Hunter's Instinct

60 Episódio 60 - Ain't No Grave


Notas iniciais
OIÊ MEUS AMORES LINDOS! GENTE! EM CAPS LOCK PORQUE É PRECISO: HOJE É UM DIA MUITO ESPECIAL! Sabem por quê? PORQUE HOJE É DIA DE "SEASON FINALE"! É, RAPÁ! ÚLTIMOS DOIS "EPISÓDIOS" DA SAGA DE HASHIMOTO! É o fim da "terceira temporada" de Hunter's Instinct, sem dúvidas a mais pesada, surpreendente e interessante até agora! Hashimoto irá dar o posto de antagonista a ninguém mais, ninguém menos do que... Negan! Sim, a quarta temporada virá com um mundo maior, Jesus, e algo para temer! Hehehehe! Negan por aqui vai ter que cortar um dobrado... Ele será mais maligno que o das hqs (e provavelmente que o da série também, porque a AMC costuma censurar as paradas mais doentes dos vilões), pois precisará estar a altura da Hashimoto! Odiando ela ou não, todos têm de admitir que ela foi uma vilã poderosíssima e sinistra! Conseguiu destruir a cabeça de todo mundo, hehehehe, de secundários a protagonistas! E ainda não acabou! Teremos mais mortes até o "episódio" 61, que logo será postado. Dito isso, fiquem com o "season finale", dividido em duas partes. Nesse, teremos POV de Becky e Billy, com uma virada no jogo que espero que surpreenda a todos! Se preparem para imagens de dor e sofrimento ehehehehe! No próximo, teremos POVs da Mavie, da Hashi e do Rick! Um final cheio de drama (no bom sentido), ação e epicidade como essa japa merece! Dedico esse capítulo a todos os leitores comentaristas! Sem os comentários, eu sem dúvida não teria persistido tanto nessa fanfic, e ela jamais teria crescido tanto quanto cresceu. Por isso, agradeço aos leitores Caçadora, Vivi Costa, ReedusGirl, En Sabah Nur, marcelammota, Agente Riggs, Filho de Kivi, Sami e Kanon, que comentaram no último "capítulo duplo" postado! KittyK, Maritafan, Luna e Anna L, suas lindinhas, espero vocês comentando por aqui! Joke e Anna Flávia, que comentaram os últimos capítulos por outra mídia que não o nyah, agradeço também! Mas espero que voltem a aparecer por aqui, adoro vê-los todos na página de comentários da fic. :) Espero surpreender vocês e que se divirtam! Beijos e boa leitura!

...Well, meet me mother and father,

meet me down the river road

And momma you know that I’ll be there

when I check in my load

Ain’t no grave can hold my body down

There ain’t no grave can hold my body down

There ain’t no grave can hold my body down...

Johnny Cash — Ain't No Grave

Você não vai aguentar.

O chão cinzento estava marcado por grossas manchas rubras. O som contínuo de baques grosseiros contra carne e músculos, paulatinamente se tornava mais baixo do que a voz que começava a falar alto dentro de sua cabeça.

Cerca de uma dúzia de homens se revezavam no ato de desferir golpes violentos no corpo já espancado de Billy Ray Holloway. O homem do sul dos Estados Unidos sangrava profusamente, espancado com pés de cabra, nunchakus e tacos de baseball de madeira e alumínio.

Dentre eles, seu taco metálico, vermelho e preto.

Você não vai aguentar. Aquela segunda voz riu dentro dela. Histericamente, em pleno regozijo por sua dor intensa.

Você é fraca. Não vai aguentar. Vai morrer sendo espancada do mesmo jeito que ele.

Você é ridícula.

— PARE! — Rebecca Gable gritou consigo mesma, incapaz de suportar. Ver seu companheiro ser surrado daquela forma covarde, apenas para provar um propósito doentio de Hashimoto já era algo horrivelmente difícil de enfrentar. A ânsia de ódio, nojo e temor que lhe subia simultaneamente mal a deixava ser capaz de raciocinar.

E, para piorar, ela se viu mais uma vez fora do controle de suas emoções. Suas alucinações resolveram lhe saudar, depois de tanto tempo domesticadas, escondidas dentro de si.

Aquilo era previsível. Ela sabia que, exposta a tal situação limite, enfrentaria tamanho estresse que inevitavelmente resultaria em algum efeito colateral de sua doença.

Mas ela precisava aguentar. Precisava dobrar aqueles homens e mulheres domados por aquela psicopata. Sua força não era apenas física, mas também mental. Ela provaria a Hashimoto o que significava a verdadeira força.

Becky enfrentaria seu próprio surto esquizofrênico e o usaria ao seu favor.

— PAREM! CHEGA, JÁ CHEGA! — ela continuou a berrar, parte de si realmente dando vazão ao desespero.

Os doze homens e mulheres militares pouco a pouco paravam de agredir Billy Ray. O homem do Alabama tinha diversos cortes, hematomas e demais ferimentos ao longo do corpo. Seu rosto estava tão roxo, os olhos inchados, os lábios cortados e alguns dentes quebrados, que Rebecca mal poderia reconhecê-lo se não estivesse assistindo aquela cena já há um bom tempo.

Billy havia tentado lutar e reagir. Mas doze contra um era um número demasiadamente desigual.

— B-Becky... — Billy Ray tentou, e recebeu um golpe brutal em sua garganta, fazendo-o cambalear para trás e bater o crânio contra a parede de titânio daquela base.

Rebecca arfou, desolada. Se aquilo continuasse, ele iria desmaiar. E, se ainda o golpeassem desfalecido, poderia até mesmo morrer de tanto apanhar.

Ela era tão linda, Louis. Linda, mas... É doente! Doente! Maluca! A voz de sua mãe, Ruby Gable, reverberava por sua mente perturbada. Garota maluca. Inúmeras vozes faziam eco as palavras de sua mãe. Não leve ela a sério.

É só uma louca.

Coitada.

Rebecca colocou as mãos aos ouvidos, sem querer escutar as vozes que lhe rechaçavam por dentro. Seus olhos já repletos de lágrimas passaram a soltar o pranto que tentara engolir por muito tempo, descendo como uma corredeira por seu rosto pálido de medo.

— Durou menos do que Hashimoto imaginava — uma militar de olhos verdes ofídicos e cabelos castanhos curtos comentou, sorrindo com crueldade. Aproximou-se de Rebecca, lhe entregando o taco metálico dela, sujo com o sangue de Billy Ray. Estava praticamente todo vermelho.

— Pamela, leve-a para a A-4. Foram as ordens — um militar ruivo com muitas sardas no rosto lembrou a mulher que tripudiava de Gable. A soldado apenas anuiu com o rosto, enquanto Becky, nervosa, perguntava o que fariam com Billy.

— Já temos planos para ele também. Como aguentou sem reclamar, vai subir uns dois níveis acima... Literalmente — Pamela respondeu para Rebecca, mantendo o mesmo sorriso sem alegria que era marca registrada de sua líder.

— O que quer dizer com isso? — a garota loira indagou, ainda assustada.

— Se for capaz de passar no próximo teste, quem sabe descubra logo... — a militar retrucou de forma misteriosa, e Rebecca decidiu se calar, tentando ao máximo ignorar as vozes que se digladiavam em sua cabeça.

Tremendo, sacudindo o rosto de um lado ao outro, Becky parecia a perfeita imagem do descontrole. Mas, por trás de seus esforços para calar suas alucinações, havia decisão e firmeza em seus atos. Ela apenas esperava a brecha para virar o jogo.

Foi levada escadas acima da base claustrofóbica de Hashimoto. Tudo era pintado de um cinza enegrecido, escuro e opressor. Tinha a impressão de uma caverna metalizada quando caminhava por aqueles corredores de aspecto hostil.

Contando as portas, reparou que andou apenas alguns metros a direita da escada e adentrou uma nova sala.

Outro repartimento de tortura.

— Você vai gostar daqui — sussurrou Pamela aos seus ouvidos, com sarcasmo. Logo em seguida, abandonou Rebecca Gable ali, aparentemente sozinha. Não via luz alguma dentro do repartimento.

Becky ouviu o som da porta pesada ser fechada, aumentando a sensação de prisão. Conseguiu abafar até mesmo os ruídos alucinados em sua cabeça.

Engoliu em seco, e andou alguns passos a frente.

Escutou um clique por trás das vozes que insistiam em discursar em sua mente, e uma luz foi acesa. Uma espécie de lustre pendurado bem ao centro da sala, simples, como o tipo de luminária pendente acima de uma mesa de interrogatório.

Não deixava de ser exatamente isso.

Ainda tapando seus ouvidos com firmeza, Rebecca, tonta pelo simultâneo uso de seus sentidos em tamanha proporção, piscou os olhos, tentando enxergar algo diferente ali.

Escutou um som entrecortado sair de sua própria garganta.

As paredes cinzas estavam marcadas de sangue, assim como o chão de mesma coloração. A um canto do compartimento, Carl Grimes estava sentado, abraçando os próprios joelhos, sua figura parcamente iluminada pela única luz presente naquela sala imensa. Seus cabelos castanhos escondiam parcialmente seu rosto, mas Rebecca pôde ver o curativo em seu olho arrancado por uma bala. Na bandagem, leu os ideogramas japoneses que significavam Hashimoto.

Escritos com algum tipo de material rubro.

Provavelmente o sangue do próprio garoto.

— Bem-vinda a sala noturna! — Uma voz falsamente animada ressoou, e Gable moveu seus olhos na direção dela. Já não escutava suas alucinações auditivas, a não ser que o sujeito que ouvira falar fosse uma mistura delas com delírios visuais. Considerando os soldados de Hashimoto... Becky achava que nem seu distúrbio psicótico conseguiria inventar algo pior.

Um homem fardado com um completo uniforme do Exército americano a encarava, com olhos azuis cinzentos e cabelos loiros.

Becky nada disse, ainda tentando entender o que era aquilo.

— Se chama sala noturna porque é sempre escura. É um dos nossos melhores lugares para punição. Sabe, o ser humano não foi feito para ficar longe da luz. — Os olhos acinzentados do sujeito parecem fulgurar em meio ao breu do repartimento. — Então, se somos obrigados a ficar assim, presos no escuro por muito tempo... Coisas estranhas acontecem. Diferentes. — Ele sorriu amplamente, lembrando a líder do Exército de Wyoming County.

— Começamos a ver coisas... Ouvir coisas... Imaginar coisas, que não estavam lá. — Rebecca Gable sentiu um calafrio de horror subir por seu corpo. De alguma maneira, Hashimoto descobrira o melhor lugar para torturá-la. Da melhor forma possível.

Testando sua sanidade mental.

Ela lembrou-se da imagem de Billy Ray espancado. De como ele ultimamente havia se aproximado dela. O circo que construíra. O momento que passaram juntos naquela casa abandonada antes de chegar a Wyoming County.

O desenho de Tucker na parede, da casa onde todos moravam em Alexandria.

Não. Ela não vai conseguir.

Rebecca falou para si mesma, em sua cabeça, enquanto sacudia o rosto com força, fechando os olhos agressivamente. Seu pensamento foi ainda mais alto que suas alucinações auditivas.

— Não! — Rebecca Gable repetiu para si mesma, audivelmente, quase gritando. O militar loiro pareceu ainda mais satisfeito ao vê-la assim, visivelmente aterrorizada.

— Tem medo do escuro? — o soldado questionou, troçando dela.

Rebecca Gable abriu os olhos, arregalando-os propositalmente. Sua esquizofrenia seria uma ajuda de bom grado naquele momento.

Afinal, Becky vivera diversos episódios de surto psicótico. Desde quando resistia, tentando não se render as mudanças mentais e físicas que precediam as alucinações, até a sensação exaustiva de passar pelo surto e se recuperar.

Poderia muito bem fingir se render aos próprios delírios, e enganar o militar no processo.

— Eu não... EU NÃO! — Ela gritou, fingindo ser incapaz de raciocinar no momento. O militar pareceu dar um passo atrás, surpreso com sua movimentação brusca e histeria.

Carl Grimes passou a olhá-la com cuidado, também surpreso por aquela manifestação eufórica. Próxima dele, Becky pôde ver que havia mais alguém naquela sala. Uma menina.

Enid. Apontando uma arma na direção da cabeça do filho de Rick Grimes.

— EU NÃO CONSIGO! EU PRECISO... — Rebecca fingia surtar, andando de um lado ao outro, tropeçando nas paredes, tremendo dos pés a cabeça. Aquilo ao mesmo tempo aliviava a emoção dolorosa que a tomava por inteiro, como serviria para enganar o soldado, se atuasse suficientemente bem.

— Cale a porra da boca, sua vagabunda estúpida! — ralhou o militar, revoltado agora com o descontrole de Rebecca. Levantou uma pistola com silenciador na direção dela, como se quisesse evitar que ela tomasse atitudes impensadas.

— EU! Eu... — Becky fingiu se assustar com a arma apontada contra si. — Eu não estou bem. Não estou. N-não... — Ela continuava tremendo, suas pernas bambeando perigosamente. O militar continuava a estudando, cuidadoso, também surpreendido pelo suposto desequilíbrio da garota loira.

— Eu preciso de água. — Rebecca começou a acariciar a garganta, angustiada, pouco a pouco começando a arranhar o próprio rosto, fingindo ceder a uma atuada loucura. — ÁGUA! ÁGUA! — Becky implorou, desesperada.

O sol já havia nascido aquela altura. Era sua melhor chance.

— Está com sede, maluquinha? — perguntou retoricamente o homem fardado, parecendo se divertir com o sofrimento de Rebecca Gable.

— Água... — ela pediu, encostando as costas na parede, descendo o corpo devagar por ela. As lágrimas voltavam a descer por seu rosto, seus olhos tão arregalados como se pudessem saltar de sua face.

— Acabei de encher essa garrafa — o soldado relatou, enquanto se aproximava da garota loira. Rebecca ergueu os braços, seu corpo todo tremelicando. Imaginava que qualquer um que assim a visse julgaria que fora torturada até ao limite da exaustão mental.

— Mas não acho que uma fracote como você mereça uma gota. — O homem bebeu longos goles da garrafa de plástico que tinha consigo, até o líquido acabar. Chegou até mesmo a desperdiçá-lo, jogando o restante d'água no chão na frente de Rebecca Gable. Ela apenas assistiu, fingindo desapontamento e frustração.

— Se tão pouco é capaz de te deixar assim, desse jeito... Patético. — O homem estudou Rebecca com olhos ferinos. Aproximou-se mais, e lhe deu um bruto chute no estômago. Becky se curvou, sentindo a horrível dor em uma pontada firme. — Você acha mesmo que vai ter o que precisa para conviver conosco? — Recebeu mais chutes, um seguido do outro, sem parar. Acabou vomitando sangue. Foi golpeada na altura de seus seios, de seu ventre, de seu sexo. Ele parecia decidido a rebaixá-la, espancá-la onde lhe traria mais dor e humilhação. Aquele sujeito era forte. Podia sentir cada golpe sobrecarregando seus músculos e ossos resistentes.

— Para ser uma membra do Exército de Hashi... — No meio de seu discurso, o militar loiro pôs as mãos na própria garganta.

Rebecca lhe deu um sorriso cruel, seus dentes brancos sujos de seu próprio sangue. Em seguida, o homem quedou ao solo, engasgando em sua própria respiração.

Começou a tossir sem parar, arranhando a própria glote por fora da pele. Becky viu que pouco a pouco a saliva dele se tornava rubra, sangue saindo dos pulmões contaminados pelo veneno.

Daryl, Mavelle, Carol, Eugene e Sasha haviam sido bem sucedidos. Envenenaram o leito do rio que supria de água o Exército de Wyoming County.

Ela se arrastou até o sujeito, devagar, não mais sofrendo as alucinações auditivas. Nem as ouvia. Reparou em um movimento longínquo no fundo da sala. Pelo visto, Enid estranhava o súbito mau estar de seu companheiro soldado.

O homem não parava de tossir, um ruído gutural hediondo, incapaz de respirar, sufocando aos poucos. Seu rosto já estava de uma coloração púrpura, inchado, seus orbes arregalados como os de Becky, que agora sorria perversa pelo sucesso de sua farsa. As unhas do militar se cravavam em sua garganta, como se quisessem arrancar dela algo que a travava daquele jeito.

A garota loira olhou em uma espécie de etiqueta bordada no bolso do peito de seu uniforme. "Dupont".

— Dupont, com licença, eu vou pegar sua arma. Obrigada por testar a água pra mim. Agora vou matar seus colegas — debochou Becky, arrancando a pistola com silenciador do coldre que ele tinha em sua cintura.

Colou-a no ouvido direito do sujeito, apertando o gatilho.

A cabeça de Dupont estourou em suas mãos, manchando o rosto, os ombros e o corpo de Rebecca com seu sangue. Ela apenas teve chance de rolar para o lado, ágil, pois Enid havia começado a mirar nela.

Foi uma questão de meros segundos.

A adolescente controlada por Hashimoto errou o primeiro tiro. Em seguida, como se uma fera terrível despertasse dentro de si, Carl havia se lançado contra ela, empurrando a garota para longe e a desequilibrando. Enid caiu ao chão e tentou o melhor que pôde alcançar a pistola com silenciador idêntica a de Dupont, mas o filho de Rick pisou em sua mão próxima da arma.

— Deixe-a desacordada. Quando sairmos daqui, resolvemos esse problema, vamos! — Rebecca olhou para os lados, empunhando a pistola de Dupont. Carl a olhou desconfiado, mas conteve Enid. Com algumas firmes coronhadas, a garota desabou.

— Não sei se posso confiar em você — o garoto redarguiu, limpando as mãos sujas de sangue da adolescente de cabelos compridos, fitando Becky com suspeitas evidentes em seu único olho azul.

— Eu acabei de matar esse filho da puta. Eu diria que sou sua melhor chance! — rebateu Rebecca, descrente. — Não acha que se eu quisesse te matar poderia só descarregar essa arma na sua cara?! — A jovem loira estava impaciente. Não havia tempo para discussões. O menino estreitou os olhos. Parecia ainda reticente.

— Daqui a pouco alguém vai vir conferir as nossas torturas. Vão ligar para o walkie-talkie deles, sei lá! Eu e Billy temos tudo planejado. Sabemos como sair daqui. Eu juro! — Rebecca se aproximou do garoto, levantando a pistola.

— Está bem, então. Quer ter certeza? Então pegue essa merda! — Becky jogou a arma de fogo nas mãos do filho do líder policial, que, mesmo torturado, ainda era habilidoso. Segurou-a com rapidez.

— Estou desarmada na sua frente. Se quiser me matar, faça isso logo. Não pretendo morrer nas mãos deles! E é o que vai acontecer se nos acharem aqui, desse jeito! — Apontou para o cadáver de Dupont e para Enid, desacordada no chão frio.

Carl manteve a jovem loira em sua mira por alguns segundos. Em seguida, resolveu confiar. Jogou a arma de volta para ela, que a pegou com a mesma agilidade que o menino.

— Vamos para o estacionamento. Consegue levá-la nos seus ombros? — O filho de Rick balançou a cabeça para a garota loira, dando a entender que teria agilidade para carregar Enid consigo. — Sei o caminho mais rápido, Tucker fez o mapa para a gente. Mate qualquer um que aparecer no caminho, temos que voar! — Rebecca respirou fundo, tentando dar alguma regularidade em sua respiração acelerada pela adrenalina. — Nós vamos derrubar essa merda toda agora!

*****

Billy Ray mal conseguia olhar centímetros à sua frente.

Suas pálpebras estavam distensas, infladas como uma bexiga de ar prestes a estourar. Passava a língua nervosamente pelos próprios dentes, sentindo faltarem alguns que lhe foram arrancados a força pela brutalidade do Exército de Wyoming County.

E ele sabia que aquilo estava apenas começando.

— Que tal olhar o presente que trouxe para a gente? — o militar ruivo que debochara de sua situação com Becky novamente troçava dele, murmurando em seus ouvidos.

Billy Ray fora levado até um pátio interno da base do Exército de Wyoming County. Ali, em meio a algumas árvores, em um local que provavelmente era usado para exercícios ao ar livre pelos soldados da japonesa psicopata... Tucker Hayes estava acorrentado a dois firmes galhos de árvores.

O rapaz tinha um braço estirado para cada lado, a camisa rasgada, o rosto marcado pela mesma bestialidade que Billy sofrera, e que provavelmente Becky sofreria também. Seus braços tinham marcas de profundos arranhões, feridas à beira da infecção. Seu corpo estava curvado para o chão, como se pedisse a clemência de morrer logo, de ser livrado daquela existência de sofrimento inesgotável.

Aquilo lhe trouxe um arrepio de terror pelo corpo. Como pudera deixar Becky Gable ir naquela missão suicida? Como pudera deixar Tucker, seu amigo, se submeter aquilo tudo também?

— Tuc... — Billy tentou falar com o garoto, que parecia preso no limiar entre a consciência e o doce esquecimento da realidade.

Recebeu um corte em seu rosto, feito por uma faca de caça afiada. Se calou no mesmo momento em que sentiu a lâmina queimar profundamente sua pele. Aquilo deixaria uma cicatriz funda.

— Não deixei você falar — o soldado de cabelos vermelhos repreendeu, sua voz baixa soando perigosa. — E além do mais, você ainda nem viu direito o que fizemos com ele. — O militar sorriu enviesado.

Billy foi empurrado por ele de forma a ver as costas de Tucker Hayes. Soltou uma exclamação, chocado por uma visão atroz e grotesca.

Ele mal conseguia ver a pele branca do garoto. Repleto de cortes, alguns um em cima do outro, ele só via ferimentos seguidos, repetidos, marcando aquele pobre coitado para sempre. As costas de Tucker estavam completamente tomadas por talhos alineares, alguns tão profundos que mostravam algum tipo de massa branca embaixo...

...Então Billy se deu conta que conseguia até mesmo enxergar parcialmente os ossos da coluna do garoto. Se Tucker algum dia sobrevivesse aquilo, poderia ter sofrido tamanhos danos, o levando talvez a se tornar paralítico.

Billy Ray sentiu vontade de vomitar, ao mesmo tempo que um pavor e ódio selvagens lhe subiam por seu corpo. Tentou se mover contra o seu algoz, que o segurava sem dificuldades. Fraco como estava, foi contido e jogado ao chão, recebendo mais socos, pontapés e outros golpes. Além de despertar mais risos debochados no militar.

— Por quê? Ele é só um garoto! O que ele pode ter feito para merecer isso?! — Billy não entendia aquilo. Não conseguia mais fingir não se importar com o rapaz. Não diante de tanta maldade. De tanta violência. Tucker estava à beira da morte, quase assassinado de tanto ter sido chicoteado.

— Ele desobedeceu. Fraquejou. Não há perdão no novo mundo para os fracos — esclareceu o soldado, parecendo acreditar piamente no discurso distorcido de Hashimoto.

— Cada um de nós o chicoteou ao menos uma vez. Isso deve ter dado... Cento e poucas chicotadas. Fora as que Hashimoto deu, é claro. Ele está aguentando como um campeão, tenho que admitir! — O ruivo riu ainda mais, fazendo a raiva de Billy crescer, fervendo seu sangue.

— Ele é melhor que qualquer um de vocês! — retrucou Billy Ray, entredentes, sem conseguir se conter. O militar apenas o fitou de cima para baixo, chutando Billy Ray em suas partes íntimas. Ele se curvou pela dor, soltando um urro agoniado. Engoliu o sangue que escorreu por sua barba.

— Você é tão ridículo quanto esse paspalho. Por que se importa com esse moleque que trouxe de isca para nós? — O ruivo moveu o rosto de um lado ao outro, incrédulo, girando o corpo de Billy Ray para ficar de barriga para cima e fitá-lo.

— Vocês não são mais seres humanos. Não conseguiriam entender — Billy disse, sentindo a dor que se espalhava por cada parte de si palpitar em cada tendão, músculo e pedaço de corpo espancado.

O soldado ruivo sorriu mais ainda.

— Até quando vocês vão insistir nessas mentiras? É mais fácil aceitar a verdade do que morrer sofrendo... — O capanga pareceu lamentar, balançando a cabeça mais uma vez. Em seguida, apenas caminhou até uma das três portas que haviam nas extremidades do pátio. Uma fora a entrada utilizada por Billy e ele, localizada mais a esquerda.

— Hashimoto queria que seu último teste fosse esse. Aqui atrás da porta tem uma coleção de rastejantes. Se não for capaz de chicotear Tucker e dar um fim nele... — Os olhos do sujeito de cabelos rubros brilharam. — Você e ele vão morrer comidos vivos. Considerando que ele já está até "mal passado". — O militar fez a piada de mau gosto. — Acho que os mortos-vivos os cercarão com um apetite ainda maior do que de costume. — Sorriu com crueldade mais uma vez e colocou a mão na maçaneta.

— NÃO! — Billy protestou, levantando os braços, como se estivesse se rendendo. Tucker não se manifestava, já semi-morto.

— Eu vou. Eu mato. Está bem — Billy Ray garantiu, assentindo, aceitando as condições.

Caminhou até o chicote caído em meio a grama. A arma fedia a sangue. Um cheiro metálico, repugnante, empesteado de um presságio de morte... Um odor compartilhado por todo o Exército de Wyoming County.

O maxilar de Billy Ray rangia, assim como seu corpo todo, em frêmitos de oscilação.

Billy pegou o chicote e correu como um desvairado em meia volta. Gritando por todo o processo.

Sentiu um dos tiros do soldado ruivo surpreso atingirem seu tórax na altura das costelas. Podia atirar o quanto fosse. Não pararia de correr. Mais um disparo atingiu seu corpo, passando raspando por seus braços levantados.

Billy Ray, como um animal ensandecido, começou a chicotear a distância o soldado, que, surpreso, parou de atirar após errar alguns disparos. Atingiu a mão do militar, derrubando sua pistola com silenciador, enquanto o sujeito abriu em desespero a porta pesada que os separava dos mortos-vivos. Billy se jogou na grama, arrancando a pistola do chão, disparando um tiro certeiro no peito do militar que caiu contra a parede.

Ouviu os ruídos guturais dos mortos, e passou a revistar o militar, cortado profundamente pelo chicote na altura do rosto e dos braços. O homem se debatia, mal sendo capaz de resistir, temeroso pela súbita fúria suicida e também assassina de Billy Ray. Em um Exército que cultuava o ataque, a destruição e a submissão dos inimigos, o auto-sacrifício não era uma conduta muito comum, algo muito distante da realidade daqueles militares.

Billy respirava com dificuldade, engolindo o ar com violência. O tiro que levara na altura das costelas começava a lhe debilitar.

Achou mais uma pistola reserva com munição no uniforme do Exército do homem de cabelos rubros. Levantou-se, derrubando com a faca de caça do sujeito os mortos-vivos que tentaram lhe cercar e que andavam na direção de Tucker. Uma parte deles já se abaixava para o militar, se refestelando com sua carne. O sujeito mal podia gritar.

Billy se jogou contra a pesada porta aberta, fazendo a abertura para a saída dos rastejantes se tornar um pouco menos simples, os atrasando um tanto.

Ao caminhar o mais rápido que podia, Billy derrubou cerca de cinco carniceiros que estavam perigosamente perto do rapaz, quase lambendo os beiços pela carne sangrenta e exposta do garoto.

Recarregou uma das pistolas, enquanto puxava os braços de Tucker para fora das correntes, depois de atirar nos cadeados que prendiam seus nós. Com o pouco das forças que lhe restavam, o homem do Alabama conseguiu passar um dos braços sanguinolentos do rapaz em volta de seus ombros. Logo depois, se dedicou a abrir as duas portas remanescentes naquele pátio, desejando que os cadáveres ambulantes se espalhassem por toda a extensão da base de Hashimoto.

Atirou em alguns mortos-vivos que tentaram lhe alcançar e a Tucker outra vez. A maior parte deles tentava lutar pelos restos do militar, e a outra decidira ir pela porta de entrada, não pela saída escolhida por Billy. Ele agradeceu internamente por aquela virada em sua sorte, arrastando consigo o rapaz.

Aquele corredor anexo, segundo o mapa do garoto, os levaria para o estacionamento. Estavam apenas alguns metros longe. Surpreendendo os poucos soldados com que topou, Billy teve a chance de atirar primeiro, assassinando uma dezena deles antes que pudessem reagir. O estoque de balas já estava no fim, porém. Atravessou uma espécie de ponte levadiça, que já estava baixada.

— Estamos quase lá, garoto, eu prometo... Aguente só mais um pouco — Billy sussurrou para Tucker, carregando o rapaz com esforço. As pontadas na altura de suas costelas pioravam a cada segundo.

Fitou o estacionamento defronte a eles, naquela saída da base militar. Billy Ray fuzilou cada um dos automóveis ali parado com os olhos. Em poucos segundos, achou seu veículo. Tivera muita sorte. Por algum recôndito motivo, não havia soldados em vigia naquele lugar.

O homem do Alabama arrastou-se com Hayes até o Jeep Renegade. E lá abriu um enorme sorriso. Rebecca, Enid — desacordada — e Carl Grimes ali o esperavam.

— Vou te levar daqui, só espere um pouco mais! — prometeu Billy, tendo uma profunda empatia com o sofrimento do amigo. Becky o saudou, nervosa porém aliviada, contando que o plano do envenenamento da água funcionara, pois testemunhou a morte de um dos soldados ao beber a água tóxica. Enquanto isso, Carl abria a porta de trás do carro. Enid estava deitada no banco, desmaiada e presa por diversas cordas.

Rebecca, Carl Grimes e ele colocaram Tucker Hayes com cuidado no piso traseiro do carro, de barriga para baixo.

Em seguida, o homem do sul dos Estados Unidos abriu a mala do carro, pegando um galão de gasolina que havia lá dentro. Em seguida, retirou também daquele compartimento do jipe o isqueiro que Tucker costumava usar para fumar. O Exército não tivera tempo sequer de organizar o material que ele, Becky e Tucker haviam trazido como falso tributo para conseguir trabalhar para a líder japonesa.

Billy Ray se moveu mais rápido, indo até as enormes construções de um metal cinza claro, que, pelo que Tucker lhes contara, eram o imenso ar condicionado que provia a refrigeração e a troca de ar da base de Hashimoto. Bastou derramar um pouco da gasolina próxima, quase como se jogasse um balde de tinta no mecanismo de refrigeração construído externamente.

Percebeu que aquelas imensas engrenagens se encontravam numa espécie de lombada, onde metros e metros abaixo uma multidão de mortos-vivos estava reunida, andando a esmo em um fosso que circulava toda a base. Billy teve um pensamento, e torceu para que ele estivesse certo.

Rebecca tinha o isqueiro consigo, e logo acendeu o rastro de gasolina. Ela e Billy Ray moveram-se com o máximo de rapidez que podiam, ambos machucados mental e fisicamente.

— Eu dirijo! Sem conversa! — Gable exigiu, olhando para o ferimento na altura das costelas de Billy. Pelo visto, reconhecera a marca do disparo.

O som que foi escutado logo em seguida foi de estourar os tímpanos. Explosões seguidas de explosões, gradativamente destruindo o maquinário externo responsável pela entrada e saída de ar do lar do Exército de Wyoming County. A grama tremeu, fazendo com que Billy e Becky fossem jogados para a frente, rolando alguns metros pela violência do rebentamento.

Ao voltarem até o automóvel, quase surdos, Carl já atingia com a pistola que portava alguns soldados que perceberam a movimentação, correndo longínquos do meio da floresta que havia nas proximidades da base militar.

— Garoto, fique atrás, vamos meter o pé na estrada! — Billy Ray alertou, mal conseguindo respirar pela dor em seu tronco.

Becky abriu a porta do motorista, jogando-se no banco e firmando as mãos no volante. Carl levantou o corpo de Enid, a dispondo sentada mais a direita do banco traseiro. Após, se ajeitou no banco, atento para qualquer aproximação imprevista.

— Olhem! — O garoto apontou com o indicador. Billy e Rebecca seguiram a direção mostrada.

A encosta onde antes havia os dispositivos para a refrigeração da base militar da líder japonesa começara a desabar, destroçada pelas explosões. Um relevo menos íngreme pouco a pouco se fazia visível, como uma ladeira de terra. Alguns mortos-vivos, interessados na súbita saída, proeza resultante das detonações, caminhavam para fora do fosso. Assim, iam pouco a pouco atraindo o restante da multidão deles antes ali presa.

O Exército de Wyoming County agora teria muito com o que lidar. Água envenenada. Sem oxigênio em breve em local algum da base, quase toda subterrânea. E uma horda descomunal de caminhantes mortos ameaçando seus domínios.

— Vamos para casa! — Billy Ray falou, aliviado.

Ele conseguira. Finalmente, conseguira.

Dera mais uma chance a todos. Aquela manobra certamente mataria grande parte dos soldados de Hashimoto, tornando sua base inutilizável. Era a brecha que o restante deles precisava para dar o golpe de misericórdia e matar os poucos soldados que sobrevivessem a toda aquela destruição.

Billy pudera ser uma peça principal para a salvação de Alexandria. Ele, Becky e Tucker.

O homem do Alabama encarou a garota loira ao seu lado. Com as últimas forças que restavam, tocou uma de suas mãos no volante. Becky já disparava para fora da base, arrastando com um baque violento parte da cerca alta que ali havia.

Ela o olhou, surpresa, seus olhos escuros arregalados, como se temesse alguma má notícia imprevisível.

— Eu te amo, Rebecca — Billy Ray soou leve, ainda que deveras fatigado. Fechou os olhos. Simultaneamente, escutou a voz de Becky gritar seu nome, desesperadamente.

Depois disso, se entregou, esgotado... Ao silêncio total.

Notas finais
~ Gif fanart da dupla Bicky pela linda Agente Riggs! *o* Como eu fico maravilhada com as artes perfeitas dela, gente! http://grimeswork.tumblr.com ~ Aguardo comentários nas duas partes do season finale, meus lindos e minhas lindas! Estou realmente muito curiosa pela opinião de vocês!