Hunter's Instinct

59 Episódio 59 - Turning Time Around


Notas iniciais
Oiêêê! Como falei, postagem dupla! Dedico este "episódio" também ao leitor Filho de Kivi, pelos motivos já citados nas notas do "episódio" 58, também postado hoje. Força, meu amigo! Espero que tudo melhore! Agradeço muito aos leitores maravilhosos que eu tenho que sempre comentam por aqui. Repetirei o agradecimento, porque vocês merecem! Muito obrigada mesmo, En Sabah Nur, maritafan, Caçadora, Sami, Filho de Kivi, Joke, ReedusGirl, Vivi Costa, KittyK, marcelammota e Agente Riggs! Espero sempre ter a companhia de vocês até o final de Hunter's Instinct. Cada um de vocês é importante para minha empolgação com esta fic, saibam disso ^^ Anna L, Luna, Kanon e Giovana Catalani, suas lindinhas que andam sumidas, também aguardo suas opiniões! Preparem-se para um capítulo com mais revelações sobre a pior vilã que já apareceu por aqui, que faria Negan tremer na base heheheh! Depois, teremos mais um POV da Carol, repleto de ação! E algumas despedidas e conversas profundas... Preparem-se para os feelings! Beijos e boa leitura!

A madrugada fria tinha sua temperatura gélida abrandada pela sensação fervente que se espalhava por todo seu corpo.

Aquilo era quase tão bom quanto usar sua katana. Os arrepios de prazer que se estendiam por toda a sua pele ao ferir cada vez mais as costas daquele moleque desprezível que ousou transgredir suas regras... As regras do novo mundo... Trazia-lhe uma sensação de apoteose.

Hashimoto desferia mais e mais golpes nas costas de Tucker Hayes, sorvendo com seus olhos deleitados o sofrimento do garoto. Seu corpo se curvava cada vez mais, incapaz de escapar da punição, preso pelas correntes.

Aquilo era maravilhoso. A dor dele. O assombro nos olhos de seus seguidores. O poder que sentia emanar de dentro de si.

O poder de seu Exército, de tudo o que construiu...

...O poder de Hashimoto.

[...]

Mayumi Hashimoto estava morrendo de tédio.

Era a festa de final de ano da empresa de seu pai, uma revendedora de carros, que recentemente havia fechado um contrato lucrativo com uma produtora específica do Japão. O pai da jovem de dezoito anos havia acabado de firmar termos de exclusividade com a marca destes carros, que, em contrapartida, lhe favoreceria com um percentual de vinte por cento a mais das vendas que pudesse fazer utilizando apenas os veículos de sua produção. Hashimoto desconfiava da ilegalidade daquele negócio, mas, sinceramente, mal se importava.

Ela nem tocara direito no copo de saquê que tinha em mãos. Comera alguns sashimis, mas, sem fome, não tinha paciência para aquelas celebrações. Olhava, invejosa, para os homens de negócios que trocavam falsas cortesias, tubarões sondando outros tubarões para ver quem enganava o outro e abocanhava o peixe melhor. Ela sabia que seria boa naquilo. Se ao menos conseguisse convencer os outros disso.

Fadada à sua condição de mulher, logo, de acompanhante, era obrigada a sorrir e desfilar pelos jardins daquela casa de festas em Kyoto, bem arrumada, exercendo seu mero papel decorativo.

— Mayumi-chan! Há quanto tempo não nos vemos. — Uma voz irritantemente conhecida falou alguns metros atrás de si.

Com o sorriso falso ensaiado em seu rosto, Hashimoto voltou-se na direção do sujeito que a olhava. Era um dos grandes amigos de seu pai, apenas alguns anos mais velho do que ele, que acabara por trabalhar junto a produtora dos carros que agora seriam vendidos pela revendedora.

— Boa noite, Takahashi-san — saudou a garota, com educação, usando o sufixo que, no contexto, significaria "senhor Takahashi".

— Por favor! Há quanto tempo não me conhece? — Um brilho malicioso fulgurou nos olhos daquele homem. Mayumi o detestava. — Pode me chamar de Eikichi — pediu para que usasse seu primeiro nome.

Hashimoto concordou balançando a cabeça com educação. Era esperado que mulheres soubessem ser silenciosas e comportadas. Ela detestava aquilo. Tinha vontade de arrancar os olhos daquele homem que a desnudava com seus orbes lascivos. Era claro que tinha desejo por ela, mesmo sendo filha de um grande amigo.

— Seu pai me contou que passou para a faculdade de direito na Universidade de Kyoto! Um grande feito! E nos primeiros lugares, certo? — elogiou-a.

— Em primeiro — corrigiu Mayumi, sem paciência para aquele sujeito, mas ainda mantendo seu falso sorriso cortês.

— Mas que perigo! — o homem falou em tom elogioso, apenas aumentando a raiva de Hashimoto. — Uma garota bonita e muito inteligente. É uma combinação rara, sabia? — disse o sujeito detestável.

— Agora só está faltando... O casamento certo. — Os olhos estreitos de Eikichi reluziram outra vez, enquanto ele bebia um demorado gole de saquê.

Hashimoto sentiu seu estômago revirar.

— Não pretendo casar — soou mais grosseira do que se propunha. — Tão cedo — complementou.

— Ah, sem dúvidas... Mas uma hora, ninguém permitirá que uma moça tão admirável seja largada de lado — Eikichi tentou mais uma vez soar galante, mas aquilo só aumentava o nojo de Mayumi.

— Preciso ir até minha mãe. Ela deve estar se perguntando aonde fui. — Hashimoto tentou mudar o rumo da conversa e se afastar com alguma gentileza.

— Claro! Mas ela ficaria tranquila se soubesse quem é a companhia. Pode ir avisá-la! — Takahashi se despediu de Mayumi, tentando fazer graça.

A garota seguiu o mais elegante e rapidamente possível na direção da mãe. Odiava aquele homem. Todas as poucas vezes em que o vira na vida, desde quando o conhecera com catorze anos até então, era obrigada a suportar os olhares pervertidos que ele lhe lançava. E que seu pai fingia ignorar, tudo em prol dos negócios, muito mais importantes do que sua filha. Era mulher, afinal de contas. Ser um objeto de desejo masculino era apenas mais um de seus diversos fardos.

Hashimoto demorou até encontrar sua mãe, sentada em um banco próxima de outras mulheres de outros homens de negócios. Pediu educadamente para conversar com ela, que se aproximou cautelosa.

— O que foi? Takahashi? — sua mãe era esperta como a filha.

— Sim. Enchendo meu saco. Tive de fugir dele — acresceu a garota, contendo a fúria. Sua mãe a olhou feio pelo uso daquelas palavras.

— Não o ofenda. — A mãe da jovem se mostrou tão inerte quanto o pai em ajudá-la. — Ele é muito importante. Muito rico. Sua amizade é preciosa para os negócios da família — acresceu. — Se um dia ele tentar algo perigoso, aí sim me avise.

— Não vamos precisar dele para cuidar da família! Eu passei em primeiro... — Hashimoto se empenhou em discutir, mas sua mãe a calou com um gesto.

— Não levante a voz para mim — ralhou, rígida como sempre fora. — Nem mesmo um primeiro lugar em direito vai garantir que ganhe um salário igual ao dele. Você é mulher. Nós quase sempre ganhamos menos, mesmo ocupando as mesmas posições de emprego que outros homens — lembrou-a daquela injustiça.

— Vou ser ainda mais rica — teimou Mayumi, irritada.

— Por que não tenta o mais fácil para isso? — Sua mãe lhe deu um olhar astuto. A mais nova apenas a fitou, sem compreender.

— Por que não o seduz e casa com ele? — Hashimoto não acreditou ter ouvido aquilo vindo de sua mãe. Aquele sujeito era repugnante.

— Eu jamais me casaria com um homem patético como ele! — Mayumi rebateu, arrogante porém sincera. Sua mãe a repreendeu ainda mais, puxando-a para o lado.

— Não me faça dar vexame na festa do seu pai. — O olhar duro de sua mãe a calou. — Não seja tola, Mayumi. Casamentos são contratos como quaisquer outros. Pense nisso. Pense no que pode lucrar e construir com isso. Não vai estudar direito? — Ela se afastou da filha, deixando a sugestão no ar e virando-se para conversar com um casal conhecido. Em segundos, a mãe mudara o semblante, parecendo doce, simpática e alegre.

A jovem Hashimoto ficou ali, digerindo aquele conselho. Não. Casar com Eikichi era demais.

Seria a pior das humilhações.

[...]

Hashimoto chorava. Copiosamente.

Chorava de raiva, chorava de ódio, chorava de vergonha.

Pois a pior das humilhações estava em vias de se suceder.

Já com vinte e três anos, terminando a faculdade de direito, seu pai trancara sua matrícula contra sua vontade, avisando ao diretor, outro amigo pessoal de Eikichi, que sua filha contraíra noivado com Takahashi e estava em vias de se casar. Se mudariam para os Estados Unidos, onde seu noivo fora transferido, para chefiar a produtora de carros japoneses em que trabalhava localizada em Washington D.C.

O patriarca da família Hashimoto assim o fizera por covardia, ao ver naquela manobra a solução para as inúmeras dívidas que contraíra ao expandir seus negócios para algumas revendedoras. À beira da falência, sem condições de se manter, decidira vender sua filha para Eikichi Takahashi, já divorciado, que lhe prometera ajudá-lo a custear todas as finanças e investir em sua empresa para retirar seu nome já sujo da praça.

Amparada por sua mãe, Mayumi estava sentada na sala de jantar, escondendo o rosto nas mãos. Detestava que a vissem chorar. Detestava chorar. Detestava se sentir fraca.

Mas seu pai provara que ela assim o era. De que adiantaram todas as boas notas, todos os estágios e recomendações de seus chefes e professores, admirados com sua inteligência e talento? No fim, toda mulher japonesa de respeito deveria se casar e sossegar. Era para isso que serviam. Casamento, sexo e reprodução. Instrumentos masculinos, por todo o tempo.

— Vai ficar tudo bem — sua mãe tentava lhe consolar com a voz fraca. Não gostara do que o pai da garota fizera, mas não pudera impedir. Dependiam daquilo para sobreviver. Para não desonrar totalmente o nome da família.

O nome que o covarde pai de Mayumi jogara fora.

Hashimoto subitamente se levantou da mesa de jantar, aonde recebera aquelas notícias horríveis. Subiu as escadas, e começou a arrumar seus pertences com violência desmedida. Parecia enlouquecida, e por isso sua mãe a seguiu.

— Filha, o que é isso? Não é o pior dos mundos, é só... — Mayumi a encarou com desprezo.

— Um contrato. Que fui forçada a aceitar! — gritou a mais jovem, furiosa. Jogou contra a parede um dos troféus que ganhara em um Júri Simulado, pela melhor defesa apresentada, vendo-o quebrar em diversos fragmentos.

— Se controle! — exigiu sua mãe, sem saber como conter a filha.

— Já chega! Já me controlei o suficiente! — Hashimoto saiu do quarto esbarrando na mãe, indo até o escritório do pai. Carregava consigo uma mala que fizera às pressas.

Pegou a chave do armário onde seu pai trancafiava a espada japonesa de Katsuo Hashimoto, e retirou a caixa de madeira onde ela estava guardada. Em seguida, guardou em sua bagagem alguns retratos de Harumi Ishibashi, sua tataravó gueixa, e de seu ancestral capitão da quinta divisão do Shinsengumi, o dono daquela relíquia em forma de espada.

Desceu as escadas pisando com força, enquanto sua mãe a seguia apelando para que se acalmasse. A jovem Hashimoto a ignorou, arrastando seus pertences junto ao novo fardo insuportável.

— Aonde pensa que vai? E quem lhe deu per... — Hashimoto não soube de onde veio aquilo. Aquele instinto. Só soube que viu seu pai como uma presa, e ela própria, como uma predadora.

Como uma verdadeira retalhadora.

Hashimoto retirou a espada katana da caixa de madeira, com uma rapidez que surpreendeu a si mesma. Colou-a já desembainhada contra o pescoço do pai. Se movesse seu braço um centímetro a mais, teria cortado a pele dele.

Seus pais a encaravam atônitos.

Chocados.

Aterrorizados.

Ela gostou da sensação que aquilo lhe trouxe.

— Você não manda mais em mim. Em absolutamente nada do que eu fizer. Eu vou levar essa espada comigo e tudo o que coloquei aqui. Podem fazer o que quiser com o resto de minhas coisas. Jogar fora. Destruir. Queimar. — A jovem Hashimoto tinha um sorriso atroz em seus lábios, revoltada.

— Avise ao Takahashi que vou adorar me casar com ele. E não contem sobre a espada. Ela é minha. Se não quiserem que eu faça alguma coisa impensada... — Mayumi deu a sugestão suficientemente ameaçadora para apavorar os pais: se contassem sobre a espada, poderia tentar matar o marido e estragar o casamento que planejaram.

— Vou morar num hotel aqui perto enquanto isso. Só quero ver vocês no casamento, e podem considerar essa minha despedida oficial. Podem falar para Eikichi marcar o casamento o mais cedo possível. Mal posso esperar para ir aos Estados Unidos depois! — A filha sorriu com animação falsa, sentindo apenas ódio por seus pais. Até mesmo por sua mãe, por quem um dia já havia nutrido afeição. Todos traidores. Todos idiotas. Todos fracos.

Hashimoto já havia descoberto que Eikichi Takahashi, além de um sórdido homem de negócios, tinha relações com a máfia Yakuza. Era um nome importante nesse meio do crime, um homem rico em dinheiro e contatos e totalmente pobre em escrúpulos, pelo que ouvira de conversas secretas de seus pais. Conversas que fizeram sua mãe chorar escondida na calada da noite. Temerosa pelo que lhes poderia acontecer, se o desagradassem.

Era a chance de colocar à prova aquilo que sua mãe havia lhe falado, quando era uma mera adolescente. Usaria aquelas limitações ao seu favor. Seria forte como sua tataravó, que manipulava homens influentes que decidiam destinos de países.

Tentara jogar conforme o jogo. Conforme as leis. Tanto as culturais quanto as jurídicas. Mas ela era maior do que aquilo.

E o contato com o mundo do crime lhe ensinaria a ser ainda mais forte.

[...]

Hashimoto se casara naquele verão. Detestara sua noite de núpcias tanto quanto odiava Eikichi, seu marido, mas sabia que teria força para aguentar aquilo. Era desagradável, mas poderia usar a obsessão e a imagem distorcida que Eikichi tinha dela — uma doce flor japonesa, jovem, virginal até o casamento, submissa — em seu benefício. Bastava continuar atenta. Durante o momento propício, herdaria seu legado. Iria matá-lo, sem despertar suspeitas. Talvez algum veneno insondável.

Porém, apesar de parecer admirá-la com reverência digna do que deveria receber sua tataravó no auge de seu tempo de gueixa, sua convivência mudou um pouco alguns meses depois do casamento. Já nos Estados Unidos, Hashimoto tinha seguranças particulares que a vigiavam dia e noite, para ir no curso de inglês, para fazer as compras junto com os empregados contratados por Eikichi, para ir à academia... Ele não tirava os muitos olhos dela, olhos externalizados pelos homens que a seguiam, sujeitos que ela sabia terem ligações com a Yakuza.

Eikichi não era tão manipulável quanto parecia. E, depois de cinco anos de casamento, começou a se entediar com Mayumi. Trazia outras mulheres até mesmo para dentro de casa. Foi obrigada a dormir em um quarto separado, feito apenas para ela, enquanto seu marido fazia sexo com outras dentro de seu próprio apartamento. Não que ela se importasse. Jamais o desejou. Mas o que a revoltava era a constante humilhação. Ele poderia deitar-se com outras, algo que provavelmente sempre fez, ainda que fora de casa, mas ela não. Tinha de ser seu mascote. Seu animal de estimação. A esposa troféu.

Hashimoto volta e meia se pegava observando sua espada guardada dentro daquela caixa antiquíssima. Queria encontrar algum mestre espadachim, algum imigrante japonês que, assim como ela, pudesse lhe ensinar a técnica de seu ancestral, se possível. Trancada em um de seus armários, Eikichi jamais se deu ao trabalho de conferir o que havia naquela caixa, pois Mayumi nunca permitira que descobrisse o quanto aquele objeto era precioso para ela. Arrogante como sempre fora, Takahashi não dava a menor importância para os interesses de sua mulher.

Os dias se passaram, e Eikichi Takahashi a levava para todos os importantes encontros de negócios. A produtora apenas crescia com os anos, o casal enriquecia cada vez mais conforme os lucros eram ampliados. Ela conhecia todos os nomes importantes, fossem bandidos ou sujeitos incautos que negociavam com a máfia Yakuza.

Eram um casal poderoso, respeitado e temido. Mas Hashimoto não queria ser uma esposa poderosa. Queria ser poderosa por si só.

Ela conhecia os trâmites. Os golpes, as intimidações, os castigos. Aquilo a revigorava por dentro. Mal podia esperar a época em que Eikichi logo tropeçaria, se deixaria levar pelo ego, e a deixaria crescer sozinha. Por enquanto, apenas plantava as sementes.

Mayumi era adorada nos círculos de amizades de Eikichi, tanto quanto sua tataravó um dia fora estimada por muitos homens poderosos. Admirada por todos por sua inteligência, suposta diligência e adoração por seu marido. Takahashi orgulhosamente sempre a ostentava, sem cautela alguma. Ela sabia que era apenas uma questão de tempo até seu primeiro deslize.

Foi quando havia completado trinta anos, já casada há sete, que uma reviravolta se deu em sua vida.

Eikichi havia contratado um novo braço direito. Um homem truculento, seu capanga oficial. Diziam que era mestre em kenjutsu, e Hashimoto sentiu algo acender dentro de si ao receber aqueles relatos.

Obediente, silencioso e cuidadoso, pouco a pouco Daisuke Kimura se provava um dos melhores a mando de Takahashi. Líder de muitas missões escusas da máfia, respeitado por outros capangas.

Nas mortes que era obrigado a cumprir, muitas vezes usava sua própria espada katana, dificultando a sondagem da polícia pela destreza dos golpes e ausência de vestígios deixados, além dos corpos desmembrados.

E, o que parecia ainda melhor para Hashimoto... Kimura aparentava ter um fraco pelos supostos oprimidos. Assim, Daisuke muitas vezes olhava para Mayumi com condescendência, como se tivesse pena dela por ser obrigada a ser um mero instrumento de Eikichi, sem ser paga por isso.

Com o passar do tempo, usando de delicadeza, astúcia e paciência, Mayumi começou a colocar ideias na cabeça de seu marido. De que seus seguranças estavam faltando com o respeito, a olhando de forma estranha, tomando intimidades... Bastou contar alguns dias, e os três seguranças dela haviam sido assassinados. Por Daisuke Kimura.

Como Hashimoto havia previsto, o novo braço direito de Eikichi havia sido escalado para protegê-la também. Então, durante o dia, quando saía de casa, ele era seu acompanhante como segurança. Pouco a pouco, Mayumi se dedicou a romper as barreiras. Entrou em um papel de esposa frágil, sonsa e submissa, e depois de alguns meses sabia que a lealdade de Daisuke já estava balançada.

Hashimoto passou a inventar que Eikichi lhe batia. Isso raramente acontecia de fato, mas a própria passou a criar hematomas em áreas que poderia esconder do marido, já desinteressado em si. Daisuke gradativamente alimentava uma raiva cada vez mais potente contra seu chefe, e um carinho ainda maior por Mayumi, que cada vez mais investia em sua própria aparência e na imagem sofrida ridícula que sabia que atraía Kimura.

Quando se sentiu segura o suficiente, lhe contou que tinha uma espada katana em casa, e toda a história de Katsuo Hashimoto. Daisuke sorriu, lhe dizendo que conhecia a história da família dela, pois ele próprio era um grande admirador do Shinsengumi.

Pela primeira vez, Mayumi sorriu sincera para ele, em retribuição. Pediu-lhe que, em sigilo, lhe ensinasse a lutar.

E assim, por dois anos de treinamento pesado, Daisuke lhe ensinou os poucos golpes que conhecia do estilo Tennen Rishin Ryuu, junto ao que oficialmente aprendera no Japão, o Katori Shintō-ryū. Tal estilo abrangia uma formação guerreira completa a seus praticantes: espada, bastão longo, técnicas de luta desarmada, arremesso de dardos, bem como estudo de estratégia, contra-espionagem, construção de fortificações e manejo de armas de fogo.

Hashimoto aprendia rápido, o que apenas fez aumentar a admiração de Kimura por ela. Sabia que o homem já havia se apaixonado, então, a partir de seu primeiro ano de treinamento, passou a ter um caso em segredo. Aquilo o colocaria ainda mais em prol de seus interesses do que de Eikichi.

Foi então que, perto de completar trinta e três anos... A infecção dos errantes começou.

E a definitiva ascensão de Hashimoto também.

*****

— Olha que bizarro o que acabei de achar! — Carol ouviu a voz de Mavie falar, enquanto a irlandesa e Sasha se aproximavam, pisando nas folhagens mortas naqueles limites do pântano.

Daryl e Eugene se levantaram, trocando de postos com as duas, responsáveis pela última ronda. Daryl Dixon olhou para Mavelle Berry com cuidado, como se atestasse que estava realmente inteira. A forma doce como se encaravam, um obviamente zelando pelo outro, trouxe uma sensação que misturava um tolo riso junto a certo alívio para Carol Peletier.

Jamais imaginaria que seu amigo, tão fechado, tão machucado pela vida, se aproximaria tanto de alguém assim. Não imaginava que, apesar de seu enorme coração, o arqueiro chegaria a se relacionar dessa forma com outra pessoa. Por mais que tivesse previsto, há muito tempo, que aquela menina irlandesa mexeria com ele. Ficava feliz por Daryl, ao mesmo tempo que não deixava de se sentir surpresa. Afinal, ela o conhecia de longa data.

Mavelle se aproximou dela e mostrou-lhe o objeto de que estava falando. Carol gostava da doçura genuína daquela garota. Lembrava mesmo a meiguice de Beth e de Glenn, ao mesmo tempo que parecia firme como pedra. Mavelle Berry era uma sobrevivente hábil, dedicada e resiliente, senão jamais teria chegado tão longe.

— Tinta para cabelo? — indagou a mulher de cabelos grisalhos, olhando para o frasco vazio de uma marca qualquer. — Eu não vejo isso há anos, mesmo... — Deu um sorriso torto.

— Pensamos que poderia ser bom para guardar algo. Água e tudo o mais. Já que perdemos muitos recipientes com o... Composto botulínico — sussurrou Sasha, cuidadosa.

— É uma boa ideia — concordou Carol Peletier, olhando o frasco de químico capilar.

— É engraçado pensar em tudo isso, não? — Mavie comentou, parecendo um tanto distraída, olhando para a fogueira baixa que Carol acendera. Desde o dia anterior, continuaram rumando pântano adentro, sem sinal de vida além de poucos errantes totalmente apodrecidos, quase sem ser ameaças, e alguns animais selvagens perigosos. Cobras e mais aligatores.

— O quê? — perguntou Sasha, sentada ao lado dela.

— Sabe, em outra vida... Nós fizemos tudo isso. Pintamos nossos cabelos. Fomos ao cabeleireiro. Tínhamos essas preocupações... Imbecis — lamentou a garota irlandesa, com um suspiro. — Eu mesma pintei meu cabelo de ruivo uma vez. Pra me sentir mais irlandesa ainda, pois é, estereótipos. — Mavelle deu um olhar de troça para Carol e Sasha, que acabaram soltando risadas discretas. — Só que ficou totalmente arseways*... Meu cabelo é muito moreno pra isso. Caí no choro — confessou ela. — E hoje em dia, acho isso tão... Tão patético. Pensar que um dia, nós já fomos assim. Nos preocupando com idiotices. Tão frágeis. Quebradiças. Será que não há algum lado bom nisso tudo? Quero dizer... Isso tudo extraiu o pior de algumas pessoas... — Ela claramente mencionava Hashimoto. — Mas será que não extraiu o melhor de outras? — sugeriu. Seus olhos cor de avelã esverdeado iam de Carol para Sasha.

— No meu caso... — Carol falou, enquanto as outras duas a fitavam, atentas. — ...Eu não sei dizer. Eu sem dúvidas era mais frágil antes. Mas... Se há um lado bom? Não sei se ele existe, Mavelle — reputou. — Minha filha morreu por causa disso. Era só uma criança. Assim como outras crianças que conheci... E de quem cuidei. — A garota irlandesa pareceu arrependida. Sasha apenas baixou a cabeça. Mesmo que tivesse entrado no grupo depois, conhecia aquela história sobre o passado de Carol Peletier.

— Não se culpe. Você não tinha como saber. — Suspirou a mulher de cabelos grisalhos, cansada. Subitamente, lembrou-se de Tucker Hayes, e franziu as sobrancelhas. — Talvez não haja um lado bom nisso. Nenhum, não naturalmente, ao menos. Mas podemos nos esforçar para criá-lo. É um mundo novo, bem ou mal. — Carol Peletier refletiu a respeito, lembrando agora não mais das modificações de Daryl Dixon. Mas também de Tucker Hayes. Como o garoto crescera, amadurecera, provara sua coragem por diversas vezes. O que ele trouxe de diferente para ela. Que renovou, dentro de si.

Aquilo lhe fez sentir o mesmo mau estar de antes. Tucker provavelmente estava morto àquela altura.

— Eu não acho que o mundo seja diferente. Ele continua igual. Fomos nós que nos adaptamos às dificuldades. Sabem... — Sasha respirou fundo. — Minha vida não foi tão fácil no que se refere a dinheiro quanto a de vocês. Desculpem, mas é verdade. — Como sempre fora de costume, a mulher negra mostrava-se honesta e direta.

— Eu e Tyreese, meu irmão que as duas conheceram... — Ela parou mais uma vez, tomando mais fôlego, como se quisesse esconder suas emoções. — Vivíamos num bairro pobre. Tínhamos a grana contada, e, por sermos negros, e, pior ainda, vivermos no sul dos Estados Unidos, mais racista do que o resto do país... Sempre tivemos de sofrer um preconceito filho da puta — confessou Sasha. — E pra mim, duplicado, porque além de negra sou mulher. — Mavie franziu os lábios ao ouvir aquilo e Carol moveu a cabeça em silêncio, levemente, concordando com gentileza. Era verdade. A irlandesa e a mulher de cabelos curtos poderiam ser mais privilegiadas, mas todas sofreram com o machismo, com homens achando que poderiam decidir tudo por elas e lhes manipular por direito de gênero.

— Tyreese era muito bonzinho, então eu tinha de ser desconfiada por dois. Cuidar dos dois. Preservar os dois. Proteger os dois. E, claro, ouvi e aturei muita merda... — Sasha relembrava seu passado, franzindo as sobrancelhas.

— O mundo sempre foi assim. Predatório. Aquela japonesa não está de todo errada — a sniper comentou, frustrada, ao passo que as duas mulheres a fitaram com ainda mais atenção, surpresas. Ela soltou uma expiração demorada, parecendo aborrecida.

— O mundo sempre foi dos fortes. As pessoas sempre se aproveitaram umas das outras. Sempre passaram por cima das outras. As coisas agora... Só estão mais claras. E às vezes você tem de cortar um dobrado pra provar que não é o pólo fraco, mas sim o pólo forte, mesmo que ninguém queira acreditar em você — admitiu Sasha, desviando o olhar das outras duas. Parecia ter se lembrado de algo muito sensível. Tinha um profundo desalento em suas feições.

— Nós sabemos que você é muito forte. Durona. Você é foda — Mavie, sempre amigável, logo se pôs a dizer para a mulher ao seu lado.

Carol conteve um sorriso. Era óbvio que Daryl se apaixonaria por ela. Aquela menina e ele tinham muito em comum, uma essência muito parecida.

Dois corações bondosos demais.

Sasha não respondeu nada. Apenas mirou Mavelle Berry em resposta, dando um sorriso discreto em agradecimento pelo reconhecimento de seus esforços.

Foi então que Carol testemunhou a mulher com o rifle desviar no segundo preciso para não ter seu rosto perfurado por uma flecha, cravando-se no tronco atrás de si.

Carol, Mavie e Sasha se levantaram no mesmo momento. De armas em punho, Mavie Berry já ajeitando uma flecha no cordel, as três olhavam ao redor. Não havia sinal de aproximação humana.

Outra flecha foi lançada, e dessa vez se fincou no braço da jovem garota estrangeira, que abaixou o arco soltando um gemido lastimoso.

Carol Peletier correu até ela, assustada, forçando a irlandesa a se abaixar consigo. A flecha atravessara parcialmente o braço da jovem, rompendo sua pele, enquanto Sasha já havia se jogado ao chão e colocado a visão noturna em seu rifle.

Disparou a arma de longo alcance, no mesmo segundo, e ouviram logo depois o som longínquo de um corpo caindo.

— Eles estão aqui — murmurou a mulher que atirara, alertando as outras. Carol puxou Mavelle até um tronco mais grosso, escondendo-a de quem quer que estivesse perto.

— Quantos? — sussurrou Carol Peletier, nervosa.

— Quatro — contou a atiradora meticulosa. — Três, depois desse.

— Não, quatro. — Uma mulher as surpreendeu, se colocando atrás de Sasha. Era alta, morena, com cabelos cacheados e traços indianos.

Tinha uma pistola com silenciador na cabeça da irmã de Tyreese.

Carol atestou que a mulher com farda do Exército deu a mulher com o rifle um sorriso sem alegria, assim que fitou seu rosto.

Abaixou a arma, e atirou na direção do peito de Sasha, fazendo com que a irmã de Tyreese caísse para trás, devagar e surpresa. O sangue manchou a camisa verde escura da sniper, alastrando-se irrefreável.

Peletier soltou uma exclamação de dor, ferida ela mesma pelo machucado da companheira de missão e amiga sobrevivente. A mulher indiana passou a olhar para ela, seu sorriso sem alegria ainda em seu rosto. Seus olhos totalmente isentos de emoção.

Carol Peletier sabia o que deveria fazer. Tinha de ser rápida. Mas não sabia mais quantas vezes aguentaria passar por aquilo outra vez.

A mulher de cabelos grisalhos se pôs a chorar, abraçando Mavie, que reagiu a encarando, surpresa.

— Por favor, nos deixe em paz! Não aguentamos mais isso! — Carol implorou, lacrimejando copiosamente. Mavelle ainda a fitava sem compreender, seu rosto em um esgar de dor pelo ferimento perigoso de Sasha e pela flecha fincada em seu braço, o membro sangrando perigosamente.

— Vem aqui, sua franguinha assustada — a mulher indiana demandou, e logo Carol se levantou, fingindo covardia.

— Eles vão chegar em breve, e vamos decidir o que fazer pra acabar com o seu choro — zombou a soldado de Hashimoto, enquanto a mulher de cabelos curtos se aproximou devagar. Cautelosa.

Assim que a indiana fez menção de forçá-la a abaixar, Carol desviou. A militar atirou e atingiu uma árvore próxima. Carol Peletier esfaqueou a jugular da mulher, golpeando-a seguidas vezes até que caísse ao chão, morta. Por fim, fincou a lâmina em seu crânio.

A mulher de cabelos curtos correu até Sasha, pegando o rifle largado ao lado dela. A atiradora de elite ainda respirava, devagar, parecendo sofrer dores intensas.

— Vai dar tudo certo — Carol prometeu, munindo-se do rifle e usando a mira noturna. Logo avistou os outros três soldados que avançavam rapidamente em meio ao breu da mata, atirando precisamente em suas cabeças. Cada coice da arma apenas aumentava as pontadas de dor que sentia. Dor emocional, temendo pelo destino de suas amigas e seus amigos.

Mavelle já havia se arrastado até a sniper do grupo, que segurava sua mão do braço que não fora atravessado por uma flecha. Carol Peletier abaixou-se até as duas amigas, olhando angustiada para Sasha.

— Está tudo bem. Juro. Está... Parece melhor. Bob está aqui. Ty também. Karen. Disseram... Disseram que fica melhor agora. — Carol sentiu um calafrio ao ouvir a menção de Karen, a mulher que assassinara a sangue frio na prisão para impedir que a doença que continha se alastrasse.

— Fica melhor agora — Sasha garantiu. Soltou longamente o ar em seus pulmões.

Falecera.

Mavie, ao lado da mulher de cabelos curtos, tinha seus olhos repletos de lágrimas. Olhou para Carol Peletier, que a encarou novamente.

Provavelmente munida da raiva do momento, da frustração, da dor de todo aquele horror que eram forçadas a suportar... Mavelle Berry arrancou com as próprias mãos a superfície da flecha que ainda estava cravada em seu braço, soltando um urro de dor.

Carol tentou contê-la, mas ela já havia pregado a flecha na têmpora esquerda de Sasha, livrando-a do cruel destino de retornar como errante.

A mulher de cabelos grisalhos apenas fitou o rosto da amiga morta. Ela havia deixado o caos daquela vida de sofrimento... Sorrindo.

Será que realmente ficava melhor depois? Pensou em Sophia, em Lizzie, em Mika... Seu coração se apertou.

Lembrou-se de Tucker outra vez.

Era uma chance em mil... Mas ele poderia estar vivo ainda.

— Vamos. Precisamos achá-los. — Carol Peletier segurou seu pranto, rumando pelo pântano junto a Mavelle Berry. Juntas, se esforçavam para suportar todo o flagelo. Depois de alguns minutos de sôfrega procura, as duas encontraram Daryl e Eugene, espancados, amarrados em árvores próximas.

Soltaram os dois, Carol desamarrando o antes educador enquanto Mavie liberou Daryl, beijando-o em meio as lágrimas, não se importando em serem íntimos na frente dos dois naquele momento tão horrível.

O caçador se mostrou preocupado com o ferimento da garota de dentes salientes, ao passo que ela segurava seu rosto, apenas negando com a cabeça, lhe contando que Sasha morrera.

— Todos estão mortos. Precisamos enterrá-la... E seguir caminho — Carol disse, dura, mas sincera. Cuidaram dos ferimentos de todos, fazendo um torniquete para Mavelle, e, quando se dedicavam a cavar uma cova para Sasha, ouviram um ruído no walkie talkie caído ao lado do cadáver da indiana.

Carol, furiosa, contudo fria, atendeu.

— Priah, como estão as coisas? — Ela ouviu a voz detestável de Hashimoto do outro lado da linha.

— Tudo bem. A área continua livre. Ninguém por aqui — mentiu Carol, imitando perfeitamente a voz da indiana e seu sotaque.

— Ótimo. Continuem a patrulha — disse a japonesa, desligando a chamada.

Carol Peletier encarou os outros. Ao menos Sasha não morrera em vão. Sobreviveram aquele ataque, e ganharam a vantagem de iludir a psicopata.

Os sobreviventes seguiram viagem pelo resto da noite, e, próximos ao raiar do dia, na alta madrugada, finalmente avistaram o rio que deveriam envenenar. Sem remorsos, sem temores e totalmente decididos a cumprir a missão, os quatro jogaram todos os litros de veneno no leito do rio.

Temerosa, Carol Peletier não podia negar que alimentava uma sensação perversa dentro de si. A satisfação de saber que aquelas águas chegariam aos malditos lábios de Hashimoto e de seu Exército. Era bom pensar em todos eles mortos em sofrimento.

Mas... Qual seria o preço disso tudo? Pensava Carol, lembrando do que Sasha lhes contara antes de morrer. O mundo era mesmo igual. As pessoas continuavam mesquinhas, egoístas, doentes, sádicas como antes.

Ela apenas receava que estivessem seguindo por um caminho parecido. Sem perceber. Impossibilitados de voltar atrás.

Suspeitava que, depois de algum tempo...

...Poderiam eles serem os próximos iguais a Hashimoto.

Notas finais
*Arseways: uma bagunça completa. ~ Edição de imagem by me. Ficou tosquinha, mas tentei fazer uma homenagem pra Sasha. RIP. :( ~ Aguardo comentários nos dois capítulos, por gentileza!