Hunter's Instinct
73 Episódio 73 - Ariadne's Lament
Notas iniciais
To die by your side
Well, the pleasure and the privilege is mine...
The Smiths – There is a Light That Never Goes Out
A alvorada despontava no horizonte paulatinamente a mais uma despedida noturna. Com seus fracos lumes de mais uma manhã, esta prometia ser benfazeja, mais quente do que as dos últimos dias.
Ele podia escutar o canto de alguns passarinhos perto da janela. Surpreendera um deles parando em um galho de uma árvore seca pelo inverno rigoroso. Estação esta que já se despedia, depois de dias de temperaturas alguns graus abaixo de zero.
A coloração avermelhada e o pequeno topete de penas em cima de sua cabeça permitia que o rapaz o reconhecesse: um passarinho cardeal. Os assobios contínuos audíveis fizeram cessar o choro da linda criaturinha que ele agora amparava.
Glenn Rhee sussurrou baixo aos ouvidos de sua filhinha:
— Está vendo, Bethy? Olha o passarinho. — Apontou para a singela ave parada perto da janela, que moveu a cabeça para um dos lados e depois quicou alguns centímetros para a esquerda. Piou outra vez, fazendo Bethalie franzir as sobrancelhas, atenta ao novo som.
A bebê de dois meses de idade se entreteu por algum tempo com o animal voador, até o momento em que se distraiu, retornando ao mesmo pranto irritadiço. Sacudiu os bracinhos no colo do pai, que a abraçou mais perto, falando um “shh” aos seus ouvidos.
Glenn Rhee a deitou no móvel que usavam como trocador, e já se pôs a limpar a pequena. Bethalie, incomodada com a fralda que já deveria ter sido retirada, ainda reclamava.
— Bethy... Quietinha, meu amor, papai tem que te limpar... — tentou, mas a neném esperneava.
Era hora de usar o arsenal pesado.
— Ok então... — Glenn suspirou e tomou fôlego. — I see the moon, the moon sees me, shining through the leaves of the old oak tree... — O pai da bebê indicou o carvalho perto da janela para a neném, que seguiu o movimento, interessada por ouvir a canção de ninar.
— ...Oh, let the light that shines on me, shine on the one I love. — Beth continuou silenciosa e apenas movimentou as perninhas poucas vezes, parando em seguida. O marido de Maggie percebeu que deveria continuar.
— Over the mountain, over the sea, back where my heart is longing to be. Oh, let the light that shines on me, shine on the one I love... — cantarolou baixo, acalmando aos poucos a criança, retirando a fralda suja. Fez uma careta, enquanto Bethalie movia as mãozinhas, querendo mais da voz cantante do pai.
— I hear the lark, the lark hears me, singing from the leaves of the old oak tree. Oh, let the lark that sings to me sing to the one I love — cantou para a pequena, que soltou uma exclamação animada. O pássaro perto deles não era uma cotovia, mas a árvore era mesmo um velho carvalho. Repetiu as últimas estrofes mais uma vez, fazendo a higiene de sua filha. Proferiu os últimos versos assim que fechava a fralda limpa, e Bethalie fez algo inédito.
Gargalhou. Seus olhos tão parecidos com os dele se estreitando em seu rostinho iluminado.
Os olhos de Glenn Rhee imediatamente se encheram de lágrimas, por sua vez. Como pudera ter ficado rabugento pela noite mal dormida? Doze horas de sono seguidas jamais seriam melhores do que a maravilha de testemunhar aquele momento sublime. A primeira risada de Bethy. Sua filhinha, feliz, contente, satisfeita... Rindo para ele.
Pegou a menina no colo, a beijando na bochecha, enquanto ela punha suas mãozinhas em um de seus ombros, puxando divertida a blusa com seus dedos firmes.
Ela riu novamente, fazendo Glenn Rhee soltar uma risada de ternura, entre o choro emocionado e a alegria. Levou a criança consigo até o quarto de dormir, do qual se levantara há pouco, revezando o último turno para cuidar de Bethalie com Maggie.
— Mags, você precisa ver is... — o descendente de asiáticos já ia falar, mas ao entrar no quarto, vislumbrou sua mulher deitada, os braços espalhados na cama, o rosto entregue a um sono de serenidade pura. Não teve coragem de acordá-la.
Sorriu, ao passo que sua criança pareceu também se condoer com o cansaço da mãe. Parou de rir alegremente, apenas movimentando o rostinho esperto pelos corredores da casa, procurando algo para focar sua atenção.
Glenn a deitou no berço novamente, pois a bebê já tinha sido alimentada há pouco tempo. Cantou outra vez a música que ela parecia gostar tanto, até que Beth enfim adormeceu.
Quando já estava em seus aposentos, se preparando para deitar ao lado de sua esposa amada, ouviu o som da campainha tocar no andar de baixo. Tara e Mavelle tinham dividido uma ronda noturna na noite anterior até as quatro horas da manhã, então dificilmente acordariam. E ele não teria coragem de pedir para que Maggie fosse conferir quem era.
Passando as mãos no rosto, tentando espantar o sono, o jovem pai logo desceu lépido até a sala de entrada. Abriu a porta e topou com uma presença surpreendente.
Daryl Dixon o fitava, o rosto que costumava ter feições sisudas e ariscas, no momento demonstrava expectativa e certo constrangimento.
— Daryl...? — perguntou, sem compreender. Devia saber que Mavelle mal chegara para dormir.
— Estou atrapalhando? Pode falar — disse o caçador, transpassando a balestra em um dos braços cobertos por sua jaqueta de couro.
— Não... Quero dizer, eu não estava dormindo já tem algum tempo mesmo — admitiu Rhee, dando de ombros. Afastou-se da porta para que o amigo entrasse, mas Dixon se manteve estático.
— A Little Ass Kicker II não deu sossego hoje? — indagou o arqueiro, com uma nota de carinho evidente.
— Não dormiu tão bem, mas agora já está descansando — garantiu o pai de Bethalie com um meio sorriso. Todo o cansaço fora esquecido depois que vira sua filha rir daquele jeito.
Daryl torceu os lábios em um esgar de sorriso. Glenn compreendia que aquilo era um gesto grandioso para o amigo, que dificilmente demonstrava qualquer outra aparência além de sua fisionomia sempre séria.
— Eu queria sua ajuda em um troço. Eu não pediria se não fosse importante — o homem do interior da Geórgia foi direto. Glenn Rhee sentiu os ombros pesarem. Estava com muito sono, mas negar apoio aos amigos... Não era algo da sua natureza.
— Se for algo que eu possa fazer...
— Vai ser rápido. Em menos de meia hora você vai estar de volta para dormir o sono dos justos — assegurou-o, fazendo Glenn dar risada.
— Vou só avisar Maggie e vamos — confirmou o ex-entregador de pizzas, ao passo que Daryl lhe dava um aceno de cabeça, encostando-se no batente da porta para aguardá-lo.
****
Os passarinhos cardeais presentes na comunidade de Alexandria cantavam até mesmo nas proximidades do pequeno município governado por Rick Grimes.
Eram cerca de onze horas e alguns minutos, e Glenn, Tara e Mavie, os responsáveis pela eliminação dos errantes das cercanias naquela manhã já haviam caminhado por volta de quinhentos metros para fora da comunidade.
Não viam sinal de errantes, e Glenn Rhee já sabia o motivo daquilo. Na verdade, sabia bem como aquela missão iria terminar. Por isso, mal conseguia disfarçar um sorriso presunçoso no rosto.
— Sushiman, você tá com uma cara esquisita... — Mavie comentou ao seu lado, levantando uma sobrancelha, enquanto desbravavam a rua deserta, a neve já parcialmente derretida.
— Cara de bobo, mais de bobo do que a que você já tem — a irlandesa implicou, ao passo que Rhee meneou a cabeça, puxando as alças da mochila com munição e outras armas que tinha nas costas.
— Parece mais feliz do que de costume mesmo — Tara concordou e acresceu: — A pequenininha deixou vocês aproveitarem a noite hoje? — brincou, dizendo a frase repleta de eufemismos.
Ele negou com o rosto outra vez. — Pelo contrário. Ela dormiu mal hoje — afirmou, deixando Tara e Mavelle se entreolhando, mantendo o ar misterioso.
— Beleza, então, não conta para as amigas o motivo da alegria... Deve ser algum segredo oriental para a chave da felicidade, hereges do ocidente não merecem saber — debochou Berry, ao passo que Chambler soltou uma risada breve. Rhee também se permitiu um riso silencioso.
— Eu prestaria mais atenção adiante se fosse você. — O rapaz ergueu o braço em uma direção determinada. Próximo de um muro baixo de uma casa fora dos limites alexandrinos, havia alguns pacotes de salgadinhos enfileirados. Batatas fritas de saquinho*.
Mavelle andou ligeira até eles. Embaixo dos pacotes, achou uma folha de caderno empoeirada, amarelada, com uma caligrafia feia escrita às pressas. Glenn abriu mais o sorriso, divertindo-se com a reação da amiga.
“As coisas precisam se distanciar para que depois possam se encaixar”
A frase enigmática estava escrita sem assinatura, mas Mavie mordeu o lábio inferior, contendo um sorriso travesso. Seus olhos de avelã-esverdeado cintilaram, e logo os movimentou da folha para o rosto do amigo.
— O que vocês aprontaram? — A garota de dentes grandes fitou Tara, em seguida da pergunta.
— Eu não estou sabendo de nada! — A coletora levantou as mãos, em uma afirmação honesta. Realmente não estava a par do que fora armado para Mavie Berry.
Mavelle mirou os dois amigos algumas vezes, e voltou até os pacotes. Guardou-os todos com um sorriso amplo no rosto.
— Olhe atrás. — Glenn deu a dica, ansioso, quando ela recolheu o último saquinho. Viu desenhada a caneta pilot de tinta preta uma imitação de placa de retorno, colocadas nas estradas. Ela mirou o amigo, animada, como se perguntasse em silêncio se realmente poderiam retornar a comunidade.
— Não tem errantes por aqui. Nós limpamos tudo mais cedo — asseverou o rapaz, rindo da empolgação da garota irlandesa.
Mavie deu meia volta, quase correndo em direção a Alexandria. Glenn e Tara foram em seu encalço, enquanto Chambler perguntava a Rhee o que afinal de contas estava acontecendo. Ele decidiu manter a surpresa também para ela.
— Logo vai descobrir. Meu associado não queria que eu desse com a língua nos dentes — troçou, enquanto Tara franziu as sobrancelhas e depois aliviou a expressão, parecendo compreender.
A amiga caçadora, expert em estudar rastros, não tardou a achar um maço de Marlboro vermelho vazio, deixado propositalmente perto dos portões de Alexandria. Depois de saudar Heath, que tomava conta da entrada da comunidade, ela abriu o pacote e achou mais um bilhete lá dentro.
“Maple Street”
Era a última rua ao noroeste de Alexandria, uma sem saída, que ficava perto de uma encosta cheia de árvores, adjacente a cidadela improvisada. Na rua paralela a ela, a obra da torre de vigia estava sendo finalizada, motivo pelo qual muitas residências se encontravam vazias em ambas as localidades, pelo barulho proveniente das construções.
Mavelle olhou para trás, na direção do amigo, com outro sorriso emocionado. Ela conteve uma risadinha de empolgação e mais uma vez caminhou frenética até o endereço indicado. Ao chegar na esquina da rua, Glenn atestou que Mavie achou uma calça jeans de corte feminino, rasgada na altura da coxa**, disposta em um galho não muito alto de uma árvore.
Ela a puxou, as pernas da calça caindo de forma até engraçada contra seu rosto, pela sua lesta maneira de se deparar com as pistas dispostas para aquela caça ao tesouro.
Tara deu uma risada junto a Glenn, ao passo que a irlandesa morena mexia nos bolsos da calça, achando o último bilhete.
“Número 17”
Glenn Rhee viu que Mavelle Berry libertou uma risada comovida. Seus olhos brilhavam enquanto ela levou uma das mãos fechadas em punho contra os lábios, dando um último olhar para os amigos, como se não acreditasse naquela surpresa doce. Glenn sabia que tudo aquilo tinha significado, embora não reconhecesse boa parte daquela simbologia interna. Não deveria mesmo conhecer, afinal de contas.
Dizia respeito a apenas duas pessoas.
A garota de dentes salientes seguiu até a casa de número 17, Tara e Glenn mantendo uma distância respeitosa, não apressando tanto o passo quanto a irlandesa. Ela soltou uma exclamação abafada ao ver o trevo de três folhas, o shamrock*** tão comum na Irlanda que Glenn ajudara Daryl a achar e pendurar perto do olho mágico daquela porta. Em seguida, o descendente de asiáticos logo viu a madrinha de sua filha entrar naquela residência, estando poucos metros atrás dela, seguido de Tara.
Lá dentro, contemplou em uma mesa na sala de estar uma cesta repleta de maçãs verdes.
Daryl estava parado ali perto, com a expressão mais engraçada que já atestara em seu rosto. Algo que parecia misturar embaraço, tolhimento, curiosidade, expectativa, e, mais do que tudo isso... Transbordava de afeto. Glenn reparou em um sorriso encabulado no rosto do amigo, mais explícito do que todos os outros que já o testemunhara dar, tão poucos que poderia contar nos dedos da mão.
Glenn Rhee atentou para a mão do arqueiro, aberta para a caçadora que já se aproximava, agora devagar, quase solene.
O rosto de Mavie parecia demonstrar que ela estava prestes a chorar e a gargalhar ao mesmo tempo. Talvez as mesmas feições que Glenn deveria ter feito de manhã, quando viu sua filha rir pela primeira vez.
O jovem pai percebeu o que havia nas mãos de Daryl Dixon. Uma chave. Que Glenn Rhee sabia pertencer a porta daquela residência.
Glenn e Tara enfim deixaram o casal a sós, ao passo que puderam ouvir Mavie exclamar, alto, agudo e emocionada um “sim” bastante assertivo. Escutaram-na correr e se lançar aos braços do companheiro, que ria também, o som de sua voz roufenha em um tom comovido até então desconhecido para o marido de Maggie. Fecharam a porta, e cada um dos dois amigos seguiu seu rumo.
Glenn Rhee se pegou surpreso com tudo aquilo. Aquela tamanha doçura do acaso. Quem diria, que, um dia, estariam todos ali? Reconstruindo suas vidas, depois de tantas perdas, tanto sofrimento, após todo o horror testemunhado e suportado...
Glenn estava casado com a mulher de sua vida, e tinha sua filha, a criaturinha que mais amava e mais amaria naquele mundo. Conhecera a benção que era a de poder ser pai e experimentar esse amor inédito, incomparável em cada definição clichê que lhe fosse reservada.
Já Daryl, seu amigo tão fechado, endurecido pela vida massacrante que levara, também restaurava sua própria vida. Acabara de convidar sua companheira para morar consigo, em uma casa apenas para ambos, disposto a recomeçar em uma história também nova. Quem sabe um dia, Glenn e Maggie também não seriam padrinhos dos filhos de ambos?
A risada de Bethalie, pelo visto, fora um presente lhe dado em um momento certeiro.
Não importava o quanto sofressem, a vida deles se renovaria. Era uma certeza. E, resilientes como apenas os sobreviventes que eram poderiam ser, continuariam seguindo em frente... Juntos.
****
[MANHÃ DO DIA SEGUINTE]
Ela piscou os olhos, passando os dedos pelas pálpebras fechadas. Movimentou o corpo para o lado, deitou de bruços e abraçou o largo travesseiro abaixo de si. Sentiu a breve indolência matutina tentar se apoderar de seus sentidos. Pestanejou de novo, refletindo se não seria melhor dormir outra vez.
Ele já não estava mais deitado ali.
Deixou um dos braços soltar o travesseiro, que passeou pelo colchão e os lençóis ainda quentes. Não tinha porque dormir mais. Podia ver pela janela próxima que já passara e muito do amanhecer. Ele deveria tê-la poupado de acordar mais cedo por pensar em preservá-la do cansaço que lhes seria reservado após as longas horas de viagem.
Adeus, Alexandria.
Peggy Taylor deixou um sorriso prolongar-se em seu rosto. Enfim chegara o dia de deixar aquela comunidade, e começar uma nova vida em outra casa. Alguma que condissesse com quem ela se tornara, e com tudo — e todos — os que deixaria para trás naquele lugar.
Hilltop poderia ser parecido com Alexandria. Talvez seus habitantes fossem tão limitados moral e psicologicamente quanto os moradores daquele suposto moderno povoado governado por Rick Grimes.
Mas era algo novo. Algo para o qual ela decidira ir, por si só, sem influência de ninguém. Não mais a menina arrastada pelos outros, levada como um fardo duro de se carregar, sem pensamento próprio.
Peggy era uma jovem mulher, com convicções e escolhas que assumia sem voltar atrás. E ela sabia que, naquele dia, deixaria Alexandria para sempre.
Era uma despedida definitiva.
Determinada, a garota se levantou da cama, arrumou-a sem muitos arrebiques, e se vestiu com a roupa que já havia separado. Por fim, protegeu seu pescoço do frio daquele final de inverno com a echarpe que Aiyana lhe dera. Tocou com carinho aquele tecido delicado, fechando os olhos e pensando no quanto a amiga não estaria orgulhosa de si naquele momento.
Em seguida, desceu até o primeiro andar da casa de Moritz Alvintzi, que provavelmente se ocupava com alguma última tarefa enquanto membro do comitê político de Alexandria. Deixara uma mochila pequena ali, que levaria consigo no colo e nas costas durante o tempo em que perfizessem a distância até a chegada em seu novo lar.
Seu exemplar de “Peter Pan” já estava guardado ali. Ela o vislumbrou com um sorriso terno, se recordando mais uma vez de tudo o que aquele livro significava para si. Procurou uma cadeira próxima, descalçou as botas que já vestia e subiu. Estava na hora de acomodar também seus mais recentes achados.
Guardava-os com zelo sutil, atentando para não amassar nenhuma capa ou página. Seguia fazendo a bagagem diligente, admirando as capas de “O Nascimento da Tragédia”, “A Gaia Ciência”, “Assim Falava Zaratustra”, “Humano, Demasiado Humano”...
— Acho que já nos encontramos em situação parecida. — O coração de Peggy saltou uma batida, mas, no segundo seguinte, outro sorriso surgia em seu rosto.
Reconhecera o dono daquela voz.
A garota se voltou para trás. Abraçou Moritz pelos ombros, que já punha as mãos em sua cintura. Ela o beijou, mal tendo que se curvar por conta de sua baixa estatura. A cadeira não a deixava muito mais alta do que o ex-dono de circo.
O homem a ajudou a descer, amparando-a pelas costas, a apanhando de cima do móvel com cuidado. Quando já estava junto ao chão firme, contemplou o companheiro retirando os livros restantes de Friedrich Nietzsche dispostos em sua biblioteca particular.
— Em Hilltop eu vou terminar todas as publicações — assegurou-lhe com um sorriso decidido, ao passo que Moritz lhe respondeu com simpatia:
— Lembre-se de ler cronologicamente. Para aproveitar todas as nuances deste seu “herói trágico” — fez uma referência afável ao início da filosofia do pensador favorito de Peggy, tratando da catártica tragédia grega e sua metafísica artística.
— Ele certamente ultrapassou o metron. Mas sua punição pela hybris só veio depois — Peggy brincou de volta, sabendo que surpreenderia o ex-professor de filosofia com seus conhecimentos.
Já aprendera que o metron, dentro da tragédia grega, simbolizava a linha tênue que não pode ser ultrapassada pelos humanos, representativa de seus limites mortais. A hybris, por sua vez, seria esta transgressão contra a ordem social, motivo de punição pelos deuses, imposta ao herói trágico que ousasse subverter as regras.
— Acho que precisamos colocar as obras de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes aqui nesta mochila também — sugeriu Moritz com um sorriso caloroso, mencionando as tragédias gregas remanescentes, acessadas pela cultura ocidental.
— O que não pudermos levar fisicamente não importa. — Peggy sorriu mais uma vez, e deu um passo à frente até ele. — Sei que há muito que pode ser transmitido vindo daqui. — Ela moveu um indicador até a testa do companheiro, piscando trêfega.
— Você não precisa mais de nenhum cicerone nos seus estudos, Sininho. Nem em outros sentidos — acresceu ele, gentil. Afagou o rosto dela com uma das mãos. Ela pôs uma de suas palmas acima da mão dele, apreciando o gesto.
— Não é uma questão de precisar. É uma questão de querer — disse, enfática. — Eu quero você comigo. Em todas as jornadas — afirmou, afervorada. Estava tão feliz por tudo aquilo. Por toda a mudança em sua sorte. Quem diria que tanto mudaria em tão pouco tempo...
Peggy Taylor o abraçou, acalentando seu rosto junto ao peito do homem que amava. Fechou as pálpebras, entregue por um momento aquele enlace, enquanto ele beijava o topo de sua cabeça.
— E assim será — sussurrou Moritz Alvintzi em uma promessa que ela sabia ser sincera.
Peggy movimentou o rosto para fita-lo mais uma vez, desta vez com uma fisionomia diferente. Lânguida. Semicerrou os olhos, aproximando seus lábios dos dele, e os afagos que dali irromperam teriam tido outro destino se a campainha da porta não tivesse soado.
Os dois se afastaram, ao passo que Moritz passou uma das mãos por uma pálpebra fechada, em um sinal claro de contrariedade pela interrupção. A garota o seguiu com um sorriso discreto no rosto, acompanhando-o até a porta.
Ambos se defrontaram com Redmond Lewis, cujo olhar denotava uma fachada censora, de certo modo inibido. Peggy já havia reparado, como a boa observadora que sempre fora, que o tio de Delilah era bom em manter expressões disfarçadas, mas a nota de desaprovação em seu rosto não lhe passou despercebida. Provavelmente julgava o casal de grande diferença etária, ele próprio próximo a idade do ex-professor de filosofia.
— Desculpem-me... Eu vim a pedido de Jesus e Gaspar. Estamos com tudo pronto. Só falta a bagagem de vocês — reportou o homem de modos recuados.
— Certo, nos encontramos em alguns minutos nos portões — altercou o circense. Assim que o sujeito saiu, o companheiro de Peggy pôs-se a subir as escadas para buscar sua mala já organizada.
Enquanto esperava, Peggy Taylor pegou sua mochila e a pôs aos ombros, dando um último olhar para aquela casa. Ali morou sua melhor amiga, uma das pessoas que mais lhe apoiaram para subir do buraco de desespero que caíra, após o colapso do Oceanário de Atlanta. E, junto a sua melhor amiga, ali também residiu o homem que acompanhou seu desabrochar em mulher.
Peggy deu uma das mãos para Moritz antes mesmo de sair da casa. Voltou-se uma última vez para aquela residência, e a saudou em um adeus silencioso.
Pela força que descobriu dentro de si, ela suportou todo o terrível sofrimento passado para nascer nova de todo o caos. Nada, nunca mais, seria capaz de apagar o que passara a reluzir dentro de si.
A estrela dançarina que firme, resoluta e em êxtase cintilava... E procurava novos céus.
****
Ela deslizava seus dedos ao volante, a cada curva suave das ruas deixadas para trás. Dirigia uma minivan Chrysler Town & Country, verde petróleo, que se camuflava bem na mata grossa que crescia ao redor da estrada de terra que Gaspar lhes recomendara atravessar. Poucas camadas de neve ainda resistiam à temperatura um pouco mais branda, acima dos zero graus de temperatura, e alguns errantes lentos andavam em sua infindável caminhada rumo a lugar nenhum.
Os vestígios de neve pintavam as folhagens e a grama próxima naquele tom alvo que logo desapareceria. Toda a neve restante derreteria em poucos dias, sabia ela, pois a tendência climática seria de despedida daqueles difíceis tempos de inverno.
Olhou no relógio digital do carro, e reparou que já era perto do meio-dia. Vai dar tempo. Voltamos antes de anoitecer, pensou, segura de si e da tarefa que seguia bem sucedida.
Rick lhe contara, cerca de duas noites atrás, que fora ter com Redmond, após chegarem a conclusão de que apenas ele poderia ser o único culpado pela morte de Bloody Bob e pelo incêndio delinquente. Pelo que lhe dissera o policial, o recém-chegado em Alexandria tivera a pachorra de ameaçá-lo, de certa forma inclusive confirmando suas suspeitas e assumindo, ironicamente, ter sido o autor daqueles crimes.
Michonne firmou os dedos na direção, pisando fundo no acelerador e fazendo a minivan quicar em um solavanco agressivo. Glenn segurou acima do porta-luvas, dando-lhe um olhar atordoado, sem entender a súbita velocidade impetrada ao automóvel.
— Ainda estamos muy lejos****, não precisa correr tanto — afirmou Gaspar Sandoval, sua voz um pouco rouca e levemente irritadiça. A namorada de Rick viu pelo espelho do carro seu semblante fechado.
— É verdade, até porque estamos passando por algumas encostas — concordou Paul Rovia, apontando para o vidro, demonstrando a paisagem contornada. Ele, por seu reflexo, tinha a fisionomia mais calma, como sempre.
— Se derraparmos aqui é morte certa — asseverou o namorado de Paul, em tom de reprimenda. Michonne reparou que Jesus colocou uma das mãos em cima da mão do companheiro, tentando acalmá-lo.
— Sabemos o que estamos fazendo — Glenn falou, sentado no banco do passageiro ao lado do motorista, antes que a espadachim pudesse se manifestar. Ela lhe deu um curto olhar de agradecimento. O namorado de Paul não pareceu mais propenso a discutir.
Michonne continuou a dirigir, ao passo que Gaspar lhe orientava em alguns momentos, dizendo-lhe aonde desviar, e por onde avançar. De vez em quando, via pelo espelho retrovisor os outros carros que a seguiam: um furgão Daimler, azul marinho, no qual Billy Ray e Rebecca Gable traziam alguns moradores de Alexandria que decidiram passar a morar em Hilltop. Atrás dele, um Jeep Liberty SUV prateado, guiado por Daryl Dixon. Nele, embarcavam Mavelle Berry, Peggy Taylor e Moritz Alvintzi.
A escolta para os moradores de Alexandria estava bem guarnecida. E ainda se encontrariam dali a algumas milhas com Tucker, Eugene, Tara, Delilah e seu desprezível tio, que tiveram de buscar mais munição na fábrica de balas, se desviando brevemente da jornada para Hilltop.
Saber que Redmond sairia impune de tudo o que fizera revoltava a espadachim. Ela sabia que as pessoas de Alexandria acompanhadas por Billy e Rebecca não tinham escolhido se mudar por razões comuns. Fizeram-no pois foram instigados pelas manobras de Redmond a deixar a comunidade, julgando-a não mais segura depois do incêndio sem aparente solução. Ela e Grimes não poderiam condenar Lewis, apesar de estarem certos de sua culpa, sob pena de contradição ao que haviam dito, e tornarem a confiança dos moradores em Rick ainda mais instável. Afinal, declararam para toda Alexandria que Bob não fora assassinado, mas morrera por causas naturais.
Se um sujeito como aquele tal de Redmond, aparentemente inofensivo, os fizera de tolos, o que não poderia alcançar aquele que se pretendia o sucessor de Hashimoto na conquista da Virginia?
— Não se preocupem agora. Devemos parar só mais uma vez daqui a pouco. Só precisamos passar perto da periferia de Merrifield pela Porter Road... — declarou Paul Rovia, com um mapa em mãos. Gaspar lhe deu um olhar de censura. Provavelmente desagradado com o fato de seu namorado decidir procurar rotas ao invés de confiar em seus conhecimentos sobre aquelas estradas.
— Faça a próxima curva a esquerda. Estamos em terreno alto novamente, então cuidado com os declives — Gaspar Sandoval já disse em outro tom de sermão.
— Cara, ela sabe dirigir — retrucou Glenn Rhee, voltando o rosto para trás, um pouco agastado. Michonne meneou a cabeça, tentando se munir de mais paciência.
— Eu não disse que não sabe — replicou o namorado de Paul Rovia, que passou a revirar os olhos.
— Que tal se concentrar em passar as direções ao invés de ficar de papo furado? Acho uma boa ideia — rebateu a espadachim, com um tom de voz sarcástico e imponente. Não era um pedido, era uma ordem.
Gaspar pareceu contrito, apesar de contrariado, e novamente os guiou por mais algumas milhas, até que avistaram a silhueta de Redmond e Delilah parados na grama, perto de uma placa com o sinal de travessia de animais silvestres na estrada. Atrás deles, muitas árvores espessas. Bem mais adiante, podiam antever o carro que usaram para ir a fábrica de balas. De longe, Michonne podia distinguir três silhuetas sentadas no automóvel, de Tara, Eugene e Tucker, presumiu.
Ela já aproximava a minivan do acostamento próximo, quando notou a expressão no rosto de Delilah Feld. Parecia apavorada.
O coração da habilidosa sobrevivente passou a bater rápido. Aquilo era um mau sinal. Glenn, porém, segurou em seu braço.
— DÊ RÉ AGORA! — O marido de Maggie gritou, apontando para algo cerca de menos de cem metros defronte do veículo e deveras distante do carro dos que tinham voltado da fábrica de balas. O utensílio que reparara também estava posto a uma distância segura de Delilah e Redmond.
Algo acinzentado, achatado e metálico se fazia visível parcialmente encoberto por um monte de neve caído na estrada.
Michonne arregalou os olhos, mas era tarde demais.
A mina terrestre ali colocada explodiu, fazendo com que a espadachim, para escapar do fogo e da detonação, girasse o volante ao máximo para a direita. O carro ultrapassou o acostamento, acelerando pela grama úmida por alguns metros até bater contra uma árvore de tronco consistente.
Maior sorte não tiveram os automóveis que seguiam atrás. Aterrorizada, a namorada de Rick moveu o rosto para trás, enxergando tanto os veículos dirigidos por Billy quanto por Daryl derraparem e descerem aquele terreno perigosamente íngreme, sumindo relevo abaixo.
Protegidos por seus cintos de segurança e pela casualidade fortuita, os tripulantes da minivan não chegaram a se ferir com a batida. Mas não fora o acidente que assustara Michonne. Afinal de contas, nada aquilo era imprevisto. Muito pelo contrário.
Sua pergunta sobre quando seriam joguetes de Negan acabara de ser respondida.
Muitos homens armados com fuzis, metralhadoras de guerra, pistolas, facões e diversos armamentos pesados surgiram por entre a vegetação fechada, rendendo Delilah, que agora chorava abertamente, e Redmond, que não parecia indiferente. A espadachim podia identificar no odioso rosto daquele homem evidente temor.
— Sabe, nós geralmente matamos uma pessoa antes de nos apresentarmos... — Um homem loiro, de rosto marcado e sorriso torto abriu a porta do carro ao lado do motorista, arrastando Michonne para fora. Ela tentou se desvencilhar e lutar, mas não foi contida apenas por ele. Um segundo sujeito, alto e truculento, se aproximou, torcendo seu braço e a impedindo de resistir.
Outros capangas cercavam Glenn, Gaspar e Paul, que tentou dialogar.
— Dwight, nós só queremos chegar até Hilltop... — tentou o diplomata, arrancando uma risada petarda do homem loiro.
— Porra, Jesus, é sério, mesmo? — troçou, andando até o homem de longa barba e segurando seu maxilar, raivoso. Gaspar protestou e levou uma coronhada de AK47 de um homem de físico avantajado.
— E a gente só queria que vocês não tivessem feito a porra de um genocídio com o nosso pessoal — retorquiu Dwight, ajeitando a balestra que levava aos ombros e soltando o rosto do namorado do mexicano.
Michonne e Glenn trocaram olhares breves, preocupados.
— É, nosso Red aqui abriu a boca pra gente... Negan nos faz caçar vocês há meses, porra! Por sorte, tínhamos montado acampamento por perto, e rendemos esses babacas aqui na estrada. — Apontou para Delilah e seu tio. — Fazer o tiozão aqui falar foi bem simples. Não é mesmo, Red? — debochou o homem loiro, com certo sadismo. Redmond, de mãos erguidas em rendição, não disse nada, apenas continuou olhando para a grama. Lilah, ao seu lado, tentava impedir o próprio pranto, sem sucesso.
— Eu perguntei: não é mesmo, Red?! — O Salvador de cabelos claros elevou o tom de voz e apontou a balestra ao pescoço de Delilah. Ela mal segurou um uivo temeroso, enquanto seu tio voltou o rosto devagar para Dwight, a fisionomia antes assustada denotando ódio.
— É — admitiu o sujeito que Michonne detestava, fazendo a espadachim ranger o maxilar. Não pode terminar assim. Nós não nos rendemos. Nós não nos rendemos.
— Deve ter algum acordo que nós possamos fazer... — Paul tentou outra vez, e o capanga loiro sacudiu o rosto, novamente incrédulo.
— Vocês mataram gente pra caralho! Não tem acordo. Vamos leva-los para Negan, e ele é quem vai decidir os termos. O que sobrou de vocês, é claro. Esse pessoal que caiu encosta abaixo não deve nem ter sobrado... E se alguém sobrou, provavelmente não vai nem mais conseguir andar. — Deu mais um sorriso sádico, fazendo o estômago da namorada de Rick revirar.
— Dwight, olha quem achamos subindo a porra do barranco! — Um dos Salvadores, de pele bronzeada e olhos claros, aproximou-se encaixando a bandoleira em seu tronco. Atrás dele, o que a mulher de dreads viu a fez sentir como se algo de peso insustentável caísse sobre seu peito.
Daryl e Mavelle avançavam, também rendidos, para se unir aos outros reféns de Alexandria e Hilltop.
— Puta que a pariu... É a mulherzinha do Jeffrey — riu o capanga loiro, surpreso. — Aquele merdinha traidor morreu mesmo pela chave de boceta — troçou, e a espadachim logo ouviu Daryl reagir.
— Cale a merda dessa boca ou eu vou fazer isso por você — rosnou Dixon, fazendo Berry lhe dar um olhar temeroso, balançando o rosto em negativa. O Salvador mais próximo do caçador lhe deu uma coronhada tão forte nas costas que doeu em Michonne.
— Peraí. É aquele filho da puta... Aquele filho da puta do rádio! Que matou o Park e os outros! — Dwight apontou para o caçador arqueiro, arregalando os olhos. Sua expressão sádica se iluminou de alegria cruel.
— Porra, Negan vai ter tanta gente pra arregaçar na porrada que não vai nem saber quem escolher primeiro! — O homem loiro mal se conteve de excitação. Quase correu até Redmond e perguntou:
— Quem é o tal Rick aqui?
— Nenhum deles — o delator garantiu. Dwight se aproximou, ameaçador, mais uma vez apontando a balestra para Lilah, que apenas baixou a cabeça.
— Nenhum deles! Está em Alexandria! — assegurou com mais veemência o tio de Delilah.
— Merda... — grunhiu o Salvador de rosto desfigurado. — Essa é a puta dele, não é? — Indicou Michonne. Ela apenas o fitou com um olhar letal. Se tivesse uma chance, apenas uma...
— Então ele vai vir atrás — confirmou Dwight, passando uma das mãos pelo queixo. — Esse japonês tem importância? — Ergueu a balestra na direção do rosto de Glenn.
— Tem. É marido da segunda no comando — afirmou Redmond, seu lábio tremendo. Seus olhos azuis já esbugalhados estavam mais arregalados do que de costume.
— Porra, mandamos bem então... Negan vai ficar satisfeito! E esse caipira de merda? — A espadachim percebeu que Dixon só não reagia para não comprometer a segurança de Berry e dos amigos. Sua expressão era como a de um predador acuado que só espera uma baixa na defesa alheia para atacar.
— É o braço direito dele — relatou Lewis, sincero.
— Então a piranha do Jeffrey é a que menos importa aqui, certo? — A namorada de Rick percebeu os olhos azuis de Daryl escurecerem de ódio. Redmond anuiu com a cabeça.
— Beleza. Queridinha, você vai fazer o seguinte... Vamos tirar o gordo, a sapata e o viadinho do carro, e você vai voltar dirigindo pra sua Alexandria. Pode dizer ao tal Rick que Negan quer encontrar com ele antes do amanhecer, ou toda essa galera aqui vai virar comida de apodrecido. Vamos levar as cabeças deles até vocês, se não vierem. Redmond sabe o caminho — zombou Dwight.
— Por favor... — A mulher de dreads escutou Mavie tentar implorar, e um Salvador também loiro, perto dela, estalou um tapa forte em seu rosto. Ela silenciou. Dixon tentou avançar, e recebeu mais agressões dos homens que o seguravam.
— Façam o mesmo caminho quando vierem, se quiserem facilitar. Nem adianta tentarem fugir. Hoje, temos todas as rotas perto da sua comunidade cercadas — afirmou, e Michonne não duvidou. Com um arrepio terrível subindo pela espinha, ela se perguntou se o contingente total deles seria maior do que o Exército de Hashimoto. Só ali, ela já contara mais de quarenta Salvadores.
Sem alternativas, Mavelle foi guiada até o veículo de onde expulsaram aos pontapés Eugene, Tucker e Tara. A companheira de Rick Grimes, silenciosa, apenas assistiu o carro dar marcha a ré, manobrar, e ser levado a toda velocidade na direção que vieram.
— Como prometido, Red... — A espadachim acompanhou com o olhar o capanga loiro de Negan ir até Delilah e empurrá-la para longe do tio, que tentou segui-la, mas foi contido. — Entreguem a ela uma arma e a levem até a encosta. Deixem que ela desça, está com as pernas boas — o homem de rosto marcado deu as diretrizes, e Redmond queixou-se:
— Você falou que ela ficaria segura! Que Negan me garantiria que não tocaria nela se eu colaborasse! — protestou o tio, ao passo que Lilah o chamava, angustiada.
— Ela vai ficar segura... Vamos dar uma arma boa para ela e muitas balas. Se não se garante com tudo isso, bem, a incompetência dela não é problema nosso. — Dwight troçou. — E Negan não vai tocar nela. Você sabe, ele cumpre sua palavra — acrescentou o Salvador loiro, com o rosto de feições mais sérias.
— Tio! — Delilah chamou já longe, empurrada pelos Salvadores. Sua voz estava embargada. A mulher de dreads seguiu com o olhar a jovem puxada pelos braços até além da estrada.
— Lilah! — respondeu Redmond, os olhos saltados no rosto temeroso.
Os Salvadores atiraram uma pistola Beretta Tomcat com silenciador para além do declive, junto a poucos cartuchos de munição. Certamente o faziam para forçar Delilah Feld a descer se quisesse ter alguma arma para sobreviver.
Ela olhou para trás, na direção do tio, mas um capanga de Negan a empurrou pelos ombros, a levando a tropeçar e cair pela encosta.
— LILAH! — berrou Redmond Lewis, desconsolado, e logo foi forçado a caminhar junto dos outros reféns. A espadachim o detestava, mas não pôde deixar de se compadecer por aquilo. Estavam todos no mesmo barco, ao fim de tudo.
— Vocês estão tão fodidos, e ainda nem tem ideia disso... — Dwight testificou, rindo, obrigando todos a caminharem mata adentro.
E, naquela terrível sensação de atravessamento da realidade, que se traduzia em um pesadelo concreto... Michonne acreditou.
****
Ela acertou a têmpora esquerda de um rastejante que erguia os braços contra si, dando um giro quase dançarino. Eliminou-o em um movimento certeiro, calando seus rugidos famintos em um golpe fatal.
Sem poder arranjar tempo para se recompor, já atacava outros rastejantes que seguiam com os braços erguidos na direção de seu grupo, ao passo que Billy Ray, com a testa ferida pelo impacto da semi-queda do automóvel e os sentidos entorpecidos pela parca condição física que se encontrava, não estava com a mira tão certeira. Errou muitos disparos.
— Faltam poucos, vamos, vamos, temos de continuar! — incentivou-os Rebecca Gable, liderando o cortejo de sobreviventes que era composto por ela mesma, Billy Ray Holloway, Moritz Alvintzi, Peggy Taylor e mais três mulheres de Alexandria que sobreviveram a capotagem no declive próximo.
Mavelle Berry e Daryl Dixon haviam saído há algum tempo, para tentar ajudar Michonne e os outros. Separaram-se para unir novas frentes, em caso de toparem com qualquer possível algoz.
Aquela explosão premeditada era um péssimo acontecimento. Becky sabia disso. De alguma forma, quem quer que ali os aguardasse antevira sua chegada, e os levara para uma emboscada. Da qual ela e o restante de seu grupo tentavam fugir em desespero.
Franzindo os lábios enquanto unia as mãos na base do taco de baseball e aniquilava mais um morto-vivo que os atrapalhava, Rebecca pensou se não postergara algo importante. Estava grávida, e ainda não tivera coragem de contar sobre o filho que esperava para o pai, que seguia ao seu lado, ferido, cambaleante.
Pelo rumo que os recentes imprevistos haviam seguido, será que ela sequer conseguiria fazê-lo? O que aguardava por eles antes do final da tarde?
Seus pensamentos logo foram respondidos, por uma sádica ironia do destino.
Já tinham caminhado quase um quilômetro dentro dos terrenos florestais quando Rebecca percebeu que não estavam sozinhos. Nas sombras circunscritas as árvores, alguém os aguardava. Um grupo de cerca de dez homens repletos de armas dos mais diversos calibres, que avançou impávido, todos juntos.
E abriram fogo.
Rebecca, por seus reflexos muito desenvolvidos, se jogou instintivamente na terra úmida da mata, escapando dos tiros. Apavorada, apenas teve tempo de terminar de ouvir os disparos para erguer o rosto para trás, na direção de seus companheiros.
Billy não fora ferido, para seu alívio inenarrável. Tampouco Peggy ou Moritz, escondidos atrás de uma pedra grossa. As sobreviventes de Alexandria, porém, não tiveram a mesma sorte. Jaziam na grama, seus corpos perfurados por balas.
— Boa tarde! Eu sou Archie, e sou um dos caras que vocês devem conhecer como Salvadores — um sujeito corpulento, acima do peso e com barba e bigode grisalhos em um feitio que lhe fazia parecer um corsário, se punha a falar, liderando os que vinham atrás. Seu tom de voz era grave, alto, e apesar das palavras desinibidas não revelava qualquer diversão de fato.
— Somos os Salvadores, aquele pessoal que vocês tentaram dizimar, seus filhos da puta! — o homem vigoroso continuou, caminhando lentamente até o grupo espalhado vários metros a sua frente.
Rápida, Becky se arrastou até o pai de seu futuro filho, segurando em sua mão, reprimindo um soluço apavorado. Billy Ray, porém, não parecia emocionalmente abalado. Pelo contrário, deu-lhe um olhar urgente. Apontou para seu bolso esquerdo, perto da mão dela.
“Granada. A última de Alexandria”, Rebecca leu seus lábios, e arregalou os olhos escuros. Discretamente, deixou a mão descer até o bolso de seu namorado, enquanto erguia mais o rosto. O grupo hostil se aproximava, estava perigosamente perto, cerca de vinte e poucos metros.
— Qual de vocês, suas pragas do inferno, é a porra do líder? — articulou mordaz o Salvador grisalho. A jovem loira tentou retirar a granada do bolso do namorado sem ser percebida.
— Ele não está aqui. — Moritz se levantou, elevando os braços. Becky lhe deu um olhar aflito. Talvez ele julgasse que conseguiria travar uma conversa com o sujeito e enrolá-lo de alguma maneira, mas a contorcionista tinha um mau pressentimento. Apesar de tudo, o homem de bigode e barba esquisitos parou e franziu as sobrancelhas.
— Então quer dizer que vocês são só gente inútil? — interpelou o capanga de Negan em tom de zombaria.
— Não foi isso o que eu disse. — Moritz tentou um sorriso pacífico, e o outro homem gargalhou.
— Mas que perda de tempo da porra.
Com um sorriso enviesado, o homem a mando de Negan suspendeu a metralhadora que tinha em mãos.
Rebecca mal conseguiu piscar. Aconteceu assim que abriu as pálpebras.
Archie disparou o gatilho de sua metralhadora, e uma saraivada mortífera de tiros perfurou o abdome e o peito de Moritz Alvintzi, que nem teve tempo de fitar o sujeito que o fuzilou. Sangue grosso respingou de seus ferimentos abertos, seus joelhos bambearam a cada projétil perfurando sua pele, e seu corpo foi lançado para trás, esmorecido pela violência súbita.
No mesmo segundo, Becky se levantou de imediato.
— Vão pro inferno! — ela gritou. Ninguém devia contar com aquela manifestação supostamente suicida.
Antes que pudessem alvejá-la, Rebecca destravou o explosivo que retirara do bolso de Billy Ray e o jogou contra o grupo de homens, que de imediato foram carbonizados em uma explosão certeira. Ela foi atirada para trás, pela força da detonação, caindo com as costas contra o tronco duro de uma árvore.
O impacto de sua coluna contra o fuste a machucara. Não conseguiu se alçar de pé. Billy, muito avariado fisicamente, mal conseguia se levantar também.
Rebecca, enquanto se arrastava pelos braços e pernas até Peggy e Moritz, apenas pôde testemunhar, sem poder ajudar, a garota cravar os dedos nos braços do companheiro, sujando-se com o sangue que escorria viscoso de suas muitas feridas. Implorava-lhe que resistisse. Os grandes olhos castanhos da menina estavam cobertos de lágrimas, suas mãos e braços manchados pelo sangue de seu companheiro.
Becky testemunhou seu antes chefe mal ter forças para mover suas mãos até o peito, o brilho de suas íris diminuindo, passando a ficar opacas aos poucos. Perdia, em segundos, a luz vital que ainda lhe restava.
— Tudo... tudo ascende — Moritz balbuciou, no que pode ter sido um último devaneio de uma mente outrora brilhante, prestes a se apagar para sempre. Ou, quem poderia dizer? Algum último átimo de iluminação e compreensão, sobre o que poderia haver... Além.
Sangue escorreu de seus lábios entreabertos, e ele pareceu sorrir. Seus olhos se voltaram para os céus, mas Gable percebeu, não mais enxergava algo naquele plano terreno.
O grito desvairado que saiu da garganta de Peggy foi mais doloroso do que vê-lo morrer assim, sem despedidas, sem defesas... Sem motivos. Um lamento torturante de uma alma tão maltratada pelo destino. Por tantas reviravoltas terríveis do acaso.
Seu desamparo traduzia o que Becky também sentia, mas não tinha forças para demonstrar. Ao contrário da garota, que abraçava Moritz e continuava vociferando chamados desesperados para alguém que nunca mais poderia responde-los.
Estavam sozinhas. Perdidas, desvalidas, sem norte algum, como o dia em que vieram ao mundo. Essa triste e solitária experiência temporária de tanto sofrimento, a qual um homem muito inteligente que ambas conheceram e se afeiçoaram... Um dia tentara avidamente compreender.
E, de maneira tão abrupta como conhecera aquela existência, como todos nasciam e vinham à luz que banhava aquela lancinante vivência terrena... Moritz se fora, ainda sem conhecer nenhuma resolução definitiva para os mistérios da vida.
Para os quais, talvez, não existam respostas.
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