Hunter's Instinct
70 Episódio 70 - Don't Surrender
Notas iniciais
[NA MADRUGADA ANTERIOR]
O fluxo de sua respiração estava balouçado. Assemelhava-se ao vai e vem dos movimentos que fazia para encher os pneus de sua caminhonete de “estimação”, com o uso de seu compressor de ar maltratado pelos anos.
Seus pulmões e suas vias respiratórias eram seu compressor de ar. E seu corpo, por muito pouco, poderia em breve se tornar um pneu vazio, pois oscilava no simples ato de controlar sua mera respiração. Estava difícil não ser movido pelas emoções. Aquilo era perigoso.
Não poderia falhar.
Ao avançar pelas vastas plantações nos confins do estado da Virginia, o sujeito do sul dos Estados Unidos sentia que carregava por si só o peso da responsabilidade daquela missão. Seu companheiro de tarefa estava tomado de uma angústia visivelmente pior do que a sua.
Daryl Dixon seguia atrás de si. O caçador arqueiro que costumava ser o mais silencioso e furtivo dentre os dois sulistas mal conseguia dar um passo sem estalar galhos, arrastar os pés de maneira ruidosa ou acabar dando pistas de onde os dois intrusos se localizavam.
“E aí, caipirão?”
Podia se lembrar da imagem daquela menina matreira, os dentes saltados em meio ao sorriso largo que sempre expunha para ele em outros tempos. Os olhos de avelã esverdeado brilhantes, travessos, quase infantis. Billy engoliu em seco.
Mavelle era muito importante para ele. Sempre fora, porém, antigamente, de outro modo.
“Trate de trazer esse seu traseiro caipira de volta um quanto antes”, Billy podia escutar a voz aguda de Rebecca o repreendendo aos seus ouvidos. Em outros tempos, o homem nascido no interior do Alabama poderia estar pronto para se sacrificar por Mavie. Teria morrido por ela.
Hoje em dia não mais o faria. Ele tinha motivos para viver. Tinha o dever de sobreviver. Precisava encontrar a amiga, salvá-la, e dar conta de impedir que o caipira da Georgia com quem agora unia forças não acabasse se matando em meio ao próprio nervosismo.
Precisava, acima de tudo, voltar são e salvo para sua Becky. Para sua menina. Para enfim abraçá-la e beijá-la outra vez.
— Uns quinhentos metros, à esquerda — Billy Ray sussurrou para o companheiro de missão. Dixon caminhou alguns passos mais próximo, olhando na direção onde Billy apontara o próprio rifle de caça.
— Esses filhos da puta só podem estar lá — Daryl rosnou, sua voz rascante transbordando seu ódio. O caçador do Alabama concordou com a cabeça.
Billy Ray caminhou ligeiro. Logo atravessara os últimos vestígios do matagal. Seu palpite fora certeiro. Os contornos escuros que seus olhos atentos puderam aferir na escuridão da noite de inverno pertenciam ao que ele desconfiara.
Grades de metal escuras, altas, circundando uma construção antiga. Ao se aproximarem mais, logo leram um letreiro enferrujado, manchado de sangue:
“ASILO SAINT BRIDGET”
Billy franziu os lábios e as sobrancelhas, desagradado. Aquilo certamente lembraria a garota irlandesa da perda do verdadeiro amor materno de sua vida: sua avó Annie.
— Não parece tão grande assim. Acho que não chega nem a ter um acre de terra — comentou Billy Ray, e Dixon pareceu concordar. — Vou contornar o lugar, precisamos saber se os únicos carniceiros por perto são aqueles cravados naquele cercado de mau gosto. — Apontou com o indicador esquerdo para os mortos-vivos empalados e perfurados em estacas de madeira construídas junto as paredes externas do casarão.
— E vamos resolver de uma vez por todas esse rebu* — Billy Ray falou, ao passo que levantou o walkie talkie que tomara do garoto asiático assassinado por Gaspar.
— Vou pegar a mesma transmissão — Daryl avisou, abaixando-se e se escorando pelo muro. Billy Ray sabia que o arqueiro trouxera um comunicador consigo também. Observou brevemente o caçador da Georgia movimentar o rifle com mira noturna de forma a apontá-lo para as janelas do primeiro andar da construção.
— Tente entrar na chamada daqui a dez minutos — Billy disse, e seguiu contornando o terreno.
O sulista do Alabama rumou decidido pelos contornos dos muros. Agachando-se pelo mato alto que crescia próximo, o homem topou com poucos errantes, apenas três. Todos esqueléticos, parecendo adolescentes esquálidos em decomposição. Eliminou-os sem esforço, quase em silêncio, os derrubando no chão com golpes de seu rifle e esmagando suas cabeças apodrecidas com suas pesadas botas de fazendeiro.
Ao chegar aos fundos do casarão, pôde ver uma janela iluminada. A luz bruxuleante e intermitente o lembrava dos lampiões que usava em sua fazenda quando tinha de lidar com blecautes.
Piscou os olhos, sentindo o coração afundar e saltar ao peito. Vira uma silhueta se mover por trás das cortinas fechadas, e distinguiu os contornos daquele rosto. Mesmo à distância, pôde reconhecer.
Mavelle estava lá.
Billy Ray levantou o walkie-talkie roubado. Ligou-o, e logo ouviu o som de sua chamada sendo interceptada.
— E então, Park, matou todos? — Escutou uma voz masculina sair do aparelho.
— É Park quem está morto — Billy Ray respondeu, sua voz grave e firme, sem hesitar.
O mesmo não se podia dizer do receptor do outro lado. Billy pôde ouvir o som da respiração incerta do sujeito, bem como algum sussurro urgente incompreensível. Não estava sozinho, como o sulista imaginara.
— Park e todos os outros — Daryl entrara na chamada, compartilhada pelo homem do Alabama e o Salvador desconhecido. Billy Ray quase soltou um sorriso cruel.
— Você e quem mais estiver te acompanhando vão fazer o seguinte: deixem as moças irem. Vocês vão sair com as mãos livres e depois elas saem. Se fizerem qualquer coisa diferente, não vão viver para ver o próximo amanhecer — ameaçou Billy Ray, sua voz carregada de certeza.
— Vocês acham que somos idiotas? — o sujeito do outro lado da linha riu seco. — Se tentarem qualquer coisa contra nós, elas vão morrer. E vamos deixá-los assistir... — A voz do sujeito ficou mais baixa, soando mais clara, porém. — ...Para, quando Negan chegar amanhã, acertar as contas com vocês — o Salvador parecia tão seguro de sua fala quanto Billy Ray.
— Você já está morto, seu filho da puta — Daryl prometeu em grunhidos repletos de ira mal contida.
— Pelo visto, vocês não só acham que somos estúpidos, como são burros por si só. Caipiras... — debochou o capanga, reconhecendo o sotaque do interior de ambos. — Vocês não nos assustam... Serão apenas outros escravos de Negan.
****
Ela ainda depositava um olhar imperturbável naqueles olhos castanhos muito conhecidos. E, em dias passados... Tão queridos para si.
A garota pouco a pouco tomava consciência do que acabara de falar, decidida, em voz alta e clara. Sem titubear por um instante. Como uma reação atrasada, a força das palavras que proferira a atingiu de súbito, assemelhando-se ao impacto de uma bala perfurando seu peito sem aviso.
Mavie finalmente assumira o que sentia por Daryl. Não era apenas um parceiro de aventuras, em vários sentidos possíveis. Não era somente um amigo querido. Não era apenas um homem que a atraía com uma intensidade tamanha que por vezes deixava suas pernas bambas a um mero olhar lascivo direcionado para ela. Não era somente um cúmplice, ou alguém tão próximo que sentia que fazia parte da sua própria família, a família que construíra naquele novo mundo.
Daryl era o homem que ela amava. Mais do que tudo, mais do que qualquer um no mundo.
Ela demorou a perceber que Jeffrey parecia mover os lábios. Sua voz vinha de muito distante, e a irlandesa demorou a assimilar o que dizia.
— ...Eu mereci isso — seu ex-noivo admitiu, suas íris castanhas embaçadas, como se estivesse se esforçando para conter o choro.
Sons de passos afoitos próximos da porta logo interromperam Gallagher. Batidas urgentes na superfície de madeira foram escutadas pelos ex-consortes.
— Jeffrey! Precisamos de você lá embaixo — urgiu Archie, o Salvador acima do peso, de bigode de pirata e fios grisalhos.
O outrora noivo de Mavelle fez menção de sair apenas acompanhado do capanga, que colocou o braço na porta, impedindo o líder de deixar os aposentos.
— Precisamos levá-la também. Logo vai entender — o homem grisalho insistiu, atarantado. Mavie conteve um sorriso. Aquilo era um sinal claro de que algo não correra conforme o esperado pelos Salvadores.
Jeffrey hesitou. Olhou de Mavelle para o homem, incerto.
— O que aconteceu, Archie? — perguntou Gallagher, cauteloso.
— Chefe... — o homem grisalho estreitou os lábios, olhando para as escadas, apressado. — Precisamos agir rápido. Eles nos acharam.
Mavelle Berry sentiu uma sensação de triunfo preencher seu peito.
— Vamos — Jeffrey soltou em um murmúrio, olhando para o piso de madeira. Seria dúvida o que Mavie enxergara em seus orbes escuros?
Ela foi levada por Archie para baixo, enquanto Jeffrey seguia na frente, descendo as escadas com rapidez. No primeiro andar, dirigiram-se até a recepção, aonde Kevin, o Salvador quase calvo, tinha os olhos claros arregalados.
— Dois deles estão falando com o Dwight — avisou em um sussurro quase inaudível. Mavelle viu Jeffrey seguir a passos amplos até o homem referido.
— ...Serão outros novos escravos de Negan. — Mavie escutou o sujeito de cabelos amarelos dizer ao mesmo tempo em que Jeffrey puxava o walkie talkie de sua mão e o desligava.
— Mas que porra você pensa que está fazendo?! — reclamou Jeffrey, parecendo lívido de raiva, seus lábios e pálpebras tremelicando.
— Recebi a chamada. Achei que era Park, estava demorando... — Dwight se empenhou em justificar, porém Jeffrey continuava insatisfeito.
— E denunciar nossa posição? Foda-se o Park! — exclamou Gallagher, visivelmente aturdido. A irlandesa reparou que a expressão de Dwight mudou. Como se ficasse chocado com o fato de que o líder daquele pequeno grupo não dava a menor importância para outro Salvador.
— Qual foi, Jeffrey? O moleque não tinha nem vinte anos! — o abusador de Rosita falou, o irlandês chamado Lorcan, sentado próximo ao corpo dela, desmaiada.
— Foda-se o Park e fodam-se os outros! — reiterou Jeffrey. —Esses doentes queimaram a base da cutelaria e fuzilaram todos que a mantinham! Precisamos proteger esta base por Negan, sabe o que vai nos acontecer se fracassarmos?!
Todavia, antes de maiores reprimendas de Jeffrey ao seu bando, Mavie ouviu um ruído que disparou seus instintos de caçadora. O som de uma bala estourando um vidro próximo. Jogou-se ao piso da recepção imediamente. Em seguida, movimentou o rosto para enxergar o que o projétil atingira. A bala que destruiu a janela perto da porta de entrada atravessou o crânio de Lorcan, calando o irlandês para sempre.
Seu corpo tombou por cima do de Mavie, estirado no chão. O compatriota assassinado quedou em um ângulo de noventa graus contra as suas costas. Ela comprimiu uma exclamação de dor ao sentir o peso do corpo morto caindo na altura de sua cintura, molhada pelo sangue do irlandês banhando seu corpo.
— Puta merda — bradou Archie, abaixando-se perto do sofá. Kevin se atirou ao chão logo depois de Mavelle, assim como Dwight. O único que continuava de pé, a balestra em suas mãos junto ao arco de Mavie atravessado em seus braços era Jeffrey.
A irlandesa olhou para cima, fitando o ex-noivo, imóvel. Compreendeu porque ele não se movera.
A luz rubra de uma mira sniper estava fixa em sua testa. Bastava apenas um disparo e Jeffrey seria o segundo cadáver daquela sala.
Aquilo trouxe uma mescla de satisfação e desconforto para Mavelle. Queria que ele morresse. Mas queria que fosse por suas mãos. Tinha de ser a sua vingança. Fora ele quem arrancara de si seu filho, o filho dos dois. O pai que assassinara friamente seu bebê. Como mãe, como a mãe que queria ser e nunca pôde, daquele filho que jamais conheceria... Mavelle Berry sabia que era ela quem deveria lhe tirar a vida. Na mesma moeda de pagamento.
Ouviram zumbidos vindos do rádio comunicador nas mãos de Dwight. O único som presente no silêncio absoluto que se abateu pela sala.
— Atenda — Jeffrey Gallagher ordenou, sua voz fria. Novamente voltando a agir como o Jeffrey líder daquele grupo de Salvadores, que parecia frio, cruel, severo. Mas Mavelle já vira por trás dele. Ele não mudara.
Continuava o mesmo covarde. O mesmo egoísta de outrora, um homem que pusera a própria segurança na frente daqueles que liderava.
O assecla loiro cumpriu a ordem, e logo escutaram:
— Saiam com as mãos acima do corpo.
O coração de Berry entrou em disparada. Reconhecera a voz de Dixon, e outro misto de emoções explodiu dentro dela. Alívio, temor, preocupação, ansiedade, todos misturados, palpitando junto de seus músculos cardíacos.
Jeffrey Gallagher e o homem loiro com o comunicador trocaram um olhar. Logo Dwight se levantou, com as mãos para cima, e Kevin e Archie passaram a imitá-lo. Caminharam em direção a porta.
Jeffrey, porém, não estava decidido a se render.
Levantando a balestra enquanto se lançava na direção do chão, o ex-noivo de Mavelle soltou uma flecha contra a nuca de Kevin, enquanto este estava de costas. O homem caiu contra a parede, escorregando e a sujando com seu próprio sangue, instantaneamente assassinado.
Archie e Dwight tentaram reagir, mas a mira que antes estava disposta em Jeffrey agora atirara contra as costas do Salvador acima do peso, o derrubando no chão, ao passo que ele exclamava de dor. Assustado, o homem loiro de rosto marcado tentou se jogar ao piso para se proteger de outro tiro de Daryl.
Todavia, seu líder desprendeu uma flecha em suas costelas, e Dwight foi atingido com um berro angustiado escapando de seus lábios.
Mavelle, estupefata, apenas assistiu Jeffrey tentar matar a sangue frio dois de seus comparsas. O homem empunhando a balestra a fitou e disse, longe da mira sniper:
— Vou te tirar daqui — garantiu Jeffrey Gallagher, como se tivesse a pretensão de salvá-la. Mavie piscou os olhos enquanto o ex-noivo, tomado por algum tipo de resolução impetuosa, a tirava do chão e a arrastava corredores adentro.
Mavelle tentava se desvencilhar, os pulsos ainda amarrados na densa silver tape, mas a decisão pela qual seu ex-cônjuge fora acometido o deixara mais forte. Não poderia lutar contra ele assim, em desvantagem.
De súbito, o chão tremeu. Os dois caíram no piso de madeira sujo de poeira e restos diversos, os ouvidos da irlandesa tinindo enquanto ouvia quadros pendurados nas paredes retinirem, se soltando e quedando ao chão, os vidros despedaçados com o abalo. Algo explodira do lado de fora. E, pelo que Mavie pudera reconhecer... Fora o som de uma granada detonada.
Jeffrey se levantou antes dela, desequilibrado, a arrastando. A irlandesa o fitou, assimilando sua reação determinada, animalesca, quase. Rangia seus dentes, e seus olhos escuros exibiam uma expressão bestial. Um predador carregando a própria caça, temendo que ela fosse roubada de seus braços por outro, mais apto e poderoso.
Ele a fez subir as escadas, a levando até um quarto que dava aos fundos do asilo. Ali havia uma varanda, fechada por uma porta dupla envidraçada, já partida pela explosão da granada. Jeffrey Gallagher quase a empurrou para fora, e Mavelle Berry por um segundo irascível temeu que ele fosse atirá-la dali.
Seu ex-noivo tirou uma faca do bolso, cortando a silver tape que enrolava os punhos da garota da Irlanda.
— Temos que pular. A explosão está queimando tudo! — Indicou com a balestra que apontava para Mavelle diversas árvores em chamas, assim como as cercas de madeira que se partiam e liberavam carniceiros, suas carnes apodrecidas agora também pegando fogo.
Ela pestanejou, e moveu a cabeça em negativa.
— E se torcermos os pés? Vamos ser devorados! — redarguiu a irlandesa, raciocinando em meio à loucura de Jeffrey.
— Não há tempo para pensar nisso! Eu te carrego se for preciso! — prometeu o homem de olhos castanhos, suas feições contorcidas, totalmente fora de si. Vendo que sua ex-noiva não estava convencida, apenas assustada, ele se aproximou ainda mais e bradou:
— Pule, Mavie, ou vou ter que te empurrar!
Mavelle olhou para trás e para Jeffrey. Se vacilasse, mais chances teria de morrer. Pelo incêndio, pelos carniceiros, pela própria insanidade do homem próximo dela.
Reunindo coragem, a irlandesa recuou, correu e se lançou para o chão. Era uma queda de pouco mais de três metros de altura. Mavie comprimiu um grito enquanto sentia seu estômago revirar pela sensação de queda livre por menos de um segundo.
Caiu ao chão em um rolamento torto, machucando mais seu braço direito do que suas pernas. No segundo seguinte já se erguia em uma corrida desenfreada, e olhou para trás.
Jeffrey também saltara, e atirara seu arco e sua aljava de flechas para perto dela. Ele recolhia a balestra da grama enquanto Mavelle atravessava a fáretra em suas costas, pegando seu arco do solo.
Carniceiros queimados, parecendo tochas humanas em movimento, cercavam-nos todos os lados. Apavorada, a irlandesa queria apenas correr sem parar até enfim encontrar Daryl.
Ela se lançou desesperadamente contra as grades assim que as alcançou. Escalou-as, subindo com cuidado pelo ferro pontudo, evitando se cortar com o metal enferrujado. Em segundos, estava do outro lado.
E enfim olhou para trás, levantando uma flecha pronta no cordel.
Jeffrey cambaleava até o muro. Não conseguiria chegar a atravessá-las. Fora ele quem machucara uma das pernas, a esquerda, que agora arrastava em passadas tortas como as de mortos-vivos.
Atrás dele, uma fileira imensa de carniceiros em chamas se aproximava.
Mavelle sentiu seus próprios braços baixarem. Piscou os olhos, enquanto Jeffrey Gallagher segurava as grades, e um errante mordia seu ombro, arrancando sua carne e sangue. O coração de Mavie ribombou em seu peito. Seus braços se mantinham parados, nem abaixados nem erguidos.
Em sua mente, memórias do rapaz simpático que conhecera na Irlanda foram rememoradas sem que pudesse evitar. A noite que o conhecera no pub aonde se apresentava e cantava. Todas as investidas e os flertes. Suas viagens. As fotografias que tirara dela. O pedido de noivado.
A expressão que ele fizera quando lhe contara que estava grávida.
Outro morto-vivo em chamas puxou o braço direito de Jeffrey, deslocando o membro do corpo do sujeito que apenas pôde gritar de dor. Mordeu sua mão, arrancando seus dedos em um mastigar decidido.
Mais um carniceiro cercou seu ex-noivo. Dessa vez, o prensou contra a grade, suas unhas compridas rasgando o casaco e a camisa de Jeffrey para alcançar sua pele, se fartando com seu sangue e carne quentes. Passou a devorá-lo na altura das costelas, e Gallagher apenas gritava ao ser consumido pelo fogo e por bocas famintas apodrecidas.
O queixo de Mavelle caiu, tremendo. Ela sentiu que lágrimas subiram aos seus olhos. Odiava Jeffrey. Odiava-o mais do que qualquer outra pessoa no mundo.
Mas Mavie Berry enfim percebeu que nenhuma pessoa merecia uma morte daquelas. Nem mesmo Jeffrey. Deixá-lo morrer naquele sofrimento tamanho seria se equiparar a covardia de seu ex-noivo.
Ela levantou o arco com a mesma flecha ainda preparada. Jeffrey parara de gritar.
Pôde apenas trocar um último olhar com a irlandesa e tartamudear uma frase. Mavelle não escutou, mas leu seus lábios, antes que as chamas rodeassem o corpo do homem.
“Por favor, fuja”
A flecha penetrou o crânio de Jeffrey Gallagher. E assim ele deixou sua vida, e o corpo que agora servia de alimento para outros predadores que vagavam pelo mundo.
Mavelle Berry tropeçou ao recuar alguns passos. Os ruídos da detonação certamente atrairiam mortos-vivos. Podia ouví-los à distância, misturados ao som dos grunhidos dos carniceiros queimando perto dela, junto a tudo o que restou do asilo.
Rosita.
Mavelle pensou, e chorou. Não tinha mais forças. Estava em choque depois da terrível cena que presenciara. Aquele mundo era cruel demais. Além do suportável.
Mavie tentou se arrastar para trás, mas seu corpo não a obedecia. Sua amiga morreria por sua culpa, porque não conseguira salvá-la. Talvez até mesmo Daryl morresse em meio aquela confusão.
Aquele pensamento a muniu de um novo impulso. Conseguiu se colocar de pé, cambeteando, e tentou contornar o terreno até a frente da entrada. Quando estava no meio do caminho, ladeando a estrada à esquerda, se viu cercada de mortos-vivos, multidões que avançavam famintas.
Ela usou todas as suas flechas, até sentir sua visão obscurecer. Eram muitos.
O céu amanhecia, mas seus olhos viam apenas a escuridão. A cena de Jeffrey queimando e morrendo devorado parecia prensada em sua mente, ao mesmo tempo em que não conseguia tirar a imagem de Daryl de seus pensamentos.
Mavie cambaleou mais uma vez e caiu de costas ao chão. Mãos e braços chegavam perto de seu campo de visão, e ela estava prestes a fechar os olhos.
Quando ouviu rajadas de tiros.
Com muito esforço, ela se ergueu em seus próprios cotovelos e olhou para trás. Billy Ray e Daryl Dixon avançavam impávidos, metralhando fileiras e fileiras de mortos-vivos, os derrubando como bonecos de pano ao asfalto. Atrás deles, Rosita, torcendo os olhos em uma careta de dor, usava a arma sniper com mira noturna para acertar com destreza cabeças de carniceiros.
Dixon correu em sua direção, e Berry tentou apenas erguer os braços para ele, que mal lhe obedeceram. O arqueiro recolheu seu arco do chão, atravessando-o em um de seus braços, e a enlaçou, levantando-a em seu colo. Mavelle escondeu seu rosto no peito do caçador, sentindo um pouco menos do frio horrível que parecia gelar seu corpo e sua alma.
Estava tão fraca. Abatida não só por toda a violência sofrida, mas por tudo que testemunhara.
Os quatro se afastaram daquele lugar perigoso assim que a amiga latina da irlandesa e o sulista do Alabama abateram mortos-vivos o suficiente para não se sentirem ameaçados. Alguns quilômetros à distância, Daryl ainda carregava Mavie em seus braços, que não fizera menção de sair dali. Pelo contrário, aconchegou sua cabeça entre o queixo, o pescoço e os ombros dele, o abraçando com o resto das forças que detinha.
Billy Ray e Rosita Espinosa estavam um pouco à frente, os guiando para longe daquela base dos Salvadores.
E Mavie assim se virou para o caçador que a tinha consigo. Não só seu corpo estava em seus braços. Seu coração há muito era dele. Sempre seria, ela percebera.
— Pelo amor de Deus, Esquila, pare de tentar se matar — sussurrou Daryl Dixon, finalmente lhe dizendo algo. Mavelle Berry ergueu os olhos para ele, e sorriu um sorriso curto e sincero. De uma honestidade arrebatadora, como o que lhe confessaria a seguir.
— Eu te amo, Daryl — Mavie disse enfim, encarando o arqueiro que a carregava. Dixon parou de caminhar, pestanejando, como se acometido por surpresa tamanha que fosse impedido de andar.
Ela sorriu novamente, fechou os olhos e adormeceu em seus braços.
****
[AO ENTARDECER DO DIA SEGUINTE]
Não.
A mulher tinha suas mãos rijas ao volante. Seus dedos tão hábeis afixados como garras no couro falso, a última frase escutada ressoando em sua mente inúmeras vezes:
“Saiam do carro e vamos ter uma palavrinha, em nome de Negan!”
O timbre masculino se repetia mentalmente, reverberando sem parar em seus pensamentos. Seu corpo todo ficou retesado, cada músculo e tendão duros como pedra.
Pensou no Governador. Gareth. Jed. Wolves.
Hashimoto.
E, em apenas um intervalo de respiração, ela decidiu:
Nós não nos rendemos.
— SEGUREM FIRME! — Michonne clamou, pisando fundo no acelerador. Carol Peletier, sentada ao lado do banco do motorista, na parte frontal do trailer RV, apenas pôde lhe dar um olhar pasmo.
O trailer zuniu pelo asfalto, cantando poeira ao atropelar brutalmente a centopéia humana feita de errantes costurados para travar o caminho, atravessando a carne podre sem dó.
O RV avançava com ímpeto ao passo que a mulher de dreads pisava com todas as forças no acelerador, destroçando os mortos-vivos. Mal conseguia segurar o volante. O trailer seguia adiante descontrolado, separando os membros dos corpos de diversos errantes costurados uns aos outros.
Michonne torceu o nariz ao escutar os ruídos grotescos de carne sendo triturada ao peso do automóvel comprido. Braços, pernas e cabeças eram esmagadas pela força do trailer, mas aquela estratégia seria um esforço em vão.
Para a completa desesperança da espadachim, o bloqueio não havia sido feito apenas de carne humana decomposta e placas soltas. Vigas de concreto e outros gêneros de material pesado foram sedimentados junto ao asfalto para impedir a travessia e escapatória de qualquer um que ousasse deixar Negan para trás.
Eu tentei, Rick.
Eu tentei meu melhor.
Michonne sentiu sua respiração ficar descompassada. Seus lábios entreabriram-se no momento do impacto inevitável.
Piscando os olhos, a espadachim teve a chance de ver Tucker, Redmond e Eugene gritar. O tio da jovem garota vinda de Hilltop se encolheu em si mesmo, assim como o ex-professor de ciências, preparando-se para o impacto. Hayes, contudo, pareceu tentar se mover de maneira a alcançar o banco da frente do trailer. Michonne apenas teve tempo de puxar Carol um segundo antes da colisão, para impedi-la de ser atirada para fora do veículo.
A frente do RV foi amassada por perigosos centímetros ao colidir com uma barreira de concreto construída em meio à estrada. O vidro do painel dianteiro se despedaçou, partindo-se em ruídos ensurdecedores junto às peças responsáveis pelo funcionamento do motor.
O baque atingiu a todos sem piedade. As duas mulheres caíram para trás dos bancos frontais, quicando contra o carpete e forros dos assentos assim que a batida se deu.
O cheiro de fumaça e carne em decomposição empesteava o trailer, surgindo das engrenagens comprometidas. A espadachim machucara a têmpora direita, e começara a sentir tontura e uma forte dor de cabeça como se parte de sua testa tivesse colidido ela própria contra a barreira de concreto.
Sua cabeça fervia, e ela logo sentiu um líquido quente descer até suas bochechas. Cortara-se. Levou uma das mãos à têmpora ferida, e a dor apenas aumentou em pontadas insuportáveis.
Abaixou os dedos com rapidez, ao passo que tentava se concentrar na cena à sua frente. Tucker amparava Carol, segurando-a pelos ombros. A mulher de cabelos grisalhos desmaiara. Michonne tentara impedir que batesse sua cabeça com força contra o carpete do trailer, mas pelo visto não fora bem sucedida. A mulher de dreads tinha breve consciência de que o rapaz de olhos azuis a fitava ensandecido, olhando dela para Carol, e perguntando algo como “você enlouqueceu?!”
Redmond e Eugene, contudo, não se preocupavam tanto com o cenário dentro do RV. Seus olhos estavam fixos na paisagem do lado de fora.
Nela, o grupo de dezenas de homens que impedira sua passagem já havia cercado o trailer dos alexandrinos: Salvadores armados com bandoleiras, rifles de assalto e artilharia de guerra.
“A hora chega para todos nós.”
Michonne se recordou do que seu ex-companheiro costumava dizer, quando ainda sobrevivia com Andre, seu filho, no campo de refugiados.
E nós tentamos postergar essa hora ao máximo. Lembrou-se do que lhe respondia sempre. Ela assim pensava, no início de todo o horror da infecção, por conta de seu filho. Tinha de mantê-lo vivo.
Mas Andre já tinha partido. Deixara aquele mundo de sofrimento, junto a um rombo doloroso em seu coração que jamais cicatrizaria.
Tucker Hayes ainda berrava consigo, fora de si, abraçando Carol Peletier como se aquilo pudesse protegê-la dos Salvadores que já se punham a abrir a porta do trailer. Redmond Lewis e Eugene Porter se arrastavam para trás do veículo, tentando se esconder do inevitável, o antes suposto cientista balbuciando a Hayes palavras de consolo para acalmá-lo.
Seria tão ruim? Ela não pôde controlar o pensamento. Depois de tudo, do Exército de Wyoming County, do hospital Grady Memorial, de Terminus, de Woodbury... Estavam tão cansados. Tão modificados. Já não eram mais os mesmos de antes, há muito deixaram de serem os sobreviventes com alguma esperança naquele mundo esquecido por Deus. Sem esperança em possíveis vestígios de bondade remanescentes na humanidade.
Ela sabia que não estava pronta. Hashimoto a provara aquilo. Ainda era fraca. Ainda podia perder. Ainda seria derrotada. Era apenas uma questão de tempo. Uma contagem regressiva até a bala, lâmina ou mordida certeira que a faria parar.
Fitou os inúmeros canos de fuzis que começavam a ser apontados para dentro do trailer. Levantou-se, erguendo as mãos, assumindo para si a responsabilidade pela tentativa suicida de fuga.
Seria mesmo tão ruim se acabasse agora?
Afinal... Poderia ver seu filho de novo.
Aquele pensamento a trouxe um sentimento de consolo mesclado a alívio e perturbação. Seus dedos tremeram, assim como seus joelhos.
Assim que pôs os olhos no rosto do Salvador que abria um sorriso de escárnio para si, outra imagem lhe veio à mente. O sorriso perverso de Hashimoto, seus olhos sem alegria, e tudo o que ela fizera contra Alexandria. Contra Carl. Contra Rick.
Recordou-se da imagem do filho de Grimes com o curativo em seu olho direito. De testemunhar o desespero do líder de Alexandria, dia e noite velando o corpo desacordado do menino. E, de súbito, lembrou-se de inúmeros outros momentos junto aos dois. Bons e ruins. Divididos ao longo da estrada junto a Rick e ao menino que tanto parecia com seu pai, após seu reencontro quando a prisão fora destruída pelo governador. Lembrou-se de como lhe doía, como a revoltava ter de ver aquele garoto tão bom tendo sua inocência, ingenuidade e parte de sua juventude roubada de si por sujeitos como o Governador. Como Gareth. Como Jed. Como Hashimoto.
Como Negan.
Nós não nos rendemos.
Michonne foi tomada de uma fúria gelada, determinada. Seus instintos de espadachim estavam aflorados, impulsionados por algo a mais, algo mais forte, que há muito fincara raízes em seu âmago, quando descobriu estar grávida de Andre.
Seu instinto maternal.
Manteve os braços levantados, seus olhos escuros fuzilando as íris do Salvador que a mandava sair do trailer e largar sua katana.
— Sem gracinhas, mucama** — falou o sujeito racista. Alguns dos homens que o acompanhavam riram. Não havia nenhuma mulher por perto. — Conte cinco passos, bem longos, e se afaste. Depois, pode deixar a espada bacana de presente para nós. — Deu uma piscadela debochada, se dirigindo a Michonne como se ela fosse uma escrava pela cor da sua pele. Em seguida, colocou mais algumas balas no pente do fuzil.
A mulher fingiu obedecer, em silêncio por todo o tempo. Aquele tipo de ofensa preconceituosa há muito não tinha efeito sobre si. Não tinha medo dele, de nenhum deles.
Com uma mão lentamente seguindo até o cabo da espada, calculou quantos Salvadores poderia matar antes de ser fuzilada. Talvez pudesse eliminar o suficiente para que desse a chance de Tucker, Eugene, Carol e Redmond contra-atacar e fugir.
— Se decidirmos te deixar viva, pode ter muita sorte! Negan é generoso. Acho até que te deixa dormir na Casa Grande! — o homem continuou a debochar. Os dedos de Michonne se crisparam na bainha de sua espada.
Em seguida, seus tímpanos quase estouraram, surpreendidos por ruídos ensurdecedores.
Ela pôde apenas arregalar os olhos enquanto sentia uma força colossal a empurrar para trás, lançando-a para o ar a quase um metro e meio de distância do local onde antes estava parada. Seus orbes escuros puderam apenas distinguir labaredas enormes surgindo instantâneas como que do nada, em meio ao ruído ressonante como se um trovão surgisse do concreto, rasgando a estrada ao meio. Consumindo os Salvadores e os restos de mortos-vivos que ainda sobravam presos entre si.
Ela caiu de costas no asfalto, tossindo. Uma fumaça preta já se erguia metros a sua frente, chamas devorando as motocicletas e corpos dos Salvadores. O trailer fora empurrado para o lado pela força da detonação poucos metros distantes, mas não fora atingido. Quem quer que decidira mandar os Salvadores pelos ares fizera aquilo de modo friamente calculado.
De lábios entreabertos, a respiração pesada elevando o peito, a mulher apenas pôde passar uma de suas mãos no ferimento profundo em sua testa, que ainda sangrava. Seus verdadeiros salvadores logo se revelaram.
— Hoje com certeza não foi um bom dia pra sassaricá*** por aí! — Billy Ray Holloway, o homem caipira do Alabama descera pela encosta próxima, disfarçado entre as árvores. Ela ouviu uma buzina alta, e logo olhou para trás. Dois carros surgiam: um que ela reconheceu ter sido emprestado a Mavelle, Denise e Rosita para uma missão de coleta de medicamentos. Daryl o dirigia, a irlandesa desacordada no banco da frente. Atrás, Michonne reparou que Espinosa se sentava, portando um fuzil sniper M-14 com o cano para fora da janela.
Atrás deste veículo, outro buzinava, menos sonoro. A espadachim logo aferiu que era guiado por Gaspar Sandoval, o namorado de Jesus, um recém-chegado de Hilltop. Seu companheiro era outro que dormia no banco do passageiro, sua cabeça pendendo suave pelo encosto.
A habilidosa sobrevivente caminhou com esforço até o trailer. Perguntou a Billy o que acontecera, e este lhe explicou que seria uma história complicada a ser contada, resumindo-a em poucas palavras:
— Nossa noite foi bem longa. Escapamos de uma das bases deles de manhã e tentamos voltar para Alexandria pelas rodovias principais. Estão todas infestadas de carniceiros. Passamos o dia tentando retornar, então, como último recurso, decidimos pegar essa rota. — O sulista do Alabama coçou a barba cheia, e Michonne reparou em suas olheiras profundas e encovadas. Parecia fatigado.
— Gaspar nos avisou para ficarmos espertos quanto mais próximos seguíssemos de Washington. Esses estrupícios estão querendo bancar os milicianos — esclareceu Billy Ray, em todo seu sotaque e expressões do interior, se referindo aos Salvadores.
Do trailer virado na estrada, Tucker Hayes já saía, sustentando o corpo de Carol Peletier, um dos braços da mulher passado em seus ombros. Daryl fora andando a passos solícitos até o rapaz, provavelmente preparado para ajudá-lo a levar a amiga que já acordara. Michonne reparou que havia um corte sanguinolento na altura do supercílio de Carol. Billy Ray já auxiliava Redmond, que torcera a perna, a deixar o veículo. Eugene não tinha ferimentos, e saiu sozinho, agradecendo e recusando a ajuda disponível.
Ainda acometida pela grave dor de cabeça, sua testa sangrando, Michonne ignorou os pedidos de Daryl para que se sentasse no banco de trás do veículo de Gaspar, permitindo que logo pudessem partir. Com a adrenalina a mil por hora, a espadachim escutara algo. Algo quase indiscernível. Mas que ela tivera certeza do que era assim que ouvira: um som humano, de um humano vivo, quase ganindo de dor.
Caminhou com o máximo de agilidade que podia na direção do som, sendo seguida por um surpreso Billy Ray. Atônito, o caipira lhe lembrava de que ela tinha batido a cabeça e perdido muito sangue, mas a espadachim o ignorou, seguindo o ruído. Depois de andar poucos passos mata adentro, saindo da estrada, encontrou o que previra, rastejando pelo bosque próximo.
Nem todos os seguidores de Negan tinham sido incinerados pela explosão da granada de Billy Ray. Um havia sobrevivido. Sem uma perna, se arrastando pela grama manchada pelo sangue de seu membro arrancado, como um errante em estado precário.
O homem olhou para Michonne, percebendo sua aproximação.
— Por favor... — tentou implorar. A mulher se inclinou. Em seguida, segurou na bainha fechada de sua espada, virando o cabo na direção do sujeito.
— Nós não nos rendemos — salientou a espadachim, fazendo o antes algoz desmaiar à força.
****
[DURANTE O MESMOANOITECER]
— Vocês realmente têm muita estrutura — a garota comentou, boquiaberta, seus olhos castanhos escuros revelando admiração ao fitar a construção que já se elevava a cerca de sete metros de altura.
Ela sorriu pelo comentário. A nova moradora de Alexandria talvez não tivesse percebido, mas sua frase tinha uma espécie de duplo sentido.
Estrutura física e estrutura mental. Pensou a garota de cabelos ondulados, bebendo um grande gole da limonada que preparara para si mesma em sua garrafa térmica de uma conhecida rede de academias. Limpou as bochechas com a manga do grosso casaco de moletom amarelo.
— Você se acostuma — respondeu Peggy Taylor, não dando a Delilah Feld mais do que um sorriso curto e um olhar rápido. A garota novata era sobrinha do engenheiro que viajara com Tucker e outros naquele dia para a segunda jornada na fábrica de balas montada pelo arquiteto e por Eugene. Delilah parecia se esforçar para conversar durante aquele dia e mostrar disposição e boa vontade para Peggy. Talvez querendo lhe impressionar de alguma forma.
A garota não se sentiu em nada movida por tais gestos. Sentia mais uma espécie de compaixão resignada por Lilah do que qualquer outra emoção; a garota não lhe despertava muita confiança, pois aparentemente fora o tipo de pessoa que sobrevivera ao caos do novo mundo por pura sorte. Sempre tivera muros resistentes perto de si e pessoas preparadas para lidar com as situações de fato aterradoras em seu lugar.
Peggy chegou a essa conclusão facilmente, pois se viu na própria menina. Feld lhe contou que não sabia atirar e que não tivera oportunidade de aprender, tendo em vista que logo que ela e seu tio chegaram a Hilltop lhe designaram posições que não se relacionavam com as funções de segurança e manuseio de armas, fossem lâminas, lanças ou armas de fogo.
Taylor já havia sido assim: dependente, tola, frágil, manipulável. E coube apenas a ela a decisão de mudar. Em algum momento, a realidade cobraria essa escolha de Delilah também: teria de endurecer ou morrer. Contudo, Peggy não estava disposta nem motivada a lhe adiantar essa verdade.
— Bem, obrigada por ter me ajudado hoje. Sei que devo ter sido um pé no saco. Eu fico bem falante, mais do que de costume, quando ainda não conheço muito bem o ambiente! — A outra jovem sorriu sem graça. Peggy Taylor lhe deu outro de seus curtos sorrisos reservados. Deveria estar deixando à mostra que praticamente sentia pena da outra garota, pois Feld se mostrava um tanto embaraçada.
Aquilo era tão estranho. Ela dizia já ter dezenove anos, em breve faria vinte. Era quase três anos mais velha do que Taylor e parecia mais nova aos seus olhos.
Sem pretender, a garota de cabelos ondulados se lembrou de Aiyana. Tinham apenas um ano de diferença, Aya na época com dezessete e Peggy com dezesseis, mas a melhor amiga exibia uma maturidade anos adiante de Taylor. Recordou-se de como a atiradora de facas costumava dizer que a filha de Dakota era “fofa” toda vez que tentava lhe provar que não era tão ingênua quanto à indígena parecia julgá-la.
Peggy Taylor sentiu suas orelhas queimarem. Mordeu o lábio inferior. Provavelmente enrubescera, porque se sentiu envergonhada de súbito. Estava sendo cretina. Se Aiyana não tivesse sido tão paciente com ela, teria Peggy evoluído tanto? A amizade das duas fizera toda a diferença na vida de Taylor, para seu crescimento.
Ela fitou os olhos castanhos escuros de Delilah, finalmente sentindo alguma empatia pela menina.
Será que Lilah estava em busca de algo parecido? Algo que a Peggy daquela época buscara e encontrara na melhor amiga? Ela conhecia Aiyana. Se pudesse de alguma maneira vê-la naquele momento, sabia que a menina indígena a censuraria. Certamente não gostaria que a amiga desse as costas para a novata.
Peggy fechou os olhos, respirando fundo. Continuava aprendendo com Aya, mesmo depois que deixara este plano material.
— Está tudo bem? — Lilah perguntou, revelando preocupação legítima. O jeito efusivo e um pouco doce demais daquela garota lhe irritava um pouco, mas talvez apenas fizesse parte da sua inocência.
— Sim. Escuta, seu tio ainda não voltou, não é? — indagou. Delilah meneou a cabeça, e a consternação em seu rosto piorou. Putz.
Peggy logo se pôs a consertar. — Espera, relaxa, essas missões demoram mesmo. Perguntei isso porque queria sugerir de tomarmos um suco na casa da Olivia. Ela faz umas vitaminas e batidas diferentes, são boas para se refrescar depois de um dia de trabalho desses — ofereceu o convite.
Heath passou atrás de Delilah, carregando uma viga metálica junto a Rebecca, que volta e meia olhava para Peggy. Taylor não compreendia a súbita proximidade da circense loira e seu novo interesse por si. Sentia que aquilo tinha algo a ver com Moritz.
— Ela sabe fazer um chocolate quente matador também — se esforçou para dar um sorriso mais gentil — Se não quiser tomar algo gelado...
— É claro! Com certeza, vamos sim, digo, vou sim! — Delilah respondeu com entusiasmo sincero e desajeitado. Peggy não pôde deixar de rir. A honestidade atabalhoada daquela garota era natural, não se fazia de sonsa como ela desconfiou de início.
— Certo. É só um chocolate quente, calma — riu Peggy, terminando de beber a limonada e indicando o cooler onde guardavam isotônicos e outras bebidas. Lilah pegou uma garrafa de água mineral e seguiu a garota.
Quando já tinham atravessado as fronteiras entre as construções além dos muros da comunidade e a própria Alexandria, Taylor já se punha a tentar puxar assunto com a outra garota.
— Você e seu tio estão juntos desde o começo? — indagou, tentando demonstrar interesse. Lilah baixou os olhos para a calçada em que caminhavam, as mãos escondidas nos bolsos.
— Ah, sim. Bem antes dos apodrecidos. Sempre estivemos juntos, na verdade — contou Delilah. Peggy reparou que tinham quase a mesma altura. Lilah deveria ter apenas uns três centímetros a mais, no máximo. Contudo, seu físico era mais desenvolvido que o de Taylor. Aquilo contrastava com sua personalidade desajeitada e inocente. Mesmo em meio às roupas de inverno, ela podia perceber que Delilah tinha um corpo chamativo e bonito, tipo “violão”, com curvas e seios grandes. Talvez por isso tivesse sido escolhida para ser escrava dos homens na base de Negan.
Ao ter aquele pensamento, Peggy se sentiu ainda mais mal por tê-la julgado tão apressadamente. Deveria ter suportado muito na mão de seus "senhores".
— Ele era próximo dos seus pais? — Taylor tentou manter a conversa no mesmo tom desinibido enquanto caminhavam pela rua.
— Ah, eu nunca conheci meu pai — Delilah comentou com simplicidade, dando de ombros. — E minha mãe morreu quando eu tinha nove anos. Mal de Huntington****, sabe? — falou com displicência.
Peggy levantou os olhos para o rosto dela. Lilah a encarava da mesma maneira simpática que pelo visto lhe era costumeira.
— Wow, eu sinto muito — Peggy Taylor disse, se desculpando por mais do que Delilah Feld poderia saber. A garota balançou o rosto, torcendo os lábios como se não fosse nada.
— Eu já me habituei. Meu tio sempre cuidou mais de mim, de qualquer jeito. Não posso reclamar apesar de ele saber ser um pé no saco, às vezes. — Fez uma careta com a língua pra fora, tentando dar uma nota divertida à conversa.
Peggy se julgara tão superior àquela garota, a troco de nada. Feld perdera os pais muito antes de Taylor sequer sonhar em perder os irmãos, quanto mais seu pai, seu padrasto, ou sua mãe.
Eram mais parecidas do que imaginara.
— Hey, se não for abuso... — Delilah voltou o rosto para Peggy, franzindo as sobrancelhas sem jeito. — ...Será que se você tiver um tempinho poderia me ensinar a atirar, usar facas e tudo o mais? Eu fico constrangida de pedir ajuda para os outros, e posso estar sendo sem noção de pedir para você, mas é que, sei lá, sabe, estou cansada de me sentir um peso aqui e... — Peggy logo levantou as mãos, interrompendo a tagarelice desajeitada da menina.
— Relaxa. Posso sim. Você logo pega o jeito — estimulou-a, outra vez tentando dar um sorriso mais acalorado.
— Obrigada mesmo. — Deu a Peggy Taylor outro olhar delicado. — O Tucker tinha razão! — Delilah Feld soltou um sorriso enorme e afável, sem parecer fazer o menor esforço para tanto.
— Sobre o quê? — Peggy indagou, curiosa.
— Você é muito legal mesmo — elogiou-a com sinceridade quase infantil, parecendo admirada. Peggy se sentiu sem jeito, e muito surpresa por assim reagir. Sorrindo consigo mesma, pensou se não era assim que Aya se sentia quando Taylor buscava a sabedoria da garota indígena.
Já estavam na rua principal de Alexandria, próxima aos portões. Virariam a esquerda para ir até a casa de Olivia visitá-la, mas algo atraiu a atenção de Peggy. Lanternas frontais de veículos estavam visíveis, fazendo sombras para dentro dos portões.
Peggy deu meia volta e caminhou apressada até a entrada. Lá, Padre Gabriel já se punha a abrir os portões.
Ela viu dois carros entrarem. Apertados no primeiro estavam Gaspar, Jesus, Michonne, Redmond, Eugene e Billy Ray, justamente o carro que Mavelle pegara para sua última missão da qual ainda não havia retornado.
A pulsação de Peggy Taylor acelerou desconfortavelmente. Não. Pensou, desesperada. Estava brigada com Mavie Berry, mas não podia conceber a ideia de que ela não voltaria.
Atrás, Daryl dirigia o segundo automóvel. Apertados no banco de trás, vislumbrou Tucker, Carol e Rosita. E, no banco da frente, Mavelle se sentava desacordada.
Ela levou uma das mãos à frente da boca, correndo na direção do carro. Daryl logo saiu, e a garota de dezessete anos o interpelou nervosa. Taylor ouviu Delilah um pouco atrás correr gritando “tio!” para o carro onde Redmond estava.
— O quê...? — Peggy logo foi interrompida.
— Ela vai ficar bem. Só passou por uma barra fodida — garantiu o namorado da irlandesa. Peggy soltou uma expiração aliviada. Viu que o arqueiro já se punha a abrir a porta ao lado do banco do passageiro, enquanto os outros tripulantes deixavam o carro. No veículo da frente, Eugene e Billy Ray abriam o porta-malas do carro. Tiraram de lá um homem amarrado, vendado e amordaçado, sem uma perna, o toco coberto por bandagens amadoras.
Peggy se sentiu entontecer.
— Denise...? — lembrou-se da médica, seu estômago já revirado por antecipação.
Daryl apenas meneou de leve a cabeça, em um sinal negativo. Peggy Taylor baixou um olhar derreado aos seus próprios pés. Sem Annie, sem Denise... Estavam sem médicos. Padre Gabriel, que escutara a conversa, logo disse que tinham de começar os preparativos para o funeral.
— Eles levaram o corpo — retorquiu Dixon, direto e sucinto como lhe era de costume.
— Eles quem? — perguntou Lilah, logo atrás de Peggy.
Os recém-chegados que estavam conscientes trocaram alguns olhares cúmplices, demonstrando que ainda havia muito a ser discutido.
A ser temido.
— Os Salvadores — disse Michonne.
— Negan — completou Redmond, suas feições exaustas, abraçando a sobrinha que o apertava emocionada.
Peggy deixou seu olhar recair ao refém trazido. Respirou fundo, a ansiedade se espalhando por seu corpo junto ao rápido fluxo sanguíneo incentivado por seus batimentos cardíacos acelerados.
Estava tão segura de si. Tão segura de seu futuro, esperançosa, certa de que tudo caminhava para uma curva ascendente, de melhora. Mas Mavie voltara por pouco. Todos eles retornaram por muito pouco.
Sem poder se controlar, pensou em Moritz. O peso em seu peito apenas aumentou, como se afundassem toneladas de vigas metálicas em cima dele, quase perfurando seu coração.
Aquele mundo não lhe dava espaço para tantas certezas. Ora, não fora ela a defensora de várias verdades e interpretações? O que estava fazendo agora?
O que estava fazendo com o tempo que lhe restava?
Com o tempo que restava... As pessoas que lhe eram queridas?
Peggy piscou os olhos, vendo todos se afastarem. Mal ouviu Rosita pedir para que Billy Ray chamasse Heath, Rebecca e Maggie para ajudá-la na enfermaria a tratar dos novos pacientes. Por fim só restavam ela e Lilah, cujo tio a esperava um pouco adiante. Delilah se aproximou da garota e lhe disse:
— Tudo bem se formos na Olivia depois? Meu tio não parece muito...
Peggy a interrompeu.
— Sem problemas. Também preciso fazer algo agora — retrucou Peggy Taylor, mal olhando para a possível nova amiga. Depois daquele baque, a garota se recordou de uma verdade dura que deixara adormecida pela curta época de paz — ou algo parecido — que tiveram depois de Hashimoto.
Seu tempo e o de todos eles era muito curto, efêmero, traduzido na vida frágil por todos eles partilhada.
Não mais o desperdiçaria. Tomara uma nova decisão. Fosse qual fosse seu resultado, o relevante é que acordara há tempo.
Perdera muitas pessoas, e sabia que perderia outras enquanto estivesse viva. Fazia parte daquele ciclo que todos eles tinham de lidar. Destruição e renovação. Caos e paz. Vida e morte.
Mas algo naquele eterno retorno ela poderia gerenciar. Controlar. Poderia evitar amargar arrependimentos pelo que deixara de fazer... Com o tempo que lhe foi dado.

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