Hunter's Instinct
47 Episódio 47 - Dead Men Tell No Tales
Notas iniciais
Ele já mal tinha fôlego para respirar.
Tudo havia dado errado.
No meio da execução do plano de desviar os errantes da pedreira, um som distante, agudo e contínuo se fez ouvir. Uma buzina estrondosa, na direção de Alexandria.
Atraindo para lá metade daquela multidão de mortos-vivos.
Correndo sem parar para descansar, Glenn Rhee e outros inúmeros sobreviventes, avançados à frente da horda que se locomovia devagar, buscavam desesperados chegar o mais rápido possível em Alexandria. Precisavam conter o que quer que estivesse acontecendo.
Maggie. Glenn pensou, lembrando da esposa grávida por uma incontável vez. Pensou em seu rosto preocupado, pensou no que significaria aquela maldita buzina soando sem parar, pensou... Pensou se ainda teria chance de salvá-la.
Pare. Fique calmo. Rhee se repreendeu a si mesmo, em pensamento. Sua respiração saía entrecortada, a boca aberta enquanto não parava de correr.
Mantenha o controle. Por ela. Glenn voltou o rosto para o lado, vendo que Michonne acabara de eliminar um errante que se aproximava. Rick, também próximo ao descendente de coreanos, recebera uma chamada em seu walkie talkie.
— Rick! O que está acontecendo aí? — Após alguns segundos de interferência, Glenn ouviu a voz de Daryl sair pelo walkie talkie que Rick Grimes segurava.
— Metade da horda se separou! Foram em direção a Alexandria — Grimes esclareceu, resfolegante. Uma pausa curta e angustiante foi feita, e então Abraham entrou na escuta.
— Na sua direção? — indagou retoricamente o soldado ruivo.
— Estamos na frente deles! — retorquiu Rick, impaciente, enquanto todos corriam. Mavelle, próxima de Glenn, acertou uma flecha no rosto de um morto-vivo, enquanto Becky esmagava a cabeça de outro com seu taco de baseball. Billy Ray, munido de seu rifle, seguia mais atrás do grupo, fazendo a cobertura dos moradores menos combativos de Alexandria.
— Estão seguindo uma buzina alta, vinda do leste — continuou Rick, perpassando as folhagens de uma árvore mais baixa. Glenn o acompanhava de perto. — Não para de tocar — afirmou, sorumbático.
— Vou acelerar e voltar! — Dixon retrucou de imediato, e Glenn viu que Rick tinha uma expressão ainda mais esgotada ao rosto. Mavie, perto do esposo de Maggie, dividia o olhar entre Rick e a conversa com o arqueiro, e os poucos errantes que apareciam.
— Está tudo sob controle. Continue — Grimes falou em tom impositivo.
— Vocês precisam da nossa ajuda! — a voz de Daryl insistiu, revoltada, pelo walkie talkie.
Glenn reparou que Mavelle retrocedeu o passo. Parecia correr na direção de Rick.
— Temos que manter a horda em movimento — o policial insistia em conter Dixon.
— Não quando tudo dá errado! — a voz do caçador redarguiu, enfurecida.
— Se o resto da horda virar, só vai piorar tudo. Continue o trajeto! — Rick Grimes sentenciou, direto, mas Mavelle estava próxima o suficiente para arrancar o walkie talkie de suas mãos.
— Daryl? — A voz da irlandesa saiu menos decidida do que de costume.
Houve uma pausa silenciosa até a resposta.
— Yeah. — O timbre do caçador era audivelmente mais calmo, saindo pelo comunicador.
— Estamos dando conta aqui. Continue segurando a barra aí, ok? Se cuide — pediu Mavie, e Glenn quase sorriu.
Conseguia se colocar no lugar de Daryl. Era provavelmente o que ele mais precisava ouvir.
— Daryl, por favor. Confie em... — a garota irlandesa insistiu pelo walkie talkie, enquanto Rick e os outros apenas a olhavam, acompanhando a conversa.
— Ok. Me avisem se acontecer alguma coisa. — A voz do arqueiro cortou a irlandesa, soando ainda roufenha e desagradada. Mas parecia enfim aceitar os termos. A chamada foi enfim desligada.
Glenn viu Mavie entregar a Rick o rádio comunicador. O líder do grupo passou a novamente guiá-los na direção da buzina, até que, momentos depois, a situação já grave ficou ainda mais crítica.
Nicholas parou de correr, subitamente. Rhee se aproximou do sujeito, pois já temia aquela reação. Desde que começaram a efetuar o plano, ele parecera abalado demais para raciocinar direito.
— Nicholas? — Glenn falou alto, fazendo com que os olhos vidrados do sujeito se focassem no rosto do descendente de asiáticos. Como se saísse de algum tipo de transe.
Quando Rhee pretendia se aproximar do homem e perguntar se estava se sentindo bem, a outra Annie de Alexandria, uma jovem amiga de Heath e de Scott, tropeçou em alguns ramos de árvores e caiu ao chão, reclamando. Becky, próxima dela, parou e a ajudou a levantar.
Glenn distraiu-se de Nicholas, e se aproximou da jovem mulher. Aparentemente, torcera o tornozelo. Rick Grimes, Michonne, Heath e Mavelle já haviam se distanciado um pouco, quando notaram o que havia ocorrido e olharam para trás. Nicholas, novamente desperto, passou um dos braços de Annie por seu ombro, ajudando-a a caminhar rápido, deixando Becky livre com seu taco de baseball. Scott, Sturgess, Gerald e David pareciam muito nervosos, dispersos, por mais que Billy Ray fechasse o grupo e impedisse qualquer morto-vivo de se aproximar graças aos seus tiros precisos de seu rifle de caça.
Rhee começou a se preocupar com a queda de velocidade do grupo.
Rick pareceu pensar o mesmo, pois logo se aproximou do ex-entregador de pizza, tomando uma decisão. O grupo mostrava cada vez mais uma separação entre os antigos membros de Alexandria e os mais novos.
— Vou na frente — Rick falou, decidido, movendo-se outra vez para a dianteira. Glenn o parou, segurando seu ombro.
— Não, não sozinho. Posso ajudar — o sujeito de traços asiáticos se disponibilizou na hora.
— Não, Glenn. Precisa nos ajudar — Michonne retrucou, seus olhos indicando os alexandrinos inexperientes.
— Precisamos de ajuda para levá-los de volta — Mavie, próxima a eles, sussurrou com urgência, limpando uma flecha na calça jeans.
— Glenn, Michonne, Mavie — Rick falou alto, evidenciando a separação novamente. Rhee especulou que ele talvez quisesse com isso elencar outras lideranças.
— Se algo aparecer na frente de vocês, vocês matam. Sem se esconder, e sem esperar. Apenas continuem seguindo em frente — ordenou o policial, seus olhos cintilando ansiosos. Rhee olhou de esguelha para Michonne e Mavie, vendo o mesmo nervosismo de Grimes nas duas.
— O problema é... Nem todos vão conseguir. — Michonne interrompeu a frase do policial, falando um “Rick!” em tom de censura.
— Vocês tentam salvá-los, realmente tentem. Mas, se não der... Desistam — o xerife sentenciou, olhando para os lados para ter certeza de que apenas eles o escutavam. Becky e Billy Ray aguardavam, parecendo um pouco desconfiados.
— Hey, “oficial”, eu vou com você — Billy se voluntariou, aproximando-se e interrompendo a tensa conversa.
— Não precisa. Volte logo pra casa e os ajude — Grimes retorquiu, sem melindres.
— Você vai precisar. Até chegar no RV é uma baita de uma corrida longa. Posso garantir que seja mais rápida — Billy Ray falou com todo seu sotaque do Alabama, indicando o rifle.
— Billy? — Glenn viu Rebecca perguntar, franzindo as sobrancelhas. Não parecia esperar por aquilo.
— Fique aqui com eles. Você já trabalha com esse pessoal tem um tempo. Tem um método. Eu vou ajudar o Rick — decidiu o sulista do Alabama, enquanto até mesmo Mavie olhava surpresa para ele.
— Se vai vir, tem de ser agora — Grimes rebateu, sem paciência alguma para maiores discussões.
Subitamente, alguns metros atrás, ouviram a voz de Gerald soar alta e estridente. Scott tropeçou no susto, machucando ele próprio sua perna. De imediato, Glenn e os outros correram em auxílio, enquanto Rebecca ajudava o outro morador da comunidade que se machucara. Um morto-vivo surpreendera Gerald, e agora devorava sua garganta.
Todos se entreolharam, nervosos e um tanto chocados, e Glenn teve de se controlar para não perder as esperanças ali mesmo. Sturgess, inclusive, debandara desesperado durante o ataque do errante. Seria aquilo um presságio do fim da missão?
Em seguida, Michonne desembainhou sua katana, matando o errante e livrando Gerald de mais sofrimento, fincando a lâmina em sua cabeça. Os alexandrinos inexperientes pareciam à beira da desesperança, ainda mais angustiados do que já estavam. O único que ainda parecia frio, somente irritadiço e esgotado... Era Rick Grimes.
— A buzina parou. Bom — Grimes falou, retirando as armas de Gerald, como se o sujeito não passasse de um mero peso morto. Levantou-se depois de abaixar-se para desarmar o homem agora morto por um deslize, e encarou a todos, deixando seu último olhar em Billy Ray, que parecia um tanto incrédulo com a frieza sociopata do policial.
Rick indicou com a cabeça que era hora de partirem, e Billy concordou, em um meneio silencioso. Deu um último olhar para Rebecca, se aproximou dela e a abraçou, enquanto Heath amparava Scott, sua perna ferida. Glenn percebeu que o olhar da garota loira parecia marejado.
— Voltem em segurança — Rick disse, e sua voz parecia mais uma ordem impassível do que um apelo honesto.
Rhee olhou Grimes e Billy Ray correrem à distância, seguindo na direção do trailer. Em seguida, percebeu que a liderança dos restantes sobrara para ele, Michonne e Mavelle. Com o emocional desgastado e inábil dos alexandrinos — com exceção de Heath —, e a instabilidade de Rebecca e também de Nicholas, viu que a tarefa não seria fácil.
Enquanto Becky e David ajudavam Scott a fazer um curativo em sua própria perna, que sangrava profusamente, Heath amparava Annie, sentando-a ao lado de Scott em um tronco velho de árvore, naquela mata. Nicholas parecia nervoso com tudo o que acontecia, mirando a pistola ao redor, buscando errantes que pudessem surpreendê-los.
Determinado, o esposo de Maggie Greene se aproximou da espadachim e da irlandesa.
— Rick exagerou. Eles não vão conseguir se não ajudarmos — afirmou o descendente de coreanos.
— Sim, Rick sabe resolver as coisas do jeito dele, mas nós sabemos também. Estamos muito adiantados da horda — Michonne pareceu concordar, tentando tranquilizar-se a si mesma e aos outros dois.
— Tem uma cidade pequena aqui perto, não? Será que não dá pra cortar caminho por lá? — sugeriu Mavie. — Na pior das hipóteses, podemos arranjar um lugar para escondê-los. — Ela indicou com o queixo os sobreviventes menos hábeis, enquanto guardava uma flecha na aljava. — É naquela direção — ela apontou para o sul.
— Sim, sim — concordou Glenn, gostando da mudança de planos. — Podemos até achar um carro, se dermos sorte — o descendente de asiáticos voltou a se sentir mais esperançoso. — Vamos! — Voltou-se para o restante do grupo, se aproximando deles e esclarecendo as modificações na rota de retorno.
Heath parecia um pouco reticente, mas todo o resto rapidamente anuiu àquela ideia. Seguiram por mais alguns quilômetros, perdendo um pouco da vantagem que conseguiram correndo, agora que eram obrigados a caminhar, por conta dos machucados de Annie e Scott.
Em determinado momento, Glenn já não mais conseguia parar de pensar em Maggie. Tentava se distrair focando nos companheiros de viagem, se precisariam de alguma ajuda, mas Heath amparava Scott, enquanto Becky ajudava Annie. Michonne seguia na frente, próxima dele, conversando com David, e Nicholas se mantinha em silêncio, seu olhar vago, oco de emoção. Aquilo começou a preocupá-lo mais e mais, pois não importava o quanto Glenn tentasse despertar o sujeito do que quer que tirasse sua atenção, Nicholas novamente voltava ao mesmo estado catatônico.
Naquele caminho, só encontraram errantes muito desgastados pela decomposição, que não eram uma ameaça para nenhum deles. Mas o som contínuo e gutural da horda alguns poucos quilômetros atrás deles era audível, quando todos ficavam em silêncio.
— Acho que é ali na frente — Mavie falou, indicando os contornos de alguns prédios baixos que se faziam ver à distância, entre a folhagem das árvores. Ela própria parecia bastante aflita. Rhee imaginava o porque. Deixara Peggy e Annie, sua avó, sozinhas em Alexandria. E, além de tudo, devia estar preocupada com Daryl guiando o resto da horda.
— Sabe, você fez bem. Vocês mulheres são fodas — Rhee comentou, em um tom mais desinibido, até para relaxar não só a amiga, mas a si mesmo.
— O quê? — A irlandesa o encarou, carregando seu arco sempre a postos para qualquer intempérie. Ela deu um sorriso confuso.
— A Maggie sabe fazer esse tipo de coisa. Falar exatamente o que eu preciso ouvir, como se fosse uma telepata, uma Emma Frost. Onde vocês aprendem a dobrar a gente assim? — Glenn brincou, usando de seu conhecimento de quadrinhos.
— Emma Frost? X-Men, sério? — Mavie riu, incrédula. — Asiático e também nerd, você só precisava dirigir mal pra ser o total estereótipo — a irlandesa deu mais uma risada curta, que Glenn compartilhou. Era bom ver que, mesmo em um momento angustiante como aquele, poderia ajudar a desanuviar a tensão.
— E você, que não perde a chance de encher a cara? — implicou Glenn, referindo-se ao estereótipo dos irlandeses, de bêbados inveterados. — E, peraí, você lê HQs? — Rhee indagou, agora realmente surpreso, quando Heath subitamente os interrompeu.
— Espere. Reconheço esse lugar. Já passei por aqui em rondas, mas se eu não muito me engano Nicholas foi o último. Ele e Aiden, numa missão de coleta — disse o batedor, e Glenn outra vez encarou Nicholas. Agora, realmente precisaria fazê-lo agir.
— Ótimo. Nicholas, guie a gente! — o descendente de asiáticos se aproximou do homem confuso, que novamente piscou os olhos, como se estivesse se esforçando para acompanhar o raciocínio.
O marido de Maggie, a espadachim e a irlandesa acompanhavam de perto Nicholas, que de fato os levou com segurança para dentro da cidade. A princípio, parecia deserta.
Seguiram por um beco, quando Annie soltou uma exclamação de horror.
— Sturgess! — Glenn voltou-se na direção para a qual a jovem mulher olhava, e viu o corpo de um dos jardineiros de Alexandria sendo devorado já pela metade, no chão. Por uma dezena de mortos-vivos.
Nicholas não teve reação. Ficou parado, encarando aquela cena grotesca, até Rhee o puxar pelo ombro, quase com violência.
— Acorda, cara! — o descendente de asiáticos o repreendeu, sério. Nicholas concordou, balançando a cabeça, o que apenas deixou Rhee ainda mais incerto do equilíbrio mental do outro homem.
O grupo correu, direcionado por Nicholas, na direção de outra rua. Lá, Glenn sentiu um arrepio lhe subir pela coluna. A situação conseguiu piorar ainda mais.
Inúmeros errantes se arrastavam de um lado ao outro, em diferentes locais. Saindo de lojas saqueadas, de ruas e alamedas, pouco a pouco notando as novas carnes frescas.
— Entrem aqui! — Michonne, reagindo rápido, indicou uma pet shop. O grupo foi o mais rápido que pôde para dentro, enquanto Rhee, a samurai, a irlandesa, Becky e Heath eliminavam a maior parte dos mortos-vivos mais próximos.
Glenn entrou por último, junto com Mavelle, que mal acabara de recolher uma flecha do crânio sem vida de um errante. Fecharam a porta, e todos passaram a sussurrar.
— São muitos. Quando o resto da horda chegar, vai ficar ainda mais impraticável — Rebecca falou, séria, levantando as sobrancelhas. Annie, novamente amparada por ela, pareceu tomar uma decisão.
— Me deixem aqui. Vão logo. Só vou atrasar vocês — a jovem moça morena murmurou, e Glenn se recusava a aceitar aquilo.
— Annie tem razão. Fico para trás também. Voltem — Scott aceitou se sacrificar, fazendo Heath, que o ajudava a caminhar, soltar uma exclamação de reprimenda.
— Ninguém vai ficar pra trás — Heath redarguiu. — Não no que depender de mim.
Michonne o cortou no mesmo momento.
— No que depender de nós! — ela sussurrou, determinada. — Não vamos deixá-los pra trás. Só precisamos de outra ideia.
— Uma distração — Glenn falou, raciocinando rápido. Michonne e Mavie o encararam de imediato, antes dos outros.
— Eu e Nicholas podemos encontrar algum prédio, algum lugar velho para queimar. Os errantes vão ficar concentrados nisso, e poderemos escapar. Enquanto isso, vocês já se adiantam. Nos encontramos no caminho. Poderão ver a fumaça de longe — decidiu o descendente de coreanos.
— Glenn! Você é casado — Mavie retorquiu, séria. Parecia incrédula tanto pela ideia do amigo se arriscar, como pelo fato de se permitir ser guiado por um sujeito descontrolado como Nicholas.
— E você tem um namorado — o ex-entregador de pizza rebateu, surpreendendo Mavelle. Se não estivessem todos nervosos, Glenn acharia graça do fato de que ela ficou com as bochechas vermelhas àquela fala.
— Não importa. Eu que deveria ir, e não vocês — Michonne rebateu, preocupada, resolvendo parar com a discussão.
— Não. Justamente pela Maggie, eu tenho que fazer isso. Para ter certeza de que o bando não vai chegar lá — assegurou o descendente de coreanos, já decidido.
— Então eu vou com você — Mavelle pareceu tão teimosa quanto ele.
— Mavie... — Rhee ia começar, mas a irlandesa o cortou.
— Cale a porra da boca, e vamos — falou ela, impaciente.
— Ok. Então eu encontro vocês lá, depois — Glenn disse para Michonne. — Se algo der errado, arranjo um jeito de mostrar que estou vivo. Todos nós temos funções a cumprir — finalizou ele, usando a frase que tanto Beth, quando ainda viva, quanto Maggie e Mavie gostavam de usar.
O resto do grupo apenas se entreolhava, acompanhando a discussão rápida. Michonne enfim tomou as rédeas da situação.
— Heath, Becky, Scott, Annie, David. Nós vamos juntos. Se preparem ao meu sinal, quando eles saírem. — A espadachim fitou os olhos de todos que lideraria, enquanto Rhee se abaixava e tirava de sua mochila o relógio que ganhara de Hershel, seu sogro. Lembrou com uma pontada de tristeza e de carinho daquele homem que admirava bastante.
Olhou o objeto, vendo mais o relógio do que as horas, embora tivesse percebido que se atrasavam cada vez mais. Meros minutos os separavam da horda. Glenn pensou novamente em Maggie, arrependido de ter deixado que ela queimasse a foto que tirara dela dormindo.
Pegou o walkie talkie que Rick havia lhe entregado.
— Rick, é o Glenn. — O descendente de asiáticos esperou, mas só ouviu estática. Sinal de que Grimes atendera, mas não podia falar. — Estamos numa cidade cinco graus a leste do marcador verde. Se chegar na Redding Avenue em vinte minutos vai estar safo. Acho que é a distância que estamos da horda. — Parou, esperando uma fala de Grimes, mas só recebeu mais chiados em resposta.
— Vou tentar fazer um incêndio para distraí-los. Se não vir nenhuma fumaça, sinal de que eles ainda estão indo na sua direção — disse, lugubremente. — Preciso desligar — Glenn baixou o comunicador.
Mavie o encarava, e ele apenas meneou a cabeça em afirmativa.
— Boa sorte, babaca — Glenn Rhee falou, sorrindo um sorriso curto, lembrando de quando ajudara Rick a sair do tanque de guerra, ainda em Atlanta. “Está bem aí, babaca no tanque?”
O que se seguiu foi uma corrida desenfreada de Glenn, Nicholas e Mavelle até uma suposta loja de rações, cheia de produtos secos, que queimariam rápido. Entretanto, em certa altura, Nicholas encontrou um errante no chão que o fez perder o foco.
Mavie, ansiosa, já havia colocado uma flecha no cordel para eliminar o morto-vivo e recuperar a atenção do sujeito. Nicholas, entretanto, finalmente se manifestou.
— Não! Eu preciso fazer isso — disse o homem emocionalmente instável. Agachou, retirando a faca do bolso da calça. Parecia hesitar.
— O nome dele era Will. Um dos... Um dos que eu e Aiden deixamos para trás. Foi aqui. — A voz de Nicholas parecia severamente embargada, como se fosse chorar a qualquer momento. — Foi aqui que nós deixamos nossos amigos pra trás. Will tinha só dezenove anos — confessou sua covardia, enquanto esfaqueava a cabeça decomposta do rapaz morto-vivo.
Mavie e Glenn se entreolharam, preocupados, enquanto Rhee deu um tapa no ombro de Nicholas, mostrando empatia.
— Você não é mais assim. Certo? Estamos aqui para provar isso — Glenn Rhee tentou consolá-lo, e Nicholas apenas o mirou, concordando timidamente depois.
— Glenn — Mavie sussurrou, afoita. — Ouça. Eles estão muito perto! — Os sons da horda ficavam mais e mais audíveis, como suspiros ululantes e horrendos carregados pelo vento.
— Nicholas, a loja, agora! — Rhee insistiu, enquanto Nicholas corria para a frente da rua, guiando-os para um local sem saída.
Desolado, o marido de Maggie viu que a loja de ração já havia sido queimada.
Glenn sentiu como se um peso de toneladas caísse em seu estômago. Estava difícil ficar em pé. Cercados por grades, um prédio com escadas externas em varandas e uma rua sem saída, fechada por cercas altas, inúmeros mortos-vivos rodeavam os três. Mavelle passou a atingi-los, desesperada, gastando quase todas as suas flechas.
Rhee segurou Nicholas pelos braços, forçando-o a não desistir.
— NICHOLAS! — Urgiu o marido de Maggie. — Para onde, agora?
— Eu... Eu... — o sujeito balbuciava, desolado.
— GLENN! — Mavie gritou alto, tentando puxá-lo pelo braço para longe de Nicholas. Glenn se manteve parado, se recusando a desistir daquele sujeito que ajudara a redimir. Não era possível. Não podia acabar assim.
— GLENN! Suba aqui, AGORA! — Mavelle indicou a escada de incêndio, puxando-a para baixo para torná-la acessível para os outros dois. Subiu, e passou a atingir os errantes com a pistola que carregava.
Mais e mais chegavam. Mortos-vivos da horda, mortos-vivos da cidade, de todos os lugares. Cercaram a escada onde Mavie estava, que foi forçada a subir mais um pouco para não ser puxada para baixo e devorada. Glenn e Nicholas, sem escolha, usaram suas pistolas para atingir os poucos cadáveres famintos que se aproximavam deles. Logo que abatidos, eram atropelados pelo resto do bando que os cercava.
Não tendo outra alternativa, os dois subiram em uma lixeira, instável e íngreme, e Nicholas novamente entrou em seu modo entorpecido. Glenn Rhee tentou segurá-lo, forçá-lo a ouvi-lo, enquanto Mavie gritava seu nome ao longe, apavorada, os sons da pistola dela findos junto com a munição que devia carregar.
— NICHOLAS! — Glenn gritou mais uma vez, apertando os braços do sujeito à sua frente. Ele enfim o encarou, depois de passar longos segundos fitando o mar de errantes que os deixavam sem qualquer chance de escapar.
Os braços elevados para eles, as bocas rosnando esfaimadas, pútridas, o cheiro de podridão envolvendo todo o ar... Os olhos dos errantes sem vida, sem cor, sem esperança, como os de Nicholas.
— Obrigado. — Nicholas apontou a própria arma para sua cabeça, e se matou. Sangue jorrou da cabeça de Nicholas para o rosto de Glenn, enquanto ele via partes do cérebro do homem serem estilhaçadas pelo tiro.
— GLENN! — Mavie gritou ao longe de novo, a voz saindo cortante e ferida como se ela tivesse tomado o tiro.
Não.
Não. Não assim.
Não agora.
O corpo morto de Nicholas tombou ao chão, junto à multidão de mortos-vivos. Carregou Glenn consigo.
Glenn Rhee apenas viu inúmeros, incontáveis errantes abaixarem-se na direção de seu corpo.
Gritou desesperado, sem acreditar, sem sequer poder compreender aquilo, enquanto via tripas e órgãos sendo arrancados e devorados acima de si.
Maggie.
*****
Mavie não podia parar de encarar aquela cena, horrorizada.
Nicholas se suicidara, e arrastara Glenn consigo, caindo no asfalto, no meio dos mortos-vivos. Os poucos que ainda tentavam puxá-la, metros acima deles, segura na escada de incêndio do prédio, desistiram. Moveram-se na direção dos dois corpos que eram ali devorados.
Ela ouviu os gritos do amigo, seu melhor amigo, desesperado. Mavie tremeu dos pés a cabeça. Sem flechas. Sem munição. Abraçou o arco, sem saber o que fazer, chorando, sentindo que seu próprio estômago era devorado por dentro.
Subitamente, ouviu uma buzina ao longe. Outra buzina. Ainda mais alta, ainda mais escandalosa do que a outra. Em seguida, o ruído de tiros altíssimos, não muito longe dali. Como se descarregassem uma arma.
A maior parte da multidão de mortos-vivos dispersou, atenta aos novos sons. Sobraram apenas os poucos que comiam Glenn ainda vivo, e Nicholas morto. Uma vintena, no máximo.
Foi então que Mavie viu. Glenn Rhee parara de gritar, mas não porque morrera. O corpo dele não estava mais ali.
Por um segundo irascível, Mavelle pensou que o teriam devorado inteiramente. E foi então que Mavie percebeu que o corpo desmembrado era de Nicholas, e não de Glenn.
Pelo visto, Glenn teve a chance de escapar porque Nicholas caíra em cima dele.
Imediatamente munida de uma esperança quase inacreditável, Mavie arrancou a faca comprida de caça que tinha consigo, levando seu arco também. Desceu da escada quase se jogando no chão.
— VENHAM AQUI, SEUS FILHOS DA PUTA! — Mavelle gritou, tão enraivecida que não reconhecia a própria voz. Cinco mortos-vivos continuaram comendo a carne de Nicholas, enquanto os outros quinze se aproximavam dela. Mavie achou uma de suas flechas pisoteada, e atingiu o carniceiro mais próximo dela, soltando-a com fúria de seu arco. Usou a faca para degolar outro morto-vivo, e recolheu a flecha outra vez, além de outras mais que encontrou.
Quando já tinha eliminado dez dos mortos-vivos, a energia furiosa havia passado. Outros cinco se aproximavam, cercando-a, e ela mal respirava. Passou a se sentir tonta, e cambaleou.
Teria caído ao chão e tudo acabaria ali, se uma faca não tivesse se cravado no crânio do carniceiro que quase a mordia. O morto-vivo caiu ao chão, e ela viu Glenn de pé, totalmente encharcado pelo sangue e restos mortais de Nicholas.
Enquanto Glenn enfrentava mais três carniceiros, Mavelle reuniu forças para eliminar o último restante. Havia recolhido dez de suas flechas, ainda utilizáveis.
A visão de Mavie ficou trêmula, enegrecida. Achou que iria desmaiar. Eram reviravoltas demais para um único dia.
Sem muita consciência do que acontecia, sentiu apenas que Glenn a puxava pelo braço, de volta para aquela escada. Percebeu que ele precisava muito mais de apoio do que ela própria, e mais uma vez reuniu forças que ela nem sabia ter.
— Espera! — Mavie subiu antes pela escada de incêndio, pulando degrau acima de degrau como um felino em fuga. Abaixou-se e ajudou a puxar seu grande amigo para cima.
Sem fôlego, os dois olharam um para o outro. Mavie tinha o rosto lavado de lágrimas, e Glenn de sangue.
— Você é imortal, seu japonês filho da puta — comentou Mavelle, meio rindo, meio chorando, abraçando o amigo.
Glenn não retribuiu o abraço. Parecia ainda em choque.
— Nicholas... Ele se matou... — Rhee não parecia entender o que tinha acontecido, seu olhar ficando vago como o de Nicholas.
— Hey. Hey! — Mavie se afastou do amigo, segurando seu rosto. — Você fez o melhor que pôde. Não dava para fazer mais nada. Você o salvou. Entendeu? Salvou! — Glenn olhava para Mavelle, mas não parecia enxergá-la. O descendente de coreanos passou a mão pelo rosto, sentindo o sangue de Nicholas, e retirando um resto de tripas de seu pescoço. Cambaleou, batendo na parede do prédio.
Era Glenn quem chorava, agora, desconsolado. Quem poderia culpá-lo?
Quem poderia culpá-los? Quem poderia culpar até mesmo Nicholas?
Como não enlouquecer naquele inferno?
Mavie se aproximou, seus olhos voltando a ficar marejados pelo desamparo completo do amigo. Controlou-se, evitando verter mais lágrimas, e apenas colocou a cabeça do amigo em seu ombro, dando-lhe apoio.
Glenn ali chorou, por algum tempo, até conseguir recobrar as próprias forças.
— Temos de entrar — afirmou Mavie, ela mesma já manchada e suja pelas tripas e sangue de Nicholas, depois de ter abraçado Glenn. A irlandesa guiou seu grande amigo para dentro de um apartamento no primeiro andar, que puderam acessar pela escada de incêndio.
Mavelle ligou sua lanterna, jogando longe um vaso e o quebrando para se certificar de que não havia mais mortos-vivos por perto.
Ouviu somente um som de um gemido humano, ainda vivo, responder aos ruídos. Um gemido feminino.
Mavie guiou Glenn na direção do ruído, ambos silenciosos e furtivos, evitando surpresas desagradáveis. Glenn já apontava sua pistola, cuidando da retaguarda, enquanto Mavie usava seu arco, sem munição na arma de fogo.
Encontraram uma mulher de cabelos escuros caída ao chão. A pele branca como alabastro, cheia de arranhões e hematomas. Uma estante caíra em cima dela, cobrindo-a até a altura da cintura.
— Hey. Você aí. Foi mordida? — Mavelle apontou uma flecha no cordel na direção do corpo que gemia.
A mulher levantou o rosto, devagar, encarando-a. Seus olhos também escuros se abriram em surpresa, parecendo mostrar um alívio legítimo.
— Graças a Deus! Ele não está mais aqui, está? — a desconhecida perguntou, e Glenn e Mavie se entreolharam.
— Quem? E me responda — a irlandesa indagou e exigiu, incerta.
— Não fui mordida. Ele que me atacou. Meu... Meu ex-namorado. Pode-se dizer assim — a mulher disse, com uma expressão de dor ao rosto. Colocou uma de suas mãos nas costelas esquerdas, parecendo agoniada.
— Quando vocês começaram a gritar lá embaixo, estávamos aqui buscando suprimentos. Estão todos ali na mochila. — A mulher apontou para uma enorme mochila de camping, cheia até a borda.
— Estávamos de carro, fizemos uma viagem longa. Chegamos nessa cidade hoje mesmo, e parece que tivemos o pior azar de todos os tempos. — Ela claramente se referia à imensa horda em seu encalço.
— Onde vocês moram? — Mavie continuou perguntando, desconfiada.
— Em uma comunidade em Washington. Tem fotos dentro da mochila, também — a mulher parecia desesperada de dor.
— Alguém pode me ajudar aqui, por favor? — ela quase ganiu de aflição.
Glenn aproximou-se da desconhecida, levantando a pesada estante depois de algum esforço, enquanto Mavie mantinha a flecha apontada diretamente para o rosto dela.
— Por que vocês brigaram? — indagou Mavelle, cuidadosa, enquanto conferia a mochila da mulher. Chutou a bolsa para um canto, abrindo-a quando Glenn passou a mirar a pistola na desconhecida. Conferiu a mochila, e realmente tinha tudo o que ela havia falado.
— Porque eu falei que tínhamos de ajudar vocês. Jack jamais foi muito favorável a ajudar estranhos. Mas falei que não poderíamos deixá-los, assim, para a morte... Quando os bichos cercaram o prédio, ele entrou em pânico. Decidiu fugir e me deixar pra trás, e eu reagi. Nunca esperei que ele fosse fazer isso comigo. Ele tentou atirar em mim, mas o desarmei. A arma dele está ali. — Ela indicou com a mão, e parecia ter lágrimas nos olhos, tentando se levantar, enquanto Glenn e Mavie ainda a mantinham sob o jugo de suas armas. Glenn abaixou-se, recolhendo uma bobcat do chão.
— Acha que ele chegou ao carro? — Mavelle continuou a indagar, pouco a pouco diminuindo sua desconfiança.
— Só ouvi o som de uma buzina, e nada mais — a mulher afirmou, engolindo em seco.
— Tinham mais armas? — a irlandesa manteve a postura firme.
— Só a minha. — Glenn já havia desarmado a desconhecida, e guardara outra bobcat idêntica consigo. Jogou-a para Mavie, que a destravou e apontou para a mulher.
— Vamos até seu carro ver a situação. Se estiver livre de carniceiros, vamos dirigir até nossa comunidade. Pensaremos se você pode ficar lá ou não — a irlandesa avisou, e a mulher apenas concordou com o rosto.
— Vocês são muito gentis — esboçou um sorriso, dificultado pelos ferimentos.
Glenn e Mavie levaram a mulher até o carro. A horda que seguiria pela cidade de fato havia sido dividida. Poucos mortos-vivos ainda andavam pelas ruas, a maioria dispersa, pouco ameaçadora. Ao chegarem no veículo que ela indicou, viram a porta aberta, um corpo sendo comido em cima do volante.
— É Jack? — Glenn indagou, engolindo em seco.
A desconhecida apenas meneou a cabeça, positivamente, os olhos novamente marejados. Mavelle arrastou o corpo para fora do carro, não sem antes aniquilar o morto-vivo cravando uma de suas flechas em sua testa.
Mavie disse a Glenn para ir ao banco de trás, e para que mantivesse sua arma apontada para a mulher por todo o trajeto. Já não mais desconfiava da desconhecida, não o suficiente para considerá-la perigosa. Uma mulher que acabara de apanhar do suposto companheiro, que o perdera, que quase morrera e quisera ajudá-los. E que, aparentemente, não contara nenhuma mentira até então.
Mavelle já dirigia, saindo da estrada, pegando a rota para Alexandria. Foi então que percebeu.
— Espero que entenda porque estamos fazendo isso. Precisamos estar seguros — esclareceu a irlandesa, os olhos na estrada, atropelando vez ou outra um carniceiro. Imaginava que a desconhecida compreenderia as precauções.
— Entendo perfeitamente — a mulher falou, e tinha um sorriso ao rosto. Mavie a encarou, sentindo que havia algo estranho ali.
O rosto todo da mulher sorria, menos seus olhos.
— Sabe, tem algo muito engraçado... — a mulher comentou, enquanto Mavelle e Glenn aguardavam. Mavie encarou o marido de Maggie pelo retrovisor, e depois a mulher sentada no banco ao seu lado.
— O quê? — indagou Glenn, no banco de trás.
— Vocês não perguntaram meu nome — ela riu. Mavie deu uma risadinha. Era verdade. Em meio a toda aquela tensão, nem se preocupara com isso.
— Eu sou Mavie, e ele é Glenn. Como você se chama? — perguntou a irlandesa, um pouco mais relaxada.
— Hashimoto.
O coração de Mavie quase parou de bater. Sentiu um arrepio de terror perpassar todo o seu corpo.
Ela realmente ouvira o que acabara de ouvir?
Mavelle trincou os dedos no volante e encarou a mulher ao seu lado, devagar. Antes que pudesse raciocinar o que escutara, a desconhecida movera-se tão rápida, tão determinada que Mavie mal enxergou sua ação.
Hashimoto arrancara a bobcat das mãos de Glenn e a mirou diretamente na cabeça de Mavelle, que ainda dirigia. O marido de Maggie, tão embasbacado quanto a irlandesa, mal tivera tempo de buscar a outra arma que portava.
— Pegue a arma e eu explodo a cabeça dela — Hashimoto falou, com o mesmo olhar simpático que os dera anteriormente. Não mais submisso.
E nada indefeso.
Mavelle sentiu o cano frio da arma em seus cabelos, os dedos firmes da mulher japonesa ao seu lado muito próximos, milímetros de apertar o gatilho. Seu coração agora batia pulsante, sentindo-se mais perto da morte do que em qualquer outro momento do dia.
— Você nos enganou direitinho — Mavie disse retoricamente, seu rosto em um esgar de incredulidade, seus olhos na estrada, mas mal enxergando o que via. Berry via que Glenn, pelo retrovisor, parecia sem saber como agir.
— Vocês ainda são muito ingênuos — Hashimoto falou, quase com pena, sorrindo seu sorriso sem alegria. — Tem muito o que aprender. Mas eu vou ensiná-los. Posso guiá-los. Vocês podem ser fortes. Não precisam morrer agora... Preciso de vocês vivos. Os mortos não contam histórias — sorriu.
— Você é louca — Mavelle rebateu, seu coração estourando para fora de sua garganta. Mal conseguia respirar.
— Não. Eu sou a mais sã em todo este mundo — retorquiu a mulher japonesa, rapidamente. — Vire aqui. — Hashimoto ordenou, e Mavie não teve outra escolha. Fez uma curva distinta da rota escolhida inicialmente, distanciando-se de Alexandria.
Viu um grupo de cerca de quatro pessoas sair de um matagal. Todos com roupas resistentes, armados dos pés a cabeça.
— Freie. Venham conhecer alguns dos meus soldados — Hashimoto ordenou, enquanto os desconhecidos se aproximavam e desarmavam o ex-entregador de pizza e a irlandesa.
Mavie piscava os olhos, sem conseguir acreditar em tudo o que acontecera. Tantos haviam morrido. Achara que conseguira salvar Glenn, para terminar assim. Desse jeito. Quantos mais iriam morrer até o final do dia?
Hashimoto saudou os membros de seu Exército, cada um deles usando de diferentes formas um mesmo ideograma. Uma mulher o usava em seu gorro, outro em uma camisa, outro em uma tatuagem e, o outro, em um pingente de madeira pendurado em um cordão. Ideograma este que provavelmente significava o nome de sua líder.
A japonesa ordenou que colocassem Glenn e Mavie de joelhos. Um homem parrudo e forte se aproximou dela, vendando-a e tapando sua boca com silver tape. Outro homem ao lado dela fez o mesmo com Glenn Rhee. Amarraram seus braços e suas pernas, e ela ouviu o som do porta-malas do carro ser aberto. Jogaram-na lá dentro, fechando o compartimento com estrondo.
Sozinha ali, no escuro, ouvindo o som de Glenn se debatendo e sendo arrastando para dentro do carro de alguma forma, Mavie mal sabia o que pensar. Como raciocinar. Não tirava a imagem de Peggy e de Annie de sua cabeça.
Assim como a do arqueiro a quem prometera que tudo ficaria bem.
Desculpa, Daryl.
*****
Billy Ray havia acabado de matar o último invasor do trailer. Coberto pelo sangue dos sujeitos com um “W” marcado na testa, ele e Rick, com uma ferida preocupante na mão, tiveram de lidar com diversos Wolves que surgiram como que do nada para lhes matar.
O que diacho está acontecendo? Billy pensava, desesperado, preocupando-se. O resto do grupo teria chegado bem?
Becky teria chegado bem?
Era difícil desviar daqueles pensamentos, depois daquela corrida ensandecida com Rick Grimes até o trailer. Mal conseguiram dirigir alguns metros quando foram surpreendidos.
Billy viu que Rick mexia nos bolsos de um dos mortos, achando algo estranho lá dentro. Um pote de comida.
Mais especificamente, de comida para bebês.
— Hey — Billy falou, ansioso. Segurou o ombro de Rick, que se afastou, irritado.
— Hey. Não é hora de pensar nisso. Precisamos terminar o plano, certo? — Billy Ray insistiu, tentando acalmar Grimes, que parecia mais e mais à beira de um surto. Billy sabia reconhecer aquilo. Ele mesmo já havia passado por isso algumas vezes.
— Vamos. Vamos, eu vou dirigir — Billy tentou, olhando com cuidado para Rick, que não o fitava de volta. Aproximou-se do volante, e começou a tentar fazer o trailer pegar.
O RV havia morrido.
— Não, não — Billy Ray sussurrou, entredentes, incrédulo.
— Glenn, é o Rick — Rick chamou no walkie talkie, esperando uma resposta. Apenas interferência. Desligou e tentou de novo, enquanto Billy o encarava, angustiado.
— Glenn? — Grimes perguntou, parecia olhar para longe. Billy entendeu aquilo. Estava procurando o tal sinal de fumaça.
— GLENN! — Rick perguntou, mais afoito, mais irascível, e Billy Ray se levantou, sabendo que talvez tivesse de contê-lo. A mão de Rick continuava sangrando, e ele não permitira que Billy tentasse ajudá-lo a estancar o sangue. Estava totalmente fora de controle.
— GLENN! — Rick Grimes quase rugiu no walkie-talkie, e o que ele ouviu surpreendeu Billy Ray de forma pavorosa.
— Olá, Rick. É a Hashimoto — respondeu uma voz feminina no walkie talkie, em um timbre calmo e debochado ao mesmo tempo.
Rick olhou para o seu rádio comunicador, incrédulo, e depois para Billy, como se não acreditasse. Ouviu o som de um carro se aproximando, e logo o viu. Dele, saíram quatro pessoas munidas de fuzis e armas pesadas usadas em guerras civis.
Grimes levantou o revólver e Billy Ray o rifle de caça, mas aquilo não lhes adiantou.
Uma mulher japonesa saiu do carro, por fim, arrancando dele o corpo de alguém repleto de sangue, amarrado dos pés a cabeça e amordaçado. Retirou a venda dos olhos do sujeito, e Billy reconheceu, à distância, Glenn Rhee.
A japonesa mantinha duas pistolas apontadas para a parte de trás do crânio do amigo de Rick Grimes, ela mesma usando o corpo do rapaz asiático como escudo.
Em seguida, um sujeito parrudo que usava uma camiseta com um enorme ideograma japonês estampado, foi até o porta-malas do carro em estilo jipe. Retirou de lá outro corpo, de cabelos morenos presos em um rabo de cavalo.
O coração de Billy Ray quase parou quando retiraram a venda da refém. Ele já sabia, mas não queria acreditar.
Haviam pegado Mavie também.
Uma mulher usando um gorro com o mesmo ideograma japonês do sujeito com a camisa estampada, junto a ele próprio, miraram suas AR-15s na cabeça de Mavie Berry. Um movimento errado, e ela teria seu cérebro destroçado em pedacinhos.
Um soldado que usava um cordão de madeira com o tal ideograma se aproximou da líder do Exército de Wyoming County. Levantou o rádio comunicador na altura de seu rosto, e ela sorriu um sorriso horripilante, enquanto falou:
— De líder para líder, Rick Grimes... Acho que temos muito o que conversar.

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