Hunter's Instinct
55 Episódio 55 - Misfits and Outlaws
Notas iniciais
Apenas um disparo preciso foi feito, e um cadáver caminhante solitário foi atingido diretamente em sua têmpora esquerda, despedindo-se em sangue pustulento. Calado para sempre.
Alexandria estava estranhamente calma naquela noite.
Sons de pássaros, insetos e animais noturnos eram audíveis ao longe, dentro dos bosques da comunidade e das matas que se delineavam próximas das muradas, contornando a comunidade em um frescor bucólico. Poucos mortos-vivos haviam sido encontrados rondando os arredores. Aquele pequeno e improvisado refúgio que tanto se dedicara a se reerguer após os recentes conflitos, passava, no momento, por uma espécie de maré de calmaria.
O tipo de calmaria que precede a tempestade.
Ela refletiu, franzindo as sobrancelhas. Nos últimos dias, seus pensamentos haviam sido quase todos escuros, sombrios, até mesmo fatalistas.
Arrancou a flecha do carniceiro que havia acabado de atingir, limpando o suor que escorria da testa. Olhou para cima, encarando o céu estrelado. Desde a tarde daquele dia não mais chovia. Logo depois, adentrou o portão, aberto por Padre Gabriel, seguida por Tara Chambler, Spencer Monroe e Abraham Ford, que a acompanharam naquela ronda de rotina.
A garota deixou seu olhar ir até a longa cadeia de árvores, seguida pelas montanhas próximas, que podia ver acima dos muros protetores de Alexandria. Aquilo a enraivecia. Toda a beleza mantida. O frescor da noite. A luz das estrelas. Todo o singelo encantamento da natureza se delineava, intocado, gelidamente indiferente a todo o horror que havia acontecido há tão pouco tempo. Sua imponência bela, desprendida dos vivos e dos mortos que se digladiavam pelo mundo, insensível a todo o sangue derramado... Chegava até mesmo a sufocar.
Somos muito pequenos mesmo.
Mavelle Berry limpou suas flechas, guardando-as na aljava encaixada em suas costas.
— Vai voltar para casa? — indagou Tara, próxima da amiga apreensiva. — Vou dormir na Denise hoje, ok? — Os olhos de Chambler pareciam encarar Mavie com cuidado excessivo, como se pisasse em ovos para conversar consigo. Era exatamente o tipo de zelo que a deixava ainda mais abatida do que já estava.
— Beleza. Já são o quê, umas...? — perguntou, sem fazer a menor ideia das horas.
— Dez e meia, por aí — respondeu prontamente Abraham, ajeitando o rifle de caça que pegara para aquela tarefa, arrumando-o na bandoleira transpassada em seu corpo. — Vou aproveitar e encher a cara como se não houvesse amanhã. Recomendo que façam o mesmo. Pode ser que não tenhamos mesmo outro dia — aconselhou o soldado ruivo, soturnamente, deixando ambas sozinhas.
— Eu diria que é melhor dormir cedo... — Spencer sugeriu timidamente, e Mavie reparou que ele moveu os ombros como se estivessem doloridos pelo esforço dos tiros. Não deveria estar acostumado com os coices da espingarda comprida que utilizara naquela sentinela.
— Vocês podem decidir o que quer que seja, mas nos deem licença que agora é nossa vez! — Os três restantes se viraram na direção da voz de Moritz Alvintzi, que falava com gentileza, mesmo naquele clima de tensão durante a espera. Ele seguia para cobrir o próximo turno de ronda, que duraria até a alta madrugada, junto com Glenn e Pascal, um rapaz magricela, moreno, com a pele bronzeada e de vinte e poucos anos, recém treinado em tiro ao alvo e combate corpo a corpo por Rosita.
— Vá pra casa. Já estão todas descansando — Glenn Rhee recomendou a Mavie Berry ao se aproximar da amiga, segurando seu ombro com gentileza. Ela apenas anuiu com a cabeça, sem falar palavra alguma. Não era de seu feitio ficar tão calada por tanto tempo. Mavelle tinha uma personalidade mais aberta, divertida e extrovertida, mas, depois de tudo o que ocorrera... Depois da forma como testemunhara a trágica morte de sua avó, ela sentira como se algo se apagasse dentro dela. Algo que poderia demorar muito tempo para se acender outra vez.
Para piorar, seus amigos a tratavam com todo esse cuidado exagerado. Ela compreendia que se tratava apenas de uma forma de demonstrarem afeição, mas ela jamais gostara de receber esse tipo de tratamento especial. Preferiria que esbravejassem com ela, reclamassem ou lhe dissessem na sua cara que estavam realmente preocupados com seu humor deprimido.
Aparentemente, quem sabia lidar melhor com sua situação atual fora quem mais a surpreendera nesse sentido: Daryl Dixon. Por mais que o caçador carregasse por si só inúmeros problemas, dilemas e controvérsias emocionais dentro dele, e não fosse exatamente o que se consideraria um expert nas relações humanas... Ainda assim, o outro arqueiro parecia compreender perfeitamente o que se passava na mente de Mavie, conseguindo chegar mais perto de extrair emoções diferentes do que a tristeza do luto irrefreável que a garota irlandesa sofria.
Mavelle, como sempre fizera com os piores desafios que já enfrentara em vida — a terrível relação que tinha com o pai e a traição montada por ele e por seu antes noivo, Jeffrey —, escolhera o caminho mais fácil para não fraquejar: não pensar nisso, o melhor que pudesse. Assim, se dedicara a tarde e a noite inteira aos mais diversos afazeres na comunidade, fosse auxiliando Rosita nas aulas de tiro e combate, além de ajudar Denise na enfermaria a cuidar de Carl, fosse cumprindo turnos e turnos seguidos de vigia e rondas, pois matar carniceiros e estar em contato com a adrenalina pura, a faziam esquecer por alguns momentos de todo o mal que vivenciara.
Sabia que em algum momento a vida lhe cobraria que realmente sofresse a tristeza por Annie, de forma dura, agonizante e intensa, como deveria ser. Mas não poderia ser naquele momento. Naquela iminência de uma guerra contra o Exército de Wyoming County, as questões pessoais de cada um não eram mais relevantes, e ela sabia disso.
Mesmo que seu coração estivesse destroçado em mil pedaços.
Assim, ao retornar para casa, Mavie se perdia em seus pensamentos, tentando encontrar algo para distrair a si mesma de seus próprios tormentos. Imaginava que poderia passar aquela noite em completa solidão. Daryl não gostara nada da sugestão que ela dera durante a reunião daquela manhã, de ir sozinha com o grupo de infiltradoras envenenar o rio de abastecimento do Exército de Hashimoto. Ele devia saber que não era algo pessoal, apenas uma forma que Mavelle encontrara para sobreviver: não pensar. Apenas agir.
Mas a irlandesa estava errada a respeito. Logo que abriu a porta de entrada, deu de cara com a figura do caçador arqueiro, a balestra pendurada em um dos ombros, a expressão alerta e fechada, os braços cruzados apoiados em um balcão de madeira. Apenas uma luz estava ligada, do lustre da sala de estar anexa. Sem sinal algum de Maggie ou de Peggy.
Bastou um olhar para ver que Daryl não a deixaria em paz por sua decisão.
— Você está com uma cara de cansada do caralho — o arqueiro disse, sem rodeios, mirando-a diretamente nos olhos.
— Eu estou fatigada, camarada. Grande observação — retrucou a garota irlandesa, com simplicidade em seu deboche. Pretendeu continuar andando e subir para o próprio quarto, mas Dixon a parou, segurando-a pelo braço.
— Que merda foi aquela hoje de manhã? — cobrou o caçador, sua voz saindo um pouco mais roufenha e grossa, irritadiço.
— Eles precisam de mim. Eu posso ajudar. Tenho de fazer isso — rebateu Mavelle, sem paciência. Dixon apenas se aproximou mais ainda dela.
— Eu sei que você não quer se entregar a isso. Sei que não quer se matar — Daryl continuou duro e direto, incisivo. Berry voltou-se para ele, bruscamente.
— Você acha que eu fiz isso pra tentar me machucar?! — Mavie começou a sentir irritação, ao invés da pesada tristeza que invadia seu peito. — Por que vocês todos insistem em me subestimar? Eu não durei até agora à toa, sabia? — Ela sentia a ira crescendo dentro de si. — Eu durei porque eu sou capaz disso! Eu posso aguentar! — A garota fitava Daryl com o mesmo olhar rígido, porém, seu queixo tremeu brevemente.
Dixon meneou a cabeça por um segundo. Aquilo irritou a garota de cabelos escuros ainda mais.
— Você podia ao menos ter avisado. E não decidir as coisas em um impulso. Esse tipo de coisa é que acaba matando as pessoas — insistiu o arqueiro, também simples em suas palavras, como de costume.
— O que você está fazendo aqui, afinal? Pra que essa aporrinhação toda? — esbravejou Mavelle, indócil. Os olhos de Daryl faiscaram.
— Não seja burra, Esquila — ele logo falou, também agressivo. — Sabe muito bem porque estou aqui. E sabe muito bem porque se ofereceu pra ir nessa merda. Você está tentando fugir disso. De tudo o que aconteceu — atestou o caipira, surpreendendo Mavelle mais uma vez. Como ele poderia compreendê-la tão bem?
— Não estou fugindo! — rebateu Mavie Berry, simplesmente, sem saber o que dizer, tentando lhe dar as costas. Daryl a segurou pelo braço novamente.
— Yeah! — Soltou um riso seco, enfurecido. — E seus dentes não são grandes, e Aaron não é viado, e vivemos num mundo cor de rosa com mortos-vivos com cheiro de morango — retrucou ele, irritado.
O queixo de Mavelle tremeu mais uma vez. Quando estava sozinha era mais fácil. Quando ninguém era assim tão próximo dela, ela podia fingir. Podia dar um jeito de escapar. Não precisava encarar de frente seus medos mais assustadores.
Inevitavelmente, o pranto lhe subiu aos olhos.
— O que você quer de mim? — Mavelle Berry lacrimejou, sentindo-se estúpida, inútil e fracassada por fraquejar.
A postura de Dixon mudou imediatamente. Se antes estava retraído, raivoso e grosso, toda a expressão do arqueiro ficou mais dócil, aberta, comovida.
Daryl se aproximou ainda mais dela e a puxou contra si, colocando seu rosto contra seu ombro, acarinhando seus cabelos morenos. Mavie se deixou soltar um soluço ali, nos braços dele, onde residia seu maior alento.
— Quero que fique bem. Eu falei ontem que não estava sozinha. Não me faça repetir a mesma merda até você entender — brincou Daryl, ainda acariciando seus cabelos e a apertando contra si. Mavelle deixou seus braços enlaçarem-no pelas costas dele, uma mão ainda segurando o cabo do arco.
— Eu vou com vocês. Já avisei ao Rick — Dixon confidenciou a Berry, sua voz baixa próxima dos ouvidos dela. A irlandesa se afastou dele no mesmo momento, o encarando surpresa.
— Mas você não pode! Você é o braço direito dele... Rick deve estar contando... — Daryl, sem cerimônia alguma, colocou a palma da mão direita sobre os lábios dela, tentando soar brincalhão com o gesto. Mavelle nem soube como reagir àquela notícia. Por um lado, sentiu seu peito se aquecer com o que aquilo significava. Daryl queria mesmo estar ao lado dela. Por outro, aquilo era um sinal de que ele não deixaria que ela usasse suas mesmas técnicas furadas de evitar lidar com seus próprios problemas.
— Michonne também é outro braço direito dele. Não faltam braços pro cara. Que nem aquelas estátuas indianas — o arqueiro tentou troçar, visivelmente para melhorar o humor da irlandesa. Mavie não pôde deixar de dar um meio sorriso.
— Você... — Ela abaixou os olhos para o chão, sem saber como reagir. — Você não precisa fazer isso — disse a garota, sem jeito. Mas, internamente, estava mais do que recompensada por aquele gesto de carinho, companheirismo... De algo mais.
— Não preciso — concordou ele. Mavelle levantou os olhos outra vez para o caçador. — Mas eu quero, Esquila burra — troçou. Mavelle deu um tapa de leve em seu ombro, e um empurrão brincalhão em seguida.
— Obrigada — ela disse, simplesmente, esperando que as palavras traduzissem o que realmente sentia. Colocou o arco no balcão perto deles, e o abraçou outra vez, com força. Ao mirá-lo novamente, a expressão de Daryl estava ainda mais branda e afetuosa.
Os dois se fitaram por algum tempo. Ninguém disse palavra. Mavelle sentia algo no ar. Algum tipo de confusão mental, como se algo estivesse entalado na garganta dele.
— O que foi?
Dixon não respondeu. Apenas desviou o olhar por alguns segundos, coçou o pescoço de forma desajeitada, e a olhou de novo.
— O quê? — ela insistiu, sorrindo também sem jeito.
— Hmmm — o arqueiro grunhiu, apenas. Mas, assim como Daryl a compreendia muito bem, tal entendimento em totalidade entre ambos era recíproco. Crescera e se solidificara, sem que os dois realmente percebessem sua profundidade.
— Eu sei — Mavelle afirmou, enlaçando-o pelo pescoço e o beijando lentamente. Sabia o que se passava na cabeça dele.
No coração dele.
O caçador retribuiu ao beijo no mesmo ritmo que, de lento, foi aos poucos tornando-se mais intenso, esfaimado, desejoso. Logo Mavie estava sorrindo em meio aos lábios dele, brevemente esquecida da tristeza, desolação e sofrimento que enfrentava.
Saíram daquela casa e foram para uma das residências abandonadas de Alexandria para passar a noite como deveria ser: como dois amantes, dois companheiros, duas pessoas apaixonadas na privacidade de seu desejo. E ali se despediram da madrugada, uns nos braços do outro, seus corpos enlaçados como o sentimento que unia suas almas.
Carol não precisava ter lhe contado o que o caçador sentia por ela. Daryl provava, dia após dia, que a amava verdadeiramente. E ela sabia que sentia o mesmo por ele também, do fundo de seu coração.
*****
A primeira luz da manhã se erguia sonolenta em Alexandria. A aurora mal surgira no horizonte, e aquele grupo que a mulher acompanhara ao longe já estava pronto para partir. Próxima dela, Rick Grimes e Michonne aguardavam junto ao portão da comunidade, para permitir que saíssem sem maiores problemas.
Ela era excelente na tarefa de ler as pessoas.
Com um único olhar, podia reparar na expressão simultaneamente apreensiva e decidida de Rebecca Gable, compartilhada por Billy Ray, que também portava em seu rosto uma espécie de tristeza conformista, enquanto ambos colocavam algumas provisões no porta-malas do carro. Morgan Jones ajudava os amigos, parecendo muito preocupado e sentido com a despedida e os rumos que aquela missão poderia tomar.
— Tudo pronto? — indagou Rick Grimes, sua mão direita firme no ferro do portão. Michonne, ao seu lado, caminhava alerta e um pouco ansiosa, de um lado ao outro.
A mulher logo reparou na aproximação de mais quatro pessoas. Daryl Dixon, Mavelle Berry, Peggy Taylor e Tara Chambler. Podia ver no rosto de Daryl feições de desagrado contido, e, na de Mavie, a mesma faceta triste que portava nos últimos dias, misturada a uma espécie de determinação tranquila. Dixon, pelo visto, tinha um efeito calmante sobre ela.
Peggy parecia a menos abalada com os recentes eventos, seus grandes olhos alertas, expressivos e decididos, como se esperasse a hora de entrar em ação. Tara, por sua vez, parecia exausta, provavelmente compartilhando das preocupações de Denise, sua namorada.
— Quase! — A voz de Tucker Hayes soou alta. — Se não arranjássemos cordas para eles me prenderem, ninguém ia acreditar nessa falcatrua — o rapaz disse com forçoso deboche arrogante, aproximando-se do Jeep Renegade preto, carro 4x4 que usariam na viagem até a base do Exército de Wyoming County. Enquanto isso, Glenn e Maggie cruzavam uma esquina, Rhee bocejando amplamente sem tapar a boca, Greene piscando os olhos exaustos, ambos parecendo simultaneamente cansados e preocupados.
Rick e Michonne esperaram as últimas arrumações, enquanto ela via Tucker lançar a corda no banco da frente do carro, com tamanha displicência como se estivesse se preparando para uma viagem banal de carro.
Aquilo lhe trouxe uma sensação ruim à garganta. Uma emoção que não estava acostumada a sentir fazia muito tempo, exceto em momentos de total desespero, o que, claramente, não era a presente situação.
Carol Peletier percebeu que estava sentindo vontade de chorar.
A mulher passou as mãos ao longo do pescoço, incomodada, tentando refrear o estranho sentimento. Buscou apenas observar atentamente as despedidas, como Mavelle cumprimentou de forma breve e sem intimidade Billy Ray, sujeito que fora seu grande amigo, apertando sua mão, enquanto Daryl olhava de longe, não parecendo realmente gostar daquilo. Viu a irlandesa em seguida cumprimentar Rebecca com menos naturalidade ainda, depois Tucker, mais facilmente. O cortejo se seguiu, com Dixon mal dando um olhar de relance a Billy Ray, se despedindo com mais gentileza dos outros, e Peggy abraçando brevemente cada um deles. Tara fez o mesmo, assim como Glenn e Maggie.
Em seguida, Rick e Michonne fizeram as últimas despedidas, enquanto o amigo de Carol abria o portão. Tucker, que parecera respeitar a distância dela por todo o tempo, finalmente se aproximou da mulher de cabelos curtos. A estranheza que sentia em seu âmago apenas aumentou.
— Dona Pele... — Tucker falou propositadamente, corrigindo-se em seguida com um pigarro forçado, levando uma das mãos fechadas em punho à boca. Seu bom humor petulante e falso só deixava aquela situação ainda mais triste. — Carol. Não imaginei que fosse acordar tão cedo — disse ele, obviamente sem saber como se despedir. Ela não o culpava. Carol Peletier sabia muito bem como impedir os outros de se aproximarem de seus muros emocionais.
— Pare de ser idiota. Se cuide — ela pediu, tentando soar o mais indiferente possível. A sensação esquisita apenas aumentou.
— Vou me esforçar. Para as duas coisas — o rapaz respondeu, no mesmo tom falsamente brincalhão que partia o coração dela.
Tucker Hayes desviou o olhar, franzindo os lábios em um sorriso um tanto torto, sem saber o que fazer. Carol entendeu o que ele queria.
Ela mesma se aproximou, segurando em um de seus ombros e deu-lhe um beijo na bochecha. Afastou-se, depois, e o fitou.
— Você pode se safar dessa — garantiu Carol Peletier, dando-lhe um sorriso rápido e tentando lhe incutir mais confiança. Todavia, não tinha certeza de suas próprias palavras.
Tucker buscou uma mão livre de Carol e a apertou. Ela engoliu em seco, surpresa e parcialmente incomodada. Logo depois, ele a soltou.
— Hey! — Os olhos do rapaz brilharam por poucos segundos, com uma empolgação fraca como uma chama que se apaga após ser acesa. — Se eu voltar... — Aquelas palavras repercutiram de forma dolorosa dentro dela. —...Eu vou cobrar mesmo aquela conversa. Poderíamos até brincar de verdade e consequência — disse o rapaz, soando propositalmente estúpido.
— Pare de ser idiota — repetiu Carol, meneando a cabeça com um sorriso fraco. Sentiu que a vontade de chorar lhe prendia a garganta.
Tucker pareceu desistir daquela conversa tola. Deu mais um sorriso forçoso para ela, levantou a mão em um tchauzinho e enfim se despediu:
— Adeus! — O rapaz deu as costas para Carol, entrou no 4x4 no banco de trás, e logo os três seguiram viagem. Rick fechou o portão, e foi, junto com Michonne, organizar o material para a missão em que mais tarde sairiam.
Carol viu que Mavelle disse algo para Daryl, os dois trocando olhares cúmplices, e depois a garota irlandesa se aproximou de Tara e Peggy, retornando pelo caminho que vieram. Glenn e Maggie foram em direção ao arsenal de armas, e logo o arqueiro se aproximou da amiga.
— Pegou pra criar? As crianças te adoram mesmo — Daryl debochou, mencionando a despedida de Tucker, parecendo não ter reparado na expressão dolorida que Carol se esforçou para esconder. Pelo visto, ela teve sucesso em mascarar o que sentia, o que quer que fosse aquela emoção esquisita.
— Não seja idiota você também — falou a mulher de cabelos grisalhos, censurando o amigo com olhos cintilantes. — Não sou que nem você para ficar adestrando mascotes por aí — rebateu, deixando Daryl sem palavras, mencionando Mavelle e a forma como ele a tratava por “Esquila”. O arqueiro apenas levantou as sobrancelhas, sem saber o que dizer.
— Me ajuda a empacotar as nossas provisões? Rick me contou que vai conosco — adiantou Carol, ao passo que Dixon concordou, meneando a cabeça positivamente. — Só vou em casa fazer uma mochila pessoal. Te encontro no arsenal com Glenn e Maggie, pode ser? — sugeriu ela, e Daryl novamente aceitou a sugestão.
Carol Peletier foi até sua casa, tentando ignorar a sensação que urgia dentro de si. Precisava chorar. Mas ninguém poderia vê-la fazendo aquilo.
A mulher adentrou sua residência, indo até a cozinha conjugada a uma das salas. Viu que havia algo de diferente acima do balcão. Algo que se destacava, posto embaixo do pote de cookies que ela sempre preparara para Sam, e que, ultimamente, andava um tanto vazio.
Ela franziu as sobrancelhas, levantando o pote. Logo viu que ali havia um desenho feito a lápis em um papel branco.
Um desenho de si mesma. Lindo. Que inclusive a rejuvenescera um tanto.
Um desenho de Carol sorrindo.
As pernas da mulher tremeram levemente. Carol Peletier compreendera quem fizera aquilo, não precisara sequer ter visto a assinatura, um “T.H.” artístico, com a data do desenho.
Abaixo da imagem lindamente desenhada, havia uma única frase escrita.
“Espero conseguir te ver de novo”.
Carol não mais suportou. As lágrimas desceram imediatamente de seus olhos azuis claros, pingando no lindo desenho que aquele garoto fizera especialmente para ela.
Carol Peletier era boa em ler as pessoas. Era boa em prever as pessoas. Era boa em compreender todos os pensamentos, motivações e anseios dos outros. Ela era boa até mesmo em manipulá-los.
Mas ela não foi esperta o suficiente para prever aquilo. Para ver como aquele simples, desajeitado, tolo rapaz crescera em importância para ela, de forma tão despretensiosa, natural, paulatina, durante o curso do dia a dia e os momentos que partilharam.
Carol chorou abertamente, segurando os soluços que lhe vinham como ondas, dobrando o desenho que já não aguentava olhar outra vez. Guardou-o no bolso do casaco, sentando em um dos bancos da cozinha e escondendo o rosto nas mãos.
Ela jamais imaginara que poderia sofrer assim pelo risco de perder aquele garoto para sempre.
*****
Ela dirigia com cuidado, fazendo as curvas conforme os companheiros daquela missão a orientavam. O carro, um Chevrolet Tracker 4x4, tinha a direção dura, porém precisa, dos carros do Oceanário de Atlanta.
Fazia tempo que não treinara. Billy Ray lhe ensinara diversos macetes, truques e demais dicas para ser uma boa motorista, mas, depois de tanto tempo sem prática, a adolescente estava um pouco enferrujada.
— Puta que pariu! — A voz sonora de Abraham soltou o palavrão ao seu lado, no banco próximo ao do motorista. Atrás, Rosita e Tara se mantinham alertas, olhando pelas janelas, esperando sinal de alguma proximidade hostil do grupo de Hashimoto.
— O que foi? — Chambler indagou, nervosa, e o soldado logo apontou para uma multidão de errantes que seguia pela rodovia que pretendiam pegar. Com carros capotados, revirados e espalhados, aquela estrada estava totalmente fora de condições de servir de caminho.
— Merda — sussurrou Peggy, respirando fundo. — Ok, vamos ter que ir pela North Road, então — disse ela, soltando o ar em uma expiração para se acalmar.
— O garoto disse que o Exército poderia estar por lá. É um lugar alto, rodeado de montes, com boa visão — Abraham retrucou, ainda achando aquilo uma má ideia.
— É, mas se quer discordar, tem ao menos alguma outra sugestão? — Rosita redarguiu, parecendo impaciente com o companheiro. Peggy havia notado certa tensão pesada entre eles desde que saíram como o “grupo placebo” para liberar o caminho dos infiltradores, que roubariam o produto tóxico do laboratório farmacêutico ao qual se dirigiam.
Abraham apenas olhou para a frente, sem retrucar. Parecia se achar merecedor daquele tratamento.
— Gente, vamos com calma... — Tara tentou, conciliadora como era. — Brigar agora não vai adiantar em nada... — Peggy viu pelo espelho retrovisor a jovem mulher morena olhar para a latina.
— E quem é que está brigando? — Espinoza insistiu, parecendo arisca e irritadiça. Tara apenas levantou uma das mãos espalmadas, como se aquilo já fosse resposta o suficiente.
Peggy Taylor não mais esperou. Deu marcha a ré, depois moveu o carro de forma a girá-lo cento e oitenta graus e seguir na direção contrária.
— Calma aí, menina, ainda não decidimos! — Abraham Ford disse, agora também um pouco irritado.
— Não dá pra esperar. Eles estão contando com a gente. A gente dá um jeito — assegurou ela, tentando se mostrar totalmente calma e decidida. O homem ao seu lado apenas a olhou com o cenho franzido, e as mulheres atrás também a encaravam pelo espelho, duvidosas daquilo.
Peggy acelerou o carro, ignorando os olhares de incredulidade. Sabia que era capaz disso. Tinha certeza de que os outros também tinham habilidades para superar os desafios. Se precisava ser feito, seria feito.
Já não aguentava mais reagir igual ao tempo em que se escondia, com medo da própria sombra. Não seria um rato encaminhado até a ratoeira por aquela japonesa psicopata. Resistiria, nem que fosse morrer tentando.
Assim que dirigiu até a North Road, o grupo experimentou um alívio temporário. Nenhum sinal de carniceiros, ou de viva alma por perto. Seguiram caminho, com Tara relatando tudo o que se passava no rádio comunicador aos que seguiam atrás: Carol, Mavie, Daryl, Eugene e Sasha.
— Olhem! — Rosita falou, apontando para a janela direita do carro, indicando a paisagem mais embaixo. — O laboratório está lá embaixo!
Peggy deu uma olhada pelo lado de Abraham, respirando fundo outra vez ao perceber que já estavam na metade da missão.
Ainda bem. Não aconteceu nada.
Bastou ter o pensamento de alívio e virar uma das curvas de descida para que freasse bruscamente. Minando tanto a velocidade do carro, quanto suas esperanças.
Um grupo de cerca de dezessete pessoas os aguardava. Parado no meio da estrada, com cones e demais objetos para bloquear o trajeto. Todos armados até os dentes. Todos vestindo roupas resistentes, cada uma delas com a estampa de ideogramas japoneses que Peggy já sabia o que significavam.
Hashimoto.
A espinha de Peggy gelou. Por um instante, seus ouvidos passaram a zumbir freneticamente. Ela se sentiu zonza, incapaz de respirar. Sabia que iria fraquejar. Sabia que iria ceder ao pânico que a dominou instantaneamente.
Ela fechou os olhos. Imediatamente, a imagem da carta de Aya foi mentalizada. As palavras as quais ela tanto se apegara.
"Você já ficou em frente à uma árvore em uma tempestade? Os galhos balançam, dançam com a fúria do vento, e parecem que vão se partir a qualquer momento. Mas, se você não atentar apenas aos galhos, e sim, aos detalhes... Verá que o tronco, por exemplo, continua firme e estável."
Ela se muniu de coragem, e tomou outra decisão.
— Abraham. Você sabe o que tem de fazer — Peggy falou, recomposta, sem tirar os olhos do soldado a mando da psicopata, que se aproximava. O soldado ruivo a olhou, surpreso. — Vou distraí-los. Na primeira oportunidade, pegue aquilo e atire. — Peggy Taylor abriu a tranca do carro após dar a dica, e logo se lançou para fora da porta do motorista, dando um último olhar decisivo aos três juntos dela.
Tinha de fazer o seu melhor. Agora, era oficialmente questão de vida ou morte.
— Por favor! — Peggy tinha os olhos cheios de lágrimas, fingindo desespero. — Por favor, não nos machuque! — A garota foi pouco a pouco retirando as armas que tinha consigo, entregando-as na frente de seu corpo.
Aquilo fez os soldados de Hashimoto rirem. Por tudo o que ela ouvira a respeito do comportamento daqueles militares e sua líder, aquele teatro todo poderia ser a chance de que precisavam.
— Ah, mas que pena... — Uma mulher apontou com o cano da espingarda para Peggy. — Hashimoto sempre gosta dos mais jovens. Quando eles não são fracotes que nem essa aí!
O soldado próximo de Peggy apenas a analisou de cima a baixo, meneando a cabeça. Parecia julgá-la fraca, como todos os outros militares que estavam de seu lado.
— Menina, se quiser viver mais um pouco, vá andando até eles. E vocês! — O soldado no comando apontou para os outros três com Peggy. — Vocês duas, melhor dizendo. — Ele sorriu com descaramento, seus olhos brilhando desejosos encarando Tara e Rosita. — Me deem as armas, as do grandalhão também, e as chaves do carro — ordenou o militar e as duas, sem escolha, sob a mira das armas de dezessete soldados, assim o fizeram.
Quando aqueles sujeitos julgaram que Abraham, Tara, Rosita e Peggy estavam devidamente desarmados, o líder daquele bando apenas assegurou:
— Vamos nos divertir, vocês três. Não gosto muito quando são tão novinhas, mas... — ele se referia apenas a Peggy. — Vocês precisam aprender a ser fortes. Querem viver, não querem? Precisam merecer a vida — o sujeito reproduziu o discurso psicótico de Hashimoto com a mesma crueldade da líder japonesa.
— Vão andando na direção do meu pessoal — o homem demandou, enquanto ia até Abraham. Eu vou me virar com o grandão aqui — debochou o soldado, aproximando-se de Abraham Ford. Peggy foi arrastando os pés na direção do grupo, metros adiante, contando internamente. Um, dois, três...
— Abaixem-se! — ela falou para Rosita e Tara, que a encaravam sem compreender. Pulou no chão, o mais longe possível que podia do grupo de Hashimoto, e o que ela havia previsto de fato aconteceu.
Abraham conseguira levar a melhor contra o soldado do Exército de Wyoming County. Pegara a bazuca RPG que deixaram na mala, mirara contra o restante do grupo, e os explodira em uma combustão flamejante. Os olhos de Peggy quase se cegaram ao testemunhar aquela cena, seus ouvidos beirando a surdez, o som da explosão próxima reverberando dentro de seu corpo, acompanhado do calor que deixara sua pele em uma temperatura elevada.
— Ainda bem que temos a pequenininha! — bradou Abraham, dando uma risada de triunfo. Tara e Rosita encararam Peggy, finalmente compreendendo a sugestão que ela havia dado e porque, supostamente, cedera ao pânico. Fazia parte da atuação para que Abe conseguisse acesso a bazuca e se livrasse de todos os soldados de uma vez.
— Ainda bem mesmo! — concordou Tara, enquanto Rosita acompanhou a risada do soldado ruivo. Ambas ajudaram Peggy a se levantar, que sorriu, voltando ao carro, depois de todos pegarem as armas que restaram caídas ao chão.
— Vamos ter de pensar em outra rota, pelo jeito — atestou Peggy Taylor, ainda chocada com o sucesso de sua investida e seu plano. Os outros três a olhavam, todos já dentro do automóvel, parecendo orgulhosamente surpresos.
— Confiamos em você, chefia — brincou Abraham, já no banco ao seu lado. Peggy riu, e deu a partida.
*****
Ele sonhara primeiro com o som. O som limpo, cristalino, agudo e doce da voz dela. Sua risada, suas gargalhadas. Em meio a tudo isso, o som do circo. Os uivos da plateia, os aplausos, a comoção geral com o espetáculo, e a música, as marchinhas circenses que precediam as apresentações.
— Respeitável público! — Moritz os saudava, em seu sonho, o mestre de cerimônias abrindo o show diretamente do centro do picadeiro. — Sejam muito bem-vindos! Vocês estão prontos para mesmerizar sua mente, olhos, ouvidos e todos os seus sentidos com o fabuloso Alvintzi Circus?
Ele ouvia o eco dos aplausos incessantes, os sons ansiosos, a expectativa da plateia em murmúrios mal contidos e o burburinho de empolgação. A agitação do público o contagiava, ao passo que o homem falava alegre, a altos brados ainda mais confiantes:
— Eu lhes apresento: Tejas Mahabir, com seu chicote que dá botes de serpente, o Domador de Animais! — Mais aplausos foram escutados, junto a assobios altos. — Aiyana “Olhos de Coiote”, com sua mira impecável, a Atiradora de Facas! — Palmas ressoaram pela lona, ainda mais entusiasmadas. — Rebecca Gable e seu corpo de borracha, nossa contorcionista! — Os aplausos se mantinham, ritmados, altos, empolgantes.
— E, a estrela da noite, a mais angelical membra da trupe... Aquela que voa sobre a corda bamba, a dançarina dos céus, nossa bailarina italiana, Mimi Mazagatti! — Moritz não resistiu. Olhou ele mesmo para a jovem esposa, equilibrando-se na corda metros acima dele. Micaella sorria seu sorriso doce de sempre, o rosto jovial confiante, seguro de si, relaxado, revelando a mesma beleza etérea que sempre o encantara, desde que a bailarina se juntara ao seu circo.
Os aplausos tornaram-se ainda mais estrondosos. O público assobiava, gritava, se esgoelava, e Moritz tinha olhos apenas para sua esposa. Fascinado pela dança dela, metros acima, seu equilíbrio como se bailasse sobre as nuvens, seu rosto ornamentado por uma coroa de flores em seus cabelos... A imagem era tão linda que o mestre de cerimônias do circo demorou para perceber que algo de estranho acontecia.
Aos poucos, os sons do público foram se modificando. Ele parou de ouvir as vozes incentivadoras, para escutar rosnados, grunhidos e roncos esquisitos, assustadores, que lhe fizeram um calafrio de mau agouro subir pela espinha.
E enfim ele teve consciência do que acontecia. Não haviam mais pessoas na plateia. Apenas mortos-vivos desciam pelas arquibancadas, querendo chegar ao picadeiro, o som de sua fome sendo aqueles resmungos macabros seguidos.
Moritz sabia que tinha de salvar sua esposa. Ele gritou, tentando chamá-la lá de cima, mas Mimi não o escutava. Berrou até se esgoelar, mas Micaella parecia incapaz de atentar às suas súplicas.
Subitamente, ela parou de dançar ao som dos mortos, e caiu. Alvintzi soltou um lamento profundo, temendo pelo pior. Correu até seu corpo, caído de barriga para baixo. Seus cabelos negros compridos se espalhavam pelo chão, manchados por uma densa poça de sangue.
Com seu rosto já repleto de lágrimas, Moritz virou sua esposa falecida para ver seu rosto, contendo o clamor de dor que se formava em sua garganta. Chocado, ele viu que ela ainda respirava, ainda que com dificuldades. Sangue escorria de sua boca. Mimi falou, com um esforço além de sua pouca resistência.
— Eu achei que iria suportar. Me perdoe, meu amor — Logo em seguida, seus olhos ficaram vazios de vida. O circense viu a morte cair sobre sua esposa, que, de imediato, se transformou. Em uma questão de segundos, ela abriu os olhos injetados, como olhos de peixes, vazios de expressão. Sua boca se abriu não para formar um de seus lindos sorrisos, mas para morder-lhe a pele.
Ele se levantou, soltando o cadáver da jovem esposa, chocado, desesperado, aflito. Os mortos-vivos já haviam descido das arquibancadas e derrubaram a pequena estrutura que separava o público do picadeiro, caindo uns por cima dos outros. Mimi, com as pernas torcidas pela queda, se arrastava até Moritz, erguendo as mãos, faminta por sua carne.
O homem continuou a chorar, embasbacado e desamparado, incapaz de reagir, apenas tentando se afastar do que restara de sua esposa.
Mas aquilo ainda não havia terminado. Aos poucos, Moritz percebeu que a pele de Micaella foi se transformando. Não estava mais ensanguentada, nem era mais tão branca. Tinha uma tonalidade bronzeada, e seus cabelos escuros assumiram uma cor mais clara, enrolando-se aos poucos.
Seus olhos vítreos de rastejante passaram a ser olhos de outra pessoa, assim como o rosto e tudo o que um dia fora Micaella não era mais ela nem sua versão morta-viva.
Peggy arrastava seu corpo na direção do circense, erguendo-se aos poucos, encarando-o com olhos repletos de sofrimento. Logo ela ficou de pé, usando as mesmas roupas de bailarina que Micaella um dia usara.
Os mortos haviam chegado. Estavam a centímetros deles, cercando-os por todos os lados. Moritz tentou se aproximar de Peggy, mas não conseguiu, com um morto-vivo lhe barrando o caminho e tentando atacá-lo.
— Eu achei que iria suportar. Me perdoe. — E ele então reparou que Peggy Taylor tinha uma pistola em mãos. Ela apontou para a própria cabeça e apertou o gatilho.
Moritz Alvintzi acordou em um tranco violento, desesperado, o coração acelerado, a pele suada como se tivesse corrido por milhas.
Piscou os olhos, nervoso, tentando apenas encarar o teto do quarto da casa em que residia em Alexandria. Aos poucos, a visão ainda sonolenta pelo descanso mal aproveitado passou a registrar os dados de realidade ao redor, se livrando aos poucos daquele pesadelo grotesco.
Ergueu-se lentamente, respirando fundo, e sentiu um aroma conhecido e muito tranquilizador. Um frescor dulcificado, frutado, o cheiro do perfume que Peggy gostava de usar, doce como sua juventude.
Ele outra vez piscou os olhos, esforçando-se para se esquecer das imagens do terrível sonho do qual acordara aterrorizado. Passou as mãos nas pálpebras, esfregando-as, e logo viu que Peggy ainda estava deitada em sua cama. Já deveria ter anoitecido, desde que os dois puderam achar uma brecha para se encontrar naquele reduto reservado a acontecimentos secretos entre ambos.
Moritz viu os contornos do lindo, meigo e singelo corpo de Peggy, pequeno porém curvilíneo, convidativo ao toque em cada detalhe. A garota vestia uma camisola de um tom rosa claro, de um material que parecia ser seda. Alvintzi sorriu. Ele costumava achar uma graça a timidez de Peggy Taylor, que se recusava a ficar nua diante dele, exceto quando estavam juntos em seus encontros carnais.
Peggy estava deitada com a barriga apoiada na cama, assim como os cotovelos. Parecia estar entretida na leitura de algo, seus cabelos castanhos caindo pelos ombros, braços e costas. Mexia as pernas para frente e para trás, ressaltando a formação empinada de seus glúteos, seus pés delicados despidos.
Moritz piscou os olhos, soltando a expiração, agradecendo internamente por aquela visão divina. Grato por ela ter retornado sã e salva daquela missão contra o Exército de Wyoming County.
O homem se movimentou de forma a acariciar as pernas dela, seus pés, lhe fazendo cócegas. Peggy riu de leve, seu corpo tremendo um pouco, mas não parou de ler o que detinha sua atenção.
Curioso, o ex-palhaço resolveu se aproximar dela, para entender o que poderia lhe fascinar tanto.
Logo atestou que Peggy não lia absolutamente nada. Apenas via um álbum de fotos de Moritz.
Um álbum privado.
Repleto de fotos de Micaella.
Seu coração voltou a retumbar em seu peito, lembrando a aceleração temerosa que teve durante seu sonho. Peggy voltou o rosto lentamente para ele, encarando-o enquanto piscava longamente.
— Sabe, eu tenho que te confessar uma coisa... — Peggy Taylor disse, e Moritz já esperava alguma espécie de baque por vir.
— ...Eu sempre achei que você devia projetar a imagem dela em mim. Sempre tive medo disso — a garota corajosamente confidenciou, e Moritz não soube o que dizer, por algum tempo. Haviam semelhanças entre Peggy e Micaella? É claro que sim. Mas também inúmeras diferenças.
A questão que seu sonho lhe trouxera, que Peggy lhe incutia, agora, com toda a bravura que lhe era própria, porém, lhe levou a responder.
— Eu... — o homem tão articulado parecia se esforçar para formular uma resposta à altura, mas, assim que elaborara seu raciocínio, aquela conversa teve de ser suspensa por algum tempo.
Pois ambos ouviram um ruído de tiros sucessivos. Perigosamente próximos.
Alexandria estava sendo atacada.

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