Hunter's Instinct
50 Episódio 50 - Ready, Aim, Fire
Notas iniciais
— Hashimoto me convenceu a matar minha irmã. — A voz do rapaz soou pesarosa, apenas intensificando a atmosfera desconfortável e de mau agouro que se sobrepunha sobre todos ali reunidos.
Tucker encarou cada um deles por vez. Billy Ray, Mavelle Berry, Glenn Rhee e Rick Grimes. Trocou olhares breves, enquanto se munia de coragem para enfim relatar tudo. Tudo o que o levara a fazer parte do Exército de Wyoming County.
A se submeter as vontades e ordens de Hashimoto.
[...]
— Eu já falei que não é assim que segura a porra do gatilho — Bonnie Hayes ralhava com seu irmão mais novo, retirando a arma de sua mão e demonstrando por uma incontável vez como deveria usar a pistola para eliminar mortos-vivos.
— Ok, ok, me dá essa merda de volta, agora eu consigo! — Tucker rebateu, estendendo a mão para a moça de cabelos tão claros e castanhos quanto os seus, e de idênticos olhos azuis.
— Não feche um dos olhos. Encare e mire diretamente — Bonnie continuava a lição, enquanto um carniceiro desgarrado se arrastava para as fronteiras do acampamento onde moravam. O cadáver ameaçava tropeçar e cair dentro do imenso lago que os separava do resto do condado de Wyoming.
— Isso. Agora... Atira! — Sua irmã mais velha apontou na direção da cabeça do morto, enquanto Tucker firmava o indicador no gatilho. Uma bala estourou a testa do morto-vivo, fazendo com que caísse ao chão.
Tucker Hayes encarou sua irmã com um sorriso pretensioso no rosto. Bonnie apenas meneou levemente a cabeça, dando-lhe um olhar de insatisfação. Encaixou o rifle que tinha consigo nas costas, ajeitando sua bandoleira.
— Você tem que aprender a fazer isso pra valer. Esse bicho aí não é ameaça nem para as crianças do acampamento. — Ela rolou os olhos, rígida. Apesar de todo o jeitão durão de ser, Tucker sabia que se existia algum ponto fraco para atingir a casca grossa de sua irmã, este seria justamente ele próprio.
— Tudo ao seu tempo — o irmão brincou de volta, dando um empurrão de ombros, de brincadeira, na irmã mais velha. Ela apenas o mirou novamente, meneando outra vez o rosto.
— Enquanto conseguirmos manter esse lugar, vai ser difícil termos de lidar com alguma ameaça. Mas... — O raciocínio de Bonnie foi interrompido. — Tucker, corre lá até onde o cadáver caiu. Acho que vi algo cair do bolso dele.
O irmão mais novo fez o que foi pedido. Ao alcançar o morto-vivo eliminado, abaixou-se e encontrou, suja de limo, folhas e terra... Uma folha de papel.
— Tem a porra de um troço em japonês aqui! — O rapaz falou alto, assustando alguns pássaros que voaram para longe.
— Cale a boca, idiota! — Bonnie o repreendeu pela gritaria. — Deixe-me ver o que foi isso. — A irmã mais velha se aproximou dele a passos largos. Arrancou a folha de suas mãos e a leu, de testa franzida.
— “Exército de Wyoming County?” — indagou ela, descrente. — Mas que loucura é essa, agora? — Ela não tirava os olhos do papel.
— Será que deveríamos ir até lá dar uma olhada? Deve ser perto daqui — sugeriu o rapaz.
— Não sei não, Tucky. — A voz de Bonnie soou mais séria e calorosa. — Eu não evitaria perder a segurança do acampamento... Não sabemos se podemos confiar nessa gente. Aqui estamos quase ilhados, na beira do lago, só com uma saída e uma entrada. E aquela ponte mequetrefe que o Jackson construiu. Para um exército... Seria fácil nos emboscar — ela parecia duvidosa.
Tucker deu de ombros.
— Acho que valeria o risco. Eles dizem ter uma boa infraestrutura. Quem sabe eu poderia até arranjar um trabalho de novo — disse ele, mencionando suas habilidades de arquiteto.
— Se eles não nos matarem e comerem nossa carne num espeto — zombou Bonnie de volta. — Você confia muito fácil nas pessoas, Tucky — ralhou ela, dando um tapinha nas costas do irmão.
— Ah cara... Eu preciso acreditar de que tem algo mais... Algo mais do que isso. — Apontou ao redor dos dois, para aquele vale cercado pela água do lago e altas montanhas, mas totalmente solitário, vazio de vida. Apenas os moradores do acampamento, que não totalizavam nem vinte sobreviventes, e os mortos-vivos que volta e meia se perdiam naqueles arredores.
— A esperança é dos idiotas, maninho — rebateu Bonnie, incrédula como sempre fora. As folhagens próximas deles se mexeram, levando-a a instintivamente mover as mãos para o rifle.
— Eu cuido disso — Tucker intercedeu, segurando a pistola com o máximo de firmeza que conseguia. Mirou no rosto do rastejante que logo saiu de trás de uma árvore, acertando dois tiros em suas bochechas, e um, finalmente, em uma parte do crânio que veio a perfurar seu cérebro.
— É... Quem sabe exista mesmo alguma chance para nós — Bonnie Hayes debochou com um sorriso torto, se referindo com ironia ao irmão conseguindo matar sozinho um morto-vivo.
— Vá se foder, vadia — troçou Tucker de volta, empurrando agora o rosto da irmã com uma das mãos. Bonnie lhe deu um mata-leão, puxando seu braço para trás para imobilizá-lo, em mais uma das brincadeiras bobas que tinham desde que eram crianças.
— Peça desculpas, seu merdinha — a irmã mais velha ordenou, puxando o braço de Tucker com tamanha habilidade que ele não teve outra escolha.
— Tá bom, desculpa. Desculpa! — repetiu ele, e a irmã o soltou. Logo em seguida, Tucker soltou um baixo “porra”, que fez Bonnie fingir que avançaria para mais uma briga de brincadeira. Tucker recuou um pouco, levantando os braços para se proteger. Os dois se encararam.
Finalmente riram.
— Sabe, eu nunca te agradeci direito... Mas cara, só estamos aqui hoje porque você resolveu tudo pra gente. Sério, cara. Muito obrigado, de verdade — Tucker falou, quando se recuperaram dos risos bobos.
— Não foi bem assim. Você é esperto. Sabe sobreviver — afirmou ela.
— Eu sei correr. Você sabe proteger. É diferente... Você e essa sua babaquice mandona te fazem uma líder nata. Preparada. Não sou nem de perto desse jeito — continuou o rapaz, encarando a irmã com mais seriedade, embora ainda um tanto brincalhão.
— Mas você soube transformar esse acampamento em uma pequena vila. Com os barracões de madeira. As pontes... Você tem outros talentos, irmãozinho. — Bonnie despenteou o cabelo de Tucker.
— É, tipo ficar cagado de medo me escondendo num buraco — debochou ele, fazendo pouco de si mesmo.
— Ah, cala a porra da boca. — Ela fez um muxoxo de desdém.
Os dois encararam as águas do lago, movendo-se pelo sopro do vento fraco do verão. Uma brisa agradável descia sobre eles, levando para longe o odor pestilento dos mortos-vivos que tinham acabado de matar.
— Se não fosse por você, eu teria ficado pra trás. Com a Cathy. O ônibus dos refugiados não iria nos esperar... E... — Tucker lembrou-se mais uma vez da morte de sua namorada de colégio, a garota que estivera ao seu lado desde que tinha catorze anos de idade.
Naquele dia fatídico, Catherine se perdera de sua tia, uma idosa debilitada, única sobrevivente de sua família. Bonnie, Tucker, Cathy e sua tia eram conduzidos pelo Exército americano para um ônibus escolar utilizado para evacuação da cidade onde moravam.
As ruas já haviam começado a ser tomadas por pessoas mortas que mordiam umas as outras, e notícias chegavam sobre nenhuma grande cidade do país ser segura. Todos eram aconselhados a buscar refúgio no campo e no interior, em centros de refugiados.
A multidão se empurrava como peixes em um cardume fugindo de um tubarão, enquanto os militares lutavam com os cadáveres ambulantes que tentavam devorá-los vivos. Gritos, choro e burburinhos desesperados eram escutados por todos os cantos, quando Tucker sentiu que Cathy soltara sua mão.
Ele gritou para que voltasse, para que não sumisse no meio da multidão, pois estavam nas portas do ônibus, já. Bonnie teve de usar o máximo de força que pôde, junto a um militar que os ajudava a subir, para obrigar Tucker a entrar. Cathy ficou para trás, enquanto Tucker apenas viu, da janela do ônibus, sua namorada ser devorada viva por dezenas de mortos-vivos, sua barriga sendo estraçalhada, as tripas espalhando-se pelo chão da rua asfaltada.
— Eu lamento muito por ela. Você sabe — Bonnie disse, segurando o ombro do irmão. Os dois trocaram olhares sinceros, enquanto Tucker franzia os lábios.
— Eu sei. É aquilo... Por pior que seja... Temos de continuar, não é? — o irmão mais novo deu um sorriso triste.
— Isso aí. Estarei sempre aqui pra cuidar de você — Bonnie Hayes garantiu a seu irmão mais novo, dando-lhe um abraço.
— Eu também — o irmão lhe assegurou, abraçando-a de volta.
[...]
A quantidade de mortos-vivos circundando o acampamento dos irmãos Hayes parecia aumentar de forma ameaçadora a cada dia. Mais e mais papéis alardeando convites para o Exército de Wyoming County eram trazidos a cada dia, alguns colocados nos poucos veículos que eram utilizados para missões externas, em seus vidros dianteiros. Outros, distribuídos nas fronteiras além do lago.
Ninguém vira sinal da aproximação do Exército, mas sabiam que eles estavam perto. Com menos de vinte sobreviventes, Bonnie e Tucker ficavam mais e mais preocupados a cada dia, sem saber o que deveriam fazer, caso o grupo fosse hostil.
Bonnie Hayes, a líder dos sobreviventes, exigiu que as missões externas fossem suspensas por algum tempo. Economizariam os suprimentos, e se manteriam alertas. Vigílias foram distribuídas entre os moradores do acampamento, mas não tinham gente suficiente para cobrir o perímetro. Sempre que havia uma brecha, novos papéis sobre o Exército de Wyoming County eram difundidos, agourentamente colocados nos pontos vazios de sentinelas.
Ocupados em limpar o terreno da quantidade crescente de rastejantes, em vigiar toda e qualquer possível aproximação de desconhecidos, mais e mais os habitantes daquele acampamento percebiam... Já haviam caído em uma armadilha sem nem mesmo saber.
Não tinham para onde fugir. Nem onde se esconder.
Em uma madrugada escura, uma noite sem lua e com poucas estrelas, Tucker acordou com o som de gritos distantes.
Saiu correndo de uma pequena cabana que havia construído e desenhado com as próprias mãos, o lugar onde ele, a irmã e outra moradora do acampamento dormiam. Nenhuma das duas estavam lá.
Tucker Hayes olhou ao redor, assustado. Viu os habitantes do acampamento perto do lago dispersando-se, alguns com tochas acesas nas mãos, outros com lanternas, sem entender o que acontecera. O vozerio indistinto de preocupação era o único som audível no ambiente. Até que, finalmente, ouviram um canto uníssono de rosnados e grunhidos muito familiar.
— HORDA! UMA HORDA! — um sobrevivente careca, senhor de idade, gritou, desesperado.
Tucker imediatamente pôs as mãos no bolso da calça, retirando a pistola com a qual dormia, desde que sua irmã passara a ficar realmente preocupada com os chamados de Wyoming County.
Destravou-a, sua mão direita tremendo, tentando se munir de coragem.
Como se surgido do nada, um morto-vivo furtivo se lançou ao pescoço do rapaz com a boca arreganhada. Tucker Hayes mirou em sua cabeça, estourando seus miolos rapidamente. Passou a expirar de boca aberta, nervoso, procurando sua irmã por todos os cantos.
— Bonnie. Bonnie! BONNIE! — Tucker gritava, alarmado, correndo de um lado ao outro. Na grama alguns metros perto dele, uma criança, uma menina loira de poucos anos de idade, era devorava por um rastejante maldito. Hayes exclamou, apavorado, atirando mais uma vez na cabeça do morto. Mas o mal já estava feito. Tucker desviou o olhar, para não encarar o corpo dilacerado da criança, e sucumbir de vez ao medo.
Por todos os cantos, sobreviventes lutavam contra mortos-vivos. Alguns eram mordidos no processo, outros derrubavam os rastejantes e fugiam, mas o caos já estava totalmente instaurado. Tucker saiu a esmo, dando tiros nos mortos-vivos que se aproximavam dele, desesperado para achar a irmã.
Na penumbra da noite, Hayes tropeçava em seu passo ofegante e angustiado. Quando os ruídos ensurdecedores de rajadas de metralhadoras se fizeram ouvir.
Como se num passe de mágica, algum tipo de magia nefasta do submundo, todos os cadáveres ambulantes que ameaçavam a sobrevivência do acampamento do lago foram atingidos. Em menos de um minuto, todos os corpos andantes que se alimentavam de carne humana já caíam ao chão, sem aquela sobrevida maldita.
— Bem... Agora que eu finalmente tenho a atenção de vocês — uma voz grave feminina soou alta, ecoando pelo silêncio da noite após a morte dos mortos, e o choque dos vivos sobreviventes. — Espero que tenham a sensatez de aceitar meu convite — a mulher pareceu finalizar, por um tempo.
Tucker olhou ao redor, não distinguindo ninguém além dos sobreviventes reunidos a beira do lago. Foi então que, na direção oposta para a qual seu olhar se dirigia, ele ouviu o som de chamas lambendo algo, ferozes.
O rapaz moveu o rosto na direção do som, e seus olhos logo testemunharam a loucura: alguém acabara de atear fogo na ponte de madeira que ele desenhara e ajudara a construir.
Mais gritos desordenados se fizeram ouvir, mas Tucker Hayes continuou em silêncio. O fogo que queimava a ponte, faminto, permitiu que a visibilidade ficasse maior.
Inúmeras sombras, incontáveis, totalizando cerca do que poderiam ser cinquenta ou mais vultos... Circundavam a outra margem do lago, cercando totalmente o acampamento. Silhuetas altivas, lúgubres, munidas de metralhadoras e rifles diversos.
— Qual de vocês é o líder? — A voz grave de mulher falou alto, outra vez.
Ninguém disse nada. Tucker sentiu como se engolisse chumbo.
Uma rajada de metralhadora foi lançada. Atingiu uma mulher, metros próxima de Tucker, o sangue de seu crânio rachado pela violência das balas manchando o casaco do rapaz.
— Amarrem todos e os coloquem em filas. Assim vão falar — outra ordem da mulher desconhecida se fez ouvir.
Vinte desconhecidos moveram-se para o único ponto por onde os sobreviventes do acampamento poderiam escapar, um caminho por terra não cercado pelo lago. Tucker pensou se deveria se lançar na água, mas reparou que uma quantidade assombrosa daquelas pessoas escondidas nas sombras da noite se mantinha de guarda nas margens opostas.
Não havia chance de escapar.
Cerca de uma vintena de homens e mulheres armados dos pés a cabeça logo se fizeram ver, rendendo todos os poucos sobreviventes daquele massacre da horda. Tucker contou apenas outros seis além dele.
Os moradores do acampamento foram enfileirados em um semicírculo, amarrados nas canelas e nas mãos, juntadas às suas costas. E, enfim, a dona da voz se revelou.
— Eu sou Hashimoto. E minha missão neste mundo é liderar o Exército de Wyoming County. É muito bom conhecê-los — a mulher falou, com deboche. A mente de Tucker ia longe, perigosamente entorpecido. Não via Bonnie em lugar nenhum. O rapaz podia escutar seu coração ribombar em seus ouvidos, dificultando que ouvisse o discurso daquela sádica.
Pôde apenas entender que ela falava algo sobre a sobrevivência dos fortes, e a morte dos fracos. Uma espécie de evolução e adaptação cruel darwinista para os seres humanos dentro do contexto do mundo destruído pelos mortos-vivos.
Insistia em convidá-los a fazer parte do tal Exército de Wyoming County, esclarecendo que teriam comida, água, repouso, um teto para onde morar, e vários recursos. Bastava que quisessem se submeter aos desígnios dela e de seu Exército. Que se tornassem mais um nas fileiras de soldados.
Tucker Hayes encarava os militares de Hashimoto, vendo em cada um deles, em diferentes partes de suas vestimentas, o símbolo japonês que vira na folha de papel que o Exército de Wyoming County distribuía. Os olhos de todos os soldados tinham algo em comum, por mais que diferissem em cor, tamanho, e outras características físicas... Todos, igualmente, pareciam totalmente vazios de empatia.
Assim como os olhos de sua líder.
— E então? O que acham da minha proposta? — Hashimoto perguntou, parecendo levemente impaciente. Tinha duas pistolas bobcat apontadas para o rosto de um dos homens mais capazes do acampamento, um ex-fuzileiro naval, rendido.
— Vá se foder — o fuzileiro respondeu, baixando os olhos. Parecia ter desistido, e enlouquecido. Tucker arregalou os olhos, mirando o outro homem, muitíssimo preocupado.
— Levantem-no — Hashimoto ordenou, seu rosto sem modificar a mesma expressão vazia de emoção. Tinha, agora, um sorriso sem alegria em sua face.
Dois de seus capangas puxaram o homem para cima, que não pareceu se assustar. Hashimoto guardou as pistolas, e retirou uma comprida faca de sua jaqueta de couro.
Passou-a pelas bochechas do ex-fuzileiro, enquanto todos os outros moradores do acampamento prendiam a respiração. Em seguida, em um rompante tão rápido quanto o bote de uma serpente, ela cortou com violência surpreendente para seu físico comum o maxilar do homem, por toda a lateral direita de seu rosto. O sujeito gritou de dor, enfim apavorado, enquanto ela moveu a faca de forma a usar a base dela para atacar.
Hashimoto desferiu contínuos golpes grotescos no maxilar já aberto e ferido violentamente do homem. Até que Tucker, próximo, pôde ouvir o som do maxilar quebrando. Ele fechou os olhos, sentindo um arrepio de horror subir por sua espinha.
A mulher japonesa colocou as mãos no rosto já desfigurado do homem, que se debatia inutilmente, seguro pelos capangas da psicopata.
Retirou da boca do sujeito algo com um formato circular, enquanto cravava a lâmina da faca no meio do crânio do homem. Finalmente o ex-fuzileiro morreu.
Hashimoto jogou a língua do homem que assassinou no chão. Tucker pôde vê-la, pela luz fantasmagórica distante da ponte queimando em meio ao lago.
— Acho que vocês são espertos, diferentes dele. Se provaram fortes, sobrevivendo ao ataque dos rastejantes. Então, vamos continuar assim. Fortes e inteligentes. Ou alguém tem mais alguma grosseria para dizer? — a japonesa perguntou com ironia, sorrindo seu sorriso maníaco por todo o tempo.
Tucker Hayes baixou os olhos para a grama, encarando outra vez a língua que, agora ele via, fora cortada pela metade pelo próprio sujeito que mordeu-a até parti-la em dois pedaços, tamanha a dor que sofrera.
— Alguém vai me dizer, afinal de contas, quem é o líder deste lugar?! — Hashimoto ordenou, já um tanto impaciente. Tucker fechou os olhos com força.
Não falem. Não falem. Não falem.
— Bonnie Hayes! — a voz do homem careca, Austin Gates, logo bradou em resposta. Tucker sentiu uma mistura de ódio, repulsa e terror puro subirem por sua corrente sanguínea, espalhando-se por todo seu corpo.
— Sim, Bonnie! Bonnie Hayes! — outras duas sobreviventes confessaram, deixando o estômago de Tucker revirado.
— E onde está essa tal Bonnie? — Hashimoto continuou, olhando curiosa para todos os sobreviventes.
— Ele é irmão mais novo dela! — outro sobrevivente que não havia se manifestado delatou Tucker.
— Ele, de casaco azul! Estão sempre juntos! — mais um sobrevivente confessou.
— O terceiro da fila! — o último delator que restava indicou Tucker Hayes.
Todos covardes. Todos malditos.
— Irmãozinho, é? — a japonesa comentou, parecendo divertida. Aproximou-se devagar de Tucker, que continuava olhando para a grama, evitando encará-la e perder toda a coragem que ameaçava abandoná-lo.
— Será que sua irmã gostaria de receber sua cabeça cortada de presente, ou vai ser mais esperta e vai se apresentar? Vai provar que é forte e te proteger? — Hashimoto perguntou de forma hipotética, e Tucker sentiu outro arrepio de horror atormentá-lo.
Uma rajada de metralhadora se fez ouvir. Tucker Hayes, por um segundo, achou que tinha sido assassinado.
E foi então que deixou seus olhos seguirem o som. Vinha de trás das fileiras dos rendidos do acampamento.
Um soldado que fazia a cobertura de Hashimoto vira Bonnie no último segundo, e se lançou na frente de sua líder, recebendo todos os disparos que eram mirados para matar a japonesa.
No mesmo momento, diversos soldados moveram suas armas na direção da irmã de Tucker, alguns deles atirando em suas pernas. Bonnie caiu ao chão, balas perfurando suas coxas, joelhos e canelas, fazendo-a quedar em dor hedionda.
— NÃO! — Tucker Hayes gritou, desesperado. Alguns soldados se aproximaram de Bonnie, enquanto outros mantinham todos os outros sobreviventes parados, apenas assistindo aquele show de horrores.
Um homem se abaixou ao lado dela, tirando suas próprias calças. Colocou a líder do acampamento de costas contra o chão, como se fosse investir dentro dela.
— NÃO! — Tucker berrou mais uma vez. — NÃO, NÃO, POR FAVOR, ISSO NÃO! — o irmão mais novo implorou, voltando-se para Hashimoto.
— Eu faço o que você quiser, eu juro, eu vou com você, faço tudo, mas não deixe... — Tucker Hayes se arrastou aos pés da mulher, sendo contido com chutes e socos pelos soldados, suplicando em completo desamparo.
— Chase! — Hashimoto chamou. — Pare — ela ordenou, e o sujeito que estava às vias de estuprar a irmã de Tucker ficou estático. O rapaz ainda conseguia ouvir os gritos de aflição da irmã, abafados na grama.
— Vou te dar essa pistola. — Hashimoto entregou a bobcat nas mãos de Tucker, enquanto o rapaz a olhava sem compreender. Um dos capangas do Exército de Wyoming County mirava um rifle na cabeça do rapaz.
— Está carregada com duas balas ainda. Você pode usá-la para duas coisas: parar o sofrimento da sua irmã. Ela vai morrer em breve, mas você pode escolher como. E para matar o covarde que a delatou. Ou, se quiser, para matar os outros do seu grupo. — Uma exclamação de medo veio do sujeito careca que era, agora, a pessoa que Tucker mais odiava ainda viva no mundo. Até mais do que aquela japonesa à sua frente. Todos os moradores do acampamento olharam para Tucker Hayes, desconsolados.
— Se você tentar atirar em mim, ou em qualquer um do meu Exército... Bem, imagino que você saiba o que vai acontecer. Mas se não souber, eu narro. Vamos atirar na sua mão. E depois vamos arrancar seus braços. E, depois, desmembrar suas pernas. E só então vamos te deixar aqui, sozinho, enquanto levamos seus amigos para o Exército. E então você morre — esclareceu Hashimoto, sem mais sorrir.
Tucker fitou a japonesa, que o mirou de volta por longos segundos.
Tucker Hayes andou até Bonnie Hayes. Encarou a irmã, enquanto o seu abusador levantava seu rosto do chão, para que Bonnie olhasse para Tucker.
— Me desculpa. Por favor, me desculpa — o irmão passou a chorar, mas engoliu o pranto. Sua voz e suas mãos estavam firmes. Pareceria totalmente decidido, se não fossem as lágrimas que desciam pelos seus olhos.
— Obrigado por tudo — Tucker Hayes se despediu da irmã, atirando em seu rosto enquanto ela mesma formulava um curto “não”, também chorando em angústia.
Tucker não olhou para trás. As lágrimas continuaram descendo, enquanto ele seguiu até Gates, a fúria crescendo dentro de seu peito como uma semente maléfica.
Abaixou-se na frente do sujeito, que era contido pelos capangas perto dele. Austin Gates também chorava, pedindo por misericórdia.
Tucker o forçou a abrir a boca. Colocou o cano da pistola de Hashimoto entre os dentes do sujeito, e apertou o gatilho com a certeza do ódio que agora o destruía por dentro.
O rosto de Tucker Hayes ficou sujo pelo sangue do crânio estourado de Austin Gates, tão próximo dele. Tucker se levantou, mas manteve a arma apontada para o corpo falecido do homem, apertando o gatilho por vezes irracionais seguidas.
O rapaz, alimentado pelo mesmo ódio, voltou a olhar para Hashimoto.
— Eu sou forte. Já te provei isso — Tucker Hayes continuou. — Fui eu que construí toda essa vila — afirmou.
Os olhos de Hashimoto se estreitaram, parecendo interessada naquela reação emocional.
— Bonnie morreu por causa deles também. Não fizeram nada para evitar — Tucker, irado pela sede de vingança, insaciável... Decidira acabar com aquilo de uma vez por todas.
Ele era fraco, e um dia morreria. Todos ali também. Então, Tucker se sentiu livre para decidir o momento para tanto.
Seria agora.
— Você tem mais seis balas — Hashimoto lhe garantiu, com um sorriso maligno, entregando-lhe uma pistola diferente, de um de seus soldados.
Tucker Hayes mirou a pistola no rosto de cada uma das pessoas com as quais sobrevivera por quase um ano. Enlouquecido, destroçado por dentro, culpou-as, no auge de sua dor, pela morte da irmã. Inúteis. Covardes. Delatores. Todos eles, traidores, mereciam a morte.
Fracos como ele era.
Depois de assassinar um por um, estourando suas cabeças da mesma forma como fizera com Gates... Tucker sabia que seguia por um caminho sem volta.
Com a morte de Bonnie, ao aceitar os termos de Hashimoto... Algo também morrera dentro dele.
[...]
— É isso o que ela faz. Ela descobre sua maior fraqueza, e usa contra você. Quando você já não tiver mais... Mais nenhuma sanidade, você... Você faz as escolhas erradas. Eu fiz — admitiu Tucker, depois de relembrar suas mais dolorosas e sofridas memórias. Seu rosto estava lavado de lágrimas, mas ele se mantinha de pé.
— Ela faz você deixar de ser você — Tucker continuou, angustiado, enxugando o próprio rosto com suas mãos.
O silêncio perdurou entre o grupo, até que finalmente Glenn falou algo, engolindo em seco.
— Ela é realmente pior até do que o Governador — afirmou Rhee, olhando para Rick Grimes, aflito.
— É só uma psicopata. Precisamos atingí-la. Destruindo ela, desmembramos o grupo. Eles são quase acéfalos, sem pensamento... Seguem-na porque ela os destruiu o suficiente — disse Rick, analisando a situação de forma fria, como se os relatos de Tucker não o emocionassem em nada.
— Talvez tenha um ou outro tão doente quanto ela, mas creio que a maioria tenha histórias parecidas com a sua. — Rick olhou para Tucker, austero.
— Sim. Só os “generais” dela são assim... Maníacos sádicos, como ela. Pelo menos até quando eu fazia parte do grupo — garantiu o rapaz.
— Mas, antes disso, precisamos eliminar a primeira ameaça que ela mandou — Billy Ray acrescentou, coçando a cabeça, desconfortável. Deu a Tucker um olhar de solidariedade, segurando o ombro do amigo.
— Os carniceiros — Mavie continuou, levando as mãos cruzadas ao rosto, refletindo. — E eu acho que tenho uma ideia.
Tucker e os outros encararam a irlandesa, que pôs-se a sugerir um plano.
Este foi concretizado no alvorecer da manhã seguinte.
*****
“Ela faz você deixar de ser você.”
A afirmativa agourenta de Tucker ressoava na mente de Mavelle Berry, que se preparava para atravessar uma curta ponte “aérea” montada por ela e Heath.
Na madrugada anterior, ao fim das confissões do rapaz com jeitão de drogado, a irlandesa sugerira a todos uma ideia que fora acatada pelo grupo. Uma hora antes do sol raiar, ela se despedira de Peggy, Tara e Annie, sua avó, munindo-se de toda a bravura que tinha para concretizar o arriscado plano que pretendiam.
Rick Grimes fizera mais um pronunciamento em Alexandria, junto a Deanna. Falaram sobre o grupo hostil que se aproximava, e que poderia tentar invadi-los a qualquer momento. Todos foram avisados que seriam ensinados no dia seguinte, também ao amanhecer, como recuar e evacuar o terreno de Alexandria caso fosse necessária uma fuga desesperada se os muros fossem derrubados.
Rick falou que ninguém desistiria sem lutar, apenas os que de fato quisessem deixá-los. Garantiu que, juntos, com a quantidade de armamentos que tinham, além dos conhecimentos de seu grupo, não haveria pessoas hostis capazes de derrotá-los.
Mas Mavelle sabia que aquilo era apenas uma mentira floreada. Estavam em desvantagem, e cada segundo que se passava isso só piorava.
Para tanto, decidira aquilo. Pela chance de manter um lugar seguro para sua avó. Para Peggy. Para Tara. Para Glenn. Para Maggie. Para todos os seus amigos e companheiros.
Para Daryl, caso ele não tivesse sido derrubado pelo Exército de Wyoming County.
Não pense nisso. Ele vai voltar. Ele vai. Mavelle se concentrou naquelas esperanças, apenas pelo fato de não ter certeza de sua morte. Não poderia se desesperar. Havia muitas vidas em jogo ali.
As vidas de todas as pessoas que amava.
— Os cabos estão firmes! — Heath alertou a irlandesa, que piscou os olhos, retornando a se concentrar naquilo. Haviam montado uma tirolesa improvisada para atravessar de um dos telhados de Alexandria para uma loja baixa e próxima que havia além dos muros.
Deveriam se pendurar por cerca de dezessete metros até chegar ao telhado por fora dos muros. Qualquer queda, ali, seria fatal. Não só pela altura, mas pelo mar de mortos-vivos aguardando abaixo por qualquer deslize, literalmente.
— Carol, Tucker, vocês estão prontos? — Mavie Berry perguntou, olhando para o time de pessoas que escolhera. Tucker Hayes estava decidido a compensar seus erros passados no Exército de Wyoming County, protegendo a todos da ameaça de Hashimoto. Mavelle achava, no fundo, que ele também se horrorizava com a ideia de ser capturado outra vez pela japonesa, e o que a sádica faria com o rapaz por sua fuga. De qualquer jeito, a irlandesa aceitou sua solidariedade de bom grado.
Carol Peletier, contudo, havia se revelado uma das sobreviventes mais competentes finalmente às claras para toda Alexandria. Fora a principal responsável por manter a comunidade de pé, sobrevivendo a invasão dos Wolves.
Tanto Carol quanto Tucker, Heath e Mavelle não eram muito pesados, e ágeis o suficiente para fazer aquela arriscada travessia. Glenn se oferecera para ir, mas Mavie e Rick vetaram terminantemente sua participação naquilo, depois de sua quase morte junto a Nicholas. Ele precisava ficar, ajudar a guarnecer a comunidade, e não matar sua esposa e seu bebê por nascer em um infarto fulminante de tanta preocupação.
Michonne, Rick, Glenn, Maggie, Carl, Ron, Jessie, Rosita, Annie, Peggy, Moritz, Aaron, Deanna, Tara e Eugene olhavam angustiados para aquela preparação. Heath se ofereceu para ir primeiro, por ser o mais experiente em termos de equipamentos de escalada e alpinismo.
O sujeito se esgueirou até a corda, movendo-se com agilidade por angustiantes minutos até o telhado da loja abandonada ao lado de fora da comunidade. Conforme se arrastava pela firme corda de alpinismo, seu corpo pendia mais e mais para baixo, especialmente no ponto da metade da corda presa entre um telhado e outro.
Em seguida, foi a vez de Tucker. Claramente mais assustado, o rapaz deixou Mavelle um pouco aflita, quando uma de suas mãos escorregou da corda e quase caiu no meio dos rastejantes. Os mortos-vivos estavam irrequietos, frustrados por aquela exibição de carne fresca acima deles, mas que não podiam alcançar.
Tucker Hayes conseguiu chegar até o outro lado, soltando uma expiração de alívio. Demorou alguns minutos a mais do que Heath. Carol pediu para ir à frente de Mavie, conseguindo fazer a travessia com a mesma graça e agilidade que Heath.
A irlandesa foi por último, lembrando a Tara que soltasse o beiral da corda de alpinismo presa no telhado da casa de Alexandria, assim que chegasse ao fim da travessia. Respirando fundo, Mavie se esgueirou na direção do telhado, controlando a ansiedade horrenda que a acometia por dentro. Sentia-se como um animal acuado por um bando de predadores, como uma corça ferida cercada por uma alcateia de lobos, de presas arreganhadas, rosnando pelo seu sangue.
Assim que chegou na metade da travessia, um dos errantes conseguiu puxar parte de sua aljava de flechas. Olhando para baixo, apavorada, um dos pés de Mavie tremeu, fazendo sua perna quedar perigosamente em direção ao chão.
— NÃO! — Mavelle ouviu as vozes altas de Annie e Peggy berrarem, em uníssono.
Seu equilíbrio foi totalmente comprometido naquela fração de segundo. Algumas de suas flechas começaram a escapar e cair da aljava nas cabeças dos carniceiros que tentavam arrancá-la da corda.
Fazendo um esforço tremendo, Mavie usou a força de seu abdome para chutar um morto-vivo que tentara atacar sua perna e abocanhar suas botas. Logo depois, elevou sua perna novamente para a corda, puxando-se para cima. Seu corpo, pela descarga de adrenalina, não dava sinais de cansaço. Contudo, suas mãos começaram a suar pelo nervosismo, pondo em risco sua firmeza naquela corda.
“Vai dar tudo certo, filhinha.” A voz de Annie em sua mente a acalmou, calando as exclamações desesperadas de seus amigos, e os grunhidos dos mortos-vivos. Mavie fechou os olhos, se concentrando, elevando e grudando seu corpo mais e mais na corda.
“Nos vemos logo, logo, ok?” Lembrou-se de Peggy a olhando com confiança, sabendo que a irlandesa retornaria.
“Se cuida, Esquila.” A voz de Daryl Dixon pelo walkie-talkie, mansa, sincera, fora o que a reconfortara quando estivera desesperada, refém de Hashimoto. Ela sabia que precisava perseverar.
Não. Não vai ser agora. E não assim. Mavelle Berry pensou, abrindo os olhos, franzindo as sobrancelhas e impulsionando o corpo com toda a força na direção do telhado oposto a casa de Alexandria.
Avançou mais alguns metros, até que a corda outra vez cedeu alguns centímetros.
— Está começando a rasgar! — Glenn avisou, nervoso. — Mavie, VAI LOGO — o melhor amigo demandou, também angustiado. Mavelle havia fechado os olhos quando sentiu a corda quicar, mas outra vez abriu-os, determinada.
Não. Vai. Ser. Assim.
Mavie Berry arrastou-se adiante o melhor que pôde, ignorando os puxões, as flechas perdidas, e os dentes das bocas abertas poucos centímetros debaixo dela. E, enfim, sentiu as mãos de Heath, Tucker e Carol a puxarem para cima do telhado.
A corda se rompeu no mesmo momento, caindo sem ninguém junto à multidão de mortos-vivos.
— Essa foi por MUITO pouco, hein? — Tucker ressaltou, angustiado, enquanto Carol lhe deu um olhar de reprimenda.
— Ah, se foi — Mavie concordou, espalmando as mãos já feridas pela corda em sua camisa de algodão.
— Escutem — Carol logo se pôs a falar, apontando para as ruas de Alexandria. — Aparentemente não tem ninguém por aqui. Nada distraiu os errantes além de nós. Mas alguém... — Ela encarou Mavie significativamente. A irlandesa sabia que Rick teria lhe contado com todos os detalhes sobre o Exército e sobre Hashimoto. — ...Alguém pode estar escondido. E não chamou atenção. — Os olhos azuis da mulher de cabelos grisalhos brilharam com astúcia.
— Então vamos logo fazer os coquetéis molotov e queimar o lugar que combinamos — disse Heath, se referindo a um local escolhido depois de debaterem com um mapa das regiões próximas de Alexandria em mãos.
— Não à luz do dia. Faremos isso de noite. Quando tivermos checado todo o perímetro — Carol rebateu, decidida.
— Ela está certa — Mavie concordou, também séria. Tucker apenas engoliu em seco, meneando a cabeça.
— Tudo bem então. De qualquer jeito, temos muito trabalho a fazer. — Heath falou com honestidade.
[...]
Depois de cuidadosamente checar o pequeno centro comercial que havia perto de Alexandria, onde estavam Mavie, Carol, Tucker e Heath, prédio por prédio, se deparando apenas com alguns carniceiros esparsos, finalmente os quatro se sentiram seguros de que não estavam sendo vigiados. Isso levou a tarde inteira, e já estava a beira do anoitecer quando passaram a escutar um ruído longínquo.
Um motor pesado, e um automóvel igualmente de peso.
— Isso... Isso parece um caminhão — Heath falou, franzindo o cenho.
Mavie e Tucker se entreolharam, nervosos, movimento que não passou despercebido por Carol.
— Isso é coisa do... — Carol Peletier se controlou para não soltar “Exército” na frente de Heath. Afinal de contas, Rick somente contara o suficiente para não deixar Alexandria toda em pânico, mas sim preparada. Falara que havia um grupo grande lá fora, e que era hostil, e talvez tentasse atacá-los. Mas não mencionara explicitamente Hashimoto e seus soldados.
— Isso é coisa do outro grupo? — a esperta mulher indagou, tentando disfarçar a própria ansiedade, mascarada em suas feições tipicamente controladas.
Mavie apenas assentiu com a cabeça, rápido.
— Vamos nos esconder — Carol demandou, também raciocinando com sagacidade.
— Daqui, temos uma visão metros adiante de quem se aproximar. — Mavie apontou uma esquina protegida por um muro alto, que, naquela distância da rua, permitia que quem ali se escondesse visse antes de ser visto qualquer um que se aproximasse pela estrada.
— Preparem as armas — Carol Peletier sussurrou, enquanto todos apontavam suas armas na direção da rua.
O barulho do caminhão se aproximando ficava cada vez mais alto, e Tucker recuou um pouco, tentando ter melhor visibilidade.
Subitamente, o caminhão parou. Mavelle ouviu os ruídos de pessoas abrindo portas, e descendo do caminhão meros metros próximos de onde os quatro se escondiam.
Tucker, ainda recuando, acabou por tropeçar em uma lata de lixo de ferro vazia, fazendo-a quicar pela calçada, em um ruído estrepitante.
Mavie fechou os olhos, sentindo muita raiva do rapaz, além de um calafrio de medo de que o som tivesse sido percebido por qualquer pessoa hostil que se aproximasse. Encarou o rapaz, silenciosamente furiosa, assim como Heath e Carol também o faziam.
— Se houver uma próxima vez, dê um tiro em si mesmo e nos poupe de mais das suas idiotices! — Carol Peletier murmurou, enquanto Tucker dizia um mudo e arrependido pedido de desculpas com os lábios.
Vozes baixas, abafadas, eram escutadas de longe.
Não parecem ser muitos. Mavie Berry pensou, uma flecha prensada no cordel, pronta para escapar. Viram pés entrando em seu campo de visão, e logo um sujeito corpulento, com uma roupa excêntrica, se fez ver.
Vestido como se fosse um militar condecorado de alta patente, um sujeito ruivo estudava o ambiente, preocupado. Atrás dele, surgiu uma mulher negra, com um rifle sniper, também alerta.
Por fim, um homem carrancudo, alto e de feições atentas, munido de uma balestra, fazia a retaguarda do grupo.
Mavelle sentiu seus ombros caírem, o próprio arco e flecha caindo de suas mãos e quicando no chão. Correu, esquecendo do sigilo, esquecendo da tensão, esquecendo de tudo.
Daryl estava vivo. Daryl voltara.
E tudo ainda não estava perdido.
Mavie quase matou de susto os outros três moradores de Alexandria, que retornavam, exaustos, feridos e cansados. Com os olhos cheios de lágrimas de alívio, a garota irlandesa correu na direção de Daryl, sorrindo idiotamente, sem poder se controlar.
Quando chegou perto dele, ouvindo um “Céus, garota, quase te matei”, vindo de Sasha, a irlandesa reparou em uma grossa mancha na calça rasgada na altura da coxa, do caçador. Daryl fizera menção de se mexer, mas algo parecia impedi-lo de se mover mais rápido.
Mavelle parou de correr, passando a andar veloz na direção do arqueiro.
— O que foi isso?
— Hashimoto — Dixon grunhiu em retorno, deixando claro o ódio e repúdio por aquela mulher no momento em que mencionou seu nome.
Vou matar essa filha da puta. Mavelle Berry pensou furiosa, chegando perto do arqueiro.
Deu uma olhada rápida para Abe e Sasha, e depois voltou a mirar Daryl. Colocou suas mãos em seu rosto, vendo que ele ardia em febre.
— Você foi...? — Mavelle perguntou, sentindo o desespero crescer em seu peito.
— Não fui mordido. Tomei um tiro, só — o arqueiro falou, como se não fosse nada, segurando com firmeza, porém delicadeza, as mãos de Mavie e afastando-as de seu rosto.
— “Só” — Abe debochou, sério. — Ele precisa de cuidados médicos urgentes — o soldado ruivo certificou.
— Não exagera, porra — o caçador retorquiu, porém tropeçando por conta da perna ferida.
— Vamos cuidar de você agora. Podemos segurar as pontas um pouco, trouxe alguns medicamentos e kit de primeiros socorros — avisou Mavelle, enquanto Carol, Tucker e Heath se aproximavam dos outros, cumprimentando os amigos. Carol abraçou Daryl, parecendo aliviada de vê-lo, assim como o caçador aparentava estar ao vê-la. Mavie sentiu uma pontada ridícula de ciúmes.
Carol Peletier se afastou, dando uma olhada esperta para os dois arqueiros, encaminhando o restante do grupo para um esconderijo decente, uma das lojas abandonadas em melhor estado.
— Você está bem o suficiente pra aguentar me dar um beijo? — Mavie perguntou, entre o preocupada e o debochada, aproximando-se mais uma vez de Daryl.
— Não fala merda, Esquila — Dixon redarguiu, ao passo que puxou Mavelle para si com suficiente energia mesmo ferido daquele jeito. Beijaram-se, afoitos, mitigando tanto seu desejo um pelo outro quanto sua preocupação. Naquele mundo terrível em que viviam... Todo beijo poderia ser o último.
[...]
Tarde da noite, depois de descansarem, trocarem rondas de vigia, já na alta madrugada, Mavelle se ocupava de cuidar de um adormecido e febril Daryl Dixon.
Mavelle passava uma toalha umedecida na testa do arqueiro, enquanto, do lado de fora, Abraham, Sasha, Tucker e Heath faziam a ronda. O amanhecer estava próximo, e, logo, os esforços de todos deveriam ser apenas em desviar os carniceiros de Alexandria. Já suficientemente restaurados, poderiam se preocupar em encher de gasolina um bar abandonado metros próximos da loja onde se escondiam, para depois atirar nele os coquetéis molotovs que passaram a noite preparando.
Pretendiam desviar os carniceiros de Alexandria chamando a atenção deles para o incêndio que preparariam.
Carol Peletier, perto da irlandesa, se revelara, além de uma sobrevivente fatal, uma aprendiz de enfermeira. Contou para a garota da Irlanda que, durante a época em que viveu com o grupo de Rick Grimes em uma prisão, aprendeu algumas pequenas noções de medicina básica, com um ex-veterinário, pai de Maggie Greene. Limpara as feridas de Dixon com esmero, fazendo dessa vez um curativo decente para seus machucados.
— Pai da Maggie... Era pai também da irmã dela? A Beth? — Mavelle indagou, olhando para o rosto de Dixon.
— Sim. — A voz de Carol denotou certo tom de divertimento. — Você sabe sobre ela, não é? — indagou a mulher, de forma retórica.
— Sei. Na época do Aquário, fazia pouco tempo que vocês a tinham perdido. Muitos de vocês me comparavam com ela. — Mavelle encarou a outra mulher. — Tyreese, antes de morrer, delirou e achou que eu era Beth.
— Ela tinha o seu jeitinho — confirmou Carol Peletier, com um sorriso curto, saudoso talvez.
Mavelle voltou a olhar para Daryl, que estava profundamente adormecido. A febre tinha baixado um pouco, desde a hora que se encontraram, ao anoitecer.
— Você não precisa ter ciúmes, espero que saiba disso — Carol falou em tom de sincero divertimento.
— O que você está querendo dizer? — Mavelle rebateu, um pouco indignada, voltando a encarar a outra mulher. Sentiu suas orelhas ruborizarem. Como Carol poderia ser tão boa assim em ler as pessoas?
— Nem ciúmes de mim, nem dela. — Carol Peletier mirou Mavie com olhos sinceros. Aquilo era raro nela.
— Não sinto ciúmes de você, nem de ninguém — Mavie Berry retrucou dando de ombros, soltando ar pela boca.
— Não tente bancar a sonsa comigo. Eu sou mestra nisso — Carol brincou de volta, levantando uma sobrancelha.
Mavelle ficou em silêncio, apenas encarando a outra mulher com certas reservas.
— Daryl tem um coração enorme. Vi isso nele desde quando nos aproximamos, no primeiro ano depois de tudo. Nós somos bastante parecidos e também diferentes ao mesmo tempo — disse Carol, passando uma das mãos em seu rosto.
— Somos muito amigos. Mas é apenas isso, sempre foi. Agora, sobre o que era o vínculo dele com aquela garota... Sei só que ela era muito importante pra ele — admitiu Carol.
— Mas nem de perto tão importante quanto você — afirmou Carol Peletier.
Mavie piscou os olhos, um pouco incrédula.
— Como pode afirmar uma coisa dessas? — O sotaque irlandês de Mavie Berry saiu bastante pronunciado. Ficara mexida com as palavras da outra mulher.
— Eu o conheço — garantiu Carol. — Mais do que ele mesmo. Ora, vamos, pare de besteira. — A mulher de cabelos grisalhos abanou o ar na sua frente, ao passo que Mavelle apenas a encarava, ainda incrédula.
— Ele ama você. Você sabe disso. Todo mundo sabe disso — assegurou Carol Peletier, enquanto o queixo de Mavie caía.
— Carol! Mavie! — Abraham chamou, à distância. Carol Peletier se levantou de pronto, ao passo que Mavelle levou algum tempo até se recuperar daquelas informações.
Ao sair até a varanda do pequeno prédio comercial onde estavam, Abraham lhes indicou que Sasha e Tucker já haviam acabado de encharcar o bar a frente com gasolina. Era o momento de acordar Daryl, e se prepararem para partir, depois de incendiar o bar.
Mavelle foi até o arqueiro, dando-lhe um beijo lento na testa. Daryl Dixon grunhiu como um cachorro sonolento, fazendo a irlandesa sorrir.
— Que horas são? — indagou o caçador, tentando se levantar abruptamente e não conseguindo. Mavelle o ajudou, enquanto ele a olhava irritado. Era orgulhoso demais.
— Hora do show — brincou Mavie, mordendo o lábio inferior. Ela e Dixon foram até a varanda, onde cada um estava munido de uma garrafa de coquetel molotov.
Um por um, Abraham, Sasha, Carol e Tucker miraram suas garrafas no prédio a frente, explodindo as quatro em chamas que logo passaram a lamber o bar abandonado. Sobrara apenas mais uma garrafa extra, que foi entregue a Mavelle, ao invés de Heath ou Daryl. O arqueiro estava um tanto incapacitado, e Heath era pior de mira do que a irlandesa.
— Batize aí, irmã — brincou Abraham Ford, enquanto Mavie deu um sorriso.
Mirou com cuidado, e atirou a garrafa. O prédio já consumido pelo fogo incendiou ainda mais.
— Vamos correr para o caminhão — Sasha falou, preocupada, enquanto Abraham e Mavie ajudavam Daryl Dixon a caminhar o mais rápido que podia com sua perna muito debilitada.
Assim que chegaram ao automóvel, uma enorme multidão de carniceiros já se aglomerava nas ruas próximas. Havia funcionado.
O sol já havia raiado, e a luz da manhã começava a invadir as ruas próximas de Alexandria, trazendo raios de esperança para o emocional aflito de todos os sobreviventes.
Mavelle foi surpreendida por um ruído de interferência no walkie talkie que carregava, logo que ela e alguns do grupo sentaram no compartimento de carga no caminhão. Abraham já dirigia em direção à comunidade. Teria acontecido algo em Alexandria?
A irlandesa pressionou o botão para receber a chamada, enquanto Daryl, Carol e Tucker, próximos dela, pareciam tensos para escutar.
— Alô? — Mavie falou, aflita.
— Alô, Esquila! — a voz de Hashimoto se fez ouvir imediatamente, parecendo empolgada. — Vocês se saíram muito bem até agora. Bastante espertos. Fortes. Vamos ver o que vão fazer para superar o próximo desafio, então? — a mulher japonesa falou do outro lado da chamada.
Todos se entreolharam, Tucker ficando pálido como se fosse morrer naquele momento.
— É... É... Ela — Tucker Hayes gaguejou, aterrorizado, olhando pela pequena abertura que havia no compartimento de carga, permitindo ver a frente do caminhão.
Ouviram um som como se um tiro de uma arma pesada fosse disparado. Em seguida, uma explosão. Abraham pisou fundo no freio, desestabilizando o equilíbrio de todos do compartimento de carga.
Mavelle arregalou os olhos, acometida pelo mais puro terror.
A torre próxima de Alexandria passou a pegar fogo, tendo sido explodida por um tiro de alguma munição de guerra. Provavelmente uma bazuca.
As estruturas internas não resistiram.
Logo em seguida, a torre caiu por cima dos muros de Alexandria, derrubando-os, permitindo que um mar de carniceiros invadisse a comunidade.

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