Hunter's Instinct

46 Episódio 46 - All Along The Watchtower


Notas iniciais
Oiê, minha gente! Com um atraso de um curto dia, venho aqui com mais um "episódio" semanal de Hunter's Instinct... E já vou deixando meu aviso: SE VOCÊ NÃO VIU O 6x02, NÃO LEIA, POIS TEM SPOILERS! MUUUITOS SPOILERS! Temos um POV da Michonne, com a volta fatídica de Nicholas e de Aiyana para Alexandria, e uma conversa importante da espadachim com Carl. Depois, um POV da Mavelle, com bastante Davie, porque eu sei que vocês estão se sentindo maltratados com tantas mortes e tristezas, então é uma compensaçãozinha HAHAHAA! Brincadeira, é importante pra trama também... E também temos um POV da Peggy, ao final, que é dramático e tenso, mais uma vez... Se preparem, que é mais um capítulo de fortes emoções, com um final de tirar o fôlego! Espero que gostem! Dedico o capítulo às minhas lindas e meus lindos leitores que vão fazer ENEM nesse final de semana, pois lembro o quanto essa prova é um saco... Que a astúcia de dona Peletier e nosso xerife Grimes esteja com vocês, aí vocês vão gabaritar essa porra toda! Hahahaha! Agradeço aos leitores marcelammota, Harley Quinn, sami, Vivi Costa, Anna L, Giovana Catalani, Thaaty, Filho de Kivi e Luna Miller (flor, você comentou enquanto eu estava escrevendo esse capítulo, logo, logo, respondo seu review), meus queridos e amados leitores que comentaram no "episódio" passado. Como eu sempre digo, e sempre vou repetir... Hunter's Instinct só acontece por causa de vocês! Se não fosse seu apoio e seu estímulo, meus lindos... Jamais teria chegado tão longe! Acho que vão gostar do capítulo. Estou simplesmente AMANDO essa sexta temporada do seriado, espero que continue intensa assim do início ao fim! Beijão!

There are many here among us,
Who think that life is but a joke,
But you and i, we've been through that,
And this is not our fate,
So let stop talking falsely now,
The hour is getting late.

Bob Dylan — All Along the Watchtower



O fraco lume do lustre metros acima dos rostos ali reunidos tremeluziu, em um estalo crepitante. Ela levantou os olhos para mirá-lo, suas pálpebras já estreitadas pelas sobrancelhas ferrenhamente franzidas naquele momento.

Por pouco a sala da casa da governante de Alexandria não foi envolta pelo breu total, parcamente iluminada apenas por aquela lâmpada. Como se num presságio do que estava por vir... E por ser ouvido.

Michonne, em seguida, fitou o rosto daquela garota sentada em uma poltrona, um cobertor ao redor dos braços. Seus ombros e dedos tremiam, e ela tinha os grandes olhos castanhos perdidos em um ponto vago da parede. Nicholas, sentado ao seu lado, não aparentava emoções menos conturbadas do que as dela.

— Você está pronta para contar? — A espadachim viu Maggie perguntar para Peggy, que apenas balançou a cabeça em confirmação, bebendo um gole do chá que Annie preparara para ela.

A noite de outono, apesar do céu límpido e claro que revelava inúmeras estrelas, permanecia fria como as dos dias anteriores. Já estavam próximos dos meados finais da estação, e logo chegaria o inverno, quando seriam obrigados a se abrigar o máximo possível dentro de Alexandria para ter alguma chance de sobrevivência.

Mas, ao que tudo indicava, talvez a menor das hostilidades que teriam de enfrentar seria a rigidez da próxima estação.

Será que este lugar vai ficar de pé até então? Michonne questionou-se internamente, a cada dia mais preocupada com o futuro da comunidade. Naquela noite, quando ela, Rick e Morgan retornavam dos últimos preparativos para efetuar o plano que seria iniciado no dia seguinte, encontraram Peggy e Nicholas, sanguinolentos e maltrapilhos, se arrastando por uma estrada próxima de Alexandria.

Os dois pareciam fracos demais para caminhar, quanto mais para falar exatamente o que havia acontecido. Conseguiram informar apenas que Aiyana havia sido morta pelos Wolves, e que os dois haviam conseguido resistir e matar quatro deles, o bando que os cercara e mantivera o homem refém por muitos dias.

Naquele momento, reuniam-se dentro das paredes da casa de Deanna, junto a mandante do local e o restante do Comitê Político da comunidade. Peggy fora ferida por uma bala que atravessou de raspão sua cintura, sem furar nenhum órgão vital ou causar maiores danos. E, além dos hematomas e cortes que portava, Nicholas não parecia ter sofrido grandes sequelas.

Danos psicológicos, talvez.

— Precisamos do máximo de detalhes que conseguir dar. A situação é mais do que urgente, você entende — Rick presumiu, falando com a garota sem muito tato. Michonne o encarou, um pouco desagradada com o tom que ele usava.

A samurai compreendia que o peso que Grimes carregava em seus ombros beirasse o insuportável, mas justamente por isso era necessário que ele mantivesse a empatia e a sensibilidade. Não era o momento para conseguir a antipatia dos habitantes de Alexandria, que tanto precisavam dele, são e inteiro, capaz de liderá-los.

— Eu sei — Peggy respondeu, sua voz em um fiapo de som, porém mais firme do que Michonne imaginou que soaria. Annie sentou-se ao lado da menina, como se para lhe dar maior suporte. Peggy deu-lhe uma olhadela de soslaio, mas manteve o foco de seus orbes no ponto aleatório da parede.

A policial de Alexandria varreu os olhos pelo ambiente, estudando com atenção felina o rosto de cada um dos ali presentes. As duas mais recentes vítimas sobreviventes tinham o típico olhar oco de quem testemunhou alguma violência terrível. Annie Guinness, com seu jeito mais reservado, tentava evitar exibir qualquer preocupação, mas falhava. Rick, como nos últimos dias, revelava um frio esgotamento impaciente em seus olhos claros.

Deanna, como Michonne aflitivamente percebia pouco a pouco, parecia ter desistido de manter a postura assertiva que costumava ostentar pelos cantos de Alexandria. Tão quieta quanto Nicholas e Peggy, a líder parecia ela mesma ter sofrido o ataque dos Wolves.

Maggie, aparentemente, assumira o lugar dela, mostrando segurança e alguma positividade mesmo ante aquelas circunstâncias. A samurai se surpreendia ao ver o quanto a filha de Hershel amadurecera depois de tantas perdas. Depois da morte de seu pai e de Beth, Maggie Greene passara por um período silencioso de luto para, em Alexandria, despontar como uma das mais pragmáticas e diplomáticas sobreviventes do grupo de Rick Grimes.

Morgan, apesar de não ser um membro do Conselho, também estava presente. Como Michonne também aferira, era um sujeito observador, e parecia depositar a maior parte de sua atenção não nas duas vítimas recentes, mas em como Rick estava lidando com aquilo. Isso afligia a espadachim, pois percebia que Grimes nunca fora o tipo de sujeito que lidava bem com a pressão alheia.

Por fim, Michonne mirou o rosto que mais a sobressaltou: Moritz tinha uma espécie de sorriso triste na face. Uma daquelas expressões educadas que as pessoas fazem quando querem esconder o que realmente estavam sentindo. Mas os olhos daquele sujeito revelavam o que provavelmente se passava em seu exterior. O ex-palhaço estava arrasado, seu olhar ainda mais enevoado e distante do que os orbes deprimidos de Deanna Monroe.

Jamais vira aquele homem tão fragilizado assim.

A voz de Peggy, entretanto, logo a fez encarar o rosto da menina outra vez.

— Nós estávamos indo para a preparação da estrada. Para o local onde o grupo que Glenn coordenava montava a passagem para os carniceiros da pedreira desviarem de Alexandria. — Os olhos de Peggy sequer piscavam, pareciam estranhamente apagados. — Aya trabalhava lá. Eu queria ajudar — a garota falou, no mesmo tom monocórdio. Não parecia nem tentar se justificar.

— Acontece que eu fui na frente, sozinha. Aiyana tinha me seguido, e eu não tinha percebido. Ela me parou quando eu já tinha desviado bastante do caminho original. — Peggy apertou o chá com as duas mãos, e seus ombros tremeram um pouco.

— Ela falou que me levaria para lá. Mas que iríamos por um atalho. Fomos então contornar o abismo perto da pedreira, para alcançar o ponto do grupo que trabalhava com o Glenn. E foi lá que fomos cercadas. — A voz da garota pareceu entupir sua garganta, em um ruído rascante.

Nicholas finalmente se manifestou, ajudando-a a rememorar aqueles momentos difíceis.

— Eles me capturaram quando eu saí de Alexandria, por um momento. Estava... Estava me sentindo muito mal, e precisei ficar um pouco sozinho lá fora. — Michonne reparou que algo na voz de Nicholas não soava normal.

— Eles sabem que estamos aqui. Já sabem há tempos. Ouvi as conversas deles. Quando quase mataram Daryl e Aaron, ficaram com a mochila deles. Lá tinham nossas fotos, nossas coordenadas... Já tinham nos achado. Mas estão esperando a hora... A hora certa... De atacar — o homem finalizou, baixando o rosto ao chão, passando as mãos pelos cabelos curtos.

— O que eles fizeram com você? E o que fizeram com Aiyana? — Michonne viu que Rick Grimes perguntou, sem parecer se emocionar. Um pouco ao longe dele, Moritz, de braços cruzados, desviou o olhar para outro canto da sala. Parecia temer a resposta à última pergunta.

— Primeiro me torturaram. Queriam informações sobre quem mandava aqui. Como as coisas funcionavam. Se tínhamos armas, se éramos muitos. Mas eu fiquei... Eu fiquei tão apavorado que congelei. Como... Como se eu tivesse esquecido de tudo. Só pedia para me deixarem em paz. Não consegui falar nada, e chegou um momento em que eles passaram a me espancar, e... E tudo o mais, por algum tipo de diversão. E me usaram como isca... — Os olhos de Nicholas ficaram ainda mais vazios de luz e cor que os de Peggy.

— Dessa parte nós já sabemos. E Aiyana? — Rick perguntou, ainda nada sensibilizado. A samurai o encarou, incrédula com aquele tratamento. Os outros fizeram o mesmo.

— Eles iam estuprá-la — Peggy afirmou, sua voz monocórdia, firme, porém baixa. — Como iriam fazer comigo.

Michonne percebeu Moritz inspirando alto ao lado dela, como se a tristeza desse vazão a outra emoção mais pulsante. Raiva.

— Mandaram ela tirar a blusa. Ela tirou, e conseguiu distrair um deles a tempo de jogar uma adaga na garganta dele. Mas outro, um que tinha um fuzil, atirou nela. Morreu na hora — Peggy contou, esvaziada de emoção, de tanto sofrimento.

— Fez isso pra me salvar. Para que eu tivesse uma chance de fugir — assegurou a menina, e Michonne começou a se emocionar de verdade. Se tivesse mais intimidade com a garota, teria o instinto de abraçá-la, no fim daquilo.

— Eu consegui pegar a arma do homem que ela matou. Era uma peixeira. Só reagi. Cortei fora as mãos de um deles, o mais perto de mim. Nicholas também reagiu. Se soltou do sujeito que o segurava, roubou sua arma. No fim, nós matamos todos eles.

— Eu só matei um. Ela matou os outros três. Foi uma heroína — Nicholas asseverou. Parecia tão surpreso com a força e coragem de Peggy quanto Michonne e outros ali presentes estavam.

— Você não deveria ter saído sem permissão — disse Rick, olhando diretamente para Peggy. — Mas você também não deveria tê-la obrigado a ficar aqui. Se ela foi capaz de tudo isso, era uma adição mais do que necessária. Teria ajudado muito mais, e talvez evitado toda essa situação. — A samurai, incrédula, viu que o policial agora se dirigia a Annie, censurando-a pelas suas escolhas em relação a Peggy. Maggie e Moritz também o fitavam, o último mais do que ofendido pela completa falta de consideração com que levava aquele acontecimento com uma frieza digna de um sociopata.

— O que você pensa que está falando?! Quem é você para decidir... — Annie Guinness encarou o policial, subitamente chocada e repleta de ira.

— Chega. — A voz cortante de Deanna soou, finalmente. Alta, clara e fria.

— Esse infortúnio aconteceu por conta desse grupo que nos ronda lá fora. Esse tal grupo que se prepara para nos atacar, que poderia nos achar, algo que sabemos há tempos. Não há culpados nem heróis nessa história.

— Bem, o plano de Rick está pronto para ser completado. Amanhã já vão todos desviar os errantes da rota, certo? — Maggie perguntou, parecendo tentar amainar o ar hostil da sala. Passava nervosamente uma de suas mãos em sua barriga, acariciando-a como se protegesse instintivamente o bebê ali dentro.

— Sim — Michonne se pronunciou, andando para mais perto de Rick e o segurando discretamente pelo braço, por uma fração de segundo. — Os poucos grupos que faltam voltar do trabalho de hoje já terminaram os afazeres. Está tudo pronto. — A samurai deu um olhar sério e significativo para o policial. Controle-se. Michonne pensou, como se pudesse se comunicar telepaticamente com o pai de Carl.

— É horrível saber de tudo isso — a esposa de Glenn continuou e finalmente alguém mostrava a empatia necessária. — Vamos todos nos despedir de Aiyana hoje, mas acho que não precisamos mais expôr Peggy ou Nicholas, certo? — ela indagou, mirando os outros.

— Sim — Deanna confirmou, determinada. — Não precisamos causar mais tumulto.

— E como pretendem dizer que ela morreu? — questionou Moritz, ainda mais ferido e ofendido. — Não acho que alguém da idade dela faleça por causas naturais — debochou, ele mesmo irritado, sofrendo demais para mostrar mais raiva.

— Sabemos como ela era importante para você — Maggie continuou, encarando o sujeito com afabilidade. — E justamente por isso vamos honrar sua memória. Podemos dizer que...

— Vamos dizer a verdade — Rick cortou, decidido. — Precisamos que fiquem mesmo preocupados. Uma invasão pode acontecer a qualquer momento.

— Devo concordar — Michonne admitiu, ainda olhando o policial com cuidado. Alexandria acobertava mentiras demais, mentiras que não ajudaram a protegê-los de nada.

— É o mínimo — concordou Moritz, sua voz agora mais controlada.

— E como pretende conter o medo da população, Rick? Distribuindo mais armas nas mãos leigas deles? — Deanna encarou o policial, o sarcasmo evidente em suas palavras.

— Exatamente. Vai ver a diferença que elas farão quando tentarem derrubar esses muros — o xerife se voltou para a governante com alguma brusquidão. Michonne logo se moveu para perto dos dois, quase se interpondo entre eles.

— Eles estão preparados. Alexandria nunca esteve tão vigiada. Tão armada — Michonne asseverou à líder. — Eles vão chegar, uma hora ou outra. E é melhor que, quando cheguem, nós tenhamos armas apontadas para os muros — a samurai disse.

— Vamos dividir a população amanhã. Levaremos todos os estritamente necessários para que o plano funcione. Ficarão aqui os que puderem continuar de guarda, preparados para tudo — Rick expôs o raciocínio, encarando os outros membros de Alexandria na sala com mais calma.

Todos pareciam considerar aquela ideia, de fato mais realista e pragmática, por pior que parecesse.

— Acho que é a hora de decretar estado de emergência. — Peggy encarou diretamente Deanna, e depois Rick.

Ao fim daquela reunião, depois do funeral de Aiyana e dos avisos dados a toda Alexandria, que agora esperava em polvorosa pelos próximos acontecimentos, Michonne retornou à casa onde morava, seus pensamentos a mil.

Tentou dormir, mas não conseguiu, logo descendo à sala e encontrando Carl, na varanda acesa da entrada da casa. O garoto embalava uma ainda acordada Judith.

— Problemas para adormecer? — a samurai indagou, se aproximando do garoto.

Carl olhou para ela, um pouco surpreso, e confirmou com a cabeça.

— Você sabe... — Michonne respirou fundo, sentando-se do lado dele. Encarou-o por todo o tempo. — Estamos fazendo de tudo para encontrar a Enid.

— Não sei se ela está viva. Não é isso que mais me preocupa — falou Carl Grimes, mas a mulher percebeu que ele tentava disfarçar algo. O garoto desviava seus olhos para as árvores escurecidas pela noite, parecendo muito com o pai quando não admitia algo.

— Não vamos demorar amanhã. Voltaremos no máximo à tarde — garantiu a espadachim.

— Sei que vão voltar — disse ele, fingindo-se despreocupado.

— Carl... — Michonne tentou, mas o rapaz logo a cortou.

— Michonne, eu queria... Eu queria te pedir desculpas. Pelo que falei, semanas atrás. Foi errado. Você é uma ótima pessoa. Não mereceu... Não mereceu o que eu falei. — O menino a encarou, sério. Mais uma vez era o espelho de Rick, alguns anos mais novo.

Ela não pôde deixar de sorrir.

— Eu entendo você. Imagino que deva estar sendo difícil. Lidar com tudo isso, quero dizer — falou ela, apoiando o garoto. Carl ajeitou Judith no colo, embalando-a devagar.

— Sim. É uma merda — o filho de Rick falou, e logo olhou para a bebê em seus braços, contrito. — Por favor, que sua primeira palavra não seja esse palavrão.

Michonne deu uma risada legítima, e depois um curto apertão solidário no ombro do rapaz.

— Seu pai está fazendo tudo isso pensando em você. Posso te garantir que você não sai dos pensamentos dele, vinte e quatro horas por dia — asseverou ela, segura.

— Eu sei, não duvido disso... Eu só fico muito, muito frustrado... Por não poder fazer porra nenhuma — confidenciou o menino, soltando os ombros com uma expiração exausta.

Michonne segurou um de seus ombros repetidamente.

— Hey. Você faz. Seu pai está contando com você. Eu também estou. — Carl voltou seus olhos para os orbes escuros da mulher.

— Se algo desandar por aqui... A gente sabe que você vai dar conta. Você. Carol. Rosita. Aaron. Somos um time — acrescentou ela, sincera.

Carl continuou encarando-a por um tempo, até que enfim sorriu um sorriso discreto. Voltou seu rosto para a frente, desviando o olhar outra vez. Abraçou mais a irmã em seu colo.

— Obrigado.

— Não precisa agradecer. É apenas a verdade. — Michonne se levantou, dando um último apertão de despedida nos ombros do menino.

Era verdade? Sim, era.

Mas isso não significava que ela não estivesse apavorada com a ideia de deixar Carl sozinho para lidar com os Wolves.

*****

[NAQUELA MADRUGADA]

— Para de quicar pelos cantos, Esquila. — A voz de Daryl Dixon soou roufenha, embargada pelo cigarro que fumava. — Tente dormir um pouco — o arqueiro falou, soprando a fumaça para fora da janela parcialmente aberta daquela casa desabitada de Alexandria.

Mavelle olhava o próprio rosto refletido no espelho da penteadeira daquele quarto vazio. Seus olhos brilhavam, sem conseguir esconder a ansiedade e a preocupação que a consumiam por dentro.

Seminua, vestindo apenas uma calcinha, ela caminhou na direção de onde ele estava sentado. O caçador também tinha o corpo desnudado, sua nudez encoberta pelos lençóis da cama que fora protagonista de certos atos particulares dos dois naquela noite.

Não só pela urgência desejosa que tinham um pelo outro, mas também uma tentativa de conforto e apoio mútuo para os difíceis dias que viviam... E que estavam por vir.

Mavie quase se jogou na cama, esta encostada junto a parede, posicionada no espaldar de uma janela ampla. A meia-luz de uma lua cheia oscilava pelo quarto dos encontros secretos dos dois amantes, iluminando parcialmente a penumbra.

— Acho que fiz tudo errado — Berry confessava, aproximando seu corpo do corpo do arqueiro, que ainda não se movimentara. — Acho que fui dura demais com ela. Ela poderia ter morrido, poderia ter sido estu...

— E não morreu. E não foi. — Daryl expeliu a fumaça do cigarro, voltando seus olhos estreitos para encará-la. A irlandesa viu que sua expressão tornou-se menos rígida ao fitar os olhos dela.

— O que aconteceu hoje não foi culpa dela, nem sua. Nem da sua avó. Foi culpa desses malucos doentes que estão por aí — o caçador constatou, realista. — Não dá pra prever essas coisas. Às vezes não dá nem pra evitar. Só dá...

— ...Para se preparar para elas — Mavie completou o raciocínio dele, respirando fundo e escondendo seu rosto no braço esquerdo do arqueiro.

— Por isso precisamos desviar aquela caralhada de errantes da pedreira, amanhã. Para depois podermos nos preocupar só com esses filhos da puta. Eles vão querer retaliação, mais cedo ou mais tarde — Dixon admitiu, sua expressão séria quase indecifrável.

Mavie sentiu seus ombros tremerem. Logo em seguida, se afastou um pouco.

— Dorme — Daryl insistiu, como se falasse com uma criança teimosa.

— Eles não têm como saber do nosso plano, não é? Digo, se tinham Nicholas, e ele não sabia de nada... — a irlandesa continuou, angustiada.

— Não. E se fizerem qualquer coisa amanhã, vão se foder. Nós temos muitas armas. Do lado de dentro e do lado de fora. Estamos prontos — Dixon afirmou, mas Mavelle se perguntava o quanto ele era assertivo apenas para acalmá-la.

— Eu vou ter de deixar elas aqui dentro, Daryl. Enquanto estivermos... — Mavelle encarou o arqueiro, franzindo os lábios. Não queria chorar. Mas estava desesperada de medo pelo que poderia acontecer com Annie e Peggy enquanto ela, Daryl, Glenn, Nicholas, Heath, Becky, Rick, Michonne, Morgan, Billy Ray, Carter, Tobin, Sasha e Abraham efetuassem o final do plano e desviassem os carniceiros da estrada.

O caçador a abraçou, uma de suas mãos puxando o rosto dela para seu ombro, a outra a enlaçando.

— Vocês aguentaram muita merda na estrada. São duronas. Elas vão resistir — o arqueiro garantiu, enquanto Mavie o abraçava de volta. — Você precisa confiar nelas também — aconselhou ele, sussurrando aos ouvidos dela. Mavelle fechou os olhos, tentando só se focar na voz dele, no cheiro de seu pescoço, seus cabelos, seu corpo. Na troca de calores do abraço, de seus corpos entrelaçados.

— Por que tem de chegar amanhã? — Mavie ronronou, mordendo e beijando suavemente o queixo de Dixon, que já terminara o cigarro. Ele apertou o ombro direito dela, que se voltava de forma a ficar de frente para ele.

— Você tem que dormir — Daryl disse em tom de reprimenda, mas sorria enviesado. Não conseguia parar de encarar o corpo dela, tão exposto. Mavelle se sentiu suficientemente animada para dar mais um de seus sorrisos travessos, com o ar propositadamente infantil e libidinoso ao mesmo tempo.

— Você também — respondeu ela, enquanto descaradamente se ajeitava em cima das pernas do arqueiro, puxando os lençóis que o cobriam para longe.

O caçador desistiu. Agarrou a irlandesa para mais um beijo tórrido, impulsionando-a contra o colchão. Uma de suas mãos moveu-se para um seio dela, apertando-o e a fazendo gemer em um sopro lânguido. Ela puxou seus cabelos, propelindo seu rosto para beijá-lo outra vez, enquanto o arqueiro impelia-se para dentro dela, ambos igualmente esfaimados um pelo outro.

Mavie só conseguiu dormir naquela noite depois de encontrar prazer e conforto no corpo dele outra vez.

Na manhã seguinte, acordou com a alvorada. Mal tinha dormido, mas se sentiu mais relaxada do que se tivesse repousado por dez horas seguidas. Como era de praxe, Dixon não estava ali. Mavelle se levantou e se vestiu, pensando em qual dificuldade ele teria para não conseguir literalmente dormir ao lado dela, mas logo aqueles pensamentos foram distraídos de sua mente.

Para sua surpresa, assim que saiu as ruas da comunidade, viu que todos estavam prontos. Glenn, Heath, Becky e Nicholas armazenavam algumas armas no furgão, e logo Mavelle foi saudá-los. Todos mantinham as mesmas expressões sérias e preocupadas no rosto, e a mesma angústia da noite anterior voltou a incomodá-la.

Rick parecia dar as últimas diretrizes, confirmando se todos estavam prontos. Logo o grupo que sairia se encaminhou aos portões, os veículos já enfileirados na ordem arranjada. A garota morena olhou para os lados, buscando Annie e Peggy com os olhos, e logo as viu próximas da última casa da rua de entrada de Alexandria.

Mavie andou rápido até elas, prometendo que não demoraria nada a voltar. Certificou-se que as duas estavam bem armadas e lhes disse para que não hesitassem em se esconder e se defender caso algo acontecesse. Peggy parecia se esforçar para demonstrar estar mais firme do que realmente estava, e Annie em fingir que não tinha seu próprio coração partido de preocupação ao se despedir da neta.

— Tome cuidado, filhinha. Confio em você — Annie Guinness lhe disse aos seus ouvidos, e Mavie notou uma nota embargada na voz sempre determinada da avó. Berry sentiu vontade de chorar junto, mas se controlou.

— Vai dar tudo certo, vó — garantiu Mavelle, retribuindo o abraço e beijando o rosto dela. Em seguida, voltou-se para Peggy, puxando-a para um abraço forte antes que a menina se manifestasse.

— Confio em você também. Você é forte, eu sei — Mavie sussurrou aos ouvidos da menina, dando-lhe o incentivo e apoio que sabia que ela precisava, mesmo depois de todos os erros que a filha de Dakota cometera. A irlandesa jamais conseguiria deixar de perdoá-la. Também se afeiçoara demais àquela menina.

— Obrigada. Vamos te esperar — Peggy murmurou em retribuição, apertando Mavelle contra si.

As duas se separaram, e a garota irlandesa tinha algumas lágrimas aos olhos enquanto via os outros habitantes que sairiam se despedindo de seus entes queridos. Abraçou Tara em despedida, que tivera crises de desmaio por conta dos machucados em sua cabeça que voltaram a lhe atrapalhar. Ficaria em Alexandria com todos os remanescentes.

Assim, Mavelle foi até o furgão que Glenn dirigiria, onde se sentaria ao banco do lado do motorista, e se despediu de Maggie, que acabara de abraçar e beijar o marido.

Mavie olhou para trás, e viu que o último que restava havia chegado. Daryl se despedia de Carol e Carl, que tinha Judith nos braços. O coração de Mavelle acelerou, pensando em como ele reagiria. Se fingiria que não tinham nada, como estavam agindo até agora, na frente dos outros.

Mavie encostou-se no furgão, enquanto Spencer abria os portões de Alexandria. Billy Ray se despediu da garota loira, Rebecca, com um abraço carinhoso e demorado que surpreendeu Mavelle. Em seguida, o sulista do Alabama, Rick, Michonne e Morgan arrancavam no veículo que dirigiam. O caipira do Alabama mal lhe dera mais do que um olhar, o que na verdade fez a irlandesa se sentir aliviada.

O carro vermelho que Sasha dirigia saiu em seguida, com Abraham no carona. Os habitantes de Alexandria começavam a se dispersar, restando apenas Deanna e Spencer observando.

— Vamos? — Glenn chamou Mavie, entrando na porta do motorista, enquanto Becky subia no furgão em um dos bancos de trás.

Daryl parara próximo de sua moto, indeciso quanto a acelerar ou não. Mavelle soltou um suspiro entre a exasperação e o divertimento, e foi andando a passos largos até ele. Dixon teve apenas tempo de descer da motocicleta, quando Mavie lhe abriu um largo sorriso. Ela o enlaçou pelo pescoço, e o arqueiro mal teve tempo de segurá-la pela cintura quando ela o beijou em público pela primeira vez.

— Você tem a obrigação de voltar são e salvo, seu idiota — disse ela, encostando sua testa na dele. Sentiu seu rosto enrubescer, tolamente.

— Você também — o arqueiro retrucou, enquanto a irlandesa se afastava dele. Mavelle sorriu consigo mesma, andando até o furgão. Ouviu o som da moto de Daryl acelerando, no mesmo ritmo que seu coração batia, descompassado em seu peito.

A garota de dentes salientes abriu a porta ao lado da do motorista, e se deparou com uma cena no mínimo engraçada.

Becky encarava Glenn com uma sobrancelha levantada, que olhava para Heath, que por sua vez fitava Mavie, um pouco atônito. Nicholas, lá atrás, mantinha-se ainda arredio e assustado.

— Você me deve cinquenta pratas — Glenn falou para Heath, olhando para o banco de trás com um ar presunçoso. Depois encarou a garota de dentes grandes, fazendo um sinal de positivo com o polegar.

Mavie gargalhou com sinceridade.

Talvez ainda realmente restassem bons dias para eles.

*****

"Peggy, FOGE!"

A filha de Dakota lavou o rosto, se preparando para mais uma manhã. A imagem de Aya lançando a adaga que a salvara, matando o Wolf que quase assassinara Peggy... Não saía de sua mente.

Se fosse nos dias como eram antes, ela sairia da casa em que morava com Annie, Tara e Mavie e se dirigiria para a casa de Aiyana, onde a indígena já estaria acordada, provavelmente preparando algum chá esquisito ou biscoito de sabor diferente. As duas conversariam, Aya debocharia de Peggy, pegaria no seu pé, e as duas matariam mais uma aula. Treinariam arremessos à distância, conversariam, enfim, passariam o dia juntas, quando voltariam para a casa dos circenses. Ali, passariam mais tempo na companhia de Moritz, até o fim de mais um dia.

Mas isso não mais aconteceria. Aiyana morrera, como quase todas as pessoas que um dia foram importantes para Peggy.

Aya se fora, e levara consigo mais um pedaço do já maltrapilho, já espancado coração da menina. Sua melhor amiga morrera, mas morrera para salvá-la.

E era esse o motivo que fazia com que Peggy não se perdesse nos pensamentos tormentosos que tentavam lhe assombrar.

Ela morreu por minha culpa. A filha de Dakota sabia disso. Por mais que tentassem lhe proteger, dizendo que a culpa fora dos Wolves, a culpa fora daquele mundo horrendo em que viviam... Fora Peggy que, sem querer, atraíra Aya para sua morte certa. Se não fosse a indígena a morrer, teria sido ela em seu lugar. Como deveria ter sido.

E era justamente por isso que Peggy não mais se permitiria fraquejar. Estava em pedaços. Mais uma vez destroçada por dentro. Mas ela devia aquilo a Aiyana. Se olhasse para trás, se pensasse no que poderia ter sido... Se, mais uma vez, se deixasse ser arrastada até o fundo do poço... Ela não voltaria mais.

Não podia fazer isso. Não podia.

Por Aya.

Por Moritz.

Por si mesma.

Peggy jogou mais água em seu rosto, e conferiu a pistola que guardava em sua cintura. Tirou a munição e recarregou-a outra vez, vendo seu próprio reflexo no espelho, mirando a arma no vidro.

Estava preparada. Nenhuma pessoa querida para ela morreria outra vez. Ela não deixaria.

Morreria por eles, se fosse preciso.

Como Aya fizera por ela.

Peggy, determinada, desceu as escadas da casa, quase sem emoção em seu rosto. Seguiu até a casa dos circenses, abrindo a porta discretamente. Moritz talvez não estivesse. Poderia estar em alguma reunião com o Conselho, então ela aguardaria lá dentro, silenciosa. Sabia que ele precisava do apoio dela.

Peggy julgou ter ouvido algum som abafado. Seguiu até a cozinha, de onde vinha aquela espécie de ruído diferente. Pé ante pé, não fez barulho algum até chegar à porta.

Moritz estava sentado à mesa da cozinha, e chorava copiosamente. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, e diversas fotografias estavam espalhadas sobre a mesa. Todas elas do Circo Alvintzi. Em algumas delas, podia ver diversos membros do circo que ela não conhecera. Mas, na que Moritz segurava em suas mãos... Peggy o via enlaçando uma jovem moça pela cintura, de olhos e cabelos pretos, pele branquíssima, e roupas de bailarina. Do seu outro lado, estava Becky, com um collant de acrobata, brilhante. Ao lado da moça, via-se Aiyana, vestida com sua roupa de arremessadora de facas, e Tejas, munido de seu chicote de domador de animais.

Os olhos de Peggy instantaneamente marejaram com aquela cena. Ela se controlou para não ir correndo na direção do circense, caminhando rápido e finalmente revelando que estava ali.

— Ah, olá, querida — o ex-palhaço a saudou, tentando constrangido secar o rosto o mais rápido possível com as mangas de sua camisa social comprida. — Não vi que estava aí.

Peggy se aproximou e puxou uma cadeira para bem perto dele. Moritz apenas a encarou, enquanto ela se sentou e imediatamente o abraçou.

— Dói demais — a garota confidenciou, escondendo seu rosto nos ombros dele, que logo a abraçou de volta. Estavam praticamente sentados na mesma cadeira, dada a proximidade de seus assentos.

— Sim. Dói mesmo — o homem admitiu, enlaçando-a de volta, acariciando seus cabelos compridos. Peggy se permitiu deixar algumas lágrimas silenciosas caírem, ainda abraçada a ele, sentindo um conforto muito maior do que o que sentira quando recebera abraços consoladores de Annie, Mavelle e Tara.

Moritz deu-lhe um beijo carinhoso em seus cabelos, enquanto Peggy o abraçava ainda mais, apertando-se contra ele. Como se pudesse mudar o que acontecera fazendo aquilo, nem que fosse por uma fração de segundo.

Os dois assim ficaram por algum tempo, até que a menina se afastou, sentando-se mais composta. Moritz fez menção de arrastar a própria cadeira para longe para dar-lhe mais espaço, mas Peggy o impediu. Deitou a própria cabeça no ombro dele, encarando as fotografias.

— Quem é essa moça? — perguntou ela, apontando para a jovem mulher que Moritz enlaçava na foto que tinha nas mãos. Peggy manteve a cabeça recostada no ombro dele.

Ela reparou que o ex-palhaço pareceu respirar mais devagar. Ele soltou uma expiração um pouco alta, e falou:

— Minha esposa. Linda, alegre, viva... Até que tudo isso começou. Ela se foi bem no começo. Quando eu ainda não tinha percebido, quando estava muito preocupado em manter todos do circo seguros... Bem, ela... — Moritz parecia ter dificuldades para se expressar, algo muito incomum para o sujeito, sempre muito eloquente.

— Ela se matou? — indagou Peggy, aos poucos levantando a cabeça dos ombros dele.

— Sim — confirmou o ex-palhaço, passando os dedos pela testa. Parecia mesmo um assunto muito sensível para o outrora professor.

— Não foi culpa sua — falou a filha de Dakota, encarando-o. A proximidade física e emocional entre os dois, naquele momento, não lhe deixava incomodada. Muito pelo contrário. Era quase um bálsamo para sua alma atormentada.

— Não é uma questão de culpa, Sininho — falou Moritz, ajeitando uma madeixa do cabelo de Peggy atrás de sua orelha. — É só... É... É inconcebível, insuportável pensar que eu não pude fazer nada. Nada. Para evitar. É uma sensação de desamparo... Terrível — confessou o homem, os olhos novamente marejados, lançando um sorriso triste para as fotografias.

— Não podemos mais olhar para trás — afirmou a menina, compreendendo plenamente o que ele sentia. — Não dá mais. Devemos isso a eles — continuou Peggy. — E... Estamos juntos agora. — A garota segurou a mão do circense, que ele deixava em cima da mesa.

Os olhos dos dois se encontraram mais uma vez, em um segundo demorado.

Moritz entrelaçou seus dedos nos dela, abrindo um sorriso menos melancólico.

— Sim, estamos. Você é uma fadinha, mesmo — elogiou ele, com carinho. Moritz puxou a mão de Peggy que enlaçava, e beijou-a. Estavam muito próximos.

— Nada vai acontecer com você. Eu prometo — o homem garantiu, e, subitamente, ouviram um ruído agudo, alto, quase ensurdecedor.

O som de uma buzina contínua, junto a uma batida que fez o chão de Alexandria tremer.

Moritz reagiu antes de Peggy. Levantou-se de um salto da cadeira, retirando a pistola que tinha no bolso de sua calça, movendo-se de forma a proteger a garota com o próprio corpo. A filha de Dakota já havia sacado a própria pistola com silenciador acoplado, e viu, pela janela da cozinha, vultos pulando os muros próximos de Alexandria.

Munidos de machados e facões.

Peggy puxou Moritz pelo braço, apontando os invasores e empurrando-o para o chão. Os dois arrastaram-se pela cozinha, atentos, a adrenalina fluindo em seu sistema circulatório, enregelando seus músculos.

O ex-palhaço a guiou até a porta dos fundos, e sussurrou.

— Vamos para a enfermaria. Precisamos ajudar Annie — ele falou, com urgência. — Atire em qualquer um que lhe parecer suspeito. Apenas me siga. Se acontecer algo de errado, você se esconde. Promete? — Moritz olhou para Peggy, nervoso, aguardando sua resposta afirmativa.

A garota engoliu em seco.

— Peggy, promete? — perguntou ele, segurando o braço dela, sério. Não aceitaria resposta em contrário.

— Prometo — ela respondeu, incerta, mas foi o suficiente para o sujeito. O ex-palhaço abriu a porta dos fundos, e logo um homem desconhecido vestido com um casaco manchado de sangue moveu-se na direção dele, brandindo um machado. Peggy acertou um tiro em sua testa antes que Moritz sequer pudesse atirar. Ele a olhou com breve surpresa, e seguiu caminho.

Uma carnificina se dava nas ruas de Alexandria. A buzina horrenda parara de tocar, mas pessoas ensanguentadas corriam pelas ruas, cortando-se umas as outras, amarrando vítimas, e tiros zuniam pelos ares. Peggy e Moritz iam pelos fundos das casas, evitando os caminhos mais movimentados. Circundavam os muros, atentos a tudo, vendo ao longe um corpo queimando cair pela murada.

Logo, avistaram Aaron e Rosita, que seguiam mais adiante, indo na direção da casa de Deanna. Os dois sinalizaram à mulher de Abraham e ao recrutador, enquanto passavam por trás de outras casas, seguindo até a enfermaria.

Ao passarem pelas esquinas, viam novas imagens de chacinas e shows de horrores diversos. Uma criança fora abatida de sua bicicleta, e um invasor cortava seu corpo em vários pedaços, uma poça de sangue ao redor do corpo desmembrado. Peggy estourou a cabeça do assassino sem dó, com um tiro certeiro, no segundo que avistou aquela imagem.

Os dois já haviam chegado na esquina da enfermaria, enquanto iam matando às escondidas inúmeros desconhecidos sanguinolentos, quando o vidro de uma janela próxima se partiu e um corpo caiu em cima do ex-palhaço. Peggy mal teve tempo de mirar, quando o professor de filosofia e o desconhecido se atracaram. Contudo, o homem estranho viu Peggy.

Parou no meio do embate, arrancando a pistola da mão de Moritz, depois de ambos desferirem-se inúmeros socos um ao outro. O desconhecido se levantou, e Peggy viu um enorme "W" cicatrizado em sua testa.

— Abaixe a arma, gracinha — disse o Wolf, e, no mesmo momento, sua testa foi perfurada por uma bala. Seu sangue voou pelo ar, manchando a grama e parte do corpo de Moritz, que recuperava sua arma e se levantava.

Peggy voltou-se para trás, e quase atirou na figura que viu.

Uma pessoa vestia-se com um casaco preto e um lenço que cobria seu rosto, deixando apenas seus olhos à mostra, um W sangrento desenhado em sua testa.

A menina já tinha o dedo no gatilho quando reconheceu os olhos de Carol Peletier.

— Vão. Agora! — a mulher disse, nem sequer dando tempo a Peggy para agradecer por ter salvo sua vida. No segundo seguinte, já havia corrido, e a filha de Dakota ouviu o som do revólver dela disparando mais tiros distantes.

Depois de terem abatido alguns desconhecidos, a garota e o ex-palhaço enfim chegaram aos fundos do hospital improvisado de Alexandria. Entraram pela janela aberta. A porta estava trancada, talvez um bom sinal.

Moritz ajudou Peggy a saltar, e depois entrou. Seguiu na frente da garota, empunhando a arma por todo o tempo, até encontrar uma sala ocupada. Lá, Denise, Tara, Eugene e Annie estavam, junto aos corpos aparentemente sem vida de Holly e Tracy.

Peggy correu na direção de Annie, abraçando a avó de Mavelle. Moritz respirou fundo, parecendo um pouco aliviado, ainda não abaixando a guarda.

— O que está acontecendo lá fora? — indagou Eugene, angustiado.

— Agressores. Estão aqui — esclareceu Moritz, dizendo a todos para que se abaixassem e se mantivessem em silêncio. Ele, Peggy, Tara, Annie e Eugene se posicionaram de forma a manter as armas apontadas para a única entrada daquele quarto, aguardando. Denise, angustiada, fora medicada por Annie com um ansiolítico quando começara a ter um ataque de pânico.

O tempo se passou, demoradamente, até que ouviram o barulho de uma porta abrindo. Todos tinham os dedos prontos no gatilho, quando escutaram uma voz conhecida.

— Vencemos. — A voz de Carol Peletier se fazia ouvir por fora daquela ala hospitalar.

Notas finais
~ Gif resumo do capítulo: Michonne bolada, Carl amadurecendo (e sofrendo, coitado), Davie (como não amar, impossível apenas), ALEXANDRIA INVADIDA FERROU GALERA, Rosita e Aaron preocupados, CAROL DIVA ETERNA COMO EU AMO ESSA MULHER, #SEMPREFUIFÃ VOCÊS SABEM DISSO DESDE O COMEÇO DE HUNTER'S INSTINCT HAHAHAHAAH! E a imagem tensa da bicicleta no fim... ~ Aguardo suas opiniões, meus amados leitores! s2