Hunter's Instinct
48 Episódio 48 - What Lies Behind The Curtain
Notas iniciais
"He who fights with monsters should be careful lest he thereby become a monster.
And if thou gaze long into an abyss, the abyss will also gaze into thee.”
~ Friedrich Nietzsche
Não havia outro jeito.
Rick Grimes desceu do trailer, vigiado de perto por dois sujeitos que pertenciam ao famigerado Exército de Wyoming County. Pelas ordens de sua líder, dois homens musculosos portando uma espingarda militar e um rifle G36 encaminharam o policial e o sulista do Alabama até o local onde Glenn Rhee e Mavelle Berry haviam sido detidos como reféns.
Rick deu um longo olhar avaliador para a mulher que se auto-intitulava Hashimoto, a líder japonesa do tal Exército, cuja sombra ameaçadora e próxima os preocupava há tanto tempo. Ela parecia honestamente simplória, vestindo-se de forma despretensiosa, com a pele branca repleta de hematomas e arranhões.
A mulher segurava duas pistolas bobcat simples contra a cabeça de Glenn. Não tinha o físico ameaçador, somente compleição e estatura medianas. Se não estivesse sob as miras de duas armas de guerra, Grimes reputou que poderia muito bem levantar-se e subjugá-la sem maiores problemas.
Aquele sorriso seco que a mulher lhe dava, fitando seus olhos sem parar não o ameaçava em nada. Já lidara com gente daquele tipo antes. Quem seria ela, além de mais um Governador, mais um Gareth, mais um Jed? Quem seria ela além de mais um dos doentes que ele prendeu e derrubou até mesmo na época em que trabalhava como policial antes da infecção dos errantes? Mais uma louca, apenas mais um obstáculo irritante a ser superado para garantir a sobrevivência dele, de sua família. De seus amigos.
Rick Grimes, frio, impassível, alheio aos olhares assustados e desnorteados dos outros reféns, mirava Hashimoto em seus olhos escuros impiedosos, e apenas a julgava de volta.
Ela não tem ideia de com quem é que está lidando.
— Rick Grimes, avisei a você que precisamos conversar. Para tanto, vai ser necessário que fale — Hashimoto disse, sua voz calma e em um tom grave feminino exibindo deboche. — Coloquem ele aqui. — A líder do Exército apontou para um local mais a frente.
Assim que a mulher japonesa ordenou, os dois homens que conduziam Rick e Billy Ray os forçaram a ficar de joelhos, e algemaram em seguida suas pernas e seus braços. O capanga com o walkie talkie empurrou Glenn Rhee para o lado, enquanto a mulher que usava o gorro com o ideograma de Hashimoto propeliu Berry para outro canto.
Logo, os soldados de Wyoming County fizeram com que os quatro reféns formassem um semicírculo, com Rick Grimes ajoelhado centímetros a frente de Glenn e Billy Ray. Ao lado do sulista do Alabama, na outra ponta do semicírculo, Mavelle Berry tinha um brilho aflito em seus olhos.
— O que você quer? — Rick perguntou, direto, não se abalando com todos aqueles gestos de imposição de poder. Podia sentir o cano frio do rifle G36 perto de sua nuca, mas conseguia sublimar qualquer tipo de sentimento de receio. Naquele momento, sentia apenas desprezo por sua pretensa algoz.
— Eu já disse: quero conversar — Hashimoto retrucou, dando um sorriso enviesado para Grimes. Seus olhos fitaram cada um dos reféns, enquanto sua cabeça pendeu levemente para o lado direito. Parecia analisá-los, ter algum tipo de conjectura em mente. Suas pistolas mantinham-se apontadas na direção dos reféns, dividindo-se entre Rick Grimes e Glenn Rhee.
Rick aferia friamente a gravidade da situação. Seus ouvidos escutavam ao longe o som contínuo e repulsivo da horda de errantes, movimentando-se para um local longínquo daquela paragem dos reféns. Pareciam zumbidos e ruídos irritantes de insetos, sumindo ao longe.
Olhando de esguelha, reparou que o sujeito com a espingarda militar a tinha mirada contra o crânio de Glenn, enquanto a mulher de gorro mantinha uma AR-15 encostada na bochecha direita de Mavelle. O homem com o G36 continuava impassível e perigosamente próximo dele, enquanto o último soldado de Hashimoto ali presente apontava outra AR-15 contra o pescoço de Billy Ray.
Rick Grimes piscou os olhos, tentando raciocinar rápido. Não poderia vencê-la ali, na força. Não sem que matassem seus companheiros assim que ele se movesse.
— O que você tem para me contar, Rick? Seu pessoal é mesmo intrigante... — disse Hashimoto, chutando para trás as armas de todos os quatro reféns, dispostas anteriormente por seus soldados aos pés dela. Assim, deixou-as longe demais para que qualquer um do grupo de Rick pudesse alcançá-las em algum movimento suicida.
— Eu não sei o que quer de mim. De nós — complementou o policial, mantendo seus olhos fixos no olhar gélido da mulher japonesa. Reparou que ela sorria continuamente, e todo seu rosto se adaptava ao sorriso. Com exceção de seus olhos, sempre duros, impiedosos.
— Bem, eu posso dizer que você pode ficar despreocupado — a mulher deu uma breve risada. Rick reparou que seus soldados não se moviam. Cumpriam a tarefa de manter todos sob a mira de suas armas fortemente carregadas. Eram tão imperturbáveis que pareciam até mesmo desprovidos de vontade própria.
— Pode ficar calmo, porque a horda que estavam tentando desviar de sua comunidade há tanto tempo está sendo controlada pelo meu Exército. Perto do cruzamento da Marshall com a Redding Avenue, paramos um dos nossos maiores caminhões. Eles estão presos dentro do labirinto de carros que vocês prepararam. É claro, você pode imaginar que não por muito tempo... — A japonesa pareceu conter um bocejo, como se começasse a ficar entediada. Aquele tipo de distância banal ante uma situação tão estressante quanto aquela revelava muito sobre o emocional daquela mulher. De uma forma que não agradou Rick Grimes em nada.
— Eu não arriscaria meu pessoal em uma missão tão audaz se não fosse por um ótimo motivo. Nosso tempo está contando, Rick, e o de vocês também. — Hashimoto tirou do bolso o relógio que Hershel dera a Glenn. Isso fez o descendente de coreanos soltar uma respiração entrecortada e uma exclamação que não pôde conter, abafada pela silver tape em sua boca. Foi um movimento quase imperceptível, mas que não passou incólume pela assimilação rápida e apurada de Hashimoto.
— É seu? — a mulher japonesa sorriu ainda mais, encarando Glenn Rhee com algum tipo de cintilação cruel em seus olhos. — Posso te devolver mais tarde. Só vai depender de você. — Os olhos dela se estreitaram, mantendo o mesmo sorriso sem alegria no rosto.
— O que você quer? — Rick questionou outra vez, perdendo um pouco da indiferença inicial. Aquela mulher não o assustara, mas estava enfurecendo-o aos poucos.
— Seus outros amigos... Daryl, Abraham e Sasha, são esses os nomes, não? — A japonesa passou os olhos pelos rostos de todos os reféns. Rick sentiu uma sensação desagradável, como uma espécie de contração muscular involuntária subir pelo seu corpo, ao perceber que ela de fato os vigiara a ponto de saber seus nomes.
— Eu sei exatamente para onde estão indo. Tenho um pessoal a postos vigiando aquela rota. E quero que eles continuem no mesmo caminho, e não desviem. Senão, passariam por aqui e atrapalhariam tudo trazendo o resto daquela multidão de rastejantes. O dia de conversar com esses três ainda ainda vai chegar. Mas não é hoje. Estão entendendo? — Hashimoto encarou cada um deles.
Os reféns não se manifestaram.
— Eu fiz uma pergunta. Espero uma resposta — a japonesa insistiu, e passou a olhar somente para Rick. Nesse instante, como se coordenado por alguma ordem silenciosa, o homem com o rifle G36 deu uma coronhada tão forte no queixo de Grimes, sem aviso, que causou um corte fundo em sua gengiva, trincando um de seus dentes.
Rick cuspiu sangue, enquanto seus amigos o miravam, surpresos e ainda mais aflitos.
— Estamos — Billy Ray respondeu rápido, preocupado. — Estamos, dona — garantiu ele, seus olhos castanhos angustiados. A mão de Rick Grimes continuava a sangrar profusamente, pelo ferimento ainda não tratado.
— Ótimo. — Ela relaxou os ombros, e deu mais um sorriso cínico. — Então, já que estamos conversando, tenho outro pedido a fazer para vocês. Poderão escolher, é claro, mas pense bem sobre o que preferem. — Ela novamente varreu os olhos pelos rostos de todos os reféns.
— Vocês podem falar com um deles e mentir que chegaram a Alexandria, para que assim os três continuem a missão e nada aconteça com eles. Ou vocês podem arriscar e não falar nada, e caso um deles desvie da rota que estão fazendo agora, serão instantaneamente mortos pelo meu pessoal. Vou dar um minuto para que decidam. — Hashimoto parou de falar, completamente indiferente as exclamações abafadas e olhares destorneados dos reféns à sua frente, e passou a contar os segundos pelo relógio de bolso de Hershel. — Já foram cinco segundos — afirmou ela, com uma calma desumana.
Rick engoliu em seco, ainda sem saber como agir. Seria aquilo uma armadilha? Será que queria que Daryl, Abraham e Sasha continuassem no caminho para que fossem atraídos para algum lugar onde outros soldados estariam, e poderiam abatê-los?
Mas por que ela não teria matado a todos desde o começo? Se ela sabia onde estavam, se sabia seus nomes, se tinha mapeado a rota do plano e se sabia até mesmo onde ficava Alexandria? Por que ficara tanto tempo nas sombras? Aquilo não fazia sentido para o policial, por mais que tentasse ler nas entrelinhas as atitudes daquela mulher bizarra.
— Dez segundos — continuou Hashimoto, e dessa vez realmente bocejou.
Rick olhou para os outros reféns, ainda tentando decidir o que fazer. Glenn o encarava de volta, também indeciso, enquanto Mavelle o fitava desesperada, meneando a cabeça. Rick não sabia se ela negava o silêncio que o policial fazia ou se tentava lhe dizer para que não entrasse em contato com os outros. Billy Ray mantinha os olhos fixos nos olhos de Grimes, também expressando em silêncio dúvida, porém medo evidente.
— Quinze segundos — a japonesa acresceu.
— Prove — Rick disse, finalmente. — Prove que sabe de tudo o que está falando. Prove que pode mesmo matá-los, e falamos com eles — decidiu o policial.
Hashimoto moveu a cabeça para o lado esquerdo, agora, olhando com cuidado para o policial. Balançou a cabeça, soltando uma risada seca. Parecia avaliá-lo como uma mera criança arteira, se achando mais esperto do que realmente era.
— Eu não posso provar que estou vigiando as rotas. Mas eu posso provar que o alcance do nosso Exército é maior do que você imagina, Grimes. Só lembre que o tempo está contando. Tic-toc. — Ela abriu um largo sorriso, enquanto a mulher de gorro que mantinha a AR-15 apontada para Mavie se afastou um pouco. Hashimoto assumiu o lugar dela, a pistola bobcat prensada contra os cabelos escuros da irlandesa, enquanto a outra mulher retirava a enorme mochila de trilha que tinha às costas, manchada de sangue fresco.
— Como eu imagino que meu querido Tucky deve ter contado a essa altura — Hashimoto disse com deboche, ilustrando claramente saber que o soldado fugitivo se unira aos moradores de Alexandria — precisei contratar certos... Funcionários, que atendem pelo nome de Wolves. Hoje eles fizeram uma incursão na comunidade de vocês, enquanto estavam ocupados demais retirando os mortos-vivos da pedreira. — Ela levantou as sobrancelhas, como se lamentasse a falta de timing do grupo de Rick.
— Queria que avaliassem de perto o tamanho do local. Os armamentos. As habilidades dos seus, Rick — afirmou a líder do Exército de Wyoming County, a mão firme muito perto gatilho da bobcat que poderia estourar a cabeça de Mavelle em um tiro.
Glenn, Mavelle e Billy começaram a ter dificuldades severas de se manter controlados. Mavie fechou os olhos, abaixando a cabeça, enquanto Billy apenas olhava para Rick, o queixo caído com o silêncio e a inércia do policial, parecendo incrédulo. A qualquer momento, poderia tomar alguma atitude impulsiva.
Rhee, porém, parecia o mais abalado de todos. Quando Hashimoto afirmou que mandara capangas visitarem Alexandria, o descendente de coreanos passou a se debater, recebendo seguidas coronhadas no rosto já manchado de sangue.
— Sabe, eu não os mandei massacrá-los. Mas negócios são negócios, e parte do nosso acordo era que eles manteriam os meios típicos de ação. — A japonesa deu de ombros, como se não pudesse evitar aquilo. Com uma das bobcats em mãos, mandou que a soldada virasse a mochila de cabeça para baixo e mostrasse o conteúdo no solo arenoso da estrada.
— O que eu queria mesmo eram informações. E eles acharam um jeito bem peculiar de me contar — a líder do Exército de Wyoming County disse com uma nota de humor na voz que não condizia em nada com o horror do que eles viram.
Rick Grimes viu cabeças amassadas marcadas com W caindo como se chovessem da mochila, ao chão. Algumas delas mordiam o ar. Braços, pernas — alguns deles de crianças —, também faziam parte da bagagem daqueles soldados.
Reconheceu ali cerca de dez moradores de Alexandria desmembrados e decapitados, e sentiu um zumbido começar a prejudicar sua audição. Percebeu todos os amigos, ao seu lado, arregalarem os olhos de horror ao ver aquela exposição macabra e doentia.
— Acho que já puderam perceber que não estou blefando. E ah, é claro! Faltam cinco segundos — Hashimoto comentou, leve e tranquila ao olhar o relógio, como se narrasse o tempo para o início de algum programa de televisão. Mas Rick já fora distraído. Aquela mulher conseguira finalmente impressioná-lo.
Sua culpa. Foi sua culpa. Uma voz que estranhamente lhe lembrava a de Shane falou em sua mente.
Rick Grimes demorou a compreender o que acontecera em seguida. Mavelle parecia gritar, abafada pela silver tape, encarando com olhos quase saltando de seu rosto de tão arregalados a líder do Exército de Wyoming County. A japonesa fez um gesto curto na direção da mulher de gorro, que por sua vez arrancou a fita que calava a garota de dentes salientes.
— Eu faço! Eu minto, prometo que minto — Mavelle Berry tremia dos pés a cabeça, fortemente amarrada, lágrimas grossas contidas com muito esforço marejando os olhos esbugalhados de tensão.
— O walkie talkie — Hashimoto ordenou ao homem que mantinha o rifle G36 na cabeça de Rick. O policial viu o sujeito atirar o aparelho de comunicação para a soldada de gorro, que substituiu a japonesa na contenção da refém irlandesa, entregando-lhe o comunicador. Com a AR-15 da militante encostada em sua bochecha, Mavelle olhou para a líder do Exército, respirando fundo para se controlar.
— Vou te dizer como vai ser: você mente, e mente bem. Se algo na sua voz ou no que você falar fizer com que eles mudem de ideia, ela vai descarregar o pente da arma no seu rosto — a japonesa indicou a mulher de gorro com a AR-15 já prensada contra a bochecha de Mavie — e eles vão morrer assim que saírem da rota que estão. Se algum de vocês fizer qualquer ruído, ela morre e os outros três morrem em breve — a líder do Exército olhou para os outros reféns. — Entendido? — Hashimoto olhou para a irlandesa outra vez, e agora parecia empolgada, não mais entendiada. Como se estivesse testando Mavie.
— Sim — Mavie Berry retorquiu, engolindo o choro e respirando ainda mais fundo. A líder do Exército de Wyoming County e a garota irlandesa trocaram olhares por alguns segundos, até que Hashimoto abriu outro largo sorriso sem felicidade alguma.
Ela apertou o botão do walkie talkie que faria a chamada, e logo escutaram a estática indicando que o aparelho tentava se comunicar com o outro. Rick percebeu que ele não era o único contendo a própria respiração. Glenn e Billy estavam tão imóveis quanto o policial.
— Glenn? Está tudo ok? — Rick escutou a voz de Daryl enquanto viu os lábios de Mavelle se crisparem. Não hesite. Pensou ele, nervoso.
— Hey. É a Mavie. — A voz da irlandesa soou surrealmente calma para aquele momento. — Nós já chegamos. Só para avisar que está tudo bem. Tivemos uns problemas, mas todos nós voltamos. Estamos inteiros. Rick também já chegou. Está tudo bem aí? — indagou, e Grimes se surpreendeu com a boa atuação da garota, ainda mais sob a mira de uma carabina de guerra.
— Tudo ok. Estamos contornando sem problemas. Acho que chegaremos um pouco depois de anoitecer — Daryl soava também calmo pelo walkie talkie. Rick nunca escutara a voz do amigo tão mansa assim.
— Ótimo. Estamos esperando — completou Mavie, as lágrimas descendo por seu rosto, mas sua voz ainda espantosamente tranquila.
— Se cuida, Esquila — Daryl Dixon falou pelo comunicador com ternura inédita, e todos ouviram o som da chamada ser desligada.
Hashimoto guardou o rádio comunicador em seu outro bolso, o sorriso cruel estampado em seu rosto.
— Esquila! Mas que graça — riu com deboche a líder do Exército de Wyoming County, outra vez estudando seus reféns. — Você realmente tem um grupo bastante interessante, Rick Grimes...
— Você já conseguiu o que queria. Estamos garantidamente sozinhos. — Rick apontou com o rosto para os outros três reféns, recobrando a calma. — Continue. Diga logo o que quer de nós.
O sol já despontava baixo no horizonte, escurecendo aquele pedaço desolado de estrada velha onde os reféns e alguns dos soldados do Exército de Wyoming County e sua líder se encontravam. A noite cairia a qualquer momento, e Rick Grimes estava determinado a escapar daquela situação o mais rápido que pudesse, para depois poder se concentrar em pensar em alguma forma de matar aquela mulher.
Rick começou a ter a estranha impressão de ouvir galhos se partindo e sons abafados vindos dos bosques e florestas próximos. Poderiam ser apenas alguns poucos errantes, mas de alguma forma o som o perturbava.
Uma buzina curta e abafada foi ouvida ao longe. Hashimoto deixou o olhar seguir na direção dela, e, por um segundo de loucura, Rick temeu que fosse o carro de Sasha. Momentos depois, contudo, o alívio de ver que não se tratava de seus amigos foi substituído por uma nova preocupação.
Um caminhão do Exército americano, provavelmente o que anteriormente fechava a rua impedindo a horda de errantes de se aproximar de Alexandria, se dirigia para o trailer RV onde Rick e Billy foram surpreendidos pela mulher japonesa. O caminhão parou, e Grimes sentiu como se tivesse engolido uma rocha.
Cerca de dezenas de outros membros do Exército de Wyoming County desciam do caminhão e se aproximavam da líder, fechando ainda mais o semicírculo onde os reféns eram mantidos, e traziam um novo refém ao grupo.
Carter, que fugira de Rick e daqueles que tentaram conter os mortos-vivos naquela manhã, desaparecendo em meio à mata, ali estava, repleto de hematomas e arranhões, sujo de folhagens, lama e de manchas do próprio sangue. Foi jogado de joelhos ao lado de Glenn, também já amarrado e amordaçado.
Rick Grimes mirou todos os soldados que os cercavam. Contou vinte e oito, vinte e nove incluindo Hashimoto. Todos eles usavam armas pesadas, como AK-47s, rifles de combate, carabinas e metralhadoras diversas, e uniram-se em fileiras claustrofóbicas impedindo qualquer tipo de fuga desesperada dos reféns.
— Agora podemos mesmo chegar ao ponto — Hashimoto falou, parecendo animada. — Estava esperando a nossa carona de hoje — troçou, apontando o amplo e fortificado caminhão.
— É muito simples, Rick. A horda está a caminho da sua comunidade. Você, com sua ideia de desviar os mortos-vivos da pedreira, simplesmente liberou o caminho para mim. Era a brecha que eu esperava já há algum tempo. — A japonesa sorriu em triunfo, cercada por seus militantes.
— Sua comunidade estará cercada em alguns minutos. Cerca de meia hora, eu calculo. E vocês vão ter todo o tempo para pensar se vão aceitar a única solução do problema — acrescentou a mulher cruel, sorrindo por todo o tempo.
— Vocês ainda não devem estar entendendo. Vocês estão presos não só com rastejantes às suas portas, mas mentalmente! Com ideias que há muito já não se aplicam. Já não existem — disse fervorosamente a líder. — Compaixão pelos mais fracos. Pelos incapacitados. — Ela encarou Glenn. — Apego emocional — falou, olhando para Mavelle, dessa vez.
— Vocês podem ser fortes, eu sei disso, caso contrário não teriam aguentado até agora. Mas não são fortes de verdade, ainda! A qualquer momento, por suas fraquezas que não conseguiram superar, podem morrer! — ela garantiu, agora séria, não mais sorrindo. Encarava a todos os reféns com um olhar compadecido, como se lhes ensinasse uma verdade que ainda não conheciam.
— As regras do mundo antigo não existem mais nesse mundo novo. Ter pena dos fracos e tentar protegê-los, manter suas vidas, é nada mais do que atrapalhá-los! O destino dos fracos é inevitável! Os fracos vão morrer. São incapazes de sobreviver. Para sobreviver hoje em dia, temos de nos transformar. Ou nos transformaremos nisso — Hashimoto apontou com a bobcat para as cabeças dos moradores de Alexandria decapitados, já transformadas em errantes.
— É uma missão dura e difícil levar essa verdade aos sobreviventes desse caos. — Hashimoto andava de um lado a outro, discursando para os reféns com eloquência. — É uma missão, acima de tudo, altruísta. Eu não sou mais quem eu era, eu não sou sequer alguém. Sou Hashimoto, porque o mundo precisa de Hashimoto. Precisa de uma líder, que não seja uma pessoa! Uma líder que seja uma ideia, uma verdade. A chave da sobrevivência. O mundo precisa do Exército de Wyoming County. Porque nós somos os herdeiros destas terras desoladas. Nós podemos salvar e ajudar vocês todos — afirmou ela, seus olhos cintilando de determinação.
— Vocês podem ser membros do Exército. Temos as portas abertas — a japonesa ergueu os braços, abrindo-os de forma generosa, encarando os reféns. — Treinaremos vocês para não mais sofrerem por suas fraquezas. Sem mais limitações. E, em contrapartida, vocês nos dão sua força. O que produziram, armazenaram e estocaram em sua comunidade, depois que nos livrarmos dos mortos-vivos. — Ela deu um olhar particularmente sensível para Mavie, e depois para Glenn.
— Vocês dois em especial! São ágeis, espertos, cheios de recursos! Eu poderia transformá-los no melhor que podem ser — garantiu a japonesa, abaixando-se na frente de Mavelle. Depois, levantou-se e se agachou próxima a Glenn Rhee.
Tirou a silver tape do rosto dele, e falou, outra vez sorrindo.
— Nós também sabemos nos divertir, além de trabalhar... Posso converter toda essa sua doçura inútil em uma força sem igual. Você vai ser melhor do que jamais poderia imaginar. — Rick Grimes viu que Hashimoto sorriu ainda mais, passando os dedos pelo rosto de Glenn, avaliando-o agora com outro interesse nítido em seu rosto.
— Eu amo minha mulher — Glenn redarguiu, impassível, seus olhos escuros evidenciando apenas raiva pela japonesa.
Hashimoto soltou uma risada aguda, levantando-se, mas ainda encurvada na direção do descendente de coreanos.
— Se ela se provar capaz como imagino que você pode ser... Ela pode se unir a nós também. Como eu disse, não tenho as falhas do mundo antigo... Não sou ciumenta — debochou a líder japonesa, retirando os olhos cobiçosos do rosto de Glenn para agora olhar para Rick e Billy Ray. Ignorava Carter completamente. O sol já se pusera, e o crepúsculo só deixava Hashimoto com ares ainda mais ameaçadores.
— Já você, Rick Grimes... Serei direta: você me deixa entediada. Eu já cansei de destituir falsos líderes como você. Meros sujeitos vaidosos, arrogantes, julgando-se capazes de chefiar grupos, comunidades inteiras... Com listas e listas de mortes nas costas. Com inúmeros erros carregados em amargura. Com pessoas que os seguem por medo, por ilusão, e que estão fadados a tombar pelo caminho por sua incapacidade. — Ela suspirou, cansada. — Eu estou lhe dando a oportunidade de renunciar a essa pretensão impossível, e aceitar ser mais um membro do Exército. Podemos trabalhar juntos — assegurou a líder do Exército de Wyoming County, lhe dando um olhar misericordioso.
Dessa vez, Rick Grimes não mais aguentou. Ele mesmo começou a rir, rir alto, quase enlouquecido. Não se importava mais com as palavras de Tucker. Ele poderia ser só mais um garoto impressionável, enganado por uma farsante como aquela mulher ridícula.
— Algo engraçado? — Hashimoto indagou, sorrindo junto com Grimes. Os outros reféns encaravam o policial com descrença. O Exército apenas apertou o cerco ao redor do semi-círculo.
— Você. Você é muito engraçada. Você e todo esse seu teatro ridículo — Rick finalmente foi honesto, talvez a um nível perigoso demais. Glenn e Mavie o encaravam incrédulos, como se lhe dissessem com o olhar para parar de falar. Billy Ray e Carter apenas se mantinham quietos, mirando Hashimoto com atenção.
— Você pensa que está nos assustando? Eu já enfrentei gente como você. E matei cada um deles. — Os olhos de Rick Grimes cintilaram perigosamente ao encarar a japonesa.
— Você diz que eu sou vaidoso, arrogante e tudo o mais, mas olhe esse seu “convite”! — Grimes quase gargalhou outra vez. — Você usa esses seus vinte fantoches para nos assustar, mostra as armas que têm e, quer saber? Eu não acredito em nada disso — desdenhou o policial. Os olhos de Hashimoto faiscaram.
— Eu não acredito nem por um segundo em nenhuma das merdas que você falou. Eu não acredito sequer que essas pessoas te sigam de verdade por qualquer uma das razões que não sejam o medo ou a ilusão que você mesma falou, ironicamente! Eu não acredito nem que existam mais membros dessa sua palhaçada de Exército do que todos os que você reuniu hoje! — Rick moveu o rosto de lado, encarando enfurecido aquela mulher maldita.
— A conversa no walkie talkie? Todo esse discurso megalomaníaco? Tudo um bando de merda, conversa pra assustar e nos impressionar. Sugestões, apenas. Você não me convence. Você é mais um “maga de Oz” disfarçada. Tem toda a pompa e toda a aparência com essas suas marionetes, mas são apenas truques. Sombras na parede — Rick destilava desdém.
— Sabe o que há por trás da cortina do seu show? Nada. Apenas uma mulher maluca, que eu vou matar muito em breve. Não temos medo de você — Rick Grimes sentenciou, certeiro, desprezando totalmente a líder do Exército de Wyoming County.
Hashimoto levantou-se devagar, ainda encarando Rick Grimes. Não sorria. Olhou para os lados, ergueu os braços, e gritou:
— ACENDAM AS TOCHAS!
Um som como se subitamente um incêndio fosse provocado se fez ouvir após o grito da mulher impiedosa. Ao longo da floresta ao redor da estrada abandonada onde estavam, de todos os cantos, Rick via chamas mais próximas e chamas mais longínquas de tochas sendo acesas, iluminando o início de noite até quilômetros de distância.
Foi como um murro em seu rosto.
— Acorde, Rick Grimes! — Hashimoto retornou a conversar com o policial. — Por que você acha que nenhum rastejante chegou perto de onde estamos por esse tempo todo de conversa? Quem você acha que está mantendo as estradas livres e guiando os mortos-vivos para Alexandria? — Sorriu a mulher japonesa, friamente. — Nosso Exército segue Hashimoto até os confins desse mundo arruinado!
— Você e seu grupo tem duas escolhas. — Ela fez um “dois” com o dedo indicador e o médio. — Ou vocês se unem ao nosso Exército, e provam que podem ser fortes... — A líder outra vez mirou o rosto de cada um dos sobreviventes reféns. — ...Ou vocês se comprovam fracos amedrontados. Incapazes. E o destino dos incapazes é sempre o mesmo. Nós os libertamos. — Apontou para as cabeças de errantes degoladas.
— Eu vou deixar que pensem bem nas suas escolhas. Que contem para seus amigos em Alexandria sobre a nossa conversa. Mas já estou disposta a levar qualquer um de vocês. Basta pedirem — alegou a líder do Exército, voltando à mesma calma implacável que mostrara antes.
Segundos de silêncio se passaram, nos quais Rick Grimes ainda não se decidira como agir.
— E então? — Hashimoto aguardou, jogando o relógio de Glenn aos pés do descendente de coreanos, lhe dando um sorriso sugestivo.
Subitamente, como se acordado de um torpor, Carter começou a se mover. Debateu-se loucamente, sendo contido sem dificuldades por um soldado, um homem musculoso e bronzeado. Em seguida, o mesmo soldado retirou a silver tape que calava o sujeito calvo.
— Eu vou! Eu vou com vocês! — Carter se ofereceu, desesperado. Hashimoto voltou lentamente os olhos para ele, e caminhou devagar até onde estava. Abaixou-se até ele, o encarando com um olhar inescrutável. Rick não fazia ideia do que ela pretendia. Não conseguia ler as feições controversas daquela mulher.
— Enid! — Hashimoto chamou alto, quase aos berros. Um calafrio perpassou a coluna de Rick Grimes.
O que ele mais temia... De fato tinha acontecido.
A garota adolescente levou alguns segundos para sair em meio ao bosque onde se camuflara. Munida de uma AK-47, os olhos vazios como se estivesse entorpecida, Enid apenas seguiu na direção de Hashimoto. Tinha inúmeros cortes no rosto e nos braços, além de hematomas ao longo do corpo.
— Leve Carter até o caminhão. Ele vai fazer parte do Exército — disse mansamente a líder. Carter pareceu quase aliviado, incrédulo de que tudo se resolveria tão rápido.
— Mas, é claro... Ele se ofereceu rápido demais. Com emoção demais. Não pareceu legítimo. Não podemos confiar em alguém assim, certo? — Ela encarou Enid, que meneou a cabeça em negativa.
— Não — alguns membros do Exército concordaram em uníssomo, quase uma vintena, e outro arrepio subiu pela espinha de Grimes. Hashimoto parecia até mesmo líder de alguma seita religiosa, tamanha a fidelidade louca daqueles que a seguiam.
— Para uma língua descontrolada... A punição necessária. Vai fortalecê-lo — assegurou Hashimoto, e Enid concordou. Subitamente, dois homens parrudos do Exército de Wyoming County se moveram de forma a segurar Carter onde estava. Amarrado, porém não mais amordaçado, o homem só pôde implorar.
— Não! NÃO! — berrou Carter, olhando para Enid, que arrancava uma faca de seu bolso. Rick ainda se assustava com a falta de emoção nos olhos da garota. Havia algo de muito errado naquilo. Ela não era assim.
Os dois homens que seguravam Carter o forçaram a abrir sua boca, e Enid puxou sua língua para fora. Em seguida, cortou-a sem demonstrar nenhuma emoção, fazendo sangue jorrar da boca aberta do homem covarde.
Enid jogou a língua de Carter aos pés de Rick Grimes, a um movimento ordenado por Hashimoto. O homem caíra ao chão, estrebuchando de dor, a garganta se engasgando com o próprio sangue, um som hediondo saindo de sua boca mutilada.
— Carter. Se levante. Vá para o caminhão — sentenciou a líder do Exército, aguardando.
O homem continuava se debatendo dolorosamente junto ao chão, em completo desespero.
— Carter. Eu não vou repetir. Você vai se levantar e vai até o caminhão, se quiser provar que merece ser do Exército — a líder de Wyoming County falou, abaixando-se próxima do homem mutilado. Ele apenas a encarou desesperado, incapaz de reagir.
Hashimoto estendeu a mão para um de seus soldados, que lhe entregou uma peixeira. Carter arregalou ainda mais os olhos, enquanto ela disse.
— Fraco. — Hashimoto sequer piscou. Em um movimento limpo e certeiro, cortou a cabeça de Carter de imediato, o sangue do homem manchando o rosto alvo da mulher japonesa.
Em seguida, a líder se levantou, jogando a cabeça decepada próxima de Rick Grimes, onde já jazia a língua de Carter e outros órgãos e membros decepados dos moradores degolados e desmembrados de Alexandria.
— Vamos levá-los para casa — Hashimoto ordenou ao seu Exército, que passou a se movimentar. Rick Grimes sentiu seu coração ribombar em seus ouvidos, atônito, sem saber como reagir... Até o momento que recebeu três coronhadas na nuca ao mesmo tempo.
Desmaiou.

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