Hunter's Instinct
72 Episódio 72 - Will to Power
Notas iniciais
“My humanity is a constant self-overcoming.”
~ Friedrich Nietzsche
Há muito ele se considerava um cético.
Sabia que as pessoas nasciam e morriam. Conheciam o mundo, e depois o breu. O nada. Era o que lhes restava.
Deus, anjos, reencarnação ou o dito paraíso... Eram meros devaneios. Ilusões tão vagas quanto os mitos infantis. Contos de fada elaborados para adultos, ilusões reservadas aos que não aceitavam a dureza da vida.
Com tais reflexões em mente, o caçador arqueiro passou os olhos pela capela de Padre Gabriel, desdenhando dos altares e dos símbolos aos quais jamais dera um segundo de confiança por toda a sua vida. Ninguém salvaria os humanos de si mesmos, fossem os vivos ou os mortos.
Rick, à sua frente, dizia algo às pressas para Michonne e Glenn. A luz do alvorecer surgia pelos vitrais, deixando halos próximos ao coro e a ábside da capela. Aquele ambiente de devoção religiosa, contudo, o distraía da fala de Maggie, que respondia a alguma indagação do líder da comunidade. Rosita cruzava os braços e parecia impaciente. Ao seu lado, Eugene torcia os lábios. Padre Gabriel apenas assistia a tudo, silencioso por todo o tempo. Tara erguia as sobrancelhas, roendo uma das unhas.
Alguns metros perto do padre, Morgan Jones mirava os presentes, parecendo avaliar suas reações.
Carol estava parada perto de Dixon, seu olhar fixo no rosto de Rick. Seu semblante não revelava qualquer que fosse o rumo de seus pensamentos.
O teor da reunião era grave. Rick convidara apenas pessoas realmente próximas, gente que, Daryl Dixon sabia, o policial já conhecia há tempos.
Todavia, Dixon não conseguia deixar de desviar a atenção. A capela era o único local de Alexandria que ele evitava. Pequena, discreta, modesta, até, lhe recordava das pequenas igrejas que havia na cidade em que nascera, no interior da Georgia. Os lugares que seu pai o levava, muito criança, todos os domingos de manhã. E depois, de volta para casa, o bom cristão espancava o filho e liberava seu sadismo herege sem culpa aparente.
O caçador não tinha nenhuma memória do pai que não envolvesse algum tipo de abuso, físico ou psicológico. De sua mãe, guardava consigo apenas relances de um convívio dramático. Viciada em álcool, cigarros e diversas drogas ilícitas, em especial metanfetamina.
Poderia dizer que Merle fora seu único guardião, que o protegia do jeito que podia da violência paterna e da negligência da mãe. Também usuário de drogas desde a adolescência, marginal, transviado, Merle Dixon era o único modelo possível para o Dixon mais novo.
Seguira o mesmo caminho por tempo demais. Quantos anos Daryl não passara imitando o irmão, acreditando em cada palavra dita por ele, como o seguidor de um profeta? Ele sabia, Merle Dixon fizera o seu melhor, apesar de tudo.
Merle sofrera o mesmo que Daryl, e nunca teve a chance de manifestar qualquer revolta. Afinal, tinha um irmão mais novo para cuidar. Daryl jamais teve de zelar por ninguém além de si mesmo. Fora assim por toda a sua vida, até o acampamento perto de Atlanta. Até se aproximar de Carol. Rick. Michonne. Até o tempo que passara a sós com Beth.
Até...
Uma luz entre o azul e o verde saía de um vitral singelo em gravuras de outras anunciações, mas algo mais relevante atraíra seu olhar. Muito mais bonito do que aquelas obras construídas para atrair e deslumbrar olhares humanos.
A silhueta de Mavie era iluminada pelos halos em um místico jogo de luzes criados pelo céu da alvorada. Tinha suas íris entre o verde e o castanho postas também na figura de Rick Grimes. Ela piscou uma vez. Entreabriu a boca, e Daryl sentiu seu peito aquecer ao vislumbrar os dentinhos salientes da irlandesa se pronunciando pelos seus lábios rosados.
Assim ela o flagrou, mal movendo o rosto em sua direção. Mavelle Berry lhe agraciou com um sorriso curto e discretamente movimentou uma das mãos de forma a segurar a dele.
Dixon entrelaçou por breves segundos seus dedos nos dela, a anterior sensação reconfortante se expandindo por seu peito.
— Certo, então o que vamos fazer? — inquiriu Rosita Espinosa, o tom de voz um pouco mais alto do que os outros timbres já escutados.
Rick Grimes franziu as sobrancelhas, preparando-se para responder.
— Você tem alguma suspeita? — Glenn interpelou o líder, por sua vez. Olhou para Maggie, e Dixon reconheceu a expressão em seu rosto. Instinto de proteção. Devia se preocupar com a segurança de sua esposa e de sua filha.
— Não. Temos alguns álibis, o que elimina boa parte da comunidade. A questão é que... Não faz sentido. Todos temos um inimigo em comum — admitiu Rick, enfastiado, mencionando Negan implicitamente.
— Talvez seja esse o cerne da questão — insinuou Peletier, circunspecta. Dixon deu um olhar rápido para a amiga tão próxima. Os outros a encararam, esperando.
— Sabemos que não pode ter sido nenhuma pessoa de fora. Não havia pontos cegos, tínhamos vigilantes em todos os muros — acresceu, seu olhar plácido cintilando com esperteza.
— Você acha que foi um dos de Hilltop? — indagou Michonne, séria. Carol balançou o rosto em negativa.
— Não necessariamente. Pode ter sido. Pode ter sido alguém de Alexandria também. Alguém que esteja insatisfeito com... — Ela moveu os olhos até Rick Grimes.
— ...Rick. É uma tentativa de desestabilizar sua liderança — concordou Eugene, fitando o pai de Carl e Judith. Uma morte a sangue frio debaixo dos olhos atentos de Grimes e seu grupo era uma falha de segurança imperdoável.
— Você tem certeza de que não viu ninguém por perto? — Tara insistiu, mirando Morgan, que mais uma vez negou.
— Só vi a fumaça do incêndio e corri para ajudar. Começou com um cigarro jogado em uma lixeira cheia de papéis — afirmou o outrora guardião da cela de Bob.
— Quem não estava em serviço, longe da cela, desde o momento do incêndio até a hora em que Morgan encontrou o corpo? — Michonne tentou relembrar. Daryl escutara Jones dizer, no início da reunião, que achara o homem transformado em errante perto da madrugada anterior, quando lhe levara mais água para passar a noite.
— Paul, Gaspar, Delilah, Redmond, Tucker, Billy Ray, Peggy, Moritz, Alfred, Sally, Joseph, Dwayne. Fora as crianças — relembrou Maggie, com a lista que organizara junto ao Conselho de Alexandria com o itinerário de afazeres da comunidade e seus responsáveis.
— É óbvio que as crianças jamais fariam isso... — Rosita revirou os olhos, descrente.
— Nem Peggy ou Billy — logo acresceu Mavelle. Daryl sentiu uma pontada de raiva ao vê-la defendendo tão rápido o caipira do Alabama, e se julgou estúpido por isso.
— Tucker fuma — soltou a enfermeira da comunidade, massageando a própria nuca. Parecia exausta. Daryl fitou Carol, já prevendo sua reação.
— Não foi ele — a amiga de Dixon defendeu prontamente o arquiteto, cada sílaba bem enunciada. Manteve a mesma expressão controlada, mas Daryl deduziu que Rosita entrava em terreno perigoso.
— Não disse que foi — redarguiu a enfermeira latina. — Talvez o cigarro tenha sido roubado dele. Ou alguém pode ter pedido — completou, retornando o olhar duro de Carol.
— Tem muitos fumantes em Alexandria — o arqueiro replicou, referindo-se até a si mesmo. — Ninguém pegou nada do meu maço — assim que disse a frase, Mavie afirmou que do dela também não.
— Alfred, Joseph, Dwayne e Sally jamais se manifestaram contra Rick. Nem a favor, é verdade — considerou Padre Gabriel, que conhecia os quatro. Volta e meia frequentavam sua igreja, segundo o que dizia.
— Só nos restam os moradores de Hilltop — disse Rick, austero. — E Moritz. Ele tinha algumas desavenças comigo... — Daryl reparou em um olhar de desgosto da parte de Glenn.
— Mas não conhecemos esse pessoal de Hilltop. Por isso, é melhor termos cautela em excesso do que baixar a guarda e deixar algo ainda pior acontecer. Não acho que Jesus tenha qualquer intenção de nos trair, ele não teria nada a ganhar com isso. Afinal, teve a chance inúmeras vezes antes. Mas não posso dizer o mesmo dos três que resgatamos. Não sabemos o que Negan fez com a cabeça deles. E sabemos bem o que gente da laia dele consegue — disse o policial.
Daryl compreendeu que Rick se referia à lavagem cerebral efetuada por Hashimoto.
Depois de alguns segundos de silêncio, o líder decidiu.
— Eu e Michonne iremos investigar. Vocês, por favor, tomem cuidado. Podem nos trazer qualquer nova informação que julgarem útil. Mas vamos manter isso entre nós. Vamos dizer ao restante que ele morreu sem violência. O sujeito perdeu as duas pernas e estava em péssimas condições de saúde, vão acreditar. Deixar a comunidade em pânico seria a pior coisa que poderíamos fazer. Já nos basta a sombra dos Salvadores — recordou o policial, determinado.
— Como vão investigar sem que ninguém desconfie? — duvidou Rosita.
— Eu trabalhei com situações do tipo por toda a minha vida. Conseguiremos — garantiu o policial. Em seguida, fitou todos os presentes.
— Estamos combinados?
Sem outra escolha melhor à vista, tiveram de aceitar tais termos.
Logo todos foram deixando a capela. Perto da saída, Mavelle o aguardava.
O sol fraco de inverno iluminava o terreno parcialmente coberto pela neve. As piores nevascas daquela estação já tinham passado, aparentemente, mas volta e meia a temperatura caía em pontos extremos e as precipitações retornavam. Já estavam em meados de janeiro, e provavelmente as condições climáticas só melhorariam a partir do final de fevereiro.
Mavie tinha as mãos cobertas em luvas que deixavam as pontas dos dedos de fora. Usava um casaco de trilha impermeável de um tom verde claro. E, ainda assim, tiritava de frio, os dentes grandes batendo em seus lábios agora empalidecidos.
“Eu te amo, Daryl.”
Lembrou-se do que ela lhe dissera quando a resgatara da última enrascada. Estupefato, o caçador não soube como reagir no momento. E até então se mantinha inábil neste sentido.
— Vamos levantar essas meias* e fazer a faxina, Cupido? — a irlandesa disse em tom debochado, mencionando a tarefa de limpar as áreas próximas de Alexandria da presença de errantes.
— Em um minuto — Daryl Dixon puxou um cigarro de seu maço e o acendeu, e depois caminhou para os fundos da capela. Mavelle Berry soltou uma exclamação de surpresa.
— Anda, já estamos atrasados — cobrou a garota, apertando o passo para segui-lo. Dixon caminhava próximo aos muros da comunidade, estudando quintais de casas adjacentes.
Ele assim seguiu até encontrar a casa que julgou adequada. Impaciente, a Esquila logo se manifestou outra vez, ao passo que ele jogava a guimba de cigarro no chão e a apagava com a sola da bota.
— Dá pra me responder? — Mavie cobrou. Daryl voltou-se para a garota que o fitava irritada.
— Já estamos atrasados mesmo. — Dixon puxou-a para si sem hesitar. Um de seus firmes braços rodeou a cintura da irlandesa, o outro segurou sua nuca, trazendo-a para um beijo que a deixou resfolegante.
— Vamos entrar? — convidou, segurando uma das mãos dela. O rosto angelical de Mavie Berry já se dividia entre seu olhar sempre doce e juvenil e o sorriso lascivo que o deixava enlouquecido. A Esquila concordou e soltou uma risadinha lânguida.
Anjos não existiam, mas Mavelle sim. E Daryl se esforçaria ao máximo para retribuir o bem que ela lhe fazia, apenas por estar ali, viva, ao seu lado. Sentia-se em dívida depois daquelas palavras que não soube como retribuir. Pois ainda se mantinha surpreso com o fato de que, contra todas as possibilidades, sua Esquila queria mesmo estar consigo.
Para Daryl, saber que Mavie o amava era como receber um milagre particular.
****
[SEMANAS DEPOIS, EM MEADOS DE FEVEREIRO]
Abaixou os vidros do carro, permitindo que o vento frio entrasse no veículo. Sentiu-o perpassar suas orelhas desnudas pelos longos cabelos presos em suas maria-chiquinhas.
Modificou a marcha do carro. Com o movimento simples, sentiu que a tontura esquisita que a acometia com certa frequência piorou.
Rebecca Gable se concentrou no barulho do motor daquela caminhonete antiga, modificada por Tucker, Eugene e Redmond para servir como o automóvel oficial que fazia as vezes de limpador de neve.
— Sabe, seria até fofo cumprir essa tarefa se não fossem eles. — Tara Chambler apontou com o queixo para um morto-vivo que se aproximava de sua janela aberta. Ela ergueu e pressionou a lâmina de uma lança contra o crânio do rastejante. A arma, uma obra de Delilah e Gaspar. Habilidade que haviam conseguido em Hilltop, ou durante o tempo em que foram escravizados por Negan.
— Fofo? — Becky duvidou, fazendo uma curva com o veículo para limpar a neve acumulada em uma rua fora da comunidade, perto dos portões de Alexandria. A náusea piorou.
Engatou o automóvel para a frente, fazendo a companheira de trabalho ser impulsionada contra o cinto de segurança e depois contra o banco ao seu lado.
— Calma! Cuidado, senão a gente derrapa — alertou Tara, a fitando surpresa pelo movimento brusco. — E sim, fofo. Aqui é muito limpo. A neve é tão branca, já reparou? Perto de Atlanta não costumava nevar muito, mas nas cidades mais ao norte que eu já visitei nunca era assim... Meio mágico — comentou, sonhadora. Rebecca mirou a jovem mulher ao seu lado.
Tara perdera sua namorada há poucos dias. Era uma das moradoras de Alexandria mais simpáticas que a jovem loira conhecera, especialmente dentro do grupo de Rick Grimes, repleto de pessoas mais fechadas e até mesmo arrogantes. E mesmo assim ali estava, trabalhando, se esforçando, tentando sorrir. Rebecca não tinha a menor dúvida de que não conseguiria fazer o mesmo, se perdesse seu Billy Ray.
— É uma graça mesmo — Gable concordou. Deu a Chambler um sorriso gentil. — Dava até pra imaginar um comercial de Natal... — Rebecca disse, e foi a vez de Tara sorrir. Sem querer, recordou-se dos feriados de final de ano passados junto aos seus pais. Sem graça, sem cor, sem enfeites, sem histórias.
Uma das diversas medidas que sua mãe tomara para evitar que Rebecca vivesse longe da realidade o máximo possível. Depois de descobrir que a filha tinha esquizofrenia, Ruby Gable dedicara seus esforços para impedir qualquer tipo de estímulo a fantasia.
— Você está bem? — a jovem morena perguntou, trazendo Rebecca de volta ao tempo presente. Becky sacudiu a cabeça rápido, assentindo.
— E você? Sabe, se quiser conversar... — Rebecca manobrava o veículo para retornar ao pequeno município improvisado em que moravam.
— Ah, vou ficar. É o que acontece hoje em dia, não é? Temos de saber lidar — Chambler afirmou, melancólica.
— Será que só hoje em dia? — Becky indagou, reflexiva. — A morte fez parte da vida desde sempre... — acresceu, ao passo que a pequena caminhonete limpadora de neve pareceu atolar em algo. Ouviram um som grotesco de carne sendo amassada.
— O que tem de novo talvez sejam só essas cenas pós-créditos — ironizou a jovem loira, munindo-se de seu taco e abrindo a porta ao lado do motorista. Tara, com a lança em punhos, a acompanhou.
Ambas se depararam com uma cena deprimente.
A grossa prancha côncava, a placa escavadora montada pelos arquiteto, cientista e engenheiro da comunidade, no momento estava parcialmente repleta de neve, mas suas extremidades mais baixas foram travadas por um obstáculo no caminho.
Metade do que parecia ser o cadáver de uma criança, um menino, fora atravessado por parte do limpador. Sem tripas visíveis, a pele pútrida congelada, os olhos ora fitando o rosto de Rebecca, ora o de Tara. Erguia seus braços parcialmente devorados para elas.
Rebecca girou nos calcanhares, curvou a coluna e vomitou. Regurgitou tanto que mal conseguiu escutar o som da lança de Tara perfurando a cabeça do garoto desafortunado.
— Caramba, você precisa parar e descansar um pouco! — Chambler logo veio em seu auxílio, aconselhando-a.
— Não posso. Temos trabalho — desconsiderou a proposta da jovem morena.
— Repouse. Eu te levo de volta — Tara falou, enquanto Becky deu um último triste olhar à neve maculada pelos seus fluidos repulsivos.
Um pouco culpada, Rebecca aceitou a ajuda e decidiu que tiraria certas dúvidas de uma vez por todas, assim que ambas cruzaram os portões da comunidade.
Você não vai conseguir fazer isso... Escutou uma voz maldosa feminina lhe dizer enquanto ia sozinha para a garagem-despensa de Alexandria.
Rebecca tapou seus ouvidos por instinto, fechando os olhos por alguns segundos. Precisava de mais uma dose de seu remédio se quisesse calá-la.
Você não vai conseguir. Nunca. A voz riu dentro de sua cabeça.
— Cale a boca — sussurrou entre dentes para si mesma.
Depois de alguns minutos alcançou a entrada da despensa. Bateu, e a porta automática foi levantada por Heath.
— Oi! Desculpinha por te atrapalhar. — Rebecca se esforçou para dar um de seus sorrisos largos.
— Estava fazendo palavras cruzadas. Na verdade você só atrapalhou meu tédio — admitiu o jovem de dreads, bondoso. — O que vai querer? — ele indagou, já se munindo do caderno que usavam para controlar o inventário.
— Ah, problemas femininos. Estou de lua — Becky deu um sorriso amarelo. — E eu tenho o fluxo muuuito intenso... — Arregalou os olhos para o rapaz, que recuou um pouco.
— Acho que é melhor deixar você escolher o que temos ali. — Heath apontou constrangido para a seção farmacêutica das estantes.
— Obrigadinha! — Becky agradeceu com outro sorriso largo e quase correu na direção indicada.
É lógico que aquilo era mentira. Munida do item que realmente procurava, ela saudou Heath em despedida e quase correu para casa.
Subiu até o banheiro que costumava usar e abriu a caixa. Olhou para aquele objeto e a mesma voz feminina hostil repetiu em sua mente:
Você é patética. Vai morrer antes de conseguir lidar com isso.
Becky ligou a torneira o máximo que conseguia. Fechou as pálpebras e aproximou os ouvidos da água corrente. O ruído intenso calou os xingamentos insistentes que ouvia dentro de sua própria cabeça.
Tremelicando de ansiedade, seguiu os procedimentos. Assim que transcorrido o período de tempo necessário, a jovem loira segurou aquele objeto que parecia uma mistura de canudo e termômetro em suas mãos. Fitou o mostrador, e sentiu a tontura aumentar.
Duas linhas rosas.
Rebecca se jogou em direção ao vaso sanitário. O enjôo a atacou com tudo outra vez, calando seu tormento mental por segundos de vômito ininterrupto.
Caída ao chão do banheiro, ela mal teve forças para procurar a gaveta perto da pia e se munir de uma dose cavalar de clozapina. As lágrimas pelo terror que a descoberta lhe proporcionou e pelo esforço físico de regurgitar incessantemente já desciam por seu rosto, manchando as bochechas de rímel. Parecia uma palhaça com a maquiagem borrada.
Ficou algum tempo ali, sentada nos frios azulejos e abraçando as próprias pernas, apenas deixando as lágrimas caírem. Esperou o efeito do antipsicótico funcionar.
Assim que se julgou segura para tanto, limpou o rosto e saiu de casa. Rumou em direção a residência que um dia fora da primeira mandatária de Alexandria, sabendo que não poderia esperar mais. Precisava de ajuda. Não tinha ideia do que faria.
Rebecca entrou sem cerimônia, caminhando largamente até a sala de reuniões do conselho de Alexandria. Lá, Maggie, de pé perto da mesa em que se sentavam, mostrava uma planta arquitetônica desenhada por Tucker e um projeto de Redmond a Paul Rovia e Moritz Alvintzi. Carol se sentava de costas para ela, tomando uma xícara de café.
— Desculpa. Posso falar com ele um minuto? — Apontou para Moritz, que, tão surpreso quanto os outros, a olhou sem compreender a interrupção.
— Tudo bem — confirmou Maggie Greene, e Rebecca não aguardou mais. Afastou-se da porta e esperou que seu antigo chefe saísse da sala.
— O que houve, Rebecca? — interpelou-a assim que deixou a reunião. Becky puxou-o pelo pulso para uma outra sala perto e fechou a porta.
— Eu preciso de ajuda! Estou desesperada — confessou, em um murmúrio quase histérico. Moritz se aproximou dela.
— Fale. Estou aqui. — O circense usou seu melhor tom paternal, segurando seus dois braços. O ex-palhaço era um sujeito cheio de lábia, ela sabia, mas também era seu amigo.
— Estou grávida — Rebecca contou com lágrimas vertendo de seus olhos esgazeados. A breve nota misericordiosa que anteveu nas íris castanhas de Moritz lhe dizia tudo. Confirmava o que ela pensava, em seu íntimo.
Ela era louca. Uma maluca que tomava remédios tarja preta para conseguir viver dentro da realidade. E agora estragara o breve relance de felicidade que tinha com Billy Ray. Como contaria a ele que seria pai?
Se mal podia se garantir cuidando de si mesma, como Rebecca poderia sequer ter a audácia de tentar ser mãe?
****
[PERTO DO ANOITECER]
Esfregou as mãos umas nas outras, depois de retirar as luvas sujas de fuligem. O dia de trabalho estava perto de terminar, mas ainda havia tarefas a serem feitas.
Estivera muito ocupado durante o curso dos últimos dias. Os rastejantes eram a preocupação menor com aquele clima. O maior perigo era ficar sem aquecimento, comida, ou até mesmo tetos para se proteger das nevascas. Para isso, todo o grupo responsável pelos trabalhos ligados à infraestrutura da comunidade teve de trabalhar incansavelmente, prevenindo erros que pudessem afetar a segurança de Alexandria perante o inverno rigoroso.
Tucker Hayes acordava e ia dormir tendo de pensar no que poderia ser feito para manter aquela pequena cidade resistente ao caos dos mortos-vivos e as intempéries do inverno. Mas tivera muita ajuda. Rebecca, Billy Ray e Morgan o auxiliavam sempre que podiam nas construções e manutenção da comunidade. Eugene e Redmond forneciam-lhe conselhos e sugestões sábias, até mesmo mirabolantes, para lidar com as adversidades.
Muitos outros moradores também se envolviam com o trabalho, conciliando seus turnos com essas tarefas que deveriam ser o foco naquele momento. Tara, Heath, Glenn, Gaspar, Paul, Peggy. E sua nova amiga, Delilah, que agora lhe acompanhava na breve missão do momento. Achar um carrinho de mão novo, já que todos os disponíveis estavam em uso.
— Aqui embaixo tem um! — Tucker ouviu a voz feminina de timbre grave soar da porta aberta, que levava ao porão. Enquanto isso, com uma lanterna acesa em mãos, o rapaz vasculhava a sala de uma pequena casa. Em outra época, serviu de loja de materiais de construção, e ficava a menos de um quilômetro de distância da comunidade.
— Que bom, porque não tem porra nenhuma aqui! — disse o arquiteto, rumando para o porão do estabelecimento. Assim que desceu e a encontrou, ela apontou para o carrinho, preso por alguns itens acumulados contra um canto da parede.
— Boa! E um grandão, ainda por cima. — Fez um sinal de positivo com um dos polegares. Delilah sorriu, parecendo satisfeita pelo reconhecimento.
Os dois passaram a remover os materiais e móveis quebrados empilhados na frente do carrinho. Quando removeram metade, pararam de súbito. Ouviram um som oco de batidas dentro das portas de um armário fechado, perto do carrinho de mão.
— Pode abrir que eu pego ele — Hayes garantiu, mencionando o possível rastejante que estaria ali trancado.
Lilah assentiu, puxando uma das portas assim que Tucker tirou uma faca comprida do bolso. Não abriu.
— Acho que está emperrado — a garota considerou, ao passo que continuou tentando arrepelar a porta.
— Deixa assim. Menos trabalho sujo! — Hayes deu um sorriso debochado e ela o retribuiu com um sorriso ameno, desistindo de abrir. — Empurra ele pra mim, eu puxo daqui — deu as diretrizes para que pudessem levar o carrinho de mão.
Delilah ficou de costas para o armário, e as batidas dentro dele aumentaram de intensidade. Escutaram um rosnado irritadiço.
Meio segundo depois, quando Feld já havia lhe passado o carrinho, Hayes só teve tempo de bradar:
— CUIDADO!
O armário bamboleou, e uma das portas travadas se abriu. Um morto-vivo magricela, parecendo um esqueleto, se lançou para cima de Delilah com voracidade. A garota gritou, tropeçando ao tentar desviar do rastejante.
No segundo seguinte, a garota de cabelos castanhos se esforçava para evitar que a bocarra do cadáver ambulante se prensasse contra seu pescoço, ambos caídos ao chão.
Em um salto preciso, Tucker prensou sua faca no crânio do morto-vivo, o perfurando do vértex até a nuca. A sobrinha de Redmond jogou o cadáver para o lado antes que o pouco sangue presente no corpo morto pingasse em si mesma.
— Obrigada. — Ela se levantou com ajuda do rapaz, que lhe deu uma das mãos. — Seria a forma mais idiota de morrer — disse, e deu uma risada nervosa.
— Seria mesmo — Tucker se viu obrigado a concordar, e Delilah riu mais, abaixando os olhos.
Hayes levou sozinho o carrinho de mão escadas acima, mesmo com Feld se oferecendo para ajudá-lo. Quando estavam saindo da loja de utensílios para construtores, Delilah, porém, fez um pigarro. Tucker olhou para trás e viu que ela tinha um sorriso travesso no rosto e lhe mostrava algo em um saquinho ziploc.
— Não tinha só um apodrecido escondido no porão — a jovem brincou, mostrando para o arquiteto um baseado comprido.
— Boa! — Tucker aprovou novamente, abrindo um sorriso animado. — Mas ainda não terminamos o serviço. Vai ter que esperar, ou pode ficar só pra você mesmo — ele disse, generoso.
— ‘Tá brincando? — Delilah riu. — Se eu fumasse isso daqui sozinha ia ter que fugir de encontrar meu tio por um dia! Não ia ter pó de obra que justificasse meus olhos vermelhos por horas — debochou, fazendo Hayes rir e se sentir tentado.
— Cara... Mas eles precisam que a gente volte.
— Não vamos demorar muito, cara. Eles aproveitam para tirar uma pausa, que, você sabe, já estão tirando. — Lilah abriu outro sorriso, mais sincero.
Ela tinha razão. Estavam todos fatigados.
— E a gente descansa também! Somos humanos, não é? Ao menos por enquanto — ironizou, olhando para trás, se referindo ao morto-vivo recém assassinado.
— Se alguém reclamar vou botar a culpa em você — brincou Hayes, rendido.
— Como todo chefe faz! — Feld troçou em retorno, arrancando mais uma breve risada do arquiteto.
Os dois caminharam até um carro abandonado, um Hyundai Sonata danificado que os alexandrinos não conseguiram recuperar. Abriram as portas outrora arrombadas e se sentaram nos bancos frontais. Hayes abriu brevemente os vidros, se sentindo divertido e tolo ao mesmo tempo: como uma criança que come um doce escondido antes do jantar.
Tucker buscou seu próprio isqueiro e acendeu o cigarro de maconha. Tragou fundo e soltou uma risada deleitosa:
— Puta que pariu, senti falta disso — confessou, ainda rindo. Delilah se uniu ao seu bom humor, tragando também assim que ele lhe passou o baseado. Tossiu.
— Vai com calma, esse troço tá velho mas tá forte! — preveniu-a Tucker, rindo, enquanto ela levava uma das mãos em punho na frente da boca.
— Percebi — a garota falou com voz rouca. — Meu tio ia querer me matar se nos visse — afirmou Lilah, soltando um sorriso torto.
— Ele gruda mesmo na sua cola, não é? — comentou Hayes, outra vez puxando o fumo. Sentia os agentes psicotrópicos da maconha relaxando seus músculos e sua mente.
— Demais — admitiu ela. — Mas ele tem um problema sério com drogas. É por causa do meu primeiro namorado. Músico de uma bandinha de garagem que fumava maconha o dia todo. Um adolescente iludido típico. Tio Red detestava o coitado — riu Delilah.
— Posso imaginar — zombou Hayes. Ele dificilmente desgostava das pessoas, mas Redmond era um sujeito difícil, arrogante. Tucker não estimava pessoas de trato soberbo.
— Se eu te falar uma coisa, você não vai acreditar! — Feld olhou para Hayes com certo brilho divertido no olhar, provavelmente intensificado pelo efeito da droga.
— O quê?
— Conhece a música “Hey there Delilah”? — indagou. Tucker franziu o cenho, tentando lembrar.
— Por esse nome... — Nada lhe atinava a memória.
— “Hey there Delilah, what’s it like in New York City... I'm a thousand miles away. But girl tonight you look so pretty. Yes you do...” — ela cantarolou rápido com uma vozinha desafinada.
— Ahhh, sim! Essa merda tocava no rádio todo dia em 2009, a Cathy amava, eu achava um saco — confessou Tucker. Lilah sorriu entre a diversão e o constrangimento.
— Essa música foi composta pra mim. O Tom era meu namorado há quase um ano, ele tinha dezesseis e eu catorze. Namoro idiota de criança, sabe? — Tucker não sabia. O único namoro que tivera tinha sido muito sério, praticamente um casamento. E depois... O relacionamento que tinha com Carol poderia ser muitas coisas, mas nenhuma delas se enquadrava na definição “idiota”.
— Sei — mentiu.
— Ele compôs essa música quando eu já estava de mudança para New York. Achei lindo na época. A banda nem fazia sucesso ainda, a música só foi despontar quando ele já pegava todas as groupies e eu ainda chorava me sentindo a esquisita dos subúrbios na cidade grande, sem amigos, muito menos namorado — comentou Delilah, e suspirou. — A vida é uma série de ironias, uma atrás da outra. Tipo quase morrer por causa de um morto-vivo preso na merda de um armário — debochou ela.
— Acho que sim — o rapaz teve de concordar, fumando outra vez. — Mas ainda bem que você terminou, essa banda é uma merda — Tucker foi sincero. — Com todo o respeito — acrescentou.
Lilah soltou uma longa gargalhada honesta. Hayes não pôde evitar mais alguns risos. Deixou seu olhar entorpecido pela droga vagar pela paisagem ao redor. Sem morto-vivo algum por perto ou pessoas vivas.
— Cathy era a sua namorada? Ela desenhava bem como você? — Lilah perguntou com delicadeza, em um tom elogioso. Tucker anuiu com o rosto, em silêncio, lhe passando o baseado. Ela tragou.
— Era. E ela era mais talentosa do que eu — confidenciou-lhe.
— Sinto muito. Você deve sentir saudades... — Delilah deu um sorriso triste, repleto de empatia.
— É... Assim, eu sempre me lembro dela. Mas... Sei lá, é diferente — Tucker não sabia como dizer o que sentia em relação a Cathy. A perda dela e de sua irmã, único pilar de afeto que antes lhe restava no mundo, chegou a fazê-lo desistir de viver, por um tempo. Mas agora ele tinha novos laços...
Pensou no rosto de Carol por todo o tempo em que tentou formular sua resposta. Estivera com ela na noite anterior, e ainda assim sentiu sua falta, naquele momento.
— É engraçado pensar nas nossas vidas naquela época, não é? É algo tão... Distante. Tudo começou no meu primeiro semestre de faculdade. Eu ainda tinha dezessete anos. Era um dia qualquer quanto meu tio veio me buscar. Tinham os rumores da doença, os medos de contágio e tal, mas as aulas ainda nem tinham sido suspensas... Eu só sobrevivi porque Red era superprotetor e meio bitolado mesmo — confessou, com um sorriso entristecido. — Eu lembro que estava andando de skate no intervalo das aulas quando ele me achou... — Delilah balançou o rosto, perdida em recordações.
Tucker engasgou enquanto tragava.
— Você andava de skate? ‘Tá de sacanagem — duvidou Hayes, deixando despontar um sorriso em seu semblante.
— Por quê? — Delilah sorriu também, sem compreender.
— Bem... Como eu posso dizer? É que... Você é muito legal, não me entenda mal, mas não é das pessoas mais, digamos assim, com coordenação motora que eu conheço... — Tucker se atrapalhou para falar, mas a sobrinha de Red não pareceu se ofender. Riu, em contrapartida.
— Todo mundo acha isso. Não sei, deve ser um dos mistérios da natureza — brincou ela. — Se mortos podem andar sobre a terra, por que eu não posso mandar bem no skate? — A piada fez Tucker rir.
— Desculpa, mas só acredito vendo — ironizou, e Delilah lhe mostrou a língua em uma careta infantil. O baseado já estava acabando quando ele o passou à garota.
— Pena que não vai dar tempo. Eu faria questão de te deixar de queixo caído — Lilah disse com um sorriso convencido, depois de soltar uma bafejada de fumaça.
— Como assim? — Tucker deu a tragada final, terminando o cigarro de maconha.
— Achei que a Peggy já tinha te contado... — Delilah desviou o olhar para fora da janela. O arquiteto franziu as sobrancelhas, aguardando que ela continuasse.
— Vamos para Hilltop em poucos dias. Assim que a neve parar em definitivo — falou a amiga de Tucker, o deixando boquiaberto.
— Eu não fazia ideia! — disse, jogando o baseado apagado pela janela. — Por que ninguém me disse nada? — Ergueu as sobrancelhas. Era amigo das duas, não esperava aquela atitude.
Delilah baixou os olhos para as próprias mãos, fitando seus dedos que se entrelaçavam nervosamente.
— Hey. Sério, por que não me falaram? — insistiu o rapaz, começando a se chatear. Lilah ergueu os olhos para fitar os dele, devagar.
— Eu não sei responder pela Peggy. Mas, de minha parte... — Ela respirou fundo.
— ...Eu estava com medo — confessou, desviando o olhar de novo. Seu rosto corou.
— Hã? — Tucker indagou, ainda mais confuso. — Medo de q... — Hayes não compreendia nada, mas foi cortado. Delilah virou o rosto e o corpo em sua direção e o mirou com um olhar determinado. Corajoso, até.
— Medo de você não se importar que eu fosse. Eu queria tanto que você pedisse para que eu ficasse. Porque eu quero ficar aqui — confessou ela com um olhar que lhe evidenciava o que ele não havia percebido.
Sentiu-se um tremendo idiota.
Lilah se aproximou dele e Hayes mal teve tempo de pestanejar. Antes que Tucker pudesse formular uma resposta a garota já tinha o rosto a centímetros do dele.
— Eu gosto muito de você — Delilah disse, e em uma fração de segundos uniu os lábios dela aos dele. Tucker ainda tinha a boca entreaberta.
Hayes não reagiu por um segundo. Aquilo era muito para sua mente entorpecida pela maconha processar. Aquela garota simpática acabara de beijá-lo. Aquela garota bonita e muito gostosa acabara de beijá-lo. E estava bastante a fim dele, pelo visto.
Nesse mesmo segundo, lembrou do rosto de Carol. Qualquer possível tentação que lhe pudesse sugerir para que aceitasse aquela investida, porque estavam sozinhos, porque ninguém os testemunharia, porque Delilah era realmente gostosa... Todas foram derrotada no mesmo instante.
Após o decurso de um segundo, Tucker levantou as mãos e afastou Lilah com decisão. Gentil, mas resoluto.
— O quê? — a garota parecia surpresa. Sua expressão antes bravia murchou.
— Foi mal. Isso... — Hayes tinha dificuldade em unir as palavras. — Isso não vai rolar.
Feld esquivou seus olhos castanhos como seus cabelos, e ele sentiu um terrível misto de pena e constrangimento. Reparou que os olhos dela pareceram marejar por um momento. Delilah era mesmo incrível, atraente pelo corpo voluptuoso, rosto bonito e personalidade divertida.
Mas não era Carol.
— Desculpa — disse ele, sem jeito. Queria esconder a própria cabeça em um buraco.
— Não precisa se desculpar. — Lilah abriu a porta do carro, andando rapidamente.
— Hey! — o rapaz a chamou. Ela se voltou para ele com um triste olhar esperançoso.
— Hã... Não é seguro sair andando sozinha assim — Tucker falou, sem muito tato. Realmente não sabia que conduta deveria tomar.
O pouco tempo que se passou durante a volta dos dois para a comunidade se deu na maior parte em um silêncio sem graça, cortado aqui e ali por comentários técnicos vindos de um dos dois. Tucker queria bater o próprio rosto contra alguma superfície dura por jamais ter pensado que a garota poderia estar interessada nele.
Delilah acabou perguntando, com a voz notavelmente tristonha, se poderia ir direto para casa. Tucker de imediato falou que não havia problema algum. Ainda xingando a si mesmo em pensamento, voltou para a obra da torre, e trabalhou o tempo que restava.
Naquela noite, foi a casa de Carol. Ela estava na cozinha, preparando sopa e outras refeições quentes para os trabalhadores noturnos.
Todo o constrangimento passado durante o anoitecer foi compensado pela visão dela. Sem se sentir culpado, sabendo que agira corretamente.
Ela não tinha notado sua presença ainda. Salgava algo na panela que mexia, mas Hayes já a conhecia o suficiente para saber que os pensamentos de Peletier, provavelmente, iam para muito longe da comida. Deveria estar preocupada com os últimos acontecimentos da comunidade, como o estranho incêndio ainda sem solução.
Tucker deixou seus olhos estudarem a silhueta dela por uma vez incontável, vendo as roupas que se alinhavam bem com seu corpo mignon, firme e atraente. Deixou seu olhar subir para seu rosto, vendo seus orbes de um azul celestial e seus lindos traços faciais, quase sem marcas de idade.
Ele se sentia atraído pela beleza bem conservada de Carol, era verdade, mas se atraía também por cada um de seus sinais de maturidade. Também eram parte dela.
— Knock, knock** — brincou Hayes com uma voz sugestiva, andando devagar até ela.
— Ainda estou um pouco ocupada — avisou, prevendo a empolgação do rapaz.
— Posso ajudar!
Ela apenas meneou o rosto. — Você é incapaz de fritar um ovo — retrucou Carol, com um sorriso enviesado. Hayes apoiou uma das mãos no balcão, sorrindo para ela.
— Deixe eles passarem fome um pouquinho — Tucker falou, movendo o botão para desligar o fogo abaixo da panela.
— Você está muito abusa... — a mulher ia lhe repreender, mas Hayes já se pôs a enlaça-la pela cintura. Beijou-a com tamanha energia que após afastar seus lábios dos dela, Carol apenas deu um sorriso curto e ergueu as sobrancelhas, demorando a abrir os olhos.
— Você está é chapado — acusou-o, e Tucker soltou uma exclamação entre a diversão e a irritação. Não era possível. Ela sempre percebia tudo.
— Sim, mas isso não vem ao caso — confessou o rapaz, passando os dedos pelo rosto dela. Já queria beijá-la de novo.
— Que caso? — ela indagou com ar de troça, seus olhos, porém, denunciando que também se aprazia com o afago.
— De que eu estou total e irreversivelmente apaixonado por você — assegurou o rapaz, enfático, seus olhos reverentes mergulhados nos dela. Carol não conseguiu lidar com sua declaração. Teve de esquivar o olhar, e Tucker reparou que ela ruborizou um pouco. Ele deu uma risada sem som pela meiguice da mulher.
— O que eu faço com você, garoto? — ela perguntou, respirando fundo, finalmente retornando a fita-lo. Hayes a beijou novamente, e depois falou:
— Já falei para não me perguntar esse tipo de coisa. Você sabe que não me falta criatividade — brincou, travesso, finalmente a fazendo rir.
— Deixe-me terminar meu trabalho, então. — Carol se pôs a preparar as marmitas rápido e o deu um beijo de despedida.
— Estou esperando — ressaltou, e a mulher lhe deu um último olhar significativo. Hayes percebeu o quanto ela ficara mexida com suas palavras.
Mesmo depois de tudo o que já experimentara com ela, Tucker não perdia o interesse em vê-la, aproveitando todos os dias em que podiam estar juntos. Todas as vezes em que a fitava, mesmo que a um mero vislumbre, se sentia atraído e seduzido.
Essa era uma das grandes diferenças entre Carol e Lilah. Delilah era uma garota linda, mas Carol era uma mulher maravilhosa. A mulher que estava ao seu lado.
A única que ele realmente desejava.
****
Uma lufada de vento moveu o vidro da janela próxima, assobiando com vigor pela força do sopro. Sentados à mesa de jantar daquela casa, seis pessoas terminavam a refeição.
— Acho que já seria seguro irmos para Hilltop em dois dias. As estradas estão livres, e há uma semana não enfrentamos nenhuma nevasca — asseverou Paul Rovia, bebendo um gole de suco de uva.
Gaspar Sandoval concordou, mastigando o assado. — No hay*** com o que se preocupar. Fora que Rick nos garantiu uma escolta, só para ter certeza de que chegaremos bem — lembrou. — Precisamos ajudar Gregory a manter aquele lugar de pé. Devem estar arrancando os cabelos sem a gente. — Trocou um olhar cúmplice com seu namorado.
— São quantos quilômetros daqui até a comunidade? — indagou Moritz, com um sorriso cortês. Peggy, ao seu lado, tinha no rosto uma expressão afável e satisfeita.
— Não chegam a trinta. Estamos bem próximos. Só precisamos de um bom carro — garantiu Jesus.
— Poderíamos aproveitar a cobertura dos que visitarão a fábrica de balas. Não fica no caminho? — sugeriu Peggy Taylor.
— É uma boa ideia — Paul pareceu se animar. — Deveríamos conversar com Rick a respeito.
A campainha da porta tocou. Delilah Feld olhou para seu tio.
Naquela noite, ambos se mantiveram em silêncio por quase toda a refeição, e, sabia Redmond, por motivos diferentes. Sua sobrinha não parecia muito contente, talvez pela ideia de deixar seus novos "amigos".
Ele tinha razões mais relevantes para se manter em silêncio. Precisava manter seus planos, que até então correram perfeitamente, esmerados sem qualquer erro ou imprevisto.
— Lilah, querida, pode abrir? — Lewis pediu com delicadeza. A garota empurrou a cadeira para trás e recebeu o visitante.
Abriu a porta de forma que todos pudessem enxergar Rick Grimes, o líder da comunidade, parado na soleira.
— Rick! — Redmond falou, com cortesia forjada, levantando-se e limpando as mãos. — Quer jantar conosco? O frango está delicioso. — Indicou com as mãos a mesa e os convivas. Todos saudaram Grimes, alguns com mais simpatia, outros menos efusivos.
— Na verdade, eu queria dar uma palavrinha com você — o policial falou, sucinto.
Redmond olhou para os convidados com uma sombra falsa de sorriso no rosto. Depois fitou Grimes.
— Bem, estamos terminando o jantar...
— Posso voltar depois — disse o policial, também direto.
— Rick, o que houve? — interpelou Rovia, franzindo o cenho.
— Nada em particular. Apenas questões de rotina — desconversou.
— A esta hora da noite? — duvidou Gaspar, e Red aferiu Paul censurar o namorado com o olhar.
— Sim. Não tive tempo durante o dia — esclareceu o policial e apontou para Alvintzi. — Moritz está de prova, foram muitas reuniões.
— Ah, se estou. Espero que em Hilltop tenhamos algum tempo para descansar — comentou em um tom desinibido o membro do conselho da comunidade.
— Se preferir podemos conversar amanhã... — sugeriu Redmond como se de fato se importasse com o conforto do governante.
— Podemos resolver hoje. Será breve — assegurou o policial, e se despediu.
Depois que saiu, Gaspar logo falou.
— Eu não gosto muito desse cabrón**** — disse. Rovia soltou um “tsc” e meneou o rosto.
— Rick é reservado. Não o culpo. Se soubessem de tudo o que ele passou... — acrescentou Alvintzi, e Sandoval o cortou.
— Todos nós passamos por muito — concluiu. Redmond deu mais um olhar para a sobrinha, que mal tocara na comida.
— Gente, se vocês me derem licença, estou muito cansada. Acho que já vou subir — Delilah disse com um sorriso de desculpas, no que todos anuíram.
— Boa noite. Depois confirmamos os detalhes da viagem. — Moveu uma das mãos em um tchauzinho para os convivas. — Boa noite, tio. — Deu um beijo na bochecha de Redmond e saiu da sala.
Ela logo vai se acostumar. Lewis convenceu a si mesmo, se eximindo de qualquer culpa. Sabia que fazia isso pelo bem de ambos.
Não demorou muito e o jantar terminou. Moritz e Peggy — casal que Red de forma alguma aprovava — se despediram, e Paul foi lavar a louça junto com Gaspar. Redmond agradeceu pela ajuda — tinha cozinhado — e seguiu até a sala, para esperar Rick. Os namorados subiram para o quarto, ao passo que Lewis continuou aguardando.
Quando o tio de Delilah já julgara que Rick havia desistido, ouviu breves batidas na porta.
Abriu-a, e mais uma vez a silhueta do policial se revelava na penumbra.
— Bem-vindo de novo, Rick — saudou-o em ensaiada polidez. O mandatário sequer lhe deu boa noite, apenas caminhou para a sala. Red sugeriu que ele se sentasse, e fez o mesmo.
— Em que posso lhe ser útil? — Redmond Lewis indagou no mesmo tom educado.
— Soube que vão para Hilltop — Rick Grimes comentou.
— Assim que a neve permitir, sim — confirmou Redmond.
— Certo... — O policial coçou a barba por fazer. — ...Você se lembra do caso do incêndio? — Rick questionou outra vez sem desvios.
— Como esquecer — respondeu Redmond, evasivo, fingindo exaspero.
— Exato. — Os olhos claros do líder faiscaram. — Eu sei que foi você — Rick Grimes o acusou diretamente.
Redmond arregalou seus olhos já naturalmente esbugalhados. Soltou uma risada atônita.
— O quê...? — Red já tinha todo o seu teatro preparado, mas o líder ainda não tinha acabado.
— Eu sei que você matou Bob. Talvez por vingança por você ou por sua sobrinha, ou até mesmo pelos dois. Sei o que gente como Negan faz. O que gente como ele faz com a cabeça dos outros — mencionava claramente o tio de Lilah.
— Eu sei que não confia na minha capacidade. Eu sei tudo o que você planejou, porque eu já cruzei com homens e mulheres mais inteligentes, mais astutos e piores do que você — Rick Grimes disparava cada palavra como tiros na direção do engenheiro.
— Bem, já eu sequer sabia que Bob foi assassinado... Você não disse a todos que ele tinha morrido porque adoeceu? — mentiu Redmond, seu rosto impassível em sua frieza costumeira.
Rick apenas o fitou silente. Red sustentou o olhar. Depois o baixou até a mesa, permitindo-se uma risada cética.
— Se, por um acaso, eu fosse o tal sujeito que me acusa de ser... Eu acho que você deveria ter cuidado ao fazer todas essas afirmações. Porque se, nessa remota hipótese, eu fosse capaz de matar um prisioneiro vigiado, causar um incêndio criminoso, e ainda sair impune por isso... — Red ergueu o olhar devagar, descarado. Sabia que soava amedrontador.
— ...Significa que você talvez não saiba medir bem quem são os tais homens inteligentes, astutos e piores que conheceu — Redmond Lewis terminou a ameaça discreta e irredutível.
Reparou que o lábio inferior de Grimes tremeu. Provavelmente por raiva. O policial moveu o rosto na direção de uma das paredes e depois baixou as mãos à mesa em outra postura desafiadora.
— Você tem três dias para sair daqui com a sua sobrinha.
— Não levarei tudo isso. Demoraremos no máximo dois — retrucou.
— Eu espero que não tenhamos que cruzar nossos caminhos novamente. Pelo bem dela. Acho que ela sentiria sua falta. É uma boa garota, diferente do tio — Rick Grimes reconheceu, fuzilando Red com o olhar.
— Eu a criei bem — concordou Redmond, sorrindo com sarcasmo.
Rick empurrou a cadeira para trás, se levantando. Antes de sair, voltou-se uma última vez para o guardião de Delilah.
— Você deveria saber que, se não morrer por minha causa, morrerá nas mãos de Negan, ou outro similar a ele — garantiu, mirando o tio de Lilah com o mesmo olhar de profundo desagrado.
— Serei cauteloso, obrigado — o homem se manteve debochando.
— Gente como você, sem lealdade alguma, não faz falta para ninguém. É descartável — assegurou Rick, abrindo a porta e saindo ao breu da noite. A porta fechou por uma rajada de vento.
Redmond refletiu por um tempo, e depois dirigiu-se aos seus aposentos.
Conseguira o que precisava. O incêndio em Alexandria poderia fazer com que mais moradores decidissem deixar a comunidade e rumar para Hilltop, em busca de segurança. Traria dúvidas sobre a qualidade da liderança de Rick, outro motivo para que debandassem.
E ele sairia sem provas da autoria de seu crime, bem quisto pela maioria dos habitantes de Alexandria.
Red já estava prestes a abrir a porta de seu quarto para dormir quando escutou um som abafado vindo dos aposentos de Delilah. Bateu em sua porta.
— Lilah, está tudo bem?
— Está! — ela respondeu rápido demais.
Redmond meneou o rosto.
— Eu vou entrar, ok? — avisou, e enquanto Lilah tentava negar sua entrada, ele já abrira a porta.
A garota estava deitada debaixo das cobertas, seu rosto vermelho de tanto chorar. As lágrimas cobriam seu semblante dócil, juvenil, tão igual aos traços que tinha desde criança.
Redmond viu a menina que criara ali, no corpo e no rosto daquela jovem mulher. Como sempre assim a enxergara, e jamais deixaria de fazê-lo.
— O que houve, meu anjinho? — O tom de voz geralmente distante e frio de Redmond se abrandou instantaneamente. O homem que fizera a ameaça gélida e descarada ao líder de Alexandria agora sentia seu coração se partir ao fitar a sobrinha, a pessoa que mais amava no mundo, a única pessoa que ainda amava, sofrendo assim.
Sentou em sua cama, ao lado dela. A garota que, aos seus olhos, parecia uma menina, ergueu seu corpo de forma a se sentar no colchão e o abraçou, escondendo o rosto em seu peito.
— Você tinha razão, tio. Você sempre tem razão — Delilah soltou um soluço em meio ao choro, ao passo que Redmond a amparava com os braços, acariciando suas costas.
— Vai ficar melhor em Hilltop, ok? Eu prometo — assegurou, e não mentia. Faria tudo o que fosse possível para deixá-la bem.
Redmond não temia nada nem ninguém. Tudo porque cada decisão que tomava era movida apenas por uma razão. O único motivo que o fazia continuar naquela existência medíocre de tanta dor e sofrimento estava ali, chorando em seus braços.
E ele sempre faria tudo o que fosse preciso para vê-la sorrir. Mesmo que tivesse que enfrentar Negan, Rick, ou o mundo inteiro para tanto.
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