Hunter's Instinct
53 Episódio 53 - Together We Stand
Notas iniciais
The oak fought the wind and was broken, the willow bent when it must and survived.
~ Robert Jordan, The Fires of Heaven.
A chuva caía espessa, densa como granizo disfarçado em meio à água plúmbea.
Guardas-chuvas erguidos impediam que parte daquelas maciças gotículas atingissem o considerável grupo de pessoas reunidas em um jardim localizado aos fundos de uma casa. Residência que antes fora o lar da falecida mandatária de Alexandria, na qual agora residia somente seu único filho sobrevivente, Spencer Monroe.
O herdeiro da antes líder da comunidade se encontrava ao lado de Padre Gabriel, próximo dos túmulos recentemente cavados e cobertos, pertencentes aos mortos nos últimos eventos. Thelma, Francis, Rhonda, Edmund, Lincoln, Lafayette, Kurt, Oliver, Jessie, Sam, Ron, Deanna... Annie. Os novos residentes do cemitério de Alexandria.
O homem de cabelos compridos com o "W" encravado na testa também recebera uma cova, distante da dos demais. Assim como os três soldados mortos de Hashimoto. Alguns haviam protestado contra aquilo, mas Moritz, Maggie, Glenn, Tara e outros insistiram para que até mesmo os inimigos da comunidade recebessem túmulos. Seria uma forma de manter a própria humanidade remanescente nos sobreviventes.
Uma forma de continuar a diferenciá-los de Hashimoto e da loucura de seu Exército.
Treze mortos. Daryl Dixon pensou, franzindo as sobrancelhas por todo o tempo. Sequer levara em conta o "Wolf" assassinado por Denise Cloyd quando este tentara levá-la de refém, em uma manobra simultaneamente corajosa e arriscada para desarmá-lo e executá-lo com um bisturi. Também não contava os três soldados mortos da japonesa psicopata, sendo um deles eliminado pelo próprio Dixon.
Fazia tempo que Daryl não se sentira em seus intintos plenamente animais, inenarravelmente furioso, como no momento em que percebera que Mavie estava trancada no segundo andar do hospital da comunidade. Sozinha com Deanna e Annie como reféns, mantidas sob o controle dos maníacos soldados de Hashimoto.
Quando enfim pudera arrombar a porta do segundo andar da enfermaria, avançou diretamente para o sujeito que mantinha Mavelle presa junto ao chão. Em uma fração de segundo, ele atestou a silhueta dela ensanguentada, uma das mãos do maldito soldado puxando os braços da garota irlandesa para trás, outra fixando sua cabeça com violência contra o piso.
Mavie gritava como se suas tripas tivessem sido arrancadas por errantes. E Dixon não esperou mais nada.
Reagindo como uma fera, um animal monstruoso tomado de ódio, o arqueiro se lançou contra o homem que agredia a irlandesa mais jovem e torceu seu pescoço com as próprias mãos, grunhindo como uma besta por todo o ataque. Não raciocinava. Apenas compreendia que a segurança de Mavelle estava ameaçada. Precisava agir, seus instintos de caçador em polvorosa.
Foi só depois de alguns segundos que finalmente teve consciência de tudo como acontecia exatamente. Deanna fora assassinada, lançada aos errantes, e o sujeito que a assassinara já se punha em fuga. O outro restante havia acabado de cortar as costas da avó de Mavie com uma peixeira afiada, e também já se movimentava para fugir.
Daryl havia pensado em correr na direção deles, seguí-los e matá-los um a um, da mesma forma com que fizera com o outro soldado. Mas tinha algo mais urgente para fazer.
Mavelle Berry se esgoelava no chão, seu corpo machucado se esforçando para se arrastar pelo piso de madeira, o pano colocado em sua boca quase a sufocando. Dixon havia instantaneamente se abaixado para segurá-la, arrancando a venda de sua boca, antes que a irlandesa, fora de seus sentidos, pudesse inventar de ir atrás do assassino de sua avó.
Estava difícil mantê-la quieta, apesar da diferença considerável de força física entre os dois. Seu corpo retirara resistência do nada apenas para conseguir ir até o cadáver da avó, caído na varanda.
O resto aconteceu muito rápido. Sentindo ele mesmo uma dose assustadora de desolação crescer dentro de seu próprio peito, Daryl testemunhou a chegada apressada de Tara e de Peggy. A mulher esfaqueou o crânio do soldado morto por Dixon, impedindo que logo se transformasse, e Peggy correu até o corpo de Annie. Chambler logo foi em seu encalço, e ambas avisaram aos dois que Annie ainda não havia falecido.
Daryl piscou os olhos, ainda mantendo Mavie presa em seus braços com todas as suas forças, enquanto a garota morena por instantes parou de se debater. Como se digerisse o significado daquelas palavras.
Surpreendendo o arqueiro, a garota se levantou de pronto, quase caindo pelo estado precário de seu corpo depois da surra que levara do soldado de Hashimoto. O arqueiro impediu-a de quedar contra o chão, ajudando-a a se levantar e ir até a avó, que fora deixada por Tara e Peggy na cama que havia naquele quarto. Daryl Dixon percebeu o quanto as costas da médica estavam sangrentas. Não duraria muito.
O arqueiro insistiu para que Tara e Peggy dessem privacidade a irlandesa mais velha e sua neta. Afastou-se um pouco, enquanto Mavelle e Annie conversavam baixinho.
Dixon havia visto a morte de inúmeras pessoas. Diversas delas, pessoas muito queridas por si. Seu irmão, seus amigos. Mas aquilo era diferente. Fora um tanto como a morte de Hershel. Quando se sentira inútil, um incompetente incapaz de proteger as pessoas de seu grupo, as pessoas amadas por aqueles que eram sua família. Ora, as pessoas que ele mesmo amava.
Aquilo fora diferente... Porque não lhe doía apenas a morte de Annie. O que lhe dóia, mas que diabos, mais até do que o falecimento da pobre velha... Era a forma como aquilo parecia estar destruindo Mavie, de dentro pra fora.
Ao ouvir Mavelle cantar para sua avó, após um pedido da idosa, uma última despedida, Dixon sentiu que ele próprio poderia cair no choro. Teve vontade de dar um soco em si mesmo.
Daryl se julgava um imbecil. Um peso inútil. Era um absurdo que um sujeito fraco como ele, um constante fracasso, não conseguisse nem sequer proteger aquela velha de uma morte tão horrível.
Proteger Mavie de passar por tudo aquilo.
O próprio peito do arqueiro pareceu ter sido dilacerado quando Annie Guinness deu seu derradeiro suspiro naquela terra de sofrimento, e Mavie tentou buscar a própria faca de caça. A única irlandesa agora viva em Alexandria tentara prensar a lâmina contra o crânio da avó, depois de passar minutos abraçada junto ao seu corpo sem vida. Mas não conseguira.
Mavelle caiu no choro, parecendo uma criança desconsolada.
Daryl engoliu em seco, e foi até a garota morena. Levantou-a com cuidado, afastando-a da avó contra sua vontade. Encostou o rosto dela contra seu peito, enquanto Peggy e Tara andavam até o cadáver da idosa. Tara fez menção de garantir o descanso de Annie com sua faca, mas Peggy foi mais rápida. Retirou-a das mãos de Chambler, dando-lhe um olhar significativo. Em seguida, mirou Daryl, que apenas confirmou com a cabeça, dando-lhe apoio para o que precisava ser feito.
Mavelle moveu o rosto, tentando ver o que aconteceria, mas Dixon tentou puxá-lo de volta. Berry não permitiu. Com os olhos cheios de lágrimas, a irlandesa viu Peggy cravar a faca de Tara no crânio de sua avó, e passou a chorar baixinho. Sem emitir som algum.
Subitamente, Mavelle se afastou de Daryl. Mirou o corpo da avó longamente, as lágrimas molhando seu rosto alvo em contínua descida. Daryl não soube quanto tempo continuaram ali, parados, vivenciando aquele trágico sentimento de luto. Só foram interrompidos ao ouvir os sons de Rick Grimes, poucos metros abaixo, investindo para dentro do hospital. Desceram as escadas e viram que ele trazia Carl, o rosto do garoto sangrando em profusão.
Passaram momentos de angústia temendo pela vida do garoto, até que Rick decidiu que não havia outra solução: teriam de ir diretamente contra os errantes. Como se contagiados de imediato pela liderança de Grimes, muitos se juntaram àquela resistência. A dor da perda da avó pareceu transformar Mavie. Acertou ainda mais flechas do que de costume nos mortos-vivos.
O resto daquele dia foi uma exaustiva tarefa para limpar todo o campo de batalha. Mortos-vivos desconhecidos foram queimados em pilhas e pilhas de cadáveres andantes eliminados, muitas covas foram cavadas, e Dixon continuava vigilante como um falcão, certificando-se de como estava Mavelle o tempo inteiro. Mal pensava. Apenas agia. Sabia que precisava garantir que ela não sofresse mais do que já havia sofrido.
Seguiu a garota por todos os lados, por vezes mais afastado, por vezes mais próximo. Jamais vira a irlandesa tão silenciosa. Mavie cuidou do enterro da avó, cavando pessoalmente a cova dela, não permitindo que outro o fizesse em seu lugar. Demorou até altas horas da noite.
Também depositou toda a terra por cima do corpo da idosa, e só saiu da frente do túmulo de Annie por insistência do caçador, de Glenn, Maggie, Tara e Peggy. Daryl desconfiava de que ela teria continuado ali a noite toda, não fosse a interferência deles.
Na véspera do funeral de todos os mortos naquela invasão de Alexandria, Daryl dormira na sala da casa de Tara, Peggy e Mavie, depois de ajudar na reconstrução de urgência dos muros derrubados. Mal pregara o olho. Mavie não queria conversa com ninguém, estava afastada, perdida num mundo próprio de tristeza. Dixon respeitou aquilo, o que não significava que deixaria de ter certeza de que a irlandesa continuava ali, respirando. Não entendia bem aquilo, mas apenas sentia como um impulso irrefreável que precisava ajudar Mavie Berry o melhor que pudesse.
E ali estava ele, na tarde do dia seguinte. Depois de queimarem as últimas pilhas de errantes e reconstruírem o que faltava ser reajustado, finalmente Alexandria pôde se reunir, por inteiro, para o funeral de seus saudosos falecidos. Daryl não usava um guarda-chuva, deixava a água cair e escorrer por seu corpo, ainda que o vento frio de outono junto à chuva estivesse de gelar os ossos.
Mavelle estava cercada de amigos. Glenn, Maggie, Peggy, Tara, todos se dividiam entre prestar homenagem aos mortos, olhando respeitosamente para os túmulos, e encarar a garota irlandesa. A própria pequena garota do Aquário recebia muitas condolências, por ser próxima de Annie, mas ela parecia estar menos abalada do que Berry.
Padre Gabriel falava alguma baboseira religiosa qualquer sobre paz e descanso dos mortos, do quanto estavam em um lugar melhor agora, e que orassem por todos os sobreviventes. Falou que continuavam junto com todos os vivos em suas preces e em seus corações e memórias, mas Dixon mal escutava. Não tirava os olhos de Mavelle, vendo o rosto da garota irlandesa de perfil, apenas alguns centímetros distante dele.
Ao seu lado, estavam Carol, Aaron, Eric, Rick e Michonne. Grimes não parecia tão movido pelo funeral e seu rosto demonstrava uma preocupação urgente, mas Daryl realmente não o julgava por isso, embora outros pudessem fazê-lo. Seu filho estava por um fio, sua vida sendo cuidada pelos esforços redobrados de Denise, a única médica remanescente de Alexandria. Os dois, paciente e doutora, eram os únicos não presentes na cerimônia de despedida.
Abraham, Sasha, Rosita, Eugene, Tobin e Heath estavam mais atrás, próximos de Tucker, Billy Ray, Rebecca e Morgan. Todos os dez pareciam particularmente muito cansados, mais exaustos do que propriamente emocionados.
Dixon retornou a olhar para Mavie. Reparou, de súbito, que a garota irlandesa não mais chorava. Apenas mantinha o olhar na direção do túmulo da avó, talvez em sua mente revivendo memórias longínquas... De outra vida, de outro lugar, de outro país.
Daryl sentiu outra pontada em seu peito, quando Padre Gabriel passou a falar mais alto.
— Um escritor que eu sempre admirei escreveu: "eu não pedirei para que não chorem, pois nem todas as lágrimas são um mal". É uma frase aplicável para o momento. Despeçam-se dos seus, com todo o sentimento que lhes é devido. Mas lembrem-se de algo também importante... Esse mesmo escritor também redigiu: "o mundo é realmente cheio de perigos e há muitos lugares escuros. Mas também há muitas coisas belas. E mesmo que em todas as terras o amor se misture ao luto, ele cresce ainda mais forte". — O Padre tomou fôlego, abaixando a Bíblia, e continuou.
— Descansem em paz Deanna, Annie, Thelma, Francis, Rhonda, Edmund, Lincoln, Lafayette, Kurt, Oliver, Jessie, Ron e Sam. Sua perda será sentida. Que a paz do Senhor esteja convosco — Padre Gabriel finalizou a cerimônia.
— Ele está no meio de nós — Maggie e alguns outros moradores católicos responderam.
— Amém — o restante balbuciou, Dixon inclusive, apesar de não ter religião.
Mavie provavelmente estaria sentindo o olhar de falcão do caçador lhe queimando a nuca, mas nada disse. Alguns moradores jogaram flores nos túmulos de seus entes queridos, Daryl abraçou Carol, pois sabia que a amiga sentia a perda de Sam, mas Rick logo caminhou a passos largos até onde Padre Gabriel estava, para que todos os moradores da comunidade pudessem lhe ver.
— Pessoal... — Rick pigarreou, firmando a voz. — ...Sei que estão todos muito abatidos. Sofremos perdas horríveis recentemente. Mas ainda temos muito o que fazer. — O policial passou a varrer com o olhar os rostos de cada morador.
— Já está muito tarde, e eu não pretendo exaurir as forças de ninguém. Precisamos descansar, para estarmos bem amanhã. Já aviso que eu e o Conselho decidimos por uma reunião de emergência. Amanhã mesmo começaremos a formular o nosso contra-ataque ao Exército de Wyoming County. — Grimes segurou firme em seu guarda-chuva, soltando os ombros.
— Lembrem-se: vocês não são obrigados a participar, mas toda ajuda será bem-vinda. As aulas de tiro e defesa pessoal irão continuar, agora, mais necessárias do que nunca. — Rick encarou Michonne, Rosita, Glenn, Billy Ray e Tara, alguns dos responsáveis pelas aulas.
— Mas o que é fundamental que façamos ainda hoje é o seguinte: por enquanto, é melhor termos todo o cuidado possível com nossa segurança. Já vimos do que essas pessoas são capazes. Não devemos baixar a guarda em momento nenhum. — Grimes gesticulava com precisão. — Todos devem andar armados para todo e qualquer lugar, inclusive dentro das próprias casas. Todos devem evitar sair à noite, quando não forem encarregados das vigias noturnas. E, sinceramente, acho melhor que passemos a dividir nossas casas com mais pessoas. Esta última parte é apenas uma sugestão, mas uma boa precaução — Rick afirmou, solene. — Por exemplo, Maggie e Glenn decidiram se mudar por uns tempos para a casa de Tara, Mavie e Peggy — complementou o policial.
Um burburinho foi escutado, como se alguns dos moradores não gostassem da ideia. Mimados da porra. Continuam assim, mal acostumados pra caralho. Pensou Dixon, irritadiço.
— Pensem no que falei. A reunião será às sete, amanhã. Não vamos perder tempo. Boa noite a todos! — saudou Rick Grimes, com o máximo de confiança que pôde reunir, e se dirigiu para o hospital da comunidade, provavelmente para passar a noite junto ao leito de Carl.
Gradualmente, os cidadãos da comunidade foram se dispersando, cada qual tomando seu próprio rumo. Restando em frente aos túmulos de Annie apenas sua neta, Glenn, Maggie, Tara e Peggy, Daryl ainda continuava quieto, apenas avaliando as reações de Mavelle.
— Vamos para casa. Sei fazer um doce de maçã verde delicioso — garantiu Maggie para Mavie, que mal moveu os olhos da cova de sua avó.
Glenn a interrompeu. Ele e Maggie dividiam um mesmo guarda-chuva tamanho família, segurado pelo ex-entregador de pizzas.
— Nada disso. Com uma barriga desse tamanho você já ficou em pé por tempo o suficiente hoje — o descendente de asiáticos atestou. — Você me escreve a receita e eu faço.
— Mas você é um desastre na cozinha! — debochou Maggie, com um meio sorriso.
— Não se preocupem, eu posso fazer — se ofereceu Peggy, de pronto, passando uma das mãos pelas costas de Mavelle, como se a acarinhasse. A irlandesa mal os encarava, ainda fitando o túmulo da avó.
— Bem, eu vou ajudar Rosita e Denise, mas logo volto para casa, ok? — Tara se comprometeu, dando um abraço forte em Mavie, evitando que seus guarda-chuvas trombassem. — Fica firme, garota — sussurrou ela para a amiga da Irlanda. Mavie Berry nem se esforçou para sorrir. Apenas deu um leve meneio de cabeça. Tara se afastou, e a discussão atrapalhada continuou. Estava claro que nenhum deles sabia o que fazer para consolar Mavelle. Pudera, a garota parecia irreconhecível.
— Bom, se você não quiser doce, não sei, posso ver se faço alguma batida forte com whiskey, e algo sem álcool para Maggie e Peggy... — Glenn sugeriu, coçando a cabeça, incerto.
— Deixem ela em paz — finalmente falou Daryl. Sua voz soou ainda mais firme e roufenha do que ele imaginava.
Glenn, Maggie e Peggy o encararam, surpresos. Mavelle não olhou para o arqueiro ou para nenhum de seus amigos, e apenas passou a caminhar na direção de casa em meio à grossa água da chuva.
— Estávamos tentando ajudar — falou Maggie, um pouco ofendida pela grosseria. — Ela não é de ficar calada assim. Não podemos deixar ela deprimir mais ainda — insistiu Greene, séria.
— Também acho — concordou Glenn, franzindo as sobrancelhas. — Ainda mais agora que estamos lidando com uma guerra.
— É o pior momento — Peggy também parecia refletir. — Eu sei como é se fechar na própria dor. Não vai fazer bem nenhum a ela — assegurou a adolescente.
— Deixem quieto. Ela só precisa de um tempo — rebateu Daryl, sério, ajeitando a balestra nos ombros.
— Como pode ter certeza? — redarguiu Peggy, incrédula.
Daryl Dixon ficou em silêncio por um tempo. Os três o fitavam, aguardando alguma resposta da parte do caçador. Simplesmente... Ele sabia.
Sabia o que fazer.
— Vão para casa. Preparem algo para ela, essas merdas todas, mas não encham o saco. Deixem ela no canto dela. Mais tarde passo lá — afirmou o arqueiro, voltando-se de costas aos outros três.
Daryl Dixon passou o resto da tarde ajudando os responsáveis pela construção a solidificar ainda mais os muros, erguendo novas plaquetas e outras defesas para dificultar posteriores invasões a Alexandria. Quando a noite havia caído há muito, tomou o rumo para a casa de Mavelle.
Glenn e Maggie estavam na sala, sentados abraçados no maior sofá que ali havia, quando Daryl chegou. Tentaram saudá-lo calorosamente, mas Dixon vira que interrompera um momento de descanso do casal.
— Peggy está no quarto dela, no meio do corredor. Mavie também. Tara já veio, tentou tirar Mavelle lá de cima, mas não conseguiu. Voltou para o hospital — contou Maggie, torcendo os lábios. Continuava preocupada com o estado emocional da amiga.
Vocês julgam ela muito mais fraca do que é. Daryl pensou. Sabia que Mavie estava mal, mas, pelo visto, ele conhecia a Esquila melhor do que todos os outros.
— Vou subir — avisou em poucas palavras ao casal Rhee e Greene. O arqueiro se dirigiu até as escadas, passando pelo primeiro quarto, que, pelo visto, agora era de Glenn e Maggie. O antigo quarto de Annie. O único com a porta aberta. Passou pelos aposentos do meio, de Peggy Taylor, e logo bateu na porta do quarto de Mavelle.
— Vou entrar — disse o caçador, quase grunhindo, depois de bater algumas vezes, sem resposta.
Mavelle estava sentada na cama, de costas para ele. Daryl fechou a porta e se aproximou da irlandesa. Sentou-se ao seu lado, deixando a balestra em cima de uma estante baixa de livros. Mavie estava de frente a uma janela, na qual uma árvore frondosa se fazia ver. A chuva caía por seus galhos e suas folhas em um ruído calmante.
Reparou que Mavie tinha algo no colo. Uma espécie de toalhinha infantil. Com o desenho de um pássaro de bico aberto, voando com um balãozinho indicando que ele cantava uma nota musical afinada.
Em uma caligrafia caprichada, havia uma frase em verde, no tricô branco e azul: "Everything is possible for those who dare to dream."
— Sua avó que fez? — perguntou o caçador. Mavelle meneou a cabeça, confirmando. Finalmente voltou os olhos para ele. Não mais chorava, mas tinha a expressão mais triste que Dixon já vira em seu rosto.
Daryl sentiu um baque quando Mavie o encarou. Era um tanto ridículo o quanto um único olhar sentido da garota podia mexer com ele.
— Quando eu estava triste, minha avó falava para chorar e secar as lágrimas com essa toalha. Ela me ajudaria a se lembrar dela e a perseverar. Sabendo que as coisas sempre podem melhorar... Um dia depois do outro. Se a gente ousar sonhar com isso — disse a irlandesa, sua voz fraca trazendo outra pontada de dor ao peito do caçador.
— Você é durona, Esquila. Eu sei disso — falou Daryl, por sua vez, depois de um tempo. Mavie o encarou mais uma vez, passando os dedos pela toalha que ganhara da avó.
— Você tem muita gente que gosta muito de você morrendo de preocupação. Glenn e Maggie estão chatos pra caralho lá embaixo, e Tara não para quieta nem cala a porra da boca há horas — confessou Dixon, fazendo Mavelle dar um meio sorriso. Aquilo lhe trouxe um alívio que não podia medir.
— A pequenininha também não parava de olhar pra você no funeral. Mal chorou. Estava querendo saber como você estava o tempo inteiro — Daryl se referiu a Peggy. — Age como se fosse sua irmãzinha — troçou Dixon, e o meio sorriso de Mavelle apenas se expandiu.
— Nenhum deles é a sua avó. Mas estão todos olhando por você também. Annie era durona, durona como você é. Pelo visto, está no sangue — afirmou o arqueiro, com doçura surpreendente. Mavelle o mirou devagar, pouco a pouco parando de mexer na toalha.
— Eu sei que você vai superar mais essa. Esquilas são uma praga, não são fáceis de derrubar — brincou o caçador, e a expressão de Mavie Berry pouco a pouco parecia mais leve.
Os dois continuaram em silêncio, centímetros distantes um do outro. Mavelle Berry colocou a toalha de lado na cama, e voltou-se para Daryl.
— Eu sabia... Eu sabia que isso aconteceria um dia. Que ela iria morrer. Não tinha mais esperanças de uma morte limpa... Uma morte de velhice, como deveria ser — Mavie admitiu, com tristeza, passando os dedos pelas orelhas, ajeitando mechas de seus cabelos.
— Mas eu nunca parei para pensar... Como seria depois. O meu... Meu "e agora?", entende? É... É assustador. Eu tinha minha avó como minha base, minha certeza de que eu precisava continuar viva para protegê-la. Por ela. — Mavelle soltou um suspiro angustiado.
— E eu não sei mais... Eu não sei qual é meu "e agora?", e isso me deixa completamente apavorada. Não sei o que fazer... Sozinha — confessou ela, seus olhos outra vez marejados.
Daryl Dixon passou um tempo mirando os olhos entre o verde e o castanho daquela garota. Viu seus dentes grandes tremelicarem pela dor que sentia, e controlou mais um impulso de abraçá-la contra si.
— Quem disse que está sozinha?
Mavie continuou encarando Daryl, seu queixo tremendo levemente com aquelas palavras. Bem ou mal, aquela fora mais uma... Mais uma de suas declarações desajustadas, estranhas e bruscas. Mais uma amostra da sinceridade e da intensidade do que o caçador sentia por aquela menina dentuça. Emoções essas que nem mesmo ele compreendia direito.
Mavelle baixou os olhos, sem reação. Daryl se levantou para sair e deixá-la mais uma vez a sós, mas a irlandesa o parou assim que ele se afastou. Segurou-o pela manga do casaco de couro.
— Dorme aqui comigo, por favor — pediu Mavelle, com tamanho afã e doçura infantil que o arqueiro sentiu outra pontada junto ao peito. Não era um dos pedidos de duplo sentido daquela garota espevitada. Era um pedido de carinho, de consolo, urgente.
Daryl tirou a jaqueta e as botas, sentando-se outra vez na cama, recostando-se na parede e nos travesseiros. Enlaçou Mavelle com os braços, deixando-a parcialmente deitada em cima de seu corpo. Daryl sentiu uma espécie de calor repentino se espalhar por seu peito ao ver a garota tão confortável e segura consigo. Não soube o que fazer, então tentou falar algo que lhe surgiu à cabeça.
— Se lembra do irmão que eu te falei que eu tinha? — perguntou o caçador. Sentiu a garganta de Mavie vibrar em seu peito quando ela forçou a voz para responder. Estavam muito próximos um do outro, e o calor acalentador que ele sentia em seu peito apenas aumentou.
— Sim. O que você disse que ia gostar de mim — acrescentou ela.
— Vocês iam mesmo se dar muito bem. Dois filhos da mãe irritantes da porra — debochou Daryl, e Mavie finalmente deu uma risada leve. Dixon a abraçou ainda mais depois disso.
— Ele foi por um bom tempo a pessoa que eu mais confiava. Quem eu sabia que estava lá pra mim — afirmou Daryl, pensativo. — Quando eu era criança e ele já adolescente, Merle vivia fazendo burradas e mais burradas, mas quando estava em casa, me fazia companhia. Me tirava de perto do meu pai, me levava pra rua, o doente uma vez até me levou pro puteiro... E eu tinha uns sete anos de idade só — Daryl Dixon relembrou, saudoso pelo irmão. — Um completo idiota — riu seco.
— Você deve ter ficado maravilhado. Fico imaginando um mini-Cupido vendo mulheres seminuas andando pra lá e pra cá e babando — troçou Mavie, já rindo um pouco, deitada no peito do arqueiro.
— Por aí mesmo — admitiu Daryl, com um sorriso enviesado. — Mas não fiz nada, é claro... Algum limite mínimo Merle tinha — sorriu torto outra vez, enquanto Mavelle parecia se divertir com aquelas histórias.
Daryl passou a lhe contar memórias suas e de Merle, de quando viajaram para caçar pela primeira vez, de quando Merle o ensinou a atirar com armas de fogo, de quando Dixon se perdeu e seu irmão mais velho o encontrou, diversas histórias de infância e também da vida adulta do caçador, até que ele viu que a Esquila havia adormecido. Ali mesmo, deitada em seu colo, abraçada consigo como se ele fosse um travesseiro imenso.
Mavelle dormia tranquila, seu rosto calmo, pacífico, embalado por um sono reconfortante. O próprio Daryl se sentiu sonolento o suficiente para ignorar aquela proximidade inédita, aquele estranho calor que se mantinha em seu peito, e o surpreendente conforto que experimentava. Não queria sair dali de jeito nenhum.
Logo o próprio arqueiro adormeceu, enlaçado com sua Esquila. Aquilo era muito novo para ele. Se importar tanto com alguém, daquele jeito quase simbiótico. A tristeza de Mavelle era a tristeza dele. E a sua alegria, seus sorrisos, a luz de seu olhar alegre... Era aquilo que mais lhe fazia feliz.
Ele enfim percebeu o óbvio.
Daryl Dixon amava Mavie com todas as suas forças.
*****
A chuva não dera trégua por toda a noite, mas aquilo não o impediria de finalmente fazer o que decidira.
Com seu chapéu molhado de forma a deixar o topo de sua cabeça umedecida como se a chuva caísse diretamente em seus cabelos, Billy Ray continuava sozinho na difícil missão de reerguer a pequena lona de circo que havia construído para Becky.
Os recentes acontecimentos em Alexandria haviam posto abaixo aquela pequena estrutura. Com alguns dos materiais quebrados, Billy ia pouco a pouco substituindo as peças quebradas por outros metais mais resistentes, além de consertar os furos na lona. Talvez passasse a noite sem dormir, mas não era um problema.
Billy Ray estava decidido a superar seu próprio passado. Alguns erros não poderiam jamais ser reparados de fato, pois Haywood não voltaria a vida. Talvez Mavie nunca mais confiasse nele outra vez, e talvez o grupo de Rick Grimes jamais o aceitasse realmente. Mas ele já estava cansado de sentir auto-comiseração.
Billy fizera novos amigos. Tucker e Morgan confiavam nele. Rebecca... Rebecca se machucara por conta dele. E isso era algo que ele não mais permitiria acontecer.
Aquela menina era a pessoa mais doce que Billy Ray já conhecera em vida. Uma jovem mulher com um passado sofrido, com uma luta diária contra a própria doença mental que tinha e a visão distorcida de si mesma. E, ainda assim, tão boa, tão melhor do que ele... Por alguma razão aquela menina se apaixonara por um traste como o sulista do Alabama.
Billy não entendera as razões daquilo. Mas vira a dor da própria rejeição nos olhos de Becky, quando o vira admitindo a Mavie que ainda a amava.
Billy Ray não mais tinha esse tipo de sentimentos pela irlandesa, embora tivesse lhe dóido muito ver o estado da garota naquela tarde, no funeral de Annie. Imaginava o quanto ela estava sofrendo, mas não poderia fazer nada por ela. Mavelle tinha pessoas que amava ao lado dela, e Billy tinha de agir para proteger as que contavam com ele, que precisavam dele, em primeiro lugar.
Vai ser engraçado ver a cara dela quando der uma olhada nisso daqui. Refletiu Billy Ray pela milésima vez, finalmente erguendo as estruturas que fariam a lona ficar firme, imaginando a expressão no rosto de Rebecca Gable. Seus músculos doíam, cansados, mas ele persistiria. Só iria dormir quando aquilo estivesse pronto.
Na manhã do dia seguinte haveria a reunião definitiva. Do que deveriam fazer para eliminar de uma vez por todas a ameaça do Exército de Wyoming County e sua líder psicopata. E ele não postergaria mais aquilo. Iria ver Becky sorrir, antes do possível fim de tudo.
Antes que pudesse ser ele próprio o próximo alvo.
— Yo! — Billy ouviu a voz de Tucker soar, alta, apesar da chuva forte que caía. Nem reparara na aproximação do garoto em meio aquele bosque próximo a uma praça da comunidade.
— Por qual razão você tá montando essa merda no meio da chuva às duas da madrugada? — indagou Tucker, parecendo incrédulo com a ação um tanto sem noção de Billy Ray.
— Por qual razão você veio saracoteá* pra cá ao invés de dormir? — retorquiu Billy, entre dentes, movendo a lona para cima dos ferros que havia montado, subindo em uma escada flexível.
— É uma pergunta justa! — respondeu Tucker, correndo para segurar a escada para o amigo. Billy agradeceu, firmando a lona em um dos cantos da estrutura.
— Não sei sobre justiça nesse caso, só sei que só vou dormir depois de terminar esta joça — continuou Billy. — Então, caso queira me ajudar, vai prendendo a lona nos outros três cantos. Depois vamos pregar na grama, e está pronto! — garantiu o sulista do Alabama.
— Você sabe que isso é mil vezes mais dilfícil na chuva, né? — insistiu Tucker Hayes, sua voz presunçosa parecendo debochar de Billy.
— Não torre a minha paciência, garoto! Você era arquiteto, não era? Então não reclame do seu próprio trabalho — ralhou Billy Ray, como se Hayes fosse um sobrinho seu.
— Tá bom, tá bom... Que saco. Poderia ficar mais agradecido quando demonstram preocupação — falou o rapaz, petulante. Em contrapartida, pegou um martelo da caixa de ferramentas de Billy Ray em mãos.
— Muito obrigado! Agora comece a trabalhar — ordenou o caipira do Alabama, enquanto Tucker soltou algum palavrão arrogante em resposta. Continuaram na montagem da lona, até finalmente terminarem-na, meia hora depois.
— O que você acha que Rick vai falar na reunião de amanhã? — perguntou Tucker, em determinado momento, quando pregavam a lona na grama.
— Algum discurso de união. Ele deve estar se borrando de medo do filho morrer, e sabe que precisa de cada um de nós pra vencer aquele seu tal Exército — soltou Billy, e viu que Tucker engoliu em seco.
— Desculpa. Sei que não queria ser do Exérci... — começou a se retratar, mas Hayes o parou.
— Relaxa. Eu fiz merda. Mereço ser lembrado disso — Tucker balançou o martelo, pregando com mais força.
— Não — retrucou Billy, fazendo o rapaz mirá-lo, sem compreender aquela negativa.
— Não se martirize. Eu fiz isso por muito tempo. Não conserta nada — Billy garantiu, martelando.
Tucker fitou Billy por algum tempo, meneando a cabeça em concordância. Logo foram interrompidos por outra voz alta em meio à chuva.
— Ah meu Deus! Então era... Era isso?! — Rebecca se aproximou aos pulos, quase, arriscando escorregar na grama molhada.
— Menina, por que não veio de guarda-chuva? — indagou Billy, soltando um riso discreto pelo jeito pateta de Becky. Levantou-se, deixando o martelo ao chão. Tucker deu um olhar significativo aos dois, e continuou martelando o último prego restante.
Rebecca correu até os braços de Billy Ray, soltando uma exclamação aguda e pulando em cima dele em um abraço empolgado. O homem se curvou um pouco para trás, abraçando-a de volta e sentindo a alegria genuína que aquela garota loira lhe despertava. Sentiria muita falta daquilo, se as coisas piorassem ainda mais.
— Que bom que gostou — disse o caipira do Alabama, quando Rebecca o soltou para entrar na lona. Billy a seguiu, enquanto Tucker lhe deu um tchauzinho debochado, como se sugerisse que ficaria sobrando se continuasse ali.
— Tucker me disse que você tinha montado essa lona! — Becky parecia extasiada, olhando o trapézio parado e baixo ali pendurado, além do tecido macio que Billy achara e dera um nó no alto da estrutura de metal. Serviria bem como um substituto dos tecidos acrobáticos de circo.
— A estrutura é regulável, veja — Billy falou, indicando a alavanca para aumentar ou diminuir a altura do trapézio e do tecido. — Você pode deixar a três metros e meio ou a dois metros e meio, o que preferir. — Billy se divertiu vendo Rebecca fazendo estripulias no tecido. Havia tirado seus sapatos, e se enroscava tecido acima.
— Cuidado, menina, não vai cair daí... — Billy Ray alertou, enquanto Becky subia com agilidade.
— Eu sou uma profissional, caipirão! — redarguiu a loira audaciosa, virando-se de cabeça pra baixo no tecido e quase matando Billy de susto. Em seguida, ela desceu com cuidado, voltando ao chão.
— Ah, meu Deus, vai ser maravilhoso voltar a treinar nisso... Espero que tenhamos tempo — afirmou ela, roendo as unhas e olhando para toda a estrutura outra vez. A chuva batia lá fora, e Billy Ray viu que o olhar dela foi para algo a mais. Flores saindo da mochila de Billy, jogadas pela grama.
Dois buquês de flores. Um mais modesto, de rosas brancas. Outro, de rosas vermelhas.
— Para quem são? — indagou Rebecca, franzindo as sobrancelhas. Sua alegria pareceu murchar, em meio à dúvida que Billy imaginou que surgira em sua cabeça.
O sulista do Alabama comprimiu um sorriso.
— Colhi agora há pouco, antes de montar essa estrutura. Eram do jardim da Thelma, então acho que ela não vai se importar muito... Já deixei algumas em seu túmulo. — Billy tirou o chapéu e coçou a cabeça.
— As brancas são para a Mavie. Por causa da avó dela — esclareceu Billy Ray, e ele viu o olhar de Rebecca vacilar. Seus ombros tremeram de leve.
Billy Ray se aproximou devagar da garota loira.
— Mas as vermelhas são pra outra pessoa. Alguém muito enxerida, impaciente e que deveria estar dormindo agora. Alguém para quem eu estava reservando algumas surpresas até o sol nascer — assegurou Billy, andando para ainda mais perto de Rebecca. Ela soltou um sorriso tímido, seus grandes olhos indo das rosas para Billy Ray.
— E por que as rosas, então? — ela indagou, cruzando os braços, mexendo a cabeça para o lado. Seu rabo de cavalo alto e loiro caiu pelos ombros. Fingia uma postura de desafio enquanto sorria.
Billy sorriu mais ainda.
— Por que eu sou um idiota lerdo. Eu demoro a entender algumas coisas... E até a mim mesmo, admito — confessou ele, ajeitando o chapéu caipira na cabeça. — Mas eu não estou mais disposto a perder tempo. Não com o que não merece esperar. — Billy se abaixou, pegou o buquê das rosas vermelhas e o entregou para a acrobata.
— Me desculpe por ter te feito chorar. Sou um imbecil — desculpou-se Billy Ray, oferecendo o buquê de rosas vermelhas para Becky, que o segurou em mãos.
— Posso pensar no seu caso. — Ela fez um biquinho em meio a um sorriso divertido, desviando os olhos.
— Você quer subir no tecido outra vez, não quer? — Billy perguntou, rindo.
— Quero! — Becky admitiu, dando as rosas nas mãos de Billy Ray e sorrindo amplamente. Billy Ray soltou mais um riso alegre.
Em seguida, foi rápido até Rebecca, que já havia subido alguns poucos centímetros no tecido.
— É sério. Eu realmente estou arrependido por tudo — Billy falou, e Rebecca girou um pouco, de forma a poder encará-lo melhor alguns centímetros acima da altura da cabeça dele.
— Espero que um dia você possa... Querer ficar do meu lado. Comigo — Billy disse, sem jeito, segurando as rosas. Abaixou os olhos para o chão momentaneamente, vendo o tecido se enrolar na grama, a parte que tocava o chão.
Em seguida, ao levantar os olhos, viu que Becky tinha enroscado as pernas, a cintura e um dos braços de forma a poder se aproximar dele, curvando o próprio rosto.
— Eu sempre estive do seu lado, seu caipira burro — Becky disse, sorrindo largamente. Logo depois, segurou o rosto de Billy com a mão livre e o beijou, ainda pendurada no tecido.
Billy Ray fechou os olhos, sorrindo e beijando-a de volta. Deixou o buquê de rosas cair, e quando iria puxá-la de cima do tecido, Becky se soltou, deu um riso coquete e avançou centímetros acima.
Billy continuou a rir, sentindo-se leve, satisfeito... Verdadeiramente feliz, como não se sentia há anos.
*****
A chuva continuava, madrugada adentro.
O frio do outono, intensificado pelo ar noturno plúmbeo, fazia qualquer um dos encarregados pela guarda tardia dos muros de Alexandria tremer dos pés à cabeça.
O que não era diferente para aqueles que se moviam furtivos pelas sombras da noite.
Depois de agilmente se esconder pelas vielas e ruas menos frequentadas da comunidade, ela finalmente chegou ao seu destino.
Pulou por uma das janelas abertas da cozinha, fechando-a em seguida. Não ousou tentar abrir as portas e chamar a atenção da vigília redobrada comandada por Rick Grimes.
Peggy Taylor abaixou o capuz do moletom que usava, e suspirou. Aspirou o ar conhecido da casa dos circenses, sentindo-se simultaneamente em casa e entristecida. O cheiro daquela residência era o cheiro da casa de Aiyana.
Mas também era o aroma do lar de Moritz.
Devagar, a adolescente subiu as escadas. Pensava em como Mavelle ficara abalada com a morte de Annie. Peggy também a sentira, afinal, Annie fora uma das pessoas que conhecia há mais tempo desde que a infecção dos rastejantes começara. Annie Guinness tentara cuidar dela, há tempos, apesar de Taylor jamais ter gostado do olhar de comiseração que via nos olhos da idosa.
Pensava, também, que estava reagindo da maneira abatida de Mavie, de um modo parecido. Fingia que aquela casa era apenas a casa de Moritz, mas era, na verdade, uma casa quase abandonada de vida. Uma casa onde quase todos os seus moradores haviam morrido. Tejas e Aya.
Faziam poucos dias desde a morte de Aiyana. Faziam poucos dias desde o aniversário de Peggy, que ela sequer comemorara direito. Mas o mundo era assim agora. Ela não poderia mais negar. Não havia mais tempo para se entregar ao sofrimento.
Munindo-se de coragem, lembrando-se da bravura do tigre, do animal espiritual que Aiyana disse que era o seu, Peggy Taylor finalmente reuniu a força que precisava para entrar no quarto da melhor amiga. Para aceitar que ela jamais iria voltar, e que Peggy precisava seguir em frente.
Logo em cima da sua cama, Peggy viu que havia um envelope em cima de dois livros, com uma echarpe junto a eles. Os aposentos de Aya continuavam limpos, intocados. A falta de vida naquele repartimento apenas evidenciava a verdade. Aya se fora, e vivia agora apenas nas memórias daqueles que a amavam.
Engolindo em seco, a adolescente se aproximou da cama de Aiyana. Acendeu a luz do abajur da cabeceira, e viu que o envelope estava endereçado a ela.
Peggy franziu o cenho, pegando-o rapidamente. Abriu-o, e viu que havia apenas poucas frases. A primeira estava escrita em algum idioma indígena desconhecido.
Logo abaixo, vinha a tradução:
"Você já ficou em frente à uma árvore em uma tempestade? Os galhos balançam, dançam com a fúria do vento, e parecem que vão se partir a qualquer momento. Mas, se você não atentar apenas aos galhos, e sim, aos detalhes... Verá que o tronco, por exemplo, continua firme e estável."
Os olhos de Peggy começaram a marejar. Já havia compreendido.
"Minha querida Peggy.
Minha irmãzinha.
Se você está lendo isso é porque não mais nos veremos neste plano terreno. Eu deixei essa carta para que você se lembre de tudo o que vivemos juntas, do que aprendemos, do que eu te ensinei e do que você me ensinou, até o dia em que nos encontraremos em outra vivência espiritual.
Fique com essa minha echarpe. É uma das peças de roupa que eu mais gostava. Vai ajudar a te aquecer no frio que está por vir.
Lembre-se: não duvide nunca mais da sua própria força. Você é capaz de sobreviver e de construir uma vida nova, quando todo esse horror passar. Eu sei que conseguirá resistir à tempestade. O tronco é forte.
Por isso, não desista de você. Ame a si mesma. Ame os outros.
Com todo meu amor,
de Aiyana Olhos de Coiote para Peggy Garras de Tigresa."
Peggy apertou a carta contra o peito, junto com a echarpe. Mal reparou que embaixo do papel estavam o livro "Peter Pan" que começara a ler, e "Tudo Sobre o Animismo", o tomo que Aya separara para Peggy ler quando quisesse conhecer mais sobre a fé relacionada aos animais espirituais.
As lágrimas passaram a se formar em seus olhos, descendo em silêncio por seu rosto. A echarpe há muito já perdera o calor de Aya, mas Peggy podia sentir que a amiga estava ali, na sua frente, vendo-a sentada em sua cama. Fechou os olhos, segurando com ainda mais firmeza o tecido da roupa e a carta contra si mesma.
— Eu sabia que você conseguiria. — Peggy ouviu a familiar e agora tão querida voz de Moritz falar, suave, direto da porta do quarto de Aiyana. Não abriu os olhos. Entendera o que ele queria dizer.
— Mas você não deveria ter vindo hoje. Com a vigilância redobrada, se te vissem pelas ruas, você poderia arranjar problemas... — o ex-palhaço iria começar o sermão, mas Peggy, recomposta, apenas respondeu.
— Eu não tenho uma lareira tão boa em casa — gracejou de volta, olhando para ele de forma expressiva.
O homem entendeu a dica. Seus olhos escureceram levemente, enquanto lhe deu um sorriso lânguido.
— Ela está lhe esperando aqui dentro, Sininho. E eu também — brincou o sujeito, afastando-se da porta de Aiyana e indo para seu próprio quarto.
Peggy estava triste. Aquilo era um fato. Lidava com inúmeras perdas ao mesmo tempo, a mais pesada delas, sem dúvidas, sendo a de Aiyana. Mas precisava perseverar. Ela havia encontrado razões para querer sobreviver. Para continuar viva.
Peggy queria amar. Queria proteger as pessoas que lhe eram queridas. Queria aprender a viver.
Peggy queria crescer e amadurecer cada vez mais. Queria ser alguém de quem seu pai fosse se orgulhar. Sua mãe. Seus irmãos. Seu padrasto. Annie.
Aya.
Moritz.
Secando as lágrimas, dobrando com cuidado a echarpe e a carta de Aya, e as recolocando em cima da cama, Peggy apagou o abajur. Saiu do quarto, fechando a porta, e sorriu.
Abriu a porta do quarto de Moritz, que se ocupava de acender a lenha empilhada na lareira. Abaixou-se junto a ele, deu-lhe um beijo suave e passou a ajudá-lo naquela tarefa.
— Como está se sentindo? — Moritz perguntou com doçura.
— Vou ficar bem — disse Peggy, com certeza verdadeira. Voltou os olhos para o homem ao seu lado, sorriu-lhe, e depois encarou a lareira outra vez.
Olhando para o fogo, para as chamas dançando, transmitindo-lhe calor, conforto e uma espécie de consolo físico... Peggy sentiu-se mais esperançosa, enquanto Moritz a envolvia pela cintura e movia seu rosto para o dele. Beijaram-se, Peggy mais uma vez se sentindo viva. Esperançosa. Amada.
Ela era a árvore na tempestade, e não quebraria jamais.

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