Hunter's Instinct
51 Episódio 51 - Máthair Chríona
Notas iniciais
Por vezes, a rapidez dos acontecimentos é tão concreta que parece até mesmo irreal.
Era isso o que Carol Peletier pensava, ao observar a destruição e posterior queda da torre de vigia de Alexandria. Sentia-se em algum tipo de pesadelo soturno e aterrorizante.
— Puta que pariu! — A voz ansiosa de Abraham Ford se fez ouvir do banco do motorista.
No compartimento de carga do caminhão, Carol passou a trocar olhares atônitos com todos os outros sobreviventes ali refugiados.
— Foi ela... Foi coisa dela... — balbuciava Tucker Hayes, as mãos tremendo nervosamente ao longo do corpo. Suor frio descia pela testa do rapaz, agora apavorado.
— Precisamos dar um jeito nisso. Agora! — Carol foi assertiva. Levantou-se de pronto, enquanto Daryl a olhava com atenção.
— Se entrarmos com o caminhão na comunidade, podemos apenas atrair mais deles — alertou Daryl Dixon, precavido. Moveu o olhar para os escombros de parte dos muros de Alexandria, ao longe.
Carol mirou o mesmo lugar que o amigo. Reparou que a multidão de errantes seguia diretamente para a nuvem de poeira.
— Não necessariamente. Acho que tenho uma ideia. — Os olhos claros da mulher faiscaram, determinados.
— O caminhão pode... Pode servir como uma muralha improvisada. — Carol viu a voz de Mavelle falhar, tentando formular uma solução junto aos outros dois.
— Essa é parte da ideia — Carol continuou, decidida. Caminhou até uma fresta entre o compartimento de carga e os bancos do caminhão, ocupados por Abraham, Sasha e Heath.
Ela chamou todos os três. Eles a encararam pela fresta, agoniados. — Prestem atenção. Precisamos entrar lá. — Carol conseguiu ouvir o som de gritos agudos ao longe. O ruído lhe trouxe um arrepio hediondo que subiu por todo o seu corpo, finalmente deixando-a realmente angustiada.
Eram gritos infantis.
A mulher fechou os olhos por um milissegundo, obrigando-se a se controlar. Você não pode sentir.
— Que merda está esperando, Abraham?! Acelere! — Daryl exigiu.
— E aí fazemos o quê, porra?! — perguntou o soldado ruivo. — Se chegarmos lá e descermos do caminhão do nada podemos todos ser devorados! — falou o homem robusto, com certa razão.
— Preciso contar com cada um de vocês — Carol Peletier logo retornou à compostura fria. — Sasha, vamos precisar da sua mira e do seu rifle. De você também, Abraham. Preciso que vocês subam no compartimento de carga assim que pararmos. Vão limpar o suficiente de errantes para que todos nós possamos chegar ao arsenal — pediu ela.
— Eu posso ajudar também — Mavie se habilitou prontamente. — É melhor não irmos todos para um lugar só — aconselhou, segurando rapidamente o braço de Carol para que a encarasse.
— Eu posso correr até a enfermaria. Minha avó deve estar lá. Posso levá-lo. — A garota de dentes salientes indicou Daryl com o queixo.
— Ninguém precisa me levar a porra de lugar nenhum — Daryl grunhiu em retorno, desagradado.
— Cale a boca! — retrucaram Carol e Mavie em uníssono, fazendo o caçador arqueiro arregalar levemente os olhos estreitos, surpreso.
— Nós conseguiremos segurar a barra de cima do caminhão — confirmou Abraham, já pisando fundo no acelerador, deixando os sobreviventes na carga perdendo o equilíbrio por alguns momentos. — Agora vocês se segurem aí, que eu só vou frear quando for a hora certa! — avisou o soldado, resoluto.
Carol atentou para a fisionomia confusa de Tucker. Parecia não saber o que faria para ajudar.
— Você vai comigo. Heath ajudará Mavie — Carol disse em tom de quem não admite negativas. O rapaz apenas meneou a cabeça, concordando, embora não parecesse compreender o que a mulher esperava dele.
— Eu posso ir também — Daryl Dixon resmungou, orgulhoso, enquanto o caminhão acelerava na velocidade máxima. O veículo pesado batia por diversas vezes nos mortos-vivos, esmagando alguns deles, zunindo outros para a frente e para os lados, como uma espécie de boliche macabro. O ruído das entranhas, carne e ossos esmagados era escutado até mesmo dentro das grossas paredes do compartimento de carga.
— Não — Carol negou de imediato, ao passo que Mavelle dava um olhar feio para o caçador arqueiro, como se ele fosse estúpido por sugerir aquilo. — Você mal está conseguindo andar, como pode querer dizer que aguenta correr?! — rebateu rispidamente a mulher de cabelos curtos.
— Por favor, não piore as coisas — concordou Mavie, insistindo para que Daryl tivesse um pouco de bom senso. Carol Peletier viu que a irlandesa segurou no braço do arqueiro, apertando-o com gentileza. Os dois trocaram um breve olhar, e foi suficiente para Carol notar que Daryl já estava derrotado.
Logo, todos se seguravam, as mãos, braços e posturas dispostos de forma a se apoiarem nas paredes e cantos do compartimento de carga, quando a voz de Sasha soou alta:
— Estamos chegando! Segurem firme! — a sniper avisou, enquanto todos se agachavam de forma a não tombar para os lados com a curva agressiva que Abraham fez. Carol sentiu o baque de inúmeros corpos de errantes sendo derrubados contra a parede em que se apoiava.
— A porta do compartimento traseiro está aberta, é só levantar! Se preparem, vamos avisar para saírem! — A voz de Abraham bradou.
Carol, Daryl, Mavelle e Tucker logo se organizaram para a corrida que seria necessária. A mulher de cabelos curtos e o rapaz estavam na frente, ele, por sua vez, tremendo como se fosse se desfazer em pedaços a qualquer momento.
Atrás dela, Daryl e Mavie já tinham a postos suas flechas, balestra e arco empunhados, os olhos atentos na porta que em segundos seria aberta. Os sons de gritos, passos apressados ao longe, rosnados guturais de errantes e tiros eram a trilha sonora daquela catástrofe.
Carol ouviu outra vez uma criança gritando, seguido de um berro feminino, de idade mais avançada. Ela fechou os olhos outra vez. Sam.
Não pense. Não lembre. Não sinta. Carol Peletier se repreendeu em pensamento, franzindo as sobrancelhas com força, sentindo sua têmpora doer tamanha a intensidade da contração muscular.
Não sinta nada. Apenas mate os mortos. Salve seus amigos.
Mate todos que precisar para salvá-los.
— SAIAM! AGORA! — A voz retumbante de Abraham Ford era o sinal.
Carol, Tucker e Daryl empurraram ao mesmo tempo a porta traseira do caminhão. Lançando-se em um salto preciso para fora do compartimento de carga, a pistola em punhos, Carol Peletier deu um tiro preciso no rosto de um morto-vivo que se aproximava do caminhão.
A nuvem de poeira continuava perigosa. O caminhão amplo e maciço atrasava a entrada dos errantes na comunidade, e Abraham e Sasha davam cabo dos mais próximos, liberando uma espécie de corredor entre os mortos-vivos para que pudessem fugir. Contudo, logo perceberam que a visibilidade ainda não era boa o suficiente para se sentirem seguros.
— Tucker, ATRÁS DE MIM! — Carol Peletier ordenou, ao passo que via de relance Heath descer e ajudar Mavelle e Daryl a seguirem caminho até a casa onde ficava o hospital de Alexandria, bem próximo da entrada da comunidade. Viu as flechas dos caçadores destroçarem crânios de muitos mortos-vivos, assim como os tiros da arma do homem de dreads.
O rapaz com jeito de drogado, porém, não parecia tão preparado para aquela situação quanto os outros sobreviventes mais hábeis. Estava mais atrás, meio perdido.
— Eu falei, Tucker, atrás de mim! — ordenou Carol mais uma vez, voltando alguns metros e puxando o rapaz pela mão, já com raiva.
— Não dá pra ver porra nenhuma! — defendeu-se o rapaz, nervoso, a mão com a pistola tentando limpar o ar a frente, de forma desordenada.
— Escuta — Carol Peletier se aproximou do rapaz assustado. — Você não tem tempo de ter medo, entendeu?! — A mulher segurou com firmeza nos ombros de Tucker, olhando profundamente em seus orbes temerosos. — Você escolhe entre ceder ao medo e morrer, ou engolí-lo de uma vez e sobreviver! — finalizou, girando nos calcanhares e atirando no errante mais próximo. Não olhou outra vez para trás, até chegarem ao arsenal.
Carol matou todos os errantes que a atrapalharam no caminho, não sendo surpreendida em momento algum. Seus sentidos estavam à flor da pele. Ela não era mais Carol Peletier. Era uma caçadora. Era uma assassina profissional. Apenas olhos, instintos, ouvidos e uma mira precisa.
Sem misericórdia.
Tucker, finalmente, reuniu mais coragem depois da bronca que tomara. Alguns metros atrás dela, deu-lhe suficiente cobertura para que Carol limpasse o caminho para os dois, passando pelas cercas da casa onde havia o arsenal sem maiores problemas.
Ao entrarem enfim pela porta, trancaram-na e em seguida empurraram móveis como poltronas e estantes para cobrir a entrada, para o caso de algum errante desgarrado se perder por lá.
— Tome cuidado. Eles podem ter invadido a comunidade de alguma forma — recomendou a mulher de cabelos grisalhos, sussurrando para o rapaz ao seu lado. — Armas sempre preparadas — ralhou ela, murmurando para Tucker, que abaixara a mão com a pistola. O sujeito prontamente levantou a arma outra vez.
Carol foi cautelosa até a porta da sala onde ficava o armazenamento de armas e munições da comunidade. Abriu a porta em um empurrão medido. Ouviu um grito contido e baixo, e logo viu o cano de uma arma ser apontado em sua direção.
Suspirou, aliviada.
— Olivia, abaixe essa droga, agora — Carol mandou, ao passo que a mulher acima do peso continuava estática, segurando a arma com mãos trêmulas, ainda apavorada.
— É bom ver que você lembrou o que tinha de fazer — continuou a mulher de cabelos curtos com certa ironia, ao entrar na sala de armas.
Tucker Hayes seguiu Carol Peletier, que passou a buscar metralhadoras, rifles de longa distância e pentes de balas como se estivesse se armando para uma guerra. Buscou, dentro de uma caixa específica, algo que seria um tanto ousado levar, mas que valia o risco.
Tucker soltou uma exclamação de incredulidade ao ver o que ela recolhera.
— O que você pretende fazer com isso? — O rapaz apontou, ansioso, para a granada nas mãos da mulher. Olivia a olhava com a mesma expressão desesperada.
— Eu tenho um plano. Apenas me obedeça e tudo vai dar certo — garantiu Carol Peletier, afirmativa de forma quase sobrenatural.
A mulher de cabelos grisalhos seguiu para fora do arsenal, esgueirando-se pela janela que uma vez invadira para roubar armamentos. Tucker fez o mesmo, silencioso porém irrequieto.
Carol sinalizou para o rapaz por todo o tempo, levando-o de encontro a um local específico. Próxima dos muros da comunidade, de uma parte deles que ainda resistia de pé, a sobrevivente podia ouvir com alarmante volume o ruído insistente dos errantes que empurravam as placas de metal da murada com seu próprio peso e força remanescente em seus corpos apodrecendo.
Aflita, Carol Peletier apontou para o chão, indicando um bueiro. Agachou-se, e retirou a tampa. Alguns mortos-vivos testemunharam a movimentação dos dois, e iam em seu passo lento de encontro a mulher de cabelos curtos e ao rapaz com jeito de drogado.
— Que merda você está fazendo?! — Tucker Hayes indagou, ainda mais agoniado.
— Eu falei para não questionar. Só me siga. — Carol pegou outra vez a tampa do bueiro, enquanto entrava por meio de uma escada para dentro do sistema de esgoto. Fez menção de fechar o bueiro aberto com a tampa, já com metade do corpo descendo as escadas, sabendo que isso convenceria de uma vez o rapaz a seguí-la.
Como Carol Peletier imaginara, Tucker correu direto para a entrada do escoadouro, indo no encalço da mulher, receoso.
Assim que alcançou o chão, Carol retirou dos bolsos uma lanterna pequena, mandando que Hayes retirasse de sua mochila a que carregava consigo. Levantou a gola da blusa de forma a aguentar o fedor grotesco de fezes e dejetos humanos da água que escorria por seus pés, ato que Tucker imitou com o casaco que usava.
— O que é que você quer fazer? — Tucker insistiu, ainda aflito, sua voz soando baixa e abafada pela gola do casaco.
— Preciso que você me ajude nisso. Sei que olhou as plantas da comunidade, que Reg tinha — afirmou a mulher de cabelos grisalhos, fuzilando o rapaz com seu olhar astuto.
— O que isso tem a ver com dar um passeio no esgoto?! — quase esbravejou Tucker, incrédulo. — Está uma loucura lá em cima, caso não tenha percebido! — ironizou.
Carol o segurou pelo braço, mais uma vez. Já estava farta dos chiliques do rapaz que mais parecia um garoto.
— É por isso mesmo que estamos aqui. Pelo que vi das plantas de Alexandria, o sistema de esgotos sai da comunidade, deságua do lado de fora. Sei que você sabe disso também. — Carol o encarou sem dó. — Nossa distração lá fora foi prevista. Essa, talvez não. Se Hashimoto cercou a comunidade ao longe, e não dentro do perímetro que checamos da última vez, não poderá prever o que vamos fazer.
— E o que é que vamos fazer?! — Hayes continuava sem compreender.
— Atrair os errantes para o lado de fora, mais uma vez. Mas não só com um incêndio. Com mortes — asseverou a mulher. Tucker abriu os lábios, boquiaberto.
— Os esgotos vão cerca de alguns quilômetros para fora da comunidade. Além do perímetro que nós checamos ontem. É provável que vamos topar com algumas das tropas dela. Para contornar o terreno da comunidade, da distância que eles estão de nós, tem de ser em grupos pequenos, divididos em pontos estratégicos — Carol falou com segurança, astuta. — Não há nenhuma possibilidade de acharmos algum grupo grande, pelo número que você nos deu dos membros do Exército.
— As tropas estarão despreparadas. Teremos uma chance só. Eles não vão saber de onde veio o ataque. — Carol Peletier mostrou a granada que guardava consigo. — Os que continuarem vivos depois da explosão vão ser mortos a tiros. — Ela indicou o rifle e a metralhadora que carregava, e que Tucker também levava.
O rapaz ficou em silêncio por um tempo, digerindo o raciocínio e a estratégia eficiente de Carol.
— Como você pensou nisso tudo?! — Surpreso, o rapaz drogado apenas mirou a mulher de cabelos curtos, seus olhos cada vez mais arregalados. — E, espere, aonde eu entro nisso?
— Você era do Exército. Sabe como eles se camuflam, como se agrupam, como se escondem. E também é arquiteto. Você não só sabe o caminho para fora desse labirinto melhor do que eu, como deve saber se virar se virmos algum imprevisto — disse Carol, retornando a caminhar por aquele local inóspito.
— Imprevisto? — o rapaz ainda duvidava.
— Algum muro, alguma grade, qualquer coisa do tipo. — A mulher já estava impaciente, seguindo adiante.
Carol ouviu o som de um ruído baixo, como se Tucker soltasse o ar, em um suspiro de exasperação e admiração ao mesmo tempo.
— A senhora é esperta demais, dona Peletier — falou o sujeito drogado, sua voz um pouco mais segura.
— É uma benção e uma maldição — retorquiu a mulher de cabelos curtos, irônica, contudo, sincera.
Os dois continuaram a passos rápidos, até o fim do sistema de esgotos da comunidade. Tucker guiou Carol pelos caminhos certos, lembrando-se de planta que estudara enquanto trabalhara com o grupo da construção, no reforço dos muros na comunidade. Já viam o final do túnel, onde uma grade antiga de ferro barrava a saída.
Carol, frustrada, soltou um suspiro preocupado, quando foi enfim surpreendida.
Um errante que ela não enxergara, um corpo tão decomposto pelo tempo, pelos dejetos humanos em que estivera jogado, e pelo ambiente insalubre em que jazia, jogara-se direto em seu pescoço, os braços enlaçando seu corpo esbelto, partindo-se ele próprio em pedaços de músculos, pele, ossos e restos humanos podres. Seus dentes, porém, continuavam ameaçadores em seu maxilar ainda funcional.
Carol sequer pôde soltar um grito ou som de espanto. No momento em que o errante estava prestes a abocanhar a carne de seu pescoço, abaixando a gola que protegia suas narinas daquele fedor pestilento, já era tarde demais para colocar uma lâmina no crânio do ser repugnante.
Mas, assim que achara que tudo que estava perdido... Ouviu o som de uma faca se cravar contra a nuca do errante, atravessando-a de baixo para cima. O corpo apodrecido caiu para trás, ao passo que Tucker evitava que o morto-vivo tombasse contra seu corpo.
O rapaz olhou para o errante morto, aquele esqueleto grotesco, fétido, um pesadelo de mau gosto, e depois retornou a olhar para a mulher que salvara da morte certa.
Inacreditável.
Com um sorriso de puro nervosismo, ela apenas disse:
— Obrigada — agradeceu ao sujeito drogado, que até segundos atrás a seguia inútil e tenso como um filhote apavorado.
— Não há de quê — respondeu Tucker Hayes, voltando a levantar a gola do casaco para se proteger do mau cheiro. Os dois trocaram um olhar significativo, e Carol engoliu em seco, pegando a lanterna que caíra ao chão. Talvez tivesse sido dura demais com aquele garoto, afinal de contas.
Foram até a grade de ferro, e Tucker passou a estudá-la com cuidado. Levou seus dedos para o metal, puxando-o para frente e para trás, parecendo fazer uma avaliação de como eliminar aquele obstáculo. Guardaram as lanternas, graças à iluminação do dia lá fora.
— Está muito velho. Totalmente enferrujado — afirmou o rapaz, enquanto a mulher de cabelos curtos olhava mais adiante, assegurando-se de que não tinha ninguém por perto.
— Como fazemos para derrubar? — perguntou a mulher, enquanto Tucker ainda tentava pensar em uma solução.
— Não vamos derrubar. Vamos girá-lo — aduziu Tucker Hayes, afastando-se do portão. — Me dá o rifle mais comprido. Esse que está com você — pediu o rapaz, sério. Carol Peletier levantou as sobrancelhas, entregando-o logo depois.
Tucker mirou o portão velho, enferrujado e de aspecto frágil. Estava bem prensado as paredes do túnel, mas o rapaz parecia ter uma ideia em mente.
Carol apenas fitou o rapaz ir rápido e firme até o canto direito do portão, dando uma pancada dura num ponto direito, ao chão. Fez o mesmo movimento, idênticas vezes seguidas, até que o portão começou a ranger. Passou a dar as mesmas pancadas em diversos pontos da grade, perto do chão, do teto, e de toda a lateral direita do portão.
Depois de algum tempo de trabalho contínuo, Carol Peletier percebeu que o portão começou a ser empurrado. A grade mais próxima da direita fora impulsionada para trás, e as estruturas que a mantinham presa naquele lado da parede passaram a se romper, assim como em grades mais à direita interligadas ao chão e ao teto.
Tucker Hayes continuou a dar as mesmas pancadas planejadas, e, após mais alguns minutos, o portão quebrou naquele lado, permitindo que se abrisse o suficiente para que os dois se esgueirassem para fora, e depois o encaixassem de volta no lugar.
— Como pensou nisso? — indagou a mulher, positivamente surpresa.
— Torque — respondeu o rapaz, dando de ombros.
— Não sei exatamente se é assim que funciona esse princípio — brincou Carol Peletier de volta, duvidando dos conhecimentos de física de Tucker. Entretanto, não havia tempo para contestar o que ele dissera.
Já haviam saído dos esgotos, e todo o silêncio e atenção seria estritamente necessário, se quisessem sobreviver. O sistema de tubulação desembocava em uma vala a céu aberto, no meio de um matagal espesso alguns quilômetros longe de Alexandria. Carol estudou o local, alerta, depreendendo que havia uma espécie de morro próxima.
— Ali é alto — apontou Tucker para o lugar que ela acabara de reparar. — Devem estar usando de ponto de observação. Precisamos chegar de fininho — aconselhou o rapaz, retornando à ansiedade de sempre.
Carol Peletier e Tucker Hayes caminharem em silêncio, embrenhados pela mata. O lugar continuava silencioso, com apenas alguns ruídos de animais corriqueiros.
Carol sinalizou para que Tucker lhe entregasse os binóculos que usaram para checar o perímetro ao redor de Alexandria. Assim que os teve em mãos, mirou na altura do morro que pouco a pouco subiam, pela trilha criada em meio a floresta densa.
Por trás de uma árvore, Carol Peletier pôde ver, distintamente, o cano de uma arma. Uma AK-47. Observou também traços de alguém vestido com algum tipo de armadura pesada, dos pés a cabeça. Na altura das mãos, usava luvas, portando insígnias japonesas já conhecidas. E tinha um walkie-talkie consigo.
Carol deixou o binóculo quase cair das mãos, arfando em silêncio. Estava certa. Membros do Exército de Wyoming County resguardavam parte daquele lugar.
— Tucker, você tem de ir rápido de volta aos túneis. Fique lá dentro, e se esconda atrás dos portões. Eu volto rápido. Você vai ver a fumaça subir e ouvir o som dos tiros. O incêndio vai se espalhar rápido. O clima está seco e aqui tem bastante mato. Mas precisamos fazer isso em minutos, no máximo. Ok? — Carol falou, arrojada. Mirou os olhos também claros do rapaz, que logo franziu as sobrancelhas.
— Não, você não pode fazer isso sozinha — replicou o rapaz, incerto.
— Posso, já fiz algo muito parecido — Carol recordou-se de Terminus, murmurando secamente. — Apenas me obedeça.
— Não — retrucou Tucker, insistente.
Carol passou uma das mãos no rosto, impaciente.
— Você já me salvou. Sei que é capaz. Não precisa me provar nada. Apenas vá lá, e rápido — disse a mulher, entre dentes.
— Não quero te provar porra nenhuma, dona Peletier. — Carol o olhou revoltada pela insubordinação. — Com todo o respeito. — Tucker se retraiu um pouco.
Não havia tempo para discutir. Carol teria de lidar com aquilo daquele jeito, se fosse preciso.
— Apenas não faça nada para atrapalhar, então — ordenou Carol Peletier, ainda desagradada com a desobediência do rapaz.
Ambos caminharam até uma espécie de barranco, uma inclinação íngreme onde o mato era mais rasteiro, e havia uma enorme parede de terra. Protegidos pela cobertura que o local lhes dava, Carol mais uma vez se muniu da granada e dos binóculos. Gravou mentalmente o lugar onde o soldado de Hashimoto estava parado, e se aproximou devagar, sendo seguida por Tucker.
Estava apenas metros abaixo da árvore onde o capanga da japonesa se recostava. Carol Peletier olhou para Tucker Hayes, abrindo um pouco os olhos, levantando a granada com cuidado.
Carol retirou o pino, e jogou a granada para cima, em um movimento calculado e certeiro.
Assim que viu o projétil seguir em uma parábola, centímetros perto de atingir o solo mais alto, caindo ao lado do tronco da árvore mirada, Carol Peletier saltou metros e metros abaixo da floresta, finalmente fazendo ruídos. Tucker a seguiu naquela fuga desenfreada, enquanto ouviram um grito alto e alarmado, metros acima:
— GRANADA!
Uma explosão ensurdecedora se seguiu.
Carol e Tucker foram jogados para frente, rolando por pedra, terra, e folhagens. Mas não poderiam parar. Seriam seguidos muito em breve. Recobraram o ritmo, levantando-se e retornando à corrida desesperada. Podiam ouvir o som do fogo lambendo as árvores morro acima, além dos gritos, sussurros e lamentos dos soldados de Hashimoto, surpreendidos.
— Encontre um posto para atirar! — sussurrou Carol Peletier para o rapaz, rapidamente, jogando-se atrás de algumas rochas altas. Logo em seguida, Hayes afirmou com a cabeça, procurando um outro local para se esconder, à esquerda de Carol.
O rapaz, porém, não dera sorte. Fora mais uma vez desajeitado. Tropeçara em algum buraco no chão, disfarçado pelas folhagens de outono, caindo em um tombo feio.
Carol não tinha tempo de ir ajudá-lo. Viu, escondida pelas pedras, cinco pessoas descendo com agilidade pela terra íngreme.
Carol Peletier ajeitou a metralhadora na bandoleira, e abriu fogo. Os soldados, treinados, conseguiram em maioria recuar, enquanto ela apenas derrubou dois deles. Dando rolamentos para os lados, os sujeitos logo encontraram a origem dos tiros. Dispararam contra a mulher, que por pouco pôde voltar a se esconder nas pedras.
Um tiroteio teve início, enquanto o incêndio se alastrava pela floresta. Sons distantes de grunhidos assombrosos, ruídos típicos dos errantes, começavam a soar audíveis.
Carol insistiu por todo o tempo, enquanto os soldados, recuados, também encontraram posição privilegiada para atirar contra ela. Já estava no fim de sua munição, quando enfim conseguiu soltar uma rajada certeira em um soldado mais à sua direita, fuzilando seu braço. O sujeito caiu ao chão, e a sobrevivente acertou mais tiros em seu tronco e em sua cabeça.
Um deles havia sumido, quando Carol finalmente acertou, com o fim do pente, a orelha do soldado escondido atrás de uma árvore grossa, à esquerda. O homem caiu ao chão, e ela descarregou o pente em seu rosto.
Carol Peletier ainda recobrava o fôlego, quando ouviu o som de mais passos apressados vindo em sua direção. Uma rajada de tiros quase acertou suas pernas, quando ela própria rolou para os lados, se escondendo do outro lado da pedra. Os soldados restantes contornaram o caminho, e a atacavam pelas costas.
Carol jogou a metralhadora no chão, já sem balas, e passou a usar o rifle. Mirou certeira na cabeça de três dos soldados que se aproximavam, tentando se esconder em meio a floresta. Vira também outros três, dentre eles o que havia sumido pelo matagal espesso.
Carol Peletier tentou correr para outro esconderijo, sabendo que estava em uma posição agora já descoberta. Assim que saiu por trás da pedra, porém, conteve um grito de horror.
O soldado não havia contornado a pedra. Apenas aguardara que os outros a acuassem.
O capanga de Hashimoto tinha uma AR-15 mirada diretamente para o rosto de Carol. Ia disparar, quando pareceu reconhecê-la.
— Você é Carol, certo? — indagou o homem, enquanto ela, sem escolhas, abaixava o rifle.
— Sim — respondeu a mulher, achando que travar um diálogo talvez criasse alguma possibilidade de escapar. Carol Peletier sentia seu coração batendo dentro de sua garganta.
— Hashimoto quer você. Cale a boca e nos siga — ordenou o sujeito, com ironia gritante depois de Carol passar a manhã inteira dando ordens a Tucker.
Carol Peletier ouviu o som de passos caminhando devagar até ela. Em seguida, pôde escutar o ruído de outras armas pesadas sendo miradas contra sua própria nuca.
Ela fechou os olhos, sentindo-se praticamente derrotada, quando subitamente escutou outra rajada de metralhadora. O homem que lhe dissera a ordem caíra ao chão, seu rosto perfurado por diversos tiros, lavado de sangue.
Carol compreendeu tudo na mesma hora.
Girou nos calcanhares, jogando-se como uma fera em cima de uma mulher que a acuava com a mira de um rifle G36 contra sua nuca. Surpresa pelos tiros que atingiram o soldado, a mulher a encargo de Hashimoto não reagira. Logo depois, Carol Peletier escutou outra leva de tiros, eliminando o último soldado de pé.
Com frieza assustadora, Carol esmurrou a mulher até que parasse de lutar contra si, jogando seu rifle para longe, antes que a capanga da japonesa pudesse se armar novamente. Mantendo a militar presa contra o chão, Carol Peletier puxou sua própria faca, encaixando seus dedos na base, sufocando a mulher com seu braço direito.
— Sabe, eu tinha até vontade de te deixar viva, só para você dar um recado para sua chefe — debochou.
A militar passou a rir, parecendo não se importar com sua morte inevitável.
— Vocês não vão escapar. Serão de Hashimoto. Serão nossos. Vamos libertá-los — garantiu a militar, tossindo, quase sufocada pela pressão que a sobrevivente incutia em sua garganta.
— Duvido muito — ironizou Carol Peletier. — Mas é mesmo uma pena... — Carol esfaqueou a nuca da mulher, matando-a na hora.
— ...Eu gostaria que você pudesse levar o recado de que eu mandei Hashimoto se foder — completou a mulher de cabelos curtos, retirando a faca do crânio da capanga que assassinara.
Em seguida, ergueu-se, logo vendo Tucker se revelar por trás das folhagens. Soubera, na hora que o suposto comandante do grupo morrera, que o rapaz a salvara outra vez.
— Você está me devendo, dona Peletier — brincou, limpando o sangue e suor do rosto. Pelo visto, não se machucara com o tombo.
— Vai com calma, garoto — retrucou Carol, estreitando os olhos com argúcia.
— É sério, não comece a ficar cheio de si — falou ela, com sarcasmo, ao passo que Tucker apenas sorria, entre o alívio e a presunção.
*****
Era impressionante. Não havia um único dia de paz naquela realidade turbulenta em que viviam. Ou que sobreviviam.
Atarantada pelas inúmeras tarefas que tinha de cumprir em um curto período de tempo, ela sentia que estava aos poucos tornando-se incapaz de se manter de pé, sua cabeça quente, pesada, tamanha a pressão em Alexandria.
Mas Mavelle Berry tinha de persistir.
Tinha de continuar alerta. Um mar de carniceiros invadira a comunidade, nadando como os tubarões nadavam pelos tanques do Aquário da Georgia, à espreita de qualquer vacilo, de qualquer presa que pudesse cair em suas garras e seus dentes afiados.
Dentro do hospital caseiro de Alexandria, Mavelle corria de um lado ao outro cuidando dos mais diversos pacientes. Crianças, adultos e idosos, alguns apenas feridos superficialmente, outros com injúrias mais graves. Uma delas, mordida.
Rosita não estava ali, presa, provavelmente, em alguma das casas da comunidade, tampouco Denise. Então, Mavie tivera de ajudar sua avó, servindo como enfermeira postiça.
Dentre os feridos mais graves, a garota arqueira topara com o caso de Deanna Monroe, que fora prontamente socorrida por Rick Grimes, após ser mordida por um errante. O policial, logo depois, fora dar cobertura a Michonne, a seu filho e também a Padre Gabriel, entrando na casa mais próxima, a residência de Jessie e seus meninos.
Naquele momento, Annie acompanhava de perto a mandatária da comunidade. A líder já havia confessado suas esperanças para Alexandria, e todos os seus sonhos de ali construir uma real sociedade. Um local onde poderiam viver, e buscar dias melhores, e não apenas continuar seguindo um dia sofrido após o outro.
Antes da chegada de Hashimoto e seu Exército, rasgando esses sonhos ao meio como frágeis folhas de papel.
Deanna, porém, parecia bem resolvida. Pediu para as duas irlandesas que se certificassem de que Rick assumisse a liderança, auxiliado por Maggie Greene, Annie Guinness, Michonne e Moritz. Em suma, pelo comitê político de Alexandria. Estava segura de que, se havia alguma chance de sobreviverem àquela ameaça, seria com a ajuda do policial.
— Filhinha — Annie falou com doçura, mesmo também muito nervosa com toda a pressão caída em seus braços. Mavie encarou a avó, solícita.
— Pegue mais morfina lá embaixo. Aproveite e dê uma checada no seu namorado. Agora que o curativo já está pronto, em algumas horas de repouso ele pode sair — Annie Guinness se esforçou para dar um sorriso minimamente simpático, fingindo que controlava totalmente a situação, embora Mavelle soubesse que a verdade estava longe disso.
— Não preciso de morfina — rebateu Deanna, franzindo os lábios, bancando a corajosa, deitada em seu leito de morte.
— Querida, você já fez demais. Apenas descanse, agora — a médica afirmou, tentando soar reconfortante. Deu mais um olhar para a neta, como se para apressá-la. Mavie anuiu com a cabeça, tentando ignorar os ruídos persistentes dos rosnados sonoros dos mortos-vivos do lado de fora, audíveis mesmo a janelas e portas fechadas.
Berry desceu as escadas, andando até um dos primeiros quartos da casa que servia de enfermaria. Pegou os medicamentos solicitados pela avó, e depois entrou no quarto, agora comunitário, dividido por cinco pacientes. Dentre eles, Daryl Dixon. Mavelle saudou os dois idosos e as duas crianças que ali se recuperavam, duas meninas pequenas, de olhos grandes e saltados de medo. Tentou sorrir para elas da mesma forma que a avó acalmava seus pacientes, mas sabia que falhava miseravelmente.
— Isso é uma palhaçada — Daryl resmungou, assim que Mavelle chegou. Sua perna fora bem cuidada, o ferimento limpo, ao receber o tratamento para prevenir a infecção. Estava afoito para ajudar.
— Não se preocupe. Logo vai ter alta. — Mavie deu um sorriso forçado, também angustiada demais com todo aquele cenário desolador. Dixon levantou a mão, ajeitando uma mecha de cabelo dela atrás de sua orelha.
— Hey. Força. Você está aqui com sua avó. Está tudo bem com ela. — Daryl tentou animá-la. — E a pequenininha — Dixon se referia a Peggy — está bem também, sua avó disse que viu ela conseguir abrigo. — Os olhos impacientes do caçador arqueiro agora tinham legítima afeição em seus orbes azulados.
— Eu sei. É só que... — Mavie não tinha nem palavras para expressar. Apenas respirou fundo, meneando a cabeça. — Você está certo. Não podemos pirar.
— É isso aí... Esquila — murmurou ele em retorno, falando a última palavra baixo, com um olhar significativo reservado somente para Mavelle.
A irlandesa de dentes salientes sorriu, agora verdadeiramente.
— Já volto aqui para te soltar do cárcere — brincou a garota morena, dando um selinho naquele homem que já crescera tanto em importância para ela, sem que nem medisse o quanto.
— Estou esperando ansiosamente — retorquiu Dixon, sarcástico, e Mavie lhe brindou com uma leve risadinha.
Ao subir as escadas, Mavelle se sentira um pouco mais esperançosa. Daryl tinha razão. Sua avó estava ali. Peggy ainda estava viva. Eles ainda estavam seguros. Havia uma chance. Encontrariam um jeito de sair daquela situação.
Abriu a porta do quarto onde Deanna era tratada em separado, a única infectada daquele hospital.
E foi então que o coração de Mavelle Berry quase parou de bater.
Três sujeitos que ela nunca vira antes estavam ali.
Um deles puxou-a pelo braço, mirando uma pistola com silenciador em sua testa, de imediato. Quase torcera o braço da irlandesa jovem, mantendo-a imobilizada com agilidade.
Outro homem colocara Deanna de joelhos, amarrada e amordaçada, na varanda que havia naquele quarto. Tinha outra pistola silenciosa mirada na direção de sua cabeça.
E o homem restante... Mantinha Annie presa, também de joelhos, ao lado de Deanna. Também contida por cordas e com a boca tapada. De costas para Mavelle. Com um facão posto contra o pescoço de sua avó.
Mavie Berry fez menção de gritar.
Não mais raciocinava.
Começou a se debater nas mãos do sujeito forte que a mantinha presa, e que acabara de amarrar uma venda fundo em sua boca, fazendo com que a irlandesa mais jovem quase engolisse a própria língua.
Totalmente determinada em se soltar e correr para ajudar a avó, Mavie ia torcendo cada vez mais seu braço a medida que ela se contorcia, desesperada, e o homem firmava o aperto. Sem muitas dificuldades, o vigoroso sujeito a arrastou pelo chão, puxando-a pelos cabelos e pelo braço até perto da porta, que trancou.
Pelo canto dos olhos, Mavelle registrou que ele usava uma espécie de armadura, assim como todos os outros três, um tipo de roupa de camuflagem especial que parecia ser do Exército americano, recobrada de um material forte. Por cima das roupas resistentes, os três estavam cobertos de tripas, sangue e vísceras, arrancadas de mortos-vivos. Usavam até mesmo luvas grossas.
Eram invasores prontamente preparados para se camuflar em meio aos mortos-vivos.
Mavie insistia em gritar e se debater, mas o sujeito apenas a firmou contra o chão, evitando fazer ruídos que trouxessem desconfiança aos outros pacientes.
Lágrimas começaram a rolar pelos olhos da garota morena. Não podia acreditar naquilo. Não podia suportar. Ela vira tantos morrerem, tantos. Mas não ela.
Não ela. Não sua avó.
Mavie continuava se debatendo, todas as suas forças residiam naquela tentativa vã, naquela tentativa inútil de salvar Annie da crueldade daquele mundo horrível. Elas tinham a sorte das irlandesas, mas, por mais que Mavie desejasse morrer no lugar da avó, por mais que ela soubesse que faria esforços sobrehumanos para evitar... O destino havia chamado.
Annie olhou para trás, alcançado o olhar da neta, que a mirava apenas a alguns metros de distância da varanda. Os olhos escuros da avó estavam calmos, plácidos, tão resolutos quanto os de Deanna. Pareciam dizer para que não se preocupasse, para que ficasse calma...
Como se lhe garantisse que tudo iria ficar bem.
O homem que mantinha Annie refém a forçou a olhar para frente, apertando mais o facão em seu pescoço, formando um corte na pele frágil da avó de Mavelle. Lágrimas escorriam dos olhos da garota irlandesa, lágrimas grossas, deixando sua visão turva por momentos, enquanto ela se esgoelava de gritar contra a venda grossa, quase se afogando em meio ao pano.
Subitamente, o homem que mantinha Deanna presa retirou algo do chão. Uma espécie de mega-fone, um amplificador sonoro vocálico. Ao mesmo tempo, ligou alguma espécie de rádio que Mavelle não reconheceu.
— Povo de Alexandria! Eu falo em nome de Hashimoto. Por conta da incapacidade de seus líderes, vocês agora se encontram cercados. Seus muros, tombados. Suas defesas, cerceadas. — O homem parou para recuperar a voz. Em um aparelho de som próximo da cabeceira da cama de Deanna, Mavie julgou escutar um ruído de interferência, como se recebesse sinal de rádio.
— Seus líderes são fracos. Sua governante, Deanna, está à beira da morte. Seu líder, Rick Grimes, esconde-se como um covarde. Enquanto isso, todos vocês se fecham em suas casas, atrás de concreto, tijolos e pedra, esperando o raiar de um novo dia que nunca chegará. Não enquanto acreditarem nas mentiras de seus líderes fracos — disse o homem, no mesmo tom do discurso psicótico de Hashimoto.
— Seus líderes mandam seus capangas às escondidas para matar membros de nosso Exército. Nós, que jamais os atacamos escusamente. E isso pede uma retaliação. Por isso, rendemos hoje duas de suas mais importantes membras. Sua mandatária e sua principal médica. A morte delas lhes servirá como um sinal, povo de Alexandria! — garantiu o capanga da japonesa.
— Enquanto seguirem Rick Grimes e todos os covardes que se julgam capazes de liderá-los... É isso o que receberão. Morte, pavor, desolação. Mas quando decidirem aceitar Hashimoto... Quando decidirem se unir ao nosso Exército de Wyoming County, enfim serão fortes! Nossa líder virá recrutá-los em uma semana e meia. Sobrevivam, aguardem, e iremos libertá-los de tudo. Dos rastejantes, da fraqueza de seus líderes mentirosos, da mentira... Só há uma verdade! O fraco morre, e o forte sobrevive. Hashimoto virá por vocês! Escolham com sabedoria! — o homem bradou, enquanto Mavelle sentiu que sua cabeça iria explodir. Estava mais zonza do que nunca, e pouco entendia do discurso daquele sujeito. Apenas não podia parar de pensar que sua avó estava ali, rendida, e que iriam tentar matá-la, e que ela não poderia deixar isso acontecer.
A porta do quarto começou a ser arrombada. O sujeito que mantinha Mavelle presa lhe deu um soco tão forte, torcendo-lhe o braço, que ela não conseguiu se mover. Sentiu seus dentes trincarem, um deles partindo-se, a boca ficando repleta de sangue viscoso.
A irlandesa jovem apenas mantinha seus olhos zonzos na figura da avó, parcialmente sentindo a dor dos ferimentos cruéis, pois a dor emocional que lhe acometia era pior do que qualquer aflição física.
De longe, Mavie ouvia o sujeito que a rendera tentar segurar a porta que era agressivamente arrombada do lado de fora. Mas seus olhos, seus ouvidos, e todos os seus sentidos residiam em apenas uma pessoa.
Mavelle Berry começou a se arrastar pelo chão, forçando seu braço torcido ao limite, a dor física excruciante em nada pior do que o temor de perder sua avó.
Mavie abaixou a venda de sua boca, não tendo forças para arrancá-la. Continuou se arrastando na direção da avó.
Segundos, minutos... O tempo ficou obsoleto naquela hora.
— ...Vó... — Mavie cuspia sangue, rastejando até Annie, ela mesma parecendo um errante fragilizado.
A idosa pareceu ouvir aquele sussurro fraco. Moveu o rosto na direção de sua neta.
Naquele momento, os algozes miraram suas armas. O porta-voz de Hashimoto atirou na cabeça de Deanna, empurrando o corpo executado da líder pela bancada, fazendo-o cair às ruas da comunidade, aos pés da entrada do hospital. Os grasnidos dos mortos-vivos ficaram ainda mais audíveis, provavelmente devorando freneticamente o corpo assassinado da antes esperançosa líder de Alexandria.
O segundo algoz levantou a peixeira.
Annie encarou sua neta.
Mavelle chorou, implorando.
— VÓ!
Lágrimas desceram pelo rosto da idosa, que apenas pôde dizer, em um murmúrio frágil:
— Vai ficar tudo bem, filhinha.
A peixeira desceu contra o ombro de Annie, cortando-a ao longo das costas.
Mavelle gritou, como se a faca tivesse perfurado seu próprio corpo, seu próprio coração.
Nada doíra tanto quanto aquilo.
Mavie sentia que ela mesma iria morrer, como se sua alma escapasse por seus lábios que não paravam de gritar em desespero.
O corpo de Annie tombou para o lado, pelo chão da varanda, pintando de rubro sangue o chão alvo. Os dois sujeitos escaparam, descendo pelas pilastras da bancada. Das ruas de Alexandria, Mavelle Berry podia ouvir os sons de tiroteios, zurrarias de gritos e brados desesperados, e os rosnados dos mortos-vivos irrequietos em meio aquele caos completo.
Atrás de si, Mavie teve pouca consciência de que a porta foi arrombada. De que ouviu a voz de Daryl soar desesperada, chamando por seu nome. De que o arqueiro se lançou contra o homem que tentara barrar sua entrada e que, antes que reagisse, Daryl Dixon atacou-o, matando-o como um animal louco de fúria, torcendo seu pescoço a mãos vazias.
Mavie Berry mal aferiu que Daryl correu para ela, abaixando-se ao chão e puxando-a contra si. Ela continuou se debatendo quando ele a amparou, porque queria ir até sua avó, porque precisava de sua avó, porque não podia viver sem Annie.
Mais pessoas surgiram correndo dentro da sala, e Mavelle reconheceu com o canto dos olhos Tara e Peggy. As duas foram direto até Annie Guinness, cercando seu corpo, abaixando-se para certificarem-se de seus sinais vitais, enquanto Mavelle Berry já não tinha mais forças para gritar, apenas se debatia enlouquecida nos braços de Daryl, querendo apenas chegar até sua avó.
— Ela... Ela está viva, ainda — Tara disse, incrédula, junto a Peggy, que começou a chorar e sorrir bobamente. As duas a desamarraram, tiraram a mordaça e a levaram com gentileza até a cama que ali havia, o sangue da idosa se espalhando pelo chão como um rastro dolorido daquela realidade da qual não podiam fugir.
Viva? A palavra resoou pela mente já conturbada de Mavie Berry. Viva. Ela pensou novamente, e arregalou seus olhos. VIVA!
Mavelle tentou se levantar de pronto, quase caindo de cara, sendo amparada no último segundo por Daryl Dixon. O caçador arqueiro a ajudou a ir até a cama onde a avó repousava, respirando com dificuldade.
— Vó! — Mavie Berry chamou, rindo e chorando ao mesmo tempo, enquanto os olhos de Annie ficavam nublados aos poucos. Cruzou os dedos da mão com os da avó, sentindo a temperatura dela aos poucos esmaecer.
— Minhas meninas — falou Annie, encarando Tara, Peggy, e por último Mavie. Não mais desviou o olhar dela, por muito tempo. Os lençóis brancos da cama eram pouco a pouco manchados com o sangue do corte amplo e profundo.
Em um último esforço, Annie Guinness levantou uma das mãos para o rosto da neta, que amava como uma filha, que criou como sua própria filha.
— Mavelle. Mavie. Minha passarinha cantora — disse, com carinho tamanho que Mavelle sentiu seu coração apertar-se em seu peito. Sua voz soava quebradiça, demonstrando que sua avó suportava a dor terrível daquele corte como uma heroína.
— Eu quero que vocês me prometam... Me prometam... — Annie começou a falar, franzindo as sobrancelhas, como se fosse difícil lembrar das palavras em meio a tanta dor. Peggy chorava em silêncio, e Tara segurava as próprias lágrimas. Mavelle julgou ter escutado Daryl sussurrar para que as duas a deixassem sozinha com a avó, indo a outro canto do quarto.
— Você não pode desistir, filhinha. Nem deixar que desistam. Por favor, me prometa... Prometa que vai continuar sendo você. Exatamento do jeitinho que é, meu amor. Até o fim — pediu Annie, acariciando com esforço o rosto da neta. Mavie, mais uma vez, chorava abertamente.
— Vó, você vai aguentar... — a irlandesa mais jovem soluçava, não podendo acreditar naquilo.
— ...Não, meu amor. Não. É a minha hora. Mas está tudo bem. Vai ficar tudo bem. — Annie sorriu para a neta, e depois moveu o rosto na direção de Daryl.
— Você vai cuidar dela. — Não era um pedido, era uma afirmação.
— Sim. Pode ter certeza — Dixon garantiu, mas Mavie não o encarou. Cada segundo com sua avó era precioso. Cada segundo final da sua avó guardavam os momentos mais dolorosos da vida de Mavelle.
— Eu não consigo sem você — Mavie sussurrou, as lágrimas embaçando sua visão totalmente. Limpou-as, para não perder a visão do amado rosto da avó.
— Consegue. Vai conseguir. Preciso que me prometa. Não vai desistir. — Annie apertou a mão de Mavelle. — Você vai viver muito ainda. Vai viver para ver um mundo melhor. Eu sei disso. Eu me garanti disso. Me prometa que vai resistir. — A idosa apertou ainda mais a mão da irlandesa jovem.
Mavelle franziu o cenho o máximo que podia, derramando mais lágrimas.
— ...Prometo.
Annie sorriu, um dos sorrisos mais luminosos que Mavie vira a avó dar em vida. Parecia realmente calma, como se estivesse bastante cansada, querendo adormecer depois de um longo dia.
— Eu te amo, filhinha. Minha neta, minha filha — levantou uma última vez as mãos ao rosto de Mavelle, que as segurou com carinho e dor indescritíveis.
— Eu vou te amar pra sempre, vó. Máthair Chríona — falou Mavie, em gaélico irlandês, o termo que significava a forma mais carinhosa, a maior demonstração de amor em palavras para uma avó.
O termo que significava mãe do coração.
— Cante para mim, meu amor. Quero ouvir sua voz...
As mãos de Annie ficaram fracas, e se soltaram do rosto de Mavelle. A garota irlandesa colocou os braços da avó ao longo do corpo. Annie insistia em encará-la, esperando que a neta cantasse.
Mavelle, em meio ao choro, começou, baixo, como se a sua própria vida se esvaísse de seus lábios. Suas mãos acariciaram o rosto da avó, como se a ninasse, como Annie a alentara tantas e tantas vezes quando Mavie era pequena.
— All the ways you wander, all the ways you roam... All across great oceans, all across the foam... Through the faraway houses, through the sunsets on fire... Searching for the island of your heart’s desire... — Mavie engoliu um soluço, por sua avó.
— Where the sun is always shining, and the oranges grow on the trees. You only have to wait two seconds there, for everything you please. In a garden of daisies, in a circle of light, searching for the island of your heart’s delight. — A irlandesa mais jovem ninava a avó em seus braços, acalmando sua passagem.
— I’ll wait for you, like a true friend. I’ll wait for you till the very end. — Mavelle não conseguiu conter as lágrimas outra vez. Os olhos de sua avó se fecharam quase definitivamente. — And if you take the long way, if you take the long way home... Down where the magicians and the dreamers roam. Through the mountains of morning, through the valleys of night... Searching for the island... Of your heart’s delight.
Mavie Berry finalizou a conhecida canção irlandesa que sua avó amava, que lhe ensinara a cantar desde menininha. Annie sorriu um último sorriso pacífico, soltando uma longa expiração. Seus olhos enfim se fecharam em um último adeus à sua neta, e a sua vida terrena.
Mavelle baixou o rosto, acarinhando a face da avó, ainda não conseguindo acreditar, ou compreender tudo aquilo. Seu peito, seu coração e sua alma pareciam ter sido dilacerados, mas, naquele momento, vendo o rosto de sua avó tão calmo, tão descansado, em paz...
Mavie abaixou-se até ela, abraçou-a, e aninhou-se em seus ombros.
Em sua despedida, pôde passar poucos, milagrosos, e doces segundos sentindo que ainda era a pequena menina irlandesa que sentava no colo da avó, em sua biblioteca, ouvindo as histórias fantásticas que ela contava. Sobre mundos de fantasia, mundos de maravilhas e encantos.
Mundos que continham algo pelo qual tinha valia lutar, onde havia esperança, razões para se viver e se sorrir... Brilhos de amor, de delicadeza e de bondade... Como o seu mundo ainda tinha, quando Annie era viva.
Mavie estava desamparada. Mavie estava órfã, estava só, com o coração partido em incontáveis pedaços. Perdera sua figura materna.
Com tristeza que não podia medir, que não podia contar ou suportar... Mavie dera adeus à mãe de seu coração.

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