Hunter's Instinct
71 Episódio 71 - Heart/Geist
Notas iniciais
Tamborilou seus dedos pela madeira da mesa. O mero som dos leves estalos produzidos foi o suficiente para distrair seu ágil pensamento. Como lhe vinha sendo costumeiro, nos dias recentes.
Levantou os olhos dos papéis cujo conteúdo não lhe interessava. Na janela ao lado da sala de reuniões, viu alguns ramos de árvores. Moviam-se pela ação de uma brisa leve, porém gelada, batendo contra o vidro fechado. Sentada ao seu lado, Maggie Greene comprimiu um espirro, mas ele mal lhe deu atenção.
Fazia muito frio. Seria uma questão de tempo até nevar.
Com seus olhos castanhos perdidos na visão dos galhos dançantes, estes por si só tocando a vidraça com sua fronde desfolhada, ele pensou no estranho simbolismo daquele eco da natureza.
Ele já era velho. Seu tempo passara. Era um representante de uma raça fadada a extinção, em um mundo que não mais comportava as ambições de outrora de sua espécie. Como aquela árvore, antes vicejante, era também uma casca do que já fora. Restava a esperança da adaptação, ou o conformismo do fim inevitável.
Não nutria fé em pretensões megalomaníacas ou em algum propósito deífico reservado aos homens e mulheres. Acreditava no ridículo da existência e na característica intrinsecamente trágica da vida. As pessoas nasciam, cresciam e morriam, dentro de suas limitações humanas. Antes dos mortos-vivos, e depois dos mortos-vivos, quando os últimos vestígios da humanidade não seriam nada mais do que poeira e terra batida.
— Acho que segundo essa divisão do estoque poderemos manter as provisões até o final do inverno, se precisarmos racionar — Maggie rompeu o silêncio.
Moritz Alvintzi moveu seu rosto devagar para fita-la. Foi difícil deixar de encarar o espectro arbóreo.
— Creio que já podemos apresentar o relatório para Rick — concordou o ex-palhaço. A esposa de Glenn fez que sim com a cabeça, deixando crescer um sorriso curto em seu rosto jovem. Era tão nova, e já era mãe.
— Como está sua pequena Beth? — perguntou por educação. Moritz sabia que o marido de Maggie ainda não gostava dele. Deveria agradar ao menos a esposa, para não ter de lidar com quaisquer destemperos posteriores. Afinal, Maggie Greene era uma figura política importante em Alexandria.
Todavia, a vida na “Ágora” não lhe interessava tanto quanto antes. Cada vez mais recluso, Alvintzi distraía-se com frequência em cada reunião ou assembleia de rotina. O homem é um animal político, ele sabia disso. Mas os instintos naturais da espécie poderiam ser mitigados por outros.
Tão naturais quanto.
— Linda. É um anjinho — afirmou a mãe orgulhosa, dessa vez com um sorriso sincero em seu semblante. — Mesmo com o frio, ela continua bem-humorada. É tão sorridente, bem disposta. Não dá trabalho algum — acresceu, seu sorriso largo estreitando seus olhos verdes luzentes. O ex-professor retribuiu-a com outro sorriso, agindo com a gentileza necessária.
Moritz se pôs a guardar os papéis espalhados na mesa da sala que um dia fora de Deanna Monroe. Maggie se ofereceu para ajuda-lo, mas ele a dispensou com polidez.
— Vou para o portão, então. Meu turno começa em alguns minutos — despediu-se com mais um sorriso simpático e um aceno discreto. Alvintzi saudou-a movendo o rosto brevemente.
Enquanto se preparava para deixar a antiga residência dos Monroe, local agora reservado para os trâmites do Pequeno Conselho de Alexandria, os ouvidos do ex-professor foram atraídos por um novo som na janela próxima. Mesmo por trás da vidraça grossa, ele conseguiu escutá-lo.
Cantava alto, agudo. Um trinado comum, familiar, que ele já escutara anos atrás, em uma terra distante.
Moritz aproximou-se surpreso da janela. Em um galho sem vida, um estorninho europeu pousara. A ave do inverno era pequena, mas parruda. Abriu seu bico comprido e continuou seu canto. Longo, repisado, cheio de notas, o gorjeio mais parecia um chamado. Frases compostas na língua das aves, que não chegavam ao conhecimento do filósofo.
Alvintzi sorriu com o pensamento. Se havia uma metáfora por trás da árvore seca a cumprimenta-lo, quem seria o estorninho?
Ao sair da casa de Deanna, logo deparou-se com sua resposta.
Estava sentada nos degraus da frente da residência, com seus cabelos ondulados presos em um rabo de cavalo quase desfeito. Vestia um moletom amarelo manchado de fuligem, poeira, e vestígios de seu trabalho na expansão e construção das extensões alexandrinas.
Deixava seu queixo repousado em sua mão direita, apoiada pelo cotovelo encostado em sua perna. Seus olhos amendoados, expressivos e também castanhos olhavam para a casa vizinha, mas não pareciam enxerga-la. Provavelmente olhava para dentro de si, para seus pensamentos, que ele estimava tanto quanto sua aparência.
No lusco-fusco do anoitecer, a presença de Peggy Taylor era iluminada. Como se o sol insistisse em brilhar, mesmo que fosse inverno, mesmo que fosse noite, mesmo que o mundo tivesse acabado.
Ela pareceu notar sua movimentação. Moveu seu rosto para trás, por cima do ombro, e o avistou.
— Estava esperando por você — trinou seu estorninho americano, causando um rebuliço em seu peito.
Moritz piscou os olhos e deixou a pasta que carregava escorregar um pouco por seus dedos. Surpreso, demorou a responder, firmando os dedos em riste.
— Aconteceu algo, Peggy? — tentou indagar o mais solícito que pôde.
Ela passou um dos dedos pelas pontas do cabelo.
— Eu queria conversar. Tem algum tempo livre hoje? — perguntou ela. Percebeu-se ainda mais alvoroçado. Moritz era uma árvore seca, amortecida de ilusões e emoções pelos anos. E, ainda assim... Aquele pequeno passarinho era capaz de desafiar a solidez de suas raízes fundas.
— Encerrei o expediente por hoje. — Deu um de seus sorrisos gentis, almejando demonstrar desenvoltura. — Gostaria de jantar comigo? Assim poderíamos ter esta conversa — sugeriu.
— Pode ser. Na sua casa? — Peggy inquiriu outra vez.
— Se assim quiser — respondeu ele, afável. A garota segurou no corrimão próximo de si e se ergueu dos degraus. — Que tal as oito? — propôs com a mesma gentileza.
— Ok — disse ela, com simplicidade. — Até mais. — Voltou-se nos calcanhares e ali o deixou. Moritz a acompanhou com o olhar à distância. Poderia ter passado mais tempo estático, enlevado pelo efeito deste último encontro, se não tivesse sido distraído por um burburinho à esquerda da rua principal de Alexandria. Perto dos portões.
O ex-professor de filosofia seguiu na direção dos sons de vozes abafadas e apressadas. Logo se defrontou com um grupo de pessoas parado na porta da enfermaria de Alexandria. Aproximou-se da psicóloga Sally Adams, que conversava com um morador aflito, parecendo tentar acalmá-lo.
— O que aconteceu? — interrompeu Moritz, sua voz amena e tranquilizadora.
— Michonne e o grupo da fábrica de balas retornaram. Parece que alguns se feriram. Trouxeram alguém novo e o levaram para o mesmo local em que Jesus ficou quando esteve cativo. Morgan, Billy Ray e Rebecca estão com ele agora — esclareceu a mulher poucos anos mais velha do que Alvintzi.
— Um prisioneiro — Floyd, o morador nervoso, resmungou irritado cortando a fala de Sally Adams.
— Não sabemos disso — retrucou a psicóloga, dando a ele um olhar zangado. — Rick está lá dentro com ela — disse a analista, também buscando dar um tom apaziguador a sua fala.
— E é por isso que queremos entrar! Queremos satisfações. Trazem um cara sangrento sem pernas para dentro de Alexandria e não nos dizem nada a respeito?! — o mesmo habitante temperamental redarguiu, colérico.
— Tudo ao seu tempo. Tenham paciência, eles acabaram de chegar e muitos estão machucados. Rick sabe o que faz — falou Sally, com sensatez.
— As garotas que foram atrás dos medicamentos já voltaram? — interpelou Moritz, fingindo calma.
— Por pouco — resmoneou Tristan, o irmão de Floyd. Os dois eram gêmeos idênticos. Dois sujeitos da mesma idade que Moritz, carecas, de pele curtida pelo sol e olhos escuros.
Alvintzi mirou Sally, aguardando explicações.
— Denise não voltou — murmurou a psicóloga. Moritz baixou os olhos em sinal de respeitosas condolências. — Rosita está sobrecarregada, e ferida. Tara, Glenn, Heath, Eugene e Lilah estão ajudando com os pacientes.
— Precisam de mais ajuda? — ofereceu-se. Ela lhe deu um sorriso educado e meneou o rosto.
— Não se preocupe. Mais gente lá dentro vai atrapalhar. É por isso que estou aqui tentando controlar esses apressadinhos — debochou a analista, dando um olhar para os gêmeos. Dois adultos comportando-se como crianças mimadas. Um comportamento francamente não tão incomum em Alexandria.
— Bem, como um dos principais funcionários a serviço de Grimes — brincou Moritz, em seu tom gentil — posso assegurar-lhes que logo terão respostas. Caso estejam impacientes, comprometo-me a marcar uma assembleia pública amanhã de manhã, e todos os detalhes serão contados — adiantou-se o ex-palhaço com um sorriso simpático ao rosto.
— Por que não vão descansar agora e cumprir seus turnos, se ainda restarem mais serviços hoje? — disse o circense, afável. — Um dos meus trabalhos é o de manter vocês informados. Já sabemos que algumas notícias não são de todo ruins. Conseguiram voltar com armamentos e provisões médicas. Ademais, Rick contará tudo o que for preciso para mim e para Maggie. Podem me cobrar mais tarde! — Ele manteve as feições de simpatia, e logo os sujeitos reticentes desistiram, levando consigo os restantes que estavam parados as portas do hospital improvisado da comunidade. Foram embora ainda resmungando.
— Obrigada. Finalmente poderei voltar ao meu trabalho de verdade — agradeceu Sally, erguendo as sobrancelhas.
— Além de dono de circo eu fui professor universitário por alguns anos. Sei como acalmar e distrair multidões — troçou o ex-palhaço com um sorriso enviesado. Adams deu uma risada breve.
— Tem talento para isso. É um homem esperto — disse a psicóloga. — Parece saber bem o que faz! — Ela deu uma piscadela gentil lhe saudando em despedida. Em seguida, entrou na casa utilizada como enfermaria.
Saberia? Refletiu Moritz consigo mesmo, rumando em direção a sua casa. Faltava cerca de duas horas para a visita de Peggy. Banhou-se, e passou a decidir o que prepararia. Percebeu, sentindo-se aparvalhado, que sequer perguntara o que ela gostaria de comer.
Sabia que ela gostava dos chás e biscoitos que Aiyana preparava. Mas não tivera tempo de dividir com ela refeições ou outras atividades rotineiras de casais. Seu tempo era dividido entre encontros furtivos noturnos, e, anteriormente, e longas conversas sobre suas leituras de filosofia.
Moritz sentiu um nó na garganta. Não faltaram razões para levar Peggy a decidir terminar aquilo que tinham, o que quer que fosse. Ela realmente merecia mais do que aquilo. Mais do que um tutor confuso, atormentado por dúvidas, capaz apenas de lhe dar migalhas do que seria um relacionamento afetivo.
Na hora combinada, ele ouviu de sua sala de leitura o som da porta da sala sendo aberta e fechada com delicadeza.
Ela logo surgiu pela porta próxima as estantes, retirando um grosso casaco por conta da noite gélida. Os cabelos soltos, limpos, descendo até a altura de suas costelas. Vestia roupas justas, que emolduravam bem seu corpo mignon.
Pestanejou, atônito. Peggy era mesmo uma mulher feita. Como ele demorara tanto para enxergar aquilo?
Talvez aceitar seu amadurecimento fosse mais difícil do que presumira. Pois significaria também aceitar o seu próprio envelhecimento.
O tempo passava. Para ambos, para todos.
— É bom te ver aqui novamente — Moritz disse, se erguendo da poltrona em que se sentava. Aproximou-se mantendo uma distância educada de Peggy. Caberia a ela quebra-la, se assim desejasse.
A garota não respondeu. Apenas lhe deu um pequeno sorriso.
— Está tudo pronto? — perguntou apenas. Alvintzi lhe deu um meneio afirmativo de cabeça.
— Vamos para a cozinha. Acho que ainda se lembra aonde é. — Sorriu gentil. Fez um gesto educado para lhe dar passagem. Taylor seguiu pelo corredor até o cômodo mencionado.
A mesa já estava posta. Moritz preparara um assado de porco com purê de batatas à moda austríaca. Deixara uma garrafa de água e outra de vinho tinto em cima da mesa.
Peggy se sentou em silêncio e passou a se servir. O circense continuava sem ter certeza das pretensões da garota, então a acompanhou também silente.
Depois de algumas garfadas e um gole d’água, Peggy franziu as sobrancelhas e soltou uma exclamação de agrado.
— Isso é muito bom! — admitiu com um sorriso de lábios fechados, mastigando. — O que é? — ela perguntou com uma das mãos tapando a boca cheia.
— Schweinebraten* — respondeu. Peggy levantou uma das sobrancelhas, ainda sorrindo.
— Porco assado no forno. Soa mais interessante e exótico em alemão, não é? — brincou. A garota não pôde deixar de dar uma curta risada em concordância.
Moritz não estava faminto. Meramente provara a comida. Seu interesse naquela cena passava longe do estômago.
Depois de comer sua porção, contudo, Peggy pareceu ter reunido a coragem de que precisava para enfim demonstrar o que realmente queria.
— Mavie quase não voltou dessa vez — confessou a menina. Moritz tinha uma das mãos fechadas na frente dos lábios.
— Eu soube — acrescentou ele, dando-lhe um olhar de empatia. Peggy ergueu os olhos da toalha da mesa e o fitou.
— Ela é uma das últimas pessoas próximas a mim ainda vivas. — Ela baixou o olhar para seu copo d’água. Passou os dedos pelo vidro, delicadamente. — E por um tempo... Eu estive tão enraivecida, que me esqueci de algumas coisas — suspirou.
— Que coisas? — Mantinha seu olhar fixo no rosto dela. Não conseguiria desviar nem se quisesse.
— Fiquei tão revoltada com a maneira como lidaram com tudo. Eu sabia que não iam compreender o que eu e você tivemos, mas... Não sei... Acho que eu esperava algo diferente. Reconhecimento, talvez. De quem eu sou agora. Esqueci do quanto vivemos às cegas. Tateando pelas sombras e esquecendo de ver o que está na nossa frente — disse Peggy em um tom melancólico. Moritz sentiu um impulso de ampará-la nos braços. Conteve-se e continuou sentado, mirando-a em silêncio.
— O que você não estava vendo? — perguntou, enquanto começava a entender. Mas não queria ousar interpretar aquilo.
— Você me desapontou. Eles me desapontaram — disse, e respirou fundo. Moritz teve de interrompê-la.
— Eu realmente sinto muito por isso — falou. Moveu uma das mãos como se fosse alcançar a mão dela, mas reteve-se no ato. Não queria ser invasivo.
— Eu sei. — Peggy lambeu os lábios, concentrando-se em sua própria fala. — Mas eu perdi muito tempo remoendo a minha própria injustiça, e me esquecendo de todo o resto. Eu não posso mudar o que foi feito. — Coçou o pescoço, franzindo o cenho. — Mas eu posso decidir o que fazer com o agora. — Levantou o olhar para ele. Alvintzi sentiu seu coração apertar.
— Quando vi Mavelle voltando tão fraca, inconsciente, amparada por Daryl eu... Eu me senti estúpida. Por alimentar tanto rancor — assumiu. Moritz meneou o rosto, encrespando suas sobrancelhas.
— Você teve razão em sua mágoa. Eu errei e eles erraram. Alguns ainda insistem no erro. — Deu-lhe um sorriso triste.
— Não quis dizer isso. O que você fez me machucou. — Aquelas palavras fizeram seu peito se retorcer.
— A maneira com que ela lida com isso até hoje também me ofende. Mas está além do meu controle. Não posso fazer mais nada para tentar abrir a cabeça dela. Mas... Não quero perde-la também. Entende? — questionou. Alvintzi anuiu com o rosto.
— Quando eu a vi naquele estado... Não consegui deixar de pensar em você — admitiu Peggy, em um murmúrio discreto, porém audível. Ele sentiu seu peito comprimir-se ainda mais.
Peggy Taylor lhe deu um olhar fuzilante.
— Eu sinto a sua falta. Mas ao mesmo tempo eu tenho medo de que você esteja cego na escuridão — confessou. Moritz sentiu que os dedos de sua mão tremeram.
— Não quero me aproximar de novo e descobrir que ainda me vê do mesmo jeito. Que você talvez nunca possa me ver diferente. Talvez você precise dessa imagemque tem de mim, não de mim. — Escutar aquelas frases lhe feriram como pequenas farpas em seus ouvidos.
— Como você acha que te vejo? — interpelou, sua voz também baixa mas discernível.
Peggy olhou para as mãos do circense, e depois o mirou novamente.
— Tenho medo de que ainda me veja como sua pupila. Uma aprendiz em treinamento, para ser cuidada, protegida... Controlada. Um consolo para a perda da sua esposa. Ela vai ser jovem para sempre na sua memória. Eu não — Peggy foi dolorosamente honesta. Moritz meneou a cabeça, triste.
Minha menina. Você não tem ideia.
— Peggy... Eu amei muito Micaella. Não vou lhe negar esta verdade. Nem que, em alguns aspectos, você me recordava dela. — Moritz passou as mãos pelas pálpebras fechadas, emocionalmente desgastado.
— Talvez você nunca venha a saber o quanto eu lamento pelo que fiz você passar. Mas, ao mesmo tempo, isso me permitiu finalmente enxergar o que está dizendo. Eu não preciso de luz alguma, Peggy. Você já me trouxe a iluminação de que eu precisava. Você é essa luz. A minha luz — assegurou, fitando-lhe com carinho ímpar. Reparou que ela pestanejou.
— Mesmo que você não quisesse nunca mais me agraciar com a sua companhia. A sua estima. Ou essa tão sonhada segunda chance... — Moritz segurou uma das mãos dela, com delicadeza afetuosa. Peggy não a afastou.
— O que me importa não é a sua juventude. Nem de quem me recordou. O maior bem que me fez foi que me fez ver graça neste mundo, novamente. Em meio a tantas perdas, a tanto sofrimento, a essa redução ao nada... Você surgiu fulgurante, brilhando no vazio. — Moritz deu uma risada sincera, levantando as sobrancelhas. — Você me fez olhar para esta vida exatamente como ela é e me sentir feliz por poder fruí-la. Nessa trágica realidade e nas nossas limitações humanas, você me trouxe o mesmo instinto de outrora, despertado em mim quando eu tinha mais ou menos a sua idade. — sorriu Moritz. — Quando eu olhava as estrelas acima de nós e me sentia recompensado pela minha minúscula existência apenas por poder contemplá-las. Por refletir sobre quantos mistérios rodeiam nossa vida efêmera, e o encanto de saber o quanto há por descobrir e sempre restará por compreender. O instinto filosófico. — Foi sua vez de conter um suspiro.
— Eu estou completamente apaixonado por você, Peggy, por quem você é. Esta jovem mulher encantadora que floresceu na minha frente. Uma pequena estrela dançarina nascida do caos. Minha estrela luminosa. Determinada, desbravadora, esperta e tão, tão corajosa... — Seus olhos perdiam-se nas íris castanhas de Peggy, resolutos, definitivos.
— Não há mais escuridão graças ao seu brilho, Sininho — disse Moritz, beijando a mão da garota com ternura reverente, quase adoradora. Só afastou os lábios dela quando Peggy a retirou.
A garota arrastou a cadeira pelo chão e se levantou. Alvintzi temeu que saísse da cozinha e fosse embora. Mas Taylor fez o contrário.
Caminhou até ele e sentou-se em seu colo, abraçando-o pelos ombros e pela nuca. Seus rostos estavam quase colados um no outro. Peggy fechou os olhos e encostou sua testa na dele. Moritz mal ousava tocá-la de volta. O que vivia era tão maravilhoso que temia estragar de alguma forma, se ousasse se mover, se ousasse interferir. A própria cena brilhava com uma gloriosa luz de irrealidade, boa parte dela vindo da presença mágica de sua Sininho.
— Eu preciso que você fique comigo. De verdade. Não como tutor e aprendiz. Não como um protetor e uma protegida. Como homem e como mulher. Você pode fazer isso?
Moritz não teve dúvidas. Riu aos seus ouvidos. Como uma revelação transcendente, ele respondeu repleto de certeza.
— Sim. — E Peggy finalmente o beijou outra vez.
Peggy, Sininho, seu estorninho americano alçara voo da árvore seca em que uma vez buscara conforto, quando ainda tinha asas quebradas. Afastou-se por um tempo, e, recuperada, crescida e independente, pousou outra vez em seus ramos. Aninhada em seus braços, derretera o inverno que outrora esfriara sua alma.
****
[MAIS TARDE]
Ele passou as mãos pelo rosto, sentado no sofá da sala. Carl já havia subido com Judith para seus quartos, Carol continuava na enfermaria e Daryl estava fora, provavelmente com Mavelle, que já recebera alta dos cuidados médicos.
Estava exausto, mas totalmente irrequieto. Seus olhos azuis claros cintilavam, pequenos feixes luminosos na escuridão da sala vazia, na qual todas as luzes se mantinham apagadas. Os aquecedores estavam desligados, para poupar energia elétrica dos geradores.
Rick Grimes pôde ver seu hálito no escuro, ao soltar uma expiração ansiosa e longa. A noite marcava baixos graus de temperatura, provavelmente a mais gelada até então daquele inverno perturbador.
“Vocês não vão conseguir nada comigo. Talvez só que ele venha mais rápido.”
Disse com escárnio o Salvador que Michonne e os outros capturaram naquela tarde. Rick não conseguira extrair nada de útil do sujeito. Apenas seu nome, idade, e o que fazia para Negan: matador.
Esse mesmo homem derrotado por Michonne e o grupo de Alexandria perdera duas pernas, fora levado para um local desconhecido e ainda assim se mantinha reservado e seguro. Parecia, sim, temer Negan, pelo pouco que Grimes compreendera de sua experiência como mandante de Alexandria e como ex-policial. Mas era diferente do temor de idolatria que os seguidores de Hashimoto lhe resguardavam. Não tinha a ausência de emoção nos olhos que os soldados de Wyoming County. O respeito que o Salvador detinha por Negan denotava um outro tipo de medo. Um temor menos lunático, e mais real.
Negan deveria ser um excelente manipulador, tal qual a espadachim japonesa. Mas parecia jogar com cartas diferentes. Talvez não fizesse uso da mesma lavagem cerebral que a mandante do Exército próximo a Virginia. Suas barganhas e suas táticas, pelo visto, diferiam.
E isso preocupava Rick ainda mais, pois o desconhecido é sempre mais ameaçador do que o familiar.
Rick Grimes foi sobressaltado pelo ruído da porta da frente se abrindo. Ergueu-se do sofá de pronto, a mão já preparada no coldre de seu revólver. Cruzou olhares com o recém-chegado que acabara de acender as luzes da sala.
Pestanejou, enquanto discernia Michonne lhe encarando estupefata.
— Você está com uma cara péssima. Precisa dormir — sua amiga lhe disse com sua honestidade costumeira. Parecia tentar fazer graça para acalmá-lo.
— Você está bem? — indagou, tirando as mãos da base da arma.
— Sim. Não me machuquei muito, só perdi um pouco de sangue. — Indicou as poucas ataduras e os pontos em seu rosto. — Foram só uns pontos na testa, nada demais — disse a espadachim, indiferente.
Rick retornou a se sentar no sofá do qual levantara. A amiga se aproximou dele, ajeitando-se ao seu lado.
— Os meninos dormiram? — a mulher interpelou, se referindo a Carl e Judith.
Rick fez um meneio positivo de rosto. Ela o olhou com maior intensidade.
— Hey. Precisa descansar. Pegamos um deles, vamos resolver isso — garantiu a espadachim. Grimes, contudo, se mantinha incrédulo.
— Quanto mais tempo passa, mais essa merda toda me incomoda. Matamos muitos deles, mas surgem novos problemas sempre — retrucou o policial. — Não consigo deixar de pensar que somos como ratos de laboratório. Andando na porra de um labirinto. E uma hora vamos achar o queijo na ratoeira — profetizou agourento. Michonne levantou as sobrancelhas e segurou um de seus ombros em um gesto afetuoso.
— Se acharmos, vamos ser espertos o suficiente para não pegar o queijo. Vamos dar meia-volta e achar a saída do labirinto — ela disse com convicção. Rick Grimes fitou os olhos castanhos que lhe miravam com determinação. Ficou um pouco mais relaxado.
— Você não precisa mais passar por tudo isso sozinho, Rick. Podemos te ajudar a liderar. Eu, Maggie, Glenn, Carol, Daryl... Estamos todos aqui para você. Essa responsabilidade é pesada demais para uma pessoa só — frisou, dando um aperto mais firme no ombro que tocava.
— As pessoas contam comigo — redarguiu o policial, coçando a barba por fazer.
— As pessoas contam conosco. Seu metido — debochou Michonne, dando-lhe um sorriso luzidio. Grimes baixou os olhos para os lábios cheios dela, e se perdeu por alguns momentos os contemplando.
— Isso me lembra de algo. — Rick se pôs a sorrir também. Não sabia precisar as razões por trás, mas a companhia daquela mulher tinha um efeito calmante sobre ele. De certa maneira, a resolução, a pró-atividade, a empatia e a capacidade de Michonne lhe inspiravam confiança. Em si mesmo, inclusive. Rick Grimes se sentia mais forte, mais habilidoso, melhor, quando estava perto dela.
— O quê? — ela perguntou, enquanto o policial se punha a mexer em uma gaveta de um móvel perto do sofá. Achou uma câmera digital ali dentro e reproduziu uma gravação.
— Carol me disse que filmou há alguns dias. Esqueci de te mostrar, com toda essa correria.
Rick e Michonne assistiram juntos a um curto vídeo de Judith se erguendo sozinha pelos móveis da sala. Segurava-se pelo sofá e ia andando de um lado ao outro, as perninhas firmes, incentivada por seu irmão mais velho e por Carol Peletier, que filmava e falava com ela.
A espadachim sorriu, deslumbrada com o crescimento da filha de Rick. Ele compartilhou o mesmo sorriso satisfeito, orgulhoso.
— Meu Deus, ela é mesmo precoce. Vai dar trabalho para vocês! — brincou, empolgada com a animação da própria Judith na filmagem. — Deixa eu ver de novo — pediu, movendo os dedos para tocar no player da câmera.
A mão de Michonne se dispôs por sobre a mão de Grimes que segurava a câmera digital. Rick sentiu um impulso peculiar em resposta ao toque dela. Seus dedos estavam quentes, aquecendo sua mão gelada pela baixa temperatura.
Os dois assistiram mais uma vez as peripécias da pequena Judith, e a espadachim deu uma risada alegre. Não tirou os dedos do objeto e da mão de Rick até o curto filme acabar. Assim que terminou, ela fez menção de afastar os dedos da câmera digital, mas Grimes deixou a câmera de lado e tocou sua mão novamente.
Olhou seus dedos entrelaçarem os de Michonne. Sua mão surpreendentemente macia, mesmo com seu treino com sua katana. Por que não fizera aquilo antes? Aquele toque parecia tão natural, tão... Esperado.
Ergueu os olhos para os dela. A mulher sorria, silente, e seu rosto já lhe dizia tudo o que precisava saber. Os olhos amendoados de Michonne estavam fixos nos dele. Levemente estreitados, de maneira quase imperceptível. O sorriso suave, discreto, repleto de sugestões.
Rick Grimes não aguardou mais. Segurou o rosto da mulher que antes era uma amiga tão próxima, e a puxou para si. Tivera outras mulheres em sua vida, como Lori, sua namorada de final de adolescência e mãe de seus filhos, o primeiro grande amor da sua vida. Tivera Jessie, sua namorada após o período longo de luto por Lori.
Mas, naquele momento, não se lembrava de nenhuma delas. Não queria nenhuma delas. Apenas pensava no toque de Michonne, deseja somente deleitar-se com seus lábios carnudos nos quais selava os dele. A mão que segurava o rosto da espadachim desceu por sua nuca, acariciando-a. Fez seus dedos caminharem por seus longos dreads, alcançando depois suas costas e a puxando para ainda mais perto de si. Ela arfava, sorrindo em seus lábios, parecendo tão embevecida com aquelas carícias quanto ele.
Sentiu Michonne soltar o enlace entre suas mãos. Em seguida, ela subiu suas duas mãos por seu peito, abraçando-o pelos ombros, empurrando-se para mais perto dele. A mulher se punha a abrir os primeiros botões de sua camisa, enquanto ele explorava seu pescoço com os lábios, arfando sofregamente. O policial deixou seus dedos entrarem pela camisa justa em seu corpo deliciosamente torneado, sentindo a pele quente em suas costas, avançando os dedos para ainda mais baixo, fazendo-os entrar pelo cós de suas calças.
— Temos que continuar isso lá em cima — Michonne sussurrou, sensata. Rick deu uma risada seca e a puxou por uma das mãos. Subiram o mais silenciosos que podiam, trancando-se no quarto em que Rick Grimes dormia. Jogaram os casacos que usavam no chão.
Logo em seguida, ele a trouxe pela cintura até a cama de casal. A espadachim já abria os botões que restavam em sua camisa, e Rick retirou a dela, com pressa para sentir seu corpo, sua pele, sem mais obstáculos. Não hesitaram em se livrar das peças de roupa restantes, e logo Michonne já cingia suas pernas ao redor da cintura dele, impulsionando-o para dentro de seu corpo.
Rick investiu em estocadas profundas, contínuas, ávidas, enquanto ela gemia regalada embaixo de si. Só se permitiu chegar ao êxtase assim que sentiu-a regozijar-se com suas investidas, tremendo e arqueando o corpo contra o dele em uma longa arfada lasciva.
Por que demorara tanto para fazer aquilo? Rick não podia deixar de se questionar, ao ver o rosto saciado de prazer da mulher em seus braços. Michonne era linda, era uma mulher admirável, em tantos sentidos diferentes.
Rick Grimes já havia chegado à conclusão de que Deanna Monroe estava certa. Era preciso viver, e não apenas sobreviver. É o que o separaria do Governador. De Gareth. De Jed. Dos Wolves. De Hashimoto. Até mesmo de Negan.
Era chegada a hora de aplicar este ensinamento em sua própria vida.
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[UMA SEMANA E MEIA DEPOIS]
— Gente boa, não se preocupem! Eles ficam lerdos pra caramba nessa friaca! — A voz estridente de Rebecca Gable se fez ouvir em meio ao vento rascante.
A garota loira se aproximou de um morto canibal com seu taco de alumínio empunhado. O som da cabeça se partindo de encontro ao metal resistente pareceu um estalo oco, grotesco. Quase o som de um taco de baseball rebatendo uma bola pesada. Fiapos de sangue e restos apodrecidos pintaram a neve alva com cores terríveis.
Que mau gosto, pensou ele, enquanto a jovem mulher loira corria de encontro ao seu companheiro e pulava em seus braços lhe dando um beijo entusiasmado. Estava alguns metros próximo dos dois. Atrás de si, seguiam Glenn e Heath.
— Fique esperta, menina, podem ter outros por perto — alertou Billy Ray. Descobrira recentemente que o sujeito era caçador. Tinha uma mente mais prática e atenta do que a da namorada, pelo visto.
Ajeitou o cachecol em seu pescoço, piscando os olhos para enxergar adiante. Os óculos, fustigados pela neve que caía lentamente, tinham de volta e meia ser limpos para não atrapalhar.
Teve de parar para retirá-los e limpá-los. Enquanto o fazia, pela quinta vez naquela manhã, pensou em sua sobrinha.
Redmond Lewis vivia há algumas semanas em Alexandria. Sua estadia tivera de ser aumentada não só pelo encontro desafortunado com os Salvadores na semana que passara, como pela nevasca que caiu por muitos dias naquela localidade do estado da Virginia.
A comunidade ficou em estado de alerta. Racionaram a comida e a energia elétrica para preservar os aquecedores, que seriam fundamentais naquele mês de janeiro repleto de neve. Desde que a infecção dos mortos-vivos tivera início, Redmond não se lembrava de ter passado por um inverno tão rigoroso.
A temperatura abaixo de zero deixava ardente de frio o rosto do tio de Delilah Feld que via fumaça sair de seus lábios e dos companheiros de missão. Todo esforço físico feito naquelas condições extremas de frio eram mais fatigantes, mas sua mente incansável seguia raciocinando sem parar.
Lembrou-se de como ajudara os moradores a repararem brechas em suas casas, e como reavaliara e reconstruíra o galpão onde guardavam os estoques de comidas e produtos perecíveis em Alexandria junto a Tucker Hayes, o arquiteto e mestre de construções do pequeno município a mando de Rick Grimes.
Descobrir que um fedelho daqueles era responsável por tarefas relevantes fez Red sentir uma mistura de misericórdia e desprezo pelas habilidades dos alexandrinos. Poderiam ser bons combatentes, mas eram péssimos gestores. Um rapaz tão novo jamais teria a experiência e a maturidade necessárias para levar projetos importantes adiante.
Redmond não gostava daquele garoto. Em apenas poucas conversas pôde notar que era do tipo que devia viver se drogando, provavelmente um típico maconheirinho rico que gastava o dinheiro dos pais em drogas antes do colapso da sociedade. Ingênuo, hedonista e mimado, era o tipo de má influência da qual sempre quis proteger Delilah.
Todavia, sua sobrinha, que agora fizera amizade com uma tal de Peggy, fora convencida pelos dois a trabalhar no setor de construções. Enquanto fora engenheiro de Hilltop, se esforçara para evitar que Lilah se envolvesse nesse tipo de tarefas fisicamente mais dispendiosas, por saber que a sobrinha era um tanto atrapalhada. Não ficaria surpreso se um dia Delilah conseguisse derrubar uma viga em cima de si mesma, por isso atualmente vivia preocupado com o novo trabalho que a garota arranjara.
O que lhe aliviava fora justamente a neve. Os construtores tiveram de proteger com telas e toldos as fortificações ainda em expansão para além do terreno inicial de Alexandria, o que atrasou o ritmo. Como a nevasca apenas piorou por alguns dias, suspenderam as atividades e focaram na limpeza da própria comunidade e dos muros ao redor, para evitar que as casas e ruas ficassem soterradas.
As estradas estavam intransponíveis pela neve, mas ela logo diminuiria e enfim pararia de cair. E a rotina anterior seria retomada. Contra sua vontade, Lilah parecia mais e mais integrada em Alexandria, feliz com a mudança de ares da base aonde foram escravizados, mas até contente demais para o gosto do tio.
Pensando em como faria para convencê-la a assim que possível deixarem Alexandria, Redmond não percebeu a movimentação no monte de neve próximo aonde estava parado. Um braço pútrido conseguira galgar espaço por fora daquela formação alva, e logo arrastava o restante do corpo. Uma cabeça de semblante azulado pela implacável ação do frio já abria a bocarra prestes a fechar os dentes arreganhados na perna de Lewis.
— Cuidado, cara! — o tio de Lilah ouviu a voz de Glenn Rhee bradar perto dele, assustado.
Red levantou os olhos para o rosto do rapaz de feições asiáticas. Em seguida, levou o olhar na direção que os olhos estreitos do jovem pai estavam fixos.
Redmond soltou uma exclamação de medo e surpresa, escorregando para trás e caindo de costas no chão. O morto-vivo faminto não desistiu. Continuou a se arrastar lentamente, suas mãos já segurando os calçados do engenheiro, enquanto o tio de Delilah apenas chutava sua cabeça, atabalhoado.
Lewis tentou se erguer pelos cotovelos, mas escorregou pela neve que empapava a grama aonde caíra. O apodrecido se manteve determinado, seus dentes preparados para arrancar um naco de carne da canela do engenheiro.
No último segundo, Heath transpassou a cabeça do morto semi-congelado com uma peixeira. O rosto do morto-vivo tombou perto da canela esquerda de Redmond, os dentes trincando no chão, sem sucesso em sua empreitada para matar sua fome eterna.
— Presta atenção, cara! Cuidado — aconselhou o rapaz de dreads, que estendeu a mão para ajudar Red a se levantar. Sua vontade era de empurrar a mão do jovem para o lado e se erguer sozinho, irritado pela pequena humilhação.
— Você está bem? — Glenn perguntou, perto dele. Era um bom rapaz. Naturalmente solícito, casado e responsável.
— Ótimo — Redmond rangeu os dentes, sarcástico. Limpou os vestígios de neve de seu casaco térmico preto, já de pé outra vez.
— Como eu disse, fiquem espertos — Billy Ray, que se aproximara pelo tombo de Redmond e a súbita ameaça já resolvida, passou os olhos por todos os presentes. — Vamos lá, só precisamos caminhar mais alguns quilômetros para ter certeza de que não há nada por perto e voltamos.
O resto da missão seguiu sem maior adrenalina. Encontraram mais meia dúzia de mortos-vivos pelo caminho, todos tão vagarosos que pareciam de fato congelados. Demoraram cerca de uma hora para retornar a Alexandria, perto do horário que Redmond costumava almoçar. Por isso, seguiu para a casa que dividia com sua sobrinha, Gaspar e Paul Rovia, já recuperado do ferimento de bala que sofrera.
Seu humor melhorara um pouco assim que passara dos portões de ferro da comunidade, pensando no cozido quente que logo comeria. Mas sua compleição casmurra retornou de imediato, assim que avistou a entrada de sua casa.
Delilah Feld e Tucker Hayes limpavam a entrada da residência de alguns montes de neve acumulada. À distância, Redmond pôde antever o sorriso no rosto de sua sobrinha, que gargalhava de algo que o rapaz lhe contava.
Sentindo um gosto azedo na boca, Red crispou os lábios e apressou o passo.
— ...Na Pennsylvania a gente tinha até concursos de melhor construtor de bonecos de neve. Como nevava naquela porra! Foi o único troféu de primeiro lugar que já ganhei por qualquer coisa na vida — confessava o rapaz, o que não surpreendia o tio de Delilah. Sua sobrinha gargalhou.
— Ah, é? E no meu subúrbio em Illinois tinham concursos de esculturas de gelo! É óbvio que eu achava lindo, mas tinha um talento igual a zero para qualquer coisa do tipo — ela disse, fazendo uma careta divertida. — Fora que tio Red do jeito que é era capaz de não me deixar nem tentar participar, achando que eu ia gangrenar minhas mãos ou algo assim se tentasse. — A raiva de Lewis apenas aumentou ao se ver motivo de piada na conversa dos dois.
Tucker fez menção de rir, mas vislumbrou a silhueta do tio de Lilah se aproximando e logo sua expressão alegre foi modificada para feições de leve constrangimento. A garota deve ter reparado, pois logo olhou para trás.
— Tio! — Deu um sorriso nervoso, fincando a pá desajeitadamente no chão.
— Do jeito que eu sou o quê, Lilah? — perguntou com acidez, irônico, caminhando na direção dos dois jovens.
— Do jeito que você é querido e maravilhoso. — Sua sobrinha lhe abriu um sorriso imenso que aplacou minimamente seu mau humor. — Tucker estava me ajudando a limpar a entrada da nossa casa — contou ela, com um sorriso menor.
— Mas que gentil da parte dele — Redmond comentou com ironia discreta. Sabia que Lilah não notara, todavia, não era ela que tinha de compreender. O alvo era outro.
Pareceu funcionar, pois o rapaz pareceu ainda mais atarantado.
— Rick pediu que nos dividíssemos em duplas para limpar as fachadas. Daryl e Carol estão limpando a da outra rua, Tara e Peggy a da direita, e mais outro pessoal pela comunidade — esclareceu o moleque com jeito de drogado. Ajeitou o gorro ridículo que usava na cabeça, fitando Redmond com simpatia abobalhada.
— Acho que já fizeram um ótimo trabalho — Lewis manteve o tom mordaz, mas educado. — Temos que almoçar agora porque ainda há um longo dia cansativo pela frente — despachou o rapaz o mais rápido que pôde.
— 'Tá certo! Desculpa qualquer coisa — o rapaz já se prontificou a se desculpar, parecendo não compreender o mau humor de Redmond.
— Relaxa! A gente se fala! — Delilah abriu um sorriso enorme e o saudou com um tchauzinho. Tucker retribuiu ambos os gestos e se afastou, dando um último olhar de incompreensão para o tio da garota.
— Você podia se esforçar para ser um pouco mais simpático com as pessoas. — Delilah fitou o tio com ar de repreensão, ao passo que ambos entravam na casa. Passou a ajuda-lo a colocar a mesa para almoçarem. Gaspar e Paul não os acompanhariam naquela refeição.
— Você poderia dar menos confiança para gente que não conhecemos direito — retorquiu o tio, e a sobrinha revirou os olhos, bufando.
— Conhecemos essas pessoas há duas semanas! Elas salvaram a sua vida! — lembrou a garota, pondo os pratos, talheres e copos na mesa. Redmond meneou a cabeça, esquentando a travessa de cozido.
— Você sabe que é importante ser cuidadoso. Foi a minha cautela que salvou nossas vidas inúmeras vezes — recordou. Lilah levantou uma sobrancelha impertinente, mas não retrucou. — Eu me preocupo com você. Não quero que você tenha de lidar nunca mais com coisa parecida com o que vivemos na base dos Salvadores — ratificou Redmond, e Delilah falou alto.
— Aqui não tem nada a ver com aquele lugar! — disse, incrédula.
— É muito cedo para dizer — insistiu Lewis, exagerado.
— Eles são boas pessoas — discordou, arregalando os olhos, sem acreditar na ingratidão do tio.
— Liam parecia boa pessoa — Red recordou do líder da base em que foram escravizados, e que por muito pouco não estuprara Lilah.
Delilah deixou o punho descer com força na mesa, aonde já se sentavam. Passou os dedos pelos cabelos castanhos, revoltada.
— Eles não têm nada a ver com o Liam — assegurou a menina. A irritação de Redmond só crescia a cada discordância de sua sobrinha.
— Eles quem? — debochou Red. A garota controlou um muxoxo de irritação.
— Tucker! E Peggy, Tara, Glenn, Maggie... São meus amigos — completou rapidamente.
— Chama pessoas que conhece há duas semanas de amigos? Pelo amor de Deus, Delilah, cresça — ironizou seu tio, deixando a garota ainda mais furiosa.
— Eu tenho que crescer? Eu já cresci há muito tempo, tio! Sua mania de superproteção é que não condiz com a minha idade. Você pode não gostar, mas eu não sou mais a criancinha órfã que dependia de você para tudo! — Apontou o indicador no rosto do tio.
— É mesmo? Talvez se você parasse de se comportar como criança eu não te enxergasse mais como uma — disse Redmond, sem dó.
Lágrimas de raiva subiram aos olhos da garota. Ela se levantou com seu prato, foi até a geladeira e passou a guardar os restos em um tupperware.
— O que pensa que está fazendo? — Red perguntou no mesmo tom mordaz.
— Guardando as sobras. Estou satisfeita — respondeu, sem olhar no rosto do tio. Caminhou rápido até a porta da frente.
— E pretende fazer o que agora? — insistiu Lewis.
— Trabalhar. — Lilah fitou o rosto do tio outra vez. — É o que adultos fazem, não sabia? — ironizou, imitando o tom de Redmond. Fechou a porta com um estrondo.
Foi a vez de Lewis revirar os olhos. Aquele drama de Delilah não duraria muito. De noite já o teria perdoado. E, de certa forma, a saída de Lilah era importante. Poderia se concentrar nos preparativos do que já havia decidido para aquela noite.
Redmond Lewis sabia que o prisioneiro de Alexandria, atualmente, era um dos matadores mais cruéis a mando de Negan. Fazia parte de um escalão alto no bando, pelo que Red sabia.
Era um sujeito inescrupuloso, totalmente corrompido pelo reinado de terror do líder dos Salvadores. Em outra vida, aquele homem tinha sido um oficial da Narcóticos, responsável por patrulhar fronteiras e investigar cartéis de drogas. Depois que o mundo invertera de funcionamento, seus valores, pelo visto, também foram completamente trocados.
E, mais importante do que isso... Havia sido ele quem sugerira a Negan que Redmond não fosse enviado a sós para a base aonde foram escravizados. Era importante ter um engenheiro conceituado refém, para aterrorizar Hilltop. Mas não havia razões para levar Lilah. Não precisariam dela ali para colocá-lo na linha. Bastava dizer que ela sofreria se ele não cooperasse.
Ele já imaginava as motivações que os moveram a levar Delilah como a única garota jovem de Hilltop para a base da cutelaria. E precisava tirar a prova.
Assim, ao anoitecer Redmond invadiu uma casa vazia de Alexandria, tomando precauções para não ser visto. Juntou papéis velhos e outros objetos secos em uma grande lixeira, acendeu um cigarro — não fumava, então não o tragou — e o jogou ali. O fogo logo se espalharia, e chamaria a atenção de quem estava por perto.
O que incluía Morgan Jones, de patrulha na frente da prisão de Alexandria. O prisioneiro não receberia visitas para interrogatório naquela noite, Redmond se certificara disso. Então teria seu caminho livre.
Red se escondeu nos muros de um quintal próximo ao porão no qual havia a cadeia da comunidade. Em pouco tempo, a fumaça que saía da casa aonde fizera o incêndio criminoso chamou a atenção do homem de cajado. Morgan correu em direção a residência, pedindo ajuda dos moradores que encontrou. O alvoroço foi a distração certeira.
Escondido pelas sombras noturnas, entrou na prisão. Teria de ser breve.
Desceu as escadas até o porão e logo o avistou. Os cabelos loiros compridos até os ombros, a pele macilenta, o sorriso de dentes amarelos em escárnio. Bob Thompson, mais conhecido como “Bloody Bob” por seu gosto por carnificina. Sem duas pernas, os tocos restantes enrolados em ataduras. Não perdia as feições arrogantes nem aleijado.
— Red, amigo velho! — debochou o capanga de Negan.
— Estou velho, mas ainda tenho minhas pernas — satirizou o tio de Delilah. Bloody Bob deu uma risada gutural.
— Você veio debochar de um aleijado? Porra, Red, você era melhor do que isso. A escravidão não te fez bem — ironizou em resposta, o mesmo sorriso maldito no rosto.
Redmond, frio como neve, caminhou para mais perto do preso. Grossas barras de ferro os separavam.
— Me diga, ele está vindo? — indagou Redmond, direto.
— Me diga você. O que acha? — debochou o prisioneiro.
— Que se fosse para vir já teria achado este lugar — Redmond foi honesto.
— Bingo! Sempre inteligente, esses dão os piores serviçais — o prisioneiro disse em tom sarcástico.
— O que ele está esperando, então? — perguntou Lewis, mas já sabia a resposta.
— A neve diminuir. Os mortos voltarem a andar. E o primeiro deslize desse tal xerife de merda. — Bob comprimiu uma risada. — Esse Rick tentou me ameaçar dizendo que matou uma caralhada dos nossos. E aquela crioula dele matou mais vários outros. — Bloody Bob abriu um sorriso sádico. — Ah, Red, você conhece Negan... Você sabe que eles estão fodidamente fodidos.
Um calafrio de horror perpassou a espinha de Redmond. Não era um blefe. Bob estava certo.
Negan gostava de jogos psicológicos. Não sabia que estratégia teria armado para destruir Alexandria, mas provavelmente apenas aguardava pela oportunidade. E Red não ficaria esperando de braços cruzados.
— Você não disse a eles aonde fica o Santuário.
— E nem vou dizer a você — acresceu o homem loiro. — Na hora certa, alguns de vocês vão conhecer. E vão desejar terem sido os que morreram primeiro — vaticinou, perverso. Redmond fingiu não se abalar.
— O que ele queria com a minha sobrinha? — interpelou.
— Você sabe. Por que você acha que Liam nunca meteu o pau naquela bocetinha apertada? — O sorriso de Bob durou pouco. Red desferiu um soco potente em cheio em seu semblante.
O homem caiu para trás, rindo, enquanto seu nariz sangrava. Redmond sacudiu a mão. Golpeara o sujeito com tanta força que se arranhara.
— Estavam guardando a menina para Negan. É assim que ele mais gosta. Entre os dezoito e antes dos trinta. É um homem de apetite e de gostos requintados, se quer saber minha opinião. — O sujeito sorriu com lascívia para provocar Redmond, que o puxou pela camisa imunda.
— Ele não vai colocar as mãos nela — garantiu, sua ira gélida mantendo o tom de voz sem se elevar uma nota sequer.
— Se ele quiser, ele vai. — O sorriso cruel de Bob se ampliou. — Pense bem, Red. Os de vocês que não forem direto para o túmulo, depois de uma sessão de tortura... Vão continuar vivos para trabalhar. Não falta serviço. E, dentre as utilidades da sua sobrinha... É melhor uma boceta arrombada do que o lombo entortado. — Bob gargalhou, mas Redmond já ouvira o suficiente. Retirou um estilete do bolso, e fincou a lâmina repetidas vezes no rosto do homem, descarregando seu ódio.
Bob ficaria ali para se transformar. Não lhe daria o gosto de impedí-lo de tornar-se um apodrecido.
Mas Redmond... Não ficaria mais naquela comunidade um segundo sequer. Não mais do que o estritamente necessário.
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Ela lia um volume de “Genealogia da Moral” deitada em cima da cama. Estava absorta na leitura, iluminada pelas chamas do fogo aceso perto. Aproveitava o conforto da lenha queimando na lareira, deixando a temperatura do quarto agradável mesmo naquela noite alguns graus negativos. Movia seus pés para a frente e para trás, apoiada de barriga para baixo no colchão. Virara ao contrário na cama, deixando os pés perto dos travesseiros.
Ao seu lado, sentiu os pés dele se remexerem entre os lençóis. Logo sentiu os dedos das mãos dele acariciarem suas pernas e abriu um sorriso. Sentira muito a falta daquilo.
Seus tornozelos foram acarinhados pelas mãos suaves e experientes dele. Sentiu os nervos de seus pés cansados sendo tocados, massageados com delicadeza, relaxando seus músculos tão fatigados pelos esforços recentes.
— Por que está acordada, Sininho? — Moritz perguntou com a voz embargada de sono.
— Muitos planos em mente — respondeu, enigmática. Voltou-se com um sorriso sedutor para ele.
— E quais seriam eles? — o homem indagou de volta, interessado.
— Estive pensando... — Deixou o olhar vagar do rosto de Moritz para a janela, e depois para as chamas na lareira. Em seguida o fitou outra vez, abrindo um sorriso resoluto.
— Poderíamos nos mudar para Hilltop.

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