Hunter's Instinct

62 Episódio 62 - Heal


Notas iniciais
Oiê meus amorecos! Então, ainda não passou uma semana, mas eu vou passar esse final de semana muito atarefada... Terei muitos compromissos e afazeres para cumprir, então preferi adiantar o capítulo para não passar uma semana sem. Infelizmente, sei que alguns leitores ainda estão atrasados... Tipo a ReedusGirl, Agente Riggs, KittyK, Luna e Anna L... Mas espero que vocês arranjem tempo para se atualizar, meninas! Espero ansiosa pelos seus comentários. Maritafan, Anna Flávia e Joke, que sei que já leram os últimos capítulos mas não tiveram tempo de comentar ainda... Também aguardo com muita expectativa as opiniões de vocês! Quero agradecer aos leitores Kanon, En Sabah Nur, Vivi Costa, Caçadora, Sami, marcelammota e Filho de Kivi, que já comentaram os últimos "episódios", com o season finale da Hashimoto! A japa do mal morreu, mas podem ter certeza que ela continuará sendo mencionada por aqui... Um império do terror como o que ela construiu não acaba da noite pro dia, heheheeh! Por isso, fiquem agora com um capítulo que só adiantarei o ÚLTIMO POV: é do Rick! E tem um encontro MEGA HIPER SUPER importante pra história da fanfic, heheeheh! Se eu falar mais a respeito do "episódio", estraga. Mas se preparem para os feelings. MUITOS feelings. Muitos mesmo! Capítulo muito cheio de emoções. Tem momentos engraçados, mas boa parte dele é porrada nos feelings direto! Segurem os coraçõezinhos! A música que coloquei uns trechinhos na epígrafe tem tudo a ver com a vibe do capítulo. Fica a dica! Dito isso... Beijos e boa leitura!

Step one you say we need to talk

He walks, you say “sit down, it's just a talk”

He smiles politely back at you

You stare politely right on through

Some sort of window to your right

As she goes left and you stay right

Between the lines of fear and blame

And you begin to wonder why you came

Where did I go wrong, I lost a friend

Somewhere along in the bitterness

And I would have stayed up with you all night

Had I known how to save a life…

The Fray – How to Save a Life



Seus olhos piscaram lentamente.

Pouco a pouco, foi tomando consciência de tudo o que tinha acontecido. Passara dias, tantos dias, enclausurado naquele quarto. Lembrou-se de ter acordado mais de uma vez, tentando se manter consciente, mas a fadiga de seu corpo era maior e o derrubava novamente. Em uma das vezes que se manteve acordado por segundos, se lembrou de ter visto o rosto de Rebecca o fitando, angustiada.

Ele pestanejou outra vez. Gradualmente os detalhes ao redor iam ficando menos opacos e embaçados. Um halo de luz entrava pela janela com as venezianas fechadas, dispondo-se acima de sua cama, ao atravessar os feixes da cortina. Ao seu lado esquerdo, havia um suporte de soro, que pingava lentamente para dentro de suas veias.

O restante das lembranças veio com a rapidez de um disparo de uma arma.

Tudo o que acontecera em Wyoming County, na base militar do Exército de Hashimoto. Ele quase havia morrido. Escapara por um triz, e até então não sabia como. Algum tipo de benção divina o protegera para superar aquele risco quase certo.

E então ouviu a voz de Rosita Espinoza falando. Surpreso, voltou o rosto o mais rápido que podia em sua direção, a encarando.

— Que bom que acordou. Não se preocupe! Vencemos! Hashimoto está morta. Todo o Exército também — garantiu a enfermeira, com um sorriso discreto sem mostrar os dentes em seus lábios carnudos. Ele piscou mais uma vez, engolindo em seco.

— Quanto tempo...? — indagou, e a mulher se aproximou, estudando seu rosto e seu corpo, como se observasse sua resistência física.

— Você dormiu por três semanas — ela respondeu, sem olhar para seu rosto. Levantou o braço dele com cuidado, encaixando um medidor de pressão. Logo em seguida, passou a auscultar seus batimentos cardíacos.

— Dez por seis. Está um pouco baixa, mas considerando tudo o que passou... Acho que era esperado — comentou Rosita, enquanto ele seguia embasbacado. Não se lembrava de ter dormido por tanto tempo. Pelo visto, havia ficado inconsciente por todos esses dias.

— Quem... — tentou começar a perguntar, sentindo que, desta vez, não voltaria a adormecer tão cedo. Começou a sentir pontadas de dor viajando por todo seu corpo. Sobrevivera, mas estava tão destroçado quanto um boneco de farra de Judas.

— Perdemos Sasha, Tobin, Spencer, Aaron e Eric... — avisou a auxiliar da médica Denise Cloyd, tentando soar o mais delicada possível. Sentou-se ao lado do paciente, em um banquinho.

— ...Abraham também. — Ele reparou que seu olhar mudou, como se perdesse um pouco da luz que havia em suas íris escuras.

— E muitos moradores de Alexandria. Eugene, Tara, Heath e até mesmo eu escapamos por pouco — suspirou Espinoza, ajeitando a postura, como se falar naquilo a incomodasse profundamente. — Rick e Michonne estavam gravemente feridos até pouco tempo atrás. Hashimoto quase atingiu seu fígado ao atacá-lo com um golpe de espada, e Mich não morreu por pouco. Tinha cortes horríveis ao longo do corpo — complementou Rosita, limpando o suor da testa. Parecia muito atarefada. A enfermaria de Alexandria deveria estar cheia.

— ...Carol? — perguntou Tucker Hayes, ansioso pela resposta. Queria e não queria ouvi-la.

Rosita o mirou, piscando rapidamente. Franziu de leve as sobrancelhas, como se a pergunta lhe deixasse curiosa.

— Ela está bem. Não se feriu muito. Conseguiram envenenar a água — confirmou Rosita Espinoza, e Tucker sentiu uma onda de alívio o engolfar por inteiro. Expirou longamente, fechando os olhos por segundos.

— Graças a Deus. — Inspirou devagar, relaxado por saber que ela estava bem. Contudo, sentiu uma profunda dor em boa parte das costas assim que respirou com mais intensidade. Soltou uma exclamação aflita, e reparou que a mulher latina o encarou com mais cuidado.

— Denise fez um enxerto de pele em partes das suas costas, e, em outras, costuramos alguns pontos. Nos seus braços também, por isso, se mova com cuidado — alertou a enfermeira. — Sério, você deve ser feito de ferro, no fim das contas, nós só não vimos! — elogiou Rosita, com um sorriso um pouco maior.

— E Becky e Billy? Morgan? — perguntou o rapaz outra vez, olhando os próprios braços e reparando em algumas costuras em sua pele.

— Estão bem. Todos. Billy também lutou com coragem. Levou um tiro perto do abdome, foi muita sorte não ter atingido nenhum órgão vital. Rebecca chegou um pouco melhor, mas teve de ficar em repouso por alguns dias, depois de tratarmos suas feridas. Morgan mal se machucou durante as invasões que aconteceram aqui em Alexandria — disse Espinoza, levantando as sobrancelhas.

O alívio libertador que Tucker Hayes sentira apenas se ampliou. Era horrível saber que tantos morreram, mas era reconfortante receber a notícia de que seus amigos estavam bem.

Podia sentir seu corpo em recuperação relaxando cada vez mais, mas sua mente estava desperta. Refletiu sobre um detalhe importante da fala da enfermeira.

— Espera... Enxerto de pele?! Tipo, aquela cirurgia que arranca a pele de alguém e coloca em outra pessoa? — Olhou para Rosita, temendo saber como aquilo funcionou.

— Não tivemos outra escolha. Você sofreu feridas tão profundas e abertas que não tínhamos como fechar com pontos. Mas já está bem aderente. Você cicatrizou muito rápido, tanto que pudemos deixá-lo deitado de costas tem alguns dias. É claro que gastamos quase todo o estoque de morfina da comunidade nisso, mas foi preciso — esclareceu a mulher latina, deixando Hayes ainda mais agoniado.

— ‘Peraí’... Como assim, cara? Tiraram a pele de quem? — Ele arregalou seus olhos azuis. — Tipo, da minha bunda, uma parada dessas? Já ouvi falar desse tipo de coi... — Rosita Espinoza cortou sua frase tola, franzindo as sobrancelhas e meneando a cabeça rapidamente.

— Claro que não. Era uma situação limite, já disse, não tivemos escolha. Você quer mesmo saber sobre isso? — Ela o encarou severamente.

— Hã, óbvio! — resmungou Tucker de volta, incrédulo. Podia ter pedaços de algum amigo morto grudado em si mesmo. Sentiu um calafrio subir-lhe a espinha com tal pensamento.

— Eric. Ele faleceu um pouco antes da cirurgia, e nos disse que, se precisassem, poderíamos usar o que quiséssemos... Dele. — A enfermeira franziu os lábios, desviando o olhar por um segundo.

Eric e Aaron eram um casal feliz, apaixonado. Ele devia ter desistido de continuar depois de saber que seu companheiro falecera. Talvez, por isso, não tivesse se recuperado.

Tucker Hayes tentou se erguer devagar, imaginando que havia pedaços da pele de Eric em suas costas. Aquilo era estranho de várias formas distintas. Em seguida, o rapaz se sentiu mal por não ficar somente grato pelo gesto altruísta do namorado de Aaron.

— É sua pele agora. Não é de ninguém mais — ratificou Rosita Espinoza, tentando acalmá-lo. Pelo visto, vira em seu rosto seu incômodo com aquilo. — Vou pegar uma vitamina de frutas para você tomar. Deve estar com a pressão baixa assim por estar tão mal alimentado. — Ela fez menção de se erguer, mas Tucker a impediu, falando outra vez.

— Espera! Já não posso tirar essa merda? — perguntou o rapaz, indicando com a mão direita o soro. Rosita lhe olhou feio.

— Você ainda deve estar desidratado. Vamos tirar quando for a hora — retrucou, abrindo a porta do quarto e saindo em seguida.

Tucker Hayes refletiu sozinho por alguns minutos, sentado no espaldar da cama. Ainda sentia breves pontadas de dor nas costas e nos braços.

Tentou se lembrar dos vagos momentos em que ficara consciente depois de voltar para casa. Lembrava-se apenas de ver Rebecca e de ouvir ela lhe dizer algo, que não ficara claro em seus pensamentos. Depois, se lembrou de ligeiros vislumbres de Morgan, sentado, o fitando pacientemente. Não se recordava de nenhuma visita de Billy Ray. Talvez ainda estivesse em recuperação, como ele.

— Pronto. Beba tudo — recomendou a enfermeira, abrindo a porta do quarto e lhe estendendo um copo com um líquido de frutas batidas. Hayes se sentiu infantilizado. Parecia uma mãe entregando um copo de leite para o filho.

— ...Obrigado — murmurou, um pouco constrangido. Ao longo dos goles, Rosita se pôs a falar algo.

— Ah, antes que eu me esqueça! — Ela levou uma das mãos à testa, como se tivesse acabado de se lembrar de algo importante. — A Carol passou aqui hoje. Na verdade ela passou algumas vezes, nos meus turnos em que você foi meu paciente. Estava sempre muito preocupada com você — acrescentou.

— Só que dessa vez ela deixou algo. Um envelope. Ela parecia mais leve, acho que viu que você estava prestes a se recuperar. — Rosita sorriu com mais gentileza, abrindo uma gaveta na cômoda ao lado da cama de Hayes. O rapaz virou para dentro o copo de vitamina de qualquer jeito, ansioso para olhar o que quer que fosse aquilo.

Assim que a mulher latina lhe estendeu o envelope, Tucker o arrancou dos dedos dela quase com violência, a ansiedade apenas aumentando.

— Hey! — reclamou, levando o copo e já se dirigindo para a saída dos aposentos.

— Foi mal — Hayes redarguiu, sem dar a menor importância para a breve grosseria. Já estava quase rasgando o envelope.

“Querido Tucker,” começava a carta. O rapaz sentiu seus batimentos cardíacos aumentarem exponencialmente. Seu coração ribombava em seu peito durante a leitura.

Demorei um bom tempo para escrever tudo isso”.

Hayes passou a ranger o maxilar, nervoso. Seus olhos voavam pelo papel.

“Muito obrigada pelo presente. É lindo. Você realmente é um grande artista”.

Tucker engoliu ar em sua garganta, compreendendo que ela mencionava o desenho que fizera dela.

“Mas não acho que poderei cumprir aquela dedicatória.”

As lágrimas se formaram instantaneamente nos olhos azuis do rapaz, os fazendo brilhar melancolicamente. Assim que Rosita lhe avisou da carta, instintivamente, ele já sabia. Talvez soubesse antes. Talvez já soubesse disso desde que acordou e não vira Carol Peletier ali.

“Você escreveu que queria poder me ver novamente. Mas isso era quase impossível. Nós sabíamos que poderíamos morrer. E sabíamos do preço que tínhamos de pagar para sobreviver.

A questão é que eu não posso... Eu não consigo mais pagar esse preço. Se continuar em Alexandria, sei que será apenas uma questão de tempo até termos de matar outras pessoas para manter todos os que gostamos vivos. Eu não sou mais capaz de aguentar tudo isso. Eu não consigo mais suportar a ideia de matar alguém para que eu possa sobreviver. E não vou conseguir suportar perder mais alguém importante para mim.”

O coração de Hayes acelerava cada vez mais, as lágrimas borrando sua visão enquanto lia.

“Você tem tantos amigos em Alexandria. Cuide deles, e deixe que cuidem de você. Espero que seja muito feliz.

Adeus.

Ps: Por favor, não venha atrás de mim. Não vou voltar.

Com carinho,

Carol”

Seu pranto desceu rápido por seu rosto, caindo em cima da folha de caderno arrancada por Carol Peletier. Tucker, agora, segurava aquele pedaço de papel com força. Sentindo que os piores rasgos que tinha dentro de si não eram os cortes em sua pele, mas algo que acabara de ser dilacerado dentro de seu peito.

— Por quê? — balbuciou o rapaz para ninguém. Sozinho. Abandonado, com as lágrimas embargando sua voz, sua garganta dolorida pelo choro doloroso contido, que saía mesmo que ele tentasse segurar.

Fizera tudo que estava ao seu alcance e mais para manter aquela comunidade de pé. Colocara a própria vida como um tributo para proteger a segurança de Alexandria, se infiltrando no covil de Hashimoto, sendo torturado até ficar à beira da morte.

Ele fez tudo aquilo por seus amigos. Faria tudo o que fosse preciso por eles, para proteger sua comunidade, para lhes dar uma chance de viver e não mais sobreviver.

Faria tudo por ela.

Que valor tiveram seus esforços? Qual seria a relevância do seu sacrifício, se aquela era a resposta recebida?

Carol provavelmente mal se importava com ele.

Seu peito doía como se Hashimoto tivesse cravado sua espada ali, o cortando de dentro para fora. Algo se retorcia dentro dele, algo bem mais doloroso que as feridas físicas em seu corpo. Fazia seu pranto descer denso, contínuo, inesgotável.

Tucker Hayes soluçou alto, tentando conter o choro sem sucesso. Ouviu a porta se abrir novamente, e tentou limpar as lágrimas antes de ser flagrado. Não conseguiu.

— O que aconteceu?! — A voz de Denise Cloyd urgiu, nervosa, enquanto Hayes vira Rosita se aproximar, também surpresa. A mulher latina olhou da carta para Tucker, parecendo compreender. Esboçou feições de dó, o que deixou o rapaz irritado. Dobrou a carta em vários pedaços, a escondendo.

— Nada! Por favor, será que dá pra tirar essa merda do meu braço? — ele suplicou, apontando para o soro. Limpou o rosto repleto de lágrimas em um movimento rápido.

— Eu... — Denise tentou, surpresa com o comportamento agressivo do paciente. Tucker a interrompeu. Sua ansiedade só aumentara com tudo aquilo.

— Deixa pra lá! — retorquiu, tirando o curativo e a agulha de dentro de seu braço. Sentiu uma pequena sensação incômoda, nada que se comparasse ao buraco que recentemente se abrira em seu peito, e que parecia sangrar internamente.

— Hey, que merda você pensa que está fazendo?! — Rosita tentou se impor, enérgica, se aproximando do garoto.

— Sai do meu caminho, vadia! — soltou o rapaz, descontrolado. Sabia o que tinha de fazer, e não seria parado por motivo algum.

Espinoza reagiu lhe dando um tapa na cara. Denise exclamou, e Tucker apenas sentiu seu rosto virar, ficando tonto por alguns segundos.

O choro subiu aos seus olhos outra vez. Sentiu-se patético.

— Nunca mais fale comigo desse jeito. — Rosita o forçou a mirá-la, movendo seu rosto, quando Tucker Hayes fez menção de desviar o olhar.

— Entendeu? Eu não tenho culpa se você levou um pé na bunda ou alguma coisa do tipo — continuou a mulher latina, furiosa, fazendo Hayes se sentir ainda mais ridículo em meio aquela situação. Denise parecia constrangida. — Mas o que quer que seja o seu problema, você vai ter de nos contar. Somos suas médicas — exigiu a enfermeira, revoltada. Tucker se viu sem escolhas.

— Preciso ir. É só isso. Aconteceu algo muito sério — Propositalmente soou vago, pondo-se a caminhar para longe de Espinoza, mas ela o segurou. Hayes respirou fundo, tenso, limpando o rosto outra vez.

— Eu vou chamar o Rick — assegurou a mulher de cabelos negros, deixando o rapaz inquieto.

— Não precisa! — enfatizou Tucker, mas Rosita não cedeu. Virou as costas e saiu do quarto, deixando o rapaz a sós com Denise.

— Por favor, não tente sair, ou eu vou ser obrigada a pedir ajuda — disse Denise, com seu jeito afável. Tucker apenas passou uma das mãos pelo rosto, irritado, nervoso, magoado, sentindo uma mescla explosiva de emoções.

Não demorou nem dez minutos e Rosita retornara, acompanhada de Daryl Dixon e Rick Grimes. Tucker só faltou rolar os olhos, revoltado pela indiscrição daquilo tudo. Não pretendia criar uma cena com diversos moradores de Alexandria.

— O que foi que ela escreveu? — perguntou Rick, assim que adentrou os aposentos do paciente. Tucker Hayes já estava de pé, de braços cruzados. A frustração de ler aquela carta lhe dera forças para esquecer as dores do corpo.

— Falou que iria embora. Não disse para onde. — Mirou os rostos de Grimes e Dixon, mais atrás do policial. — Yo, nenhum de vocês viu que ela saiu sem avisar nada?! Porra, que vigilância de merda é essa?! — Hayes se revoltou ainda mais, falando mais alto.

— Deve ter saído entre as trocas dos turnos de vigia. São dez da manhã agora, e ela deixou essa carta aqui ao amanhecer — contou Rosita, olhando para Denise e os outros dois homens. Ignorava Tucker, provavelmente ofendida com sua ingratidão.

— Ok, sem problemas — Rick tentou soar assertivo. Hayes reparou que havia uma quantidade grande de cicatrizes nos braços e no rosto do policial. Provavelmente feitas por Hashimoto.

— Como assim “sem problemas”, cara?! — Hayes quase rugiu, descrente. Grimes levantou uma mão, tentando acalmá-lo. Daryl encarava Tucker de cenho franzido, silencioso.

— Eu e Daryl vamos conferir com os encarregados pela segurança desta manhã. Assim que tivermos mais pistas, vamos atrás dela. Pelo que Rosita falou, podemos alcançá-la ainda hoje, temos apenas poucas horas de diferença. — O policial usava um tom de voz brando, seguro.

— Eu vou também — asseverou Hayes, se aproximando dos dois.

— Não. Você está em recuperação — rebateu Espinoza, impaciente. Tucker nem se dignou a mirá-la. Olhava para Rick por todo o tempo.

— Ela escreveu a carta pra mim. — Tirou do bolso o pedaço de papel, entregando-o para Grimes com brusquidão, quase o jogando nas mãos do líder da comunidade. O policial passou a ler o que Carol escrevera, rapidamente. Dixon passou os olhos na carta, mas não parecia inclinado a lê-la. Talvez não quisesse invadir a privacidade de ninguém.

— Eu tenho o direito de ir também — ratificou o rapaz, sério. Não tirava os olhos dos orbes de Rick. Não admitiria que tentassem lhe impedir.

— Certo. — Rick Grimes aceitou, depois de um tempo. Espinoza soltou uma exclamação de incredulidade, ao passo que Denise não se manifestava, nervosa, e Daryl se mantinha ensimesmado.

— Ele não pode ir! Está muito fraco! É arriscado! — insistiu a mulher latina, irritando Hayes outra vez, mas Grimes a respondeu logo.

— Deixe-o ir. Provavelmente é quem melhor pode convencê-la a voltar. Precisamos ir atrás dela — Rick falou em um tom imperioso, como se não houvesse mais o que discutir. Apesar da discordância veemente de Espinoza, Grimes girou nos calcanhares e saiu do quarto, prontamente acompanhado pelo arqueiro e pelo rapaz.

Passaram alguns minutos conferindo com os responsáveis pelas rondas da manhã se alguém avistara Carol. Apenas Heath lhes disse ter aberto o portão para ela, que agiu de forma tão natural dizendo que tinha algo a buscar no galpão próximo a Alexandria que nem duvidou da veracidade do que Peletier falara.

Durante a investigação, toparam com Mavelle e Glenn, que trocavam o turno de ronda atual com Moritz, Morgan e Michonne. O amigo de Tucker se voluntariou de imediato a ajudar na tarefa, e a irlandesa também se dispôs a ir, provavelmente por saber que Dixon iria nessa busca. Rhee foi outro que se ofereceu, mas negaram sua participação pela gravidez avançada de Maggie. Era importante que ficasse perto da mulher.

Por fim, foi decidido que iriam em dois veículos distintos. Morgan e Tucker seguiriam no Jeep Renegade que o rapaz uma vez tripulara quando se oferecera como sacrifício para ludibriar Hashimoto, e Rick, Daryl e Mavelle no trailer RV que dispunham.

Chegaram a conclusão de que Carol só poderia ter seguido para uma direção. Ao sul, voltaria pelos caminhos que os levaram para Alexandria, perigosos e repletos de mortos-vivos, onde haviam avistado uma horda vagar na semana passada. Ao norte, toparia com a pedreira, local que volta e meia se enchia de rastejantes. E a oeste, seguiriam na direção da base do Exército de Wyoming County, estradas também infestadas de errantes pelos últimos acontecimentos.

O único caminho mais livre era para leste, seguindo rumo ao litoral.

Assim, se dividiram entre duas das rodovias principais, onde poderiam achar qualquer vestígio da travessia da mulher: as autoestradas 495 e 395. Tucker Hayes e Morgan Jones seguiram a 495, e o trio a 395, passando mais perto de Washington D.C. Se ninguém achasse nada até o final do dia, retornariam para Alexandria e pensariam em outra ideia para encontrá-la.

Tucker Hayes remoia dentro de si tudo o que sentira lendo aquela carta, além de guardar junto a ele uma determinação imbatível que o guiava naquela missão. Passou todo o tempo de viagem em um silêncio recluso, por mais que Morgan tentasse reconfortá-lo e garantir-lhe que tudo daria certo. Já se sentia um pouco menos patético por não ter caído no choro outra vez. Mas estava difícil lidar com aquele rombo enorme em seu peito.

Viajaram cerca de três horas e alguns minutos até acharem a primeira pista. Vários mantimentos caídos na estrada em uma fileira desordenada, dando a entender que caíram do porta-malas. Cadáveres ambulantes eliminados no chão, próximos de um terreno abandonado, repleto apenas de grama alta. Além de marcas de pneus seguindo para o lado oposto da estrada.

— O que está esperando? Vamos seguir! — Tucker indicou o rastro, mas algo tinha cativado a atenção de Morgan, dirigindo o carro. Ele freou em definitivo e abriu a porta. Hayes o seguiu, sem compreender, aflito.

— Aquilo é dela. — Apontou para um terço caído fora do acostamento, em meio a grama alta. Tucker ficou assombrado. Seguiu-o, abaixou-se e recuperou o terço. Jones tinha uma visão excelente para reparar naquilo.

— A terra aqui está mexida. — Indicou o homem com cajado. — E, ali na frente, ela deixou cair mais coisas. — O amigo do rapaz mostrou um relógio de pulso que Carol costumava usar. Estava quebrado na corrente. Hayes o guardou também, sentindo seu pulso acelerar novamente.

— Temos uma trilha. — Morgan Jones sorriu, se voltando para o rapaz. — Ela não deve ter ido muito longe — afirmou, fazendo Tucker Hayes piscar os olhos devagar, respirando profundamente. Estava um pouco mais calmo.

— Precisamos só... Achar um jeito de nos adiantar. — O amigo de Hayes pareceu pensar rápido. Começou a caminhar ligeiro mais além, Tucker se esforçando para seguí-lo, atrapalhado pela fraqueza de seu corpo.

Depois de passados trinta minutos, Morgan Jones encontrou um cavalo preso em uma cerca longínqua dentro daquela propriedade abandonada. Deveria ser um pasto.

— Vamos te pegar emprestado, ok? — O homem de cajado acariciou o pescoço do animal, que parecia dócil.

— Yo! Como você sabia que tinha a porra de um cavalo indo por esse caminho?! — perguntou o rapaz, surpreso.

— Marcas de cascos. Foi fácil — afirmou prontamente Jones, e Hayes continuou duvidoso.

— Eu não vi porra nenhuma — confessou o rapaz, levantando as sobrancelhas. Morgan subiu no cavalo selado.

— Suas feridas já cicatrizaram, certo? — perguntou a Hayes, subitamente preocupado. Tucker não saberia dizer, mas logo anuiu. Não importava, não perderia Carol de vista.

Tucker Hayes segurou na mão do amigo, que o ajudou a montar. Jones pediu que o abraçasse pela cintura, para não correr o risco de cair.

— Isso está escrotamente gay! — reclamou Tucker, fazendo Morgan soltar uma risada legítima. O homem perito em artes marciais fez um som de estalo e encostou as botas perto da barriga do cavalo.

Ambos dispararam em busca de Carol Peletier.

****

Por que você nos deixou?

A voz daquelas crianças reverberava em um eco eterno em sua mente enquanto dirigia uma caminhonete antiga de Alexandria.

Sam. Mika. Lizzie.

Sophia.

Suas crianças. Aquelas almas ingênuas, torturadas, feridas profundamente pela nova vida em meio aos mortos. Destruídas pela lei do mais forte.

Por que você nos deixou?

Repetiam, enquanto lágrimas silenciosas caíam pelo rosto exausto de Carol Peletier. Esgotada. Como a última gota de líquido necessária para fazer transbordar um copo cheio.

Carol chegou ao seu limite após a guerra contra Hashimoto e o Exército de Wyoming County. Ao voltar para Alexandria, se deparou com seus amigos, quase todos quebrados, fragilizados, traumatizados além da cura. Até mesmo Rick e Michonne quase haviam morrido, atropelados pelo terror da verdade que aquela psicopata havia lhes imposto.

O forte vive às custas da vida dos mais fracos. E ela estava cansada. Cansada de aguentar, de engolir todo o medo, a dor, o sofrimento que caminhava consigo dia após dia. Sofrimento apenas intensificado com a morte de Sam.

E, especialmente... Com a visão que teve de Tucker Hayes semi-morto, suas chances de sobrevivência quase nulas. Com partes das vértebras expostas, ferimentos profundos que apenas concretizavam a dureza do que tiveram de enfrentar e enfrentariam sempre. A constante crueldade humana.

Denise disse a todos para se prepararem para o pior, mesmo tentando ao máximo salvar todos os seus pacientes, junto a Rosita.

Carol pôde suportar apenas três semanas, se agarrando aos últimos fios de esperança que lhe restavam. Mas a realidade não permitia mais esse tipo de inocência. Tinha pesadelos diariamente, lembrando de todos os mortos que mais lhe pesaram a perda. Quando estava sozinha, não conseguia prender o pranto que lhe sufocava a garganta. Chorava horas sozinha, as escondidas.

Ela não aguentava mais tanta dor. E sabia que era apenas uma questão de tempo até ter de enfrentar tudo de novo. Quantas pessoas preciosas para si ela teria de perder antes de também se libertar de tudo? Antes de ser agraciada com a piedade da morte?

Presa em seus pensamentos, Carol Peletier sequer percebeu que havia entrado na reserva de gasolina. O veículo parou de andar, enquanto apenas metade de si própria se mantinha racional, fincada a realidade. O resto dela era apenas pura agonia.

Anestesiada pela dor pungente, quase fora de si, a mulher abriu a porta da caminhonete e foi até a mala buscar um galão de gasolina extra. Sequer percebeu que alguém se aproximava por trás de si e a saudava.

— Oi! — disse uma voz desconhecida.

Carol se virou imediatamente, sua pistola pequena já em punhos. As lágrimas imediatamente voltaram ao seu rosto. Não queria matar. Não conseguia mais.

Um homem de gorro azul, com longos cabelos quase loiros, meio castanhos claros, além de barba comprida levemente mais escura que seus fios capilares a encarava. Mal mudou a expressão desinibida de seu olhar ao ver a arma nas mãos dela.

— Vá para trás! — Peletier ordenou, a mão que segurava a pistola tremelicando.

O homem desconhecido levantou as sobrancelhas, erguendo as mãos, rendido. Deu apenas um passo suave para trás.

— Mais! Não me obrigue a atirar! — Carol o ameaçou, sentindo o peso em seu peito apenas se ampliar.

— Qual é seu nome? Está tudo bem? De onde você veio? — o sujeito perguntou, como se realmente sentisse empatia por ela.

— Nancy. Vim de Montclair! — Ela empunhou a arma com decisão, embora sua voz falhasse pelo choro que já queria descer de seus olhos outra vez.

— Bem, Nancy de Montclair... Eu sou Paul Rovia. — Ele se apresentou. — Mas meus amigos me chamam de Jesus — acresceu.

Carol Peletier piscou os olhos por segundos, depois daquela estranha constatação. Curiosamente, ela tinha um terço em sua mão esquerda.

— Pode me dar uma carona até minha comunidade? Tem uma horda vindo do sul, e sei que mais ao norte há um grupo perigoso de mortos-vivos — pediu o barbudo. Carol negou de imediato com a cabeça.

— Não posso. Sinto muito. Por favor, se afaste — insistiu a mulher de cabelos curtos.

O homem que dizia ser chamado de Jesus soltou uma expiração longa.

— Bem, não tenho outra escolha — disse ele. Carol, com lágrimas nos olhos, já se preparava para atirar.

Mas aquele homem tinha uma velocidade impressionante.

Assim que Peletier fez menção de atirar, Paul Rovia se lançou contra ela, golpeando a mão que segurava a arma de fogo com destreza. Carol soltou o tiro na direção do lado oposto da estrada, a bala sumindo em meio a grama. Logo que tentou se abaixar para recuperar a arma, o homem já tinha entrado na caminhonete e dava a partida.

— HEY! — Carol Peletier gritou, surpresa e assustada, enquanto ele acelerava para a esquerda.

— Foi mal! — O homem de barba comprida colocou o braço para fora da caminhonete, já virando a esquina, como se pedisse desculpas por roubá-la. Deixou uma trilha dos mantimentos que Carol colocara na carroceria da caminhonete caírem, pela fuga desesperada.

Era só o que faltava. Carol Peletier olhou para o terço em sua mão, sentindo toda a dor ser substituída por uma raiva súbita.

Jogou-o com ódio contra a grama alta, lágrimas grossas de raiva, frustração e tristeza rolando por seu rosto.

O homem quebrara seu relógio de pulso, já velho e danificado, tamanha a força do golpe. Ela o atirou na grama e pôs-se a caminhar a esmo.

Atestou que alguns errantes tinham sido atraídos pelo disparo da arma e pela aceleração do carro. Talvez aquele irônico encontro com "Jesus" quisesse dizer alguma coisa.

Poderia ser a hora de desistir.

****

Cavalgaram por cerca de uma hora.

As costas de Tucker Hayes doíam como se algo dentro delas estivesse prestes a se romper. Seus pontos pinicavam, e o balanço do animal montado intensificava mais e mais aquela sensação penosa.

— Hey! — O rapaz apontou para sua esquerda. — Olha! Perto daquela casa! — Indicou um grupo de rastejantes caído na rua.

— Estou vendo. — Morgan moveu o cavalo naquela direção. Tucker pulou de cima da montaria, soltando o amigo. Tivera uma forte intuição. Algo dentro dele dizia que não estava errado.

— Espere! — Morgan Jones bradou, assustado pela movimentação de rompante do rapaz. Hayes correu na direção da entrada da casa, tendo dentro de si uma certeza. Aferira uma movimentação na frente da porta.

Tucker subiu um degrau e assim a viu.

Carol Peletier abraçava a si mesma, seu rosto coberto de sangue seco, escondido em seus joelhos. Parecia uma mendiga, abandonada, assustada, enlouquecida. Seu corpo estava retorcido, comprimido dentro de si, ao passo que ela se encolhia como um animal acuado.

Esperando para morrer.

O coração de Tucker Hayes se partiu em pedaços incontáveis. Ler a despedida quase indiferente de Carol naquela carta nem se comparava àquilo. O choque foi tamanho que nem sequer se formaram lágrimas em seus olhos.

Ele não havia feito ruído algum, mas de alguma forma ela havia percebido sua presença. Carol levantou o rosto, devagar, como se nem entendesse o que via.

Assim que cruzou olhares com o rapaz que não desviava suas íris das dela, a expressão miserável da mulher se modificou. Algo brilhou em seus orbes azuis cerúleo. Como uma chama que acende brevemente em um fósforo e logo é apagada pelo sopro mais frágil.

— Eu falei para não vir atrás de mim — Carol Peletier sussurrou, alquebrada. Tinha uma ferida sanguinolenta na altura de seu abdome, perfurando sua camisa branca. Seus olhos estavam inchados, lavados de lágrimas. Parecia ter chorado muito mais do que ele, recentemente.

Tucker Hayes teve um súbito ímpeto de compreensão. Não sentia mais nenhuma mágoa por ela. Apenas uma urgente vontade de abraçá-la e prometer que tudo ficaria bem.

— Já vamos conversar, ok? Mas primeiro precisamos cuidar desse seu machucado. — Tucker mal reconheceu a voz afável que saiu de si. Pensara em muitas coisas para dizer para ela se a encontrasse. Palavras sentidas e ofensivas.

Mas agora apenas queria cuidar dela.

Não sentia esse impulso protetor há muitos anos. Nem usava esse tom de voz há tempos. Desde que Cathy, sua namorada, sempre ao seu lado... Se fora.

Morgan Jones se aproximou alguns segundos depois. Ajudou Hayes, ainda fisicamente debilitado, a levantar Carol Peletier a contragosto, que não parecia particularmente agradada com o "resgate". Ambos a levaram para dentro da casa, vazia de pessoas e de rastejantes. Deitaram-na na cama de um quarto mais próximo, e Jones achou alguns medicamentos e ataduras em um dos banheiros. Avisou que buscaria o carro para levá-los de volta, e Carol não dizia palavra, silenciosa como se fosse muda.

Tucker limpou com toda a delicadeza o ferimento de Carol, um corte pouco profundo, mas que precisaria de atenção médica para não infeccionar. Cobriu-o com gaze e esparadrapos, e depois baixou a blusa que ela usava acima do machucado. Sentou-se em uma cadeira ao lado dela.

Encarou-a sentindo uma extensão de alívio imensurável. Jamais se sentira tão tranquilizado depois de uma profunda angústia em vida. Provavelmente aquilo estava gritante em seu olhar e em sua expressão, porque ela mal conseguiu fitá-lo, desviando os olhos do rosto dele. Fitava um ponto aleatório dos aposentos. Em seguida, Carol Peletier franziu as sobrancelhas.

— Por quê? — ela indagou, simplesmente. Tucker sentiu um pouco do pesar voltar.

— Eu me perguntei a mesma coisa quando li aquele bando de merda — admitiu o rapaz, soando magoado. Carol o mirou, forçando algum distanciamento. Ergueu-se nos cotovelos e se sentou defronte a ele. Hayes rangiu os dentes, arrependido por sua sinceridade.

— Quem você pensa que é? Acha que pode me julgar, vir atrás de mim e achar que isso muda alguma coisa? — Carol fez o melhor que pôde para lhe dar um olhar de desprezo, frio até. Aquilo machucou Tucker, mas sabia que se ela não se importasse com ele sequer teria lhe escrito aquela carta.

Afinal de contas, por fim nem disse nada para os amigos que conhecia há anos.

— Eu não sei o que muda. Eu não sei o que te levou a fazer isso. Mas estou aqui. Se não quiser voltar... — Hayes respirou fundo, passando as mãos nas pálpebras fechadas. — Eu não volto também. Não tem problema. — Olhou para a mulher de cabelos curtos repetidamente.

Carol revirou os olhos, franzindo ainda mais as sobrancelhas.

— Garoto, você não entende nada. Volte pra Alexandria. Esqueça de mim. Eu não quero mais ter ninguém por perto — disse Carol, tentando soar distante.

A raiva subiu pelo sangue de Tucker.

— Eu não sou nenhum garoto, e eu sei que você sabe disso — redarguiu o rapaz, entre dentes. Fuzilou-a com o olhar. Carol Peletier pareceu um pouco surpresa com a intensidade daquela fala, pois piscou rapidamente.

— Você mente bem, Dona Peletier — falou, usando o tratamento que ela não gostava, de propósito. — E eu acredito que esteja sofrendo muito. E que acha que o melhor é ficar sozinha. Mas isso não resolve nada. Na verdade, isso só piora tudo — garantiu o rapaz, com certa experiência no assunto.

— Você não sabe de nada! Apenas vá embora e me deixe em paz. — Carol Peletier forçou um tratamento mais frio ainda, sem desviar o olhar. Aquilo magoou Hayes ainda mais, mas ele reparou nos dedos trêmulos dela enquanto tentava lhe rechaçar.

— Ah, eu sei! Como eu sei! — repetiu, um pouco mais exaltado. Carol levantou uma sobrancelha, estranhando a explosão emocional do rapaz. A cada fala distante dela, ele parecia mais decidido, em contrapartida.

— Eu fui forçado a matar a minha irmã por causa da vadia da Hashimoto! A única família que eu tinha no mundo! — esbravejou, fitando os olhos azuis de Carol Peletier por todo o tempo. — Se eu não explodisse a cabeça dela com um tiro, um dos soldados iria estuprá-la e surrá-la até a morte na minha frente! — contou, enquanto Peletier o olhava em choque.

— Perdi todo mundo que eu conhecia quando começou tudo isso. Minha namorada... Minha namorada que estava comigo desde que a gente tinha só catorze anos! — continuou, confessando todos os seus piores momentos para ela. — Eu vi ela... EU VI ELA SER COMIDA VIVA NA MINHA FRENTE! Enquanto minha irmã me obrigava a subir em um ônibus do Exército americano para a gente fugir! — Os olhos de Tucker se enchiam de lágrimas outra vez. Agora era ele que percebia.

Seria impossível resistir se perdesse Carol também.

— Eu matei e torturei adultos, crianças e idosos a mando daquela japonesa doente dos infernos. Eu vejo o rosto deles todos os dias nos meus pesadelos. Eu sei EXATAMENTE como é se sentir como você está se sentindo! — Fuzilou-a com o olhar mais uma vez.

— Ficar achando que a única saída é a morte, ou fugir da realidade! Fugir de todo mundo, de tudo! Eu passei por isso! — Tucker apontava para si mesmo, e depois fechou as mãos em punho. Carol parecia sem argumentos, apenas o fitando, surpreendida.

— Mas vocês me trouxeram de volta. Becky, Billy e Morgan. — Hayes limpou as próprias lágrimas com a manga comprida da camisa. Não era hora daquilo.

— Você também. — Tucker fitou Carol profundamente outra vez. Queria tanto que ela entendesse. Queria desesperadamente.

— Você me fez olhar para mim mesmo e descobrir o que ainda havia de bom em mim. Depois de tudo isso. Depois de todo o bando de merda infeliz que eu fiz. E eu senti vontade de viver de novo. Senti vontade... De ser quem eu era. Quem eu sou agora — confidenciou o rapaz, sua voz se tornando mais branda a medida em que dizia tudo aquilo a ela.

— Eu vou fazer isso por você também. Porque você é uma pessoa maravilhosa. Que não merece acabar assim. Mesmo que você não veja isso agora. — Hayes respirou fundo, sem desviar os olhos de Carol. A mulher de cabelos curtos tinha lágrimas consistentes se formando no canto de seus olhos de um azul tão claro, mais claro que as íris de Tucker.

— Não importa quanto tempo demore. Não vou desistir de você! — Tucker Hayes garantia com uma honestidade inédita em sua voz. Os dois trocaram mais olhares aflitivos, profundos, intensos.

Carol não suportou. Se rendeu ao choro, soluçando ela mesma do mesmo jeito sofrido que Hayes havia chorado naquela manhã.

O rapaz se levantou, sentando ao lado dela. Enlaçou Carol Peletier pelos ombros, colocando o rosto dela contra si. Ao abraçá-la, sentiu uma onda de afeto envolver-lhe por inteiro.

Ela chorava copiosamente, todo seu corpo frágil e forte ao mesmo tempo tremendo contra os braços dele. Tucker sentiu uma espécie de doce alento embalá-lo, ao acalentá-la com todo o cuidado do mundo.

— Eu perdi... Minha filha — Carol choramingou aos ombros dele. Hayes sentiu uma pontada dolorosa em seu peito ao ouvir aquela triste confissão. — Perdi... Duas crianças que eu me comprometi a cuidar — acrescentou, soltando um soluço alto, trêmula em seus braços. Tucker passou a acariciar as costas e os cabelos dela, a enlaçando ainda mais para junto dele.

— Deixei que Sam fosse morto — complementou ela, arfando em meio ao choro. — Eu simplesmente... Não consigo mais. Não depois de tudo isso. Não tenho mais forças — sussurrou Carol Peletier, não mais negando o quanto estava quebrada.

Tucker Hayes continuou a embalando. Aquela mulher forte, uma força da natureza, indomável... E ainda assim humana. Provando ser ainda mais resistente por toda a sensibilidade que tinha e que tentava esconder a sete chaves.

— Você é mais forte até do que imagina — murmurou ele, passando uma das mãos pelos cabelos de Carol. Ela moveu o rosto de forma a encará-lo, recuando alguns centímetros.

Tucker entendia o que ela não conseguia dizer. E que provavelmente não admitiria. Não ali, não naquele momento.

Agora sabia o que ela pensava.

Carol temia perdê-lo também.

Hayes a abraçou contra si, mais uma vez. Se antes sentia uma espécie de buraco em seu peito, agora sabia que o vazio fora plenamente preenchido. Não sentia algo tão intenso por alguém há muito, muito tempo.

— Você nunca vai me perder. Prometo — Tucker Hayes certificou, abraçando Carol com força, que ainda chorava silenciosa em seus braços. Não a largou até que ela mesma fez menção de se afastar, quando ouviram Morgan retornando com o carro.

Tucker perguntou se Carol pretendia voltar para Alexandria.

Ela apenas assentiu, confirmando.

****

Já eram cinco horas da tarde e o sol estava próximo de se pôr. Parados em um cume da estrada que tinha uma boa visão milhas e milhas abaixo, Mavelle Berry fazia a ronda dos arredores, seu arco com uma flecha preparada, ao passo que Rick estudava o mapa que tinha consigo.

Não viram sinal algum de Carol Peletier. Naquele momento, Daryl observava as autoestradas inferiores aquele monte, atento a qualquer aproximação.

— Achei. É a caminhonete azul! — Dixon alertou, fazendo com que Mavie logo corresse em sua direção. Rick Grimes viu o amigo passar o binóculo a namorada, que o mirou na direção que o arqueiro mostrou.

Rick pegou o binóculo por último, enxergando o automóvel dirigindo acelerado.

— Vamos! Podemos cercá-la na Churchil Road! — sugeriu a pequena estrada mais abaixo. Em seguida, subiram ao RV, com Daryl tomando a direção do trailer. Mavie sentou-se ao seu lado, e Grimes, um pouco mais atrás.

O trio aguardou a aproximação de Carol Peletier, parados em uma esquina na qual ela não poderia vê-los de longe. Contudo, ao reparar na caminhonete perto de cruzar a rua, Rick Grimes aferiu algo surpreendente.

— Não é ela — afirmou aos amigos, ao discernir uma figura de grandes cabelos e barba longa atrás do vidro, dirigindo o grande automóvel.

— O quê? — Mavie perguntou, nervosa. — Como...? — a irlandesa começou, mas Rick Grimes pediu silêncio.

— Atirem nos pneus. AGORA! — Ele mesmo levantou seu revólver, abrindo o vidro mais próximo. Dixon e Berry logo obedeceram ao comando, ela com uma pistola bobcat e Daryl com um rifle de longa distância.

O sujeito que dirigia a toda velocidade teve dois de seus pneus perfurados por vários disparos no mesmo instante. A caminhonete perdeu o controle, derrapando pela estrada e colidindo contra uma árvore.

O trio saiu correndo do trailer RV. Daryl e Mavie agora tinham suas armas de arqueiros a postos, e Rick mantinha seu revólver pronto para disparar.

— ONDE ESTÁ ELA? — vociferou Rick Grimes, furibundo.

Algo também inusitado se sucedeu.

A porta do motorista se abriu e o homem desconhecido que roubara o carro da fuga de Carol Peletier começou a correr na direção da mata próxima de onde estavam. Era tão rápido que logo sumiu no meio do mato. Daryl e Mavelle erraram as flechas.

Fecking gurrier*! — praguejou a irlandesa, seus olhos cor de avelã esverdeado arregalados, surpresos.

Rick se pôs a correr no encalço do homem. Sem escolhas, os caçadores o seguiram. Logo, a densa floresta deu lugar a uma clareira. Poucos metros adiante, o desconhecido de cabelos compridos ainda corria.

Mavelle parou e mirou uma flecha. Conseguiu atingir o tornozelo dele, o fazendo tropeçar e cair ao chão. Alguns errantes que foram atraídos pela movimentação rapidamente foram eliminados por Dixon e Grimes. Em seguida, o arqueiro e o líder da comunidade correram até o cabeludo com a velocidade de predadores rondando uma presa fugitiva. Depois arrastaram o sujeito para perto do RV, que não esboçava nenhuma resistência. Perguntaram algumas vezes sobre Carol Peletier, mas ele não respondia nada.

Foi só quando chegaram até o trailer que o esquisito homem resolveu abrir a boca.

— Eu não sei, tá legal? Eu pedi uma carona e ela tentou me matar! Por isso que roubei a caminhonete! Foi no cruzamento da 495 com a Eisenhower Road! Preciso voltar para casa — tentou se explicar, mas Rick continuava desconfiado. O ferimento do sujeito sangrava cada vez mais.

— E onde exatamente você a roubou... — Rick pretendia subsistir o interrogatório, prendendo o sujeito com os braços para trás, enquanto Mavelle tinha ele na mira e Daryl abria a porta do trailer.

Porém, o habilidoso desconhecido resolveu tentar uma manobra arriscada. Deu uma cabeçada certeira no nariz de Rick, além de algumas cotoveladas forçando seus braços para baixo e depois torcendo o corpo de forma a se livrar do aperto de Grimes. Mavie, surpresa, não teve tempo de reagir antes do sujeito se ver livre e correr outra vez em direção a floresta. Como se a flecha mal o incomodasse.

Dessa vez fora Daryl quem acertara seu outro tornozelo. O homem barbudo caiu de cara na estrada com um sôfrego lamento angustiado.

Os três o cercaram, furiosos, flechas e revólver apontados na direção de sua cabeça. Equilibrando-se no asfalto, o homem apenas pôde dizer.

— Acho que começamos com os pés errados — fez a piada irônica. — Meu nome é Paul Rovia. Mas meus amigos me chamam de Jesus. E vocês? — Aguardou uma resposta.

Rick e os outros apenas o estudaram em um gélido silêncio perigoso.

— Vai, por favor, acho vocês já sabem que eu não sou um cara mau — repisou "Jesus", os fitando de maneira aflita.

Rick Grimes teve vontade de lhe responder com um tiro na testa. Mas se controlou. Daryl e Mavelle o arrastaram até o trailer, enquanto Grimes mirava seu revólver no rosto dele por todo o tempo. No RV, amarraram-no dos pés a cabeça com silver tape, impossibilitando que se soltasse. Não sabia dizer mais nada sobre Carol além do ponto em que roubara a caminhonete.

Mavelle ficou responsável por dirigir a caminhonete de volta a Alexandria, passando pelo local indicado pelo estranho, após trocarem os pneus por alguns reservas guardados no trailer da comunidade. Daryl se despediu dela com carinho, dando-lhe um selinho na frente de Rick, que não estava acostumado a testemunhar o caçador em demonstrações de afeto. Em seguida, o policial se sentou no banco do motorista, e orientou o caçador arqueiro a sentar-se do seu lado, com Paul Rovia próximo deles. Como "Jesus" não parecia disposto a calar a boca, e, sem parecer minimamente impressionado, continuava os perguntando sobre quem eram e de onde vinham, o arqueiro lhe deu uma coronhada com seu rifle, fazendo com que desmaiasse.

Passou o resto da viagem com o rosto apoiado no ombro de Daryl, por estar desacordado. Rick teria achado aquela cena hilária, inclusive pelo desconforto do amigo, se não se preocupasse com quem poderia ser aquele sujeito.

Afinal de contas, os últimos desconhecidos que tiveram de lidar quase liquidaram toda a vida remanescente em Alexandria.

E Rick Grimes não estava mais disposto a permitir que isso acontecesse. Seria melhor eliminar toda e qualquer ameaça... Mesmo que tivesse de pecar pelo excesso.

Todo cuidado era pouco.

Notas finais
*Arruaceiro fodido, tradução literal da gíria irlandesa de nossa Esquila da Ilha Esmeralda ahushushue! ~ Gif by me. Trechinhos de cenas do capítulo. TUCKER VOCÊ É A COISINHA MAIS FOFA DO MUNDO! GENTE, SÉRIO, olhem a carinha dele olhando pra Carol. COISAMÁRLINDA! Jesus, você é foda demais, rio demais contigo AHUUHSUHSE! ~ Nos vemos nos comentários! Muito curiosa pelas opiniões!