Hunter's Instinct
5 Episódio 5 - Hunting Season Is Now Open
Notas iniciais
Mavie fora acordada por Billy Ray, ouvindo o som irritante de suas batidas surdas e impacientes na porta de seu quarto.
– Já vai, já vai... – a menina disse, com a voz enrolada de sono. Tivera um sonho bom. Um sonho feliz e triste ao mesmo tempo.
Sonhara com pastos verdes, ovelhas, prados férteis, e colinas que se delineavam até o horizonte marinho... Para terminar em lindos penhascos à beira-mar, onde o oceano despontava para a imensidão, prometendo a quem o contemplasse beleza infinita, no horizonte em que o céu se desprendia de si mesmo e encontrava o mar. Cenário que, agora, só existia mesmo em sua imaginação. Cenário lúdico, saudoso, nostálgico... O lugar de sua infância. Onde crescera.
Sonhara com a Irlanda.
E sonhara... Sonhara com ele.
– Está tarde pra desgraça – o sulista do Alabama reclamou audivelmente, fazendo-se ouvir claramente apesar da porta fechada. Despertou Mavie ainda mais, retirando-a de seus próprios pensamentos acerca de seus últimos sonhos.
Mavelle olhou em seu relógio de pulso, e revirou os olhos. Porra. Quatro e trinta e cinco da manhã ainda. Mas sabia que não adiantaria discutir. Quando Billy cismava com alguma coisa, não adiantava tentar convencê-lo do contrário. Faria algumas gracinhas para desanuviar a tensão, e logo ele estaria menos intratável.
– Fico pronta em um segundo. Prometo – a irlandesa garantiu, enquanto se despia do uniforme de limpeza do Oceanário, uma espécie de macacão que vestia, seu pijama improvisado. Buscou uma calça cargo, enchendo seus bolsos com os objetos que precisaria: facas, bússolas, mapas, arames, dentre outros. Colocou uma blusa qualquer de algodão, bem como um casaco leve, e pôs uma mochila sobre os ombros.
Por último, ajeitou a aljava com cerca de vinte flechas em seu outro ombro, e buscou seu arco na mesa de cabeceira. A garota arrumava seus cabelos em um rabo de cavalo, quando enfim abriu a porta do quarto.
– Foi mais do que um segundo – Billy Ray implicou, mas já parecia menos afoito, pela rapidez da garota em se aprumar para a caçada daquele dia.
– Por Deus, menina, que cara amassada – o caipira troçou da jovem moça.
– Pelo menos a minha cara melhora em algumas horas. E a sua, que é essa desgraça de feiúra a vida inteira? – ela provocou o homem, já entrando em seu típico humor zombeteiro. Tinha de agradecer a Billy, de certa forma. Se não fosse dia de caçada, talvez fosse muito difícil se distrair das lembranças que seus sonhos insistiram em lhe trazer.
Memórias que atacavam as mesmas feridas que ainda não haviam cicatrizado.
– Acordou de ovo virado... Deus ajuda quem cedo madruga, aprenda isso – o sulista do Alabama retrucou e puxou-a pelo braço, enquanto ela cobria os lábios com as mangas do punho do casaco, soltando um bocejo audível.
– Acho que Deus não está a fim de ajudar a gente mais não. Já deu uma olhada para fora da janela? – a garota respondeu, sarcástica.
– Não blasfeme, menina. Tenho que te ensinar muito ainda, ‘visse’... – o homem caipira ralhou em um tom entre a seriedade e a brincadeira, enquanto os dois desciam pelas rampas do Aquário até os portões lestes do Aquário da Georgia.
O caminhão que usariam para ir à caçada daquela manhã já estava preparado. Não usariam o típico frigorífico, mas um maior, de médio porte, já que a atividade duraria mais e teria mais participantes.
– Quem vem hoje? Buck e Haywood? – Mavelle perguntou, coçando o canto dos olhos com as mangas do casaco para espantar o sono.
– Não para o primeiro que disse e sim para o segundo que falou – Billy Ray respondeu, e parecia levemente desagradado, forçando uma fala pateta. Mavie voltou os olhos para ele, e mal pôde comprimir um sorriso maroto.
– Não me diga que ele... – Mavelle Berry perguntou, e seu amigo do Alabama a cortou:
– Sim. Ordens do Jed – o caipira respondeu, em evidente desagrado com a situação.
– Então nós finalmente vamos ver do que o Cupido é feito. – A menina tinha visível interesse em sua voz. Billy a encarou, parecendo ainda mais contrariado com sua reação.
– Não dê conversa 'presse' zé ruela – o homem aconselhou, parando a garota que caminhava já em direção ao caminhão, pelo pátio onde antes ficavam os aquários das tartarugas.
– Ele não presta. Vejo nos olhos dele. Não fique ‘saracoteando’ ele não – Billy falou, e Mavie percebeu um notório ciúme em sua fala. Se controlou o melhor que pôde, achando graça.
– Já sou grandinha, Billy. E o que infernos significa “saracotear’? – Ela mal segurava as risadas.
– Você sabe, isso que você adora fazer. Que está fazendo agora! – Ele reagiu, lhe empurrando um dos ombros de brincadeira. – Ficar provocando, brincando. Esse homem não é boa gente. Fique distante dele – Billy Ray falou.
– No meu país a gente chama disso de “acting the maggot”. Você sabe, agir que nem tonto – Mavie comentou, sorrindo arteira.
– Já ouvi isso tantas vezes na minha vida... Vovó Annie adora falar, inclusive – disse, rindo. Billy sorriu, parecendo mais tranquilo.
– Nada mais justo. Tome tento, menina – o caipira fingiu uma bronca, enquanto abria a porta da carga do caminhão.
Dentro daquele espaço, Haywood, munido de uma potente carabina, guardava ao seu lado a balestra de Daryl Dixon, que se sentava a sua frente.
Seis dias já haviam se passado desde que os estranhos viviam no Oceanário de Atlanta, e dois desde a chegada de Grimes e os outros dois novos chegados. A rotina continuava igual para o grupo do Aquário, apenas com mais pessoas para dividir as tarefas.
E, claro, mais gente para vigiarem.
Por uma razão curiosa, dentre os novatos, aquele homem excêntrico, tão caipira como Billy Ray, despertava muita curiosidade em Mavie. Mais do que todos os outros. A forma como ele se portava, fingindo ser tão distante, perigoso, agressivo, era destoante de como agia ao redor das pessoas que lhe eram queridas, especialmente Carol e Rick Grimes.
Era calado, taciturno, sério, muito “na dele”. E aquilo só instigava Mavelle Berry a querer se aproximar mais, provoca-lo mais com suas piadas. De longe, ele era o que parecia lidar com mais estranheza à presença específica de Mavie, e ela percebia isso. Queria muito, queria mesmo saber por que.
E, claro, era divertido interagir com ele, especialmente quando o arqueiro se permitia zombar de Mavie de volta, chamando-a de Esquila. Era uma espécie de brecha que somente a impelia a provoca-lo ainda mais.
– Todos prontos? – Haywood perguntou, olhando para Mavelle e Billy Ray.
O caipira do Alabama aquiesceu com o rosto. Mavie saudou o homem de meia idade, e, em seguida, Daryl, que se permitiu apenas lhe dar um olhar de desdém. Mavelle fingiu não se importar, mas seu sorriso ameaçou murchar em seu rosto. A frustração de não compreender porque ele a tratava pior do que a todos os outros somente acendia mais e mais essa curiosidade que ela tinha de descobrir o que o motivava àquilo.
Depois de seguirem viagem, Billy e Mavie conversaram sobre amenidades até a Floresta de Nantahala, o caipira dirigindo, e ela, no banco ao lado do carona. A floresta em questão era seu terreno preferido e mais conhecido de caça naquele país. Naquele dia específico, não haviam muitos “Frankies” no caminho, então sequer pararam para realizar as “limpezas” de costume das rodovias e estradas.
Chegaram ao ponto de caça quando a aurora despontava no horizonte. O ar estava frio, úmido, carregado de orvalho. Não havia sinal algum de nuvens no céu, o sol prometia esquentar aquela manhã, e o vento era gelado e cortante. O ambiente em si prometia um dia de clima agradável para atividades ao ar livre.
Pararam o caminhão em um dos pontos estrategicamente localizados junto a uma encosta na qual podiam encobrí-lo de forma mais efetiva. Em seguida, andaram pela trilha até um ponto mais a oeste da floresta, onde sabiam haver bastante cervos, algumas raposas e, por via das dúvidas, caso nada caçassem, esquilos diversos. O que sem dúvidas era um tanto irônico.
Assim, mataram cerca de quinze errantes durante o processo, protegendo e vigiando o homem de colete com asas de anjo, ainda não armado com sua balestra.
Ao aferirem que o terreno estava seguro, Mavie e Billy começaram a montar diversas armadilhas em silêncio, apagando seus rastros enquanto se encarregavam da tarefa. Haywood vigiava Daryl Dixon, garantindo que o homem não pudesse fazer algo estúpido. Ainda não entregara ao novato sua arma, esperando que o grupo estivesse pronto.
Pronto para assistir ao seu teste.
A um sinal combinado, Mavelle avisou Haywood que estavam prontos para começar. Os três cercaram Daryl, que os encarava parecendo já compreender.
– Faça o seu melhor, Cupido – Mavie brincou, enquanto Haywood devolvia a Daryl sua balestra. Os três tinham suas armas preparadas para atirar no novato, caso tencionasse alguma atitude impensada. Mavelle estava com uma flecha já posicionada no cordel, mirando certeira.
Ficou aliviada quando o homem voltou as costas para os que o acompanhavam, mostrando a eles com indiferença seu colete de asas.
Perderia muita diversão... E mistérios a resolver, caso ele decidisse por fazer alguma estupidez, agora que estava armado.
Do contrário; na verdade Daryl parecia decidido a ignorá-los solenemente. Passou a caminhar, seguindo o que Mavie logo reconheceu como sendo o rastro de algum animal silvestre. Estava confuso, mexido pelo vento, e difícil de reconhecer devido a uma trilha misturada a passos dos “Frankies” que haviam matado há pouco tempo.
Será que ele sabe o que é? Ela pensou, curiosa. Será que seria possível que o novato fosse melhor do que ela e Billy na caça? Algo que ela aprendera desde pequena?
Com as armas em punho, os três seguiram Dixon floresta adentro. Caminharam por um bom tempo, até que Mavie sentiu a brisa do vento ainda mais forte e úmida. Se aproximavam de uma clareira.
– Voltem – Daryl falou subitamente, sua voz não mais alta do que um murmúrio. Mavie não compreendeu, não vira nada de diferente, além da clareira em si.
– O quê? – Haywood perguntou em voz alta, e seu instinto de caça lhe disse que o amigo acabara de fazer uma tremenda bobagem. Um calafrio lhe subiu pela espinha, assim que Dixon se voltou para trás e a puxou pelo punho direito.
Billy erguera a arma para ele, ameaçador, mas Mavie entendera o que acontecera.
O cheiro específico que havia no ar. O som gutural, baixo, entre o agudo e o rouco. A sensação de estar sendo observada.
Os gemidos característicos. Entre latidos... E uivos.
Haviam invadido uma toca de lobos.
Surgindo do nada, voando em um salto pelas folhagens, um animal enorme pulou com as patas dianteiras erguidas no peito de Haywood, derrubando-o no chão. Rosnava como uma fera perigosa. O homem de meia idade reagiu rápido, atirando no pescoço do bicho, que caíra sobre si.
Um lobo forte, bem nutrido, acabara de defender seu território e morrera tentando matar Haywood. Mais deles estavam próximos, Mavie podia ouvir seus passos, seus grunhidos ameaçadores. Em segundos, uivaram em uníssono.
Billy levantava a espingarda, movendo-a de Daryl para a direção de onde sugira o primeiro lobo, e dela para Dixon, outra vez. Mavelle, pensando rápido, passou a correr na direção contrária, olhando para trás, o arco preparado para qualquer ataque. Aproximou-se de Haywood, e o ajudou a se levantar.
– Vamos dar o fora daqui, Billy, corre! – Mavie sussurrou com urgência para o amigo, que ainda estudava o local de onde os lobos surgiram, dividindo-se entre aquilo e a vigilância do arqueiro com balestra.
Não tendo outra escolha, Billy Ray desandou a fugir com o resto do grupo. Mantinha sua arma apontada para Dixon, que por sua vez a mirava na direção de onde os lobos vieram, assim como Mavie. Haywood parecia assustado, sua camisa ensanguentada em seu tórax, onde o lobo rasgara o tecido que vestia e partes de sua pele, com suas garras afiadas.
Ouviram mais uivos mórbidos, desta vez vindos à esquerda, à direita, e à frente. Foi uma questão de segundos até perceberem-se encurralados.
Uma alcatéia de cerca de catorze lobos os encarava, aproximando-se devagar, predadores circundando presas apetitosas. Lambiam seus beiços, arreganhavam os dentes, seus olhos cintilando ameaçadores.
Invadiram seu território.
E agora teriam de pagar por isso.
– Subam em uma árvore – Mavie falou para os três – subam. Agora! – ela insistiu, movendo-se com o menor movimento brusco que ousava fazer em direção a um tronco firme.
Bastou Billy ameaçar subir por um galho, e todos os catorze lobos atacaram simultaneamente.
Fora tudo tão rápido que Mavelle sequer conseguiu ver exatamente o que acontecera.
Em uma fração de segundo, Dixon levantou a balestra, atingindo a cabeça do lobo que ameaçava arrancar o calcanhar de Billy Ray. A fera caiu instantaneamente, se debatendo. Mavie moveu seu arco na direção dos olhos do lobo mais próximo de Haywood, enquanto este atirava em cheio no focinho de outro perto de si. Billy deveria ter derrubado cerca de três lobos, Mavie, quatro, Haywood, dois e Daryl, com velocidade, agilidade e reflexos que ela julgou sobre-humanos... Foi responsável por abater também quatro.
Um dos lobos sumira durante o embate. Fora o tempo que tiveram para subir nas árvores próximas e ganhar terreno alto e vantagem. Os três caçadores homens se adiantaram, escalando os galhos, mas Mavelle fizera questão de terminar de matar os lobos que flechara. A maioria precisou de cerca de duas flechas para enfim falecer.
Ao contar treze lobos mortos, ouviu um barulho inconfundível perto de si. Algo bafejava ao seu lado, o cheiro de carne, pelo e morte singular.
O lobo restante voltara para ataca-la.
Mavie girou nos calcanhares, certa de que seria seu fim. Bastava um movimento para o animal pular em cheio em sua jugular, dilacerando-a em um golpe só.
Enquanto se movia para matar o animal que já pulara para seu pescoço, ela apenas o viu cair sem que ela sequer o atingisse com uma flecha. Não compreendera nada.
Olhou para o cadáver do lobo, sangue saindo de sua garganta em profusão.
Atravessada em sua glote, havia uma flecha certeira. Ele morrera de imediato.
E, enfim, ela percebeu que Daryl matara agora... Cinco lobos ao total.
Mavelle voltou-se para a árvore a qual Daryl Dixon havia escalado, olhando-o nos olhos. Ele baixou a balestra e a encarou.
Esse gouger filho da puta salvou minha vida.
– É, novato – Haywood, que também não era de falar muito, se adiantou.
– Você foi aprovado com louvor no teste – admitiu o homem de meia idade.
****
Depois de empilharem e limparem a pele dos catorze lobos, o grupo se dividiu para leva-los até o caminhão. Haywood, machucado, precisou ir no banco da frente, onde teria mais conforto e sofreria menos baques na viagem. Billy ainda não aprovava a ideia de Mavie voltar no compartimento de carga junto a Daryl, mas não interferiu.
Já caía a tarde quando estavam voltando pelas estradas em direção ao Oceanário de Atlanta. Mavie e Daryl se ocupavam de, sentados cada um em seu canto, limpar as próprias flechas que haviam recuperado, e guarda-las com cuidado.
Após um bom tempo em silêncio, limpando a sua última flecha e a guardando na aljava, a menina irlandesa passou a revirar os bolsos, em busca de algo específico. Achou, e sorriu com sincero alívio.
– Maravilha! – ela comemorou alto, enquanto o homem à sua frente a ignorava, retirando a carne morta de lobo de uma das flechas.
– Estava precisando demais de um cigarro. – Mavelle catou um isqueiro em outro de seus bolsos, e acendeu o Marlboro vermelho, aspirando fundo a fumaça e a soltando depois. Sentiu de imediato o relaxamento gostoso que a nicotina e outras substâncias tóxicas da droga espalhavam por seu corpo.
Abriu os olhos, e viu que Daryl a encarava. Deu-lhe um sorriso peralta, mas se recusou a oferecer-lhe um cigarro. Ainda não, Cupido.
– Sabe, o mundo está essa porcaria fodida que está, mas tem certas coisas que permitem que a gente esqueça da avalanche de merda por alguns segundos... – Ela sorriu ainda mais. – Um dia de caça bem sucedido é uma delas. É bom matar ou fugir de lobos ou de outros bichos para variar. É mais natural – avaliou a menina irlandesa.
Daryl não respondeu nada. Mantinha a mesma cara fechada de sempre, guardando a última flecha que limpara.
– E você, do que sente falta? – ela provocou, sabendo que o homem queria um de seus cigarros. Dava para perceber na expressão de seu rosto, ainda que ele a mantivesse carrancuda.
– Do silêncio – ele respondeu, grosseiro. Mavie riu.
– Você se esforça para ser um dense* babaca assim, ou é algo que vem naturalmente? – a irlandesa provocou em resposta.
– Depende de quem me inspira a tanto – o homem retrucou ainda mais rude, fazendo menção à Mavelle.
– Bem, mas ainda assim você me salvou, né? – Mavie respondeu, levantando uma sobrancelha e tragando fundo o cigarro.
– Talvez eu não seja tão insuportável assim. Quer um? – Mavelle Berry retirou um cigarro do maço de Marlboro, e estendeu a mão com o fumo para Daryl.
Assim que ele se aproximou para pegar, infantilmente ela desviou o braço para trás, provocando-o. O homem baixou os olhos e a mão que estendera, lambeu os lábios e a encarou com o olhar mais arrogante que já lhe dera até então. Mavelle o respondeu com um de seus melhores sorrisos travessos, rindo de leve. Por que é tão divertido importunar esse camarada? Pensou a irlandesa.
– É, talvez você tenha razão em não me aguentar – ela fez a piada, admitindo sua implicância, jogando o cigarro e o isqueiro para ele depois. Daryl Dixon pegou-os no ar sem dificuldades, acendendo o cigarro e tragando-o.
– Senti falta de um cigarro – o arqueiro admitiu, dando um mínimo de conversa para Mavie.
– Pois é. – Ela tragou mais uma vez. – Se você continuar simpático, te dou acesso ao meu estoque – a garota brincou, soltando a fumaça devagar. – Temos umas cervejas guardadas lá no Oceanário também, e uns whiskeys, caso também esteja com saudades desse tipo de coisa – a jovem mulher comentou.
– Para uma Esquila do seu tamanho, até que você tem bom gosto. E uma boa mira. – Dixon soltou a fumaça de seu cigarro, expirando fundo. Sua voz soava no mesmo tom indiferente, mas Mavie percebeu suas expressões faciais se abrandarem um pouco.
– Para um capiau, você também. E uma mira impressionante. – Mavelle sorriu arteira. Passaram algum tempo em silêncio, e ela teve de perguntar:
– Por que me salvou? – Mavelle foi direta. Não mais sorria. Era uma pergunta realmente séria.
– Não sou a favor de alimentar animais com gente. Ainda mais gente viva – Daryl respondeu, fazendo menção à prática do Aquário de alimentar tubarões com carnes de mortos-vivos. Em seguida, desviou o olhar de Mavie. A garota morena ainda o encarava, decidida.
– Isso não é resposta – a irlandesa insistiu.
– Então formule uma da sua cabeça – o homem respondeu, afrontoso. Não queria tocar naquele assunto, visivelmente.
Havia algo em Mavelle Berry que importunava aquele sujeito. Algo que ele não pretendia lhe falar, mas que talvez tivesse relação com a forma que os amigos dele a tratavam. O jeito de olharem-na, como se houvesse algo nela que os balançasse de alguma forma. Algo que, para Daryl Dixon, destacava-se, aparentava realmente tirá-lo do sério. Incomodá-lo.
Mavelle mexia com Daryl. De algum jeito, e por alguma razão.
E Mavie estava decidida a descobrir o que era.

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