Hunter's Instinct
56 Episódio 56 - Decisions
Notas iniciais
“...Man is condemned to be free; because once thrown into the world, he is responsible for everything he does.
It is up to you to give — life — a meaning”.
~ Jean Paul Sartre
A bruma se erguia ao redor deles. Constante, densa, palpável como fumaça de cigarro de uma marca vagabunda.
Seus passos curtos e controlados ecoavam pelo ambiente fechado, úmido e escuro, repleto da vegetação do manguezal e odor salino que empesteava o local. O cheiro de podridão, usual em uma realidade onde os mortos-vivos caminhavam sobre a terra, se misturava com o aroma salgado, fétido e azedo típico de um pântano.
Ele podia ver, caminhando mais atrás de si, a expressão desconfortável de Eugene deixando claro o quanto o ex-professor de ciências não tinha a menor familiaridade com um contexto selvagem daqueles. Não muito atrás ficava Sasha, que também não parecia particularmente agradada em perscrutar um lugar tão inóspito. Mavie, irlandesa, vinda de um país ainda mais frio que os Estados Unidos e com outro tipo de natureza, não parecia também se sentir em seu ambiente mais acolhedor. Por fim, além dele, lá estava Carol, mantendo seu rosto resumido a feições cautelosas.
Era possível sentir a lentura da cerração na pele. Em meio aquele cenário em um permanente e opressivo verde escuro combinado com a brancura onipresente da penumbra que se erguia pelas águas fétidas pantanosas, ele e seus companheiros tinham seus instintos de sobrevivência aguçados ao máximo. Eram seres humanos jogados em um contexto selvagem, obrigados a se adaptar para não se tornarem as próximas presas.
Mas nada daquilo era efetivamente singular para Daryl Dixon. Crescido e criado na periferia miserável de uma cidade também empobrecida da Georgia, o arqueiro há muito já havia cruzado florestas, pântanos, rios e demais selvas ao longo de sua dura vida.
Assim, liderava o caminho dos envolvidos naquela missão. Com um facão para abrir algum tipo de trilha em meio à espessa vegetação, o caçador se ocupava em cortar os mais diversos tipos de plantas e obstáculos que pudessem dificultar a já complicada transposição daquelas pessoas que rumavam até o leito do rio que pretendiam envenenar.
— Sabem, o mais seguro é pisar com delicadeza e só então deixar o pé afundar. Este solo é especialmente úmido, muitas vezes a grama pode sugerir firmeza, mas, na verdade, pode esconder surpresas, como alguns centímetros de água de mangue — sugeriu Eugene, atrapalhando o silêncio mais do que necessário para a segurança naquela missão. Dixon voltou o rosto para ele, o fuzilando com o olhar. O sujeito pareceu se conter, rapidamente desviando os olhos.
— Você já falou — Sasha murmurou entre dentes, seu maxilar trincado com força. Tinha o rifle a postos em seus braços, firme como uma estátua. Daryl pôde aferir, a um mísero olhar, o quanto ela própria estava nervosa com a perspectiva de se embrenhar fundo naqueles pântanos.
— Estou apenas querendo aju... — Eugene Porter tentou, mas Dixon o interrompeu.
— Se quer ajudar, não atrapalhe. Calem a porra da boca, todos vocês — o arqueiro exigiu, sem nenhuma delicadeza. Não era o momento para ser educado. Não que ele fosse realmente bom nisso. Mas boa parte do sucesso do plano formulado em Alexandria dependia do sucesso daquela missão, da capacidade daquelas cinco pessoas enquanto infiltradores. E, para ser um bom infiltrador, era necessário, acima de tudo, passar incólume. Sem ser visto, ouvido, ou, de qualquer maneira, percebido.
— Isso está estranho — comentou Mavelle, muito baixo, parecendo ignorar o sermão de Daryl, ou propositalmente querendo contrariá-lo. O caçador sentiu uma onda de irritação subir-lhe pelo corpo, mas se conteve. A garota irlandesa merecia uma colher de chá dado o que tinha enfrentado nos últimos dias.
— O quê? — perguntou Carol Peletier, ao lado da garota dentuça. Dixon jamais admitiria isso, mas um dos grandes motivos que o fazia estar estressado com aquela missão não era o nível de periculosidade dela. Mas, sim, o risco de perder as companhias que levava consigo. A garota que amava e sua melhor amiga.
— O que eu acabei de falar? — Daryl ralhou, também sussurrando, enquanto Eugene e Sasha encaravam as outras duas com olhares alertas e curiosos.
— Não avistamos nenhum morto-vivo desde que entramos aqui — disse Mavie, ignorando totalmente Dixon. — Nem sinal de nenhuma pessoa. Só os animais do pântano. Estou com medo de se tratar... — a fala dela foi cortada por Carol.
— De uma armadilha. Estive pensando o mesmo — a mulher de cabelos grisalhos complementou, sombriamente.
O grupo todo trocou olhares. Eugene, com seus orbes mais arregalados, o suor frio escorrendo pelo rosto, talvez gerado por uma mistura de suas emoções mal controladas com a temperatura úmida do pântano. Sasha, erguendo as sobrancelhas, suas íris escuras se focando no rosto de todos e em cada mínimo detalhe do mangue. Carol mantinha sua expressão fechada tão bem treinada pelos anos, suas emoções ilegíveis como sempre. Mavelle, contudo, deixou seu queixo entreaberto, seus dentes salientes aparecendo entre os lábios. Não queria demonstrar, mas também estava assustada.
Aquilo foi o suficiente para mover Daryl Dixon. Sentindo uma atípica sensação de torção ao peito, algo inédito, que veio a acometer-lhe desde que Mavie se tornou alguém importante para ele, o caçador se aproximou do grupo que o seguia.
— Parem com isso. Rick combinou os sinais conosco. Se algo de estranho já tivesse acontecido, saberíamos. Temos os sinalizadores, os walkie-talkies, as marcas... Sabemos exatamente onde estamos. Já percorremos doze milhas. Faltam menos de cinquenta, como já vimos no mapa do drogado — garantiu Dixon, falando mais do que de costume. Reparou que Carol lhe deu um olhar entrecortado quanto o viu se referir daquela forma dura a Tucker Hayes.
Daryl registrou a censura, mas não se importou muito. Fitou Mavie mais uma vez, reparando que a irlandesa fechara os lábios, formulando um semi-sorriso. Viu-a respirar fundo, e aquilo lhe trouxe um pequeno alívio também.
Bastou que o arqueiro tentasse assegurá-los para que, contraditoriamente, algo inusitado se sucedesse.
Carol Peletier estava mais próxima das águas fundas e lodosas do pântano. O grupo evitava caminhar às margens, por temer possíveis encontros com animais peçonhentos ou feras de grande porte, como aligatores.
Mas nenhum deles foi o ser que se aproximou da mulher.
Dixon atestou que Peletier havia percebido a aproximação antes do ataque.
Um morto-vivo que mais parecia uma espécie de esqueleto grotesco mal enterrado em terras pantanosas havia se movido na direção da mulher, em um único salto mortal. Musgo crescia entre suas costelas aparentes, enquanto um caranguejo incauto, que provavelmente se alimentava dos restos de carne pútridas do defunto, desceu correndo pelos ossos de suas pernas.
Com seus dedos ossudos, podres como a água lamacenta que o disfarçava, o errante atracou-se com a mochila de Carol, tentando alcançar algum pedaço de carne dela à vista em suas costas.
Ela caiu para trás, levantando água lodosa em um ruído sonoro, enquanto suas mãos já se moviam para alcançar a lâmina que sempre levava consigo.
Mavelle foi a mais rápida dentre eles. Antes mesmo que Daryl pudesse compreender plenamente o que havia acontecido, a nível instintivo, a irlandesa havia sacado uma flecha de sua aljava e atingiu perfeitamente a testa do carniceiro, sua cabeça aparente para fora das profundas águas do pântano.
Daryl Dixon agachou-se de imediato, oferecendo uma de suas mãos para que Carol saísse das águas brejeiras. A amiga logo se apoiou, fechando os dedos em seu punho, impulsionando-se para fora. Contudo, reparou que a mulher passou a tatear as próprias costas em busca de algo.
Sua mochila se fora junto com o errante, provavelmente já no solo encharcado das águas pantanosas.
Carol, refutando toda e qualquer atitude que seria esperada em uma situação daquelas, imediatamente fez menção de pular no pântano outra vez. Mas Sasha foi mais rápida, segurando-a pela cintura.
— O que pensa que está fazendo?! Não sabemos o que tem lá dentro! — a atiradora perguntou, suas sobrancelhas ainda mais elevadas em sua testa, sem compreender a irracionalidade da mulher de cabelos curtos. Enquanto isso, Mavelle e o antes professor de ciências trocavam olhares surpresos, mirando Carol também da mesma forma atônita.
— Preciso pegá-la de volta! — Carol se debateu, ágil o suficiente para empurrar Sasha para longe. A mulher negra caiu ao chão úmido, encarando a sobrevivente de olhos claros como se não entendesse absolutamente nada.
Dessa vez, Daryl se aproximou da amiga e a parou, puxando-a com força controlada para longe das margens do brejo.
— Não tente me impedir — Carol Peletier quase grunhiu para Daryl, seus olhos azuis faiscando de raiva. Aquilo era muito incomum. Sempre controlada, Carol parecia transtornada, decidida a resgatar aquela mochila. Como se algo de muito precioso estivesse lá dentro.
— Fique aí. Eu pego pra você — o caçador asseverou, no mesmo instante pulando para dentro das águas lamacentas.
Ali não havia correnteza alguma. Daryl sabia o que aguardar de águas pantanosas. Mal cheiro, escuridão, detritos de animais diversos... E a companhia destes mesmos animais selvagens.
Tentando ser o mais rápido que podia, Dixon afundou o corpo até tatear e alcançar um solo repleto de areia com as palmas de sua mão. Guardando fôlego, totalmente imerso, ele demorou apenas alguns segundos até achar a mochila de sua amiga.
Puxou-a para cima, impulsionando o corpo em retorno a superfície com seus ágeis pés.
Assim que sentiu seu tronco sair da água, moveu-se com ligeireza na direção da margem. Estava sacudindo o rosto para retirar a água pútrida dos ouvidos, quando escutou uma sugestão ominosa vir de Eugene.
— Aquilo com certeza não é um tronco! — O professor de ciências indicava algo poucos metros atrás de Daryl Dixon.
— Daryl, saia daí AGORA! — Mavie gritou, correndo na direção da margem do leito brejeiro. Jogou-se na grama, seus braços estendidos para puxá-lo para fora. Seus olhos entre o verde e o castanho revelavam uma urgência desesperada que Dixon vira em momentos específicos de sua vida.
O arqueiro olhou para trás, impulsivamente. Seus instintos de caçador foram imediatamente acionados. Atento, auxiliado pelo sua intuição certeira, o arqueiro pôde distinguir uma figura couraçada se aproximando dele, e logo seus olhos amarelos reptilianos se abriram em meio a escuridão pantanosa.
Atraído pela recente movimentação, um aligator nadava decidido na direção de Daryl Dixon.
De súbito, o arqueiro sequer compreendeu racionalmente o que aconteceu. Percebeu apenas que conseguiu ainda mais impulso sem saber de onde, firmando as mãos nos braços de Mavelle, que o arrancou da água como se sua própria vida dependesse disso. Caídos pela grama do mangue, os dois tinham a retaguarda coberta por Carol, Sasha e Eugene, que já haviam levantado suas armas de fogo.
Por meros centímetros de distância, a boca aberta de um aligator imenso, bem alimentado e com fileiras e fileiras de dentes afiados deixou de abocanhar as pernas de Daryl e de Mavie, para receber uma saraivada de tiros vindos de seus amigos. Cortando a boca, a língua e a água ao redor do animal, o réptil enfurecido sequer teve chance de lutar. Fugiu, acuado, provavelmente morrendo posteriormente pela quantidade de projéteis alojados em sua bocarra.
— Obrigada — Mavelle Berry foi mais rápida em agradecer, ainda jogada ao lado de Daryl, estirada pela grama. Seu peito arfava, recuperando-se da tensão de quase ter tido suas pernas arrancadas pela fera derrotada.
— Vamos sair daqui e continuar logo, pelo amor de Deus, antes que outra coisa ou outro alguém nos ache — Sasha apelou, fitando cada um deles como se fossem todos loucos. Pelo visto, culpava Carol pela aproximação do animal.
Todos seguiram caminho pelo resto do dia, até o cair da noite. Com a bruma pantanosa atrapalhando ainda mais sua locomoção, o grupo chegou a conclusão de que era melhor levantar acampamento e descansar. Sem fogueiras, para não chamar a atenção de ninguém. Voltariam a se deslocar com a chegada da aurora.
Em determinado momento, Daryl Dixon dividia uma lata de feijões misturados com algum tipo de carne seca com Mavie Berry, que tinha seu apetite melhorado. Nos últimos dois dias, ele aferira que ela mal comera, provavelmente uma perda de apetite motivada pela morte da avó. Em compensação, mais uma vez em uma situação de plena adrenalina como aquela, ela parecia ter desenvolvido outro foco emocional. Seus instintos de sobrevivência estavam a mil, assim como suas capacidades de caçadora.
Um sorriso enviesado surgiu aos lábios de Daryl. Gostava de ver como aquela garota era durona, por mais que sua aparência simultaneamente doce e descarada não deixasse antever o quanto ela poderia ser casca grossa. Mavelle não era imune ao medo, longe disso, ele sabia. Mas enfrentava seus temores com uma coragem que o orgulhava de sentir o que sentia por aquela Esquila.
— Onde está Carol? — perguntou Eugene, encostado ao tronco de uma árvore, metros longe dos dois. Dixon sabia que a amiga havia saído para patrulhar o perímetro com Sasha, que acabara de voltar sem sua companhia.
— Disse que queria ficar um pouco sozinha. Falou que volta em dez minutos — Sasha esclareceu a eles, sentando-se perto de Eugene Porter. Abriu sua própria mochila, e o ofereceu biscoitos e um tipo de patê.
O arqueiro atestou a recusa do professor.
— Não se preocupe, estou bem — disse o sujeito. Sasha levantou uma das sobrancelhas, com um olhar como se duvidasse.
— Pare de frescura. O composto botulínico está na sua mochila, não na minha. Não vamos morrer intoxicados — falou ela, em tom crítico ao medo infundado de Eugene. A missão era conseguir arsênico, mas, segundo Eugene Porter, toxina botulínica era ainda mais venenosa. Assim, encheram uma bolsa com galões do produto. — Você precisa comer. Sabe disso. Todos precisamos uns dos outros aqui — continuou a mulher, seus olhos negros incisivos nos orbes do homem de mullets.
— Prefiro barras de proteína ou algo do tipo — comentou Eugene, no tom presunçoso e ao mesmo tempo tolo que tinha. Mavelle não se controlou. Soltou uma risada pela audácia do homem. Daryl a encarou, ele próprio se sentindo mais relaxado ao atestar que ela rira.
— É claro, Vossa Majestade — debochou Sasha, achando uma barra de cereal dentro da mochila e a atirando na direção do professor de ciências com certa cólera. Mavelle riu mais ainda da cara de tacho de Eugene Porter.
Daryl, sentado ao lado da irlandesa que se recostava a outra árvore de tronco grosso, defronte aos outros dois, apenas a estudava. Ela parecia bem, seus dentões ridiculamente sujos de feijão, o que também lhe trouxe certa vontade de rir e um alívio tremendo por vê-la assim, mais tranquilizada, segura, comendo com apetite perto dele. Se cuidando.
Talvez ir nesta missão fosse exatamente o que ela precisava, apesar dos riscos. Respirando fundo e olhando para as imediações, ouvindo o som dos insetos e animais noturnos em meio ao pântano, Dixon pensou que havia mesmo feito o melhor. Não havia outra escolha para ele. Não conseguiria suportar deixá-la sozinha em uma situação dessas.
Passou algum tempo assim, recusando a comida que sua Esquila lhe oferecia. Depois de alguns minutos, passou a se preocupar com Carol. Ela ainda não havia retornado.
Daryl avisou a Mavie e aos outros que procuraria pela mulher. Mavie Berry fez menção de ir junto, mas ele a impediu, esclarecendo que os três precisavam guardar o acampamento. Prometeu que não demoraria e que traria Carol de volta logo de uma vez.
Reparou que Mavelle lhe lançou um olhar de esguelha, entre a frustração e a desconfiança. Teria ciúmes? Dixon logo considerou a possibilidade patética. Embora tenha achado simultaneamente adorável e ridículo que Mavie se preocupasse com qualquer tipo de possível interesse de sua parte em outra mulher. Dixon nunca fora disso. Era muito difícil conquistar a afeição dele, quanto mais tudo o que aquela Esquila conseguira. Tudo o que ela conseguia despertar dentro dele, que o arqueiro nem mesmo compreendia direito.
Com aqueles pensamentos em mente, o caçador logo achou sua amiga. Discerniu a silhueta de Peletier ao longe, seus cabelos curtos, ombros pequenos e corpo esbelto parado em meio à escuridão.
— Que merda está fazendo aqui? — Dixon cobrou, irritado com tantas atitudes estranhas e pouco racionais de Carol em um mesmo dia.
— Me deixe em paz. Já volto para lá — redarguiu a mulher, também parecendo irritadiça. Dixon pôde ver, à luz parca de sua lanterna, os olhos azuis cintilantes de Carol fuzilarem-no nas sombras.
— Você falou dez minutos. Todos estão preocupados — persistiu Daryl, tentando levá-la de encontro ao grupo.
— Já viu que está tudo bem. Volto logo. Pode ir na frente — retorquiu a mulher de cabelos curtos, seca, sem dar ao amigo mais do que um olhar. Dixon podia perceber que havia algo estranho com ela. Estava estampado em seu rosto, em seus olhos, em cada uma de suas atitudes atípicas.
— Yeah. Vou esperar você fazer o que tem que fazer então. Voltamos juntos depois — decidiu o arqueiro, ajeitando a balestra nos ombros, cerrando os olhos e retribuindo o olhar ríspido que a amiga lhe deu.
— Volte logo, garoto, e me deixe sozinha um pouco! Quero ficar alguns minutos em paz — rebateu a mulher, impaciente. Daryl não aturaria aquele tipo de tratamento.
— Que merda é essa?! Garoto? — disse ele, enraivecido. — Temos algo grande pra resolver aqui! Não sei que merda está fazendo, mas a prioridade agora é resolver essa porra junto com todos os outros! — Daryl reprovou suas atitudes, mencionando o plano que deviam efetuar junto ao grupo de infiltradores.
Carol não respondeu nada. Parecia ainda mais furiosa, ainda mais arisca. Dixon não soube bem como reagir, mas lembrou-se de algo que havia acontecido. Ela arriscara a própria vida para resgatar a mochila, que ele pegou para ela de volta. O que teria ali? Algo que tinha relação com aquele comportamento sem sentido?
O arqueiro se aproximou dela de pronto, arrancando a mochila de seus braços sem nenhuma gentileza.
— HEY! — Carol reclamou audivelmente, tentando puxar a mochila dos braços de Daryl. O que se seguiu pareceu até mesmo uma risível rinha entre amigos. A típica situação em que um amigo pega algo do outro que não era de sua conta. Dixon evitou que Carol recuperasse a mochila que ele tirara dela como um toureiro desviando das investidas de um touro.
Por fim, Carol Peletier pareceu cansar, olhando para Daryl com orbes exaustos, agoniados, até mesmo envergonhados. Dixon não entendia aquilo, então abriu o zíper da mochila e passou a vasculhar o que tinha lá dentro.
Nada do que lá havia podia justificar tamanho desespero em perder o conteúdo da bolsa. Algumas latas de comida em conserva, mantimentos diversos, garrafas pet de água mineral de poucos mililitros, uma arma de fogo reserva, outra faca...
...E algo que parecia ser um papel.
Surpreso, Daryl jogou a mochila de volta aos braços de Carol, que a pegou, ainda com a mesma postura sem jeito. Como se estivesse escondendo alguma coisa o tempo todo. E realmente estava.
Daryl Dixon moveu a lanterna para dar uma olhada no papel. Ali havia um desenho feito de sua amiga, muitíssimo bem feito. Ele não entendia nada de arte, mas quem quer que desenhou aquilo realmente sabia o que estava fazendo, pois estava a cara de Carol. Parecendo um pouco mais nova, mais doce, mais feliz. Sorrindo.
Ele olhou a assinatura. "T.H.", em um floreio meio fresco desses desenhistas. Reparou na data daquela imagem artística, de um dia atrás. E leu o que havia escrito embaixo do desenho.
"Espero conseguir te ver de novo."
— Eu... — Daryl balbuciou, agora ele mesmo sem jeito. Percebeu que invadira grosseiramente a privacidade da amiga. Aquilo era mesmo surpreendente. Não sabia sequer o que pensar.
— Foi mal — desculpou-se Daryl Dixon, sem o menor jeito, entregando o desenho em mãos para ela.
Carol o ignorou completamente, arrancando o papel dos dedos dele com violência brusca. Guardou-o dentro da mochila, que colocou novamente nos ombros, para depois ir a passos largos na direção do acampamento, sozinha, sem dar a Dixon sequer um último olhar.
Tucker Hayes e Carol Peletier? Jamais esperaria por uma dessas.
Daryl era um sujeito fechado, reservado e difícil de se afeiçoar a alguém. Com o tempo, Carol tornou-se alguém muito parecida com ele, ainda mais dura. Um dos motivos que, julgava ele, os aproximava tanto. Se compreendiam muito bem.
Mavie, de alguma forma, conseguira driblar as inúmeras defesas e muros que o caçador havia construído em torno de si. E, também de outra maneira misteriosa, aquele moleque tão novo, fedendo a leite e com jeito de drogado... Pelo visto havia conseguido fazer o mesmo com sua amiga.
*****
[NA MESMA NOITE, EM ALEXANDRIA]
— Você escutou isso? — A voz mezzosoprano de Peggy Taylor se fez ouvir em meio aos aposentos dele, iluminados por uma meia-luz confortável do abajur e do luar lá fora.
— Se vista. Vou descer na frente — Moritz disse, instintivamente alerta. Deixou de lado toda a postura elegante e polida que costumava utilizar e que lhe era natural, quando não estava em uma situação emergencial como aquela.
— Vou logo atrás — Peggy afirmou, levantando-se de pronto e buscando as roupas que usara naquele dia, ainda vestida com uma camisola rosa.
— Não saia daqui. Não sabemos quantos são — o homem aconselhou, nervoso, lembrando-se das imagens agourentas de seu sonho. De como reviveu a sensação de olhar o cadáver de Micaella reanimado, depois de se suicidar. De como ele foi parcialmente substituído pela imagem de Peggy, e do que ela fizera ao fim do sonho.
Puxara o gatilho de uma arma, estourando o próprio crânio como sua falecida esposa fizera para se matar.
Peggy apenas franziu as sobrancelhas, o encarando. A um olhar, Moritz percebeu que ela não o obedeceria. Parecia decidida a participar da ação.
— Espere, então — o antes professor de filosofia tentou, conciliador. — Vou descer e me certificar de que estão longe daqui. Vou lhe dar um sinal aos pés da escada. Depois, decidimos como faremos para ajudar, certo? — A mente afiada do homem apaixonado pelas ciências humanas raciocinou rápido, como era de seu costume. Peggy finalmente anuiu com a cabeça, já vestindo a própria calça jeans.
Moritz Alvintzi abriu a porta de seus aposentos com cuidado, sentindo os olhos atentos de Peggy em sua nuca por todo o tempo. Encostou a porta sem fechá-la, seguindo pela casa com as luzes totalmente desligadas, escondido nas sombras. Desceu as escadas com cuidado, volta e meia parando quando escutava sons secos de disparos longínquos de armas de fogo. Não pareciam próximos de sua residência.
Mas, certamente, vinham de dentro de Alexandria.
Assim que chegou ao andar térreo, pôde escutar os ecos de gemidos, gritos e vozes apressadas ressoando ao longo das ruas da comunidade, entrando abafados pelas janelas, quase todas fechadas.
Logo que estava próximo da porta da sala de estar, ouviu um som particularmente sobressaltante.
Um disparo havia atingido uma das janelas da sala, partindo o vidro em diversos pedaços. Moritz se jogou ao piso de madeira no mesmo momento, seus olhos astutos fixando-se no ponto atingido, prontos para testemunhar qualquer movimentação estranha que se aproximasse.
Ninguém se movimentou. Moritz Alvintzi continuava escondido no escuro, sentindo seu coração ribombar em seu peito. Se estivesse apenas alguns passos mais a frente, teria sido atingido pelo tiro, na altura de seus ombros.
Demorou a se recompôr, pois, no momento em que se sentiu seguro para levantar-se e caminhar agachado pela sala, reparou que Peggy havia desobedecido o combinado. Já estava centímetros atrás dele, refugiada atrás de uma das paredes longe das janelas.
— Falei para esperar! — ralhou Moritz, não mais calmo e moderado. Levantou-se bruscamente, quase correndo na direção dela. — Não se machucou, certo? — perguntou ele, encarando o rosto e o corpo da garota, se certificando daquilo.
— Não — retrucou ela, o olhando com seus orbes castanhos atentos. — É óbvio que eu não ia esperar! — defendeu-se. — Assim que ouvi o barulho de tiros aqui embaixo, eu precisei vir para ter certeza de que você estava bem — acresceu ela, também preocupada. Moritz a encarou, respirando fundo, novamente mais delicado. As palavras dela tiveram efeito imediato sobre o professor de filosofia.
O burburinho lá fora continuava, mais gritos e passos ligeiros eram escutados, ainda mais altos agora que uma das vidraças estava partida.
Ele abraçou aquela garota de forma repentina, uma de suas mãos nas costas dela, outra na altura de sua cabeça, acarinhando seus cabelos castanhos ondulados. Respirou fundo outra vez, afastando-se de Peggy antes mesmo que ela o abraçasse de volta.
— Vou na frente. Estamos mais perto da enfermaria. Precisamos ir guardá-la, como fizemos da última vez. Por favor, não faça nada que não tenhamos combinado juntos. Ok? Prometa-me isso. Como me prometeu da última vez que sobrevivemos a uma invasão deste lugar — recordou Moritz, enquanto Peggy anuía com a cabeça, também sentindo a urgência de sair dali.
— Prometo. Só vamos logo, por favor — solicitou a garota, destravando a arma de fogo que tinha consigo.
Moritz Alvintzi segurou em seu ombro, como que para tranquilizá-la, e depois dirigiu-se para a porta da frente. Da última vez, haviam saído pela porta dos fundos, mas não arriscaria aquele caminho de novo. A visão era pior, mais estreita, mais difícil de prever quem é que se escondia nas esquinas.
Ao saírem da residência do circense, tanto Moritz quanto Peggy não viram sinal de nenhum estranho. Aquilo era ainda mais esquisito. Na invasão dos Wolves, havia sido instalado um caos em Alexandria, com diversas pessoas com Ws cravados na testa assassinando brutalmente moradores inocentes. Naquela situação, porém, ele só via cidadãos alexandrinos correndo de um lado a outro, fugindo como se fosse de suas próprias sombras. Quem quer que estivesse os atacando, se escondera muito bem.
Moritz sentiu a sensação de agouro que tinha dentro de si apenas piorar. De alguma forma horrível, de um jeito intuitivo, tinha certeza de que algo muito ruim havia acontecido. E algo ainda pior iria se suceder.
Abriu caminho para que ele e Peggy chegassem ao hospital da comunidade, sem sinal de nenhum invasor hostil por perto. Se depararam apenas com alguns idosos correndo para dentro da enfermaria, junto a algumas crianças, com olhos assustados, como presas tentando escapar de algum predador à espreita.
— Vamos contornar, para ter certeza de que podemos entrar sem problemas — sugeriu ele a Peggy Taylor, que concordou, cautelosa.
Ambos com as armas em punho caminharam devagar ao longo da casa reservada aos tratamentos médicos dos moradores, onde Denise agora morava. Não ouviam ruído algum lá dentro além dos sussurros abafados dos alexandrinos que se refugiaram naquele lugar.
Contudo, ao chegarem nos fundos do hospital de Alexandria... Se depararam com uma visão minimamente grotesca.
Um homem fardado, de maxilar quadrado, barba por fazer e olhos arregalados em meio a um sorriso maníaco, vestindo roupas do Exército americano, fortemente resistentes, tinha uma comprida pistola com silenciador encostada no crânio de uma das moradoras da comunidade.
Na cabeça de Maggie Greene.
O homem usava uma faixa em sua testa, na qual letras japonesas formavam o símbolo de sua líder psicopata.
Sentindo-se ainda mais oprimido pelo terror que crescia dentro de si, Moritz teve se esforçar para não sucumbir. A segurança de Peggy dependia dele. Ele não falharia.
O dono de circo rapidamente levantou sua própria arma na direção do soldado, e, neste momento, Moritz percebeu que o militar não só ameaçava uma cidadã alexandrina... Como tinha na outra mão livre algo... Hediondo.
A cabeça cortada de Tobin, seus olhos sem cor já transformados em orbes de morto-vivo. Sua boca se abria e se fechava em movimentos quase ritmados, como se alguma música lúgubre ditasse o tempo de sua mastigação.
Naquele segundo em que falhou em apertar o gatilho, Moritz Alvintzi percebeu que era tarde demais. Ouviu o som de uma arma sendo destravada em seus ouvidos, o cano frio encostado em sua têmpora direita. Atrás de si, ouviu o som abafado da voz surpreendida de Peggy ser contida.
Ele moveu o rosto na direção da garota, sentindo o desespero tomar conta de seu corpo. Um outro homem tão truculento quanto o que tinha Maggie em sua mira tapara a boca de Peggy e a arrastava na direção da mulher grávida.
— Velhote, eu me daria a sua arma se eu fosse você — aconselhou o outro soldado que o rendera, enquanto o ex-palhaço de circo olhou para seu algoz. Viu que se tratava de um sujeito condecorado, usando algum tipo de medalha em seu peito. Uma delas cravada com ideogramas japoneses iguais aos da faixa do outro militar. Provavelmente, era um dos generais de Hashimoto.
— Nós podemos resolver isso — tentou Moritz, começando a dialogar, mas o homem lhe deu um forte soco no rosto, fazendo-o cambalear para trás. Alvinzti ouviu o som da voz de Peggy sair entrecortado, assustada pelo golpe que ele sofrera.
— Sem conversinha. Não viemos bater papo. Quem quer conversar com vocês é a nossa chefe — adiantou o militar, sorrindo sarcástico para o circense, a arma precisamente mirada na direção de seu crânio.
— Ou você me entrega sua arma agora, ou esse é o seu último segundo de vida — ordenou o soldado, com termos bastante claros. Sem escolha, Moritz devagar lhe deu suas duas pistolas e uma faca que tinha consigo.
— Muito bem. Agora você vem comigo — demandou o militar com olhos muito escuros, vazios de emoção. Aquilo surpreendeu Moritz. O sujeito parecia decidido, mas simultaneamente apático.
— O que... — Moritz ia perguntar, tentando fingir uma postura diplomática, aberta ao diálogo, mas o militar lhe deu outro soco, trincando um de seus dentes. Sentiu o sangue de sua gengiva cortada imediatamente se espalhar por sua boca. Mais uma vez, escutou um som abafado vindo de Peggy.
— Falei para não falar nada. Você só fala quando eu permitir. Compreendeu? Acene com a cabeça se sim — disse de forma autoritária o militar, fitando os olhos de Moritz por todo o tempo, sem sequer piscar.
O ex-palhaço apenas fez o que lhe foi pedido, acenando em confirmação.
— Fleischer, Hashimoto pediu que fôssemos breves — o soldado que tinha uma pistola prensada nos cabelos escuros de Maggie alertou. — Estamos demorando demais. Você sabe que precisamos entregá-lo para ela antes que...
— Cale a boca, Dallas! Eu sei o que temos de fazer. Já o pegamos. Já está no comboio. Podemos só levar mais umas cabeças para ela... — o homem que mantinha Moritz refém parecia elucubrar uma sugestão cruel.
— Qual delas? — o terceiro soldado, mais silencioso, que mantinha Peggy Taylor a mercê de uma mesma pistola com silenciador como a dos outros dois enfim se manifestou. Tinha uma faixa amarrada em seus punhos, com o símbolo da japonesa.
Moritz sentiu um calafrio de horror. Não veria Peggy morrer assim. Com uma bala na cabeça.
Como sua esposa.
Como em seu pesadelo.
— Por favor! — Moritz pediu, desconsolado, enquanto recebia mais um murro potente do militar mais perto. Os outros dois pareceram conter risos. Peggy e Maggie, agora, estavam completamente silenciosas, ambas aparentando segurar o choro.
— Arraste a menininha pra perto da gostosa, Hafid — disse o soldado próximo de Alvintzi. O militar mais silente, de pele escura e feições árabes, seguiu as ordens do homem que, pelo visto, tinha uma posição hierárquica superior.
— Vamos só fazer uma brincadeirinha antes de partirmos com o prêmio — comentou o capitão daquele grupo, misteriosamente. Olhou para Moritz Alvintzi com um sorriso cruel em seus lábios, porém, seus olhos se mantinham ausentes de emoção.
— Vamos lá, velhote... Escolhe aí. A gostosa ou a menininha? Você só pode salvar uma. A que você apontar e nos dizer o nome, é a que vai morrer — Fleischer falou. Moritz sofreu um pensamento desesperado: reparou que o sobrenome daquele sujeito significava "açougueiro" em sua língua nativa, posto que o ex-palhaço era nativo da Áustria.
— Não! — O professor de filosofia ouviu Peggy tentar recusar aqueles termos, por baixo da venda que tapava sua boca. — Não escolha! — Ele conseguiu entender, apesar do som abafado. No mesmo momento, Hafid chutou a coluna de Peggy, fazendo a garota se contorcer de dor.
Moritz fechou os olhos, franzindo o cenho, sentindo-se totalmente destroçado por dentro. Abriu-os novamente, vendo Peggy curvada para frente, provavelmente pela dor do golpe. A arma do sujeito árabe continuava mirada para seu crânio, assim como a pistola com silenciador acoplado do homem chamado Dallas estava pronta para explodir a cabeça da esposa grávida de Glenn.
— Só uma, velhote. Pense bem. Você está liberado pra falar e apontar. Só dizer o nome e apontar pra quem é. Quem morre: a grávida gostosa ou a garotinha? — sussurrou o sádico militar aos seus ouvidos.
Moritz fechou os olhos outra vez.
— Se você não escolher, vamos matar as duas. E você vai continuar vivo para lidar com a culpa. Vamos lá. Estamos sendo generosos aqui. — Fleischer abriu um largo sorriso.
— Hashimoto quer soldados fortes. Como nós três. Vamos te testar. Escolha uma, e viva para lidar com isso. Se conseguir, vai provar que é resistente, e, talvez... Pode virar um de nós depois — o militar falava como se a sugestão fosse um favor para o professor de filosofia.
— Me mate no lugar delas — pediu Moritz, tentando se movimentar para encarar o homem de frente, e recebeu em resposta uma coronhada no nariz. Sentiu o osso se partir no mesmo instante. Peggy chorou audivelmente. Maggie soltou uma exclamação, recebendo uma severa pancada nas costas dada por Dallas, que a mantinha refém.
— Eu falei que você só falava para escolher uma delas. Agora você tem apenas três segundos. Fala o nome de uma delas e aponta. Ou vão as duas. Um, dois, tr... — Moritz Alvintzi pôde ver os dedos dos dois militares que mantinham as moças sob seu jugo prestes a apertar o gatilho.
Ele não veria aquilo de novo. Não veria Peggy morrer como Micaella morrera.
Jamais permitiria que aquilo acontecesse, enquanto ainda respirasse e pudesse evitar.
— Maggie! Maggie morre! — bradou Moritz, apontando para a grávida esposa de Glenn. O queixo da moça tremeu, boquiaberta, ao passo que seus olhos se fixaram nos olhos dele, arregalados, surpresos em pavor. Não parecia esperar por aquilo. Peggy, ainda chorosa, o fitava com seus doces orbes revelando tristeza, sofrimento... E talvez até mesmo uma pontada de decepção.
No mesmo momento, ele sentiu um horrível sentimento de culpa destroçar-lhe por dentro. Mas sabia... Como poderia ter feito escolha diferente?
Disparos foram escutados. Moritz fechou os olhos, querendo morrer. Não sabia se seria capaz de encarar o corpo de Maggie Greene morto, executado daquela forma hedionda, caído na grama de Alexandria.
Contudo, algo ainda mais inusitado havia se dado. Fleischer, ao seu lado, soltou uma exclamação curta. Seca. Dolorosa.
Como se tivesse sido atingido por um tiro.
Moritz abriu os olhos, fitando seu algoz, que jazia morto com um tiro na garganta, caído ao chão. Olhou para as jovens mulheres à sua frente, e se deparou não com o cadáver de Maggie, mas com os corpos assassinados de Dallas e de Hafid.
Por trás das duas, soltando as vendas de suas bocas, estavam Eric, o namorado de Aaron, acompanhado justamente de quem Moritz jamais esperaria topar naquele momento.
Glenn Rhee, que o encarava com olhos terrivelmente acusadores.
— Glenn! — Maggie foi levantada pelo marido, seus olhos verdes revelando um alívio imensurável. Peggy, ao seu lado, pouco a pouco se erguia, enquanto Moritz tentava se aproximar da garota a passos largos, sua cabeça ainda zunindo pela situação extrema que praticamente todos ali haviam passado.
— Eles sequestraram Carl — relatou lugubremente Glenn. Peggy levou as mãos à boca, Maggie, mais uma vez, deixou seus lábios entreabrirem-se pelo choque. Já Glenn Rhee tinha seus olhos estreitos parecendo divididos entre o temor pelo que Hashimoto poderia fazer contra o grupo da estrada com o filho de Rick Grimes em mãos.... E o profundo desgosto que manifestava, ao olhar diretamente para Moritz. Como se silenciosamente afirmasse que jamais o perdoaria pela escolha feita.

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