Hunter's Instinct
57 Episódio 57 - Let Me Die In My Footsteps
Notas iniciais
I will not go down under the ground
"Cause somebody tells me that death's comin'
'round
An' I will not carry myself down to die
When I go to my grave my head will be high,
Let me die in my footsteps
Before I go down under the ground.
There's been rumors of war and wars that have been
The meaning of the life has been lost in the wind
And some people thinkin' that the end is close by
"Stead of learnin' to live they are learning to
die.
Let me die in my footsteps
Before I go down under the ground.
I don't know if I'm smart but I think I can see
When someone is pullin' the wool over me
And if this war comes and death's all around
Let me die on this land 'fore I die underground.
Let me die in my footsteps
Before I go down under the ground.
~ Bob Dylan — Let Me Die In My Footsteps
Ela olhou para seu pulso e conferiu o horário: cinco da manhã.
O ar matutino entrava frio pelas frestas dos panos esverdeados que cobriam o comboio.
Uma frota de caminhões verdes como musgo se camuflava em meio às estradas abandonadas daquela região. Um comboio de massivas proporções, parado estrategicamente em um ponto específico da densa floresta do parque ambiental The George Washington and Jefferson National Forest. Localizado em Roanoke, no estado da Virginia, o parque protegido do progresso urbano era um caminho inevitável a ser tomado por aqueles que o Exército de Wyoming County esperava encontrar.
Demoraria apenas algumas horas. Tudo já estava pronto para cercar Rick Grimes e seus demais aliados que se dirigiam até sua base. A mulher sorriu.
Hashimoto saiu da traseira do caminhão em que estava, descendo em um pulo ágil.
— Dupont! — a líder chamou um de seus generais. Um homem loiro de estatura mediana e olhos de um azul cinzento imediatamente se virou e respondeu ao chamado. Desligou o walkie talkie em que falava. Por meio do aparelho, mantinha contato com outros soldados a distância, na tarefa de cobrir todo o perímetro para impedir Rick Grimes e seus companheiros de passarem desapercebidos.
A japonesa aguardou enquanto o sujeito se aproximava. Enquanto isso, dezenas de seus soldados andavam de um lado ao outro, patrulhando a localidade, mantendo as fileiras de comboios seguras. A área já estava limpa de rastejantes há milhas de distância.
— Sim? — o homem designado curvou brevemente a cabeça, em um sinal de obediência e respeito. Hashimoto parou de sorrir.
— Traga o garoto pra mim. Está na hora — deu a ordem, e o homem loiro rapidamente seguiu suas instruções. Foi até o quinto caminhão da fila do comboio e entrou no compartimento posterior. Segundos depois, arrastava o filho de Rick Grimes pela terra batida, até o ponto da grama onde sua líder se encontrava parada.
Carl tinha uma bandagem grosseira nos olhos, já suja de sangue velho, manchando a gaze. Os esparadrapos lhe traziam uma aparência brutal. Seu único olho claro remanescente a encarava por todo o tempo, o temor evidente apesar de todos os esforços que o menino fazia para não demonstrar emoção.
Ela adorou aquilo.
— Eu não precisaria nem lhe testar — afirmou Hashimoto, estudando o garoto com olhos atentos. Tornou a sorrir. — Está estampado na sua cara que você é realmente forte. — Apontou para o curativo rudimentar.
— Você foi acordado pela minha equipe médica do seu estado comatoso. E está aqui. Sem desviar o olhar por um segundo sequer — constatou a líder do Exército, satisfeita.
Carl não disse nada. Continuava silencioso como um mudo. Como se ela tivesse arrancado sua língua. O pensamento lhe trouxe um sorriso ainda maior aos lábios.
— Mas o procedimento é o procedimento. Precisa ser igual para todos — falou a japonesa, traduzindo seus ideais de justiça. Os códigos do novo mundo. Onde a moral, a ética e outros preceitos ultrapassados haviam se transformado em... Outra coisa.
Carl Grimes nada falou.
— Você vai me ajudar a lidar com o problema... O problema do seu pai. — Ela fuzilou o garoto com o olhar. Pôde ver que os ombros de Carl tremeram ligeiramente, e ele se manteve silente.
Hashimoto lhe deu um soco potente no rosto, próximo ao curativo. Forte o suficiente para impor respeito, fraco o suficiente para não trazer tamanha dor ao garoto que pudesse comprometer seu estado de saúde ainda precário. Os médicos haviam lhe dito que não poderia forçá-lo ao extremo se quisesse tê-lo vivo.
— Quando eu lhe dou uma ordem, você deve dizer sim, para mostrar que compreendeu. Não vou falar duas vezes. Se não confirmar, talvez eu lhe deixe cego para tentar curar sua mudez — garantiu a mulher japonesa, movendo o rosto levemente para o lado. Seus olhos ainda estavam prensados no orbe claro do primogênito de Rick.
Carl piscou o olho restante.
— Sim — disse o garoto, hesitante. Ela sabia que não confirmava para valer. Mas tinha certeza que o menino colaboraria, quando chegasse a hora. Ele não iria querer fazer a outra escolha possível.
Hashimoto lhe deu um falso sorriso doce.
— Certo. Agora venha aqui. Quero lhe mostrar algo. — A mulher de traços orientais empurrou o garoto na direção de um dos caminhões ali parados, que um dia já fora do Exército americano. De longe, fez um sinal para o oficial Dupont, que compreendeu e voltou a ditar os pontos de vigília para os outros militares pelo walkie talkie.
Assim, ao estarem próximos do veículo, ordenou que o jovem Grimes subisse no compartimento de trás. Ergueu-se para dentro, em seguida.
— O que quer me mostrar? — falou o menino, com certa petulância. Hashimoto gostou daquele pequeno ato arrogante. Um dia, ela quebraria partes do espírito dele para fortalecê-lo, mas manteria aquela chama acesa. Aquela raiva. O ódio era uma força singular. Sabia perfeitamente disso.
— Já vai ver. — Hashimoto sorriu amplamente, demonstrando que preferia ver o garoto disposto a falar do que totalmente apático. Em seguida, abriu uma caixa de madeira comprida, bem cuidada apesar das fronteiras temporais e físicas que o objeto havia atravessado.
Retirou de lá um de seus tesouros mais preciosos, tocando-a com a mesma reverência desde a primeira vez que a vira. Quando ainda era apenas uma adolescente, tão jovem quanto o garoto diante de si.
Desembainhou com agilidade sua katana, a katana de seu ancestral Katsuo Hashimoto, o capitão da quinta divisão do Shinsengumi, um dos poucos sobreviventes da tropa durante o caos do fim da era Tokugawa. Seu sangue fluía quente, renascido em suas veias, pois ela era herdeira direta dele. Herdeira de sua força revigorada dia a dia dentro dela.
Todas as vezes que tocava em sua espada podia sentir o furor emanando daquela lâmina, do cabo, de cada detalhe da arma. Quando usava sua espada, se sentia mais viva do que nunca.
E, pelo visto, aquilo despertou um arroubo até mesmo em Carl Grimes. O garoto olhava estarrecido para a líder do Exército, seus lábios entreabertos, espantado com a visão da mulher japonesa portando sua katana precisamente desembainhada.
— Soube que há uma espadachim no seu grupo... Mas será que ela terá um nível de retalhadora? — Hashimoto fez a pergunta retórica, divertindo-se com a tensão e o temor ainda maior nos olhos claros do menino a sua frente. Abriu um largo sorriso, lembrando-se de como ela mesma se espantara ao descobrir seu potencial.
Seu real potencial.
[...]
“Mayumi-chan, você é mesmo uma graça!”
Hashimoto recordava-se do que seu professor de ciências políticas havia lhe dito naquele dia. Aquela recusa supostamente doce, disfarçada de elogio, quando pedira para fazer parte do grupo de debate. Era uma aluna inteligentíssima, com um boletim impecável, e ainda assim o sujeito tentava impedi-la de participar mais ativamente daquela aula.
Afinal de contas, a política não era um assunto de mulheres. Nenhuma de suas colegas parecia ter sequer interesse nas aulas, quanto mais vontade de se expor ao debate. Se seu pai soubesse disso, provavelmente se envergonharia. Jamais quisera ter uma filha mulher, apenas um único filho homem, para ajudá-lo a gerir seus empreendimentos e apoiá-lo como ela jamais poderia fazer. Por ser mulher.
Mesmo jovem, Mayumi Hashimoto tinha plena consciência da rejeição de seu pai. E aquilo lhe despertava um rancor profundo. Seu pai, um mero homem de negócios, que se satisfazia gerenciando uma empresa pequena... Ele jamais chegaria aonde ela sabia que poderia chegar. Hashimoto jamais permitiria que a condição feminina atrasasse suas ambições. Ela seria maior, melhor do que seu pai. Provaria a ele, ao Japão e ao mundo, se fosse preciso, que poderia ser tão boa quanto qualquer homem.
Em sua casa na cidade de Kyoto, a garota japonesa decidiu transgredir uma das regras de seu pai. Não mexer em um dos armários do escritório, onde ele guardava documentos e objetos de ordem particular.
Mayumi Hashimoto dirigiu-se até aqueles aposentos, achando a chave guardada debaixo de um dos tapetes de bambu.
Em seguida, abriu o armário proibido. Chocou-se, de imediato, com o conteúdo dele.
Em uma das prateleiras, havia inúmeros retratos antiquíssimos, com legendas comprovando que representavam um de seus ancestrais, Katsuo Hashimoto. Com um uniforme azul e branco, típico de uma ordem de espadachins japoneses que ela já estudara no colégio. Além deles, a garota reparou em gravuras de pintores famosos, alguns até mesmo ocidentais: desenhos de sua tataravó, Harumi Ishibashi, uma gueixa famosa durante a Era Meiji.
Por fim, vislumbrou numa prateleira solitária um único objeto. Uma caixa comprida de madeira bem conservada.
A jovem Hashimoto a abriu. Tornou a ficar boquiaberta, assombrada. Ali dentro, estava guardada uma espada katana de centenas de anos. O valor daquele objeto era inestimável.
A espada de Katsuo Hashimoto.
— Seu pai se envergonharia do que está fazendo. — Mayumi escutou a voz de sua mãe, e quase deixou a espada cair pelo susto. Estava tão absorta com aquelas descobertas que nem sequer percebeu sua aproximação.
Olhou para ela, reparando no quanto se tornava cada vez mais parecida fisicamente com sua mãe. A beleza comum e ordinária das mulheres Ishibashi.
— Mas eu não vou contar. Acho que você já está na idade de saber sobre... Certas coisas — admitiu sua mãe, misteriosamente. Chegou ainda mais perto da filha, sentando-se de joelhos ao chão, tal qual a jovem Hashimoto fazia.
— Quais?
— Você é uma descendente direta de Katsuo Hashimoto, o capitão da quinta divisão do Shinsengumi. Como já deve saber, os membros da tropa Shinsen tinham a missão de proteger a cidade de Kyoto dos monarquistas, até ocorrer a Restauração Meiji, na segunda metade do século XIX. Eram conhecidos como os Lobos de Mibu, que fizeram Kyoto tremer de terror com suas técnicas fatais na espada e um espírito que sobrepujava o medo da morte. O Shinsengumi foi certamente o último, o maior e o mais forte grupo de espadachins da história do Japão — sua mãe lecionou brevemente.
— Quando estudei a respeito no colégio, não havia gravuras nos livros. Eu tinha essa desconfiança, mas não tinha certeza de que o “meu” Katsuo Hashimoto era mesmo este Katsuo Hashimoto. Nosso sobrenome e este nome não são incomuns, apesar das contas baterem — a jovem se referiu ao seu ancestral. — Mas meu pai jamais se interessou por kenjutsu. É a primeira vez que vejo desenhos desse parente. Por que ele esconderia tudo isso? — Mayumi não compreendia.
— O Shinsengumi perdeu a disputa. Os monarquistas venceram. Depois da Restauração Meiji, esta parte da história tornou-se... Obsoleta — afirmou sua mãe, olhando com austeridade para a filha. — Seu pai não gostaria de ser comparado com um grupo perdedor.
— Como assim, perdedor?! — duvidou a jovem. — Katsuo Hashimoto deixou marcas na história! Seu passado é estudado por pessoas de todo o mundo! — Piscou os olhos, sentindo um súbito orgulho por aquela relação de parentesco. Seu sangue não era apenas valoroso por ser tataraneta de uma artista reconhecida.
— Abaixe o tom de voz — ralhou sua mãe, rígida. — Ser famoso não significa que não perdeu. A guerra Boshin retirou o poder do Xogunato, e, consigo, o que poderia restar dos ideais do Shinsengumi. — Era uma verdade dura de ouvir.
— Qual era o estilo de luta dele? — Hashimoto indagou, curiosa. — Eu gostaria de aprender. — Olhou cobiçosa para a espada.
Sua mãe forçou-a a encará-la outra vez. Seus olhos escuros estavam muito sérios.
— Não vai. Você é uma mulher. Vai agir como uma — asseverou a mãe, sem aceitar subversão da parte de sua filha. — O estilo dele era o Tennen Rishin Ryuu, no qual foi treinado.
Mayumi continuou em silêncio. Ainda mais rancorosa. Como sua mãe aceitava se submeter àquelas regras estúpidas?
— Você pode ser... Forte, sendo mulher. Como sua tataravó. — Indicou as gravuras em um gesto delicado.
— Minha tataravó era apenas uma gueixa — desdenhou a garota. Sua mãe lhe deu um olhar ainda mais incisivo.
— Apenas uma gueixa? Não seja idiota — rebateu, surpreendendo a jovem Hashimoto com sua rispidez. — Uma gueixa era uma posição de prestígio invejada na época dela. Não de mera fama. Ela entretinha políticos, pessoas de autoridade, pessoas realmente importantes e sabia de tudo o que acontecia no país. Até mesmo no mundo. Foi desejada, admirada e amada por homens que decidiam destinos de nações.
— Mas não era um deles. Não decidia nada. Era um objeto — teimou a jovem. O olhar de sua mãe tornou a cintilar.
— Será mesmo que não? — duvidou a mais velha. — Quando crescer, Mayumi, vai aprender que o poder de uma mulher vai muito além de sua aparência. Sua tataravó, por exemplo. Tinha os nossos traços. Somos mulheres bonitas, mas não temos nenhum tipo de beleza divina. A beleza pode ser construída de dentro pra fora. Pelo poder, pela confiança que a pessoa transmite. Sua tataravó era magnética, podia parar homens com um mísero olhar — garantiu a mãe.
— Pense nisso, filha — falou com carinho a descendente de Harumi Ishibashi. — Você tem a força dos dois no seu sangue. Use isso sabiamente. Homens e mulheres têm lugares diferentes. Você não pode mudar as estruturas do mundo. Mas você pode... Aproveitá-las ao seu favor — sugeriu sua mãe, retornando a mesma fala dúbia do começo daquela conversa.
Depois disso, a jovem Hashimoto foi compelida a guardar tudo o que mexera, além de esconder a chave outra vez e retornar para seu quarto para estudar. Assim que sentou em sua escrivaninha, abrindo seus livros de escola, já havia tomado a decisão.
Ela era forte. Era uma herdeira da força de dois nomes importantes do Japão.
Se o mundo fosse contra ela, contra seus objetivos, não importava. Poderia ser um trabalho de anos. Ela seria grande. Seria tão reconhecida quanto seus ancestrais. Pois ela estava disposta a tudo.
Sabia que não iria perder.
****
— O que ele estará aprontando lá em cima? — Rebecca ouviu Billy perguntar, mencionando Tucker. O caipira estava sentado ao seu lado. Dividiam algumas tangerinas que levaram na viagem, naquela jornada rumo a um destino totalmente imprevisível.
Desde que saíram, no dia anterior, todos se mantiveram em silêncio. Raramente falavam, apenas para indicar mortos-vivos atrapalhando o caminho, ou guiar as direções certas até Wyoming County, em West Virginia.
Faltavam poucas milhas, já estando na metade final da viagem. Portanto, se permitiram descansar o melhor que podiam, invadindo uma casa vazia de uma cidade das fronteiras do estado da Virginia. Becky a olhara no mapa, mas nem sequer se lembrava do nome.
— Não faço ideia... Mas é melhor continuar evitando o pobre coitado. Queremos passar a impressão de que vamos entregá-lo porque somos uns filhos da puta. — A jovem loira sorriu, reparando que Billy demorou a retirar os olhos de seu rosto.
— Foi difícil fazer tudo isso. Mas acho que o mais difícil ainda está por vir — confessou Billy Ray, soltando uma expiração exaurida. Rebecca o olhou com cuidado.
— Não gostei de ter de espancar ele. — Apontou com o indicador para o andar de cima da casa. — Coitado, ficou com o olho tão roxo que parece o Beetlejuice. — Ela deu um sorriso amarelo. — Mas precisamos manter a farsa... Cada detalhe é importante — reiterou a garota de cabelos dourados.
— Eu fico imaginando... Becky, vou ser sincero. — Billy pigarreou, sentando-se de forma a ficar defronte a jovem, que piscou os olhos, aguardando. — Eu... A cada segundo que passa me dói demais saber que você resolveu vir comigo, se meter nesse rebu* e enfrentar essa japonesa metida a égua do cão**. Fico... Fico doido com isso. Mas talvez... Por mais egoísta que isso pareça... Por mais fraco... Talvez eu não fosse capaz se não tivesse você aqui comigo. Talvez me acovardasse. Sou um bostinha — admitiu Billy Ray, sem jeito.
Becky o fitou ainda mais profundamente.
— Você vai parar com isso agora. Não vou deixar você entrar nessa onda de vitimização outra vez — alertou, falando sério e fazendo graça ao mesmo tempo. Segurou uma das mãos do homem do Alabama. — Estamos juntos nessa. Até o fim — assegurou, corajosa.
Billy fez menção de dizer algo, mas Gable o cortou.
— Sabe... Eu estou muito decidida nisso. Precisamos cair de cabeça nessa história. — Apertou a mão de Billy Ray com mais firmeza.
— Por tudo. Por tudo o que eles fazem. Por aqueles Wolves que quase me estupraram. Pela vergonha que eu senti. Pelo terror. Pela humilhação. Por toda a crueldade... Temos de dar o próximo golpe nós mesmos. — Ela respirou fundo. — Esses Wolves que estavam a mando dela. Eles tentaram me violentar. Tentaram comer o Tucker, coitado! — Apontou para cima com a outra mão de novo. — Eles tentaram estuprar a Aya, pelo que eu soube. Conseguiram fazer ela ficar parcialmente nua até a matarem. E iriam estuprar a outra menina. A que veio do seu Aquário — lembrou de Peggy.
— Eu jamais vou poder aceitar, nem por um segundo que seja, uma mulher na chefia de um grupo que estupra, violenta, humilha... Enfim, que destrói outras mulheres, e ela não só deixa como incentiva essas atrocidades! Ela fala de força, mas ela é a pior de todas, provavelmente é a que mais tem prazer ao destruir tudo... Ao destruir todos nós. Todas nós, mulheres como ela! — Rebecca sentiu a raiva subir pelo seu corpo, esquentando-o.
— Ela fala de reconstrução da sociedade, mas tudo o que faz é quebrar tudo! Ela só quer o caos! Jamais vou respeitar uma estrutura de poder tão fraca, na verdade, que se alimenta de ódio, de perversão e de maldade. Isso vai virar contra ela! É só questão de tempo. Do que podemos fazer — Rebecca falava com uma certeza singular.
— Nós vamos mostrar para ela, aquela verdadeira maluca, o que é força de verdade. No meio daquela fuça de olhos puxados — finalizou, quase bufando de cólera. Teve coragem o suficiente de usar o termo referente a loucura, aquela palavra que tanto era estigmatizada para si.
Billy Ray parou de segurar sua mão e começou a aplaudir em silêncio. Abriu um largo sorriso para ela, e Becky se sentiu subitamente tímida. Será que tinha exagerado?
— Rebecca... Eu não sei nem o que dizer.
— O que foi? Não me faça ficar com vergonha do que disse — pediu a garota loira, o fitando de forma mais arisca.
— Vergonha? — Billy riu. Becky franziu as sobrancelhas.
— Eu não sei o que dizer. Você... Você falou tudo o que eu poderia pensar, e mais, apesar de soar um tantinho racista no final. — Ele fez um gesto com os dedos como se simbolizasse “só um pouco”. Rebecca soltou um riso seco pelo nariz.
— Talvez você tenha até mais razões do que eu, razões dignas, decentes para derrotar o reinado de terror daquela mulher. Para ir até lá, com tanta coragem. E eu, que vou numa missão pessoal... Uma tarefa por um motivo egoísta, no final das contas. Aprendo com você todos os dias, Becky — confessou Billy Ray, humilde. — Você é corajosa, esperta, sensata, ciente da realidade de uma forma que talvez eu não consiga nunca ser. Fechado nas minhas picuinhas. — Billy sorriu de forma melancólica.
— Você é a mulher que eu mais admiro e já admirei nessa vida. Você é maravilhosa, menina — disse o caipira, ajeitando seu chapéu de cowboy na cabeça. Os dois trocaram olhares significativos, ao passo que, depois disso, era Rebecca que não tinha palavras.
— Cale a boca, seu caipirão. — Ela abriu um sorriso de alegria legítima. Jamais se sentira tão lisonjeada. Tão querida. Admirada. Por muito tempo, Rebecca achou que aquilo seria impossível.
Mas agora acontecia ali, com aquele homem que a conquistou em uma virada do destino. Imprevisível, como o que poderia acontecer a partir disto tudo.
Enquanto Billy Ray franzia o cenho, surpreso, Rebecca se jogou nos braços dele, o beijando com uma urgência que não seria parada por nada no mundo. O homem logo correspondeu, abraçando-a com força, a agarrando com uma mistura de destreza, cuidado e ânsia tamanha que ela ainda não havia testemunhado.
Ao se afastar dela, Billy se levantou erguendo a própria Rebecca do chão, de mãos dadas com ela. Becky teve apenas tempo de lhe dar um curto sorriso, ao passo que o homem a puxou para o próprio colo, levantando-a em seus braços pelas costas e pelas pernas.
Rebecca deu uma risada alta, feliz, genuinamente feliz, enquanto Billy Ray abriu a porta de um armário de vassouras vazio julgando que ali havia um quarto. A expressão surpresa no rosto dele fez a garota loira rir com gosto.
— Vai ter de servir — disse Billy Ray, com uma certeza resoluta que continuava a surpreender Rebecca. Colocou a jovem loira de pé com delicadeza, e logo passaram a entrelaçar os lábios e os corpos outra vez. Rebecca sentia a sofreguidão do desejo por aquele homem apenas aumentar, enquanto sentia os dedos dele agilmente despindo sua blusa, sua calça, todas as suas roupas. Billy não só compreendia seus pensamentos, sua forma de agir e suas vontades, como compreendia perfeitamente os desejos de seu corpo. O entrosamento entre eles passou da parceria que tinham para uma realização carnal plena.
Em pouco tempo estavam desnudados. Becky sentia ondas e ondas crescentes de desejo sexual tomarem seu corpo por completo. Beijava aquele homem que a prensava com igual libido contra a parede daquele quartinho apertado, enquanto ele a erguia pelos glúteos e ela facilmente se encaixava em seu corpo, puxando-o para si com todas as suas forças. Unidos. Totalmente. Finalmente.
Falou aos ouvidos dele, segurando-se em seus ombros, sentindo-o dentro de si em estocadas cada vez mais firmes, decididas, deliciosas de sentir, enquanto enlaçava suas pernas em volta da cintura do homem do Alabama com uma flexibilidade e força surpreendentes.
— Eu tenho meus truques do circo — Rebecca sugeriu aos seus ouvidos com toda a lascividade que podia reunir. Billy soltou uma risada leve, curta, entrecortada pelo impulso irrefreável de seu desejo por aquela garota.
Os dois continuaram deliberadamente presos naquele enlace, naquele prazer livre, sem medo, sem angústia, sem aflições para perturbarem seus corpos, suas mentes, seus corações. Rebecca chegou ao êxtase primeiro, sentindo cada músculo de seu corpo relaxar. Billy Ray não demorou muito e logo se satisfez, soltando um ruído gutural de regalo ao alcançar o ápice do deleite.
Ela ainda o tinha dentro dela, seu peito junto ao dele sentindo os dois corações a ribombar num mesmo ritmo. Aquele havia sido o momento mais genuinamente sensual e também mais romântico de sua vida.
— Vamos nos vestir e ver se o pobre coitado não se enforcou — falou Rebecca, sussurrando aos ouvidos de Billy e depois mordiscando sua orelha. Escutou-o arfar.
— Não quero sair daqui nunca mais — respondeu Billy Ray, sincero. Becky deu uma risada, soltando-se de seu corpo, ainda o enlaçando pelo pescoço.
Deu-lhe um beijo delicado, devagar.
— Eu sei. Por isso vamos fazer nosso melhor para que tenhamos mais vezes — disse Rebecca, a realidade dura retornando a existir entre eles.
Ambos se vestiram, abrindo a porta do depósito de vassouras apertado, e passaram a subir as escadas próximas. Ao acharem Tucker, Rebecca soltou uma exclamação de assombro.
— UAU! Você estava fazendo isso o tempo todo, drogadinho?! — perguntou, incrédula. Billy seguiu atrás de si, também se deslumbrando com a visão.
Tucker havia achado algumas latas de tintas usadas por grafiteiros para pintar muros e paredes. Havia desenhado nas paredes do quarto a frente de sua casa em Alexandria, com um pequeno gramado, a varanda de entrada, as cores e formas de todos os detalhes, emoldurados pelas árvores próximas
Havia uma placa que não existia na entrada da casa naquela pintura, porém. Com dizeres escritos: “Tucker Hayes esteve aqui”.
Rebecca sentiu a compaixão pelo garoto aumentar ainda mais. Aquilo era muito simbólico. Ele parecia se apegar a cada minuto que lhe restava de vida, o que era evidenciado naquela arte. Lembrando-se de sua casa. Onde morava com seus amigos. Seu verdadeiro lar.
Hashimoto não tiraria aquilo dele. Becky não iria jamais permitir.
— Isso é... É lindo, Tucker — elogiou Billy Ray, coçando a cabeça, admirado com o talento artístico do rapaz.
— Obrigado — agradeceu o garoto, levantando os ombros, sem jeito.
— Você quer me fazer chorar, não é? — Becky disse, com lágrimas nos olhos. Tucker deu um sorriso um tanto atrapalhado. Rebecca riu, sentindo-se realmente unida aqueles dois, cada um por um motivo diferente.
— Só faltou um detalhezinho. Mas é muito importante! — Ela pegou a lata de tinta preta da mão do garoto e começou a escrever na placa do desenho.
— Hey! — Tucker Hayes se pôs a reclamar, mas logo ela já havia terminado.
Ao fim da placa, ela completou com os dizeres:
“FODA-SE A HASHIMOTO”
Os três amigos riram, compartilhando um possível último momento de esperança... Juntos.
****
A manhã se erguia, lenta, morosa, arrastada como a velocidade daquele trailer RV. Seus pensamentos estavam a mil, incapaz de se focar em um só por vez.
Como está o grupo de Daryl? Terão sido bem sucedidos? Será que envenenaram a água a essa altura? Tucker já terá encontrado Hashimoto? Será que ela descobriu alguma coisa? As perguntas na mente de Rick Grimes eram muitas, e ele não sabia o que esperar daquela mulher. Era uma psicopata, uma psicopata perigosa, com inúmeros seguidores.
Ele olhou para o lado, alerta, ao sentir uma mão suavemente se colocar acima da dele.
Michonne o encarava solícita, atenta, companheira como sempre fora. Seus olhos escuros diziam mais do que as palavras poderiam, enquanto ela enlaçava seus dedos com sua mão, como se, por meio daquele gesto, tentasse lhe passar alguma tranquilidade, alguma esperança, por menores que fossem as chances.
De alguma forma, ela conseguiu. Rick sentiu-se um pouco menos atormentado ao toque daquela mulher, franzindo as sobrancelhas ao constatar aquilo. Era novo... E ao mesmo tempo não era.
Subitamente, Abraham pisou no freio com brusquidão. Michonne caiu por cima de Rick, que foi lançado para o lado, desequilibrando-se por momentos ao seu corpo tombar pelo banco em que se sentava.
— Que merda foi essa? — Rosita reclamou ao lado do namorado, nervosa. Abraham apenas apontou para a frente, em uma direção ao noroeste da floresta daquele parque ambiental.
Rick Grimes seguiu o que ele indicava, e logo a pouca calma que Michonne lhe transmitiu perdeu para a tensão completa.
Ao longo da estrada de terra, inúmeros caminhões formavam um comboio do Exército americano. Apropriados pelo Exército de Wyoming County.
O policial viu Heath pegar o walkie talkie, pois havia recebido um sinal. Tenso, o jovem homem mal esperou e já ligou o aparelho, Rick Grimes podendo soltar apenas um “não” entrecortado.
— Finalmente! Já estava cansada de esperar! — A voz feminina de tom grave de Hashimoto se fez ouvir pelo aparelho. — Diga oi para seu pai, Carl — demandou a líder do Exército, fazendo o sangue de Rick Grimes gelar. Sentiu que seu coração pararia naquele momento.
— ...Oi.
A voz fraca de Carl saindo pelo receptor de chamadas eletrônicas quase fez Rick desabar. Maldita. Mil vezes maldita. Era um alívio saber que seu filho estava vivo, mas, ao mesmo tempo, começou a imaginar as diversas barbaridades que aquela mulher poderia ter feito com ele. Teria destruído Alexandria? Carl vivo seria uma prova disso? De que não havia motivos para lutar, porque não teriam para onde voltar? Ou era uma forma de enlouquecer Rick...
...Apenas para atingi-lo enquanto pai?
— Vocês vão fazer o seguinte — Hashimoto começou a ordenar. — Vão sair do trailer com cuidado, cada um com as armas levantadas, bem visíveis. Qualquer movimento em falso, acho que já sabe o que acontece, certo, Rick? — a mulher deu a entender que Carl pagaria pela resistência deles.
— Nós só vamos conversar. Por enquanto. — Rick podia imaginar o sorriso cruel dela ao ouvir aquelas palavras saindo do comunicador. Hashimoto desligou a chamada, e ele sabia que não tinha outra escolha.
Heath, Rosita, Spencer, Abraham, Tara, Aaron e Michonne o olhavam, esperando instruções. Esperando decisões.
— Vamos fazer como ela está falando. Por enquanto — reiterou a última frase, sendo o primeiro a sair do RV, seguido da espadachim. Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. De ódio. De dor pelo seu filho. De medo.
Os soldados de Hashimoto saíram da mata fechada como fantasmas subitamente visíveis a olhos nus. Todos usando roupas camufladas, cada um portando de alguma forma os ideogramas do título da japonesa.
Eram cerca de cinquenta cercando oito pessoas. Qualquer resistência seria suicida. Tudo seria possível vindo de Hashimoto, e saber que ela tinha seu filho nas mãos lhe trazia uma angústia que dificultava até mesmo a regularidade de sua respiração.
— Vocês já sabem como funciona. Todos de joelhos, vamos fazer um círculo. — A japonesa caminhou até o grupo de Rick Grimes, enquanto seus soldados arrancavam as armas dos sobreviventes de Alexandria. Carl a seguia de cabeça baixa, com seu chapéu de xerife. Grimes não conseguia ver os olhos do filho, e sua angústia apenas aumentou.
— O que você fez com a comunidade? — Rick perguntou, tentando soar o mais frio possível. A maldita segurava Carl pelos ombros, quase como se o acarinhasse.
— Nada. Está inteira. Com alguns integrantes a menos. — A psicopata abriu um sorriso amplo, enquanto um de seus soldados jogava pelo chão da estrada terrosa as cabeças de Tobin e de algumas crianças da comunidade. Mordendo o ar, olhando contemplativas para o céu, seus olhos vazios de emoção como a líder do Exército de Wyoming County e todos os seus militares. Tobin, pelo visto, morrera tentando proteger aquelas crianças.
Rick Grimes sequer sentiu pena do homem. Ou dos pequenos. Nem se sentia culpado por suas mortes, tampouco pela falha do plano. Só conseguia pensar em seu filho no momento. E no quanto odiava aquela mulher na sua frente. Mais do que odiou qualquer pessoa em vida.
Um soldado o forçou a ficar de joelhos, após todo o seu grupo ser contido. Mesmo naquela posição subalterna, o policial não tirava os olhos de Hashimoto. Era uma forma de provar que não iria abaixar a cabeça. Ela teria de matá-lo.
— E agora eu faço uma pergunta: onde estão Daryl, Mavelle, Carol, Eugene e Sasha? Meus soldados não os encontraram na comunidade. E, acreditem, viram todos os outros — confirmou a japonesa, e as cabeças de errantes eram uma boa comprovação do que falava.
— É isso o que virou agora? Uma assassina de crianças? Devolva o meu filho! — Rick ordenou no mesmo tom imperativo da líder do Exército. Hashimoto abriu outro sorriso largo, soltando uma gargalhada. Alguns de seus oficiais riram junto.
— Você não manda em nada aqui e em nenhum lugar, Rick Grimes. Por sua distorção da realidade, por sua culpa, eles morreram. E outros morrerão. É uma questão de justiça. — O sorriso se mantinha em seu rosto. — Mas tocou em um ponto importante. É verdade que sou uma assassina. Todo o meu Exército é. Vocês são também, ou não teriam sobrevivido até agora. Negar essa realidade é insanidade — afirmou a japonesa.
— Contudo, não sou uma assassina de crianças. E o que eu quero com seu filho é o mesmo que quero com vocês, eu ainda lhes darei uma última chance. Uma chance de escolher certo. A vida ao invés da morte. A força ao invés da fraqueza. Mas... Vocês mataram alguns dos meus na estrada. — Hashimoto passou a varrer os olhos em todos os rostos do grupo de Grimes.
— Eu vou lhes dar uma chance de me dizer quem foram os culpados, ou vou cortar a garganta desse garoto e derramar o sangue na sua cara. — Ela apontou para Rick Grimes, depois desembainhou uma espada katana que tinha consigo em sua cintura. Grimes exclamou, incapaz de se conter, ao ver a lâmina tão perto do pescoço do filho. Carl mal se movia. Finalmente ergueu o rosto, forçado pela espada.
Rick viu que o seu único olho remanescente estava vazio de expressão. Como se estivesse perdido em pensamentos. Em outra realidade.
Controlado de alguma forma. Drogado, talvez.
O nó em seu peito explodiu em uma fúria dolorosa. Queria se levantar e arrancar a garganta daquela mulher nos dedos. Matá-la, torturá-la, fazê-la sofrer tudo o que fizera com seu filho.
— Eu não sei do que está falando — mentiu Spencer, se levantando. Os soldados de Hashimoto fizeram menção de segurá-lo, mas ela levantou uma palma, mais rápida do que a reação deles. Queria ouvir, pelo que Rick pôde compreender do gesto.
— Mas eu não me importo. Pode me matar. Desconte suas frustrações em mim. Isso não vai mudar nada. Se você acabar nos matando a todos, não torna suas mentiras verdade. — O filho de Deanna corajosamente se ergueu, confrontando-a naquele discurso preciso.
— Minha mãe ergueu a nossa comunidade com base em ideais verdadeiros. Com base numa justiça real. Com base na democracia, na amizade, na valorização do que a humanidade tem de melhor. E não no medo, no terror, na perversão e na crueldade, como você faz. Você diz que é forte e que vai nos ensinar a ser fortes, mas só quer nos enfraquecer. Nos transformar em monstros, sombras humanas como você. Você pode tê-la matado, mas não matou o que ela nos ensinou. Me ensinou. Pode me matar, e não vai destruir isso. Ideias são a prova de balas. — Rick se surpreendeu com a bravura e a eloquência de Spencer.
— Você está quebrada. Seus soldados estão quebrados. E, um dia, todos vocês irão ruir. Depois de tentar destruir tudo ao redor, vão destruir o que resta de vocês próprios. Vocês cavaram sua própria cova. E o que sobrar do mundo vai agradecer e comemorar seu fim — Spencer Monroe terminou seu pronunciamento.
— Parece que alguém puxou a mãe. — Hashimoto sorriu novamente, sem alegria alguma. Tirou a lâmina do pescoço de Carl e andou até Spencer, outra vez forçado a se ajoelhar. — E vai dizer adeus da mesma forma que ela. Negando a verdade até o fim. De joelhos. Perdendo a vida para mim — Hashimoto sussurrou as últimas palavras, mas Rick estava próximo o suficiente para escutar. Sentiu um calafrio de repulsa, horror e ódio subir por sua pele. No segundo seguinte, estava acabado.
A japonesa fincara a lâmina curva da katana no pescoço de Spencer, atravessando seu pescoço. O filho de Deanna tentou segurá-la com as mãos livres, cortando profundamente as palmas. Hashimoto a girou na garganta do rapaz, um símbolo de sua tirania calando uma voz democrática, esmigalhando suas cordas vocais.
O ruído gorgolejante que Spencer fez foi horrível de escutar, assim como sua morte chocante quase impossível de testemunhar. Ele durou segundos e logo faleceu, suas mãos soltando a katana e sua vida esvaída de seu corpo.
Hashimoto retirou a espada japonesa do pescoço do rapaz com agilidade, deixando-o quase intacto, exceto pelo buraco escavado pela lâmina. Ela sabia manejar aquela espada. Talvez melhor do que Michonne. Em seguida, fincou-a no cérebro do herdeiro da mandatária. Era o fim definitivo dos Monroe.
A líder do Exército de Wyoming County passou a limpar a lâmina da katana com o lenço escuro que usava ao pescoço. Era a única que se vestia de preto, toda de preto, diferente dos soldados.
— Só vou repetir uma vez: quem foi responsável pela chacina dos meus militares? — insistiu a japonesa, com uma frieza ímpar, como se tivesse matado uma formiga e não um ser humano.
— Eu. — Foi a vez de Abraham Ford se erguer. Rick sentiu tontura. Quantas mais mortes aguentariam? Quantas mortes teriam de carregar? O que infernos ele teria de fazer para se livrar daquela mulher terrível?
— NÃO! — Rosita implorou, seus olhos já se enchendo de lágrimas. Hashimoto caminhou decidida até Abraham. A mulher latina tentou se lançar para perto do companheiro, mas foi contida. Rick não conseguia ver aquela cena. Era mais fácil olhar para Abe Ford, confrontando Hashimoto com a mesma coragem de Spencer, do que para sua mulher, desesperada, como se alguém a estripasse e arrancasse nisso seu coração.
— NÃO, ABE, NÃO, POR FAVO... — Um soldado de Hashimoto socou Rosita Espinoza com tamanha violência que quase fragmentou seu maxilar. Foi forçada a se calar, mas seus olhos apenas choraram ainda mais.
— Eu sou um soldado também. E fiz o que fiz pelos meus — defendeu-se Abraham. — Não sei falar palavras bonitas como as do Spencer, então só digo uma coisa: faça logo o que quiser fazer comigo e deixe o resto do grupo em paz. Eu pago por todos. Estou disposto a isso — garantiu o soldado ruivo, sem abaixar a cabeça para a ditadora. Rick ficou ainda mais aflito e emocionado.
— Chupe meu pau, sua vaca japonesa maldita do caralho — complementou Abraham Ford com um sorriso torto. Hashimoto não pareceu sentir o insulto. Apenas desembainhou a espada que já havia guardado na bainha outra vez.
Abraham moveu o rosto na direção de Rosita.
— Rosie, não olhe.
Rosita gritou enquanto Hashimoto cravou a lâmina da espada no tórax de Abraham, golpeando-o com tamanha fúria e violência que abriu um buraco em sua barriga, cortando centímetros e centímetros do sujeito. Cortou para fora parte de seu intestino, o que levou Aaron, Tara e Heath a vomitarem, sem conseguirem suportar aquela cena grotesca. Alguns militares da japonesa riram.
Abraham morreu em silêncio, seu corpo tombando para trás.
Morreu realmente de cabeça erguida.
Em seguida, a mulher japonesa levantou sua pistola bobcat e atirou na testa do homem ruivo.
Rick piscou os olhos, se esforçando para se manter na realidade. Sua cabeça estava zonza, via flashes escuros ao longo da paisagem ao seu redor. Não desgrudava o olhar de Hashimoto, pois sabia que se voltar para Carl poderia ser fatal para o garoto. Aquilo era demais. Era crueldade demais. Era horrível demais para suportar.
— Vamos voltar a conversar então... — Hashimoto retornou a falar, parecendo quase entediada, como se matar Abraham daquela forma não a movesse de forma alguma. E realmente não movia. Sua psicopatia era evidente.
— Vocês vão me contar aonde estão Daryl e os outros. — A japonesa não precisava ameaçar mais. Já fizera o suficiente.
Ninguém se manifestou. Talvez pelo choque, pelo horror... Aquilo ia além do medo. Pareciam estar sem escapatória. O que quer que fizessem, poderiam morrer, a qualquer segundo.
Rick ficou tentado a falar. Ela poderia descontar em Carl. Mas a vida do garoto dependia daquilo. O único jeito de salvar seu filho seria derrotando aquela mulher. O que ele poderia fazer?
— Eu quero lutar com você — Michonne subitamente falou. A primeira manifestação da espadachim.
Hashimoto encarou a mulher negra, muito interessada. Pareceu se empolgar.
— Você diz que é forte. A mais forte de todas. E por isso diz que tem de nos liderar. Então eu quero a prova disso. Quero ver se pode me vencer — Michonne lançou o desafio. Um silêncio retumbante tomou conta daquela parte da floresta. Hashimoto e a amiga de Rick Grimes se fitavam, já batalhando uma contra a outra em apenas um olhar.
Michonne foi genial. Hashimoto não poderia recusar. Poderia soar como fraca na frente de todo o seu Exército. Ela não tinha escolha.
— Tenho que dizer que estava esperando por isso já há algum tempo — afirmou a mulher oriental, sorrindo com sadismo. — Não interfiram. — Ela olhou para o seu Exército. — O que quer que aconteça, não interfiram. Matem qualquer um deles se tentarem se meter. Mas eu lido com ela. — Apontou para Michonne. — Sabem que eu vou ganhar — sorriu para a mulher negra, totalmente confiante.
A japonesa e a espadachim de pele negra se encararam, colocando-se frente a frente na estrada de terra, com alguma distância de metros. Um soldado puxou Carl pelos ombros, contendo o menino. Era impossível ter qualquer noção do que as duas pensavam, seus olhares frios como neve.
— Pode vir — Hashimoto disse, adotando uma postura curvada. Uma mão por trás do cabo da espada, como se a segurasse com os dedos pela capa, a outra próxima da parte do cabo utilizada para o saque da arma. Rick não conhecia sobre técnicas de luta com espadas japonesas, mas pôde atestar que ela pretendia matar Michonne de um golpe só. Assim que desembainhasse a katana.
Michonne correu na direção da mulher, ágil como uma pantera. Rick mal pôde vê-la correndo, veloz como uma sombra, e em segundos as espadas se chocaram, um ruído tilintante de metal contra metal gritando no silêncio.
Mas Hashimoto moveu-se para baixo, ainda mais ágil do que Michonne. Rick piscou os olhos, e ao abri-los novamente a japonesa estava mais a direita da mulher negra, cortando seu tronco com um golpe lateral.
Michonne caiu ao chão, de joelhos, pela força do contra-ataque da líder do Exército de Wyoming County. Muitos de seus soldados urraram pela vitória, enquanto Tara, Aaron, Heath e Rosita exclamaram temerosos.
Uma poça de sangue se formava embaixo de Michonne e em suas roupas. Suas costas tremiam em sinal de que ela ainda respirava, e Hashimoto guardou a espada na bainha.
— Eu não vou te matar agora. Você tem potencial. Pode se tornar mais forte. Mas isso não é seu. Não é da sua cultura. Não é do seu sangue. — Apontou para a espada katana de Michonne no chão de terra.
— Jamais conseguiria me derrotar assim. Sobreviva ao golpe, e posso te treinar — garantiu a japonesa, voltando-se para o filho de Rick.
— NÃO! — Rick gritou, finalmente falando outra vez.
— Carl, aponte a arma para o seu pai. — Hashimoto deu uma pistola bobcat nas mãos do menino. Quase que de imediato, ele fez o que foi pedido.
Rick não soube como reagir. Estava acabado. Era assim que tudo terminava.
Mergulhou seus olhos claros no olho de Carl, idêntico aos dele.
— Agora aponte para a Michonne — ordenou a japonesa. Carl Grimes seguiu suas ordens. Todos prenderam a respiração.
— Agora aponte para seu pai de novo — exigiu a mulher perversa. O garoto apenas seguia seus pedidos como uma marionete em suas mãos.
— Para cada um de seu grupo... — Carl Grimes obedeceu, seu olho focando-se no olhar chocado de todos os que eram amigos de Rick. — ...E agora vamos embora. — Hashimoto sorriu para todos os sobreviventes, se aproximando com Carl de seu Exército.
— Rick Grimes, os termos são os seguintes! — Bradou a mulher japonesa à distância, subindo em seu comboio. Alguns soldados jogaram as armas de Rick e do grupo pela estrada. Não as levariam.
— Você vai esperar o raiar do dia seguinte para chegar na minha base! Se chegar um momento antes, seu filho morre. Se voltar para Alexandria, seu filho morre. Se for para qualquer outro lugar que não a rota que sei que estava tomando para chegar até mim, seu filho morre. Nós acabamos de começar um incêndio nos limites da floresta, então é melhor ir andando e achar algum lugar para se esconder antes do anoitecer, pois provavelmente tudo estará queimado até então. Enterre seus mortos, ou se despeça como preferir! Nós mesmos vamos encontrar Daryl e os outros, não se preocupe! — assegurou ela, com ironia.
Rick Grimes rastejou até Michonne, como se tivesse sentido todos os golpes. Spencer, Abraham, o corte em sua amiga... Como se tivesse sido ferido a si próprio.
— Vamos continuar a lutar! Vamos cuidar de você e vamos matar Hashimoto. Vamos salvar Carl. Eu prometo — garantiu a Michonne, segurando as mãos dela enquanto ela desmaiava por ter perdido tanto sangue.
Hashimoto estava a um passo de vencer. A um passo de tomar o que restava de sua sanidade mental.
Mas Rick Grimes iria até o fim. Se preciso, morreria lutando.

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