno, então não estamos tão na merda assim. Dá pra ter esperanças de que ele vença o Crivella, tomara! Chego, como prometido, com mais um "episódio" bombástico de Hunter's Instinct. Com POVs da Becky, da Delilah e da Maggie. E, no fim desse episódio, temos o que todos aguardavam com terror e ansiedade... A chegada do filho da puta misógino mais terrível dessa fanfic! Negan! Se preparem para lidar com feels, alguns momentos fofos de amor e amizade, gente lidando com as perdas recentes (vocês sabem quem), e novos rumos sendo traçados. O próximo capítulo será TODO daquela cena que vocês também temem muito... E, podem ter certeza, será mesmo algo a temer. Será postado no máximo nessa sexta-feira, dia 07/10, porque eu também estou MUITO ansiosa para chegar nessa parte! Dedico este capítulo aos leitores e leitoras que já leram e comentaram: Sami, En Sabah Nur, Lady Circe, Filho de Kivi, Mirah e Caçadora. Filho de Kivi, Mirah e Caçadora, responderei seus reviews, amanhã, ok? É porque se eu parasse para responder esse capítulo não saía ainda hoje, mas não se preocupem, vocês sabem que eu não deixo meus leitores sem resposta! Dedico também a Babi Prongs e Joke, que comentaram por áudios nas nossas redes sociais AHUSHUSHU! Espero que os que ainda não comentaram no capítulo 73 assim o façam, por gentileza. A Mentinha aqui tá sendo o mais eficiente possível pra chegar nessa parte que todos e todas querem, então nada mais justo do que me recompensar por isso, certo? É uma via de mão dupla! Beijos e boa leitura!

Feixes de luz vespertina trespassavam as folhagens das árvores, descendo à grama munidos de sua etérea indiferença. Formavam halos de lume amarelado, ressaltando o verde das folhas. Compunham uma bela iluminação, que talvez pudesse ser apreciada em outra ocasião.

Porém, a tragédia que ali se sucedera, como tantas outras que aconteceram e viriam a ocorrer no que restou do mundo, não esmorecera a luz do sol que alcançava aquela floresta.

A beleza contínua porém distante da natureza ao redor deles apenas evidenciava, no fundo, o quanto estavam e sempre estariam sozinhos. Suas vidas não tinham tanta importância assim. Suas mortes eram também irrelevantes.

Rebecca Gable piscou os olhos, tentando alçar seu corpo machucado para mais perto de Peggy Taylor. A garota, agarrada com o cadáver de Moritz Alvintzi, homem que se provara, antes de sua morte, tão amigo da circense... Continuava sem aceitar o irremediável.

— Por favor. Por favor, não me abandone... — Peggy suplicava ao homem que já não podia mais ouvi-la. Becky se compadecia do sofrimento da garota, mas o pesar que também compartilhava no momento não era a emoção que mais a dominava. Estava preocupada.

Peggy Taylor se abraçava firmemente com o corpo sem vida do agora saudoso amigo de Rebecca. Como não fora atingido em seu cérebro, em breve despertaria em sua nova forma de sobrevivência.

— Peggy... — Rebecca Gable tentou, mas a menina não lhe deu ouvidos. Seus lábios e ombros tremiam, suas unhas fincadas no tecido da camisa do finado, e seu olhar alheio demonstrava que ela provavelmente não tinha seus sentidos conexos com qualquer outro ali além de Moritz. Parecia presa em seu próprio mundo de dor infindável.

Billy Ray, contudo, conseguiu reagir antes de sua namorada. O caçador se colocou em suas próprias pernas, caminhando um tanto manco até a garota desconsolada.

— Peggy, ele se foi. Ele se foi — repetiu, fazendo esforço para puxá-la para longe. A garota se debatia, sem querer deixar seu amado.

— Não. Não. Ele não p-pode! — gaguejou a menina, seus grandes olhos castanhos úmidos de novas lágrimas.

Becky não esperou mais. Retirou uma pequena faca que tinha consigo, arrastou-se com o braço esquerdo o mais próximo que pôde do morto, e cravou a lâmina em sua testa.

Peggy soltou um guincho desesperado. Um grito animalesco, rasgado, vindo do fundo de sua garganta. A contorcionista sentiu o próprio queixo tremer, comovida pelo som desolado.

— Ele está melhor do que nós agora — Billy Ray sussurrou aos ouvidos da garota, que fechou os olhos, destroçada. Empenhou-se para se lançar para perto do corpo dele outra vez, mas Billy a amparou, a impedindo.

— Vai ficar tudo bem — Rebecca tentou, e Peggy enfim dirigiu os olhos para ela. Pestanejou, como se a enxergasse pela primeira vez.

— Eu não acredito... — a menina começou a balbuciar. — ...Eu não... Você... Você não pode ter tido coragem de dizer isso pra mim — a garota enunciou as palavras, seu olhar confuso se transformando em revoltoso.

Peggy Taylor fez um movimento repentino. Sem razão aparente, deu uma cotovelada violenta nas costelas de Billy Ray, que, surpreendido, se curvou para o lado, arfando pela dor.

Deu as costas para Billy, Becky e o corpo morto do homem que amava.

Rebecca, sem poder reagir, apenas vislumbrou a garota correr a toda velocidade na direção contrária. Impetrava tal velocidade as suas pernas que Becky não julgava possível, não depois de tudo.

Pelo visto, entrara em algum tipo de surto catatônico.

Ao mesmo tempo em que Peggy decidira fugir deles — e talvez da realidade que acabara de experimentar —, Becky notou algo também preocupante.

Grunhidos próximos se tornavam cada vez mais audíveis. Uma sinfonia de sons grotescos, rosnados desconjuntados e desafinados, ecoando pela floresta a qual o grupo antes pensara que poderia ser um bom esconderijo.

— Billy... Temos que ir — Rebecca afirmou para o namorado, que concordou em um aceno de cabeça. Ele se abaixou e a ajudou a caminhar. Aos poucos, Becky começou a recuperar o cansaço para se esforçar em resistir as dores.

— Ela não vai muito longe — garantiu o caçador do Alabama, e a jovem loira anuiu com o rosto.

— Ela surtou. É muito para uma pessoa só — disse Rebecca, compreensiva. Olhou pelos ombros na direção de Moritz. Sabia que, dentro em breve, seu corpo sem vida seria um banquete para os repulsivos seres que cambaleavam por aquelas matas.

— Eu queria poder enterrá-lo... Ele merecia. — As lágrimas começaram a surgir no rosto da circense loira. A dor dos ferimentos era menor em comparação ao peso que fazia seu peito se comprimir, como se fosse difícil respirar.

— Ele era um filho da puta, mas um bom filho da puta. Era meu amigo — confidenciou ao namorado, a voz falhando na última frase. Rebecca soluçou, cobrindo os olhos, e Billy colocou sua cabeça contra seu ombro, ainda a ajudando a andar.

— Ele me contou que ela perdeu a família toda. E que era muito amiga da Aiyana — recordou-se com carinho da menina indígena.

— Peggy é forte. Sempre foi, desde o Aquário, por mais que não transparecesse. Eu a conheço. É muito nova, mas tem mais resistência. Eu diria que o espírito dela ultrapassou a idade em muitos anos já tem um tempo — Billy assegurou, suas pernas ainda manquejando.

— Eu prometi a ele que cuidaria dela se algo acontecesse. — Becky sabia que chegara o momento de cumprir a promessa.

— Nós vamos atrás dela — Billy Ray asseverou, segurando o braço de Rebecca com firmeza carinhosa. — Mas antes temos de sair daqui. Ela correu de volta para os carros, temos de alcança-la antes que faça alguma besteira — ressaltou, preocupado.

Becky pestanejou. Aquela direção levaria até a ribanceira que os automóveis desceram por acidente. Provavelmente pessoas hostis sondariam a região, procurando sobreviventes.

Se topassem com outros dos Salvadores... Talvez as chances deles fossem ainda mais limitadas.

Era chegada a hora. Depois de tudo que conversara com Moritz. Depois dessa forçada, inusitada e injusta despedida... Ela não poderia mais postergar. Ela não poderia fazer aquilo com Billy Ray.

Nada garantia que terminariam aquele dia juntos, tampouco vivos. E ele merecia saber.

— Eu estou grávida! — Rebecca Gable falou, franzindo os lábios em seguida, como se quisesse recuperar as palavras que proferiu e impedi-las de chegar aos ouvidos do namorado.

Billy Ray parou de caminhar. Imediatamente retirou o braço que enlaçava Becky, movendo o corpo para encará-la de frente.

— O quê? — indagou, atônito.

— Eu disse que estou grávida — reiterou a jovem loira, fechando os dedos em punho. O pesar por Moritz agora se misturava a uma onde crescente de nervosismo. A náusea que a acompanhava nos dias recentes fez a bile lhe subir a garganta.

Billy levou uma das mãos ao rosto, cobrindo a boca. Logo depois, baixou os olhos para a grama, dando as costas para Becky por segundos. Caminhou poucos centímetros para longe dela, e depois se voltou outra vez.

Enquanto atestava aquela reação imperscrutável, Rebecca deixou outro soluço sair de seus lábios. Estava chorando de novo.

Becky sentiu seus ouvidos zumbirem.

Não, não, pensou. Não poderia alucinar naquele momento.

Rebecca estava a ponto de gritar, não só para calar suas vozes de antemão, mas por todo o peso emocional suportado em tão pouco tempo.

De súbito, Billy Ray correu até ela, e a abraçou com tamanha intensidade que retirou seus pés do chão. Ela não pôde corresponde-lo, apenas recebeu o enlace de seus braços vigorosos.

— Essa é a melhor coisa que eu já ouvi em toda a minha vida — declarou o homem que ela tanto amava.

As lágrimas outra vez subiram aos olhos de Rebecca, enquanto o olhar de seu namorado também marejava. Ele pôs as mãos em seu rosto, olhando para sua face com reverência. Seus olhos escuros pareciam iluminados, mesmo depois de ter visto tantos acontecimentos horríveis em um mesmo dia.

— Eu te amo tanto — Billy Ray disse, sua voz também afogada pelo mar de sentimentos que pareciam tomar conta dele.

— Eu te amo! — a jovem loira falou também, alto, correspondendo ao abraço com igual afã.

Por segundos, assim ficaram. Um curto período de tempo antes de retomarem sua missão para resgatar Peggy de seu sofrimento.

Ousando, ambos, sentir algo além da profunda tristeza que, impiedosa, tentava afogar a todos.

Por meros segundos abençoados, Billy e Becky partilharam um fugaz instante de alegria.

****

A garota havia tropeçado por boa parte do caminho. Rasgara parcialmente as calças jeans que vestira, ferindo os joelhos no processo, assim como parte dos braços.

Fora deixada sozinha pelos Salvadores, com uma pistola com silenciador e alguns cartuchos de munição. Ao léu de uma região desconhecida, sabia que o sangue fresco escorrendo em sua pele não aumentaria suas chances de sobrevivência.

Ela passou os dedos pelas bochechas, se esforçando para andar com um dos pés torcidos. Cada fisgada de dor do pé direito a fazia fechar os olhos e relembrar em suas imagens mentais tudo o que tivera de presenciar — e participar — naquele dia.

Seria apenas mais uma tarde. Uma manhã e tarde rumo a Hilltop, com uma breve parada na fábrica de balas para reabastecer Alexandria de munição. Porém, antes mesmo de alcançarem o local, Dwight e outros Salvadores os cercaram e os impediram de continuar.

Lilah se sentiu estúpida, por uma vez incontável. Levou uma das mãos em punho contra a testa, fechando os olhos e deixando poucas lágrimas novas escorrerem por seu rosto.

Como pudera ter sido idiota a ponto de se sentir mal apenas por ter sido obrigada a ir para a fábrica de balas com seu tio, Eugene, Tara e Tucker? Passara as últimas quarenta e oito horas se lamentando pela imbecilidade de levar um fora, algo tão pequeno e tão mesquinho... Tão irrelevante em comparação a todo o resto que se abateu sobre ela.

E também sobre seu tio.

Delilah engoliu em seco, caminhando adiante, na direção do furgão capotado e do Jeep. O carro prateado parecia em melhor estado do que o furgão azul, este repleto de pessoas já transformadas em apodrecidos, trancadas lá dentro. Alguns conhecidos de Alexandria.

Pensando naquelas pessoas mortas, se sentiu ainda mais limitada. Poderia ter sido ela. Poderia ter sido Redmond. Ainda poderia acontecer com os dois.

Ela tapou os olhos com as mãos, se esforçando para não se perder naqueles pensamentos aflitivos. Passou pelo furgão, evitando olhar os mortos-vivos que se alçavam contra o vidro do veículo, tentando alcança-la.

Parou na frente do Jeep prateado. Estava vazio, com a chave na ignição.

Seria aquilo um bom sinal? Alguém teria sobrevivido? Com tais questionamentos em mente, Lilah Feld respirou fundo, tentando se recompor. Se conseguisse dar a partida naquele carro, poderia tentar voltar para Alexandria. Conseguir ajuda. E resgatar seu tio.

Será que Negan o mataria? Ela já havia se perguntado a respeito algumas vezes. Seu tio delatara informações de relevância sobre Alexandria. Porém, ela sabia que seu tio fizera aquilo não por covardia, mas para protege-la. Fora uma atitude egoísta, fria, até mesmo cruel. Mas fora bem-intencionada.

Delilah tinha de acreditar naquilo.

O que eu vou fazer, tio? Perguntou-se Delilah Feld, colocando uma das mãos na porta prateada do automóvel. Franziu as sobrancelhas, controlando o choro que já tentava descer por seus lacrimais novamente.

Redmond Lewis sempre tinha a resposta para tudo. Jamais era pego desprevenido, e sem dúvidas era a pessoa mais inteligente que a garota já conhecera. E este mesmo homem brilhante era alguém que muitas vezes a tratava como uma criança, indefesa, incapaz de sobreviver sozinha.

Lilah sabia: por um tempo, teria de provar que ele estava errado.

Assim, enquanto reunia forças mentais, Lilah foi surpreendida com um ruído de gelar o sangue.

O vidro frontal do furgão outrora guiado por Billy Ray fora parcialmente perfurado. E, pelo visto, um dos cidadãos mortos de Alexandria ali trancados conseguira se esgueirar para fora dele, com cacos cravados por seu rosto e corpo.

Agarrara seu braço e já abria o maxilar para arrancar um bom naco de carne da garota.

Com uma reação ágil despertada por um instinto de sobrevivência que não sabia ter, a sobrinha de Redmond conseguiu se desvencilhar do morto, o empurrando com vigor contra o Jeep prateado. Os cacos na face do apodrecido perfuraram ainda mais sua pele, a deixando repleta de feridas sanguinolentas.

Sua mão direita tremia, mas ela conseguiu levantar a pistola. O morto-vivo apenas teve tempo de mover o rosto para trás e morder o ar.

Delilah acertou um tiro certeiro em sua testa, fazendo o cadáver manco cair de costas contra a porta traseira do Jeep prateado. Seu corpo escorregou, inerte, livre daquela existência deprimente.

Mas as surpresas não haviam terminado.

Lilah escutou o som de arbustos se movendo. Ela girou em seus calcanhares, o rabo de cavalo chicoteando seus ombros e pescoço pelo movimento súbito.

Pasma, apenas pôde mirar a silhueta de uma figura feminina correndo, ligeira e determinada como se estivesse em fuga por sua própria vida. E vinha em sua direção.

Delilah Feld abaixou a arma, enquanto via Peggy Taylor se aproximar, o rosto em feições duras.

— Peggy, o que hou... — a garota tentou perguntar para a mais jovem, que parou apenas para abrir a porta do Jeep e se sentar ao banco do motorista. Sem aguardar, Feld contornou o carro, abrindo a porta ao lado do motorista enquanto Taylor já dava a partida e arrancava para longe.

— Peggy, o que aconteceu? Eu quase fiquei pra trás! — disse, exaltada com o comportamento arredio da amiga.

— Cale a porra da boca — retrucou Peggy Taylor, sem nem lhe mirar. Boquiaberta, Lilah não soube o que responder por alguns segundos.

— Foi o Moritz?

— EU FALEI PARA CALAR A BOCA! — A jovem de olhos grandes acelerou vertiginosamente. Delilah colocou o cinto de segurança com as mãos trêmulas. Taylor não parecia capaz de raciocinar ou agir de maneira razoável, e estava ao volante.

— Peggy... Eu posso dirigir. Você não precisa se preocupar com isso — Feld tentou usar um tom de voz conciliador.

Em resposta, a outra garota freou sem aviso. Delilah quicou contra o cinto de segurança e de volta contra o banco.

Pestanejou, retornando a mirar a amiga. Peggy levantara uma pistola que tinha consigo e a apontava para o rosto de Feld.

— É a terceira e última vez: cale a boca — repetiu, e destravou a arma.

Delilah franziu os lábios, erguendo as mãos devagar. Nunca vira Peggy assim. A garota suava frio, suas pálpebras tremelicavam. Seu rosto tinha feições desvairadas. Aparentava realmente estar fora de si.

Ficou em silêncio, e Peggy Taylor continuou acelerando, fazendo curvas a esmo, avançando por alguma rota decidida arbitrariamente.

Mortos-vivos caminhavam sem rumo, enquanto o Jeep prateado desbravava aquelas terras solitárias.

O veículo entrou na reserva de gasolina, e depois de algum tempo, parou completamente. A tarde já terminava, e o pôr-do-sol se fazia visível ao horizonte. Ao lado das duas, apenas descampados vazios, com árvores e mais nada.

Peggy abriu a porta do motorista, e Delilah, ao seu lado, retirou o cinto de segurança e saiu.

— Vai me deixar falar agora? — Feld indagou, franzindo as sobrancelhas, muito preocupada com o estado mental da amiga. Taylor tinha os lábios entreabertos, e seu olhar parecia turvo.

— Peggy, a gente vai conseguir. Vamos sobreviver. Mas você precisa me deixar te ajudar — a garota falou, tentando munir sua voz trêmula de segurança.

Peggy Taylor era muito mais habilidosa do que Delilah Feld, e estava naquela situação precária. Lilah, por sua vez, sabia ser ingênua para aquele mundo, e nem de perto tão preparada quanto sua amiga. E, para piorar, tinha o pé torcido.

Peggy gargalhou ao escutar o que Delilah disse.

— Você? Você já está mais morta do que eu. E eu te invejo por isso — ela sussurrou a última frase, cambaleando para longe do Jeep. Feld a seguiu, tentando não se ofender.

— Não estou morta. Podemos conseguir. Mas precisamos nos ajudar, melhor dizendo. Nós duas — foi mais firme dessa vez.

— Eu estou pouco me fodendo pra você — rugiu Peggy, se voltando para a garota. O queixo de Delilah caiu outra vez.

A mais nova apontou de novo sua pistola para a outra jovem.

Delilah meneou a cabeça, ferida física e emocionalmente.

— Você não foi a única que perdeu alguém hoje! — Feld retorquiu, finalmente se irritando. — Eu não tinha ninguém nessa merda de mundo que fede a carne podre! Só meu tio! — Apontou para trás, na direção da qual vieram. — E agora ele pode estar sendo torturado por Negan, assassinado, ou já virou mais um deles! — Indicou um morto-vivo que caminhava muitos metros distante delas.

— Eu achei que tinha você também. Achei que era minha amiga. Como eu sou sua — afirmou, fuzilando Peggy com um olhar não mais misericordioso. — Vamos lá, vá em frente. Me mate. Isso não vai trazer nenhum deles de volta! — bradou, se aproximando de Peggy. Deixou a garota encostar o cano da arma acima de seu peito. — Vamos, aperte! Não estava pouco se fodendo pra mim?! — disse, mordaz.

Peggy deixou a arma cair no chão. Em seguida, desabou para a frente, sendo amparada por Delilah.

— Eu não vou conseguir sem ele. Quero morrer também — Peggy Taylor gemeu, os dedos apertando a amiga com tanta força que Delilah Feld sentiu dor.

— Por favor, Lilah, faça isso por mim. Por favor, me mate! — Os olhos grandes e expressivos de Peggy pareceram cintilar com a ideia. Como se deixar aquele mundo de sofrimento pudesse trazer a única alegria possível a seu espírito totalmente quebrado.

Delilah abraçou a amiga, sem saber o que dizer. Como poderia ajuda-la? Estavam sozinhas, em um lugar desconhecido, sem ninguém a quem recorrer.

Um morto-vivo se arrastava para perto delas. Taylor chorou junto aos ombros de Feld por algum tempo, mas logo a mais velha sussurrou para a mais nova:

— Só um segundo, vou dar cabo daquele ali — Afastou Peggy, que voltou o rosto com rapidez até o apodrecido.

No segundo seguinte, tinha se desvencilhado de Delilah. Correra até o morto-vivo. Mas não para mata-lo. Lilah compreendeu em um átimo de segundo.

Peggy Taylor avançava até o apodrecido querendo ir de encontro a própria morte.

— PEGGY, NÃO! — gritou, mas era tarde demais.

O morto-vivo agarrara o braço da garota. Sua boca chegava perto da jugular da menina, que fechou os olhos, aceitando tacitamente a violência que se daria em questão de segundos.

De repente, uma lança perfurou a testa do morto, saindo de sua nuca. Ele caiu para frente, sem ter chance de se alimentar da carne da amiga de Lilah.

Três cavaleiros surgiram em meio ao campo. Estacaram os cavalos, dois deles com lanças em mãos, o outro descendo de sua montaria para buscar a arma que arremessara.

Delilah, instintivamente, correu até Peggy e a abraçou, para protege-la. Não conhecia aquelas pessoas, e os olhou desconfiada.

— Quem são vocês, e por que estão em território do Rei Ezekiel? — interpelou-as um homem de cabelos e olhos castanhos, com uma densa barba da mesma cor. Parecia ter um sotaque diferente, que Lilah não distinguia. As duas mulheres, uma ruiva de fios cacheados, sardenta. A outra, uma mulher de pele negra e lábios grossos. Ambas tinham as lanças a postos.

— Não sabíamos que estávamos — Delilah assumiu, usando de um tom de voz inteiramente honesto.

Os três se entreolharam, cercando as garotas. Tinham posturas defensivas e desconfiadas.

— Por favor... É verdade — Delilah Feld reforçou. — Estamos sozinhas. E precisamos... — Ela fechou os olhos, abraçando Peggy, que, calada, apenas fitava os estranhos.

— Precisam do quê? — A mulher de lábios cheios perguntou.

— Precisamos de ajuda. — Delilah a fitou diretamente, tentando transmitir em seu apelo e em seu olhar toda a veracidade daquela súplica.

****

[POUCAS HORAS MAIS CEDO]

O relógio-cuco pendurado na parede da sala de espera cantou. Três pios programados, avisando a chegada das quinze horas.

Aflita, ela apertou os dedos na manga do casaco que havia puxado para cobrir suas mãos. Não sentia frio, muito pelo contrário. Suava de nervoso, angustiada pelo que tinha de passar.

Sozinha, pois Glenn estava em missão com o grupo que escoltara os moradores de Alexandria e de Hilltop rumo a comunidade amiga.

— Maggie, ela está mais calma, pode vir — Rosita falou para a mãe de Bethalie, a chamando para entrar no quarto ao lado.

Ela seguiu a enfermeira, que tratava de sua filha. Com o cair da tarde, Beth começou a sofrer de uma febre ascendente. Estava com quase trinta e nove graus de temperatura, e chorava agoniada.

— Dei o antitérmico mais leve que tínhamos — a latina a informou, coçando uma das sobrancelhas. — Mas eu acho que talvez seja o caso de falar com o Rick. Acho que deveria ir procurar o médico de Hilltop — aconselhou.

Maggie Greene sentiu como se algo pesado caísse em seu estômago e ali se contorcesse.

— Por quê?

— Ela pode ter convulsões febris. E eu não tenho treinamento para isso — Rosita admitiu, com honestidade brutal. — Eu não sei se isso vai acontecer, mas não podemos vacilar — pareceu tentar soar mais reconfortante, mas não teve sucesso. A angústia de Maggie foi asseverada. — Hey, posso ir com você — Rosita Espinosa foi solícita, mas Maggie Greene apenas balançou a cabeça, negando. Olhou para sua filha que dormia, as sobrancelhas levemente franzidas em seu rosto angelical.

— Eu vou falar com ele agora. Fique com ela só por dez minutos.

A esposa de Glenn nem esperou resposta. Virou as costas e deixou a enfermaria de Alexandria, indo atrás de Rick Grimes que fazia um turno de vigia na entrada da comunidade.

Um carro que deixara Alexandria aquele dia estava ali parado, estacionando assim que os portões foram fechados.

Maggie sentiu uma onda de alívio percorrer o corpo. Não era seu marido, ela discernia o veículo. Fora usado por Tara, Eugene, Tucker, Delilah e Redmond naquela manhã. Pelo visto, os fabricantes de balas retornaram antes.

A sensação de momentânea paz não durou praticamente nada.

Mavelle Berry desceu sozinha do automóvel, seu rosto geralmente de feições alegres e espevitadas munido de uma fisionomia de pura desgraça.

As pernas de Maggie tremeram, mas ela seguiu até a madrinha de sua filha. Rick, Carl, Carol, Padre Gabriel, Morgan e Heath a cercavam, já bombardeando a irlandesa de perguntas.

— Salvadores — Mavelle disse, seus dentes salientes batendo. Sua voz saiu rouca, um fiapo de som.

Rick Grimes passou uma das mãos na nuca, seus olhos azuis cintilando em uma expressão conhecida por Maggie Greene. Tensão.

— Todos? — Carol Peletier indagou, dando um passo à frente, perto da irlandesa. Seu rosto sem deixar evidente seu emocional, mas a mulher de Glenn Rhee já a conhecia para saber que estava preocupada.

Mavelle Berry assentiu, e depois meneou a cabeça rápido, em negativa.

— Não. Eu dei cobertura para Peggy, Billy, Moritz, Rebecca, Angela, Daya e Ondine escaparem — pareceu se recordar. — Não sei se conseguiram — acrescentou, encrespando mais as sobrancelhas. Ao saber que Glenn não fazia parte do grupo que poderia ter tido a chance de fugir dos Salvadores, o coração de Maggie se apertou ainda mais.

Lembrou-se de como ele lhe pedira para esperar, e, caso demorasse, jamais ceder ao medo. Recordou-se, depois, da promessa que ele lhe fizera:

“Eu vou voltar. Prometo para você. Nós vamos nos ver de novo.”

Não poderia fraquejar e duvidar de que ele poderia contornar mais esse problema. Glenn já passara por situações limites. Ele era um dos sobreviventes mais aptos que Maggie conhecera. Tinha de confiar em seu marido, e proteger sua filha.

Devia isso a ele.

— Rick. Nós precisamos ir agora. — Maggie segurou o braço do líder da comunidade. O policial se voltou para ela com o maxilar retesado.

— Maggie, espere, precisamos pensar em algo — o mandatário tentou acalmá-la, e ela rapidamente balançou a cabeça, prensando mais os dedos em seu braço.

— Não! Minha filha está doente, Rick. A febre aumentou muito em poucas horas. Preciso leva-la ao médico. Podemos conseguir reforço em Hilltop, e então contra-atacamos — a segunda no comando sugeriu, sagaz.

— É o melhor que podemos fazer — Carol concordou, seus olhos de um azul mais claro que os de Rick revelando apreensão, finalmente.

— Alguma baixa? — Morgan interpelou, parecendo buscar um tom de voz plácido, se possível.

— Não que eu saiba. Não acho que queiram matar ninguém por enquanto. Querem Rick! — Mavie apontou para o governante com o indicador. — É por isso que me mandaram de volta. Um deles ficou perguntando a Redmond quais eram os membros mais importantes presentes na emboscada. Por isso levaram Daryl, Glenn, Michonne. Querem nos chantagear a encontra-los — esclareceu, falando cada vez mais rápido.

— Temos de ir com todo o nosso arsenal — Carl disse, em resposta, aparentemente pronto para a retaliação.

— Redmond nos entregou?! — Heath pareceu surpreso.

Greene viu que Berry anuiu em silêncio.

O grupo se entreolhou, e Gabriel assegurou:

— Rick, nós podemos dar conta disso. — O padre pareceu assertivo. — Temos turnos de 24 horas para a torre de vigia. Ela já está abastecida e pronta. No decorrer desse inverno, montamos outras barricadas e pontos de vigilância — lembrou.

— É verdade. Billy Ray e outros os treinaram para o caso de um imprevisto. — Morgan apontou ao redor com seu cajado, mencionando os alexandrinos menos combativos. — Caso sejamos atacados, temos motoristas preparados, evacuação, distração e até mesmo um ponto de encontro combinado — disse, enquanto Padre Gabriel assentia, seguro da resistência da comunidade.

— Rosita pode ficar, é nossa membra mais bem treinada para qualquer necessidade de socorros. Eu tenho participado de rondas e vigias diariamente. Sabe que já atiro tão bem quanto Sasha — o homem religioso se recordou da saudosa amiga e sniper do grupo. — Nós manteremos tudo por aqui, Rick. Não se preocupe. No caso de qualquer emergência, minha prioridade é Judith. Não falharei com você — asseverou aquele homem que a cada dia mostrava uma postura mais pró-ativa.

Maggie vislumbrou Rick ouvir tudo o que o padre tinha a dizer, e fita-lo silente por algum tempo. Depois, pareceu decidir.

— Vamos levar o novo RV. Quem vai? — Rick interpelou os sobreviventes, e todos se disponibilizaram para a missão. O líder, porém, demorou o olhar em Morgan e Heath. A esposa de Glenn percebeu que ele parecia duvidar da capacidade de ambos para aquela tarefa perigosa.

— Promoção dois por um, chefia. Você não está em condições de escolher muito — ironizou o rapaz de dreads, enquanto mostrava as chaves do trailer, que dirigira naquela manhã.

— Tudo bem — Rick concordou, por fim, coçando os cabelos cacheados.

— Vou avisar Rosita, pegar Beth e os encontro logo depois — Maggie certificou e correu em direção a enfermaria.

Em poucos minutos, todos estavam prontos. Bethalie ainda dormia, mas sua testa quente e um breve suor gelado escorrendo por sua pele delicada denunciava que a febre ainda não havia passado.

Os primeiros quarenta minutos da viagem transcorreram sem maiores notícias agourentas. As estradas pareciam vazias, apenas com alguns errantes atrapalhando o caminho aqui e ali. Nada que não fosse complicado de desviar.

Mavie lhes contara que um capanga chamado Dwight lhe garantira que não poderiam tentar sair do estado da Virginia, alegando que os Salvadores teriam gente o suficiente para fechar todas as rotas de fuga. Rick não pareceu acreditar, mas, de qualquer forma, não pretendiam seguir aquela estratégia.

Enquanto isso, sua filhinha acordara para comer, mas não aguentou mamar muito. Parecia indisposta, fraca, e a febre ainda não lhe dava trégua.

Tentava fazê-la dormir de novo. A bebê não chorava muito, mas reclamava por vezes em audíveis lamentações de dor. O coração de Maggie se partia ao escutar cada uma delas.

Em determinado momento, Maggie Greene aninhava Bethalie em seus braços, parecendo se acalmar um pouco. Sussurrava palavras de conforto aos seus ouvidos, sentada em um sofá confortável do trailer RV. Rick Grimes chegou perto de ambas e as saudou com suavidade.

— Hey — murmurou o policial, para não atrapalhar a bebê.

— Hey — respondeu no mesmo tom pouco audível.

— Nós vamos conseguir. O médico em Hilltop resolverá tudo. — Rick olhou para o lado, e Maggie não conseguiu disfarçar o choro que lhe subiu a garganta.

— Hey... — Grimes acariciou seus cabelos em um gesto afável de amizade.

— Como você sabe? — Maggie perguntou, ansiosa.

— Tudo o que fizemos, fizemos juntos. Chegamos até aqui juntos e aqui ainda estamos. — Ele lhe deu um olhar que devia pressupor confortante. — Muitas coisas aconteceram e nós resolvemos. Porque estávamos juntos. É isso que eu sei. Juntos podemos superar qualquer coisa — reiterou o policial, ao passo que Carl e Mavelle caminhavam na direção da jovem mãe e sua filha. Tentavam lhe dar olhares tão seguros quanto os do policial, mas o filho de Rick parecia espumar de raiva. Já Mavie, transparente como costumava ser, demonstrava tanto temor quanto Maggie.

Subitamente, o amparo a jovem mãe terminou. Heath quebrara o silêncio.

— Que porra é essa?! — falou do banco ao lado do motorista. Carol dirigia.

Rick Grimes andou até a frente do trailer, perguntando o que tinha ocorrido.

— Inimigo próximo — disse Carol, sua voz isenta de emoção. Um arrepio perpassou a espinha de Maggie, enquanto ela abraçou sua filha com mais firmeza. Levantou-se e andou devagar até estar perto do painel frontal.

Poucos metros defronte deles, anteviu alguns homens parados, repletos de armas de artilharia pesada. Um sujeito caído ao chão na frente deles, estirado.

— Vamos fazer isso? — Carol interpelou o policial, provavelmente mencionando alguma ação ofensiva.

— Não. — Rick liderou o grupo para fora do trailer, deixando a porta entreaberta. Saíram todos, as armas em mãos. Maggie continuou lá dentro com Bethalie em seu colo.

— Esse cara... Esse cara aqui é alguém que estava com vários outros que decidiram não ouvir! — Um homem careca, com densos bigodes negros apontava para o homem caído no chão da estrada.

— Podemos fazer um acordo. Aqui e agora — Rick retorquiu. Maggie ouvia sua voz soando límpida e clara mesmo à distância. Sabia que ele blefava.

— Tem razão. Nós podemos — o homem obviamente a mando de Negan afirmou. — Entreguem todas as suas coisas. Teremos que matar um de vocês, é assim que as coisas funcionam — declarou, displicente. — Mas depois poderemos começar a negociar. Tudo o que precisam fazer é ouvir. — Abriu um sorriso sarcástico para o policial.

Maggie engoliu em seco, embalando Bethalie que resmungou um som baixo.

— É... Este acordo não servirá para nós — retrucou Rick no mesmo tom irônico, com um fuzil em mãos. — Na verdade, eu queria pedir as suas coisas. Mas sem matar ninguém. Mais ninguém — ressaltou. Certamente fazia menção aos ataques bem-sucedidos contra as bases de Negan.

Em seguida, um rapaz jovem, de cabelos espetados castanhos, passou um spray no homem caído. Maggie o escutou gemer. Ainda estava vivo.

— Sinto muito. Meu acordo é o único aceitável. — O careca fez um sinal para o jovem, que acendeu um fósforo, e, com o mesmo spray, improvisou um lança-chamas. O sujeito na estrada começou a ser queimado vivo. Greene sentiu uma onda de tontura prejudicar seu equilíbrio com o choque daquela horrível visão.

— Nós não negociamos — bradou o capanga de Negan. Maggie apertou Bethalie, ficando de lado para que a filha não tivesse chance de escutar nem ver aquela cena.

De longe, a esposa de Glenn pôde notar seu grupo trocar olhares.

— Eu e meu pessoal vamos embora — asseverou Rick, sua voz desafiadora, como se não tivesse se abalado com a cena de demarcação de território.

— Tudo bem, amigo. Há vários caminhos para chegar ao seu destino... — O sujeito de bigodes crespos sorriu enviesado. Maggie compreendeu aquele duplo sentido, e a sensação de ansiedade espiralada dentro de si piorou.

— Quer que hoje seja o seu último dia na terra? — Rick ameaçou.

— Não, mas foi bom mencionar isso! Pense sobre. E se for o seu último dia na terra? De alguém que você ama? — enfatizou a sugestão em retorno.

— Talvez devesse ser mais gentil com as pessoas no trailer. Porque nunca se sabe... — O careca estalou os dedos. — É simples assim. Sejam gentis uns com os outros... Como você disse. Como se fosse seu último dia na terra! — Alargou o sorriso de troça, fazendo pouco da ameaça de Grimes.

Rick forçou uma risada seca, como percebeu Maggie.

— Faça o mesmo.

Com o coração palpitando, Greene acompanhou com o olhar todo o grupo recuar e entrar no trailer. Em seguida, todos passaram mais alguns minutos dando marcha a ré e decidindo uma nova rota.

— A estrada Logrun é uma linha reta — Morgan comentou, indicando o local em um mapa na mesa do automóvel.

— Mas queremos visibilidade — lembrou Mavelle. A estrada permeava uma mata fechada, o tipo de lugar que deveriam evitar.

— Bem, aqui tem a Shelton — sugeriu o homem de cajado. — Tem campos de golfe, country clubs, terreno inclinado. Sem chance para o “bicho papão”. Nós o veríamos de longe. É mais longo, mas disporíamos da segurança de vales e depressões mais elevados.

Rick pareceu concordar. Chamou Heath, que deu as direções para Carol. Bethalie, naquele momento, estava bastante quieta. Quase solene. Como se compreendesse a atmosfera de tensão ao redor de todos eles e temesse se manifestar e quebrar o silêncio pesado.

O sol já se punha quando se depararam, quase uma hora depois, com mais um bloqueio.

— Vamos lutar? — Carol interpelou Rick, franzindo as sobrancelhas.

— Vamos acabar com isso, pai — Carl disse, incentivando a pergunta da mulher ao volante.

Maggie deu uma olhada adiante. Eram muitos.

— Não, agora não. Eles estão preparados. Com cada um de nós, dão sete contra dezesseis. Mais do que o dobro — Rick articulou sobre a desvantagem.

— Vá devagar, Carol — o policial orientou. A mulher deu marcha a ré, e os Salvadores nada fizeram. Apenas encararam o trailer se afastar, rumo a um horizonte cada vez mais escuro.

— Aqueles homens no bloqueio não eram os mesmos que fecharam a estrada antes — percebeu Carol Peletier, dando um olhar preocupado para Rick Grimes.

— Mesmo grupo, soldados diferentes — retrucou o policial. Maggie reconheceu que ele apenas fingia não estar nervoso. Ela respirou fundo, tentando se acalmar.

— Eles têm muita gente, Rick — Maggie Greene não pôde segurar as palavras. Seu pavor aumentava a cada curva da estrada.

— Vamos conseguir. — Grimes segurou um dos ombros da jovem mãe. Mirou-a com olhos que provavelmente se julgavam assertivos, mas não a enganou.

— Mesmo tendo que chutar cada um dos traseiros deles! — Heath tentou fazer graça, mas ao final da sua frase o mesmo silêncio sepulcral se abateu sobre o grupo.

Assim que Carol fez uma curva a direita, uma fileira de errantes acorrentados uns aos outros impedia a passagem do trailer por aquela rota.

— Maggie, fique atrás do volante, por precaução. Vamos liberar a estrada — o policial ordenou, e todos desceram, menos a jovem mãe e sua filha febril.

A esposa de Glenn apenas observou seus amigos saírem outra vez do RV, se aproximando cautelosos dos mortos-vivos.

— Pai! — Carl bramiu, sua voz já arisca pela sede de vingança acentuada.

— ...É o cabelo da Michonne — Carol comentou. Outro calafrio de horror perpassou as costas da mãe de Bethalie. A mulher de cabelos grisalhos apontava para um errante com dreads colocados em sua testa.

— São flechas do Daryl — Mavie disse em um tom agudo, quase choroso. A irlandesa se dirigiu até um cadáver ambulante com algumas flechas cravada em seu peito e barriga.

Rick Grimes não esperou. Maggie o viu arrancar os dreads de Michonne com a mão esquerda e, com a direita, cortar a machadadas o braço de um errante ao meio do grupo acorrentado. Eles se dispersaram, permitindo a passagem do trailer.

Todavia, tiros foram disparados. Maggie Greene soltou uma exclamação de terror, abraçando a filha e se abaixando no veículo. Beth chorou agudo. Pôde ouvir Rick gritar:

— Voltem para o trailer, agora!

Em poucos segundos, os sobreviventes alcançaram o RV. Subiram todos, sem sinal de ferimentos. Maggie estranhou a sorte oportuna.

— Estavam atirando nos nossos pés. Não bloquearam a estrada para nos parar — Rick soltou, finalmente demonstrando maior temor.

— Podemos ir pela Barton Road — Mavie deu mais uma dica de rota. Piscava seus olhos de avelã-esverdeado sem parar.

Rick apertou o cabelo de Michonne contra suas mãos.

— A Meadows pode nos levar para leste — Heath lembrou. — E voltamos ao curso na Mayhew. Temos um terço de tanque, abastecemos quando pararmos — o rapaz tentou, sua respiração audível, demonstrando estar assustado.

— Mas daí a gasolina acaba! — Mavie Berry protestou.

— Ela está com muita febre — Maggie Greene falou, desesperada pelos rumos daquela viagem. Bethalie tinha de resistir. Glenn tinha de resistir.

Eles tinham de resistir.

Greene olhou para Grimes. O líder parecia indeciso, passando nervosamente uma das mãos na testa.

— Rick — chamou Carol, do banco da frente. Maggie fechou os olhos devagar, e os abriu lentamente. Caminhou com a filha até o painel frontal do trailer.

Mais Salvadores os esperavam. Cerca de quarenta. Parados em cima de um viaduto. Na estrada abaixo, estava preparada uma barricada de madeira.

— Volte — pediu Rick, com voz fraca.

— Para onde? — Carol perguntou, desolada.

Maggie deduziu. Não tinham mais para onde ir.

De uma janela do trailer entreaberta, puderam ouvir o mesmo Salvador de bigodes exclamar:

— Está tratando bem seu pessoal, certo? Como se fosse seu último dia na terra? Ou talvez de um deles? É melhor ir embora. Vai esquentar. Continue indo para o seu destino! — O homem mal parou de falar e a barricada foi incendiada. Da ponte, atiraram um outro sujeito desconhecido. Só puderam assistir a queda. O homem berrou e se calou em um ruído engasgado. Preso por correntes em volta de seu pescoço, asfixiou até a morte.

— Vão, vão! — Rick ordenou, desperto do torpor amedrontador. A mulher ao volante deu ré com tudo, fazendo o trailer desembestar, riscando a estrada.

— O que faremos? — Carl Grimes perguntou assim que se distanciaram alguns quilômetros.

— Ela precisa de um médico — insistiu Maggie sobre Bethalie. — E, mais do que nunca, precisamos de reforços — enfatizou. Não teriam chances contra tantos.

— Não estão nos esperando exatamente... — Morgan pareceu ter uma ideia, os dedos coçando o osso do nariz.

— Como assim? — interpelou-o Heath.

— Eles estão esperando o trailer. Não têm como saber a ocupação, só quando descemos dele. O sol já está se pondo — o sujeito de cajado raciocinou alto.

Todos trocaram olhares, acompanhando o pensamento ágil.

— É a única distração possível — Mavelle concordou, e Rick anuiu com o rosto várias vezes. Traçaram, enfim, um plano que poderia funcionar.

Avançaram por quase uma hora, a noite já subindo, escura, as estradas envoltas por uma névoa densa. E colocaram o plano em prática.

Todos desceram do trailer, com exceção de Morgan. Maggie, com Beth no colo, excepcionalmente silente, acompanhava as últimas instruções do mandatário ao homem de cajado.

— Se vir um carro, acelere. Fora isso, continue dirigindo normalmente — orientou-o.

— Farei com que pensem que fizemos o jogo deles, garanto. Vou mantê-los rondando — prometeu Jones. — Fique com isso, Rick. — O homem mexeu em seus bolsos e lhe entregou alguns papéis dobrados.

— Receita que Tucker me deu. Introdução à fabricação de balas, passada por Eugene. Heath pode lhe mostrar o lugar caso algo aconteça — disse Morgan, sinistramente.

— Obrigado por isso. Por tudo. Temos sorte de tê-lo aqui. — Rick Grimes deu um olhar grato para Morgan Jones.

— Eu que agradeço por isso — o homem respondeu, preocupado, mas ainda gentil.

— Muito obrigada. De verdade — Maggie agradeceu, aproximando-se de Morgan. Bethalie adormecia aos poucos, ainda adoentada. Ele apenas fez um gesto em saudação com a cabeça.

Estavam muito próximos de Hilltop. Menos de quatro quilômetros. Em uma caminhada rápida, poderiam chegar. Conseguiriam.

Maggie Greene mal acreditava naquilo, enquanto se embrenhavam mata adentro. O grupo a cercava, protegendo a jovem mãe e sua frágil criança. Poucos errantes obstruíam o caminho dos sobreviventes, mas eram em seguida eliminados sem problemas.

— Eu falei. Nós podemos fazer tudo. Faremos tudo o que for preciso — Rick falou aos ouvidos de Maggie, mais seguro. Ela sorriu de volta. Fora mesmo por pouco, por muito pouco.

— Nada vai acontecer com nenhum dos nossos, nunca mais — assegurou Carl Grimes. Pai e filho se fitaram, e Carl cravou uma faca no rosto de um morto-vivo com um galho atravessado em seu estômago.

Maggie Greene abraçava sua filha, agradecendo internamente por tudo. Glenn, nós vamos conseguir. Como você disse. As lágrimas de alívio banhavam os olhos verdes da jovem mulher, que mal acreditava no resultado daquela viagem.

Todavia, em meio aos ruídos típicos do mato fechado, um outro som se fez discernível.

Alto.

Distinto.

E ominosamente incompatível com aquele ambiente.

Um agudo assobio humano, discernível acima do crepitar dos galhos e coros dos animais noturnos.

O grupo de sobreviventes de imediato se fechou em uma posição de defesa. Guardaram as costas uns dos outros. Bethalie acordou nos braços de Maggie, e soltou um gemido baixo, desperta pela tensão súbita.

— Vão, vão! — Rick bradou em tom de ordem.

Todos correram pelo mato alto, adiante. O assobio pareceu parar por alguns segundos.

Apenas para retornar depois, ainda mais alto.

Um farol esverdeado foi aceso defronte aos olhos já acostumados com o breu. A luz cegou os sobreviventes, logo lhes trazendo uma revelação luzidia e nem por isso menos aterradora.

Em uma clareira cercada por alguns carros, motos, a minivan em que Glenn deixara Alexandria e o trailer RV onde Morgan se despedira cerca de quarenta minutos antes... Um grupo extenso composto apenas de homens se fazia visível à luz externa desesperançada do trailer sequestrado. Fora dele que surgira a iluminação repentina.

Maggie tentou contar, mas decidiu parar ao alcançar as centenas. Muitos, mais do que sua vista alcançava, a se perder dentro da escuridão, onde nem mesmo o terrível farol poderia ousar iluminar.

Com o coração na boca, Maggie Greene fitou Morgan parado em um canto a esquerda da clareira, rendido de joelhos. Seu rosto revelava uma expressão de fracasso miserável. Perto dele, deixaram prosternados também Paul Rovia e Gaspar Sandoval.

— Ótimo! Você chegou! Bem-vindo ao seu destino — o homem de bigode pareceu saudar Rick Grimes, saindo em meio ao enorme bando de Salvadores.

— Por favor... — Maggie tentou, mas ele a calou com um olhar cruel. Bethalie gemeu em seu colo.

— Vamos pegar as suas armas — ordenou o Salvador de bigode. Ergueu uma metralhadora na direção de Maggie e sua bebê, e depois para Carl.

— Podemos conversar — balbuciou Rick, mas a jovem mãe tinha certeza de que ele sabia que qualquer tentativa de paz ali seria inútil.

— A conversa acabou. É hora de ouvir — o homem careca retorquiu, sem dó. Maggie fechou os olhos, encostando o rosto na cabeça da filha. Seu peito explodia em uma pulsação descontrolada. Bethalie devia sentir a paralisia emocional da mãe, e provavelmente por isso nem tentava chorar.

— Fiquem todos de joelhos... Vocês têm muito para ouvir — ressaltou o Salvador. Só então Maggie notou Redmond, parado a frente, ajoelhado perto do trailer. Como se o grupo de Negan quisesse que todos encarassem seu delator.

Sem escolha senão obedecer, Rick ajudou Maggie a ajoelhar, junto a Carol, ao passo que a esposa de Glenn tentava manter Beth segura consigo. Apenas rezava internamente, implorando para que não fizessem nada a sua bebê.

Carol se ajoelhou junto a jovem mãe, ao seu lado direito. Ao lado esquerdo de Rick, Mavie também foi forçada a ficar de joelhos. Arrastaram Redmond para a fileira formada aos poucos.

— Preciso que se ajoelhe — o careca cobrou Rick. Ele deu um olhar para o garoto filho do policial, e, naquela terrível reviravolta de eventos, pai e filho se viram rendidos, sem escapatória.

— Vamos pegar os outros agora. Dwight! — o Salvador de bigode chamou um capanga.

— Yeah — assentiu o de rosto marcado.

— Rápido — exigiu o careca. Dwight seguiu o comando, acompanhado de outros Salvadores, que foram abrindo a mala da minivan.

— Venham, vocês precisam encontrar umas pessoas! — debochou o homem loiro com uma balestra em mãos. Puxou Daryl, o que trouxe uma exclamação abafada de Mavie, parada a apenas um metro de distância de Maggie. Outros retiraram Michonne de dentro do carro, Tucker, Eugene, Tara... E Glenn, que caiu no chão por último, já de joelhos.

— Maggie? — A voz desconsolada do rapaz fez Bethalie reagir. A pequena enfim se pôs a chorar, desesperada pelo medo do pai.

A mãe de Beth nada pôde fazer além de soltar um lamento alto, tentando aninhar a filha o melhor que pôde. Lágrimas lentas desceram por seu rosto.

Nisso, o grupo todo já havia sido alinhado em um semicírculo, uma linha de sobreviventes humilhados na clareira. Com calma, os capangas retiraram suas armas e as guardaram. Encurralados, nem precisaram ser amarrados, como fazia o Exército de Wyoming County. O terror psicológico dos Salvadores era o suficiente para mantê-los todos sob suas rédeas curtas.

— Muito bem! Casa cheia. Agora que tal... Conhecer o chefe? — debochou o Salvador careca. O homem andou até o trailer, e abriu a porta.

Maggie retirou os olhos de Glenn apenas por aquela fração de segundo. Deixou seu olhar vagar lentamente até a escuridão dentro do trailer. De lá, como se saído de um portal do submundo, um homem desceu com calma sobrenatural as poucas escadas para fora do automóvel.

Alto, com ombros largos, vestido com uma jaqueta preta de couro e portando um taco de baseball enorme amarrado com arame farpado, um homem de cabelos escuros e barba do mesmo tom tinha um sorriso amplo ao rosto. Parecia divertir-se com o terror deles, o que por si só era suficiente para assustá-la muito mais.

Hashimoto tinha uma expressão doentia, pelo que lhe disseram. Um olhar morto, que condizia com sua ideologia fascista. Aquele sujeito era vivo, em cada aspecto da palavra. Uma lenda viva.

E por isso mesmo aterrorizante.

— Já estão mijando nas calças?

Perguntou o líder dos Salvadores, e soltou uma risada seca. Caminhou devagar para perto da fila, cada passo parecendo igualmente natural e ensaiado. Como se ansiasse muito por aquele momento, mas querendo desfrutá-lo em cada segundo.

— Porra, tenho a sensação de que estão quase lá. — O homem fitou todos os sobreviventes rendidos e alinhados. Seu sorriso permanecia em seu rosto.

— É. Logo todos vão estar se mijando — riu consigo mesmo outra vez. Em seguida, levantou uma mão e moveu o taco em um floreio.

— Qual de vocês otários é o líder? — disse, desinibido. Maggie não acreditava naquele suposto despojamento. Depois de tantos jogos psicológicos, aquele era só mais um deles.

Provavelmente o pior de todos, reservado para eles em seu circo dos horrores.

— Red falou que é aquele cara. — Dwight apontou com a balestra para Rick Grimes.

O homem de jaqueta escura foi até Rick Grimes, quase indiferente em seu passo lento. Lembrou Maggie, com outro arrepio na espinha, dos tubarões sondando suas presas nos aquários do Oceanário de Atlanta. Nadavam com a mesma frieza calma, e compartilhavam daquele sorriso sádico, predatório.

— Oi — Negan cumprimentou o policial com deboche. O rosto de Rick suava e tremia, parado ao lado de Maggie.

— Você é o Rick, certo? — perguntou defronte ao policial, erguendo as sobrancelhas. — Eu sou o Negan. — Sorriu, como se estivesse feliz por conhecê-lo. — Não gostei que você matou os meus homens. E quando mandei o meu pessoal pra matar o seu pessoal por ter matado o meu pessoal... Você matou boa parte deles. — Negan franziu os lábios, parando de sorrir, e depois voltou a mesma expressão irônica. — Não foi legal. Você não tem ideia do quanto essa merda não foi legal. — Semicerrou brevemente os olhos. — Mas logo vai ver — falou um pouco mais baixo, a voz soando rouca.

— Pois é. Em minutos, você vai se arrepender por ter me desafiado — garantiu, se curvando de leve na direção de Rick. Fuzilava-o com o olhar, como se só estivessem os dois naquela clareira.

— Ah, você vai! — Abriu um sorriso largo. Maggie duvidava de toda a postura daquele homem, do tom medido, calmo e divertido de suas palavras, até de suas troças. Mas não desconfiou da veracidade daquele sorriso.

Negan se divertia, pois sabia que transformaria aquela noite num pesadelo ainda pior.

Notas finais
~ "The Pathos of Distance", ou "o pathos da distância", do grego "páthos", que pode ser usada no sentido de empatia, compaixão, paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento, assujeitamento, sentimento e ligação afetiva, é uma expressão de Friedrich Nietzsche usada para quando é preciso se afastar de uma situação para julgá-la bem e resolvê-la, geralmente utilizada em sua filosofia no que se refere ao auto-conhecimento e auto-superação. No caso do capítulo, é tanto esse significado quanto uma ironia com a distância literalmente percorrida pelos personagens, em especial do POV final, de nossa Maggie Greene. ~ Preparem os coraçõezinhos, porque no próximo teremos mais morteS de persongenS principaIS. ~ E, em todo seu humor psicótico, temos por fim... Negan brilhando nos gifs. Odeio esse ser humano desprezível, mas é um personagem fantástico de se trabalhar. ~ Aguardo reviews! Muito curiosa para saber o que acharam!