Hunter's Instinct
64 Episódio 64 - Guiding Lights
Notas iniciais
[HORAS ANTES]
O taco de baseball perfurou a testa de um decomposto com o ruído de um pequeno trovão.
— É o último! — Rebecca Gable avisou aos companheiros da construção, ajeitando as marias-chiquinhas que lhe caíam pelos ombros.
— Por que não vai logo pro “hospital” e deixa que a gente se encarrega do resto? Um passarinho loiro me disse que hoje era o dia da alta definitiva — brincou Tara Chambler, dando um olhar significativo para Becky. Mencionava a médica Denise, sua namorada, que tratava do caso de Billy Ray Holloway.
Becky lhe sorriu, grata pela generosidade.
O homem do Alabama sofrera algumas complicações com o tiro que levara em seu abdome. Apesar de não ter sido, inicialmente, o quadro mais grave dos sobreviventes de Alexandria, a saúde de Billy se agravou após o início de seu tratamento na comunidade. Muitas de suas feridas haviam infeccionado, o tiro que levou em seu abdome quase atingira sua bexiga, e uma febre alta e persistente o deixou de cama por muitos dias. Insistiu em voltar a ajudar os outros sobreviventes antes de ser permitido que se ausentasse da enfermaria, e, portanto, logo retornou. Com uma febre gravosa.
Rebecca se lembrou de que ainda não o respondera devidamente.
“Eu te amo, Rebecca”.
As palavras de despedida de Billy Ray.
As palavras mais doces que Becky já escutara em vida.
Mas ela não as diria daquele jeito. Ela não aceitava a ideia de perder Billy, e, dizer-lhe que o amava também, no mesmo tom de adeus, seria como aceitar que ele não se recuperaria.
Rebecca ocupava-se dia e noite em todas as atividades possíveis, indo também diariamente acompanhar a melhora lenta e gradual de Billy, que passou até mais tempo desacordado do que Tucker Hayes.
O jovem amigo de Becky era surpreendentemente resistente. Denise e Rosita haviam dito a todos que as chances de sobrevivência do rapaz eram praticamente nulas, e, ainda assim, ele contrariou o esperado.
Rebecca Gable sorriu com aquilo, mais uma vez. A melhora de Tucker era também um sinal. Um sinal de que as coisas poderiam dar certo, finalmente.
Para ela.
E para Billy também.
Assim, seguiu ansiosa para o hospital da comunidade, depois de se despedir às pressas de Tara, Peggy, Heath e Daryl. Entrou quase pulando no corredor próximo ao quarto de Billy Ray, mas recebeu uma notícia surpreendente de Rosita, que quase trombou contra ela.
— Ele já teve alta. Não ficou sabendo? Mandei recado por Glenn! — a mulher latina assegurou, parecendo incrédula.
Rebecca sentiu uma espécie de pontada no peito. Billy já voltara para casa... Sem nem esperar por ela?
A garota loira tentou conter a emoção pesada que desejava se abater sobre ela. Deu as costas para Espinoza, sem dizer palavra. Tinha medo de sua voz soar trêmula se lhe respondesse algo.
Rebecca Gable seguiu o mais rápido que podia em direção a sua casa. Frustrada, ressentida, furiosa.
Abriu a porta como se a arrombasse, fazendo-a quicar contra a parede próxima e a fechando com ferocidade.
Sentiu um cheiro diferente vir da cozinha. De panquecas doces no estilo americano... Com xarope de maple.
Sem compreender nada, Rebecca correu até a cozinha, dando de cara com as costas de Billy Ray, usando um avental escuro de cozinha. Ele se voltou para ela de forma quase cômica, com um amplo sorriso no rosto. Não tinha mais o ar abatido, adoecido e esmorecido que a preocupou por tantos dias. Logo em seguida, continuou a cozinhar.
— São tipo... Cinco e poucas horas da tarde! — Rebecca disse, revoltada, quase batendo o pé.
Como assim? Ele voltou para casa sem avisá-la e ali estava, cozinhando um café da manhã vespertino como se nada tivesse acontecido?
— E você não recebeu o memorando de que a porra da comida está acabando? Que merda é essa?! — cobrou Gable, falando mais e mais alto, sua voz aguda.
Billy fritava pilhas e pilhas de panquecas doces.
— Dá para olhar para mim?! — Becky aproximou-se de Billy Ray a passos largos. Pensou se a febre não teria fritado seu cérebro.
— Eu ouvi você comentar com Denise, enquanto pensava que eu estava dormindo... — começou o homem de cabelos escuros, mansamente. — Becky, você parecia mais relaxada do que de costume, quando ficava fazendo sua “vigília” lá no hospital... — Billy manteve o mesmo tom terno, ainda sem olhar para Rebecca Gable.
— ...Dizia que o melhor de voltar para casa era justamente isso mesmo. Voltar para casa. Pisar nas folhas caídas das árvores da comunidade. Escutar o barulho dos pássaros da tarde nas nossas janelas. Sentir o cheiro de panquecas com xarope de maple... Sua comida preferida — comentou Billy, sonhadoramente.
— Eu pensei comigo mesmo: você tem de passar por isso, homem. Tem de ficar de pé de novo. Vamos lá, você consegue. A moça quer suas panquecas com xarope de maple. — Billy Ray fitou Rebecca, lhe estendendo um prato da panqueca, já com o complemento por cima.
Ele sorriu para ela com zelo inenarrável.
Rebecca sentiu lágrimas subirem aos seus olhos. Aquilo era tão... Tão Ele. Aquele caipira bobão, desajeitado, azarado e problemático. Aquele caipira bondoso, generoso, amoroso e tão dedicado às pessoas que gostava.
Aquele homem que ela amava profundamente.
— Eu te amo, seu caipira idiota! — Becky soltou um sussurro urgente, ao soluçar emocionada. Largou o prato para o lado, na pia, fazendo-o girar por alguns segundos até parar. Rebecca se lançou nos braços de Billy, praticamente pulando em cima dele, beijando-o por todo seu rosto.
Depois de unir seus lábios aos dele até cansar, se apertando contra seu corpo pujante, os dois finalmente se afastaram.
— Eu sei, menina. — Billy Ray passou uma das mãos pela franja lateral de Rebecca, ajeitando-a em sua testa. Ela soltou um riso delicado, profundamente aliviada por vê-lo ali, inteiro, sadio, ao lado dela.
Os dois escutaram a campainha soar, interrompendo o momento. Becky franziu as sobrancelhas, sem saber quem poderia querer algo deles naquele momento. Logo depois, foi até a sala de entrada e recebeu o visitante.
Moritz Alvintzi estava parado na varanda de sua casa.
Rebecca Gable instintivamente tentou fechar a porta na cara dele. Não iria permitir que aquele velho babaca estragasse seu momento com Billy. Contudo, Moritz a segurou com a palma da mão, impedindo que ela não o deixasse entrar.
— Precisamos conversar — solicitou o ex-palhaço, que, para Becky, era ainda um perfeito palhaço em atividade. Rebecca franziu ainda mais as sobrancelhas e estreitou o olhar. Ficou tentada a soltar diversos palavrões, mas algo no rosto de Moritz lhe fez atentar para a seriedade do assunto.
— Você sempre estraga tudo — resmungou Rebecca, dando as costas para o antes dono de circo e seguindo até um sofá. Indicou-o para que ele se sentasse, mas decidiu continuar de pé, de braços cruzados. Não queria que aquela visita demorasse.
— É melhor se sentar, Rebecca — pediu ele, sincero, coçando os cabelos rapidamente. Parecia severamente preocupado. Becky, ainda tendo alguma empatia por aquele homem que já a ajudara em outros tempos, acabou cedendo. Largou-se em um sofá pequeno de dois lugares ao lado do que ele se sentava.
— E então? — Ela soava como uma adolescente petulante. Lançou seu melhor olhar frio na direção dele.
O ex-professor de filosofia pigarreou, parecendo desconfortável.
— Eu preciso te pedir um favor. Tem alguém em Alexandria que é muito importante para mim. E eu preciso... Já passou da hora de tomar responsabilidades por algumas escolhas que fiz. — O ex-palhaço usava um tom de confissão. Rebecca ficou realmente curiosa.
— O quê?! — rosnou a circense. Estava impaciente, sem compreender o que ele queria dela.
— Eu... Eu estou, eu... Bem, eu... — Moritz coçou a cabeça mais uma vez, desconfortável. — Eu tenho estado com Peggy Taylor. Já tem algum tempo — confidenciou-lhe.
Rebecca Gable sentiu seu queixo cair. Não era possível. Aquele velho era inacreditável.
— Seu velho pervertido do caral... — Rebecca já iria começar a xingá-lo, mas Moritz levantou uma mão, abaixando a cabeça.
— Eu sei. Pode me chamar do que quiser. Pode me julgar. — Os olhos dele denotavam cansaço. — Mas eu finalmente vou fazer o que já teria de ter feito. Tenho de deixar algumas coisas a limpo, ao menos com o comitê político de Alexandria. Por tudo o que já... Passamos. — Desviou das íris de Rebecca por um momento, parecendo juntar coragem.
— Eu não sei o que Rick e os outros vão decidir. É bem provável que decidam me banir. Eu aceitarei as consequências, se for a decisão da maioria. Fiz minhas escolhas, e me responsabilizo por elas — reiterou. — Mas só quero lhe pedir algo. Queria que me prometesse que, o que quer que aconteça comigo... Você poderia protegê-la por mim? — Moritz Alvintzi pediu com humildade.
— Você é mesmo um cara-de-pau... — Rebecca, furiosa, já ia começar a soltar algumas verdades em cima dele. Mas seu antes chefe, o dono do Alvintzi Circus, a olhou suplicante. Havia urgência em seus olhos castanhos. Urgência que ela não via há muito tempo.
— Por favor, Rebecca. Se há alguém que eu confio nessa comunidade é você. Sei do seu bom coração. E ela é... Muito importante para mim. Por favor, se algo acontecer comigo... Preciso que me prometa que vai proteger Peggy — pediu o ex-professor, desesperado. Rebecca só o vira assim uma vez.
Moritz apenas parecera tão desconsolado quando Micaella, sua falecida esposa, se suicidou.
****
[NA MANHÃ DO DIA SEGUINTE]
Piscou. Seus olhos foram confrontados com uma completa escuridão. Esbugalhou-os, surpreso.
De imediato, suas narinas aferiram um odor conhecido. Um cheiro acre. Sangue, suor e saliva. O fedor do sofrimento humano que ele conhecia tão bem.
Ouviu um choro contido. Lamentos abafados. Próximos o suficiente para lhe torturarem, longe a ponto de não saber de que direção vinham. Reconheceu aquele som aflitivo.
Com a rapidez de um choque elétrico, ele sentiu uma angústia familiar se alastrar por todo seu corpo. Reconhecia aquele lugar, por mais que não pudesse enxergar absolutamente nada.
Sentindo um desespero crescente se apoderar de si, percebeu que estava com o corpo imobilizado. Braços e pernas amarrados, o impedindo de se erguer ou de tentar alguma fuga daquele lugar de tormento.
Escutou uma gargalhada. Uma conhecida risada, cheia de escárnio, prazer doentio e perversidade calculada.
E um profundo arrepio de terror subiu gélido por sua espinha.
— Eu te marquei tanto assim? — A risada continuou a ecoar, próxima demais. Podia sentir a umidade de seu hálito bafejando em seus ouvidos.
Tucker Hayes tentou gritar, mas não conseguiu.
— Agora só se interessa por mulheres mais velhas, Tucky? — Hashimoto murmurou com prenunciada crueldade. Ele não podia enxergá-la naquele breu, mas podia senti-la ali, a centímetros de distância de seu corpo preso.
— VOCÊ ESTÁ MORTA! ME DEIXE EM PAZ! — Tucker respondeu, vociferando o mais alto que podia. Forcejou-se contra as próprias amarras, sem sucesso.
— Eu morri? Não tenho tanta certeza. — Aquela terrível assombração mantinha seu tom de voz debochado. Sem alegria alguma. — Quer dizer, eu morri sim. Fisicamente. Mas estou com todos vocês. Sempre vou estar — sussurrou ainda mais baixo, porém Hayes aferiu aquelas palavras com uma clareza sóbria.
— Ela também não está ali. Estou sonhando! É só um pesadelo! — insistiu o rapaz, trêmulo, batendo os dentes com tanta força que poderia parti-los.
— Ah, ela está ali sim. E um dia você vai vê-la desse jeito. Não só dentro da sua cabeça — vaticinou a imagem mental que Tucker tinha de Hashimoto, divertindo-se em sua malignidade. — Você sabe que você mata tudo o que toca. Tudo o que é importante pra você. Mas não se preocupe. — Ela se aproximou mais ainda do rapaz, beijando o lóbulo inferior de sua orelha. Hayes sentiu vontade de cortar aquela parte de seu corpo fora, tamanho o asco que lhe subiu à garganta.
— Um dia você vai morrer também. E eu estarei esperando por você — prometeu a líder do Exército de Wyoming County, dando mais uma alta risada de escárnio.
Tucker Hayes fechou os olhos, sentindo sua cabeça ferver. Gritou de pavor, de ódio, tomado pela desesperança. Como num passe de mágica, porém, sentiu as cordas que o prendiam sumirem. Hashimoto também tinha desaparecido de perto de si.
E a “sala noturna” da base militar do Exército de Wyoming County iluminou-se fracamente. Como que por raios de luar.
O rapaz se levantou aos poucos, sentindo seu coração retumbar em seu peito. Caminhou até a sombra que ouvia se lamuriando. E sentiu pânico ainda pior do que quando Hashimoto lhe torturava aos seus ouvidos.
Agachada na sua frente, Carol Peletier estava amarrada, seu rosto deformado. Parcialmente devorado por mordidas, espancado, rasgado e deformado como o resto de seu corpo. Só podia reconhecê-la por conta de seus olhos daquele azul celestial.
— Não... — Sua voz saiu fraca de dentro de si, como se ele próprio tivesse acabado de ser reduzido a farrapos. Como Carol. Como aquele ser destruído à sua frente.
A mulher o encarou de baixo para cima, com íris suplicantes.
— Não, não, não... NÃO! — Desconsolado, as lágrimas subiam aos seus olhos. Sentiu seu corpo todo tremer. Mal conseguia se manter de pé. Mais do que apavorado, estava destruído por dentro.
Subitamente, o rosto de Carol Peletier se transformou. Aquela mesma silhueta miserável revelava agora familiares cabelos compridos e castanhos claros. Os mesmos olhos dele. Também o encarando como se implorassem por ajuda.
Bonnie. Sua única irmã. Que ele fora forçado a matar.
— Não, não, não... — ele apenas conseguia repetir aquelas palavras debilmente. A bile lhe subiu à garganta.
O rosto de Bonnie Hayes modificou-se para outras feições. Seus cabelos escureceram para um castanho moreno, quase negro. Olhos grandes, redondos, de um azul muito escuro o fitavam pedindo por misericórdia. E ele viu o que partiu os restos de seu coração.
Catherine Rutherford. Cathy. Sua Cathy, era a última vítima do horror daquele mundo em colapso a lhe encarar de frente. A garota que ele conhecera desde menina. Que crescera junto dele. A pessoa que, um dia, ele mais amou no mundo.
— NÃO! POR FAVOR, NÃO! — bradou, atormentado. Cathy também berrou. Não haviam rastejantes por perto, mas o corpo já depredado de Catherine passou a ser consumido por alguma força invisível. Rasgando, rompendo, arrancando ainda mais sua pele, banhando-a em seu próprio sangue. Ele apenas enxergava a escuridão e filetes vermelhos, o profundo horror que sentia o cegando para o resto.
O rapaz acordou, ofegante. Seu coração parecia tentar sair de seu peito, explodindo dentro dele, desritmado. Pestanejou os olhos algumas vezes, sua respiração totalmente fora de controle por torturantes segundos.
Demorou a entender que finalmente havia saído de seu pesadelo. Aquele tinha sido um dos sonhos mais vívidos, mais reais, e, portanto, mais aterrorizantes há tempos.
Sua garganta ainda estava travada quando percebeu que estava com o rosto contra o travesseiro. Não conseguia ver nada, só a fronha que tapava seus olhos.
Afastou-se bruscamente, se deitando de costas. E a visão que teve o ajudou a acalmar seu espírito.
Carol Peletier se arrumava na frente de uma penteadeira que havia no quarto dela. Onde Hayes passara a última noite.
Ela usava algum tipo de robe de cetim, verde esmeralda, elegante. Enquanto isso, colocava um par de brincos discretos em suas orelhas. Olhava-se atenta no espelho, como se buscasse alguma imperfeição para corrigir. Tucker reparou que aquilo deveria ser apenas um ato cotidiano, natural, que ela provavelmente fazia todas as manhãs.
Mas que conseguiu aplacar o recente pavor mental que sofrera.
Como sopros de vento reconfortantes, lufadas contínuas de alívio o acalmaram aos poucos. Lembrou-se de tudo o que acontecera desde o fim daquele jogo improvisado de “verdade e consequência” num átimo. Tucker aferiu que a realidade, ao menos naquele momento, realmente não era ruim. Em nada se assemelhava aos pesadelos que lhe perseguiam.
Dedicou-se a admirar aquela mulher se ajeitando, conferindo a própria silhueta esbelta e delicada no reflexo. Distraindo-se com o vai e vem das mãos dela, voltando-se de um lado ao outro para o espelho, curvando-se discretamente na frente da penteadeira, arrumando os cabelos, conferindo sua própria imagem... Hayes podia julgar aqueles movimentos leves, graciosos. Dançarinos.
Como se sentisse seu olhar cravado em si, Carol subitamente se voltou para ele, movendo o rosto para a esquerda. Fez uma expressão de surpresa tímida que trouxe um sorriso aos lábios dele. Como se sentisse flagrada.
— Bom dia. Dormiu bem? — perguntou o rapaz, entre um gracejo espirituoso e uma saudação leve.
— Sim. — A mulher desviou o olhar, provavelmente tentando uma postura mais controlada. Encarou-se na penteadeira e depois sumiu para dentro de um closet a direita. — E você? — Ouviu a voz dela ressoando daquela direção.
— De boa. — Hayes se espreguiçou, sentando-se na cama, o lençol cobrindo seu corpo abaixo de sua cintura. Suas costas estalaram, doloridas pelo sonho que provavelmente deixou todos os seus músculos enrijecidos.
Aquilo não era bem uma mentira. Comparado com a época que seus pesadelos o perturbavam tanto que mal conseguia adormecer, até que tinha mesmo dormido satisfatoriamente.
Carol Peletier nada disse. Tucker imaginou que ela provavelmente reagiria assim no dia seguinte. Mais distante, como se nada tivesse acontecido. Ela gostava de preservar certa distância. Se aquilo tudo não era propriamente simples para ele — como seus pesadelos demonstravam — imaginava que para ela seria menos ainda.
Depois de algum tempo, ela saiu do closet, já vestida. Não usava as roupas com estampas floridas, como uma mãe dona de casa, mas algo menos recatado e mais alinhado. Uma blusa preta justa de manga comprida, calças jeans escuras e botas negras discretas, de trilha. Ele não entendia nada de moda, mas percebeu que aquilo valorizava a silhueta alongada e o tipo mignon dela.
— Uau — disse Tucker em meio a um sorriso largo, aprovando a combinação. Carol franziu as sobrancelhas, lhe dando um olhar descrente.
— Então... — Hayes passou as mãos nos olhos, limpando o restante do sono e os vestígios mentais de seu pesadelo. — É, foi mal, não quero te constranger, mas eu vou ter que falar isso. — Continuou, mal contendo o sorriso travesso e convencido que se formava em seus lábios.
Carol levantou uma sobrancelha, desconfiada. Mas logo se sentou na beirada da cama de casal, alguns centímetros longe dele.
— O quê?
— Eu sabia que você era gostosa para caralho — elogiou-a, satisfeito. Carol meneou a cabeça, incrédula, desviando o olhar. — Isso é um elogio. Tipo... Não sei como falar isso de um jeito delicado — tentou, coçando a cabeça.
— Então não fale — redarguiu Carol Peletier, brusca. Ele achou a reação dela, tímida assim, uma graça.
— Bem... Cara, você tem um corpo assim, lindo. E tem, tipo, quarenta e quatro anos. E tipo, está com tudo definido, tudo em ci... — Ela o cortou.
— Pare de falar besteira, garoto. — Carol soou ríspida. Estava entre a irritação e o embaraço.
— Mas é verdade! Estou elogiando! — Tucker ergueu um pouco as mãos. — Eu sabia que ia ser como o seu rosto. Você mal tem rugas. Não parece ter a idade que tem. Quero dizer, só o seu cabelo entrega... — Começou a perceber que estava ficando realmente indelicado.
— Então quer dizer que você me acha uma velha linda e muito gostosa? — debochou Carol Peletier, lhe dando um olhar reprovador. — E não gosta do meu cabelo? — complementou.
— Eu não disse isso! — rebateu, e ela manteve o olhar duvidoso.
— Não te acho uma velha, e nem disse que não gosto do seu cabelo. Ele é legal. O contraste do grisalho dá um tom artístico — assegurou o rapaz, enquanto Carol rolava os olhos, rindo verdadeiramente da última frase. Ver ela finalmente sorrir o tranquilizou.
— Você tem um estoque infinito de besteirol — comentou, o fitando outra vez. Hayes apenas levantou as sobrancelhas, dando de ombros, como se dissesse “hey, estou apenas falando a verdade”.
— Qual era a cor do seu cabelo antes? Loiro? — presumiu o rapaz, enquanto Carol se levantava e colocava munição em sua pistola, acima da penteadeira.
— Castanho escuro — contou, sorrindo discretamente. Tucker sentiu uma fisgada pontiaguda em seu peito. A mesma cor dos cabelos de Catherine. — Eles eram uma bagunça. — Ela se olhou outra vez no espelho, ajeitando os fios curtos. — Cacheados, tinham vida própria. Já me irritei muito com eles. Quando esse tipo de coisa tinha alguma importância. — Deu um sorriso enviesado, travando a arma e a guardando no bolso dianteiro da calça.
— Cabelos ondulados são irados. Os seus devem ter sido sempre bonitos — o rapaz a enalteceu, e Carol movimentou uma mão, soltando um “pff” com os lábios.
— Ondulado não é a mesma coisa que cacheado. Não entende nada, garoto? — ela debochou. Tucker aproveitou a deixa. Fitou-a com um olhar malicioso.
— Venha aqui me ensinar, então — convidou, com sua voz mansa. Carol Peletier desviou o olhar mais uma vez, não conseguindo conter um sorriso espontâneo.
— Vá se vestir. O dia já começou, são nove horas da manhã — alertou-lhe a mulher de cabelos curtos, tentando passar na frente dele e ir até a porta.
Tucker segurou seu braço com delicadeza firme. Carol voltou-se para ele, impaciente, mas Hayes já a fitava com seu melhor olhar simultaneamente pidão e sugestivo.
Ela riu, mas o rapaz percebeu uma centelha interessada em seus olhos claros.
— O que eu faço com você? — Carol perguntou retoricamente, sem se afastar dele.
— Tenho algumas ideias... — O rapaz já erguia a outra mão para puxá-la pela cintura, mas os dois foram surpreendidos com sons insólitos.
Passos correndo pelo corredor.
Carol Peletier voltou-se para a saída do quarto, se soltando da mão de Tucker Hayes. Ambos ouviram o som de batidas apressadas na superfície da porta, que logo foi aberta de supetão. Hayes arregalou os olhos, enquanto Carol travava, de pé ao lado da cama.
Carl Grimes os encarou estupefato. Parecia não saber como reagir.
— Hã... Carol... Denise e Rosita precisam de ajuda na enfermaria — o filho de Rick ciciou, surpreendido por aquela cena.
— Desço em segundos. — Carol garantiu depois de confirmar com um gesto de cabeça, de braços cruzados. Carl apenas olhava de Tucker para ela, e vice-versa.
— Carl! — ela ralhou, e o adolescente levantou as sobrancelhas, tomando consciência do que fazia. Saiu de perto, fechando a porta.
Tucker Hayes coçou a nuca, sem saber como ela reagiria aquilo. Carol olhou para o rapaz novamente, andou até ele e segurou seu rosto.
— Depois nos falamos. Comporte-se — despediu-se dele com uma centelha brincalhona em seus olhos de azul cerúleo. Abaixou-se e lhe deu um beijo lento em seus lábios, ao passo que Hayes ergueu as mãos até a cintura dela.
— Pode deixar — respondeu, quando se separaram. Carol apenas lhe deu um curto olhar significativo antes de sair daqueles aposentos.
Tucker Hayes se jogou para trás da cama, fechando os punhos em triunfo. Riu consigo mesmo, sussurrando baixo um “score!” comemorativo. Aquilo saíra melhor do que imaginara.
Mais tarde, já vestido e pronto para começar seu dia, Hayes seguiu até a casa onde morava, entrando em seu quarto. Tinha algo a fazer antes de se ocupar de suas tarefas rotineiras.
Na cômoda ao lado de sua cama, o rapaz deixava uma única fotografia que havia conseguido manter, escondida consigo, mesmo durante a época em que fora escravizado por Hashimoto. Amassada, dobrada em vários pedaços, ela estava mal conservada dentro de um porta-retrato simples que encontrara em Alexandria.
Mas ainda conseguia ver bem as duas pessoas que ali estavam em meio às dobras e fendas.
Tirada durante uma viagem em família, a foto revelava sua irmã mais velha, Bonnie, sorrindo presunçosa para a câmera, o olhar censor como sempre. Do lado direito estava Cathy, os olhos semicerrados por conta do sorriso amplo que dava. A foto foi tirada enquanto elas riam, pois Hayes fora o fotógrafo, contando alguma piada idiota que as divertira honestamente.
Aquela foto era muito significativa para ele. Sempre seria. Como uma espécie de âncora emocional.
— Eu sempre vou amar vocês — Tucker disse para a fotografia, sentindo lágrimas se formarem no canto de seus olhos. Mas não mais tão amarguradas.
Havia certa libertação naquele pranto.
Hayes guardou o porta-retrato dentro da gaveta. Bonnie e Catherine sempre estariam consigo, ele sabia. Em suas memórias.
Mas o tempo de viver de recordações já havia passado. Já tinha novos amigos, tivera novas aproximações... Novas pessoas, agora, eram importantes para ele. Muito importantes.
E já era chegada a época de abrir espaço para elas, em seu coração.
****
[MOMENTOS ANTES]
Ela sentiu uma fisgada aflitiva em sua lombar. Fechou os olhos, respirando e expirando lentamente, sentindo a madeira do banco da capela contra suas costas cansadas.
A dor na coluna se tornara um desconforto rotineiro. Parecia-lhe como a sensação de ter uma pequena lâmina a perfurando no espaço entre suas vértebras. Mas o desagrado físico nem se comparava ao que tinha de controlar e suportar dentro de sua própria cabeça.
A jovem mulher cruzou os dedos, ajeitando a postura, tentando se manter integralmente concentrada na reunião que se dava na capela administrada por Padre Gabriel. Naquele momento, as pessoas ali agrupadas se preparavam para tomar uma difícil decisão.
Aguardando enfim a confissão de Moritz Alvintzi.
— Em suma... — De pé, o seu colega do comitê político de Alexandria limpou a garganta em um pigarro discreto. — Chamei todos vocês para essa reunião nesta manhã porque temos um assunto pendente. De minha responsabilidade. — Ela percebeu que o homem de meia idade estava preparando o terreno, mas logo chegaria ao ponto principal de tudo aquilo.
Maggie Greene mirou seu esposo, sentado ao seu lado. Glenn mantinha a expressão fechada, seu rosto revelando feições tão fora de costume de seu semblante sempre aberto e simpático.
Segurou a mão dele, em um gesto silencioso para lhe transmitir calma. Seu marido a olhou rapidamente, aquecendo sua expressão antes fria.
— E o que é tão importante que precisa envolver todo o comitê, além de Glenn? E Mavelle, que não pôde comparecer? — Rick Grimes perguntou, seus olhos claros faiscando entre o exaspero e a curiosidade. Fora difícil convencê-lo a travar aquele encontro. Adiou-o por dias, muito mais preocupado com o cativo de Alexandria, conhecido como “Jesus”, e suas histórias sobre uma rede de comunidades muito próximas de seu lar.
— Eu preferiria esperar por Mavie, mas a questão poderá ser contada para ela depois. Enfim... — Maggie percebeu que Moritz reteve um suspiro. — Enquanto resistimos às invasões do Exército de Wyoming County... — Greene reparou que Alvintzi desviou os olhos para o chão do altar, onde estava de pé próximo de Grimes, Michonne e Padre Gabriel, este atrás da mesa cerimonial. — ...Tivemos alguns... Contratempos. — O ex-dono de circo voltou os olhos para Grimes outra vez. Em seguida, fitou cada um dos ali reunidos.
— Vá direto ao ponto — cobrou o líder da comunidade, sem se abalar com a óbvia tensão no recinto.
— Fui obrigado a tomar uma decisão da qual não me orgulho. Mas da qual não me arrependo. — Fitou Maggie Greene profundamente, antes de retornar a mirar Rick. — Não posso fingir que não escolheria o mesmo outra vez.
— Você matou algum dos nossos? — indagou Michonne, parada ao lado de Rick, seus olhos escuros não revelando destempero.
— Não. Mas se poderia dizer que tomaria parte na culpa do assassinato de um dos nossos. Se Glenn e Eric — seus olhos denotaram uma nota de culpa e pesar — não tivessem aparecido no momento preciso para evitar a tragédia. — Alvintzi colocou uma das mãos em cima da mesa cerimonial, passando os dedos suavemente pela toalha rendada.
Grimes fitou o ex-palhaço, e depois olhou para Maggie. Pareceu começar a imaginar do que se tratava, franzindo o cenho e mirando o sujeito de meia idade novamente. Greene apertou a mão do marido outra vez, ao notar que Glenn logo tentaria se manifestar e cortar a introdução que Moritz fazia do que se sucedeu.
— Glenn evitou que você matasse alguém? — questionou o policial, sério. Aproximou-se centímetros do ex-professor de filosofia.
— Sim. Maggie — admitiu Moritz, enquanto Rhee soltava a mão da mulher. Padre Gabriel soltou uma exclamação baixa, surpreso. Maggie tentou conter seu esposo, mas ele se levantou devagar, cruzando os braços. Seu olhar julgador e nada convidativo já voltara ao seu rosto, enquanto o marido de Greene fitava o ex-palhaço.
Michonne franziu as sobrancelhas, e Rick se aproximou alguns passos mais lentos na direção de Moritz.
— Mas de que merda você está falando? — Grimes insistiu, levantando uma mão espalmada, sem paciência para os pormenores do homem de meia idade.
— O Exército de Hashimoto adentrou nossa comunidade. Deteve Maggie Greene e Peggy Taylor como reféns. — Moritz Alvintzi se mantinha firme. — Testemunhei o que acontecia, enquanto também me desarmavam e me ameaçavam. — Ele pareceu engolir em seco. — Um dos soldados, chamado Fleischer, disse-me que deveria escolher quem vivia. Só uma das duas poderia sair viva dali. A outra seria executada por eles. Em alguma espécie de teste doentio como a líder deles aparentemente costumava fazer — acrescentou, firmando a mão na superfície da mesa.
— Tentei colocar minha vida como troca. Ofereci-me para morrer no lugar delas. Mas esse general de Hashimoto avisou-me que se não fizesse a escolha, as duas morreriam. — Moritz Alvintzi baixou os olhos novamente, e quando os levantou para o policial seu rosto passava uma impressão de certeza ainda maior.
Maggie Greene se recordava bem daquela noite. Lembrava-se de tudo o que sentira. Do desespero de pensar que ela e seu bebê morreriam ali, executados a troco de nada naquela madrugada fria.
As imagens mentais vieram à sua mente sem que pudesse impedir. E, no mesmo instante, sentiu uma pontada insuportável de dor em seu ventre. Como cólicas agressivas.
Fechou os olhos subitamente, movendo as mãos até sua barriga, contendo uma exclamação de dor que lhe subiu à garganta. Ninguém reparou. Estavam todos ocupados com a revelação de Moritz.
— Eu escolhi Peggy. Peggy vivia, e Maggie morria. Imagino que isso surpreenda a todos — disse o homem de meia idade, enquanto Greene buscava controlar as dores crescentes em seu ventre. — Mas tenho minhas razões. Que vieram de outras escolhas que fiz — o ex-palhaço mantinha seu discurso sério, e a filha mais velha de Hershel abraçava a própria barriga da forma mais discreta possível.
— Eu tenho um relacionamento com Peggy. Um relacionamento romântico. Ela é muito importante para mim — Moritz Alvintzi finalmente admitiu o que escondera de toda Alexandria por tanto tempo. Maggie já sabia que aquela era sua motivação. Pôde ver isso nos olhos do sujeito quando Peggy sobrevivera, da maneira que ele correra para se certificar de que ela estava bem, viva, respirando.
Rick se aproximou do homem, sem medir ações. Michonne tentou segurá-lo pelo ombro esquerdo, mas Grimes caminhou até ficar a meros centímetros de distância de Alvintzi. Seus olhos azuis faiscaram de raiva, como se estivesse tentado a dar-lhe uma surra.
Padre Gabriel, chocado, se abstinha de falar qualquer coisa. Glenn, por outro lado, parecia aprovar a postura repressora de Grimes. Maggie conhecia seu marido. Rhee queria Moritz bem longe deles.
— Que tipo de filho da puta doente é você?! — Rick não escondeu o quanto o julgava. — Aliciando garotinhas? Você deve ter quase quarenta anos a mais do que ela. Não há espaço para gente da sua laia por aqui — ameaçou Grimes, friamente.
— Eu imaginei que fosse reagir assim. Mas reitero que não estou aqui para pedir perdão ou qualquer coisa do gênero. Estou aqui para admitir minhas ações. Eu não vou mais esconder meu relacionamento com ela. Pretendo mantê-lo, se continuar aqui. Tudo o que sinto por ela é legítimo, e absolutamente nada doentio. — Moritz não se abalou com o tratamento dado por Rick e Glenn. — Eu não manipulei Peggy, as coisas simplesmente aconteceram do jeito que aconteceram. Não vou me justificar para vocês. — Alvintzi ainda fitava Grimes de volta, impassível.
Rick soltou uma risada descrente.
— Você me faz perder meu tempo com um absurdo desses, e ainda por cima acha normal ser um homem de mais de cinquenta anos transando com uma adolescente?! Isso só me faz ter certeza do quão traiçoeiro você é. Para não dizer algo pior — acrescentou o policial, uma centelha de fúria perpassando seus olhos claros. Moritz não pareceu se abalar.
— Se eu fosse traiçoeiro, não viria a público admitir minhas intenções e meus atos. Fiz minhas escolhas, e, como alguém que muito concorda com a filosofia de Sartre, admito minhas responsabilidades por elas. Se a maioria julgar que devo ser banido, expulso, ou até morto pelo que sinto por Peggy, aceitarei meu destino. — O ex-palhaço coçou a testa com alguns dos dedos, cansado.
— Mas já estou farto de fingir ser o que não sou, de prejudicá-la, de prejudicar indiretamente outros por isso. — Moritz avançou alguns passos na direção de Rick. — Acho que já foi o tempo de nos enganarmos. De fingir que tudo o que escolhemos fazer não nos pesa. Somos todos sobreviventes, sim, e somos todos... Humanos. Erramos, muitas vezes. Meu relacionamento com Peggy pode trazer estranheza à primeira vista e até mesmo parecer mal intencionado à um julgamento superficial. Mas está longe de ser um erro. — Os olhos de Alvintzi tinham uma centelha determinada em suas íris escuras.
— Foi a melhor escolha que fiz desde que toda essa maldita guerra de humanos contra humanos e também contra os mortos começou — sustentou Moritz Alvintzi, deixando clara sua posição a respeito.
Rick Grimes soltou mais uma risada seca de escárnio. Michonne também não parecia muito solícita à sua argumentação. Padre Gabriel, quieto por todo o tempo, aparentava neutralidade. Glenn, por sua vez, continuava em sua posição descontente, insensível aos argumentos do ex-professor de filosofia.
Mas Maggie tinha maiores preocupações.
Sentiu um líquido escorrer por suas pernas, manchando a calça larga que usava. Ele foi aos poucos pingando no chão.
— Ah meu Deus... — Ela baixou os olhos para o piso da capela. Sujo do que ela sabia ser a água de sua bolsa, estourada.
Glenn Rhee ouviu o sussurro de sua esposa. Moveu o rosto para encará-la, e seus olhos se detiveram no local que ela fitava.
— Maggie! — o rapaz falou alto, correndo até sua mulher, sentada no primeiro banco da capela. Padre Gabriel finalmente tomou alguma atitude, também seguindo o descendente de asiáticos. Olhou para Grimes, Michonne e Alvintzi, logo depois.
— Isso vai ter de esperar! — o Padre demandou, sua voz tão imperativa quanto a de Rick momentos atrás. Movidos pela urgência atípica no tom de Gabriel, Rick, a espadachim e o ex-palhaço andaram até Greene, que agora soltava um lamento de dor. As fisgadas em seu ventre retornaram com aflição imensurável.
— Rick, busque uma cadeira de rodas na enfermaria, imediatamente! — a mulher de dreads ordenou, e o policial, ainda tonto pelas revelações de Alvintzi, apenas encarou o líquido da bolsa no chão da capela. — AGORA! — Michonne berrou, e o líder da comunidade se recompôs.
Glenn já havia se sentado ao lado de Maggie, que fechava os olhos pela dor angustiante. A espadachim do grupo se agachou defronte a ela, enquanto Moritz e Gabriel apenas encaravam a grávida, estupefatos.
— Maggie, querida, você vai ter de ser forte agora. Respire devagar. Respire e expire, tudo vai se resolver logo. Vamos te levar até Denise, ok? — garantiu a mulher de olhos escuros, segurando em uma das pernas de Greene e a massageando, para tranquilizá-la.
Greene apenas confirmou com a cabeça, seus lábios entreabertos pela dor.
— Mas ela ainda não tem nem trinta e seis semanas, tem? — Alvintzi indagou, não podendo se conter. Maggie Greene o fitou com raiva, ao mesmo tempo que Michonne. Não precisava ser lembrada de que seu bebê pretendia nascer de forma prematura.
— Trinta e quatro e meia — Glenn finalmente falou algo, dando um olhar irritadiço para Moritz, enquanto segurava a mão esquerda de Maggie, acarinhando seus ombros para confortá-la.
A filha de Hershel soltou uma expiração junto de uma exclamação aguda.
— Maggie, você vai conseguir, vamos conseguir, eu sei disso — Glenn Rhee assegurava-lhe aos seus ouvidos, tentando lhe transmitir confiança. Mas ela o conhecia o suficiente. Percebia que ele próprio estava tão preocupado quanto ela.
Greene apenas tentou se concentrar em controlar a dor das contrações em seu útero, fitando o crucifixo de madeira à frente. Não rezava há muito tempo, mas, naquele momento, gostaria de ter concentração para orar.
Depois de alguns minutos, Grimes adentrou a capela correndo, arrastando a cadeira de rodas. Maggie foi levada pelo grupo até o hospital de Alexandria, onde Denise e Rosita já se preparavam para recebê-la.
— Eu só quero ver aqui dentro o pai e alguém que tenha experiência com partos normais! — Espinoza exigiu, seu olhar decidido incidindo sobre todos os presentes. — O resto, PARA FORA, agora!
Maggie foi colocada em uma cama por Glenn e Denise. Rhee parecia simultaneamente temeroso e emocionado.
Greene não sabia o que sentir. Ouviu, muito de longe, os passos de Alvintzi e Gabriel deixando aquele quarto. Curiosamente, sua mente divagava. Seu foco residia todo o tempo em seu bebê, mas se lembrou das imagens de sua mãe, Josephine, e de seu pai, Hershel, cada vez mais constantes em seu pensamento.
É agora.
— Rick, por favor, tente achar Carol. Talvez ela possa nos ajudar — Michonne urgiu, ajudando Rosita com os instrumentos que seriam necessários para a realização do parto. Denise já se movia para conferir a dilatação de Maggie.
Glenn, ao lado de sua esposa, tentava ajeitar os travesseiros de uma forma mais confortável, enquanto sua mulher batia os dentes para não gemer de dor. Aguentando firme mais uma contração agonizante.
Maggie Greene sentiu o suor escorrer por seu rosto. A cada pontada, apertava mais firme e mais forte a mão de seu marido.
— Oito centímetros! Já está em trabalho de parto ativo! — alertou Denise Cloyd. A médica loira parecia concentrada, mas Greene auferia preocupação em seus olhos focados naquela tarefa. Um parto naquelas condições já não seria ideal. Um parto de um bebê prematuro, então, poderia trazer ainda mais reveses.
— Vai dar tudo certo, Maggie, eu prometo. Só respire — Glenn dizia ao seu lado, tentando acalmá-la, mas a dor das contrações apenas piorava, demorando mais tempo para passar.
— EU ESTOU! — Maggie Greene urrou de dor. — Estou... Respirando! — Lamentou-se em outra exclamação que não pôde ser capaz de conter. Naquele ritmo, arrancaria a mão de seu marido fora de tanto apertá-la.
Alguns minutos se passaram até a chegada de Carol Peletier. Michonne estava do outro lado de Maggie, buscando confortá-la, lhe prometendo que acabaria logo e seu bebê estaria forte e saudável. Greene sentia o suor sair de todos os poros de seu corpo, pelo esforço de conter a aflição cada vez mais agonizante.
Carol correu para dentro do quarto, perguntando sobre a dilatação. Denise conferiu outra vez.
— Dez centímetros! Maggie, está na hora, estamos no segundo estágio! — Cloyd parecia emocionada e inquieta.
Maggie Greene sentiu vontade de sorrir e de chorar ao mesmo tempo.
Ah meu Deus. Vai ser agora mesmo.
Eu vou ser mãe.
Michonne tocou sua outra mão, enquanto Glenn Rhee se abaixou ao lado dela, seu rosto quase colado com o da esposa. Começou a acariciar as costas da mão dela que já segurava, compulsivamente, tão ansioso quanto sua mulher.
— Querida, se concentre apenas em fazer força. Depois de cada esforço, quero que respire profundamente, ok? Você consegue! — Carol Peletier a estimulou, ao lado de Denise e Rosita.
— Empurre, Maggie, agora! — pediu Espinoza, e Maggie urrou pela dor da contração. Lágrimas se formaram no canto de seus olhos, que desceram junto ao suor que caía de sua testa.
— Respire devagar, querida, devagar e bem fundo — Carol a orientou, focada no parto que ajudava a realizar. Michonne segurava a mão de Greene, acarinhando seus cabelos. Glenn se mantinha ao lado de sua mulher por todo o tempo, esboçando um sorriso emocionado.
Ela suportou outra pontada dolorosa. Podia sentir a pressão de seu bebê buscando caminho para fora de seu corpo.
Em meio a dor, Maggie começou a sentir uma sensação inédita. Algo que misturava conforto, alegria e entusiasmo ao mesmo tempo.
É agora, papai. Mamãe. Lembrou-se de Hershel e Josephine. Bethy. Shawn. Recordou-se do rosto dos irmãos, as lágrimas continuando a cair de seus olhos verdes.
Eu sou ser mãe.
Eu vou ser mãe!
Greene passou algumas horas daquele dia que mudaria sua vida em definitivo dedicada àquele tão grandioso, tão importante e tão recompensador rito de passagem. A cada contração, a cada lamento, berro ou suspiro de aflição ela se sentia mais e mais próxima de uma felicidade que, naquele caos de tragédias em que viviam... Julgava impossível.
E seu bebê finalmente nasceu ao pôr-do-sol.
Saudável, pesando quase três quilos, respirando profundamente. Seu neném mal chorou, sendo recebido por tantos braços amigos.
Glenn o viu antes dela. O rosto de Rhee se iluminou de tal forma que Maggie jamais havia visto antes. Glenn Rhee chorou abertamente, um pranto honesto, que vinha de seu âmago. Um choro de alívio, de triunfo... De felicidade incapaz de ser reprimida.
Michonne tinha lágrimas aos olhos, além de um sorriso irrepreensível em seu rosto. Carol também chorava e sorria junto com o marido de Greene, e Rosita e Denise, aliviadas, riam exultantes pelo parto bem sucedido.
Maggie estava exausta. Precisava dormir, mas não adormeceria sem ver o rosto de seu bebê. Sem tê-lo em seus braços. A médica, a enfermeira e Carol limparam o neném, passando-o depois, com cuidado, envolto em uma manta, para os braços do pai.
— Oi. Sou eu, o papai — disse o marido de Maggie Greene, com o rosto lavado de lágrimas de alegria. Greene escutou seu bebê exclamar, os bracinhos se movendo entre a manta.
— Você quer a mamãe, não é? — indagou Rhee com tamanha doçura que Greene jamais escutara antes. Os olhos de Maggie produziram ainda mais lágrimas, que ela deixou descer, abençoando seu rosto junto aquele pequeno milagre que seu marido lhe entregava.
Denise e Rosita cuidavam da saída da placenta, ao passo que Carol levou uma das mãos ao rosto, aproximando-se de Michonne. As duas se ampararam mutuamente, duas mães cuidando de uma nova mãe, e também olhando uma pela outra naquele momento de emoção inenarrável.
Glenn Rhee levou seu bebê para Maggie Greene. A mãe o recebeu em seus braços cansados, mas detentores de força o suficiente para ampará-lo.
— É uma menina. Eu estava certo, viu? — Glenn falou aos ouvidos de Maggie, que apenas riu para seu marido, ao passo que ele a beijou lentamente em seus cabelos. Seu pranto de alívio, de emoção pura, de amor, parecia que jamais pararia.
— Eu te amo. Eu te amo tanto — Greene disse para sua filha, que se aconchegou próxima do colo dela, embalada em seus braços. Sua bebezinha, antes agitada, pareceu se acalmar instantaneamente ao ser amparada por sua mãe.
Maggie ouviu sua filhinha soltar um suspiro baixo, sonolento. Seus pequenos braços relaxaram, assim como todo seu minúsculo corpo.
— Ela é perfeita. Tão linda. Como você. — Glenn admirou-se com sua filha, falando baixo, seus olhos lacrimosos piscando rápido. Maggie reparou que ela tinha olhos que misturavam o contorno amendoado dos seus ao contorno estreito dos de seu marido. Uma verdadeira mescla dos dois.
— Bethalie. Sou eu, sua mamãe — Greene batizou instantaneamente a menina. Rhee, próximo da esposa e da filha, apenas beijou-a outra vez, agora em sua testa.
— É um nome lindo — comentou Michonne, apertando a mão de Carol, que anuiu silenciosamente. Todos sabiam muito bem de onde vinha a inspiração para aquela homenagem.
— Nós vamos te amar para sempre — Maggie Greene prometeu para sua filha, que adormecia em seus braços.
Milagrosamente, todos os seus medos, incertezas e inseguranças desapareceram de sua mente. Por tanto tempo se perdera em temores pelo seu futuro, pelo de Glenn e de sua filha. Como poderiam ter sido tão irresponsáveis a ponto de engravidar naquele mundo terrível? Como poderiam tentar a sorte em uma realidade tão arriscada?
Mas agora ela sabia. Maggie Greene jamais fizera escolha melhor. Ela nunca tivera tanta certeza de algo em sua vida. Jamais estivera tão confiante.
Repleta de esperança.
Maggie jamais amaria alguém como amava sua filha, sua recém-nascida Bethalie. Linda, saudável e tão indescritivelmente querida. Seu milagre particular, aninhado em seus braços no que se tornara o melhor dia que vivenciara.
E assim sempre seria, até o fim de sua vida.
****
Ela mal podia acreditar em sua sorte.
Depois de passar a tarde em uma busca bem sucedida por alimentos — encontrando um caminhão de supermercado repleto de suprimentos ainda no prazo de validade abandonado na estrada —, os dois habitantes de Alexandria retornavam triunfantes para casa, pensando em como seriam recebidos como heróis. Salvariam a comunidade da situação de racionamento pela qual passavam, ao menos por algumas semanas.
Levavam o caminhão com um gancho preso na traseira do automóvel, pois não foram capazes de colocar todos o material na caçamba da picape que Daryl Dixon dirigia.
Depois de dois meses da morte de Annie Guinness, finalmente Mavelle Berry começava a sentir que voltaria a ser quem ela um dia fora. A dor do luto pouco a pouco dava espaço para memórias carinhosas de sua avó, e o recente sucesso nesta última empreitada a brindava com uma alegria exultante tal qual não sentia há muito tempo.
— Era de se esperar... — Mavie começou suavemente, olhando pelo vidro do banco ao lado do motorista para as plantações de trigo que ultrapassavam com ligeireza. Alguns frankies se arrastavam pelas proximidades, sem representar ameaças de fato.
— O quê? — Daryl perguntou ao seu lado, focado na estrada já mal iluminada pelo sol de inverno que se punha cedo.
— Que tinha de ser uma irlandesa mesmo para solucionar o problema da comida no que restou dos Estados Unidos! A experiência de passar fome está no sangue! — debochou Mavelle com humor negro. Seu país natal passara por anos de fome, motivo que levou diversos irlandeses a imigrarem para os EUA em busca de uma vida melhor.
— Você não fez isso sozinha — Dixon fingiu ralhar, seus olhos na estrada a frente.
— Não. Tive a ajuda de um caipirão muito do gostoso — troçou ela, empurrando o braço direito de Daryl, de brincadeira. O arqueiro lhe deu um olhar de soslaio, e Mavelle reparou que a expressão alerta dele ficou mais branda.
— Tem um tempo que você não fica falando merda por aí à toa, Esquila — comentou Dixon, simultaneamente afetuoso e debochado. Mavie sorriu ainda mais.
— Você fala como se sentisse saudades. Lembro de como você me achava insuportável há menos de um ano atrás! — brincou a jovem irlandesa, olhando para a via expressa em frente.
Daryl subitamente colocou uma mão na altura de sua coxa, freando lentamente. Não havia nada ou ninguém por perto.
Mavelle sentiu seu coração acelerar, desejosa.
— As coisas mudam — respondeu ele, apenas. Mas bastou uma troca de olhares para a caçadora agir. Lançou-se em um átimo para cima do colo dele. Dixon a enlaçou pela cintura, enquanto ela o beijou com sofreguidão, o puxando esfaimada para si.
As coisas teriam terminado de um modo diferente, bem mais prazeroso, se os dois não tivessem escutado ruídos de gritos. Muito próximos.
Mavelle se desvencilhou de Daryl, ambos movendo os olhos na direção dos sons. Os gritos pareciam vir de uma pessoa só, pedindo por ajuda.
— Puta que pariu — praguejou o caçador, novamente alerta e irritadiço.
— Não é melhor arrancarmos? — sugeriu a irlandesa, temerosa.
— Vamos conferir do que se trata. Abrigados — Dixon decidiu, sem aceitar discussão. Abriu a porta do banco do motorista, a balestra a postos, escondendo-se junto a caçamba da picape.
Mavie o seguiu, não muito satisfeita com a solução. Tinha uma flecha no cordel, quando alguém saiu da mata que havia do lado esquerdo da estrada.
Um homem desconhecido, em uma fuga desesperada. Mas mal teve tempo de correr. Uma flecha estourou seu crânio, assassinando-o subitamente. Flecha que não veio nem de Dixon nem de Berry.
Os dois se entreolharam, surpresos, preparados para quem quer que surgisse. Apenas mais dois sujeitos saíram do matagal.
Um homem loiro, com o rosto marcado por uma queimadura grotesca. Portando uma balestra semelhante a de Daryl.
E, atrás dele, alguém de cabelos castanhos cacheados. Olhos também castanhos, e feições muito envelhecidas para sua idade jovem.
Alguém que ela reconheceu imediatamente. Que reconheceria em qualquer lugar, em qualquer época, a qualquer momento.
Ela sentiu seu coração parar de bater.
Em meio a uma estrada perdida nos confins do estado da Virginia, Mavelle Berry topara com Jeffrey Gallagher.
O pior dos fantasmas de seu passado.

Fale com o autor