Hunter's Instinct

52 Episódio 52 - Now or Never


Notas iniciais
OIÊÊÊ PESSOAL! Gente, primeiro de tudo... MIL DESCULPAS PELA DEMORA! Eu sei que os capítulos de Hunter's Instinct estão demorando a sair, mas eu já esclareci e esclareço de novo: estou com um prazo apertado da monografia. Preciso terminar todo o esboço até meados de fevereiro, e, portanto, tenho me ausentado da escrita um pouco. Espero que compreendam. Dedico este capítulo as leitoras Arrriba e Maritafan, suas lindas, que deram mais duas recomendações a Hunter's Instinct! SAIBAM QUE EU AMEI! Como sempre digo, AMO receber recomendações, é o meu tipo de recompensa favorita no nyah! Espero que isso estimule o pessoal que não recomendou a recomendar! Agradeço muito aos leitores Sami, Luna, BiiaahChan, Vivi Costa, Maritafan, Anna L, En Sabah Nur, marcelammota, Filho de Kivi, nataliasilveira, Giovana Catalani e Joke! Seus maravilhosos s2 como sempre digo, são os leitores que comentam e recomendam que fazem a fic continuar! Preciso da opinião de vocês para seguir empolgada com a escrita, hoje e sempre! Esse capítulo tem uma mistura de VÁRIAS coisas. É triste, cheio de ação, é cheio de feels, é capaz de despertar medo, nojo, raiva, tristeza e também esperança no coraçãozinho de vocês. Sim, se preparem para um final bem esperançoso! POVs Rick e Tucker, com direito a flashback no POV do nosso drogado amado! Dito isso, beijos e boa leitura!

Todos deram as mãos.

Rick Grimes, Carl Grimes, Michonne, Padre Gabriel e Ron. A estranha procissão de sobreviventes tentava sair da casa de Jessie, que havia sumido da própria residência há menos de meia hora.

Rick desconfiava de algum possível surto de medo da mulher, que a teria levado a abandonar sua residência sem alerta algum aos outros. Mas aquilo não faria sentido. Por que ela tentaria fugir em meio a imensidão de errantes que havia em Alexandria sem levar consigo seu filho mais velho? Apenas seu filho mais velho, é claro, pois Sam também não estava em lugar algum da casa de sua família.

Depois de muito discutir e procurar, Grimes dera ordem a todos para que se enfileirassem, se vestissem com lençóis cortados por cima de suas roupas normais, e os recheassem com as tripas e entranhas de um errante que ele deixou entrar dentro daquela casa. No momento em que estivessem prontos, sairiam da casa de Jessie, sairiam de Alexandria e encontrariam uma distração para retirar a horda que entrara na comunidade. E, logo em seguida, fariam todos os seus esforços para encontrar a mãe de Sam e o garoto.

E assim estavam, naquele momento. No pórtico de entrada da residência da atual namorada de Rick, o policial respirou fundo, apertando a mão de seu filho que o seguia logo atrás. O cheiro de carne podre que empesteava suas narinas não o incomodava, tampouco sentia medo da carniça ambulante que era a multidão de mortos-vivos rodeando a comunidade. O que temia era algo diferente. Alguém vivo, e que, imaginava Grimes, já observava atentamente o que acontecia dentro daqueles muros.

Ouviu um lamento baixo de Judith, escondida embaixo dos lençóis que Carl vestia por cima de suas roupas, amparada pelo irmão mais velho. Viu o filho sussurrar baixo um "shh" para sua irmã, enquanto Grimes fez o primeiro movimento para descerem os degraus. Seguiram alguns poucos centímetros em meio aos errantes, sem sequer serem notados.

Rick permitiu-se sentir um lapso momentâneo de esperança, mas ela logo se apagou dentro de si.

Alguns metros à distância, na altura da varanda do segundo andar da casa utilizada como hospital improvisado da comunidade, Grimes aferiu uma movimentação estranha.

O som de um aparelho amplificador de voz sendo ligado, em um estalo agudo. E, assim que ouviu a voz do arauto que portava aquele alto-falante, Rick Grimes também reparou em algo ainda mais inusitado.

Deanna Monroe e Annie Guinness estavam amarradas e amordaçadas, de joelhos, no beiral daquela varanda. Mantidas reféns por dois sujeitos fortemente vestidos com armaduras pesadas do exército americano, estas também cobertas de tripas humanas.

Rick Grimes sentiu seu coração ribombar, enquanto seu estômago contorcia-se por dentro como se estivesse sofrendo o efeito de algum tipo de veneno.

— Povo de Alexandria! Eu falo em nome de Hashimoto. Por conta da incapacidade de seus líderes, vocês agora se encontram cercados. Seus muros, tombados. Suas defesas, cerceadas.

A voz do soldado de Hashimoto saiu alta e clara, muito acima do ruído do gorgolejar repugnante dos errantes. Pouco a pouco, atraía aquele mar de mortos-vivos para perto da enfermaria da comunidade.

Rick sentiu que a fila que comandava parou de andar. Ainda no controle de suas próprias emoções, o policial apertou as mãos de Carl, como se exigisse que ele puxasse aqueles atrás de si. Judith lamentou ainda mais alto embaixo dos lençóis, mas os cadáveres que se encaminhavam para a casa-hospital não repararam.

Grimes olhou por cima do ombro, vendo que Carl, Michonne e Padre Gabriel ainda o seguiam, mas não Ron. O rapaz parara para fitar o invasor, que discursava a altos brados.

— Seus líderes são fracos. Sua governante, Deanna, está à beira da morte. Seu líder, Rick Grimes, esconde-se como um covarde. Enquanto isso, todos vocês se fecham em suas casas, atrás de concreto, tijolos e pedra, esperando o raiar de um novo dia que nunca chegará. Não enquanto acreditarem nas mentiras de seus líderes fracos. — A voz do arauto da líder do Exército de Wyoming County ribombava pelo alto-falante.

Rick Grimes aferiu o olhar de Ron, parecendo hipnotizado pelo homem que falava. Puxou Carl e a fila que o seguia com ainda mais determinação, mas o filho de Jessie apenas soltou o braço de Padre Gabriel.

— Ron, vamos, agora! — demandou Rick, impaciente, aos sussurros.

— Pai, elas... — A voz de Carl tremia, reparando nas reféns que provavelmente seriam mortas a qualquer momento.

— Não podemos fazer nada por elas agora — retrucou o policial, com o máximo de frieza que podia reunir.

Ron ainda escutava o discurso do soldado inimigo. A voz de Grimes pareceu demorar a chegar aos seus ouvidos.

— Foi você quem fez isso. Quem trouxe isso — o garoto murmurou, e, pouco a pouco, voltou os olhos para o pai de Carl Grimes.

Rick parou de escutar. O sentimento de culpa cresceu dentro de si com a velocidade de um maremoto. Percebia que, ao longe, o arauto da japonesa continuava seu discurso contra ele. E também aferia que provavelmente uma grande parcela dos moradores de Alexandria concordariam com aquelas palavras.

Como concordou o filho mais velho de Jessie.

— Ron, seja razoável, vamos — insistiu o policial, enquanto alguns pouco errantes notavam aquela conversa abafada. Cerca de uma dúzia deles parou de tentar chegar a varanda da casa que servia de enfermaria para a comunidade, e seguiu em direção ao grupo liderado por Grimes.

— Eles nos notaram — Michonne murmurou, nervosa, colocando as mãos firmes na bainha de sua espada katana.

— Ron, agora — urgiu Rick Grimes, ao passo que o sujeito com o alto-falante terminava seu discurso.

— Enquanto seguirem Rick Grimes e todos os covardes que se julgam capazes de liderá-los... É isso o que receberão. Morte, pavor, desolação. Mas quando decidirem aceitar Hashimoto... Quando decidirem se unir ao nosso Exército de Wyoming County, enfim serão fortes! Nossa líder virá recrutá-los em uma semana e meia. Sobrevivam, aguardem, e iremos libertá-los de tudo. Dos rastejantes, da fraqueza de seus líderes mentirosos, da mentira... Só há uma verdade! O fraco morre, e o forte sobrevive. Hashimoto virá por vocês! Escolham com sabedoria!

Outro estalo foi escutado em um som ríspido e agudo, muito alto. Grimes e seu grupo desviaram o olhar para a varanda, e o ruído abafado de um tiro com silenciador estourou o crânio de Deanna. Com pedaços de seu cérebro voando para baixo, o soldado de Hashimoto que antes bradava palavras de ordem empurrou o corpo morto da mulher que um dia fora a mandatária de Alexandria para fora. O cadáver de Deanna Monroe caiu com um som oco de carne amassada, ao passo que os errantes, mais irrequietos do que nunca, se moviam famintos em sua direção.

Logo em seguida, o soldado próximo do arauto da japonesa desceu a peixeira que portava na direção das costas de Annie Guinness. A idosa não resistiu, tombando de lado assim que foi atingida. Pareceu ter sido morta no ato.

Com o queixo levemente caído, tentando não se render ao desespero daquela cena hedionda, Rick Grimes mais uma vez puxou a fila, enquanto reparava nos soldados do Exército de Wyoming County descendo as pilastras da varanda com agilidade. Alguns mortos-vivos avançaram contra eles, que apenas os mataram displicentemente com as armas de guerrilha que carregavam. Os errantes chegaram a mordiscar brevemente suas armaduras antes de serem derrubados, mas Grimes percebeu que não conseguiam perfurar nem um centímetro daquele material espesso.

Ainda mais angustiado, Rick aferiu que logo ele e seu grupo seriam encontrados por aqueles invasores. Precisavam encontrar refúgio, logo, ou seriam assassinados a tiros, ou comidos por mortos-vivos.

— Gabriel, corra para a igreja. Leve o Ron. Nós vamos para perto do arsenal — rosnou Rick, entre dentes, e Padre Gabriel apenas o mirou, estupefato.

— Vá! — ordenou Rick Grimes, enquanto o Padre puxou consigo um atônito Ron na direção da capela de Alexandria.

Alguns mortos-vivos começaram a se aproximar de forma perigosa. Repararam na movimentação rápida do grupo. Cinco deles seguiam Padre Gabriel e Ron, e uma vintena se dirigia até Rick e os outros.

Rick Grimes ouviu o som de tiros serem disparados de uma árvore próxima. Abaixou-se, por instinto, enquanto viu de esguelha o corpo do homem que usara o alto-falante ser atingido. Com um tiro preciso na cabeça.

Os errantes que se interessaram por Grimes e seus protegidos logo mudaram de direção. Seguiram rumo ao corpo assassinado do soldado de Hashimoto.

— Abaixem-se! — Rick sussurrou, empurrando o corpo de Carl para o chão, rapidamente. O policial, seu filho — que protegia Judith —, e Michonne se ajeitaram na grama, os olhos atentos para um tiroteio que começara.

O homem de Hashimoto que continuavava de pé mirara tiros precisos de volta a quem se escondia naquela árvore. Em segundos, Rick viu a silhueta de Carol Peletier se lançar para fora de um galho, atingindo o chão em um rolamento ágil. A amiga de Grimes correu ligeira até uma pilha de materiais de construções, onde se escondeu, longe da visão do sujeito que tentara eliminá-la.

Momentos depois, Rick foi surpreendido. Testemunhou Tucker se jogar para fora do mesmo galho em que Carol se escondera, mas não fora tão habilidoso. Tropeçou e caiu ao chão, enquanto o soldado o rendeu. Tinha, agora, duas pistolas apontadas na direção da testa do rapaz.

Grimes levantou o revólver, enquanto o sujeito falava algo para Tucker Hayes, e destravava o gatilho.

O policial atingiu a têmpora esquerda do soldado, que tinha feições latinas, como Rick pôde reparar naquela distância mais curta. Seu corpo tombou de imediato, ao passo que Tucker moveu o rosto para a direção onde seu salvador se encontrava deitado na grama.

Rick Grimes mandou que todos se levantassem e o seguissem rápido. Mais uma vez inquietos, os mortos-vivos se dividiam entre os que comiam o soldado de Hashimoto que usara o alto-falante, o que Rick matara, e os que ainda se refestelavam no cadáver da mulher que uma vez liderara a comunidade. O problema é que uma porção restante deles, agora, se interessava novamente por Rick Grimes, Carl e Michonne.

Correndo de encontro a Carol e Tucker, não mais tentando se camuflar com movimentos cuidadosos e calmos, Rick liderou seu filho e a mulher de dreadlocks. Ao se depararem com a mulher de cabelos curtos e o rapaz com jeito de drogado, Carol Peletier tentou levá-los em direção a última casa perto dos muros, de onde poderiam, quando os mortos-vivos mais uma vez se distraíssem, sair para fora da comunidade.

Ao chegarem perto da soleira da porta, porém, Rick Grimes e os outro cinco sobreviventes se surpreenderam novamente.

Com uma das piores surpresas reservadas para aquele dia.

Amarrados em duas árvores próximas, no quintal daquela casa, bem defronte a porta de entrada... Estavam os cadáveres de Jessie e Sam. Com os olhos sem vida, escurecidos e desfocados, as bocas abertas em movimentos contínuos e rudimentares de mastigação...

...Jessie e Sam haviam sido mortos, e deixados para transformarem-se em errantes. A mando de Hashimoto.

Para tentar enlouquecer Rick Grimes de culpa.

Rick cambaleou para trás. Teve a leve consciência de que, metros próxima dele, Carol deixou sua pistola cair ao chão. De esguelha, pôde ver que a mulher de cabelos curtos passou a tremer, seu corpo todo tremelicando como se fosse ter algum tipo de ataque nervoso. Ela tinha os olhos fixos no cadáver do filho criança, do filho inocente, do filho sacrificado de Jessie por um propósito doente de uma psicopata.

Rick teve parcial percepção de que Tucker abraçou Carol, puxando o rosto dela contra um de seus ombros, abafando um grito que a mulher soltou, não conseguindo se controlar. Teve também pouca noção de que Carl passara Judith a Michonne, e agora tentava puxar o pai pelo braço.

— Pai, pai, vamos correr daqui, agora, pai! — Carl Grimes tentava arrastar o policial para longe daquela cena, ele próprio parecendo também completamente destroçado por dentro ao ver aquilo. Rick, devagar, voltou-se até o filho, mas a imagem de Jessie, rosnando, grunhindo, babando, transformada em errante, fora prensada em sua memória para sempre.

O pai viu que o rosto de seu filho, desesperado, movimentou-se de imediato para outra direção. O garoto colocou a mão ao coldre que levava consigo, retirando a pistola que tinha. Grimes, em um reflexo, olhou, ao mesmo tempo que Michonne, para o que surpreendera o garoto adolescente.

Ron estava parado metros próximo deles. Chegara sem fazer ruídos ou chamar a atenção dos outros.

— Tudo culpa sua — Ron falou, sua voz saindo embargada pelo choro, e disparou um tiro da arma que apontava na direção de Rick Grimes.

Carl se lançou na frente do pai e o disparo atingiu seu rosto.

No mesmo segundo, Rick Grimes sentiu como se o chão fosse retirado debaixo de si. Zonzo, quase incapaz de se manter de pé, Rick se abaixou na direção do corpo do filho.

Sangue. Sangue foi tudo o que viu. E um buraco na altura do olho direito de seu filho.

— NÃO! — Rick Grimes berrou, descontrolado, completamente irracional. Não podia acreditar. Não podia aceitar. Tudo, tudo poderia acontecer com ele. Ele aceitaria qualquer castigo. Qualquer punição por seus atos.

Mas não conseguiria suportar a perda de seu filho.

— NÃO! CARL, NÃO! — Rick gritou, ainda desesperado, abraçando o filho, lágrimas começando a escorrer por seu rosto tomado pelo pior horror que já passara em vida. Mal percebeu que, metros a distância, três errantes haviam cercado Ron. Atacaram-no em sua nuca, assim que o garoto tentara matar Rick Grimes, e agora o devoravam vivo, enquanto o garoto chorava, gritava e se debatia.

O coração do policial ameaçava estourar em sua garganta, e ele mal conseguia respirar. Carl não podia morrer. Não podia.

— MICHONNE! SALVE JUDITH! SE ESCONDAM! — Rick Grimes continuou a berrar, levantando o filho, seu corpo desfalecido como se fosse um boneco de pano.

Apertando o corpo de Carl contra si, Rick Grimes correu desabalado em meio a multidão de mortos-vivos. O desespero total de um pai tentando salvar a vida do filho o protegeu. Todos os errantes que tentaram alcançá-lo foram empurrados para longe, aos chutes, pontapés e até mesmo cabeçadas. Transformado em um animal apavorado, Rick protegia sua cria a todo custo.

Grimes propeliu a porta do hospital da comunidade para longe, entrando em uma corrida desenfreada com seu filho nos braços. Colocou-o na primeira maca que viu, gritando para que seu ocupante, um idoso que tinha um braço em uma tipóia, saísse de lá.

— Ele... Ele... Ele está mort... — o idoso tentou perguntar, e Rick apenas berrou de volta.

— NÃO! ELE NÃO VAI MORRER! — Rick retorquiu, alucinado, procurando algum médico ou enfermeiro por perto. Até mesmo esquecera de que Annie fora assassinada. Em questão de segundos, viu Tara, Peggy, Mavie e Daryl entrarem por aquele quarto, todos com os mesmos olhares de desalento que o próprio policial.

O rosto de Carl não parara de sangrar. Seu corpo parecia pouco a pouco perder as forças, esfriando com a quantidade de sangue perdido. Rick Grimes precisava fazer algo para evitar que seu filho morresse, a qualquer segundo.

— ONDE ESTÁ DENISE? — Rick gritou, em desespero, e o idoso apontou para a mulher levemente acima do peso, ajoelhada atrás de outra das macas. Rick foi até ela. Estava sentada em cima do corpo morto de um sujeito com cabelos grandes escuros e uma grande cicatriz de "W" na testa. Nas mãos, a médica tinha um bisturi, que aparentemente usara para esfaquear o rosto irreconhecível daquele sujeito até a morte.

— Você vai curar meu filho. Preciso que faça isso. Preciso que faça isso a qualquer custo. Você entendeu? — Rick Grimes falou, a levantando pelos ombros.

— Eu... Eu entendi — Denise Cloyd tartamudeou.

Rick Grimes respirou fundo, dando lugar para que a mulher fosse até o paciente. Mavelle, Peggy, Tara e Daryl se aproximaram dele, todos, aparentemente, sem saber o que falar.

Não havia o que ser dito.

Poderiam apenas torcer para manter a própria sanidade em meio a todo aquele horror providenciado especialmente para eles.

Aquele inferno delineado para Rick Grimes.

*****

Refugiados dentro da sala principal da casa onde Jessie e Sam foram amarrados no jardim, Tucker Hayes, Carol Peletier e Michonne aguardavam. Judith estava deitada, dormindo em cima de uma poltrona próxima.

Os três adultos apenas esperavam. Por uma brecha, uma escapatória, uma saída.

Embora soubessem que, para aquilo tudo o que viviam e enfrentavam... Estavam desesperançados.

Sem saída.

Tucker, chocado com tudo o que vira, atormentado com aquele cenário desesperador, se surpreendia ainda mais com algo que não esperava.

Carol Peletier, sempre tão forte, sempre tão fria, sempre tão intocável... Parecia ter quebrado. Não suportara.

Sentara-se contra a parede da sala, chorando e escondendo o próprio rosto nas mãos, enquanto Michonne, ao seu lado, tentava acalmá-la, balbuciando palavras insípidas para mitigar o que ela sofria.

Tucker, atônito, também não sabia o que dizer. Não sabia sequer o que fazer. Alguns rastejantes bloqueavam a saída deles, cercando a casa, e muitos deles ainda se moviam sem direção pela comunidade, comendo os restos dos moradores que foram mortos, eles próprios parecendo menos perdidos que os sobreviventes daquele horror.

— Eu... Eu falei para ele que isso aconteceria... Eu falei... Eu... — A voz de Carol saía aguda, sofrida, como se a mulher fosse se despedaçar. Michonne a amparou ainda mais pelos ombros, puxando-a contra si, enquanto Tucker Hayes se aproximou aos poucos.

— Eu disse a Sam... Que se ele não se comportasse... Isso aconteceria... — Carol Peletier soluçou alto. — Eu disse que ele seria amarrado e comido pelos errantes, e que ninguém o salvaria, eu disse, eu disse... Eu sou um monstro, sou um monstro como ela, sou o mesmo monstro que Hashimoto... — Carol parecia longe da razão, chorando, perdida em meio ao luto por aquela criança. Tucker Hayes não fazia ideia de que Sam era assim tão importante para aquela mulher.

— NÃO! — Tucker falou alto, fazendo com que Carol e Michonne o encarassem, sobressaltadas. — Não, você não é — ele garantiu, mais controlado.

— Dona Peletier, você é a mulher mais corajosa, mais forte e mais inteligente que eu já conheci. — Tucker se abaixou na frente de Carol Peletier, segurando as mãos dela. — Tudo isso porque você vive em função do seu grupo. Vive para proteger aqueles que você ama. Não há nada que você não faria por eles. E isso faz de você, também, a mulher mais generosa que eu já conheci. — O rapaz mirou os olhos claros de Carol, ainda repletos de lágrimas.

Ela continuou silenciosa, parecendo realmente surpresa com aquelas palavras do rapaz. A samurai, ao seu lado, também nada disse em decorrência.

— Nunca, jamais faça isso de novo na minha frente. Nunca, em nenhum segundo da sua vida, se compare com aquela... Aquele monstro que, acreditando que tem uma missão doentia nesse mundo abandonado, que mata, tortura, manipula, estupra — Tucker Hayes fechou os olhos por um segundo, não querendo se lembrar do que se recordava todos os dias — e destrói tudo o que toca por pura psicose. Você é muito, muito melhor do que isso — finalizou o rapaz, sorvendo o próprio receio, pavor, ansiedade e desamparo para ajudar aquela mulher admirável a se levantar.

Tucker soltou as mãos dela e arrastou o corpo para o lado, sentando-se do outro lado de Carol Peletier. Colou as próprias costas na parede, esfregando as mãos ao rosto, tentando evitar lembrar do que já se recordara outra vez. Alguns momentos após, sentiu as costas da mão direita serem tocadas. Olhou para seu lado, e viu que Carol segurara outra vez sua mão.

— Obrigada — agradeceu ela, a voz ainda trêmula, mas mostrando-se mais fortalecida.

Tucker esforçou-se para sorrir em retorno, mas suas memórias ainda o importunavam, como pesadelos difíceis de esquecer.

[...]

Tucker Hayes passara cerca de um ano servindo ao Exército de Wyoming County e as vontades de Hashimoto.

Durante meses, foi torturado, espancado e agredido de inúmeras maneiras, mental e fisicamente, para ser levado ao limite. Submetido aos testes de Hashimoto, Tucker não sentia dor física ou qualquer incômodo com o que ela podia lhe afligir, pois não havia dor maior do que o que ele já havia sentido.

A perda de sua irmã e de sua namorada. As pessoas que ele um dia ele mais amara com todas as suas forças.

A falta de reação de Tucker Hayes parecia agradar a líder dos soldados. Toda vez que Tucker era surrado sem reclamar, apenas tentando reagir, era recompensado com dias de descanso. Toda vez que o rapaz passava fome ou sede, e não pedia por água ou comida, tendo em vista que não mais sentia vontade de viver, ela o premiava com fartas refeições e bebida à vontade, posteriormente.

Tucker Hayes não se incomodava com nenhuma das provações da japonesa, que iam desde o confinamento, exposição a errantes, combates até a ausência de suprimentos básicos. Estava no limite da sanidade, quase vazio de emoções. Com exceção do sentimento de saudades, do luto pelas pessoas queridas que perdera, que ele sentia abater-se sobre si todos os dias, como uma força imensurável e inevitável.

Aquilo parecia agradá-la bastante. Em pouco tempo, Tucker fora escalado para missões importantes, de vigília, de coleta, de captura, enfim, todos os tipos de trabalhos relevantes para a manutenção do Exército e da base militar em que viviam. E, também, para a expansão do grupo.

Tucker viu o Exército de Wyoming County crescer até centenas de membros servindo Hashimoto e seus propósitos. Ajudou a base a se fortificar, construindo trincheiras, pontes e fossos para criar uma espécie de fortaleza resistente.

Ele só desejava morrer. Em cada missão que saía, torcia para ser surpreendido, para que os soldados deixassem que um morto-vivo o devorasse, para que alguém atirasse uma bala em sua cabeça.

Mas Tucker veio a sentir algo diferente em uma missão específica. Quando saiu para render uma comunidade repleta de trailers junto a Hashimoto e um de seus principais generais, um homem bonito e latino chamado Santiago, alto, de músculos vigorosos, cabelo raspado e sorriso largo, sempre debochado.

Um rapaz adolescente tentou matar Santiago, enquanto alguns dos soldados da mulher psicopata mantinham moradores daquela comunidade reféns. No reflexo, Tucker simplesmente mirou e atirou, como fora treinado, como sofrera lavagem cerebral pela líder oriental para assim fazer.

Explodiu a testa do garoto, seu sangue borrifando no colete a prova de balas de Santiago. O homem latino, logo em seguida, abraçou Tucker pelos ombros, sorrindo-lhe e falando baixo: "acho que será recompensado por Hashimoto hoje".

Tucker Hayes matara aquele menino a sangue frio. Sem razão. Para proteger outro miserável como ele.

E finalmente, além da dor contínua por sua irmã e sua namorada... Tucker veio a sentir outra emoção.

Arrependimento profundo.

Mais tarde, na noite daquele dia, enquanto Tucker Hayes tentava dormir, sem tirar da mente a imagem daquele garoto morrendo, o sangue saindo de sua testa pela bala que o próprio rapaz havia mirado... Tucker recebeu uma visita inesperada.

Gabrielle, outra das generais de Hashimoto, uma mulher loira e alta, o convidou para ir a até então desconhecida "sala de recreação". Sabendo que não poderia dizer não ao convite, Tucker se levantou e a seguiu. Foi levado até o último andar da base militar, e ali deixado a sós, na frente de uma porta que ele nunca havia aberto.

Tucker Hayes adentrou aquele aposento.

Primeiramente, seus olhos foram desviados para algo também inusitado. Um casal, que Tucker não conseguia reconhecer por estarem em um canto do amplo quarto com mísera iluminação, pareciam parcamente vestidos. Quase totalmente nus, se agarravam em um amasso frenético, e Hayes percebeu que começariam a fazer sexo ali mesmo, na frente de quem mais ali estivesse, a qualquer momento.

Sentadas em uma mesa de carteado, no começo da sala, Amanda, uma garota loira e de sardas rosas ao rosto, com idade parecida a de Tucker, jogava cartas com Lilou, uma mulher de pele de ébano, cabelos curtos e cacheados, com um sorriso branco ao rosto. Mas, como todos os soldados de Hashimoto, como o próprio Hayes, não tinham luz alguma em seus orbes desalentados.

E, ao fundo, Tucker finalmente vislumbrou Hashimoto. Usando um robe de seda, tecido com estampas e algum tipo de material oriental, ela estava deitada em diversos pufes, fumando um cachimbo comprido e feminino, também com estampas de típicas texturas orientais como ele estudara na faculdade de arquitetura, em sua outra vida.

Hashimoto o olhou longamente, puxou o fumo e o soltou, devagar, em uma expiração lenta e pausada. Tucker Hayes, se não soubesse o monstro que aquela mulher japonesa era, talvez se sentisse atraído por ela naquele momento. Ela estava realmente bela, exalando algum tipo de beleza exótica oriental.

A japonesa mexeu em seus próprios cabelos, bateu palmas uma vez — ao passo que todos, até mesmo o casal que se agarrava desvairadamente, pararam e olharam — e houve silêncio absoluto. Em seguida, ela moveu o dedo indicador da mão esquerda, sem o cachimbo, de forma a indicar que Tucker deveria se aproximar.

Sem escolha, o rapaz assim o fez.

Hashimoto mandou que ele se sentasse em um pufe defronte a ela, e Hayes obedeceu, sentindo-se entorpecido pelo vazio de sempre.

— Seja bem-vindo a sala de recreação, Tucky. Ou de descanso. Ou do prazer. Da forma que preferir chamar. — Ela sorriu aquele seu sorriso sem alegria.

— Por que estou aqui? — ele indagou, sem rodeios.

— Porque você mereceu — respondeu a japonesa, rapidamente. — Você vem provando todos os dias o quanto merece ser um membro do Exército, Tucker. O quanto é um rapaz forte — assegurou Hashimoto, com um sorriso mais curto. Tucker Hayes franziu as sobrancelhas. Poderia estar confuso, mas ela parecia tentar seduzí-lo de alguma forma. Aquilo fez seu estômago revirar de nojo.

— E, por isso, você pode ter sua recompensa. Use o que quiser. Temos diversas drogas aqui. Isso é ópio. — Ela mostrou o próprio cachimbo. — Mas temos maconha, heroína, cocaína, anfetaminas... Aqui você pode fazer o que quiser. Com o consentimento de quem estiver ao seu redor, é claro. — Hashimoto deu uma risadinha curta.

— Quer? — A japonesa ofereceu uma tragada do fumo. Tucker engoliu em seco, e pegou o cachimbo.

Tragou, sentindo a droga entorpecer seus sentidos. Sua mente enevoou, sua racionalidade foi pouco a pouco nublada pelo doce esquecimento. Aquilo era bom. Era tão bom. Percebeu que jamais precisara tanto das drogas em sua vida do que naquele momento. Elas o faziam ficar longe de si. De quem ele era, do que ele era.

— Onde está a maconha? — perguntou, e Hashimoto apontou para a mesa onde Amanda e Lilou jogavam cartas.

Ele se levantou e foi até elas, indagando pela droga. Amanda lhe deu um pouco do baseado que ela mesma acendera, e Tucker tragou fundo. Aquilo era bom. A única coisa boa que ainda restava naquele mundo.

Totalmente chapado, Tucker Hayes mal percebeu que, em determinado momento da noite, Amanda passou a se despir, rindo, também drogada. Lilou se juntou a ela, e logo ambas passaram a tirar as roupas do rapaz. Tucker, rindo também, rindo sem alegria, rindo e sorrindo o mesmo sorriso de todos aqueles pobres diabos, o sorriso de Hashimoto... Acabou aquela noite como um animal, fazendo sexo grupal com aquelas mulheres que mal conhecia, mal tendo consciência de si mesmo. Tendo apenas leve consciência de que Hashimoto os encarara, faminta, por todo o tempo.

Tucker Hayes passou a viver pelas drogas. Pelo tempo que poderia passar na sala de recreação. Por isso, fazia tudo, absolutamente tudo que Hashimoto lhe pedisse. Matou mais inocentes. Crianças, adultos e idosos.

O arrependimento era pequeno quando ele podia experimentar o suicídio temporário. Se Hashimoto não iria deixá-lo se matar de verdade, pelo menos poderia morrer enquanto estivesse drogado, não sendo mais si mesmo, não sentindo mais o que sempre sentia.

Tucker fazia uso quase diário da sala de recreação que nem sempre era frequentada pela líder do Exército de Wyoming County. Porém, depois de sete meses servindo ao Exército, um dia Tucker Hayes se deparou sozinho com a mulher japonesa naquela sala reservada aos seus esquecimentos.

Ele não soube exatamente como aquilo aconteceu. Não soube bem como ela o manipulou a tanto. Mas acabou cedendo ao que ela queria de si, a última parte dele que Hashimoto ainda não havia tocado, destruído ou usado. Prometendo-lhe mais e mais drogas, mais e mais recompensas, a perversa mulher o seduziu a deitar-se consigo, contra sua vontade.

Tucker Hayes passou a ser um dos brinquedos favoritos da japonesa. Tão facilmente comprável, tão facilmente convencido, Hashimoto o obrigava a fazer o que quisesse, violando-lhe a intimidade, seu corpo e o pouco que restara de sua sanidade mental. E Tucker lhe obedecia cegamente, esperando o abandono de si mesmo que as drogas lhe propiciavam. Tucker era um escravo de Hashimoto, um escravo que lhe servia para todos os seus propósitos, inclusive sexuais. A mesma mulher que matara sua irmã. A mesma mulher que destruíra a pouca felicidade que havia em sua vida completamente.

Em uma noite, depois de usar cocaína, heroína, maconha, anfetamina e até mesmo fumar ópio, a beira da overdose, Tucker estava imprestável. Mal raciocinava, e não servia para nada. Tentou agradar Hashimoto, fazendo menção de beijar suas partes íntimas, mas a mulher o chutou em seu rosto para longe, expulsando-o de sua cama. Fumava seu cachimbo, tranquilamente, por todo o tempo.

Tucker caiu com o rosto para o chão, sentindo seus dentes trincarem. Começou a rir, desesperadamente.

— Cale a boca, se vista, saia daqui e vá dormir. Amanhã temos um dia cheio — a líder do Exército ordenou.

Tucker Hayes continuou a rir.

— Eu vou morrer, vadia! Vou morrer, e você não vai mais me atormentar! — Fora de si, Tucker exclamou alto, entre risos histéricos. Percebeu, tarde demais, o quanto fora longe.

Hashimoto se lançou para fora da cama, vestindo-se com seu robe. Se abaixou até ele, dando-lhe murros precisos em seu rosto. A cabeça de Tucker quicou contra o chão algumas vezes, até que ele quase perdeu a consciência.

Satisfeita com a punição, Hashimoto parou, olhou para ele com um esboço de dó, e sorriu.

— Você não vai morrer. Você é muito útil para isso, Tucky. Já se provou forte. Não vou deixar você enfraquecer. — Ela acariciou o rosto do rapaz com carinho fingido, fazendo arrepios de terror subirem pela espinha de Hayes.

— Não entendeu ainda? Você é meu. Você é do Exército. Somos todos uns dos outros. — Ela ampliou seu sorriso perverso e pervertido. — Você é o que é porque eu o transformei. Eu peguei tudo o que era você, e joguei fora. Remodelei você. Você é meu, e nada vai mudar isso, jamais — a mulher repetiu, sorrindo sem felicidade alguma.

— Levante-se, e saia daí logo. Dê-se por satisfeito que não cortei sua língua. Preciso dela para algumas coisas. — Hashimoto deu uma risada que trouxe mais arrepios hediondos pela espinha de Tucker Hayes.

Ela tinha razão. Tucker não era nada mais do que uma marionete. Um brinquedo dela. Que ela mantinha vivo por sua própria vontade. Conseguiria dele o que quisesse, porque já o destruíra o suficiente.

Aquele destino era pior do que a morte.

[...]

Tucker Hayes, tentando manter a calma no momento que vivia, de mãos dadas com Carol, que, por sua vez, segurava a mão esquerda de Michonne, apenas respirava fundo. Conseguira se livrar do pesadelo em vida que era sua existência no Exército de Wyoming County. Mas por quanto tempo?

O que ele faria se fosse capturado por Hashimoto outra vez? Quando estivera tão perto de enlouquecer totalmente, sem volta? Não seria melhor acabar com tudo naquele momento? Uma bala na cabeça, e nada mais? Poderia sugerir isso para Carol e Michonne. Uma solução rápida e limpa. Sem mais testemunharem mortes. Sem mais sofrimento. Sem mais aguentar o terror de Hashimoto.

Tucker estava a ponto de balbuciar aquela sugestão, quando ouviram ruídos de tiros do lado de fora. Tucker, Carol e Michonne se levantaram, temerosos, imaginando se seria uma outra ação hostil.

E, mais uma vez, o fim daquele dia reservava surpresas.

Ao sol da tarde que já caía, pouco a pouco abandonando Alexandria com seus últimos raios de luz, Tucker Hayes sentiu seu queixo cair, totalmente boquiaberto, pasmo com o que testemunhava.

Rick Grimes, Mavelle Berry, Daryl Dixon, Peggy Taylor, Tara Chambler, Moritz Alvintzi e Rosita Espinoza encaravam, no mano a mano, os mortos-vivos que ainda ameaçavam Alexandria. Tiros eram escutados de todos os cantos, sons de crânios e membros decepados por lâminas, e urros de seres humanos misturados aos grunhidos dos rastejantes.

Uma última união pela salvação de todos, ou pelo fim derradeiro.

Logo depois, Tucker viu se unirem correndo à batalha Heath, Tobin, Aaron, Eric, Glenn e até mesmo Maggie, grávida como estava. Mais tiros e disparos foram escutados. A seguir, vieram Eugene Porter, Spencer Monroe, Padre Gabriel, Abraham Ford e Sasha Williams, juntando-se naquela cena que trouxe uma espécie de calor ao peito de Tucker.

Por fim, correram Billy Ray, Rebecca Gable e Morgan Jones. Billy mirava certeiro seu rifle, Rebecca movia o taco com determinação, e Morgan atacava os rastejantes com suas habilidades marciais.

— Temos de ir também! — o rapaz falou, ansioso, indicando o que acontecia fora da janela. Michonne e Carol, erguendo-se rapidamente, puderam também atentar para o que o rapaz aferira.

— Vamos — concordou Carol, já abrindo a porta e retirando a pistola que tinha consigo. Michonne a seguiu, desembainhando a katana, a postos. Tucker fechava o trio, também com sua arma em mãos, uma faca na outra.

Carol começou a eliminar os mortos-vivos mais próximos com tiros precisos, enquanto Michonne os despedaçava, cortando cabeças, membros, e liberando o caminho. Tucker Hayes fazia a retaguarda, acertando mais tiros do que jamais acertara em vida. Flechas saíam do cordel de Mavie e da balestra de Daryl, atingindo as têmporas dos mortos-vivos. A pistola de Peggy era recarregada continuamente, enquanto a adolescente matava mais e mais decompostos. Abraham, Sasha, Rosita e Tara moviam-se sinuosos, uma linha de frente voraz e habilidosa como soldados de primeira linha. Rick, Moritz e Billy Ray não erravam um tiro sequer. Glenn e Maggie, uma dupla incansável, não paravam de derrubar rastejantes.

Rebecca, Morgan e Michonne pareciam dançar em meio a luta, tamanha a agilidade de seus movimentos precisos. O taco, o cajado e a espada cortavam o ar com sons rascantes, atingindo precisamente seus alvos e os eliminando prontamente.

Até mesmo Eugene, Heath, Aaron, Padre Gabriel e Spencer, os menos habilidosos com armas de fogo, estavam mais inspirados do que nunca. Aquele grupo de Alexandria, finalmente, se unira como um só.

E assim todos passaram o final da tarde, até o cair da noite, até derrubarem o último morto caminhante.

Ao fim de tudo, exaustos, exauridos e miraculosamente sem nenhum deles ter sido mordido, pela perfeição de seus movimentos e de como ajudaram-se uns aos outros, todos estavam a ponto de cair no chão, sobrecarregados. Alguns sobreviventes da comunidade haviam se unido ao grupo de Grimes, antes de limparem Alexandria daquela ameaça.

Rick Grimes, guardando seu revólver, levantou o pouco que restava de sua voz.

— POVO DE ALEXANDRIA! — O policial e agora líder por direito gritou, chamando a todos os moradores que continuavam escondidos em suas casas e não se uniram à luta.

— Vocês ouviram o que aquele homem, aquele sujeito que nos invadiu e tentou nos derrubar falou. Ele tentou colocá-los contra mim, e vocês sabem disso! — Rick parou para tomar fôlego, olhando as casas e todos os que o acompanharam naquela árdua luta.

Aquela árdua luta diária pela sobrevivência.

— Pois bem, vocês podem tirar suas conclusões a partir disso! Podem concordar com ele, e fugir daqui, e ir de encontro ao Exército de Wyoming County! Já sabem o caminho! É só seguir para lá! — Rick bradou, sua voz assertiva apesar do cansaço.

— Mas não se enganem. Eles falam de força, mas apenas tentam nos enfraquecer! Eles são os fracos. Eles tentam nos derrubar por meio do medo, do caos e do sofrimento. Mas nós sobrevivemos a isso. Nós sobrevivemos para lutar mais um dia.

Tucker sentiu seus olhos marejarem, vendo aquele discurso de Rick. Mais do que nunca, soube que fizera a escolha certa ao decidir ficar em Alexandria e ajudá-los.

— Se querem sair daqui, saiam. Eu não pretendo esperar Hashimoto. Assim que limparmos tudo isso e nos armarmos outra vez, vamos contra-atacar. Porque eu não vou permitir que mais nenhum de nós morra sem tomarmos uma atitude. Hashimoto pode estar resoluta a nos matar... Mas não conseguirá isso sem esforço! — garantiu Rick Grimes, confiante.

— Eu não vou deixar Alexandria cair, nem que eu mesmo caia para isso. Não vou deixar que meu filho morra. Deanna Monroe, Annie Guinness, Jessie... — Rick parou por um tempo, engolindo em seco. — Todas elas morreram, assim como outros se foram hoje, tentando manter este lugar de pé. E é para isso que eu vivo e respiro hoje em dia. Eu quero um lugar que meu filho possa viver tranquilo — Rick Grimes falou ainda mais alto.

— Hashimoto diz que o mundo é dos fortes, e que essa é a única verdade. Ela está errada. Ela sequer sabe o que é força. Seus soldados a obedecem por medo, por não acreditar que existe mais nada além desse pesadelo, como o que vocês estão tentados a fazer. Mas nós provamos que isso não é verdade! Nós provamos que nós somos resistentes! E que nós somos verdadeiramente fortes... Mais fortes do que ela e seu Exército! — asseverou Rick Grimes, decidido.

— Fiquem comigo os que quiserem ficar. E eu garanto... Nós vamos provar... Nós vamos provar que é possível viver, e não mais apenas sobreviver! Porque nós temos motivos para tanto. Nós ainda temos conosco a nossa vontade de viver! E nada jamais poderá superar isso! — Rick Grimes pareceu finalizar o discurso. Tucker estava próximo de Carol, que recuperava o fôlego. Viu Rebecca, Billy e Morgan próximos, ao longe, e reparou na sua amiga loira a lhe dar um tchauzinho, satisfeita por vê-lo bem. Ele sorriu de volta para os três e encarou a mulher de cabelos grisalhos outra vez.

Abraçou-a com força contra si, sentindo uma curiosa vontade de rir. Aliviado. Como se realmente houvesse esperança naquele lugar. Logo sentiu Carol retribuir o abraço, ela mesma soltando uma risada curta.

Tucker ouviu o som das pessoas aplaudindo o discurso de Rick, e outros concordando em altos brados. Alguns dos moradores de Alexandria saíam de suas casas, olhando para aquela cena e aquele marcante pôr-do-sol.

Por mais que suas chances fossem mínimas... Talvez aquilo simbolizasse uma virada na maré de sorte daquelas pessoas.

Da sua sorte.

Talvez, um dia, Tucker pudesse voltar a ficar inteiro outra vez. E a sorrir, de verdade, mais uma vez. Como sorria agora, ao abraçar Carol.

Notas finais
~ Fiz uma mistura de alguns gifs do "thewalkinggifs.tumblr.com" com alguns de meus personagens originais, em homenagem ao capítulo. Não é gif trailer, mas tem o sentido do "episódio": http://i.imgur.com/cJXiLLh.webm ~ Está em formato gifv ao invés de gif por ser pesado demais. ~ Aguardo reviews! Pessoalmente, gostei bastante do "episódio", ehehehe, e vocês?