Hunter's Instinct
54 Episódio 54 - Buckets of Rain
Notas iniciais
Life is sad,
Life is a bust,
All you can do is do what you must.
You do what you must do and you do it well,
I'll do it for you, honey baby,
Can't you tell?
Bob Dylan – Buckets of Rain
A chuva do dia que passara ainda não havia cessado.
Como uma espécie de pranto silencioso caindo dos céus, perduráveis desciam as gotículas, finas e cortantes, a seguir seu caminho rumo aos telhados, calhas, gramas e estradas nos arredores da comunidade de Alexandria.
Eram seis horas e quarenta e cinco minutos da manhã. Fracos raios solares da estação outonal tentavam transcender as barreiras pardacentas das nuvens daquele dia que começava. A maioria, mal sucedidos nesta difícil missão.
Assim, em meio à despedida da noite anterior, naquele tempo pouco convidativo entre a aurora de uma nova manhã e o fim da madrugada, ele colocou seu chapéu na cabeça e seguiu caminho para além do pórtico de entrada da sua casa.
— É, vamos ver no que isso vai dar... — Billy Ray comentou um tanto pensativo, olhando para a silhueta de Morgan Jones. O amigo estava apenas alguns metros a sua frente, já caminhando para a residência de Rick Grimes, onde se daria a reunião definitiva acerca do contra-ataque direcionado ao Exército de Wyoming County e sua líder.
— Vamos ver... — disse Morgan, no mesmo tom contemplativo de Billy, e os dois seguiram caminho em silêncio. Tucker continuava dormindo, aparentemente. E Becky também.
Naquela manhã, não tivera coragem de acordar Rebecca. A garota loira dormia um sono tão pacífico que parecia até mesmo sorrir em meio ao descanso.
Tudo que acontecera entre eles, naquela madrugada, parara naquele beijo. Não por falta de iniciativa da jovem mulher, que sugerira a Billy que continuassem conversando — para que, naturalmente, uma coisa levasse a outra — ao retornarem para sua casa. Mas Billy Ray desconversara, lembrando que precisavam acordar cedo no dia seguinte e que teriam poucas horas de sono.
É melhor que continue assim... Afinal de contas, você já sabe o que tem de fazer. Billy recordou-se do que já havia decidido. Não perderia tempo. Queria, sim, estar ao lado de Rebecca. Mas, antes disso, queria se tornar alguém que fosse digno dessa posição. Alguém melhor do que o sujeito impulsivo, culpado e repleto de defeitos que ele ainda sabia ser.
Portanto, Billy Ray estava decidido a se redimir, indo até as últimas consequências para conseguir reparar seus erros.
Em pouco tempo, o homem portando um cajado de madeira e seu amigo com seu inseparável chapéu de cowboy alcançaram o local decisivo. Morgan entrou primeiro, seguido de Billy Ray. Faltavam poucos minutos para as sete da manhã, mas o local já estava lotado.
Rick Grimes se encontrava de pé, apoiado com as mãos na cabeceira de uma grande mesa de jantar de madeira. Michonne estava ao seu lado, também de pé.
Sentados nas oito cadeiras reservadas ao móvel estavam Maggie, um pouco afastada da mesa por conta de sua proeminente barriga grávida, Glenn, Mavelle — com Daryl Dixon em pé atrás dela, seus olhos atentos na garota irlandesa como um cão de guarda —, Tara, Carol, Rosita, Eugene e Tobin, os dois últimos parecendo examinar uma pilha de folhas de papel. Billy Ray logo as reconheceu como plantas arquitetônicas. O homem do Alabama reparou também que Abraham e Sasha pareciam ansiosos, andando de um lado ao outro pelo cômodo, circundando partes da mesa como os tubarões nadando nos aquários do Oceanário de Atlanta.
Aaron, Eric e Spencer sentavam-se em um banco próximo de três lugares, sem espaldar. Heath estava sentado em uma cadeira perto deles. Em um sofá próximo da mesa, em um canto amplo da parede, repousavam Moritz, Padre Gabriel, Olivia e Peggy. O excêntrico ex-palhaço tinha uma expressão de curiosidade, como se estivesse fascinado só com a ideia daquela reunião. Padre Gabriel parecia nervoso, cruzando as mãos e volta e meia tamborilando um dos pés no chão. A pequenina garota do Oceanário, por sua vez, dividia os olhares entre o rosto de Rick, Michonne, os sentados à mesa, e as cortinas da janela mais próxima de onde estava sentada. Sua expressão, entretanto, parecia estranhamente calma. Determinada. Olivia parecia profundamente aflita.
Alguns cidadãos alexandrinos se espalhavam por pufes e cadeiras arrumados de forma a fazer um semicírculo em volta da mesa. Uma “távola retangular” e os cavaleiros do “Rei Arthur”... Resta saber se vamos conseguir matar o dragão. Pensou Billy, com acintes de humor negro.
Morgan decidiu ficar em pé, e Billy logo se aproximou do amigo, fazendo o mesmo. Recostou suas costas no batente de uma janela, apoiando seus cotovelos.
Rick Grimes não esperou muito.
— Sejam bem-vindos e bom dia, Morgan, Billy. — Ele os indicou com uma das mãos, enquanto outros moradores os saudavam. — Agora que estamos quase todos aqui, vamos começar a reunião. Onde estão Tucker e Rebecca? — o policial perguntou.
— Tucker tem de vir. Ele era do... — Daryl se pôs a falar, surpreendendo Billy. O sulista do Alabama controlou-se para não encará-lo com desdém, e logo em seguida olhou para o rosto de Mavie. Parecia menos triste do que no dia anterior, mas ainda seriamente abalada. Ela moveu seu rosto de forma a dedicar um olhar gentil ao caçador arqueiro que agora era seu companheiro, e ele logo pareceu mais calmo.
Rick fez um gesto com as mãos, como que para calar o caipira da Georgia.
— Nós sabemos. Se ele demorar muito mais, vamos buscá-lo. A ajuda dele será essencial — garantiu o novo líder de Alexandria. Billy viu Michonne dar a Grimes um olhar astuto, mas caloroso. Um olhar de compreensão. Ambos pareciam mais próximos do que nunca.
— O que podemos resolver agora, então? — perguntou Abraham, com seu jeito impaciente que Billy Ray já conhecia há meses.
— Tucker já desenhou as plantas da base do Exército de Wyoming County. Temos mapas de rotas diversas para chegarmos lá — afirmou Rick Grimes, passando uma das mãos nervosamente em seus cabelos. Parecia exausto, e Billy compreendia plenamente aquilo. Aquele sujeito estava tendo de lidar com muito de uma vez. Todos eles, na verdade.
— Temos mapas, rotas, dicas e ilustrações das mais diversas... — falou Eugene, pigarreando para limpar a garganta. — O problema é que não temos um plano concreto. Sabemos como é o local em que eles moram, eles sabem como é onde moramos, precisamos pensar em como trazer algo produtivo destas informações ao nosso dispor — disse o articulado professor de ciências, surpreendendo a todos com sua firmeza de opinião. Billy reparou que as pessoas passaram a se entreolhar, parecendo mais assustadas agora com a falta de ação.
— Primeiro de tudo — Grimes se pôs a falar outra vez, antes que um burburinho começasse. — Nós precisamos deixar algo muito claro aqui. — O policial apontou com o indicador da mão direita para a superfície da mesa de madeira. — Nós estamos tendo uma reunião privada, somente para os moradores de Alexandria. O que ouvirem aqui, não pode sair da comunidade. Sob hipótese alguma. Quem não concordar com estes termos, sinta-se livre para sair — o líder disse, com frieza decidida.
Um silêncio agonizante tomou conta da sala por um tempo. Sons de móveis rangendo, cadeiras sendo levemente arrastadas e dedos tamborilando puderam ser escutados. Rick Grimes continuou.
— Eu lhes dei uma escolha. Se quiserem ficar em Alexandria, terão de se unir à nossa luta. Vocês são livres para ir embora e encontrar outro lugar. Até para ir de encontro a Hashimoto. Não acho que existam espiões aqui, e não pretendo criar nenhum. Não impedirei ninguém de sair enquanto há tempo — ressaltou o homem, seus olhos claros cintilando de determinação. Mirou cada um dos presentes na sala.
— Mas esta é a última chance de fazerem isso. Quem ficar em Alexandria, vai lutar. Ou saindo rumo à investida contra o Exército, ou ficando e protegendo nossa comunidade com suas próprias mãos. — Rick respirou fundo, ainda perfurando com seus olhos astutos cada um dos moradores ali presentes.
— Não haverá perdão para traidores. A partir de agora, ninguém sai de Alexandria sem aviso, nem entra sem alertas. Não seguir as regras poderá trazer problemas sérios — ele alertou, austero. — Teremos vigilância redobrada, e não haverá mais segredos por aqui. Só sendo muitíssimo honestos uns com os outros, só se realmente nos unirmos, teremos alguma chance contra Hashimoto — o policial pareceu concluir.
— Seu tom parece um tanto ditatorial para um líder que se diz preocupado com nosso bem-estar — disse o filho de Deanna com ironia, ainda mordido pela morte da mãe, esfregando as mãos. Alguns outros cidadãos de Alexandria pareceram concordar, encarando Rick com olhares aflitos.
— Isso é para a proteção de vocês. Não quero dormir com os dois olhos abertos por muito tempo, e acho que nenhum de vocês quer — assegurou o mandatário, cortante. — Quanto mais rápido agirmos, quanto mais precauções tomarmos, maiores serão nossas chances de sucesso. Se está me achando autoritário, vamos então... Alguém é contra as minhas sugestões? — perguntou o policial, quase com ironia.
Ninguém se manifestou. Rick meneou a cabeça, como se não acreditasse que tinha de lidar com aquilo.
— A última coisa que sua mãe me disse, Spencer, foi para que eu não desistisse da comunidade. Foi o que ela disse a Michonne, também. — Apontou para a amiga, que confirmou com um meneio de cabeça. — Vocês podem não me achar o líder ideal, e, acreditem, eu nunca tive a pretensão de governar nada. Mas eu e meu grupo sobrevivemos por todos esses anos na estrada, enfrentando outras “Hashimotos”, outros “Exércitos”, e não sucumbimos. Vocês precisam dessa experiência para superar essa ameaça. E nós estamos aqui para ajudar. — Billy ouviu Grimes falar com propriedade, e mais uma vez constatou que aquele homem era mesmo um líder nato. Inspirador.
— Então, vou repetir, e, desta vez, é definitivo: se alguém não está disposto a ajudar na resistência contra Hashimoto, está livre para sair. Mas não se esqueçam... Essa psicopata trouxe sua ambição de nos destruir para cima de nós. Ela derrubou nossos muros e invadiu nosso território mais de uma vez. Ela não vai parar agora, quando acha que está tão perto, que estamos tão frágeis. Não se enganem — asseverou Rick, agourento porém sincero.
Todos continuaram em silêncio, mas Billy Ray podia reparar na hesitação de alguns moradores de Alexandria. Os mais idosos ou mais jovens, que mal tiveram contato com o caos do novo mundo. Aquilo tudo deveria ser particularmente difícil de engolir para eles, entretanto não havia mais tempo para mastigar.
— Só vamos conseguir se fizermos tudo juntos — Maggie tomou a palavra, ela mesma olhando para os outros moradores de forma mais gentil do que Rick, porém também incisiva. — Rick, eu, e todos nós que vivemos tanto tempo na estrada enfrentamos de tudo: líderes autoritários, mercenários, bandidos de toda sorte, até mesmo uma armadilha feita por canibais. O mundo lá fora costuma ser ruim, é perigoso e a maldade humana impera. Mas não podemos deixar que seja assim também em Alexandria. Precisamos lutar pelo pouco espaço de bondade, de cooperação, de amizade que ainda nos resta — a esposa de Glenn discursou com propriedade, enquanto seu marido segurava uma de suas mãos, parecendo orgulhoso de sua eloquência.
— Nós podemos conseguir se nos unirmos. De fato, este é o único local remanescente neste caos dos mortos-vivos em que eu ainda vivenciei alguma noção de cidadania. Alexandria é promissora. Pode ser o recomeço da sociedade, se quisermos — disse Moritz, parecendo se controlar para não usar do tom professoral que costumava utilizar. Billy ainda não simpatizava com o sujeito. Não porque tentara usá-lo de isca contra os carniceiros, mas porque ele realmente abandonara Rebecca à própria sorte na estrada. Mesmo que aquilo tenha sido feito de comum acordo, pensar em Becky desamparada como estivera naquela situação lhe deixava irritado.
— Eu me uni a eles um tempo depois, ao grupo de Rick, quero dizer — foi a vez de Mavie falar, surpreendendo Billy. Sua voz afinada soou alta, apesar de um pouco fragilizada pela dor que ainda sentia. — Mas imagino que possa falar por Peggy, por Moritz, por Rebecca, por Tucker, por Morgan... Por Billy Ray. — Ela mirou o rosto do antes melhor amigo, que lhe deu um sorriso curto de volta.
— Eu sei que é muito fácil esquecer do que é certo, do que é melhor para todos, apenas pela vontade egoísta de sobreviver. Sei disso, porque o líder do primeiro local que morei era também autoritário, falso e manipulador. Ele nos usava para manter seu neto seguro, e nós aceitávamos o trato por termos um teto, comida, roupas... Fechávamos os olhos para seus abusos, suas ordens tortas e suas maquinações. — A irlandesa piscou, um pouco tensa, confessando a verdade com uma coragem ímpar. Billy se sentiu orgulhoso da amiga.
— A verdade é que o que nós tínhamos no Aquário da Georgia não era nem de perto tão bom quanto isso daqui — admitiu Mavelle. — Alguns de vocês podem ainda se sentir despreparados para a realidade, mas vocês têm um local onde as pessoas são bem intencionadas. Onde podemos começar de novo, todos juntos, com igualdade. Minha avó acreditou neste lugar, e eu também acredito. Este lugar é especial, um lugar em que cada pessoa faz a diferença. E eu, que também vivi na estrada, não vi isso em nenhum outro lugar do mundo — disse a garota morena que Billy uma vez tanto amou. Ele reparou na expressão de Daryl, atrás dela, encarando a silhueta de Mavie Berry com uma afeição que teria deixado Billy Ray totalmente desagradado tempos atrás.
— Estamos todos juntos nessa? — perguntou Glenn, com mais simplicidade, encarando os poucos alexandrinos que ainda pareciam mais duvidosos.
Gradualmente, todos foram concordando. Billy Ray mirou Rick Grimes mais uma vez, imaginando o alívio que o sujeito deveria estar sentindo agora. Ele era um bom líder, sim, mas também tinha muita sorte de ter tantos tão bons ao lado dele.
— Vamos manter a nossa casa — disse Morgan, ao lado de Billy, o surpreendendo. O homem do cajado fitava diretamente Rick. Será que o amigo teria desistido de seu juramento de não matar? Ou pretendia resistir sem tirar vidas?
— Vamos manter a nossa casa — concordou Rick, apoiando as mãos outra vez na mesa. — Então, já que nos resolvemos... — ele iria começar, mas logo levantou a cabeça na direção da porta.
Rebecca e Tucker surgiram sala adentro, esbaforidos, se desculpando pelo atraso. Billy viu Becky percorrer a multidão com os olhos, até encontrá-lo. Sorriu, e se aproximou do sulista do Alabama. Billy Ray lhe deu um meio sorriso de volta, preocupado com o que ela poderia vir a dizer alguns momentos depois de ouvir o que ele já decidira.
Tucker Hayes foi chamado por Rick para se aproximar da mesa, ficando entre Tobin e Eugene. Olhou para as plantas que ele mesmo desenhou, curvando-se um pouco em direção à mesa.
— Já mostramos as suas plantas para todos os que estão aqui — relatou Rick Grimes, olhando para Tucker. — Estávamos a ponto de começar a formular um plano de defesa. Tem alguma sugestão?
— Não podemos ficar aqui esperando. Eles são muitos. Cairão em cima da gente como se fôssemos formigas a serem esmagadas — soltou Rosita, irritadiça como costumava ser seu companheiro.
— Às vezes a melhor defesa é o ataque — aconselhou Tara, olhando da amiga latina ao policial.
— Eu já disse. A base é muito fortificada. Não existe essa história de simplesmente invadir, como eles fizeram com a gente. Aqui tem muitos pontos cegos, lá não tem nenhum! — retrucou Tucker, com seu jeito petulante, porém honesto.
— Tem de ter um jeito. Será que deveríamos nos fortificar também? Atraí-los para cá? — Billy Ray escutou Michonne dizer e encarar Grimes outra vez, refletindo.
— Me deixe ver isso daqui um minuto, outra vez — finalmente falou Carol Peletier, indicando o mapa da base da japonesa. Billy Ray estava surpreso com o comportamento dela. Fechada, ensimesmada, sem mais dar os sorrisos educados que costumava dar, escondida em sua máscara de simpatia.
De cenho franzido, Carol estudou a planta da base do Exército de Wyoming County, que lhe foi entregue por Eugene.
— Você disse que o lugar era todo fechado, certo? Quase sem janelas. Um andar acima do solo, outros três abaixo da terra? — indagou Carol, seus olhos fixos na planta arquitetônica.
— Sim — Tucker respondeu, ele mesmo franzindo as sobrancelhas ao olhar para a mulher de cabelos curtos.
— Então como era feita a refrigeração, a ventilação? Com esse ar-condicionado construído do lado de fora, certo? — Ela apontou para a estrutura enorme de um ar-condicionado externo.
— Sim. Ele funciona por meio de energia elétrica ligada a um gerador e água reaproveitada. Tudo na base funciona com energia, praticamente. Menos os filtros d’água, claro — acrescentou Tucker Hayes, coçando a cabeça.
— Tinham portas automáticas? — continuou Carol. Billy estava surpreso com o pragmatismo da mulher de cabelos grisalhos.
— Sim. Praticamente em todos os andares do subsolo, ligadas a sensores movidos por esse gerador, ou chaves digitais, que também necessitam de energia — Tucker confirmou.
— Então se quebrarmos o gerador e o ar-condicionado, podemos matar quem estiver na base por sufocamento — concluiu Carol, com a mesma frieza com que começara o discurso. Billy Ray sentiu um arrepio lhe subir à nuca. Ele mesmo teve uma ideia, com base na mesma gélida análise de Carol Peletier.
— De onde vem a água? — Billy indagou, sua voz roufenha saindo anasalada por seu sotaque.
Tucker fitou o amigo.
— De poços no subsolo. De um rio próximo a um pântano, uma área que o Exército não patrulha tanto.
— Perfeito. De quebra, podemos envenenar a água — Billy Ray falou quase com sarcasmo, mas as pessoas tomaram sua sugestão como brilhante.
— Ótimo — concordou Carol, encarando Billy por cima do ombro. Rick o encarava com espanto, como se não esperasse uma sugestão esperta vinda dele.
— Arsênico é um metal que poderíamos achar em laboratórios próximos de Alexandria... — Eugene parecia raciocinar rápido, por sua vez. — Com a quantidade certa na água, poderíamos envenenar o Exército inteiro de uma tacada só, e Hashimoto também — disse o professor, calculando algo mentalmente.
— E como vocês acham que vão destruir a energia, a recepção de oxigênio no subsolo e envenenar a água ao mesmo tempo? — duvidou Tucker, incrédulo. Morgan, ao lado de Billy, parecia desagradado com aquelas sugestões. — Eles têm todas as saídas de Alexandria vigiadas. Iriam nos cercar antes de fazermos qualquer coisa! São centenas de pessoas! — o rapaz parecia inconformado, como se não acreditassem nas perspectivas assustadoras que ele previa com conhecimento de causa.
— Não se executarmos tudo por etapas. Todas simultâneas. Todas planejadas. Todas devidamente seguidas umas das outras — raciocinou Rick, coçando a barba por fazer. — Sim, isso é possível. Mas vamos precisar de distrações. Muitas distrações — o policial afirmou. Passou a mirar todos os moradores de Alexandria mais uma vez.
— Precisaremos de um grupo para ir ao laboratório que Eugene comentou. Um para despistar, outro para pegar o arsênico. Dois carros. Os nossos próprios geradores foram danificados com as batalhas recentes. Eles devem saber disso. Podemos enganá-los — assegurou Grimes, sério.
— Carol, Sasha... Vocês são boas infiltradoras. Para o envenenamento, precisaremos mandar pouca gente. O suficiente para carregar o material e se embrenhar pelos pântanos próximos a base — sugeriu Rick, e as duas prontamente assentiram. — Eugene deve ir também, e lhes mostrar como achar o veneno — o líder acresceu. O professor também pareceu anuir à sugestão.
— Abraham, Rosita, Tara... Preciso de vocês como o “efeito placebo”. São ótimos soldados, bons de guerrilha... Podem fazer frente a alguma tropa que tente cercá-los nas imediações — garantiu Rick, e os três logo se posicionaram de forma positiva.
— Eu posso ir também. Minha mira é ótima e eu sou silenciosa. Arco e flecha, lembra? Sou boa pro time dos infiltradores — falou Mavelle, subitamente se oferecendo. Daryl, atrás dela, se aproximou da garota, como se aquilo fosse uma espécie de afronta. Billy arregalou os olhos, também surpreso com a determinação da irlandesa. Todos compreenderiam se quisesse ficar em Alexandria e resguardar o local, mas, pelo visto, aqueles não eram os planos da garota irlandesa de dentes salientes.
— Se estiver certa disso, será de grande ajuda — confirmou Rick, satisfeito. — Precisamos de uma linha de frente para distrair Hashimoto. Um grupo grande. Eu, Michonne, Daryl, Heath, Glenn... — o policial logo foi interrompido.
— Ele não vai — determinou Maggie, séria, segurando as mãos do marido. — Rick, me desculpe, mas não posso deixá-lo ir. Ele vai nos ajudar aqui. Pode ser o líder substituto enquanto estiver fora — disse Greene, enquanto Glenn não dizia nada. Pelo visto, já haviam combinado aquilo e o descendente de asiáticos cedera aos apelos de sua esposa.
— Então podemos contar com Aaron, Eric, Spencer, Billy, Rebecca, e quem mais se habilitar. Nossa missão é chegar até Hashimoto, vivos. Dividiremos-nos em alguns carros. Os com menos perícia em armas podem dirigir. O problema é quem dirigirá o veículo do grupo “placebo”... — Rick tentava raciocinar rápido, e logo a solução foi dita.
— Eu posso dirigir — afirmou Peggy Taylor, finalmente falando algo. Billy reparou num olhar furtivo de Moritz para a garota, que o deixou desconfiado. Ela logo abriria a boca sobre algo que Billy Ray não esperaria ser revelado.
— Quando morávamos no Aquário, Billy me ensinou a dirigir. — Ela apontou para o sulista do Alabama, que não pôde fazer nada além de anuir. Era verdade. — Todos me controlavam e me escondiam muito, tentando me proteger da minha própria sombra — confessou a garota. — Mas Billy achou que era importante que eu soubesse dirigir, caso algum dia algo desse errado e eu precisasse fugir. Dirijo bem.
Billy apenas confirmou com a cabeça, estalando o pescoço, desconfortável. Evitou olhar para Mavie. Provavelmente o julgava por isso.
— Você concorda com isso? — Rick perguntou para Mavelle, a única eleita responsável por Peggy, já que Annie falecera. Ela logo mirou diretamente a adolescente, que sustentou o olhar. Depois de alguns segundos, Mavie finalmente se decidiu.
— Sim. Sei que ela pode fazer isso — Berry aceitou como Billy imaginou que ela faria. Peggy havia crescido muito, todos reparavam naquilo. A menina assustada do Oceanário não tivera condições de sobreviver à crueldade daquele mundo, restando uma garota mais casca grossa.
— Pois bem. Abraham, Rosita, Tara e Peggy voltam assim que as infiltradoras se dirigirem rumo aos pântanos. Nós nos encontramos na entrada da comunidade. Peggy volta e ajuda a resistência da comunidade, e os outros se juntam ao grupo maior. Assim que nós sairmos e Hashimoto interceptar essa informação, provavelmente mandará uma tropa atacar a comunidade — Rick Grimes parecia decidido. — Vocês que estiverem aqui terão um ótimo arsenal...
— Isso não vai funcionar — insistiu Tucker, interrompendo o raciocínio do líder. — Não assim — o rapaz coçou a cabeça nervosamente com as duas mãos.
Rick não tinha mais paciência para aquilo.
— Você tem alguma sugestão melhor? — Grimes perguntou com ironia ríspida.
— Sim. Se algo pode distraí-la... É fingir que vocês me mandaram como um tributo. Antes de qualquer reação por parte de vocês. Como uma proposta de paz. Entregar o único fugitivo dela que sobrou para contar história — falou Tucker, se oferecendo com uma coragem que surpreendeu totalmente Billy Ray. Ele encarou o amigo, pensando no peso do que aquele rapaz acabava de propor.
Rick, Carol, Michonne e todos os outros logo miraram Tucker. Todos boquiabertos. Sem saber o que dizer.
— Vocês não precisam concordar. — Hayes abanou o ar à sua frente. — Eu vou. Eu faço isso. Só vai ajudar vocês. Só assim vai dar certo. Só assim vão distraí-la — afirmou o rapaz, tristemente decidido. Billy sentiu algo pesado lhe cair na boca do estômago. Tucker sabia o que aquilo significava, e se oferecia para ir mesmo assim.
Era um sacrifício. Se Tucker Hayes chegasse ao Exército, provavelmente nunca mais iria voltar.
— Você não vai sozinho — finalmente Billy Ray escolheu seu papel naquela decisiva, definitiva e arriscada missão.
— Eu te levo. Vou fingir que sou um vira-casaca. — Billy sorriu torto. — Um vira-casaca que quis entregar você pra se dar bem — disse o sulista do Alabama, retirando o chapéu e abaixando a cabeça, compenetrado em respirar fundo.
Billy Ray sentiu uma mão se apertar firme em seu braço esquerdo. Levantou o rosto e viu Rebecca fitando-o, seu rosto magoado como ele jamais vira antes. Parecia à beira das lágrimas. A garota loira apenas meneou a cabeça, como se implorasse para que ele não fizesse aquilo.
— Ninguém vai precisar se sacrificar — Rick se adiantou, levantando as mãos para acalmar os ânimos. Nós chegaremos com reforços logo em seguida a vocês. Eu prometo, Tucker. Billy. — Rick os encarou nos olhos. — Hashimoto não vai conseguir fazer mal a vocês. Nós vamos destruí-la primeiro — garantiu o líder de Alexandria.
O que em seguida se decidiu foram as demais combinações de todas as etapas do plano. As rotas de cada grupo, as subdivisões de cada grupo, cada atribuição, quantidade de munição e armamentos, a rota supostamente suicida que Tucker e Billy Ray fariam, onde todos se encontrariam e atacariam juntos o Exército de Wyoming County e Hashimoto, e como Hayes e Billy Ray poderiam sabotá-la de dentro da base, durante o pouco tempo em que ali ficariam. Como poderiam, inclusive, resgatar Enid.
Maggie, Glenn e Moritz comandariam a comunidade durante a ausência de Rick. Morgan parecia muito contrariado com toda a ideia de ataque ao Exército, mas não tentou impedi-los. Mesmo contra sua filosofia, o homem compreendia, finalmente, que estava em minoria e não poderia modificar o pensamento da maioria.
Já era tarde quando a reunião enfim acabou, e, se ela havia começado esperançosa, foi finalizada com um gosto agridoce. Um gosto relativo ao sentimento de quem finalmente se livra de uma agonia, mas que sofre muito para fazê-lo. Billy Ray caminhou de volta para casa sozinho, pois Rebecca saiu da reunião quase trombando contra seu ombro, profundamente ofendida com o sacrifício que ele decidira fazer.
Andando pelas ruas da comunidade, Billy respirou o ar puro dos jardins, bosques e plantas das praças, pensando que faria aquilo, talvez, por mais poucos dias. Sentiu as poucas gotas de chuva que ainda caíam banhando seu chapéu, escorrendo até seus cabelos e pescoço.
Talvez ele realmente morresse em poucos dias, mas o faria em razão de uma causa nobre. Uma causa que poderia redimi-lo por seus erros passados, que poderia fazê-lo ser lembrado por um bem que ele fez, e não por todo o mal já cometido.
Como um homem que caminha pelo corredor da morte, Billy Ray olhou para a lona de circo que fizera para Rebecca, lembrando agora um pouco mais emocionado do que acontecera na madrugada anterior. A chuva deixava aquela lona vermelha e branca com um aspecto melancólico, sonhador, como um circo abandonado.
Com o peso de suas novas decisões, lembrar do beijo que dera naquela garota loira lhe parecia uma graça vinda de outra vida, em um passado muito longínquo de seu tempo presente...
Ao chegar a sua residência, não viu sinal nem de Morgan nem de Tucker, tampouco de Rebecca. Parecia vazia. Foi até a cozinha, decidido a tomar uma dose forte de qualquer bebida pesada. Precisava relaxar um pouco, antes que tudo voltasse a piorar outra vez.
Você fez a escolha certa. Billy tentava se convencer, mas a imagem do rosto de Becky profundamente magoado parecia prensada em sua mente. Aquilo era irônico. Ele tinha raiva de Moritz Alvintzi por abandoná-la à própria sorte, mas Billy Ray acabara por decidir fazer o mesmo...
Com tais pensamentos em mente, Billy não viu a sombra que se esgueirou pela cozinha escura. Só a enxergou quando praticamente se pôs diante de seu rosto.
— Você não tinha o direito de fazer aquilo! — Rebecca Gable soluçou, seus grandes olhos negros marejados de lágrimas. Billy teve o impulso de abraçá-la, sentindo-se mal por vê-la daquele jeito, mas sabia que não podia fazer aquilo. Não podia dificultar mais o que já era tão complicado.
— Menina... — ele tentou começar, mas a garota loira o parou.
— Não me chame de “menina”! Não me chame de mais nada! — Becky lhe deu um empurrão, fazendo Billy quicar em direção à porta que tinha acabado de fechar.
— Eu não consigo entender... Eu não consigo entender, você disse que não ia mais fazer isso, que não ia mais ficar nessa lama de culpa! — esbravejou a jovem mulher, as lágrimas manchando a maquiagem escura de seus olhos.
— E eu não vou mais... Estou fazendo isso pelo grupo. Por você — Billy Ray falou outra vez, ele mesmo lamentando o rumo que as coisas tomaram.
— Por mim! — Becky falou, irônica. — Por mim?! Você é um palhaço de circo que nem o Moritz e eu não sabia? — debochou a garota loira. — Você está fazendo isso por você! Porque acha, que nem o coitado do Tucker, que ser um mártir vai ajudar as pessoas de quem você gosta! Vai consertar alguma coisa! — ralhou ela, secando as lágrimas com as costas das mãos. Mal adiantava. Continuava chorando.
— Pois quer saber da verdade? Morrer não vai ajudar ninguém! Só vai entristecer as pessoas que gostam de você! Eu gosto muito de você, seu caipira imbecil! — confessou Rebecca, falando agudo, dando as costas para Billy, soluçando como uma criança ferida.
Aquilo partia o coração de Billy Ray. Não era possível. Como, tentando fazer o certo, ele ainda assim acabava machucando as pessoas que prezava?
— Você perguntou se eu queria ficar do seu lado. Eu estou do seu lado. Sempre estive. É você que está fugindo! — falou ela, um pouco mais controlada, seus ombros tremendo.
Billy Ray olhou para as costas e a silhueta daquela garota loira. Não pensara naquilo. Não imaginara mesmo que ela ficaria tão mexida... Ainda não conseguira entender o quanto era importante para Rebecca. Mas ele não merecia aquilo. Como ela poderia gostar tanto dele? Por quê?
— Becky. Eu preciso fazer isso... Para ser digno. Digno de você. Digno de ser alguém feliz, outra vez — ele tentou se explicar, aproximando-se dela e tocando seus ombros, mas Becky voltou-se outra vez, furiosa.
— Você já é! Eu já quero ficar com você. Você me entende. Eu te entendo. Por que precisa de mais do que isso? — Ela continuava a chorar, agora mais entristecida e menos enfurecida.
— Eu preciso me redimir — ele insistiu, tentando segurar as mãos de Becky, que se afastou outra vez.
Rebecca ficou algum tempo em silêncio. Billy sentia pontadas em seu coração como se adagas perfurassem seu peito. Não queria deixá-la daquele jeito.
— A nossa vida... Não é só nossa. Se não conseguirmos viver um com o outro, vamos morrer sozinhos. Abandonados. Eu não quero isso pra você. Eu não vou deixar você morrer assim. Você marcou a minha vida, Billy Ray, seu maldito caipira teimoso. — Rebecca o mirou outra vez, e Billy novamente se aproximou. Não mais aguentou. Puxou Becky para si, abraçando-a com força, colocando o rosto dela contra seu peito, aninhando-a.
— Você é responsável pelas merdas que fez, mas também, por me ter feito gostar de você. Do seu jeito estúpido! — garantiu Becky, sua voz abafada junto ao peito dele, lhe dando um soco sem força, fazendo Billy dar um meio sorriso.
Ela se afastou um pouco, de forma a encará-lo nos olhos.
— Então, se você for nessa missão idiota suicida... Você não vai sozinho. Ou você desiste disso, ou vai ter de lidar com o fato de que eu vou também. Como a gente já havia tentado antes. Vamos juntos — Becky Gable se decidiu. Billy Ray engoliu em seco, subitamente aflito.
— Becky, você não... — ele tentou, mas logo foi contrariado.
— Eu sempre estive do seu lado, não é verdade? — disse aquela garota tão pura, tão sincera, tão boa. Aquela garota maravilhosa que se apaixonara por Billy por algum milagre divino, e por quem ele, agora, também estava profundamente apaixonado.
— É verdade. Menina — brincou Billy, e Rebecca o enlaçou pelo pescoço, beijando-o como se aquele fosse o último dia de suas vidas. E Billy retribuiu aquele afeto, com todo seu coração.
*****
Peggy finalmente tivera tempo de fazer o que pretendia desde que Aya se fora.
Devia à memória de sua melhor amiga aquilo. O mesmo rito de passagem que ela lhe ensinara a fazer para as pessoas que amavam, quando se despediam desta vida terrena.
Ela havia acabado de plantar a semente de girassol, a flor favorita da garota indígena. Imaginava quanto tempo demoraria para crescer, se a veria maturar, florescer e morrer, indicando, segundo as crenças da tribo Arapaho, que o falecido homenageado com o plantio da flor há muito já alcançara a paz espiritual.
Aya... O que você diria se me visse agora? Pensou a adolescente, lembrando com saudades da grande amiga. Da amiga tão próxima que fora uma irmã para si.
As lembranças da garota indígena foram interrompidas pelo barulho de passos em meio à grama molhada pela chuva leve. Peggy desviou o olhar de todas as flores plantadas por ela e Aiyana no bosque de Alexandria.
Por trás de uma das árvores, Moritz se aproximou, trazendo consigo um guarda-chuva grande e escuro. Parecia um estereótipo do cavalheiro europeu, o que fez Peggy sentir uma súbita e boba vontade de rir.
— Sininho, sei que sabe voar por aí, mas a chuva é perigosa até mesmo para as fadas. — A voz de Moritz parecia calma, pausada e cortês, mas ela já o conhecia o suficiente para perceber uma diferença de seu tom realmente tranquilo. Ele pretendia lhe dar algum sermão.
— Não se preocupe, estou com capuz e agasalho. — Sorriu de forma meio forçada, indicando o moletom e o tecido que cobria seu rosto.
— Daqui a pouco vai escurecer, é melhor voltar para casa — aconselhou ele, enquanto via as flores plantadas no bosque. Pareceu compreender aquilo. — Então ela também te ensinou...? — Moritz indagou, distraído, quase como se expressasse um pensamento.
— Você também tem uma dessas plantadas? — perguntou Peggy, curiosa. Podia imaginar em homenagem a quem, e aquilo lhe trouxe uma espécie de nó no peito. Uma sensação desagradável.
Moritz não lhe respondeu. Apenas sorriu e insistiu para que saísse da chuva. Aquele mistério a deixou ainda mais intrigada e desconfortável a respeito.
Decidiu acompanhá-lo no guarda-chuva, porque aquilo não despertaria suspeitas. Seria apenas um cidadão de Alexandria ajudando uma garota incauta a pegar menos chuva. Contudo, deu o braço a ele de forma distante, fingindo indiferença em retorno a sua falta de resposta que a deixou desagradada.
Mal conversaram durante o caminho, até que ele enfim quebrou o silêncio.
— Você sabe, não precisava ter se oferecido durante a reunião — disse o ex-palhaço, como quem não quer nada, mas ela o cortou.
— Precisava. Eu poderia ajudar. Então, me voluntariei — redarguiu Peggy Taylor, simples. — Se acha que eu sou adulta o suficiente pra transar com você, pode ser mais honesto comigo — Peggy foi direta ao ponto, munindo-se de coragem e encarando Moritz, ao seu lado, debaixo do guarda-chuva.
Ele respirou fundo, levantando as sobrancelhas, e outra vez forçou o mesmo sorriso polido de sempre.
— Eu não duvidei das suas capacidades...
— ...Mas tentou me tratar de uma forma que acaba por me fragilizar. Eu sei disso. Todo mundo tenta fazer isso comigo. Mas eu não vou mais aceitar. Posso ser útil para este lugar, e as pessoas estão descobrindo isso aos poucos. Eu esperava contar com você pra isso — confidenciou-o com sinceridade. Estavam muito perto da casa da adolescente.
— Mas é claro que pode contar com a minha ajuda. Sempre — Moritz ratificou, sério, encarando-a com mais afinco.
— Então não precisa ter medo de me tratar de igual para igual. Não só como a sua aluna ou algo do tipo. Ou como a garota com quem você faz sexo — acresceu a adolescente, certeira.
— Não fale algo assim, você sabe que significa muito mais do que isso... — o ex-professor tentou, parecendo desconcertado com a coragem súbita da garota, mas logo foi cortado outra vez, pois já estavam quase no beiral de entrada da residência.
— Da próxima vez, pode me falar que plantou uma flor em homenagem à sua esposa falecida. Eu vou saber lidar com isso — garantiu Peggy, dando um tchauzinho para o ex-palhaço e entrando em sua própria casa.
Peggy Taylor amadurecera, e, no mundo em que viviam, pouco a pouco se despedia da garota que ainda residia dentro de si. Se não o fizesse, sabia que não resistiria aos desafios que estavam por vir.
Mas ela era a árvore na tempestade, como dissera Aya em sua carta. Seu tronco era forte. Não quebraria.
Daria adeus à adolescente em si, e, muito em breve, já seria uma mulher.
*****
Tucker Hayes passara aquela tarde vagando a esmo pelas ruas de Alexandria. Mesmo em meio à chuva, não se importava com os poucos pingos d’água, pois se vestira com um de seus grandes casacos estilo rapper, com capuz. As mesmas roupas ridículas que um dia já gostara tanto de usar, um idiota se sentindo o máximo. Mas Tucker Hayes não era mais um garoto que se vestia como um rebelde sem causa, embora não gostasse de se lembrar disso.
Ele sabia que aquele dia chegaria, mais cedo ou mais tarde. Não poderia fugir de Hashimoto para sempre. Nem de tudo que fizera a mando dela e de seu Exército. A japonesa não residia apenas em seus pesadelos, ela deixara uma marca de destruição, corrupção e maldade na mente, no corpo e na alma de Tucker, convencendo-o a fazer coisas que ele jamais se imaginaria capaz de fazer.
Mas que, no fundo, eram parte dele. Se não conseguisse fazê-las, não teria escolhido esse caminho. Aquela era a verdade, por mais dolorida que fosse.
E agora era sua hora de pagar.
Já estava perto de anoitecer, e a maioria dos painéis solares de Alexandria estavam quebrados. Só poderiam repará-los com materiais específicos, metais e outros que só poderiam encontrar em locais especializados. Tucker, provavelmente, não estaria mais ali para ver a comunidade quando se livrassem da ameaça de Hashimoto, e pudessem consertá-la por inteiro.
Sem mais da metade dos geradores de energia funcionando, tinham de economizar o pouco que dispunham de energia elétrica. Os postes estavam apagados, e foram substituídos por tochas e lampiões protegidos da chuva, que ele mesmo ajudara a colocar em pontos-chave para iluminar a comunidade. Àquela luz do passado, Alexandria parecia uma espécie de cidade do interior, um vilarejo perdido no tempo.
Cathy, a namorada de Tucker, provavelmente acharia aquilo lindo. “Bucólico”, ela diria, ou alguma palavra difícil do tipo. Catherine era metida a artista, mais do que Tucker, que sempre gostara de desenhar. O gosto pela arte foi o que aproximou os dois, primeiramente. Tucker Hayes ainda se lembrava dos olhos dela, de um azul marinho lindo, e aquele sorriso maravilhoso que ela tinha, de contagiar qualquer um. Cathy não sabia de sua própria beleza, de sua doçura e de seu charme, o que, para um inseguro como Tucker, até o deixava um pouco aliviado. Se sentia o sujeito mais sortudo do mundo quando ela ainda estava do seu lado.
Bonnie também gostaria da comunidade. Sua irmã era mandona, chata e metida a resolver tudo, proteger todo mundo, se daria muito bem com o grupo de Rick Grimes. Poderia imaginá-la ficando amiga diretamente de Rick, Michonne, de Carol, talvez até mesmo da irlandesa, a tal de Mavie. Era mesmo uma pena que elas não tivessem chegado a conhecer aquele lugar.
Tucker olhava para os pingos de chuva caindo na grama defronte ao arsenal. Talvez houvesse um lado bom de não tê-las ali. Quem sabe, se não demorasse muito... Eles poderiam se ver. Ele logo poderia se encontrar com seus pais. Com Bonnie. Com Cathy...
Uma silhueta passou andando próxima de Tucker. Carregando uma caixa pesada, repleta de armamentos. Também sozinha, na chuva.
Ele piscou os olhos, tentando discernir quem era.
— Dona Peletier! Espera um pouco — Tucker bradou, seguindo Carol, que apenas apressou o passo.
— Estou ocupada, garoto — ela lhe deu um fora típico, seguindo rumo a casa onde morava com Rick Grimes e outros companheiros.
— Deixa eu te ajudar a levar isso — o rapaz falou, ignorando a grosseria. Carol Peletier apenas levantou uma das sobrancelhas, mal lhe dando um olhar. Parecia mais fria do que de costume com ele.
— Tem mais uma caixa que eu separei. Fale com a Olivia. Ela te entrega. Pode deixar lá na varanda da minha casa — orientou-o. Tucker assentiu, e logo foi ajudá-la.
Grato pela distração de seus pensamentos melancólicos, Tucker Hayes levou as armas e munição remanescentes para a residência de Carol, onde ela esperava de braços cruzados na varanda.
— Obrigada. Boa noite. — Ela virou as costas e pôs-se a entrar com a caixa.
— Espera aí! Aonde você vai guardar isso? É pesado! — Tucker continuou, um pouco atônito com aquele tratamento distante e ingrato.
— Não é da sua conta — Carol retrucou, fechando a porta praticamente no rosto do rapaz. Tucker Hayes piscou os olhos, passando as mãos pelos cabelos, ao soltar o capuz. Abriu a porta e entrou sem ser convidado.
Não havia ninguém no repartimento além dele e da mulher de cabelos grisalhos, que havia guardado as armas próximas a uma estante de madeira.
— O que pensa que está fazendo? — Carol Peletier parecia revoltada, andando na direção de Hayes como que para expulsá-lo.
— Estou te ajudando — rebateu o rapaz, sério.
— Não pedi sua ajuda — retorquiu Carol Peletier, irritada.
— Não, mas você precisa — insistiu o rapaz, com as mãos nos bolsos. Os dois se encararam, e Carol soltou uma risada de escárnio.
— Você resolveu me seguir para cima e para baixo sei lá por qual razão, e acha que sabe de alguma coisa? — ela debochou. — Quando eu olho pra você, parece que vejo um filhote de cachorro. Carente demais — falou a mulher, com sarcasmo, apontando com a mão para Tucker enquanto ajeitava os pentes das armas.
Tucker Hayes não se sentiu atingido. Entendia a personalidade daquela mulher. A mesma personalidade fechada, turrona e mandona da sua irmã. A personalidade de alguém que se esconde, para ocultar na verdade o quanto é sensível. O quanto se importa com os outros. E o quanto sofre, quando os vê machucados.
Ele apenas sorriu.
— Dona Peletier, eu sei que você tem apreço por mim. Não precisa dessa pompa toda. — Carol o olhou indignada assim que ouviu o que ele disse.
— Eu também gosto de você. Você é muito inteligente, forte, uma mulher admirável. Mas você precisa dar lugar para os seus amigos se aproximarem de você. Não dá pra cuidar de todo mundo o tempo todo. — Tucker foi pouco a pouco caminhando até Carol Peletier, que ainda o fitava com uma expressão entre a revolta e a incredulidade.
— Eu posso parecer... Como você disse? Um filhote de cachorro carente — Tucker riu, melancólico. — Mas eu sei que você ficou desse jeito porque sofreu muito. Porque teve de endurecer, pra não quebrar. Mas você não é uma casca oca. Você é uma pessoa totalmente dedicada aos outros, por dentro — ele atestou com sinceridade.
— Você não me conhece, garoto — retrucou a mulher, com frieza forçada. Parecia tentar se esconder dele, o que fez Hayes ter vontade de rir.
— Então me deixe conhecer. — Sua frase foi tão intensa que Carol outra vez o fitou, surpresa. Tucker, sem jeito, manteve o olhar, coçando o cabelo.
— Eu sou um filhote de cachorro carente indo tomar uma injeção letal. Acho que mereço brincar um pouco antes de morrer, não é? — Tucker foi sarcástico, e Carol soltou uma risada nervosa.
— Por que você fez isso? — Carol Peletier mencionava o sacrifício que Tucker se propusera.
— Eu tive de fazer isso. Fiz muita merda, dona Peletier, e esse tipo de coisa traz consequências — ele se referia ao seu tempo no Exército de Wyoming County. — Vocês merecem um lugar pra viver, vocês são boa gente, gente que não se perdeu. Não como eu me perdi. — O rapaz passou sua mão direita em seu rosto, tentando evitar aquelas lembranças dolorosas que tanto o perturbavam diariamente.
Carol parecia sem palavras. Tentou organizar algo para falar, mas apenas proferiu uma frase.
— Está tarde, garoto. Depois conversamos. Vá pra casa, descanse. — Ela respirou fundo. Os dois se encararam mutuamente, outra vez, por alguns segundos.
— E pare de me chamar de Dona Peletier. Me sinto uma velha de noventa anos — reclamou, fazendo Tucker soltar uma risada legítima.
— Ok, Do... — Carol Peletier lhe deu um olhar fuzilante. — Carol. Boa noite. Vou cobrar essa conversa! — o rapaz se despediu com um sorriso sincero, saudando a mulher e fechando a porta da casa dela.
Tucker Hayes não sabia o que o destino lhe reservava. Poderia morrer em poucos dias, ou, por algum milagre, sobreviver e testemunhar a renovação de Alexandria. Mas ele sabia que, pelo tempo que lhe restava, usaria seus dias para agir da melhor maneira possível. Fazendo aqueles que eram importantes para ele sorrirem, e lhes dando o conforto que ele próprio gostaria de receber.

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