Hunter's Instinct
69 Episódio 69 - Past and Present
Notas iniciais
O tempo tem como uma de suas principais características sua essência impalpável. Não pode ser tocado, sentido, ou de qualquer forma manipulado. As pessoas estão sujeitas ao seu desenrolar, silenciosamente flutuando por sua passagem.
Anos depois de sua separação, por uma fina ironia inesperada resultante de uma série de desdobramentos a coincidirem naquele instante, Mavelle Berry reencontrou novamente o homem com quem uma vez pretendera se casar e constituir família: Jeffrey Gallagher.
Nos confins de uma estrada no limiar do estado da Virgínia, seu ex-cônjuge lhe apontava uma balestra prestes a perfurar seu crânio.
— Essa daqui ainda está respirando! — assegurou Dwight, um sujeito corpulento de cabelos loiros aos ombros. Seu rosto marcado por uma queimadura disforme estudava Rosita Espinosa, desmaiada na frente do carro que Mavie antes dirigia.
Sem possibilidade de reação, Mavelle foi aos poucos abaixando o arco que tinha em mãos. Mantinha seus olhos fixos no homem à sua frente. Fitando os mesmos cabelos castanhos escuros e cacheados, parecendo rarear de leve na altura da testa. Os olhos do mesmo tom castanho.
Com o rosto repleto de rugas que não condiziam com seus anos de vida, parecendo no mínimo dez anos mais velho do que sua idade factual, Jeffrey piscava os olhos em um tique nervoso, parecendo ter dificuldades em retribuir o olhar de total aversão que a irlandesa lhe dirigia.
O mato alto de onde os salvadores saíram farfalhou. Por trás da grama espessa, a garota vislumbrou mais três homens: um sujeito de cabelos ralos loiros de um tom muito claro e barba por fazer, segurando uma carabina. Em segundos, se mostrou acompanhado de outro mais jovem, com cabelos escuros espetados, testa proeminente e olhos claros aprofundados, o peito envolto por uma bandoleira carregando uma espingarda Vinci preta, de calibre 12. Por fim, um homem de meia idade, um pouco acima do peso, com cabelos grisalhos na altura do ombro e barba cheia se aproximava com um longo sorriso no rosto, uma pistola Force Compact na mão esquerda.
— Só meninas hoje? — o mais velho comentou, sua voz repleta de malícia. — Estamos bem!
Mavelle reparou que Jeffrey deu ao sujeito um olhar de esguelha que durou uma fração de segundo, quase indistinguível.
— Jeff, precisa se decidir, cara! — o homem parcialmente careca se manifestou. — Só precisamos de uma viva — frisou. Mavelle sentiu um calafrio desagradável percorrer seu corpo. A adrenalina se misturava ao ódio fervente que sentia por seu ex-noivo, incapaz de agir de outra forma que não se rendendo, pelo bem de Rosita.
— Vamos levar as duas. — Ao escutar a voz de Jeffrey, a irlandesa sentiu sua própria corrente sanguínea fervilhar de repúdio. Os pelos de seu corpo eriçaram em uma reação instintiva, como se cada um de seus poros se revoltasse contra aquele som. — E a morta também. Precisamos limpar os rastros, alguém pode vir atrás delas — lembrou.
— Eu me encarrego da latina — testificou o sujeito jovem de cabelos espetados. Abaixou-se onde Rosita estava caída e a colocou em cima dos ombros, sem delicadeza alguma, como se levasse algum carregamento. Mavelle teve o impulso de se lançar contra o pescoço dele com sua faca de caça, mas não conseguiu reagir.
— Grand arse!*! — disse o sujeito de testa saliente, dando um tapa estalado nos glúteos da amiga de Mavie, desmaiada. Um compatriota irlandês, reconheceu a garota pelo sotaque. A repulsa e a fúria dentro dela apenas aumentou, ao passo que três dos cinco homens riam secamente, à exceção de Jefffey e Dwight. Gallagher recolheu do chão o arco e a aljava de flechas da ex-noiva.
Com o canto dos olhos, Berry aferiu que o homem loiro parcialmente calvo levantava um walkie talkie, mas Dwight o parou com um olhar sério, erguendo o cadáver de Denise nos braços.
— Kevin, largue essa porra. Vai demorar mais se esperarmos uma carona — ralhou o homem de face deformada.
— E vamos andando? Marcamos a quase cinco quilômetros daqui! — retrucou o calvo, incrédulo com a recusa. Dwight mirou Jeffrey, como se esperasse a posição dele. Mavie percebia que o ex-noivo tinha alguma posição de liderança naquele grupo.
— Sabemos que tem poucos apodrecidos nessa região. Fora que estamos levando pouco peso — disse seu ex-noivo, o tom de voz tão familiar trazendo a mesma sensação de desagrado profundo aos ouvidos da irlandesa. A presença dele era como uma assombração vívida, um pesadelo antigo, mas não esquecido, trazido à realidade.
— Essa daqui especialmente! — o irlandês moreno apertou a coxa de Rosita, quase na altura de seu sexo. O sujeito calvo, próximo dele, soltou mais um sorriso depravado de aprovação, cobiçando o corpo da latina.
— Cop on** e tire as mãos dela, seu filho da puta pervertido — rosnou Mavie entre dentes. O sangue lhe subira à cabeça. Não poderia apenas fitar quieta sua amiga sofrer abusos físicos, ainda por cima inconsciente.
O homem moreno gargalhou. Arregalou seus olhos fundos, erguendo as sobrancelhas e fitando Mavelle com surpresa.
— Uma camarada da Ilha Esmeralda aqui nesse buraco de país? — Reconheceu a gíria irlandesa usada propositalmente por Berry para distraí-lo. — Acho que escolhi mal. — O homem fez o movimento como se fosse passar o corpo de Rosita para Kevin, o sujeito meio careca parado ao seu lado.
Jeffrey agiu rápido. Caminhou até o irlandês e o segurou pelo braço.
— Ninguém escolheu merda nenhuma, Lorcan — enunciou as palavras, se referindo ao desprezível compatriota de Mavelle por seu nome. — Não vamos fazer nada além de levá-las para onde Negan mandou e esperar — ratificou. A garota teve mais certeza de que Jeffrey tinha de fato alguma autoridade sobre eles.
— Já conferimos as proximidades esta noite. Não tem ninguém por um raio de dezenas de quilômetros — falou o homem grisalho, coçando o pescoço.
— Archie e eu podemos ir na frente. Conhecemos melhor esse matagal — sugeriu Dwight, olhando para Jeffrey. Levantou Denise nos braços ainda mais, distribuindo o peso de seu corpo em seus membros fortes. A irlandesa sentiu sua testa aquecer de tanto ódio, enquanto seu lado ainda racional atestou que Archie era o nome do Salvador mais velho, com bigode de pirata.
— Façam isso. Vou por último. Lorcan, não faça merda nenhuma e apenas os siga — exigiu o ex-noivo de Mavie. Parecendo contrariado, o irlandês de testa grande apenas torceu os lábios, carregando Rosita no ombro direito.
Jeffrey, que tinha o arco de Mavelle encaixado em seu braço direito e a aljava dela já transpassada em seu corpo, mais uma vez apontou a balestra na direção de seu rosto. Voltou a pestanejar nervosamente, contrastando com o tom de voz impositivo que acabara de usar com os Salvadores que já se movimentavam plantação adentro. Seus olhos foram do rosto da garota para a direção que o grupo de Negan seguia, dando a entender que aguardava que ela se movesse atrás deles.
Em meio à noite escura de inverno, o som das passadas de seus algozes e da irlandesa eram o único ruído audível, além dos ocasionais cliques das lanternas usadas. Mavelle mal conseguia raciocinar. Sentia tanto ódio que usava o que restava de seus pensamentos para se controlar e não se jogar contra o corpo de Jeffrey, prensando os dedos em sua garganta para asfixiá-lo. Sua respiração estava entrecortada, seu pulso acelerado como se tivesse acabado de correr uma maratona. Se não estivesse com Rosita e se não se sentisse responsável pelo seu destino, poderia já ter posto tudo a perder. Talvez já estivesse com uma flecha cravada em meio a testa há muito tempo.
— Você está bem? Pode caminhar? — Ela ouviu a voz maldita de seu ex-noivo sussurrar perto de seu ouvido. Parecia urgente, quase desesperada, genuinamente preocupada. Ela se recusou a fitá-lo. Se o fizesse, talvez não conseguisse se conter. E tinha plena consciência de que a balestra que ele levava também estava tão próxima dela quanto o próprio portador.
Archie acabara de cravar a lâmina de uma faca de trilha na testa de um carniceiro queimado, metros à frente. A pele do cadáver ambulante descolava do rosto, escura e manchada como todo o resto do seu corpo.
Mavelle não se daria ao trabalho de responder. Estava poupando suas palavras. Não sabia o que Jeffrey pretendia consigo, mas sabia muito bem o que faria com ele. Seu ex-noivo não sairia daquilo respirando.
Jeffrey não mais tentou diálogo algum, por um tempo.
O grupo caminhou por aquele terreno amplo, repleto de mato e nada mais por alguns quilômetros. Archie eliminou alguns poucos rastejantes conforme marchavam. Avançaram noite adentro por um bosque próximo das cercanias, andando mais um pouco até alcançar outra estrada e um local fechado por grades e portões. No muro sujo de sangue seco, Mavelle pôde enxergar uma placa de metal com os dizeres encravados:
ASILO SAINT BRIDGET
Seu queixo tremeu. As mesmas ondas de desconforto irreprimíveis varreram seu estômago com truculência. Sentiu que iria vomitar.
Fora feita de refém por seu ex-noivo, a pessoa viva que mais detestava naquele mundo desolado. E agora seria levada para dentro de alguma casa de repouso, onde teria de confrontar cadáveres de idosos e se lembrar da morte de sua avó; a ferida do luto ainda latente, sanguinolenta em seu âmago sofrido.
O Salvador de meia idade abriu o portão, empurrando o ferro enferrujado com força para o lado esquerdo. Abriu apenas o suficiente para que entrassem um por vez.
Seguindo por último, ouviu o rangido agudo do portão sendo fechado, assim que Jeffrey passou por ele. Mavelle tentou evitar olhar ao redor. Pôde avistar algumas árvores, algum tipo de jardim que um dia fora acolhedor. Mesmo em meio aquela escuridão, pôde perceber que a grama estava amarelada e algumas árvores, apodrecidas e secas, dando a entender que aquele terreno já sofrera algum tipo de ação do fogo. Talvez um incêndio desesperado para tentar conter a doença dos mortos-vivos.
— Eles estão morrendo de fome! — debochou audivelmente o irlandês que carregava Rosita, ainda desacordada, a flecha presa em seu ombro direito, transpassando sua jaqueta cinza. Mavelle levantou os olhos do chão, compreendendo as palavras do sujeito.
Grudados em estacas anexas nas paredes do casarão do asilo, estavam inúmeras fileiras de carniceiros. Apenas seus troncos se moviam para frente e para trás, incapazes de se livrar das estacas que perfuravam seus estômagos. Empurravam-se adiante em um balanço macabro junto aos seus pescoços e braços esticados em garras, querendo segurar e morder a carne daqueles que se aproximavam. Alguns sequer tinham olhos, dado seu estado de decomposição. Foram comidos por vermes ou descolaram do corpo, mole como gelatina estragada. Simbolizavam alguma tentativa de impossibilitar a entrada e saída do asilo, obrigando a todos os que se dirigissem ao casarão a entrar por meio das portas construídas para tanto.
O cheiro era insuportável. Mavelle levantou a blusa por baixo de seu casaco, cobrindo o nariz o melhor que podia. Fechou os olhos. Não suportaria distinguir em meio àquela murada de gosto perversamente mórbido algum tipo de cadáver que lembrasse sua avó.
Assim que entraram no asilo, Lorcan, o Salvador irlandês, colocou o corpo de Rosita deitado em um sofá da recepção. Baratas saíram correndo de dentro do estofado até o chão, fugindo pelo peso repentino. O Salvador grisalho foi até uma bancada, mexendo em algumas gavetas. Mavelle ouviu ruídos de passos no andar de cima.
— Acho que ela vai resistir. — Kevin, o loiro calvo, colocou alguns dedos na altura do nariz da latina. Ainda estava respirando, pelo visto.
— Cuidem do ferimento dela — pediu Jeffrey. — Tirem a flecha, limpem o machucado. Se ela acordar e quiser gritar, tapem a boca dela, amarrem os braços, enfim, o que for preciso — deu as diretrizes.
— Beleza — confirmou o irlandês, sorrindo enviesado. Seus olhos faiscaram por outro interesse, trazendo outro fervor repulsivo para Mavie.
— Lorcan. Sem gracinhas. Temos de esperar Negan — o ex-noivo de Mavelle reiterou, sua voz mais austera.
— Mas não é como se ele fosse... — o homem pervertido iria tentar, mas Gallagher o cortou.
— Não quero saber. Sem gracinhas — ordenou. O sujeito da Irlanda fixou o olhar em Jeffrey por um tempo, como se silenciosamente contestasse sua autoridade.
— Que seja — respondeu, contrariado.
Archie se aproximara de Mavelle com um rolo grosso de silver tape. Deu um olhar petulante para ela.
— Você não vai gritar, vai? — troçou. Mavie fez que não com a cabeça, passando a mirar Jeffrey outra vez. Apenas aguardando uma oportunidade para reagir.
O Salvador com bigode de pirata passou a enrolar os punhos dela com a fita, prendendo-os com firmeza. Jogou o rolo para Kevin, que junto a Lorcan se preparava para arrancar a flecha do corpo de Rosita.
No mesmo momento, Mavelle percebeu a movimentação próxima. Ruídos de passos chegando, junto a sombras se movendo pelos corredores escuros perto da recepção do asilo.
Um grupo de mais cinco homens se fez visível, caminhando com lampiões e armas em mãos. Tinham a aparência mais desnutrida e cansada do que os outros Salvadores.
— Negan avisou que não poderá chegar até a próxima manhã. A rodovia está infestada de apodrecidos, tiveram de voltar ao Santuário para buscar material para desviá-los e cercá-los. Vão demorar um pouco — um dos novos Salvadores avisou, um rapaz baixo de olhos puxados como os de Glenn. Poderia ter a mesma idade de Mavie.
Mavelle aferiu que algo brilhou nos olhos escuros de seu ex-noivo. Como se aquela notícia o alegrasse.
— Caralho... — reclamou Archie. — Passamos a merda dos últimos dias limpando esse lugar e vigiando. Já estou cansado dessa porra!
— O importante é que encontramos alguns deles. Ou melhor dizendo, delas. — Dwight indicou Rosita e Mavelle com o rosto. — Vai acalmar os ânimos de Negan.
— Esses filhos da puta incendeiam uma das nossas bases feito selvagens, matam todo mundo e a gente que paga a conta — ironizou Kevin, largando um muxoxo de desdém.
— E mesmo assim a gente não pode nem conseguir uma vingancinha por antecipação! — Lorcan deu um olhar de raiva para Jeffrey, mencionando seu desejo de estuprar Rosita.
— Calem a boca. — Jeffrey ergueu a voz, outra vez muito sério. — Park — o ex-noivo da irlandesa fitou o rapaz de traços asiáticos. — Você e os outros vão patrulhar. Nós cuidamos do casarão. Liguem-nos pelos walkie-talkies se virem qualquer movimentação — Jeffrey decidiu o comando.
O jovem asiático concordou com a cabeça e saiu, sendo seguido por mais quatro homens que já estavam dentro do asilo. Gallagher fitou os restantes.
— Comam alguma coisa e aproveitem para descansar um pouco. Amanhã teremos um longo dia de viagem. Archie, se certifique de que não façam nada com a garota ali além de cuidar do machucado. Kevin e Dwight, enterrem a loira — apontou para o cadáver de Denise — E Lorcan, se descumprir o que estou mandando, vou me certificar de que Negan saiba que não cumpriu as ordens dele. E arrancarei mais um dos seus dedos. — Mavie instantaneamente fitou as mãos do sujeito. Uma delas não tinha dois dedos, o anelar e o mindinho.
— O que vai fazer agora? — o homem de meia idade questionou Jeffrey.
— Um interrogatório — respondeu, sorumbático. Mavelle sentiu um calafrio subir por sua espinha. Lorcan deu a ela um olhar afoito, quase lambendo os lábios. Jeffrey ligou sua lanterna e a apontou para o corredor escuro do asilo, além da recepção. Indicou com o queixo para que sua ex-noiva seguisse na frente. Ainda segurava a balestra de Dwight em seus ombros.
É agora. Mavie tentou se convencer, respirando suavemente. A adrenalina percorria seu corpo como se tomasse um choque elétrico.
— Mostre a ela quem é o chefe — debochou o irlandês, munindo-se dos medicamentos que Archie lhe entregava para limpar a ferida de Rosita, ainda inconsciente.
A irlandesa foi guiada por Jeffrey até uma escada. Subiu os degraus de madeira, rangendo a cada passo dado. Ele a encaminhou até um quarto a direita, fechando a porta assim que os dois entraram. Mavie testou a firmeza da silver tape, discretamente, enquanto ele ainda tinha as mãos na maçaneta. Sentou-se em uma poltrona perto da janela.
Com o canto dos olhos, mirou um porta-retrato em uma cabeceira ao lado de uma cama de solteiro. Viu uma fotografia de uma menina de cabelos escuros sentada ao lado de uma idosa, em um sofá. As duas sorriam uma para a outra, enquanto a idosa parecia ler um livro para a criança.
Mesmo com o nervosismo a flor da pele que a acometia, Mavelle sentiu outro mar de emoção dominar seu corpo. Seus olhos marejaram em segundos, enquanto ela se esforçou para fechá-los e desviar das lembranças imediatas.
Assim que abriu os olhos novamente, Jeffrey tinha se aproximado alguns passos discretos. Colocou a balestra, o arco de Mavie e sua aljava lentamente em cima do colchão da cama, levantando as mãos em posição de rendição e andando devagar até ela.
— Você não tem ideia... — a voz de Jeffrey pareceu completamente transformada. Mais desinibida, calma, relaxada, totalmente diversa ao tom que ele usou com os Salvadores.
— ...Você não sabe como estou aliviado — confessou seu ex-noivo, seus olhos brilhando, dessa vez emocionados. Ele também parecia prestes a chorar.
— Pensei por tanto tempo que você tinha morrido — Jeffrey murmurava, se aproximando de Mavelle com olhos lacrimejantes, como se não acreditasse no que via.
Ela se recusou a respondê-lo. Seus pés estavam livres. Apenas esperou que ele se aproximasse mais.
— Mavie, eu sinto muito, tanto — ele se abaixou próximo dela, para seu rosto ficar na altura do corpo dela, sentada na poltrona. — Todos os dias depois do que... Do que eu fiz, foram uma tortura — garantiu, parecendo emocionado. Mavelle pôde ver mais perto o quanto os dias passados não foram bons com Jeffrey. Tinha muitas rugas e cicatrizes marcando sua pele, deixando macilento seu rosto uma vez jovial.
— Eu tentei voltar, sabia? Depois que peguei um vôo de Atlanta para Washington, o último antes de fecharem os aeroportos. — Os olhos dele brilhavam, cheios d’água. — Tentei voltar pelas estradas, mas estavam todas bloqueadas. E eles me acharam primeiro — parecia falar sobre os Salvadores. Mavelle não tinha o menor interesse em ouvir a confissão dos pecados de Jeffrey. Já havia decidido há muito o que deveria acontecer com ele.
— Mas isso não importa. — Ele abaixou a cabeça, contrito, e depois a fitou de novo. Como se a reverenciasse. — Você tem de fugir. Você tem de sair do estado da Virgínia o mais rápido possível. Negan sabe... Sabe que há um grupo novo. Sabe que o Exército de Wyoming County caiu. Ele é o novo chefe, e não vai admitir opositores — prometeu Jeffrey, uma sombra de preocupação tomando seu rosto marcado.
— Você tem que fugir enquanto há tempo. Eu vou ajudar. Posso distraí-los — seu ex-noivo disse em tom de juramento. A emoção profunda tomava o rosto de Jeffrey, como se visse uma aparição divina. Mavelle não se sentia movida por nada daquilo.
— Ele sabe que fomos nós que derrubamos Hashimoto? — perguntou Mavie. Sou voz saiu rouca, sem emoção alguma. Jeffrey piscou os olhos, se aproximando mais. Como se ouvir a voz dela fosse algum tipo de bálsamo para seus ouvidos.
— Vocês? — ele pareceu duvidar, franzindo a testa. Desviou o olhar, como se raciocinasse algo, e depois a fitou novamente. — Não importa. Negan tem muitos aliados. Talvez tantos quanto o Exército de Wyoming County. E ele... Essas pessoas... Mavie, vocês não podem medir forças. Você não sabe o que eles fazem com as mulheres...
— Eles arrancam os filhos delas de dentro dos seus úteros, sem seu consentimento, em troca de dinheiro? — questionou, mordaz. Jeffrey esquivou o olhar, parecendo ferido. Mavelle sentiu uma sensação quente de vingança ao atacá-lo, mesmo que apenas verbalmente.
— Eu realmente sinto muito. Eu... — Jeffrey levantou os olhos para sua ex-noiva. — Eu amo... — Mavelle Berry não esperou mais. Não ouviria aquilo dele. Nunca mais.
Levantou as duas pernas em um movimento preciso, chutando brutalmente o nariz do sujeito.
Gallagher comprimiu um grunhido de dor com as duas mãos. Seu nariz passou a sangrar profusamente.
Mavie tentou se levantar e correr até a cama, para alcançar a balestra. Mas Jeffrey foi mais rápido. Puxou-a por uma das pernas, a derrubando contra o colchão e a arrastando pelo piso. Com as mãos presas, Mavelle não pôde resistir muito, e logo foi imobilizada contra o chão. O rosto de Jeffrey erguia-se acima do seu, segurando as pernas dela contra as suas, mantendo seus braços erguidos e presos por suas mãos, contra o piso. Toda aquela proximidade deixava Mavie ainda mais furiosa, mas ela não podia desperdiçar aquela chance.
— Por favor, eu quero te ajudar. Se sair daqui armada e sozinha, eles te matam — Jeffrey sussurrou com o maxilar tenso. E eu quero te matar. Pensou Mavelle, a ira contida a corroendo por dentro.
— Eu só quero uma coisa de você — Mavie disse, resoluta. Jeffrey se afastou dela, devagar, vendo que a irlandesa se acalmava. Ergueu-se e se aproximou da cama, mantendo a guarda das armas ali colocadas.
A garota se levantou devagar, ficando de pé e o fitando decidida.
— Pode me pedir qualquer coisa — assegurou Jeffrey, seu rosto a face do arrependimento. Aquilo não emocionava Mavie nem por um segundo.
— Eu fiz coisas horríveis. Não só com você. Depois do que fiz em Atlanta... — Ele fechou os olhos, abrindo-os novamente, outra vez marejados. — Eu não sou mais a pessoa que eu fui com você. Na Irlanda — o olhar dele parecia saudoso. — Jamais serei novamente — afirmou. — Não há como voltar atrás. Por isso, me deixe te ajudar. Eu farei o que você quiser — prometeu.
Mavelle fixou seus olhos nos dele por alguns segundos.
— Eu quero que você morra. Quero que sua vida seja arrancada de você sem que possa fazer nada para evitar. Quero que morra sofrendo, indefeso, pensando que foi exatamente isso o que você fez com o meu filho. Com o seu filho que você arrancou de mim — disse Mavie, soltando todo o ódio naquelas palavras.
As feições de Jeffrey pareciam ainda mais abatidas. Como as de um homem que caminha pelo corredor da morte antes da injeção letal.
Ele desviou o olhar por algum tempo. Depois, mirou-a novamente, parecendo que tinha levado uma surra.
— Aquele homem que estava com você na estrada... Você... Você está com ele?
Mavelle não titubeou.
— Sim.
A pouca luz que havia nos olhos de Jeffrey pareceu se apagar.
— Você o ama?
Mavie se lembrou de Daryl, e a urgência que sentiu de vê-lo outra vez, depois daquela noite terrível, conseguiu superar o ódio que alimentava por seu ex-noivo.
— Muito mais do que um dia eu amei você.
****
[ALGUMAS HORAS MAIS CEDO]
Daryl segurava aquele álbum de fotografias com as mãos firmes. Seus dedos se cravavam nas páginas acumuladas de fotos de Mavelle, mas ele mal sentia o toque das folhas de papel. Seu estômago revirava, a bile lhe subindo a garganta junto a um gosto acre, queimando seu interior.
Pouco a pouco tomou consciência de que a voz anasalada de Billy Ray lhe questionara alguma coisa. Como se tivesse uma reação retardatária, se levantou de súbito, explodindo quando enfim voltou a própria consciência.
Dixon atirou longe o portfólio de fotos de Jeffrey Gallagher, o homem que um dia pedira a mão de Mavie em casamento. Atingiu um relógio, partindo o vidro do visor em inúmeros cacos.
Voltou o corpo na direção de Billy Ray que, atrás dele, mirava o álbum atirado longe, caído ao chão, despedaçado pela violência do movimento.
— Mas que diacho... — Billy insistiu no mesmo tom surpreso, seu rosto atônito pelo que viu. Daryl sentiu vontade de descontar o medo, fúria, frustração e ciúmes simultâneos que sentiu enchendo aquele imbecil de porrada.
— ...Gallagher. Não era... — O caçador do Alabama parecia fazer esforço para se lembrar de algo, fechando os olhos por um momento, levando uma das mãos a testa. Em seguida, apontou para o álbum rasgado.
— ...Era o noivo dela, não? — recordou o outro sulista. Daryl não respondeu. Apenas lhe deu um olhar desdenhoso, mal contendo as diversas emoções conturbadas que se apoderavam dele.
— Ele está vivo — concluiu o homem do Alabama, fitando o arqueiro. Dixon não sabia como reagir. Queria arrancar a cabeça de Jeffrey com as próprias mãos, mas só havia aquele idiota por perto.
A porta do alojamento do quartel onde os dois caçadores estavam se abriu. Dela, saíram Jesus e seu namorado latino.
— O que aconteceu? Ouvimos ruídos de algo quebrando — indagou o homem de cabelos e barba compridos.
Billy passou os olhos do rosto de Jesus para Daryl. Deixou o namorado de Mavie responder.
— Temos de sair daqui. Precisamos achar os donos desse lugar — rosnou Daryl, quase trombando de frente com Paul e Gaspar.
— E como pretende fazer isso? Achou alguma trilha debaixo dos cobertores? — perguntou o namorado de Rovia, seu sotaque latino forte recheado de deboche.
Daryl girou nos calcanhares, pronto para socar a cara do mexicano. Jesus se interpôs antes, levantando as sobrancelhas e os braços.
— Que é isso, cara?! O que achou aqui? — Rovia perguntou, indignado pela explosão aparentemente gratuita do arqueiro. Gaspar atrás dele dizia algo como “campesino di mierda***”, fitando Dixon com um olhar entre a surpresa e a revolta.
— Temos pistas — Billy Ray pigarreou, se aproximando dos três. — Um dos Salvadores conhece Mavie, aquela menina do arco e flecha. Tem um álbum de fotografias dela. — Billy tentou fazer com que Jesus se lembrasse.
— Sua namorada — Jesus falou ao voltar a olhar para o arqueiro, compreendendo a exaltação súbita de Dixon.
— Talvez ele possa estar atrás dela. Precisamos investigar. Ela também saiu em missão hoje — esclareceu Billy, ajeitando o chapéu de vaqueiro na cabeça.
— Se os Salvadores acharem alguns dos nossos, não vai ser boa coisa — refletiu Jesus, colocando uma das mãos no rosto, coçando a barba. — Podem querer extrair informações — preocupou-se.
— Sabe a rota dela? — perguntou o caçador do Alabama ao arqueiro.
Daryl anuiu com a cabeça, engolindo em seco. Cada segundo poderia contar. Era difícil conter o turbilhão de emoções tormentosas que se digladiavam dentro de si.
— Então vamos seguir — certificou Jesus, colocando uma das mãos no ombro de Dixon como que para acalmá-lo. O arqueiro desviou, descontente com a proximidade aleatória. Paul afastou a mão espalmada, como se pedisse desculpas. Trocou um olhar cúmplice com Gaspar, que logo falou.
— Conheço muito bem as estradas por aqui. Dependendo de onde ela foi, podemos pegar um atalho e chegamos lá rápido. — O latino soou seguro. Podia ficar irritado rapidamente, mas pelo visto também desculpava com a mesma ligeireza.
— Vamos então — respondeu Daryl, aflito para começar logo com aquilo. Preferia achar Mavelle a sós, segura. Se a encontrasse com os Salvadores, com qualquer um deles, e especialmente com aquele almofadinha babaca... Viraria bicho. Não conseguiria responder pelos seus atos. Não sobraria nenhum deles vivo para contar história.
— Falta checar uma coisa. — Billy Ray interrompeu, levantando uma das mãos. Virou de costas, abrindo uma porta no extremo oposto do quarto, que ainda não haviam checado. Dixon se esquecera dela, depois do choque de achar o álbum de Jeffrey.
No que era um armário acoplado a parede, o arqueiro e os outros viram um pequeno arsenal de armamentos que poderiam receber sua utilidade naquela mesma madrugada. Algumas carabinas, muitas balas e um estojo metalizado que Billy logo se pôs a abrir. Viram quatro armas especiais. Uma para cada um.
Quatro granadas: luzidias, ovaladas e prontas para serem usadas naquela madrugada.
Os quatro distribuíram todo aquele armamento entre eles. Tinham, ao todo, uma reserva de duas armas de fogo, algumas facas, dezenas de balas e os quatro explosivos. Ao se prepararem para sair, Billy Ray caminhou até Daryl, franzindo o cenho, parecendo tentar dizer algo. Dixon apenas o mirou com o mesmo desprezo de sempre.
— Vamos encontrá-la. Não se preocupe — Billy certificou, evitando mirar o arqueiro. O caçador da Georgia se surpreendeu. Não esperava boa vontade daquele babaca.
— Eu sei — redarguiu Daryl, arisco. Billy Ray concordou com a cabeça, parecendo satisfeito com aquela troca de palavras. Afastou-se do arqueiro e foi para mais perto de Gaspar e Jesus, deixando Dixon na retaguarda.
O grupo de quatro sobreviventes passou as próximas horas seguindo a rota que Mavelle faria ao retornar da busca pelos medicamentos. Gaspar conseguiu se guiar por uma estrada de terra fora dos mapas, contornando fazendas e plantações, e em poucas horas encontraram o carro que Mavelle saíra dirigindo de Alexandria. Vazio. Com um cadáver de errante eliminado caído pela estrada.
Daryl correu até o automóvel, e logo aferiu vestígios de sangue espalhados. Pestanejou angustiado, pensando no rosto da irlandesa, de como dormira em seus braços na noite passada.
“Não vou nem ter tempo de sentir saudades”, ela havia lhe dito com aquela vozinha metida, sorrindo convencida com seus dentes salientes. Daryl sentiu sua visão ficar turva pelo sangue espalhado no chão. Logo em seguida, lembrou-se das fotografias contidas naquele álbum. A bile lhe subiu a garganta de novo, e ele sentiu que explodiria de ódio.
— Alguém entrou por aqui — murmurou sibilante Billy Ray, alguns metros distante. Dixon caminhou até onde estava parado o caipira do Alabama. Gaspar se abaixou conferindo as pegadas que Daryl já havia visto. Jesus, atrás, olhava por cima dos ombros para ter certeza de que estavam a sós.
Pense. Se controle. Você pode achá-la. Daryl Dixon se recriminou em pensamento. Ao se deixar levar pela emoção, Billy Ray faria todo o trabalho sozinho. Ele não se permitiria ser levado nas costas por aquele caipira idiota.
— Por aqui. — Daryl, o melhor rastreador do grupo, indicou com a lanterna o caminho por dentro do alto matagal. Logo achou trilhas de errantes mortos.
— É como uma trilha de João e Maria dos infernos — ironizou Gaspar, fazendo referência a história dos contos de fadas.
— Só que os corvos não tiveram tempo de comer as migalhas — disse Billy Ray, com humor negro.
Daryl levantou o dedo indicador, mandando que se calassem. Ouvira um som crepitante de algo sendo partido. Fez um gesto silencioso indicando para que se escondessem em meio a plantação alta de tomates que ali havia. Todos apagaram as lanternas e seguiram o que pediu.
Demorou alguns minutos. Pouco a pouco, sons de passos arrastados foram escutados cada vez mais próximos. Dixon se comunicou com o grupo novamente por meio de gestos. Pediu que levantassem as armas e aguardassem.
Por trás das folhagens, tinha a balestra pronta. Mal podia esperar para acertar algum daqueles filhos da puta com uma flecha certeira.
— Eu vi uma luz por aqui — murmúrios de um desconhecido se fizeram audíveis.
Os passos estavam mais próximos. Dixon conseguiu distinguir cinco pares de pernas, pelos ruídos feitos. A balestra estava firme em suas mãos, e praticamente sentia um comichão em seus dedos para atirar.
Por trás das folhagens, alguém entrou em seu campo de visão. Viu a lateral de um corpo masculino. Pela voz, provavelmente jovem. O sujeito parou e levantou um walkie talkie. Daryl atirou em cheio em seu braço, a flecha transpassando o membro e fazendo o rapaz gritar de dor. O comunicador caiu na terra.
— Park! — Escutou a voz abafada de alguém mais atrás. Dois sujeitos correram até ele, e o arqueiro fitou o namorado de Paul. Haviam combinado; se o latino atirasse, é porque os reconhecera como membros dos Salvadores.
Gaspar acertou um tiro certeiro na lateral do crânio de um dos homens. Puderam ver filetes de sangue jorrar do ferimento.
No mesmo instante, um tiroteio começou. Os três Salvadores que não foram atingidos atiraram uma rajada de balas a esmo, sem poder enxergá-los dentro da plantação.
A saraivada de tiros quase atingiu as costelas esquerdas de Dixon, que se jogou no chão a tempo. Billy Ray já se punha a atirar, assim como o mexicano e Paul. Todos os quatro abriram fogo, e logo ouviram os sons de lamúrias dos Salvadores surpreendidos. Daryl anteveu três corpos caídos. Acertaram todos.
Os homens a favor de Alexandria seguiram para fora da plantação, vendo os corpos estendidos na terra. Dixon cravou flechas nos miolos dos três homens fuzilados na altura de seus troncos, fumaça saindo de seus ferimentos recentes. Enquanto isso, Billy e Gaspar cercavam o rapaz com a flecha no braço. O arqueiro reparou que tinha traços orientais como os de Glenn.
— Onde están elas? — Gaspar perguntou com autoridade, colando uma pistola na têmpora direita do rapaz. Rangia os dentes de fúria. Jesus seguiu cambaleando atrás dele, e Dixon viu com pesar que fora atingido. Uma bala perfurara seu tronco na altura do abdome, sangrando e manchando seu casaco comprido.
O rapaz chamado Park apenas meneou a cabeça. O latino fincou a pistola ainda mais em sua face.
— Se eu trair Negan, o que ele fará comigo será muito pior do que qualquer coisa que vocês podem fazer! — o rapaz balbuciou, aterrorizado. Billy trocou um olhar rápido com Daryl, mas Gaspar agiu sem que pudessem decidir.
O latino apertou o gatilho. A bala explodiu a têmpora do garoto, deformando sua cabeça e o calando para sempre. Chocados, os três encararam o latino, que apenas fitou Daryl, resoluto.
— Gaspar! Mas o que... — Jesus reclamou, fraco, tropeçando e sendo amparado pelo namorado.
— Eles te atingiram — se justificou o mexicano. Olhou para Dixon, como se dissesse “você faria o mesmo se fosse com ela”. — Nós vamos voltar para o carro. — Gaspar tirou a granada que tinha consigo e a entregou para Billy Ray, mais perto.
— O que acha que... — Paul tentou discutir, mas Gaspar passou o braço dele pelo ombro, fitando os outros dois, decidido. Tirou de Rovia a granada restante, e a deu para o caipira do Alabama.
— Seguimos sozinhos daqui pra frente — Daryl garantiu. Não poderia pedir mais deles. Gaspar anuiu com a cabeça. Jesus pareceu protestar, mas estava muito fraco, perdendo sangue.
— Trate de trazê-la de volta. Você nos deve isso — Gaspar cobrou, sério, voltando-se com o namorado na direção do carro. Billy Ray apenas coçava a cabeça, aparentando não saber o que achar daquilo tudo.
— Eles vieram dali. — Daryl apontou para o rastro dos Salvadores em meio a terra próxima. Billy Ray engoliu em seco, concordando em silêncio com a cabeça. Aproximou-se do arqueiro, dando em suas mãos a granada extra.
— Não podem estar muito longe — falou o caipira do Alabama, guardando o walkie talkie do rapaz asiático consigo. O sulista da Georgia afirmou positivamente com o rosto, e seguiram caminho.
Ocultos pela penumbra da madrugada, a hora já próxima da aurora, os dois caçadores seguiram alertas pelo amplo matagal. Lendo habilmente as trilhas deixadas pelos Salvadores, se aproximavam cada vez mais do fim daquela missão. Para o bem ou para o mal.
****
[AO ALVORECER DO DIA SEGUINTE]
— Isso ainda não faz o menor sentido — ela disse, descontente, caminhando a passos largos. O engenheiro ao seu lado coçava as pálpebras fechadas, tentando espantar o sono que também acometia a garota de cabelos castanhos escuros.
Ela empurrou os ombros para trás, os estalando, enquanto caminhava com ele. Tinha as mãos com luvas em seus bolsos. O dia amanhecera frio, nublado e repleto de uma névoa úmida. Franzia as sobrancelhas, insatisfeita.
— Quero ir junto.
Redmond Lewis soltou um suspiro exasperado. Parecia cansado de dizer a mesma coisa para sua sobrinha.
— Você não sabe nada sobre manuseio de armas de fogo. Você não sabe nada sobre construção, sobre obras, sobre arquitetura — repetiu seu tio, irritadiço. — Para que quer se meter em uma fábrica largada na periferia do estado? — perguntou Red em tom de sermão.
Lilah deu de ombros.
— Talvez porque eu me preocupe com você, que tal? — respondeu, fitando-lhe magoada com o tratamento ríspido. O olhar irritado do tio se abrandou.
— Eu sei. — Sua voz soou mais afável. — Não precisa. Eles já foram até a fábrica ontem e voltaram seguros. Não viu as habilidades dessas pessoas? — Redmond levantou as sobrancelhas, admirado. — Estaremos seguros. Negan não sabe sobre eles. E honestamente acho que eles são mais bons de briga que muitos dos Salvadores — comentou seu tio, que não era de elogiar fácil.
— Dos que nós conhecemos — ressaltou Delilah Feld, ressabiada.
— De fato — concordou Red, pensativo. — De qualquer jeito, não tem porque se preocupar. Eles nos garantiram que voltaremos antes do entardecer — assegurou o tio da garota.
Delilah contorceu os lábios em uma careta, não muito convencida. Os dois seguiram até os portões de Alexandria, comunidade que era seu novo lar — temporariamente — e logo encontraram o furgão pronto para ir para a fábrica de balas. Michonne, a espadachim, guardava na carga o material que seria usado, ajudada por Eugene, o homem um pouco acima do peso que os ajudara a se libertarem do cativeiro dos Salvadores. Tucker Hayes, um rapaz de idade próxima de Lilah conferia algumas caixas junto a Carol Peletier, uma mulher de rosto simpático, de feições mais jovens do que a idade que seus cabelos curtos e grisalhos demonstravam que tinha.
Rick Grimes, o líder da comunidade, parecia averiguar se estavam preparados. Redmond saudou a todos, se juntando ao grupo que logo partiria. Passou a ajudá-los a guardar o material, enquanto Delilah se ofereceu para o mesmo, mas Grimes logo lhe disse que não seria necessário. Ela guardou uma distância educada, angustiada com a ideia de se separar do tio. Estiveram sempre juntos, desde o dia que aquele pesadelo dos mortos-vivos mudara tudo.
Enquanto ajeitava o gorro que usava para cobrir suas orelhas do frio, Carol se aproximou com um sorriso maternal no rosto. Lilah tinha uma simpatia gratuita por aquela mulher carismática.
— Desculpa por pegarmos seu tio emprestado. Vamos devolvê-lo em poucas horas — Peletier disse com doçura. Delilah deu um sorriso tímido, sem mostrar os lábios.
— Nah, sem problemas. — Levantou uma das mãos, fingindo despreocupação. — É bom que ele sinta saudades. Vai ficar menos ranzinza — brincou Lilah Feld, fazendo a mulher dar uma risadinha afável. Carol voltou aos seus afazeres, trocando algumas palavras rápidas com o rapaz de olhos azuis que terminava de checar o material. Disse algo para ele que Lilah não pôde distinguir, e o arquiteto logo fitou a garota, voltando os olhos para Peletier outra vez. Concordou com um aceno de cabeça, e andou até Delilah. Carol terminou de empacotar o material que levariam para a produção das balas junto aos outros. Rick começou a abrir os portões.
— Hey — Tucker a saudou com um sorriso gentil. Era outro membro cativante de Alexandria.
— Hey — respondeu ela, sem jeito.
— Se quiser se distrair e ocupar a mente e tal, sabe, para fazer o tempo passar mais rápido... Sempre tem espaço para uma mãozinha extra nas obras das fronteiras da comunidade — sugeriu o arquiteto.
— Ah, obrigada. Mas eu não sei nada sobre construções — admitiu a garota, erguendo as sobrancelhas.
— Muita gente não sabia. A Peggy, por exemplo — lembrou o rapaz. — Começou a ajudar tem pouco tempo, e agora já aprendeu algumas coisas. Tenho certeza de que ela te ensinaria o básico hoje. Se quiser, é claro. — Ele coçou a nuca.
— Hã.... — hesitou, sem saber o que dizer.
— Relaxa, é só uma sugestão. Não se preocupa — falou o rapaz, afável. — Logo achará algo que queira fazer por aqui. Todo mundo encontra, mais cedo ou mais tarde! — garantiu ele, com outro sorriso luminoso. Delilah ficou ainda mais sem jeito. Percebeu-se sorrindo bobamente.
— Certo, obrigada — respondeu, julgando-se um pouco palerma. Ainda tinha as mãos nos bolsos, acabrunhada. Seu tio andava até ela, provavelmente para se despedir.
— A gente se fala! — Tucker a saudou com simpatia, dando-lhe um aceno com uma das mãos.
— Ok! — disse, ainda desajeitada, tirando uma das mãos dos bolsos um pouco rápido demais para retribuir o aceno. Redmond já falava consigo.
— Juízo — debochou seu tio, sabendo que Delilah não pretendia sair dos olhares vigilantes dos preparados membros de Alexandria.
— Sempre tive — respondeu troçando e sorrindo para o tio, que considerava como um pai. O pai que jamais teve.
— Quem me dera — replicou Red, dando-lhe um beijo na testa. — Nos vemos de tardinha!
— Até! — Delilah saudou o tio, que entrou na parte de trás do furgão. Michonne deu a partida, dirigindo. Despediu-se de Rick Grimes, que logo fechou os portões com a saída do automóvel e seus tripulantes.
Lilah virou-se de costas. Realmente não tinha nada planejado para aquele dia. Nada além de uma sessão com Sally, a psicóloga de plantão de Alexandria.
Como não tinha muita vontade de abordar os recentes abusos que sofrera nas mãos dos Salvadores — muito menos com gente que acabara de conhecer — decidiu acatar a sugestão daquele rapaz afável.
Seguiu na direção das fortificações da comunidade, passando por uma porta construída entre a murada. Logo distinguiu a menina que ele se referira, fazendo a massa de cimento munida de uma espátula. Conversava com uma mulher loira de marias chiquinhas. Perto delas, um homem negro com ar de monge passava carregando uma viga.
— ...E o Billy ainda não chegou. Se anoitecer sem ele voltar com aquele traseiro caipira, eu mesma me encarrego de ir atrás...
— Posso ajudar? — Delilah falou alto demais, novamente atrapalhada.
Peggy e Rebecca levantaram os olhos para ela. A moça loira parou de conversar e passou a ajudar Morgan com a viga, sem dar muita atenção para a garota. A menina de cabelos ondulados castanhos, porém, lhe deu um olhar enigmático.
— Hã... Tucker falou para eu vir aqui e falar com você. Peggy, não é? — tentou ser simpática, dando um sorriso amarelo. A menina com capacete de construtora apenas estreitou os olhos, incerta.
Lilah não sabia se a menina a julgava ou se apenas pensava se valeria a pena perder seu tempo consigo.
****
[AO ENTARDECER]
A segunda visita à fábrica de balas encontrada por Eugene Porter fora mais do que bem sucedida.
O grupo retornava de um dia de trabalho no qual fizeram os moldes e finalmente colocaram as máquinas para funcionar. Os projéteis feitos na primeira leva ainda eram demasiadamente rudimentares, mas serviriam por enquanto. Fora necessário aniquilar alguns poucos rastejantes que cambeteavam perdidos pela fábrica abandonada, mas conseguiram uma boa produção teste junto aos caldeirões e forjas utilizados para o trabalho.
Ele se sentia empolgado. A cada passo dado, a comunidade parecia crescer mais e mais. Crescia exponencialmente, em termos de população, de território, de suprimentos e armamentos. Era como testemunhar a renovação da sociedade depois de um longo ciclo de destruição. Uma aura esperançosa envolvia os tripulantes do furgão que conversavam entre si — como era o caso de Carol e Michonne, sentadas nos bancos da frente —, cochilavam, como Eugene o fazia, ou apenas sonhavam acordados.
Como Tucker Hayes.
Redmond lia anotações que fizera em um caderno tipo moleskine, sentado na frente do rapaz. Perdido em pensamentos, o arquiteto não pôde evitar recordar da última vez que se sentira assim. Renovado. Tão esperançoso com os dias que viriam.
[...]
— Babe, você está uma gracinha! Tão alinhado! Nem parece você. — A voz macia de Cathy falava do sofá do apartamento quarto e sala que dividiam.
Do espelho em que se olhava tentando inutilmente dar um nó decente em sua gravata, Tucker Hayes viu o rosto da namorada esticando o pescoço para olhá-lo se arrumar. Seus grandes olhos azuis escuros pareciam simultaneamente divertidos e atraídos, com um dos seus típicos sorrisos largos emoldurando seu belo rosto.
— É o que eu quero que eles continuem pensando nessas primeiras semanas — Tucker debochou de volta, desistindo de dar um nó melhor do que o que já fizera. Havia recém começado no trabalho que tanto lutara para conseguir, em uma grande firma de arquitetura da Philadelphia.
Caminhou até o sofá, onde Catherine comia um prato de cereal com leite. Ele se abaixou e lhe deu um selinho.
— Não vai trabalhar não, folgada? — Hayes tirou carinhosamente a franja lateral da namorada de perto dos olhos. Rutherford deslaçou uma risadinha, puxando sua mão para baixo e dando uma mordida brincalhona em seu polegar.
— Meu chefe me deu uma folga hoje. Entro mais tarde. Está passando uma maratona de LOST. Olha, um dos flashbacks da Kate. Sabe que eu a amo. — Ela apontou com a colher para a televisão.
— Nós já vimos essa série — Tucker disse, não compreendendo o gosto de sua namorada por ver os mesmos episódios de novo.
— É, estou esperando alguém que prometeu que veríamos Dexter. — Ela levantou uma sobrancelha duvidosa, torcendo os lábios em um sorriso jocoso.
— Eu sei, eu seeei — Tucker respondeu, manhoso, beijando os cabelos da namorada. — Hoje de noite a gente assiste. Prometo.
— Relaxa, eu sei o quanto você gosta desse trabalho. Vai lá construir seus prédios. — Cathy apertou uma de suas bochechas, sorridente.
Ela levantou o rosto, movendo os lábios para os dele, segurando-o pelo pescoço. Os dois apenas pararam de se beijar quando a chamada de um plantão de notícias soou da tela da televisão.
— E essa agora? — perguntou Tucker, um pouco satisfeito pela distração. Se continuassem assim, com certeza se atrasaria para o trabalho.
Com um olhar alarmado, a repórter das notícias matinais substituíra a programação do momento.
— Notícias urgentes do centro comercial: um civil foi morto a tiros perto na rua Sansom nesta manhã — a repórter relatava, tentando usar de um tom monocórdio não muito estável.
— Babe, é perto do seu trabalho. — Cathy deu um apertão preocupado no braço de Tucker. Ele franziu as sobrancelhas.
— Acometido por algum tipo de enfermidade ainda não confirmada, o cidadão não identificado se lançou contra outros civis, salivando descontroladamente. Os relatos são de que ele tentou morder um transeunte que o conteve próximo a um dos carros da polícia. O oficial agiu imediatamente e, como o civil não obedecia aos apelos, teve de ser contido por meio de tiros. Alguns relatos afirmam que o cidadão enfermo chegou a correr na direção do carro da polícia e só foi contido ao receber uma bala na cabeça, depois de dois tiros ao longo do corpo.
Cathy cobriu a boca com uma das mãos. Seu namorado acariciou os cabelos dela, também atônito. O clima amoroso que havia entre eles na sala já havia se esvaído.
— Tem certeza que vai? Toma cuidado — pediu Cathy, puxando a manga de seu paletó. Tucker segurou uma das mãos da garota que tanto amava, lhe dando um aperto reconfortante.
— Não vai acontecer nada. A gente se encontra as seis. — Ele soltou a mão da namorada.
— Fica tranquila. Isso foi só uma notícia estranha. Com certeza não vai acontecer nada parecido nunca mais — assegurou, lhe dando um sorriso de despedida e fechando a porta de casa.
[...]
Essa fora apenas uma das promessas que fizera a Cathy que não pudera cumprir. Também lhe prometera que sempre estariam juntos. Que a protegeria, que cuidaria dela. E que nada jamais lhe aconteceria.
A pouca luz da tarde descia sobre a estrada. Já estavam na metade do caminho para Alexandria, e o sentimento esperançoso dentro de Tucker esmorecera bastante. Melancólico, ele ergueu os olhos que antes focavam o carpete do furgão, quando perdido em suas lembranças.
Focou-os em Carol, que conversava com Michonne. Falavam algo sobre Judith, a bebê de Rick Grimes, e a mulher de cabelos curtos sorriu a um comentário da espadachim. As poucas marcas de expressão em seu rosto se fizeram visíveis, e seus olhos claros cintilaram, agradada pelo o que quer que Michonne falara.
Algo dentro dele se acalmou, sentindo uma espécie de alento acalorado em seu peito. Tucker piscou e respirou fundo. Nem tudo estava perdido. Ainda havia muito pelo que viver.
Michonne fez uma curva, os olhos focados na estrada. Porém, subitamente, freou. Eugene acordou pelo movimento súbito, pestanejando alerta. Redmond levantou os olhos do caderno, e as expressões das duas mulheres no banco da frente se fecharam.
Tucker ergueu o tronco e viu o que havia diante do painel dianteiro.
Um grupo de dezenas de rastejantes juntos uns dos outros, com pernas e braços costurados em algum tipo de remendo perverso fechavam o caminho, acorrentados a tapumes de bloqueio de estrada. Uma repulsiva centopeia humana feita de mortos famintos.
Michonne voltava os olhos para dar ré, mas, surgindo dos dois lados da estrada estreita, um grupo de dezenas de homens saiu de cada um dos lados da floresta fechada. Repletos de armas de fogo, fechando a retaguarda do furgão. Um deles se pôs a falar em altos brados.
— Saiam do carro e vamos ter uma palavrinha, em nome de Negan!
Estavam completamente cercados.
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