Hunter's Instinct
61 Episódio 61 - Senshi No Kyuusoku
Notas iniciais
As luzes da aurora se erguiam timidamente no horizonte.
Sentada na parte traseira daquele caminhão do Exército americano, ela apenas podia ver pequenos flashes de luz despontando pelo tecido verde usado como cortina para a carroceria.
Tinha em mãos um rifle M16, retirado do cadáver de um dos membros do Exército de Wyoming County que Carol Peletier assassinara naquela madrugada. Sentia-se cansada. Extenuada de tanto sofrimento. Quantos já não haviam morrido, e quantos ainda faleceriam para que pudessem enfim pôr um fim naquele regime autoritário de Hashimoto?
A garota sabia que não havia outra opção. Com aquela psicopata, a escolha era matar ou morrer. E ela sabia o que poderia restar para os outros... Para o restante do mundo, se a japonesa vencesse. Não poderiam se dar ao luxo de perder.
Mavelle Berry limpou o suor frio que lhe descia pela testa. Eugene Porter, sentado à sua frente, tamborilava os dedos nervosamente em uma AR-15, respirando de forma desritmada. Carol Peletier, sentada de costas a divisória que os separavam da cabine fronteira do caminhão, se mantinha silenciosa. Sem mover um músculo. Seus olhos pareciam perdidos, focados no tecido esverdeado da carroceria, como se olhassem mais adiante, para outro local muito ao longe.
No repartimento frontal, Daryl Dixon dirigia o caminhão. Todos os quatro estavam vestidos com os uniformes do Exército de Wyoming County, propositalmente pretendendo se camuflar até executarem o novo plano que haviam arquitetado em conjunto.
Mavie sentia urgir dentro de si algo que não lhe era comum. Como se alguma coisa tivesse há muito apodrecido nela, e fincado raízes tóxicas em seu corpo. Em sua alma.
Mavelle sentia um ódio profundo florescer cada vez mais. Sabia que sentiria algum tipo de recompensa deleitosa ao se livrar de Hashimoto. Mas não queria que fosse algo rápido. Queria que fosse devagar. Que ela morresse sofrendo, torturada, da pior forma que sua mente conseguisse conceber.
E ainda assim seria pouco.
Pois nada daquilo traria sua avó de volta. Sam ou Jessie. Ron. Sasha. Deanna. Aiyana. E todas as vidas que foram ceifadas pela ambição doentia da psicopata.
Um som estrepitante se fez ouvir, saindo do rádio comunicador nas mãos de Carol.
— Quero você e sua tropa aqui agora. Precisamos reunir todo o Exército na área externa da base com urgência! Atrasos não serão tolerados! — A voz de Hashimoto foi impelida para fora do walkie-talkie, deixando claro que o Exército não estava em uma boa situação.
— Está bem. Estamos a caminho. Chegaremos em alguns minutos — Carol imitou com maestria a voz grave e controlada de Priah, a militar indiana. Ouviram o som da líder desligando a conversa, logo após a resposta de Peletier.
Mavie Berry sentiu um sorriso cruel se formar sozinho em seus lábios. Estava gostando daquilo. O que havia acontecido com ela? Tocou instintivamente o ferimento em seu braço, onde a flecha de um dos soldados da mulher oriental perfurara sua pele.
Em silêncio, o grupo de infiltradores se manteve ocupado do restante de sua missão. Anteriormente, apenas deveriam envenenar o leito do rio que abastecia a base militar de Hashimoto. Com as surpresas que os aguardavam, porém, especialmente depois da morte de Sasha... Sua missão não terminaria ali. Iriam adiante, para terem certeza de que a japonesa seria derrubada de uma vez por todas.
Depois de alguns minutos, Mavie reparou em alguns vislumbres rápidos de contornos metálicos. Uma cerca passou ligeira pelo seu campo de visão, entre as pequenas aberturas do tecido que cobria a carroceria.
Daryl buzinou três vezes. Era o sinal. Haviam entrado no território de Hashimoto.
Mavelle engoliu em seco, controlando a própria ansiedade que aumentava gradualmente.
E logo o rádio comunicador nas mãos de Carol recebeu outra chamada.
— Venham para a saída a oeste da base! — Hashimoto mal deu tempo de Peletier responder, e já desligara. Mavie, Carol e Eugene se entreolharam, surpresos com o desespero da japonesa.
Ouviram o som da porta do motorista se abrir. Mavelle ergueu-se, atenta, preocupada com o arqueiro.
— Ela falou para irmos... — A voz de algum militar da mulher oriental foi calada de imediato. Berry escutou o som rascante de uma faca cravada com agressividade em um crânio, tendo certeza de que Dixon se livrara do vigia.
Os três restantes se lançaram para fora do veículo do Exército americano. Mavelle já tinha o rifle a postos, Carol, um fuzil de assalto AK-47. Eugene empunhava a AR-15 o melhor que podia, e Daryl já retirava do banco da frente a arma que Abraham Ford lhes deixara.
Bastou o quarteto colocar os pés na grama que uma saraivada de tiros foi mirada contra eles. Tiveram apenas tempo de buscar refúgio por trás do caminhão, mas Eugene, mais lento, fora atingido na coxa. Carol se empenhava em mantê-lo seguro de si, confiante, dizendo que devia esquecer a dor e mirar naqueles que se aproximavam e desvendavam os infiltrados.
Àquela altura, Hashimoto já fora certamente alertada sobre as más intenções do grupo que se apropriara das roupas e veículo do Exército de Wyoming County. Da traseira do caminhão, Mavie viu, acobertada, cerca de trinta homens e mulheres se aproximando.
— Daryl, vá logo! — a irlandesa pediu, nervosa, olhando para o lado oposto.
Dixon parecia mirar a distância, com a RPG apoiada em seus ombros e braços vigorosos.
Em um segundo, enquanto respondiam aos tiros do Exército, ele disparou.
Puderam ouvir o ruído da detonação ao longe. Reverberou à distância, fazendo os poucos pelos do corpo de Mavie se arrepiarem. Uma simultânea sensação de raiva, medo e prazer. Seus ouvidos zuniram, mas até mesmo a incômoda sensação de tontura em seu labirinto era bem-vinda.
Pois Daryl acertara em cheio uma das duas únicas pontes levadiças que permitiam ao Exército de Wyoming County entrar e sair de sua base militar. Agora, só havia a saída mais ao sul, que daria no estacionamento, um inferno queimado pela explosão bem sucedida do mecanismo de refrigeração.
Mavelle mirou o rifle em um par de soldados que corria mais próximo, tentando se esconder sem sucesso na grama alta. Eliminou-os sem a menor dificuldade, limpando mais uma vez o suor frio que não parava de escorrer pelo seu rosto.
Olhou os companheiros, reparando que Carol, parecendo mais desagradada do que ela com aquela tarefa, matava um militar atrás do outro. Eugene errava a maior parte dos disparos, mas não deixava de tentar.
Foi então que Mavelle avistou uma movimentação perigosa.
— GRANADA! ELE VAI LANÇAR! DARYL... — Ela logo ia demandar que o arqueiro mirasse a última munição da bazuca RPG no sujeito que ameaçava explodir o caminhão em que todos se refugiavam. Mas Dixon fora mais rápido.
Mavelle viu o soldado ser arrebentado em fragmentos de carne e sangue incontáveis, uma chuva rubra se erguendo diante deles. Muitos outros militares foram detonados juntos, despedaçados da mesma maneira grotesca. Quase nenhum estava de pé, e Mavie já não se sentia mais tão decidida a fuzilá-los.
Sentiu um refluxo de repulsa subir pelo seu corpo, e seu medo aumentou.
Enquanto Daryl, Carol e Eugene matavam os soldados sobejos daquela tropa, Mavelle Berry refletiu outra vez sobre tudo o que enfrentava. Ela chegara perto, muito perto, de se parecer com Hashimoto.
Querendo sangue. Morte. Destruição.
Aquilo tudo era horrível de viver, de suportar, de presenciar e de participar. Jamais deixaria de ser. Deveria tomar cuidado... Se policiar, caso sobrevivesse, para que jamais voltasse a sentir prazer com aquilo. Se passasse a gostar daquilo... Seria um passo adiante para compreender de forma perigosa a mente psicopata da mulher que tentavam derrotar.
Para se identificar com ela.
*****
Refletia a respeito daqueles que haviam sobrado do lado de fora. Menos de cem era uma certeza. Menos de oitenta. Talvez, no máximo, cinquenta... E trinta deles foram mandados contra o maldito caipira que acabara de explodir a única saída possível.
Seus homens e mulheres que ainda estavam dentro da base estavam presos. Os que estavam no nível do solo já haviam saído e se protegido dos súbitos ataques. O restante... Estava para sempre enclausurado numa prisão agora repleta de rastejantes, sem oxigênio, e com água envenenada. Incapazes de abrir as portas movidas à eletricidade, uma vez que o gerador de energia também fora pelos ares junto com as explosões dos mecanismos de refrigeração.
Muitos mortos-vivos subiam para fora dos fossos, desnivelados, formando ladeiras, como se os portões do inferno tivessem sido abertos.
— Continuem junto comigo! Continuem junto comigo, aconteça o que acontecer! — Hashimoto demandou para a vintena sobrevivente de seus homens. — Assim que enxergarem aquele trailer RV abram fogo! Gastem todas as balas se assim for preciso!
Ainda estavam em vantagem. Ela ainda poderia reconstruir tudo. Bastava encontrar um novo lugar. Poderia matar Rick Grimes e todo seu grupo. Alexandria poderia ser sua nova base, e os sobreviventes, seu novo Exército.
Ela venceria. Ela sempre vencia.
Pois ela era Hashimoto.
[...]
Hashimoto descobrira sobre a infecção dos rastejantes logo no início. Estava saindo de um motel em que se encontrara com Daisuke, se esforçando na manipulação daquele homem, o principal empregado de seu marido. Fingia primorosamente estar apaixonada por ele, fazendo com que o idiota comesse em sua mão. Precisava tê-lo assim, como seu cão de guarda, para posteriormente conquistar o respeito de todos os homens de seu esposo, e usá-los para si.
Em uma das principais ruas de Washington, era vira um homem ser executado em praça pública. Um sujeito que saíra de uma ambulância de braços erguidos, correndo na direção de um grupo de policiais.
A pele de seu rosto estava caída, sem um dos olhos, sangue espalhado por todo seu rosto e seu corpo. Ela viu Daisuke, ao seu lado, comprimir uma exclamação de horror. A esposa de Eikichi Takahashi mal piscou ao ver aquela cena repugnante.
Ainda assim, mesmo tendo a face parcialmente despedaçada, o homem avançava impávido contra os policiais, que dispararam seus fuzis. O sujeito — que mais parecia um cadáver ambulante — continuava atrás deles.
Hashimoto sentiu um calafrio percorrer seu corpo. O que era aquilo? Ela testemunhou o homem fuzilado morder a jugular de um dos policiais, até que um deles atirou em sua cabeça, o fazendo desfalecer.
Tantos tiros haviam sido disparados... Todavia, somente o projétil no crânio do homem surtiu efeito. A mulher registrou aquilo com atenção.
Naquela noite, assistiu o noticiário com seu marido. Muito se falava sobre uma doença estranha. Nos dias que se seguiram, atestou mais cenas estranhas. Pessoas acometidas de um estranho surto de canibalismo, atacando outras como o sujeito que vira na rua.
As notícias eram as mesmas. Tentavam aconselhar a população a não se contaminar. Porém, ninguém sequer sabia como se pegaria essa doença estranha. Avisos locais pediam para que todos evitassem sair de casa, e, em poucos dias, o Exército americano já invadira Washington. A Casa Branca fora esvaziada, com frotas e frotas de helicópteros do Exército deixando o local.
Aquilo inspirara Hashimoto. Em uma viagem que fizera para West Virginia, com seu marido, ela se lembrara de avistar uma base militar. Um centro de comunicações do Exército americano. Chamara sua atenção por ser uma espécie de bunker, repleto de cercas altas.
A mulher sugerira ao esposo que tentassem se refugiar por lá, já que Washington fora tomada pelo completo caos. Eikichi, contudo, rejeitou a ideia de imediato. Falou que não precisavam de proteção de nenhum órgão do Estado.
Assim, Takahashi levou a mulher e todos os seus melhores homens para a fábrica da produtora de carros em que trabalhava. Ficava na periferia de Washington, em Leesburg.
Como bagagem, Hashimoto apenas fizera questão de levar consigo o essencial. Comida, remédios, roupas, água... E, é claro, a caixa que continha sua espada katana.
Passaram poucos meses na ampla fábrica de Eikichi. Naquela situação limite, ele não foi capaz de conter o motim que pouco a pouco crescia no íntimo de seus homens. Era um sujeito mimado demais para liderar. Acostumado a mandar nos outros por meio do dinheiro que tinha, do prestígio que dispunha. Por que, naquela nova ordem mundial, em que as regras como antes poderiam ser questionadas, a autoridade de Takahashi também não seria?
Tolamente, percebendo que estava cada vez mais enfraquecido, ele se fechava em uma bolha de poucos seguranças que mais confiava. Dentre eles, Daisuke Kimura, já há muito um partidário da causa de sua esposa. Hashimoto agia como a mulher indefesa que fingia ser, de quem Eikichi se aproveitava, para, na privacidade, liberar suas frustrações. Ficava gradualmente mais violento e irascível, e a mulher aturava tudo aquilo sorrindo internamente. Faltava pouco tempo, e sua burrice se voltaria contra ele mesmo.
Em uma noite, Daisuke convenceu os homens de Takahashi a deixarem entrar alguns dos rastejantes, os mortos-vivos como chamavam. Todos eram guerreiros habilidosos — assim como era Hashimoto, em segredo —, e não tiveram grandes dificuldades de se livrar dos cadáveres ambulantes quando descobriram como contê-los.
Propositalmente, permitiram que Eikichi fosse mordido. Mas Mayumi pediu a Daisuke que não o deixasse ser devorado até a morte. Queria matá-lo ela própria.
Seu marido seria a primeira vítima de sua formação como retalhadora.
Ela e Kimura o deitaram na cama em que ele dormia, numa área administrativa da fábrica. Seu marido voltou-se para ela, sem saber que diria suas últimas palavras.
— Ah, Mayumi-chan... Você é mesmo uma graça. Um anjo. Sempre fui tão ruim com você. — Parecia até mesmo arrependido. Hashimoto apenas sorriu.
— Por exemplo... Jamais perguntei porque você carrega essa caixa para cima e para baixo. Sou um péssimo marido. — Eikichi tossiu, a febre já lhe fazendo suar pela temperatura alta de seu corpo.
— Que engraçado você comentar. — A mulher parecia calma, controlada, fria como uma ventania de inverno.
Eikichi Takahashi a encarou com cuidado.
— Desculpe... — ele tentou, mantendo as feições de arrependimento.
— Poupe suas desculpas. Nunca te ajudaram. Não vão ajudar agora. — Hashimoto abriu um sorriso imenso. Jamais sentira tanto prazer na vida. Mal conseguia se controlar.
Foi até sua caixa, mantida no armário daqueles aposentos. Abriu-a, retirando a katana com aptidão ímpar. Desembainhou-a, e o som suave e rascante que o metal fez arrepiou cada centímetro de sua pele.
Hashimoto fechou os olhos, sorrindo ainda mais, sorvendo internamente o deleite de se ver as vias de finalmente matar seu marido. Um dos maiores culpados por tudo o que sofrera.
Podia sentir a justiça do Shinsengumi, do lema "o mal imediatamente eliminado" inspirar-lhe por dentro. Eikichi merecia morrer. E ela seria responsável por seu assassinato, com regozijo.
— M-mayumi-chan... — Eikichi balbuciou, arrastando-se para trás, como uma presa assustada. Hashimoto, instigada por seus instintos de caçadora, de retalhadora, ampliados ao máximo, apenas caminhou devagar até ele.
Empunhou sua katana em um movimento limpo, preciso, dançarino, quase. Eikichi fez menção de gritar, porém ela o cortou com a agressividade, brutalidade e desejo assassino contido por tantos anos. Rasgou sua pele, suas entranhas, da base de seu tronco até a altura de seu pescoço, quase dividindo-o em dois.
— Não me chame assim. Não é meu nome — ela retrucou, levada por um impulso misterioso. Não era mais Mayumi. Muito menos Takahashi-san, a senhora de seu marido.
Em seguida, cravou a lâmina no centro da cabeça do homem, impedindo que retornasse como uma criatura ainda mais pútrida do que o ser deplorável que já era.
Hashimoto limpou a katana na blusa que usava, cortando seus longos cabelos, em seguida, na altura do rosto com a mesma lâmina de sua espada. Nunca se identificara com aquela máscara. Nunca fora a esposa submissa que tanto atuara ser.
E agora poderia demonstrar ao mundo sua verdadeira face.
[...]
Ela conseguira convencer o restante de seu grupo, cerca de trinta homens, a deixar a fábrica de automóveis. Mudaram-se para a base do Exército que sugerira para Daisuke. Como o excelente cachorro de estimação que era, o sujeito apenas anuíra, feliz por se ver livre para ser o companheiro de Hashimoto abertamente.
Kimura já havia lhe torrado a paciência o suficiente. O capanga de seu falecido marido era apenas um instrumento para se consolidar como líder daquelas pessoas, e que logo deveria sair de jogo.
Ao chegarem até a base militar de Wyoming County, se depararam com um campo minado. Repleta de mortos-vivos, a área externa da base parecia comprometida. Tiveram um trabalho de dias, mas conseguiram, todos juntos, livrar-se daquela horda ali presa. As cercas ainda resistiam, precisando apenas de reparos em algumas partes.
Em seguida, passaram a explorar as partes internas da base. Poucos rastejantes se mantinham lá dentro, a maioria dos poucos membros do Exército que puderam chegar aquela base a tempo, e que sucumbiram a infecção. Foi preciso um trabalho de apenas uma tarde, e tinham a base militar à sua inteira disposição.
Quatro andares, um deles térreo, três subterrâneos. Inúmeros aposentos, um pátio interno, uma área imensa externa cercada. Um gerador de energia colossal próximo a um mecanismo também volumoso de refrigeração do ar. Haviam ganhado na loteria do fim do mundo.
Contudo, Hashimoto ainda esperava pela oportunidade de se livrar de Daisuke. Foi apenas quando limpavam o último repartimento do primeiro andar, sozinhos, eliminando um último rastejante, que ela viu sua chance.
Kimura parecia admirado com as habilidades da mulher com sua espada katana. Não parava de elogiá-la, dizendo que era uma legítima descendente de Katsuo Hashimoto.
Ao fim da aniquilação do último morto-vivo, ela se aproximou do atual companheiro. Enlaçou-o com os braços e o beijou, enquanto ele retribuiu, extasiado pela liberdade que agora tinham, de se assumir publicamente como um casal. Os homens de Takahashi tinham um respeito infinito por Daisuke Kimura, que os ajudara a aprender como matar os mortos-vivos, a manejar armas brancas e a sobreviver naquela nova realidade.
Hashimoto fez menção de beijar seu pescoço, mas já tinha algo planejado.
Enquanto Kimura estava fragilizado, julgando-se seduzido por ela, a mulher modificou o beijo que dava em seu pescoço para algo mais agressivo. Mordeu com toda a força que dispunha a jugular de seu namorado, arrancando um pedaço dela, como se fosse por si própria uma dos mortos-vivos.
Daisuke gritou, chocado, e nem sequer teve tempo de alcançar sua katana. A aprendiz superou o mestre, desembainhando sua própria espada, cortando a cabeça do companheiro em um golpe horizontal, dividindo-a em dois.
O sangue de Kimura banhou sua pele, sua roupa e seus braços, e ela outra vez sentiu o imensurável rompante de deleite ao tirar sua vida. "O mal imediatamente eliminado". Os fracos eram o mal daquele mundo. Tolos como Daisuke. Como seu ex-marido. Idiotas manipuláveis, presos a ideias e conceitos do mundo antigo.
Hashimoto fingiu desespero, chamando os homens que atualmente respondiam a Daisuke. Disse que seu companheiro fora mordido, e ela teve de matá-lo quando tentou atacá-la.
[...]
Hashimoto não teve dificuldades em liderar seu grupo. Sua autoridade era nata, e, mesmo sendo mulher, naquelas condições seus homens a respeitavam com reverência. Isto porque era tão boa nas artes da espada e da sobrevivência quanto Daisuke, e uma líder mais diligente e inteligente. Não perdoava falhas, o que fazia seus homens mais descrentes pouco a pouco passarem a respeitar inteiramente sua liderança.
Ela percebeu que, tendo os recursos finitos naquela realidade, precisava decidir alguma forma de manter seu grupo alimentado, seguro, e capaz de seguir suas ordens. Mantimentos acabavam, remédios eram escassos, e até mesmo pessoal capacitado eram de grande valia naquela situação.
E então teve a melhor ideia possível. Ora, o lema do Shinsengumi, a justiça do grupo de seu antepassado, era a frase: "o mal imediatamente eliminado". Se o mal do novo mundo era a fraqueza dos incapazes, que apenas atrasava a óbvia dominação dos mais fortes, ela precisava levar essa verdade adiante. Passá-la aos sobreviventes que conseguiram durar tanto quanto ela.
Que precisariam de sua liderança para sobreviver. Sobreviver como deveria ser. Por meio da força, e não dos antigos preceitos ultrapassados de outras vidas.
Esclareceu ao seu grupo a necessidade de angariar mais pessoas, trazê-las até sua base, fazê-la crescer. Números significavam mais poder, mais proteção, mais pessoas habilidosas ao lado deles.
Assim, passaram a explorar as regiões adjacentes. E Hashimoto teve certeza da verdade que pretendia trazer ao novo mundo em sua primeira comunidade conquistada.
Era apenas um acampamento de trailers, em um local improvisado, uma encosta montanhosa. Sem dificuldades, a mulher e sua dezena de homens fizeram o cerco aos sobreviventes, favorecidos pelo relevo do lugar.
Eles resistiram, tomando sua iniciativa com maus olhos. Ela imaginou que assim fariam, porém não desistiria de salvar os capacitados.
Seus homens continham os parcos dezesseis sobreviventes daquele acampamento, enfileirando-os em um semicírculo. Hashimoto lhes discursou sobre a nova realidade e tudo o que era necessário para sobreviver, de que apenas o forte sobrevive e o destino do fraco era, invariavelmente, a morte. Alguns poucos membros do acampamento foram convencidos, cerca de três, e ela mandou que fossem separados. Sabia que fora mais por medo do que por qualquer outra razão, mas os treinaria o suficiente. Como ela fora treinada. Se fossem realmente bons, aguentariam.
O líder do grupo continuava reticente. Falou que teria de lhe matar para sequestrar os seus, em suas palavras patéticas.
Hashimoto se aproximou dele, dizendo que sua vontade seria concretizada. Como mais um exemplo da vitória do mais forte sobre o mais fraco.
Um de seus homens, um latino chamado Santiago, lhe perguntou se seria mesmo o melhor a fazer.
— Mayumi, será que... — ele tentou, e ela o calou, com um movimento perigoso de sua katana. Colocou-a centímetros próxima da garganta do homem, que se pôs em silêncio de imediato.
— Confie em mim. Nós seremos os únicos sobreviventes do novo mundo — lhe garantiu a mulher.
— E jamais me chame assim. Esse não é meu nome — ordenou ela, assertiva. Santiago não compreendeu.
— Mas...
— Eu sou Hashimoto. — Ela dilacerou o rosto do líder do acampamento, trazendo gritos de horror e assombro a todos.
E ali nasceu seu império.
Ali nascia Hashimoto.
[...]
Tara Chambler dirigia desesperadamente o trailer RV. Guiando o veículo na velocidade máxima que ele aguentava, ela despontava pelas estradas sujas de terra próximas a base militar do Exército de Wyoming County.
Heath tinha as mãos na pistola Imbel que tinha consigo, os olhos firmes no vidro dianteiro do trailer, como se temesse que algum membro do Exército voasse para dentro do veículo a qualquer momento.
Aaron estava sentado, concentrado, acariciando os próprios braços. Respirava fundo, expirando também longamente. Parecia se munir de coragem, como se tudo aquilo o aterrorizasse a ponto do insuportável.
Rosita Espinoza tinha olhos injetados de fúria. A metralhadora que levava em seus braços já estava pronta para ser disparada. Depois de ver Abraham ser morto daquela forma humilhante e perversa na sua frente, sem poder fazer nada para impedir, a mulher latina parecia mais do que decidida a dar o troco, prometendo retribuir com ardor na mesma moeda.
Michonne respirava com dificuldades. O corte fundo que Hashimoto fizera na lateral de seu tronco ainda a fazia sentir dores intensas, que ficavam evidentes pelos suspiros de aflição que ela tentava conter. Parecia que a japonesa a atacara de forma deliberada, não para matá-la, todavia, para deixá-la no limiar da morte. Para testar sua força.
Rick Grimes aferia cada uma das feições de seus companheiros. Reparava em cada denotação de emoção diferente em seus rostos, para escapar dos pensamentos e sensações que tentavam lhe tomar o que restava de sua sanidade.
Nossos filhos, Rick. Você precisa protegê-los! A voz de Lori lhe falava aos ouvidos. O homem engoliu em seco, tentando se controlar o melhor que podia.
Hey, não deixe ela levar o Carl. Cuide dele. Ele precisa de você. Shane assombrava seus pensamentos, sua voz grave clara em sua mente, como se o antes grande amigo estivesse sentado ao seu lado no trailer.
— Não vou deixar! — Rick Grimes se viu falando consigo mesmo, sobressaltando seus companheiros de batalha e também amigos.
Todos olharam para o policial. Passando uma das mãos ao rosto, Grimes tentou o melhor que pôde respirar fundo e evitar as próprias emoções tormentosas.
Sentiu a palma da mão de Michonne se deitar em cima de sua mão direita. Mais uma vez ela estava lá. Enfraquecida pela luta com Hashimoto. Dando-lhe apoio, não importava quão difícil fosse a guerra que iriam travar em minutos. A batalha definitiva.
O fim de tudo aquilo, para um lado ou para o outro.
Não podia se deixar levar. Não podia deixar as palavras da japonesa psicopata se fazerem reais. Não podia ser fraco. Ele tinha de resistir. Não podia desistir ali. Não agora.
Se o pai de Carl e Judith queria se provar um líder melhor do que Hashimoto, aquele era o momento derradeiro. Todas aquelas pessoas dependiam de sua capacidade de liderança, ele era seu guia, o símbolo daquela resistência.
— Não vou deixar ela vencer. Não vamos deixar. Alexandria depende de nós... Meu filho... Minha filha... — Rick varreu os rostos de todos os amigos com o olhar. Demorou-se alguns segundos a mais nas íris escuras de Michonne, achando um pouco mais difícil desviar seus olhos dos dela.
— ...Seus companheiros. Amigos. Namorados. Cônjuges. Todos temos pessoas pelas quais lutar. Nós temos um ideal mais forte do que a destruição que Hashimoto preza. Nós ainda temos a centelha de esperança que ela abandonou. Que ela e seu Exército tentam apagar a todo custo. E nós não vamos deixar! Vamos queimar, mesmo que viremos pó no processo! — Rick Grimes disse com entusiasmo, enquanto seus companheiros concordavam. Alguns audivelmente, como Rosita, que respondeu em espanhol, e Tara, soltando um "fuck yeah!" bastante alto. Outros em silêncio, como Heath e Aaron, que apenas menearam a cabeça.
— Estamos com você — Michonne respondeu, segurando com mais firmeza a mão de Rick. — Até o fim — ela complementou. Os dois trocaram olhares silentes. Suas íris disseram um ao outro muito mais do que palavras poderiam.
— Chegamos! — Tara esbravejou, pisando fundo no freio simultaneamente com sua frase proferida.
O líder de Alexandria e os outros tiveram de se esforçar para se equilibrar, evitando cair ao chão do RV. Assim que o veículo começou a frear, disparos foram lançados para dentro do trailer.
— SAIAM PELA PORTA DE TRÁS! — Rick Grimes demandou, enquanto Heath abria a saída mencionada, lançando-se para fora de um salto. Rosita o seguiu, depois Tara, Michonne e, por fim, Rick.
— Tomem cobertura! Qualquer pedra, árvore, qualquer forma resistente por aqui vai servir! — Grimes deu as instruções, seus instintos de líder alertas. Passou a estudar o ambiente, vendo nuvens grossas de fumaça claras ao longe. O cheiro de queimado deixava evidente que algum tipo de explosão e incêndio se dera recentemente, muito próximo dali.
Após se arrastar por algumas moitas e arbustos diversos, Rick atestou a realidade daquela situação: a base militar de Hashimoto queimava. A construção que era o maquinário de refrigeração da base fora reduzida a pó, enquanto uma espécie de ladeira se formava no fosso onde havia um depósito de errantes naquela localização. Muitos deles já vagavam pela área externa da sede do Exército de Wyoming County, para o agrado de Grimes. Muitos dos mortos-vivos, inclusive, em chamas.
Pelo que podia concluir, o plano de Billy, Rebecca e Tucker fora bem sucedido. Rick torcia para que eles tivessem saído inteiros dali, e para que Daryl e seus outros amigos tivessem envenenado a água que abastecia o Exército e sua líder assassina. Onde estaria seu filho nisso tudo? Ele tinha de ter sido salvo por alguns de seus amigos. Precisava acreditar nisso. Ou enlouqueceria ali mesmo.
Mas sua elucubração interna durou pouco. Mais tiros próximos foram ouvidos, um deles inclusive atingindo Heath, na altura do ombro. Rosita gritou, tentando proteger o companheiro de guerra, e por pouco não tendo a cabeça baleada.
— TOMEM COBERTURA! ESTÃO VINDO PARA NÓS! — Rick urgiu, novamente temeroso.
O policial e outros sobreviventes que o apoiavam deram seu melhor para se esconder em meio a vegetação. Parecendo desesperados, o Exército de Wyoming County lançava toda sua munição contra eles, incapaz de reagir de forma mais isenta perante aquele ataque calculado. Destruíam árvores, pedras e demais obstáculos no caminho, sem refletir em suas ações puramente instintivas.
O gosto não é nada bom, não é, sua vagabunda maldita? Pensou Rick, deleitando-se com o medo do Exército de Wyoming County. Sabia que ainda estavam em minoria, contudo, se havia alguma chance de vitória, era essa. O policial não a desperdiçaria.
— ROSITA, SOLTE! — Rick Grimes deu a ordem, e a antes namorada de Abraham seguiu o que mandou.
A mulher latina destravou uma granada, lançando-a contra um grupo de soldados de Hashimoto que investia contra eles. Foram jogados ao ar e destroçados pela detonação, mas tratavam-se de soldados treinados. Haviam se dividido em grupos de números pequenos, um avançando atrás do outro. Rosita conseguiu eliminar apenas cinco deles.
— Poupem munição! Só atirem quando eles estiverem na mira! — bradou Rick Grimes, resfolegante. Ele próprio não seguia suas ordens, gastando munição atrás de munição a qualquer vislumbre pequeno de aproximação alheia naquela direção. Bastava reconhecer algum uniforme do Exército americano que disparava sua arma.
Não demorou muito, e Aaron também foi atingido com uma rajada de tiros. Tara tentou proteger o amigo, recebendo um disparo pelas costas, a fazendo cair por cima do sujeito.
Rick ficou completamente enfurecido. Naquele ritmo, só sobrariam ele, Michonne e Rosita.
O homem andou na direção da mulher latina, retirando dela a metralhadora que portava. Disparou fogo de forma desordenada, conseguindo, por sorte, junto a destreza de Michonne com um rifle de caça, atingir uma dezena dos homens de Hashimoto que também tentavam se camuflar no terreno da floresta. Reparou que o restante do Exército pareceu debandar, como se desse meia-volta.
— ESTÃO ACUADOS! VAMOS! — berrou Rick Grimes, liderando seu grupo em uma última investida.
Tara conseguia caminhar. A bala perfurara perto da escápula, passando de raspão, sem causar grandes danos. Michonne, apesar de debilitada pela luta de espadas com Hashimoto, não fora atingida por nenhum disparo, assim como o líder de Alexandria. Heath também se mantinha firme, mesmo com o projétil alojado em seu ombro, e Rosita, sem ter sido atacada, se mostrava ainda mais furiosa do que estava antes.
Aaron parecia o mais agastado de todos, porém insistia na missão. Rick sabia que ele fazia tudo o que fazia para proteger seu companheiro, sabendo que a vida de Eric e o futuro que poderiam ter juntos dependia do sucesso daquela guerra. O terror de Hashimoto não era suficientemente amedrontador para fazê-lo desistir de proteger seu amado. Mesmo perfurado por alguns disparos.
Assim, os sobreviventes seguiram no encalço dos remanescentes do Exército de Wyoming County. Rick não vira sinal de Hashimoto, até finalmente descer uma pequena encosta que os separava do cercado próximo a entrada da base militar, derrubado por alguns metros.
Apenas ela e mais quatro homens caminhavam de volta para a base, cercados. Rick podia ver Daryl, Mavelle e Carol se aproximando do lado oposto, eliminando com rajadas certeiras de disparos os soldados restantes, que investiram contra eles.
Rick Grimes sentiu uma espécie inédita de prazer doentio subir por todo seu corpo. Como uma fome prestes a ser saciada. Ele se sentiu um predador próximo de uma presa apetitosa, que bastaria apenas um golpe para a ter para si. Para se refestelar com sua carne, seu sangue... Sua morte.
Hashimoto era dele, e ninguém poderia impedí-lo de destruí-la. Sozinho.
A japonesa, contudo, era muito rápida. Enquanto todos se distraíam com a morte de seus homens, ela não se deixara dobrar. Usara aquilo a seu favor, assim como a distração da multidão de errantes que seguia para eles. Avançara como um lince na direção de Michonne, ao lado de Rick, e as duas começaram o embate pausado há alguns dias. Grimes demandou que ninguém tentasse baleá-la, pois poderiam ferir sua amiga sem pretender. Assim, os sobreviventes disparavam tiros contra os mortos-vivos mais próximos a lhes ameaçar.
Michonne parecera tomada de algum tipo de resolução nova. A mulher negra avançava contra a oriental com um ímpeto arrojado em seus olhos, parecendo ela mesma atacar enquanto Hashimoto se defendia. Ao contrário do que Rick podia esperar, a japonesa não parecia assustada. Parecia mais e mais satisfeita, como se tudo aquilo evidenciasse a sua vitória, e não a do grupo de Rick Grimes.
Metal colidia contra metal, trovoadas de aço se fazendo ouvir pelas espadas de Michonne e de Hashimoto, ambas igualmente resolutas a assassinar uma a outra. Como uma dança fatal, a oriental e a negra desviavam, avançavam, abaixavam e saltavam uma na direção da outra, os movimentos tão rápidos que o olho nu mal podia concebê-los.
Mais uma vez, a espadachim mais experiente levou a melhor. Hashimoto ultrapassou Michonne, após esquivar de um de seus golpes, e girou em um salto para trás, cortando a mulher negra pelas costas. Da altura do ombro direito a cintura do lado esquerdo.
A espadachim de pele de ébano caiu a grama, jorrando sangue de suas costas, e finalmente Rick levantou o revólver e atirou nas pernas da japonesa.
Hashimoto caiu, soltando uma risada maliciosa sonora. Seus olhos estreitos fuzilavam os de Rick, nenhuma centelha de medo em suas íris escuras.
Rick Grimes avançou impavidamente até ela. Pretendia arrastá-la pelos cabelos, arrancar cada um de seus dentes, empalá-la com sua própria katana... Mas nenhuma tortura era suficiente. Nada do que pudesse fazer agora pagaria tudo o que ela os fizera passar.
— Onde está meu filho?! — Rick Grimes rugiu, cuspindo em cima do rosto da mulher japonesa. Hashimoto riu ainda mais.
Rick chutou o rosto dela, quebrando seu nariz e alguns de seus dentes.
— Eu perguntei... ONDE ESTÁ MEU FILHO?! — Vociferou o policial, fora de si.
— Pode me matar, Rick Grimes... Pode fazer o que quiser... — A japonesa ainda ria em meio ao seu próprio sangue, parecendo legitimamente divertida. Finalmente seus olhos mostravam alguma emoção verdadeira.
Algum tipo de alegria doentia.
— Você sabe... — Hashimoto começou a falar. Interrompendo-a, Rick se abaixou e começou a desferir socos contínuos em seu rosto. Aquilo não era o suficiente. Cada vez mais que a golpeava, cada vez mais que via seu rosto maldito ficar mais e mais ensanguentado, deformado, quase, ele apenas queria mais. Queria mais sofrimento dela.
Nada do que ele fizesse jamais pagaria o tormento que ela lhes causara.
— CHEGA! — Aaron gritou, se interpondo entre Rick e Hashimoto. O homem praticamente empurrara Rick Grimes para trás.
— Nós já vencemos! Apenas a mate! Já chega! — o companheiro de Eric se mostrava a voz da razão.
Bastou Aaron parar de falar para que Rick sentisse a ponta de uma katana atingí-lo em sua barriga. E, logo em seguida, torcer-se dentro de suas entranhas.
Hashimoto, em um último esforço, perfurara o tronco de Aaron, o atravessando por inteiro, apenas para atingir Rick Grimes e ferí-lo.
O policial caiu para trás, severamente machucado. Ela atingira algum órgão seu. Sentia isso, pela dor terrível que lhe acometera. Viu o corpo de Aaron cair perto dele, sem vida.
Rick podia ouvir gritos vindos de todos os lados. Vozes conhecidas, de seus amigos que ainda sobreviviam.
Caído ao chão, testemunhara Michonne correr para ele, ela mesma sangrando em profusão. Tudo era vermelho. O céu em cima dele. O cadáver de Aaron, que recebera uma bala de misericórdia em sua cabeça vinda de Heath. A grama ao seu redor... O mundo inteiro estava pintado de rubro.
A espadachim de pele negra se aproximou da mulher oriental, ferida, que continuava a rir sem parar. Rick levantou a cabeça, reunindo as forças que lhe restavam. A dor em sua barriga mal o deixava registrar o que via, mas ele se ergueu pelos cotovelos, quase desfalecendo.
Michonne levantou a própria katana, quase não conseguindo se pôr de pé. A essa altura, Mavie, Daryl, Carol, Rosita, Tara e Heath já circundavam Hashimoto.
— Você perdeu. Aceite isso. Você está morta — a amiga de Rick disse, erguendo a própria espada, prestes a desferir o golpe fatal na líder japonesa.
— Não. Vocês podem me matar. — A psicopata mantinha seus olhos escuros finalmente brilhantes de alegria. Como se atestasse uma verdade maravilhosa.
— Mas vocês perderam. Eu estava certa. Sempre estive. E agora vocês sabem disso — Hashimoto respondeu, e foram suas últimas palavras.
Michonne cravou sua lâmina em meio ao peito da japonesa, fazendo com que ela soltasse uma última expiração suave. A psicopata não pareceu se despedir com dor. Pareceu morrer... Como se cumprisse seu propósito de vida.
Satisfeita.
A amiga de Rick, em seguida, fincou a katana no crânio de Hashimoto, impedindo que retornasse como errante.
Acabou. Finalmente. Acabou mesmo. Rick Grimes mal acreditava, uma das mãos em seu amplo ferimento na barriga, manchada de sangue que não parava de sair de seu corpo.
Olhou para as próprias mãos e, em seguida, para o cadáver da japonesa.
Ela tinha razão. Ela estava certa.
O mundo era dos fortes, e os fracos tinham de ser mortos. Eles se provaram aparentemente mais fortes do que ela a eliminando.
Todavia, não sem muito custo. Não sem muitas perdas. E não sem muita dor.
Talvez, além do suportável.
Restava saber se eles eram realmente os mais fortes. Se seriam capazes de aguentar tudo o que tiveram de fazer... Para se livrar dela.
Mas Rick Grimes já sabia. Poderia sobreviver. Poderia até mesmo aguentar.
Contudo, a psicopata ainda estava viva, de certa forma.
Seu fantasma, suas cicatrizes e tudo o que ela lhes causara... Permaneceria com eles para sempre.
Pois, para derrotá-la, eles haviam se tornado o que ela dissera que seriam...
...Eles haviam se tornado o Exército de Alexandria.
Crias de Hashimoto.

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