Hunter's Instinct
63 Episódio 63 - Truth or Dare
Notas iniciais
O som de galhos se partindo estourou pela mata vazia como o estampido de um tiro.
Cada parte de seu corpo, mente e alma percebiam cada mínima mudança do ambiente ao seu redor.
Sentia-se profundamente em contato com sua energia primordial. O “ki”, como seu instrutor de kenjutsu há muito lhe ensinara. Seus poucos pelos corporais estavam eriçados, sua corrente sanguínea fluía rápida dentro de si como um impulso elétrico.
Você tem de sentir.
Sentir antes de ver.
Michonne lecionou a si mesma mentalmente. Sua mão direita se levantou lenta, precisa, guiada por aquele movimento que já lhe era natural. Instintivo.
A guerreira sobrevivente tocou no cabo da katana que tinha em suas costas. Seus dedos se fincaram naquele ponto do objeto com uma firmeza calculada e também espontânea.
Ouviu passos arrastados, cambaleantes, sôfregos. Seus dedos cravaram-se ainda mais na base da espada, como uma pantera soltando as garras.
No segundo seguinte, Michonne já havia se lançado para a esquerda, na direção guiada por sua própria percepção de guerreira. Seguindo seu instinto de espadachim.
A mulher de dreads acertara. Com apenas um golpe limpo, cortara na horizontal a cabeça de três errantes que se aproximavam, juntos, vagueando sem destino por aquele terreno que ela guardava.
Ainda não fui tão rápida quanto ela.
Michonne avaliou o resultado de seu treinamento contínuo, sentindo-se insatisfeita.
Quase dois meses haviam se passado desde a derrota do Exército de Wyoming County e de sua líder psicopata. Depois dos dois duelos que tivera com Hashimoto a sobrevivente havia aprendido uma dura verdade. Não era a única espadachim habilidosa. Não era nem mesmo a melhor.
Michonne quase morrera após a derrota de Hashimoto. As cicatrizes formadas em seu corpo eram uma prova de tudo o que se passara. Do que ela diariamente tinha de vislumbrar, ao ver seu reflexo no espelho.
Ainda não estavam preparados para tudo. Ainda eram frágeis. E ainda poderiam ser derrotados.
— Hey! — Ela escutou a voz de Rick Grimes soar alguns metros longe. Voltou-se para o som. Logo depois, ouviu o ruído do motor de um carro sendo ligado.
— Como foi? — a espadachim perguntou ao líder de Alexandria, caminhando até ela. Mais atrás dele, guiando um furgão, estava Glenn, enquanto Eugene escrevia algo em uma prancheta no banco ao lado.
— Achamos pouca coisa. Mais produtos medicinais do que comida. Mas consegui sua pasta de dente — brincou o pai de Carl, fazendo menção a uma marca específica de creme dental que Michonne queria. Estava tentando desanuviar a gravidade da situação que enfrentavam.
A espadachim forçou um sorriso e o agradeceu em silêncio, com um aceno simpático.
— Como está o inventário? — indagou. Rick soltou uma expiração descontente.
— Não muito bom. Vamos ter que racionar em dobro o que não é produzido na comunidade. Ao menos por mais uma semana — afirmou o policial, frustrado. Michonne assentiu, compreensiva.
— Vai dar. Só não devemos estar procurando nos lugares certos — considerou. Rick levantou as sobrancelhas, descrente. Ele limpou a garganta, desviando os olhos do rosto dela. A espadachim compreendia sua preocupação.
— Não acha que podemos resolver tudo... Dando algum crédito para aquele cara? — reiterou uma sugestão que já havia proposto.
— Não. Ainda não confio nele — negou Grimes outra vez. Fitou Michonne com seus olhos claros resolutos.
Rick acabara se tornando um líder um tanto severo. A espadachim não o condenava por isso, dados os últimos acontecimentos. Mas ela temia o quanto aquele modo extremamente rígido de ver a realidade poderia acabar o cegando para perspectivas melhores.
A mulher manteve seus olhos escuros nos olhos azuis dele, e retornou a falar.
— Eu compreendo seu medo — disse, mas Rick a olhou com as pálpebras estreitadas. Pareceu não ter gostado do uso do termo.
— Mas já o deixamos preso por um mês. Um mês! Você não acha que se tivesse algo mais a falar, ele já não teria dito? — sussurrou a mulher, evitando que Glenn e Eugene escutassem aquela conversa. Os dois, além de outros moradores da comunidade, não eram muito favoráveis a manutenção daquele cativo. Achavam uma operação um tanto... Cruel.
Deu um passo à frente e segurou no braço de Grimes, que mais uma vez parecia reticente.
— E além do mais, é uma boca a mais para alimentar — insistiu, sensata.
— Você acha que Hashimoto não nos enganaria por um mês? Ou dois, ou até mesmo um ano? — Rick Grimes foi direto ao ponto, fuzilando Michonne com os olhos. — Inferno... Ela nos enganaria o tempo que fosse preciso para seu Exército nos achar, ou até conseguir voltar para eles. — O policial se manteve frio e cauteloso.
— Ele não é como Hashimoto — duvidou, intensificando o aperto no braço de Grimes, que logo em seguida se afastou.
— E aí? É pra hoje?! — Glenn Rhee apressou os dois, parado no acostamento. Rick Grimes se voltou para o amigo com um gesto ligeiro com as mãos, pedindo para que esperasse um pouco mais.
— É? E como vamos ter certeza disso? — o policial perguntou, levemente sarcástico. — Só porque ele gosta de ser chamado de Jesus? Hashimoto não tinha a cara, o porte e nenhuma aparência demoníaca. Mas era o diabo em pessoa — redarguiu Rick, metaforicamente. O policial passou uma mão nervosamente pela testa. — Michonne, preciso que entenda: nós não podemos mais nos arriscar. Lembre-se do que aconteceu da última vez em que fizemos isso — Grimes mencionou a quase aniquilação total de Alexandria por Hashimoto.
— Temos de levá-lo até a comunidade dele. Usá-lo como moeda de troca! Ele diz que é um diplomata, que quer nos colocar em uma rede de comunidades que trabalham juntas. Isso pode sim salvar nossa situação! — sugeriu a mulher, como já havia feito antes. Rick negou, parecendo irritadiço.
— Não sabemos a veracidade de nada do que ele fala. Todos os dados que nos diz podem ser mentirosos. Nem fotos para provar alguma coisa esse sujeito tem! — rosnou Grimes, contrariado. — Podemos chegar lá e ser mais um Exército de Wyoming County. Outro grupo perigoso para lidar. E nós gastamos quase todo o nosso arsenal com aquela maldita! — Rick apontou para oeste, na direção onde ficava a base militar da japonesa.
— Você nem sequer nos deixa falar sobre o Exército com ele, durante os interrogatórios... Poderíamos intimidá-lo mais se ele soubesse o que fizemos! — Michonne respirou fundo, tentando se manter calma. Rick estava paranoico além dos limites. — ...Ele é apenas um, Rick. Apenas um! — A amiga do policial tentava deixá-lo mais razoável.
— Hashimoto era só uma. Que angariou centenas. — Rick continuava com sua decisão. A espadachim fechou os olhos e suspirou, irritada. — Esse sujeito é muito calmo. Muito controlado. E muito bem-humorado para que eu possa confiar tão rápido nas merdas que fala. Ainda não me sinto seguro a respeito dele. Ele fica — garantiu o policial, defendendo a prisão “preventiva” de Paul Rovia em Alexandria.
— Você sabe que há muita gente na comunidade que não gosta da sua decisão. Maggie, Glenn, Mavelle... Só para lembrar alguns — ratificou Michonne, séria. Rick soltou um muxoxo de desdém.
— A maioria me segue. — O policial a fuzilou com os olhos novamente. Michonne se aproximou dele outra vez, segurando seus ombros. Respirou fundo, se acalmando.
— Eu não estou contra você. Só quero o melhor para todos nós. — Ela tentou usar um tom de voz mais conciliador. — O problema, Rick, é que a maioria está te seguindo por respeito. Porque você conseguiu vencer uma situação impossível. Mas o respeito não dura para sempre. Ele tem de ser mantido, depois de conquistado. E se deixarmos esse sujeito morrer de fome junto com a gente... A situação em Alexandria pode se desestabilizar outra vez — a sobrevivente aconselhou o amigo, cuidadosa.
Rick piscou os olhos, parando de fitá-la, movendo o rosto para a direita. Refletiu sobre o que ela disse. Glenn buzinou, e Grimes fez um sinal positivo. Os dois foram ao furgão de coleta.
Assim que chegaram ao automóvel, contudo, Rick mirou a amiga outra vez. Segurou em seu braço, com delicadeza contundente.
— Ele continua preso. — O líder de Alexandria não havia sido convencido. Michonne soltou uma respiração, frustrada outra vez. — Por enquanto. — O policial abrandou seu tom de voz e entrou na carga do furgão. Como se quisesse agradá-la, Grimes estendeu a mão para ajudá-la a entrar. A espadachim ignorou o gesto e entrou sozinha na carroceria.
Porém, ela não desistiria.
Mais tarde naquele dia, meia hora antes do entardecer, Michonne decidira parar de ajudar na segurança da construção das trincheiras. Desenhadas e elaboradas por Eugene e Tucker, a formação de barricadas protegeria o entorno de Alexandria em uma espécie de fortificação à moda antiga, como uma espécie de baluarte inglesa da época da colonização dos Estados Unidos, porém mais moderna e resistente.
A espadachim eliminou um último errante, uma adolescente de cabelos loiros presos em uma trança comprida, já muito decomposta. Alertou a Tara, Heath e Rebecca, que atuavam na construção naquele momento, que teria de terminar o turno mais rapidamente, mentindo que começara a se sentir mal. Deixou Daryl e Peggy sozinhos no encargo de proteger as imediações.
Os cinco pareceram preocupados com Michonne, que não costumava reclamar de dores ou qualquer tipo de mal-estar. Dizendo para não se importarem, rejeitou a oferta que Dixon havia feito de lhe acompanhar até a enfermaria, e caminhou sozinha.
Mas é claro que iria para outro lugar.
A habilidosa sobrevivente percorreu alguns quilômetros dentro do território alexandrino até chegar aquele local. Uma casa vazia, na qual o porão, adaptado por Morgan no decurso daquele tempo... Fora transformado em uma cela com grossas barras de metal.
Assim que chegou, o homem de cajado estava fazendo a vigia do prisioneiro.
— Ele está sozinho lá embaixo? — perguntou ao praticante de aikidô. Jones confirmou, anuindo em silêncio.
Michonne abriu a porta de entrada, caminhando para dentro daquela residência sem fazer a menor cerimônia.
— Hey! Rick não me falou que teria algum interrogatório agora... — tentou Morgan, que era um dos contra a estadia do prisioneiro. Era a favor de sua liberação.
— Eu estou falando. — A espadachim lhe deu um curto olhar, tão irredutível que Jones sequer tentou desafiar sua decisão. — Apenas espere alguns minutos. Não devo demorar — Michonne sancionou, tenaz, descendo as escadas até o porão.
Ao caminhar pelo subsolo daquela casa, o sujeito cabeludo e barbudo estava sentado a um canto da cela, raspando na parede com um pedaço solto de madeira do piso. Estava marcando o final daquele dia. A espadachim contou os riscos. Eram iguais a soma dos dias de sua prisão.
— Oi — “Jesus” a saudou, não muito animado. — Posso tomar mais um copo d’água? — pediu, com gentileza em sua voz calma. Michonne se sentiu um pouco mal por aquele homem, como de costume. Ele tomava banho com alguma frequência, e recebia sempre água e porções de comida. Mas manter um ser humano preso daquele jeito, por tanto tempo... Não era algo que a deixasse tão confortável. Lembrava-a do que passou em Woodbury com Andrea, porém de uma forma ainda mais explícita e perversa.
Contudo, realmente, ele parecia muito contido. A mulher compreendia a desconfiança de Grimes. Se tivesse ficado presa por tanto tempo, já teria perdido a calma há muito.
Ela levou até o homem de longas madeixas um copo de plástico, enchendo-o com a moringa reservada ao prisioneiro de Alexandria. Passou-o pela barra, e Paul Rovia o pegou, bebendo com sede logo em seguida.
— Quantas pessoas você disse que havia em Hilltop? — Michonne perguntou outra vez. Já o havia interrogado sobre isso, sempre questionando de maneira diferente o mesmo assunto. Fazia-o para testar se poderia descobrir alguma controvérsia no discurso dele. Mas o sujeito sempre tinha as mesmas informações impecáveis, repetidas constantemente.
— Algumas dezenas. Da última vez que contei, cinquenta e duas. Atualmente não saberia dizer, já que estou longe de casa por tanto tempo. — O cabeludo deu um sorriso torto, entregando o copo vazio a Michonne, que o guardou em cima da mesa mais próxima.
— E você acha que o seu líder, Gregory, iria querer negociar conosco mesmo sabendo que o mantivemos cativo por um mês? — Michonne fez a pergunta direta, e “Jesus” apenas levantou as sobrancelhas, suspirando com leveza.
— Bem, acho que eu conseguiria dar um jeito. Embora não ache uma boa ideia contar esse detalhe — comentou Paul, uma centelha esperta faiscando em seus olhos.
— E por que não? Estamos nos defendendo. Você roubou uma das nossas e a deixou na estrada para morrer. Outras pessoas poderiam ter te matado. Nós não. Te tratamos bem. É apenas precaução — disse Michonne, e estreitou os olhos. Precisava ter certeza sobre o caráter daquele homem.
— Então... Precaução e paranóia — Paul Rovia levantou as mãos em um gesto de desculpas — não é algo que falte a Gregory também. E acho que um acordo entre os nossos grupos só seria bom para todos nós. Como disse, nós temos plantações imensas. Proteína animal. E vocês tem outras coisas para oferecer... Armamentos! Um escambo legítimo e valioso. Uma situação em que todos os lados ganham! — “Jesus” sorriu da forma afável de sempre.
Michonne desembainhou a espada de súbito. Paul Rovia franziu o cenho, sem compreender, recuando um pouco. Mesmo assim, ainda parecia mais tranquilo do que a espadachim gostaria.
— Leia o que está escrito na bainha da espada. — A amiga de Rick Grimes mostrou a base da katana para o homem de cabelos grandes.
— Eu não sei ler em japo... Espere um pouco — Paul Rovia hesitou, sua respiração ficando entrecortada por um segundo.
— Eu sabia! — “Jesus” andou para perto das grades de forma a encostar o rosto no metal. Michonne recuou um pouco, cautelosa. Ele tinha os olhos fixos na escrita em japonês.
— Eu sabia que vocês tinham feito isso. — Os olhos de Paul brilharam. — Esse é o símbolo do folheto do Exército de Wyoming County, não é? Que eles sempre usavam! Vocês os derrotaram! Essa é a katana da líder deles! — atestou Paul Rovia, subitamente empolgado. A espadachim se mantinha séria.
— Hashimoto! — Paul quase riu. — Eu sabia, eu sabia. Tudo batia com essa minha especulação! — O diplomata de Hilltop sorria largamente. — O Exército estava na nossa cola. De todas as comunidades mais próximas de Washington D.C. E, do nada, eles sumiram. Segui um grupo deles por muito tempo, que vinha decidido mais para o sul. Fui capturado, e me levaram para a líder deles, perto do caminho onde encontrei aquela mulher da caminhonete azul — mencionava Carol Peletier.
— Eu teria sido levado para a base em West Virginia se Hashimoto não tivesse desistido de última hora. Isso tem o quê... Alguns meses? Lembro que ela recebeu uma chamada no walkie-talkie. Seus capangas a avisaram que “moradores de Alexandria” estavam perto de uma área que eles vigiavam. — Paul parecia realmente alegre. — Foram vocês! Ela queria vocês, em primeiro lugar. E depois voltaria para nos buscar... Mas vocês venceram. Cara, isso é inacreditável! — Rovia estava exultante, como se tivesse ganhado na loteria.
— Por que isso te deixa tão feliz? — Parecia mais duvidosa. O que levaria aquele sujeito a pensar que eram tão melhores assim do que Hashimoto? Afinal, estava preso há um mês em Alexandria.
— Porque vocês não são que nem ela. Vocês serão recebidos como heróis em Hilltop! Ah, cara, vocês são mesmo! — Paul Rovia parecia comemorar o feito dos alexandrinos em derrotar a sombra autoritária de Hashimoto, que, pelo visto, pairava por muito mais distâncias do que eles imaginavam.
Michonne teve um súbito lapso de compreensão. Seu coração acelerou.
— Você queria isso. Você queria isso desde o começo! — A espadachim franziu as sobrancelhas, incrédula por não ter percebido. Por Rick não ter reparado. Por ninguém, afinal de contas, ter pensado nisso.
— ...Hã? — Paul tentou se fazer de sonso. Mas aquilo não funcionaria mais com a amiga de Rick Grimes.
— Você queria ser levado pela gente. Para poder nos avaliar. Você que estava na nossa cola por esse tempo todo. Devia nos estudar de longe. — Michonne apontou para o barbudo. “Jesus” piscou os olhos, nervoso. Pareceu ter sido flagrado.
— É por isso que não reclamou. E se conteve tanto. Só queria saber quem éramos... E o que poderíamos fazer. — A espadachim fuzilou o cabeludo com o olhar. Virou as costas para ele, que tentou protestar.
— Hey, espera aí! — pediu Paul Rovia, mas Michonne fechou a porta do porão com um estrondo.
Sentindo-se estúpida, ela passou as costas de uma das mãos na testa, preocupada. Fizera exatamente o que Paul queria. Infiltrado por tanto tempo em Alexandria, “Jesus” já sabia tudo o que queria a respeito deles. Tinha um relatório preciso. Não havia jeito. Não poderiam simplesmente matar o sujeito. No fim, teriam mesmo de negociar com Hilltop, e pagar para ver.
Rick Grimes tinha razão em um aspecto.
Aquele mundo era dos fortes, como Hashimoto lhes ensinara. E a força vinha de outros lugares além da resistência física.
Advinha da estratégia, da inteligência e da astúcia humana.
****
Ela olhou pelas janelas da cozinha de Sally Adams. Eram quase seis e meia, e a escuridão se erguia pelo começo da noite alexandrina. Seria fria e escura, como o dia que havia se passado.
Como todos os dias se passavam para ela. Lentos, arrastados, sôfregos... Muito, muito escuros.
— Sabe... Eu acho bom ter companhia para cozinhar — a mulher, cerca de dez anos mais velha do que ela, lhe dizia. Preparavam grandes quantidades de sopa de legumes e algumas carnes para levar para aqueles que fariam trabalhos noturnos e externos da comunidade.
A quantidade de comida era um problema grave para Alexandria. Billy Ray Holloway, Morgan Jones, Maggie Greene e outros moradores mais experimentados com o plantio e cultivo da terra tentaram fazer o seu melhor antes da chegada do inverno, mas agora eram poucas as hortas que produziam. Os poucos porcos e galinhas restantes simbolizavam uma certeza: quando tivessem de enfim abatê-los, é porque realmente a situação estaria preocupante.
— Eu era analista naquela outra época, sabe — Sally fez referência ao mundo antes da infecção dos errantes. — Eu passava boa parte do meu trabalho calada, escutando os outros falarem. Eu gostava, claro, mas nossa, ficava igual a uma matraca nos meus finais de semana — a mulher de seus cinquenta e muitos anos dava uma risadinha.
Carol Peletier forçou um sorriso gentil para a mulher com quem dividia aquela tarefa. Começou a distribuir a sopa em algumas vasilhas que levariam como marmitas.
— Eu acho que... Muita gente aqui na comunidade está precisando. Sabe, depois de tudo. — Os olhos verdes de Sally Adams brilharam, preocupados. — As crianças que eu cuido, então... — Carol sentiu uma pontada no peito ao ouvir aquela frase. Foi impossível não se lembrar de Sophia, Lizzie, Mika, Sam... Suas crianças, perdidas para sempre.
Carol Peletier levou uma mão à altura do coração, instintivamente. Tentou disfarçar, a passando pelos cabelos, ajeitando a blusa, em seguida. Olhou para Sally com educação, como se realmente quisesse escutar o que ela tinha a dizer.
— Os adultos também. O que eu não percebo de sinais de transtorno de estresse pós-traumático... Além de princípios de depressão, ansiedades patológicas... E não só distúrbios neuróticos não, acho que tem muita gente com um quadro grave de psicose. Mas não posso forçar ninguém a se tratar. — Suspirou, cansada. — Vou tentar convencer o Rick a me colocar em uma espécie de posto médico — afirmou a psicanalista.
— Estresse pós-traumático? — perguntou Carol, sua voz suave, quase sonhadora.
— Sim — Sally lhe deu um olhar cúmplice. — Paranóia, hipervigilância, irritabilidade, ansiedade extrema a níveis de pânico, distanciamento emocional... — A mulher abaixou ainda mais a voz. — Acho que Rick está com um quadro grave. Aqui entre nós, é claro.
Carol sentiu seu coração palpitar. Tentou dar um ritmo leve à sua respiração. Havia se identificado com todos aqueles sintomas.
— Nossa... Que triste, não? — Peletier tentou soar distante, prestando atenção na comida que guardavam nas marmitas, como se estivesse se compadecendo com o sofrimento alheio. E não se vendo no que a analista dizia.
— Muito. Todo mundo aqui precisa de acompanhamento, olha, eu também não dispensava uma terapia agora — lamentou-se Sally, levantando as sobrancelhas e examinando as marmitas já prontas. — Vejo todos querendo se esconder por trás dos trabalhos que temos a fazer, fingindo não ter de olhar para dentro. Mas isso nunca dá certo. Uma hora pagamos o preço — garantiu a psicanalista.
— Imagino — Carol fingiu concordar. Entendia o joguinho daquela mulher. De alguma forma, deveria estar preocupada consigo. Talvez pelo fato de Carol Peletier lutar com todas as suas forças para não demonstrar suas emoções.
Se tinha algo que a machucava mais do que sofrer o que sofria, era ter de lidar com a comiseração alheia por seu estado emocional. Era melhor que nenhum deles soubessem.
Carol se lembrava de como se sentia refém da dominação de Ed, seu ex-marido. De como fora duro se libertar, e ver em si mesma o que todos eles viam nela agora. Carol Peletier era como a “mãe” do grupo, a rocha inabalável. Depois de sua súbita fuga de Alexandria, fizera o seu melhor para manter certa distância emocional de seus amigos, para não criar neles ideias de que, de alguma forma, ela era novamente frágil e quebradiça.
Mesmo que, dentro de si, há muito já soubesse que estava totalmente em pedaços.
Carol Peletier passava seus dias fazendo exatamente o que Adams dizia. Buscando ocupar sua mente. A companhia de seus amigos a deixava mais angustiada, temendo o que poderia ser exigido dela ou que juízo poderiam fazer de si mesma se, em algum momento, falhasse com sua farsa de resistência determinada.
Daryl volta e meia a procurava, tentando jogar conversa fora, algo que o arqueiro era péssimo. Carol sempre soubera lidar com ele, então sabia dispensá-lo com gentileza. Rick mal tinha tempo para tentar investigar se havia algo de errado com ela. Michonne passava pela mesma situação, assim como Maggie, que fora confiada com um cargo de líder secundária da comunidade e estava às vésperas de dar à luz.
Ficar perto da Greene era muito difícil para a mulher de cabelos curtos. Lembrava-a de sua gravidez de Sophia, quando a vida ainda não era esse pesadelo diário. Ed sempre fora abusivo, manipulador e calhorda, mas o que sofria com ele não se comparava à batalha constante que travava contra si mesma recentemente.
Era cansativo, era extenuante, e a ideia de desistir sempre lhe parecia mais e mais tentadora. Mas sempre havia algo que a parava quando passava a refletir constantemente sobre a ideia de “se libertar”. Por alguma razão estranha, ficava imaginando como Tucker Hayes lidaria com aquilo, e, de algum jeito, se sentia culpada de antemão apenas por pensar em algum ato suicida. E voltava ao seu mesmo tormento mental. Pensando quanto tempo demoraria para aquele pesar todo passar.
— Vamos? — Sally a acordou de seus pensamentos. — Acho que deveríamos levar a porção das crianças primeiro — Adams sugeriu. A psicanalista acolhera em sua casa todas as crianças órfãs e cuidava delas como se fossem seus filhos.
As duas seguiram levando as refeições até a biblioteca, uma casa de Alexandria onde ninguém fixara residência e era utilizada como uma escola e creche para as crianças e adolescentes da comunidade. Em uma das salas, inclusive, havia uma espécie de “sala de artes”, improvisada. Ideia que, obviamente, só poderia ter surgido de uma pessoa.
Tucker Hayes.
— Ele ainda deve estar segurando os “menorzinhos” na classe — Sally deu uma risada rápida. — Você tem de ver a paciência que esse menino tem com as crianças. Fico admirada — comentou Adams, sorrindo e olhando para a fachada da casa onde havia a biblioteca.
— Sabe, como psicanalista acho essa ideia da “aula de artes” excelente. As crianças soltam muito suas emoções brincando, desenhando... Nas atividades lúdicas. Mesmo num mundo como o nosso.... — Adams suspirou. — ...As crianças ainda precisam ser crianças. — Carol ajeitou os ombros, passando uma das mãos nervosamente pelo pescoço. Aquele assunto lhe trazia memórias dolorosas.
— Está tão quieta hoje! — Sally cobrou Carol, dando-lhe um sorriso afável. Carol Peletier forçou outro, levantando as sobrancelhas.
— Ah, estou distraída pensando em como vamos resolver essa questão da comida... — mentiu Carol, entrando na casa e seguindo até a cozinha. Na verdade, estava receosa de encontrar Tucker. O rapaz a salvara de si mesma quando decidira desistir e morrer na entrada de uma casa abandonada, muitas milhas distantes de Alexandria. E, depois disso, apesar de ter respeitado sua distância emocional, volta e meia a procurava, como se quisesse ter certeza de que estava bem.
Aquilo a machucava também. Não vira como deixara aquele rapaz se aproximar tanto. E agora não sabia como agir a respeito.
Ela e Sally Adams colocaram a mesa para as crianças presentes naquela “classe”. Em seguida, foram até a porta que se encontrava aberta.
Adams a parou antes de se aproximarem da sala. Do corredor, tinham uma boa visão do lado de dentro. Sally fez uma expressão travessa, e levou um dedo indicador aos lábios simbolizando silêncio.
— Olha que graça. Essa é a hora do dia em que eles ficam mais felizes. — Sally apontou para dentro da sala. — Acho que esse ar juvenil dele deixa os pequenos mais tranquilos — comentou a psicanalista, enquanto Carol, sem escolha, testemunhou uma cena tão ironicamente doce que foi quase dolorosa.
— Hey! Dennis, o que eu falei? — Carol Peletier viu e ouviu Tucker se aproximar de um garotinho ruivo e sardento de uns quatro anos. — Não é para rasgar o papel com o lápis. Olha, se você usar menos força e mais jeitinho vai pintar bem melhor. — O “professor de artes” se agachou até o menino que quase estragava um lápis de cor vermelha no papel já rasgado pela força que usava. Provavelmente descarregava alguma emoção contida naquele ato de colorir agressivamente.
Segurou a mão do menino com a dele, ensinando-o a colorir com menos brusquidão. O menino continuou a pintar o próprio desenho, enquanto Hayes o incentivava.
— Isso aí! Muito bom! Quase um Picasso, moleque! — Tucker levantou uma das mãos fechada em punho, enquanto o garotinho fez o mesmo gesto, olhando para o rapaz. Tocaram as mãos em um “soquinho”, algum tipo de cumprimento. Os olhos tristes de Dennis pareceram brilhar por um momento, rindo com aquela brincadeira.
Carol sentiu uma onda de ternura inundar seu corpo por inteiro. A tristeza era sua companheira constante, mas ficou mais branda naquele momento.
As crianças remanescentes — um total de quatro, outro menino e três meninas —, se dedicavam cada um a suas atividades. Um menino e uma garotinha mais velha faziam um cartaz de colagens de revistas, montando um jardim com fontes e outras imagens recortadas. O título do cartaz dizia “Minha Casa dos Sonhos”.
Carol sentiu o peso em seu peito retornar com força total. Era duro demais ver crianças sonhando com algum tipo de zona segura que poderia muito bem ser somente uma ilusão.
Ela desviou os olhos para as outras duas meninas. Uma criança loira de cabelos compridos desenhava um cavalo galopando, e a outra, de cabelos castanhos longos, se levantou, largando seu desenho de uma borboleta cor de rosa. A menina andou até Tucker Hayes, que ainda dava atenção a Dennis, de longe a criança mais entristecida daquele grupo.
Ela começou a puxá-lo pela barra do agasalho.
— “What’s up”, Lily? — perguntou o “professor”, se voltando para a criança de forma carinhosa. Os olhos redondos castanhos da menina se focaram nos dele, mas ela não disse nada.
— Precisa ir no banheiro? — Tucker Hayes fez uma expressão desconfortável que quase divertiu Carol. Lily meneou a cabeça, rápido.
— Ufa! Então se eu te conheço bem... — Hayes fingiu se esforçar para pensar no que ela queria. — ...Está com fome! — A menina começou a assentir, tão ligeira quanto negou a pergunta anterior. Tinha um curto sorriso em seus lábios delicados. Parecia ter dificuldade de falar.
— Bem, acho que tem uns biscoitos da Dona Peletier... — Tucker começou a se levantar, e Sally finalmente se revelou na frente da porta.
— E eu e ela já trouxemos o jantar! — Adams apareceu, enquanto Carol a seguiu de longe, mais tímida e reservada. — Biscoitos só depois de comer a refeição principal — Sally disse para suas crianças.
Tucker cumprimentou a mulher de meia idade, mas mal deteve seu olhar no rosto dela. Em uma fração de segundo viu Carol parada perto da porta, que não teve tempo de arranjar uma desculpa para se afastar.
Foi difícil aferir a expressão alegre que os olhos azuis brilhantes daquele rapaz fizeram ao vê-la ali. A mesma centelha juvenil que apenas algumas daquelas crianças ainda preservavam.
— Hey! — Tucker Hayes foi andando até Carol, enquanto Adams pastoreava as crianças para fora da sala. Carol Peletier sentiu um misto de emoções intensas ao ver as crianças dizendo “tchau, tio Tucker” para o rapaz, que se despedia delas com meiguice.
— Hey — respondeu ela, tentando pensar rápido em alguma saída possível. — Você tem muito jeito com eles. — Carol tentou soar descontraída, apontando para a direção que as crianças seguiram.
— Você acha? — Tucker sorriu discretamente. — Tenho ouvido muito isso. Acho que Sally quer se aproveitar da minha boa vontade e me botar de babá em tempo integral — brincou o rapaz, colocando as mãos nos bolsos do casaco e dando um sorriso torto.
— É bem possível — debochou Carol Peletier, em resposta, cruzando os braços. Hayes soltou uma risada leve.
— Mas, sem sacanagem... É bom passar tempo com eles. Sei lá, é relaxante, eu acho. Sempre fui o mais novo da família, não sei o que é essa parada de “tio”, ou de irmão mais velho... Descobri agora. — Sorriu, olhando na direção que as crianças foram. — Só foi meio tenso quando a Amanda fez um desenho em que ela era uma bonequinha palito vestida de noiva e eu um boneco palito de terno, gravata borboleta e com dois pontos azuis enormes no lugar dos olhos — riu o rapaz. — Uma menininha de sete anos com essas ideias! — Tucker encarou Carol, sorrindo constrangido.
Era tão contraditório ver aquele ar paternal num rapaz tão novo. E era uma graça, também.
— Já está conquistando seu eleitorado. Plantando as sementes — Carol gracejou, e Hayes soltou uma expiração incrédula, rejeitando a ideia totalmente.
— Já chega de problemas pra mim, sério. — O rapaz sorriu outra vez, e Carol Peletier forçou um sorriso em retribuição. Percebeu que ele logo perguntaria como ela estava, e tomou uma decisão.
— Você quer ir jantar lá em casa hoje? — Carol disse, de súbito.
— O quê?! — Tucker perguntou em resposta, parecendo totalmente surpreso. Carol quis rir da expressão que ele fez.
— Jantar. Quando as pessoas fazem uma refeição noturna... — Peletier tentou soar outra vez desinibida e segura, e Tucker piscou os olhos algumas vezes, recompondo-se. O ar tonto que ele demonstrou divertia e enaltecia Carol ao mesmo tempo.
— Eu entendi — redarguiu ele, pigarreando e levantando as sobrancelhas. — Jantar, tipo... Eu e você, tipo, jantando? — Não parecia acreditar.
— Sim, tipo isso. Vou fazer um guisado de carne. Gosta? — A mulher de cabelos curtos levantou as sobrancelhas, como se fingisse não ver nada de significativo no convite.
— Yeah, totalmente, guisado é foda — respondeu o rapaz, desajeitado. Carol apenas levantou as sobrancelhas, falando que o esperava em duas horas.
— E ah... Rick, Michonne, e os outros...? — Tucker indagou, sem jeito. Carol Peletier já tinha lhe dado as costas.
— Estarão todos ocupados. — Carol nem ousou olhar na direção do rapaz, mas podia imaginar a expressão embasbacada e confusa que ele deveria estar fazendo. Aquilo já tinha ido longe demais, e estava na hora de cortar o problema pela raiz.
Carol Peletier organizou a mesa da sala de jantar com todo o cuidado, cozinhando impecavelmente o prato. Deixou duas taças de vinho tinto preparadas, e até mesmo se vestiu de forma mais elegante naquela noite. Talvez isso passasse a ideia errada, mas fazia parte do que planejara.
Tucker Hayes chegou em sua casa pontualmente. Quando abriu a porta para ele, Carol não resistiu.
Começou a rir, surpreendida.
Aquele rapaz, que sempre se vestira de forma mais despojada, usando gorros, agasalhos e roupas ridículas... Estava parado na sua frente com um buquê de flores. Vestido todo alinhado com camisa social, calça e sapatos que em nada condiziam com a sua personalidade mais juvenil.
— O quê? — Tucker olhou para si mesmo, sem entender. — O que eu fiz de errado? — Varreu nervosamente com os olhos as mangas compridas da camisa.
— Nada! — Carol tentou controlar as risadas. Talvez aquilo fosse mais nervosismo do que diversão, na verdade. — Vamos, pode entrar. — Tentou ser mais delicada, abrindo a porta. Mais controlada, Carol Peletier agradeceu polidamente pelas flores e pôs-se a buscar um jarro com água para guardá-las.
Os dois jantaram, e Carol ouviu com o melhor tom interessado que tinha as histórias de Tucker, que lhe contou sobre os avanços das construções que ele e Eugene lideravam. As trincheiras, as fortificações e os planos de construir uma fábrica de balas para Alexandria. A empolgação sincera daquele rapaz deixava Carol Peletier um pouco culpada pelo que iria fazer em alguns minutos, mas não havia outra maneira. Seria melhor para os dois.
Se aproximar de alguém em um mundo terrível como o que ambos viviam sempre trazia consequências trágicas. Que ela não teria condições de aguentar.
Ao finalizarem a refeição, Carol perguntou se ele queria fumar um cigarro na sala de estar. Tucker assentiu, como ela imaginou. O pobre coitado deveria estar criando outro tipo de ideia, mas ao menos aquilo logo terminaria.
Carol Peletier ofereceu um cigarro de seu maço para ele. Voltara a fumar com frequência, o que fazia nos piores momentos de crise com Ed. Tucker se dispôs a acender o dela antes de acender o seu, e ela agradeceu gentilmente. Sentaram-se lado a lado no sofá, Carol fazendo questão de criar uma distância prudente.
— Então...? — Hayes começou, esperando algum tipo de sinal. Carol Peletier tragou o cigarro e respondeu.
— Eu te chamei aqui para te dizer algo sério. — Carol pretendeu ser direta. Tucker a ouvia com atenção.
— Agradeço muito por tudo que fez por mim. Mas eu acho que não devemos nos falar mais. Digo, não mais do que o necessário — disse, da forma mais distante que conseguiu. Todos os seus esforços residiram em não demonstrar nada ao ver a expressão de Tucker Hayes murchar imediatamente. Os olhos azuis cintilantes dele pareceram se apagar na mesma hora.
O rapaz respirou fundo, tragando o cigarro e soltando a fumaça. Abaixou os ombros um pouco, passando uma das mãos no rosto.
— Yeah. Eu imaginei — o rapaz murmurou. Sua voz soava claramente dolorida, baixa, ferida.
— Que bom que entende. — Carol buscou soar fria, fumando o cigarro.
— Sabe do que eu me lembrei? — Tucker enunciava as sílabas devagar, controlando a voz machucada. Carol Peletier o fitou, tentando parecer afastada, porém educada.
— Você tinha prometido uma conversa honesta. Nem que fosse por uma brincadeira de “verdade e consequência” — debochou o rapaz, olhando irritado para ela. — Que tal se eu começasse? Vamos lá, eu escolho verdade. É mais fácil ser brutalmente honesto do que criar esse circo todo! — Tucker apontou ao redor, magoado por toda a formalidade que Carol ergueu naquela noite para se proteger.
— Do que está falando? — Carol Peletier se fez de sonsa, terminando o cigarro.
— Pode perguntar a verdade! Eu aguento! — Tucker Hayes desafiou, como se sugerisse que ela agia com covardia ao elaborar toda aquela situação. Aquilo a enraiveceu e a fez descer do pedestal.
— A verdade? — Carol levou a ponta de alguns dedos à testa, franzindo as sobrancelhas e fechando os olhos por segundos. Não era para ter saído assim. Reuniu coragem e encarou o rapaz com seu melhor olhar gélido.
— O que um pirralho de vinte e três anos pode querer indo atrás de uma mulher de quarenta e quatro? — foi direta, jogando o cigarro no cinzeiro e encarando Tucker, que apagou o dele.
Ambos fitaram-se fervorosamente.
— Ela. Como ela é — Hayes respondeu com a mesma coragem, sem desviar os olhos dos orbes claros dela por um momento sequer. Carol sentiu seu coração acelerar.
— Por quê? — Carol Peletier perguntou sinceramente. Estava tão confusa. Tinha medo do que poderia acontecer se cedesse ao que o seu emocional queria. Nada daquilo fazia sentido.
Ela nunca se sentira tão próxima de ninguém. Nem mesmo de Ed.
Tucker se aproximou com delicadeza e segurou sua mão, respirando fundo. Carol não quis mais fugir. Não sabia mais como agir.
— Porque eu te admiro muito, mesmo quando você se mete a fazer essas merdas, se achando a malandra. Admiro sua inteligência, sua coragem, sua generosidade... Sempre generosa com todo mundo, menos com você mesma. — Ele fechou os olhos e respirou fundo.
Abriu-os outra vez, e Carol Peletier se sentiu incapaz de desviar daquele tom de azul. Seu coração acelerava cada vez mais, descompassado.
— Porque eu te acho linda, porra! E muito gostosa — acresceu, com um sorriso enviesado. A expressão de Hayes era de uma cumplicidade e sinceridade ímpares. — Porque eu gosto muito de você — confessou o rapaz, cada palavra reverberando dentro dela com um efeito certeiro.
Carol simplesmente não sabia o que fazer. Estava imobilizada, embora seu emocional soubesse o que queria. Não via nenhum outro final possível para aquilo que não apenas um. Hayes soltou sua mão.
— Sua vez. — A voz dele soou mais suave. Carol Peletier escolheu continuar falando a verdade.
— Você acha mesmo que eu sou um pirralho? — indagou Tucker, mas seu olhar já demonstrava que sabia a resposta.
— Não — Carol respondeu baixo, achando difícil desviar seus olhos dos dele, ao mesmo tempo que era complicado fitá-lo em resposta.
Tucker Hayes sorriu um sorriso singelo, abaixando os olhos por um segundo. Segurou a mão dela outra vez, e levantou o rosto, olhos azuis mergulhando em olhos azuis cerúleo. Ele escolheu.
— Consequência.
Carol Peletier apertou a mão do rapaz.
E ele entendeu o que aquele gesto queria dizer.
Quem diria que ao final da noite o jogo mudaria daquele jeito. Não era uma questão de ganhar ou vencer, agora, era apenas uma questão de, finalmente, admitir o que sentia por ele. E se permitir uma chance de arriscar alguma felicidade naquela realidade tão trágica.
Tucker se aproximou dela, segurando seu rosto com uma das mãos, delicadamente. Os olhos azuis de Hayes revelavam um encanto profundo, algo que ela realmente não sabia como lidar. Ed jamais a olhara daquele jeito quase reverente.
Carol Peletier sentiu sua pele ficar em brasas com o olhar, o toque e a proximidade de Tucker Hayes. Fechou os olhos, sentindo uma das mãos dele a puxando pelas costas, na altura de sua cintura, a outra em seu rosto, próxima de seu pescoço. E, finalmente, sentiu os lábios dele nos seus. Foi arrebatada por uma sensação intensamente febril que durou por outros deleitosos momentos naquela noite.
E, durante aqueles momentos... Ela enfim se sentiu feliz.

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